Antes de ser uma personagem psicadélica interpretada por Timothée Chalamet em Marty Supreme, houve um Marty Reisman (1930-2012), real, magro como um alfinete, elegante como um dândi, viciado em apostas, truques, raquetes de lixa e memórias desavergonhadamente poéticas. Chamava-se Marty Reisman e acreditava piamente que um homem podia esculpir uma vida inteira — fortunas, desastres, mulheres, Globetrotters e notas de 100 dólares — com uma simples bola de ping-pong.
O início: um miúdo nervoso à mesa
Nova Iorque nos anos 40 e 50, onde o pingue-pongue não era desporto olímpico nem um entretenimento familiar de garagem, mas uma espécie de subcultura urbana com cheiro a fumo, perfume barato e apostas rápidas. Jogava-se em salões noturnos de Manhattan, como o lendário Lawrence’s, onde médicos, estudantes, atores e vigaristas partilhavam mesas, cervejas e pequenos golpes. Estou-me a lembrar do velho Salão de Jogos do Jardim Cinema na Avenida Álvares Cabral, em Lisboa. Não, não, em Nova Iorque devia ser muito diferente e mais barra pesada. E foi neste ecossistema suburbano que surgiu Marty Reisman, um jovem judeu nova-iorquino, bonito, magro, de óculos e com ataques de pânico desde os nove anos, um detalhe biográfico que, ironicamente, o empurra para a mesa de pingue-pongue. A ansiedade era neutralizada a golpes de direita e slices improvisados. “O jogo absorvia-me tanto que eu não tinha tempo para me preocupar”, escreve ele nas suas memórias: The Money Player: The confessions of America’s greatest table tennis champion and hustler (O Jogador de Dinheiro: As confissões do maior campeão de ténis de mesa e trapaceiro da América), uma autobiografia que inspirou o filme Marty Supreme.
O fascínio científico e a vontade de grandeza
O miúdo não via o pingue-pongue como passatempo. Para ele, era um cocktail de anatomia, química e física. Era também glória. Aliás, glória intelectual: queria ser “Einstein, Hemingway e Joe Louis numa só pessoa”, versão hardbat (raquete dura). Num jogo que a Europa e a Ásia já levavam a sério, isto fazia todo o sentido. Nos EUA, não. Lá dentro era hobby de cave suja e decadente. Mas Nova Iorque era a exceção: lá valia dinheiro e sobretudo apostas. E se há coisa que Marty adorava tanto quanto o jogo era o dinheiro.
Não o dinheiro burguês e respeitável. Sim: o dinheiro ganho à mesa, por aposta, por truque, por espetáculo. Era um hustler. Vivia “no espírito de gladiador” e nunca recusava uma aposta, da mais pequena à mais absurda. Aos 15 anos tentou apostar 500 dólares em si próprio num torneio, confundiu o presidente da federação com um bookie (agente de apostas) e quase foi preso. Tudo normal.
Elegância, mau comportamento e raquetes de lixa
Reisman era já um personagem quase cinematográfico muito antes do realizador nova-iorquino Josh Safdie lhe cheirar o mito. Vestia fatos impecáveis, chapéus Borsalino, óculos coloridos, gola alta e uma certa arrogância lúdica. Em 1949, no Campeonato Aberto de Inglaterra, ele e outro astro americano mudaram-se de um hotel modesto para um luxuoso (o Ritz no filme), acumularam despesas, mandaram a conta para a federação inglesa e recusaram-se a aparecer se não lhes pagassem. A federação pagou; depois baniu-os “indefinidamente”. Era isto Marty: irresponsável, charmoso, viciado em estilo e convicto de que o mundo devia dançar por ele.
O estilo prolongava-se à mesa de pingue-pongue: efeitos por baixo da perna, acrobacias atrás das costas, soprar a bola ao ar antes do golpe e — o truque icónico — partir um cigarro ao meio com um smash. Décadas mais tarde, faria isto em direto no Late Show, com David Letterman a comentar os ténis vermelhos que combinavam com a camisa.
