Robert Duvall morreu aos 95 anos. E há atores que partem e deixam saudade; Duvall deixa silêncio. Um silêncio denso, respeitoso, quase militar, de quase nos pôr em sentido. Era um ator e um homem discreto, mas bastava-lhe entrar em cena, ajeitar o chapéu, olhar de lado e a câmera e o cinema alinhavam-se imediatamente.
Para muitos, será sempre o Tenente-Coronel Bill Kilgore de Apocalypse Now – O Apocalipse (1979), de Francis Ford Coppola. Onze minutos de ecrã. Repito: onze. E mesmo assim teve uma nomeação ao Oscar de Melhor Ator Secundário. Num filme que é um delírio febril sobre a guerra do Vietname, Duvall conseguiu ser o delírio dentro do delírio: comandante da Cavalaria Aérea, obcecado por surf, capaz de ordenar um ataque de helicópteros ao som da “Cavalgada das Valquírias” de Wagner como se estivesse a encenar uma ópera marcial em plena selva vietnamita.
E depois aquela frase: “Adoro o cheiro a napalm pela manhã.” Há atores que passam uma vida inteira à procura de uma linha de diálogo que fique para a história. Duvall encontrou-a e disse-a com uma serenidade quase poética. Kilgore não era apenas um militar excêntrico; era a personificação do absurdo americano em estado puro e daquela guerra perdida. E Duvall percebeu isso antes de todos.
Mas reduzi-lo a Kilgore seria injusto. Duvall era muito mais do que uma frase icónica. Em Mataram a Cotovia (1962), — a partir do bestseller de Harper Lee — surgia como o enigmático Boo Radley, praticamente sem palavras, mas com uma presença que marcou a infância de gerações. Depois veio a máfia e que máfia: Tom Hagen em O Padrinho (1972) e O Padrinho – Parte II (1974), Duvall era o consigliere frio, racional, quase paternal no meio do caos da família Corleone. Ao lado de Al Pacino e Marlon Brando, nunca precisou exagerar e de se pôr em bicos de pés. A sua força estava na sua contenção carisma, inteligência e num olhar que avaliava tudo num instante antes de agir.
Foi nomeado sete vezes ao Oscar e venceu uma, em 1984, como Melhor Ator por Tender Mercies – Amor e Compaixão, interpretando um cantor de música country a lutar contra o alcoolismo. Nada de tiros, nada de explosões. Só um homem partido a tentar reconstruir-se. E aí estava Duvall no seu território favorito: a dignidade ferida. A América rural. A redenção possível, mas nunca garantida.
Nascido a 5 de janeiro de 1931, filho de um oficial da Marinha, estudou teatro em Nova Iorque ao lado de Gene Hackman e Dustin Hoffman. Dividiram apartamentos, sonhos e, provavelmente, rendas em atraso. Foi dessa geração que reinventou Hollywood nos anos 70 a tal “Nova Hollywood” que trouxe complexidade moral, personagens ambíguas e realizadores com personalidade.
Participou em MASH (1970), foi protagonista do primeiro filme de George Lucas, THX 1138 (1971), brilhou em Network – Escândalo na TV (1976), em Um Homem Fora de Série (1984) com Robert Redford, atravessou os anos 90 com a mesma solidez com que outros se perdiam em excessos. E quando os grandes papéis principais rareavam, ele fazia dos secundários acontecimentos. Assim foi em toda a sua carreira.
Também realizou filmes: O Apóstolo (1997), que dirigiu e protagonizou, encarnou um pregador sulista em fuga depois de um crime passional. Voltou a ser nomeado ao Oscar. Era esse o seu talento raro: fazer-nos compreender homens moralmente ambíguos sem os absolver nem condenar. Mostrar a falha humana com respeito, aliás como em Os Indomáveis, que realizou em 2015.
Politicamente conservador durante décadas — algo raro em Hollywood — acabou por se afastar do Partido Republicano em 2014, quando curiosamente o presidente dos EUA, era um Democrata: Barack Obama. Mas nunca fez da política o centro da sua persona pública. O seu centro sempre foi o trabalho. O ofício, a construção paciente de personagens complexas e dúbias.
Duvall foi casado quatro vezes e não teve filhos. Talvez por isso tenha sido pai de tantas figuras masculinas complexas no ecrã. Militares, mafiosos, pregadores, atletas, velhos teimosos, homens à beira do colapso. Sempre com aquela mistura de vigor e subtileza. Um ator “vigoroso e subtil”, como lhe chamaram e é difícil encontrar melhor definição para o velho Robert, que durante anos parecia ter sempre a mesma idade.
O cinema americano perde hoje uma das suas últimas pontes vivas com os anos 70, essa década em que os filmes ainda cheiravam a risco. Duvall nunca foi vedeta no sentido mais espalhafatoso do termo. Não era escândalo, não era manchete constante. Era ator. Só isso. E isso, afinal, para ele era tudo. Fica-nos o Kilgore, de chapéu da cavalaria, a olhar o horizonte e as ondas do mar, enquanto as explosões ecoam ao longe e as Valquírias a dançar no céu. Fica-nos Tom Hagen, a ponderar cada palavra como se fosse um movimento estratégico. Fica-nos o cantor de Mercies – Amor e Compaixão, a tentar sobreviver ao próprio passado. E fica-nos uma lição simples: às vezes, para se ser imortal, bastam onze minutos desde que sejam ditos com convicção. Robert Duvall morreu aos 95 anos. Mas o cheiro a napalm, esse, continuará a pairar na memória do cinema.