Ciência, malandragem e talento
Mas Marty não era só “o bad boy do pingue-pongue”. Era também um sobrevivente do Lower East Side, filho de um taxista jogador compulsivo, criado entre hotéis decadentes e jantares roubados em casamentos alheios (entrava sem ser convidado, com terno impecável, comia, e ia jogar ping-pong até às quatro da manhã). O jogo dava-lhe três coisas essenciais: Dinheiro (às vezes muito, às vezes nenhum); Estrutura mental (contra a ansiedade); Identidade (Einstein emocional de raquete na mão). Era na verdade, um homem que precisava do jogo para existir. E que existia melhor quando havia alguém a apostar contra ele.
A tragédia tecnológica: o dia em que o esponjoso venceu
Todo herói precisa de adversário. O de Marty não foi um homem, mas uma inovação: a raquete de esponja japonesa. Quando Hiroji Satoh apareceu com aquele “monstro tecnológico” em 1952, o mundo mudou. A borracha esponjosa matava o som, escondia a rotação e transformava o jogo num híbrido misterioso. Para os americanos românticos do hardbat — que queriam ouvir o tac seco da raquete dura de madeira — aquilo era bruxaria. Para Marty, foi o princípio do fim competitivo. Ele não se adaptou: fez o que fazem os puristas sensíveis, retirou-se para a mitologia. Passou o resto da vida a contar, com brilho nos olhos, como a esponja tinha arruinado “o verdadeiro jogo”.
Entre Globetrotters, milionários e ex-milionários
Retirar-se do mais alto nível competitivo, não significou recuar. Marty virou empresário, dono de clube, estrela de salão, viajante de tournée com os Harlem Globetrotters, milionário e, em seguida, ex-milionário. Comprou o Riverside Table Tennis Club, frequentado por Dustin Hoffman, Kurt Vonnegut e violinistas da Metropolitan Opera. Instalou um circuito fechado para o público ver da rua. Era um cabaret com raquetes. E era perfeito. Depois investiu em restaurantes chineses. Perdeu dinheiro. Recuperou. Perdeu outra vez. Foi 3 vezes milionário e 3 vezes ex-milionário, o que de facto é muito mais literário do que ser só milionário.
A obsessão do mito
Se há um conceito que une tudo é este: Marty Reisman não queria só ganhar. Queria ser mito. Tinha orgulho em si próprio ao ponto da megalomania poética. Media a rede com notas de 100 dólares, podia usar uma de 1 dólar, mas isso seria “chintzy” (foleiro). Flertou com mulheres até aos 80, citava Shakespeare na rua, ensinava netos a dizer “a comida é requintada” em restaurantes caros e falava sobre si como quem fala de um herói perdido de um épico grego em versão 50s. Adorava dizer que o pingue-pongue era como o show business. Adorava ainda mais comportar-se como se fosse uma espécie de Frank Sinatra com uma raquete na mão.
Do mito ao filme: entra Chalamet
Décadas depois, Josh Safdie é fisgado pelo livro The Money Player e descobriu ali tudo o que faz cinema ferver: obsessão, masculinidade disfuncional, identidade judaica, humor negro, violência emocional, glamour decadente, ascensão e queda. Timothée Chalamet aceitou o papel porque olhou para a capa do livro e disse: “Este tipo parece-se comigo”. E parece mesmo: magro, nervoso, sedento de grandeza, bonito de uma maneira estranha. O filme não usa o nome “Reisman”. Não precisa. Não quer ser uma cine-biografia. Quer ser uma homenagem. Quer transformar um mito de nicho numa febre cultural e faz isso à Hollywood: com Londres, com sobreviventes do Holocausto, com estrelas de cinema amarguradas e com jogos transformados em ópera visual. É o sonho de Marty: finalmente, o mundo está a jogar com ele e não ao contrário. É isto o mito: algo que continuamos a ouvir muito depois do fim. E no caso dele, o som é o de um tac seco de uma bola dura numa hardbat (raquete) de lixa. É o som que ele queria que nunca desaparecesse. É o som da vida dele.