Nos anos 80, eu estava completamente imerso na música contemporânea. Discípulo de Jorge Peixinho e Álvaro Salazar, como contrabaixista procurava no Jazz um território que me permitisse fugas ao cerco académico. A Grande Música Negra, o R&B e o Funk, chegava-me pelos meus irmãos mais velhos, pelos amigos e pelas ecléticas e atentas rádios de então. Nunca tendo sido homem da noite, ainda que tivesse explorado bares em discotecas do Porto, não podia ficar alheio ao que os DJ’s escolhiam para encher as pistas de dança: bom Rock-Canção, entoado em uníssono pela turba já descontraída, BeeGees, Gloria Gaynor, Aretha Franklin, e, claro, o trunfo guardado para a apoteose dionisíaca, James Brown.
E, de repente, à exceção do mundo sempre fechado da academia, tudo mudou com uma canção: Purple Rain invadia clubes, pistas, rádios, bailes, festas, raves, namoros privados e públicas celebrações. Nunca, talvez à excepção da abertura de Tristão e Isolda de Wagner, uma só música terá somado tantos orgasmos, sendo ela própria uma construção de conquista, suor e desmaio. Prince tinha chegado. Primeiro, sob a forma desta canção que cresce numa dinâmica que se desapercebe, que se transmuta de poderosa balada de estúdio em catártico solo de guitarra ao vivo, desfazendo-se, finalmente, num eloquente silêncio de cordas. Seguidamente, como hábil reintrodutor do Funk nas rádios e, consequentemente, na esfera do grande público. Quem compõe assim sabe ao que vem, merece destaque e toda a atenção. E assim aconteceu. Prince tornou-se, repetidamente, disco após disco, num líder de vendas, de tops, de air-play, autor de hinos, mestre de cerimónias em estádios lotados, visionário, guru de moda, de dança, na maneira singularíssima de tocar, de compor, de escrever, de cantar, e, acima de tudo, num músico global respeitado e aclamado pelo público e pelos pares.
Corriam os loucos anos 80, uma euforia de festa varria Europa e Estados Unidos, fruto de um crescimento económico aparentemente imparável, a sida ainda longe da hecatombe que viria a ser, e celebrava-se, na cena noturna das urbes ocidentais, um novo ímpeto hedonista que viria a ser ainda mais incendiado por músicas como Kiss, Under The Cherry Moon ou Girls&Boys (Parade, 1986).
Já em discos anteriores, Prince tinha demonstrado uma rara capacidade de escrever e compor. Desde For You, o seu primeiro álbum de originais em 1978, onde toca e executa todos os instrumentos, quase todos os anos ele lançava um novo trabalho de originais, por vezes duplo, até mesmo triplo. Não é de admirar, portanto, que canções como Jack U Off (do ábum Controversy, 81), 1999 (1999, 1983), When Doves Cry (Purple Rain, 1984), Come (Come, 1994), tenham entrado directamente no cancioneiro Pop colectivo, e anunciado uma miríade de êxitos que ele viria a conceber, entronizando-o, definitivamente, como um dos mais capazes e interessantes Músicos do século.
Prince era algo realmente novo, sendo que ninguém o é, efectivamente, sem o silencioso diálogo entre aprendizagem e interioridade, acrescentando à sua própria narrativa a síntese do melhor Funk, da Soul e do R&B – assim demonstrando um conhecimento e respeito pela história das músicas que o precederam. Ciente do poder encantatório do balanço, do groove, ele produzia uma engrenagem que articulava bateria, baixo e guitarra numa repetição hipnótica, numa mecânica de acordes, de arranjos minimalistas mutuamente encaixados – caminho que James Brown tinha deixado aberto -, construindo uma teia de rigor que explodia inevitavelmente em força, poder e lirismo. A isto, somava letras explícitas e uma voz que havia de se tornar, à sua própria imagem, iconográfica. Por fim, o som: timbres sintéticos a empurrar, até ao limite, músicos e máquinas, linhas de baixo, bombos, tarolas e guitarras com reverbs e delays resgatados aos anos 70, periféricos vintage, e muita, muita atitude. O Minneapolis Sound, como seria chamado, foi talvez a sua mais completa criação. Seria escola, sebenta, referência e catálogo para aprendizes de feiticeiro em todo o mundo. Eu incluído.
Foi a qualidade musical imensa de Prince que me arrancou ao Jazz e à tirania aborrecida do dodecafonismo serial. As suas múltiplas personalidades musicais, o seu ímpeto criativo, a capacidade de, como autor, mesmerizar audiências inteiras e liderar complexos grupos – The Time, The Revolution, New Power Generation -, somada à sua enigmática e fugidia figura, faziam-no, aos meus olhos e ouvidos de músico menor em busca de sentido, um caso demasiado complexo e completo para não analisar com a atenção que havia dedicado a Webern ou a Zappa.
Por essa altura, eu era professor em diversas escolas. Acabara de fundar a Escola de Jazz do Porto, terreno utilíssimo para lançar-me na experimentação de arranjos e direcção da Orquestra, dava aulas de combo, harmonia e contrabaixo, e tinha os meus pequenos grupos que atuavam na então agitada cena musical nocturna, por todo o País. A complementar tudo isto, comecei a ser solicitado para gerir bares em discotecas, tarefa que nunca me agradou muito mas que me permitiu estar atento ao eterno fenómeno da ligação da música à noite, ao que funcionava nas pistas, ao trabalho dos DJ’s, ao papel da música de dança quando cruzada com a Pop ou o Rock.
Os Bandemónio chamavam-se ainda Máquina do Som, e o que viria a ser o meu primeiro disco, Viagens (1994), era escrito, composto e produzido na cave da minha casa na Rua do Heroismo, 235, bem no centro do Porto.
Foi da intersecção destes cenários de puto-branco-burguês do Porto com a negritude do mítico Funk de Minneapolis, que me propus convidar o saxofonista Maceo Parker, homem que foi esteio de James Brown em palco e em estúdio durante 40 anos, a vir gravar nesse meu primeiro trabalho, ainda em pré-produção, o que veio efectivamente a acontecer. Durante mais de um ano, contei com ele em gravações e na digressão que desaguaria, em novembro de 1994, nos Coliseus do Porto e de Lisboa. Não era o Prince, mas estava a aproximar-me. Uma nota: Curiosamente, ou talvez não, Maceo havia de passar a ser, a partir de 2003, o saxofonista de Prince, tendo assim permanecido até ao trágico desaparecimento deste último.
À minha escala, embalado pelo sucesso alcançado pelo Viagens, propus-me trabalhar com o Homem de Minneapolis. Estávamos em 1995 e a internet titubeava ainda. Escrevi então uma carta para Paisley Park, dirigida a Prince, à qual juntei despudoradamente gravações dos meus trabalhos em estúdio e ao vivo. A resposta veio pelo telefone. Do outro lado, Tom Tucker, engenheiro chefe dos estúdios de Prince no complexo de Paisley Park, Chanassen, arredores de Minneapolis: que sim, que teriam todo o gosto em me receber nos estúdios para gravar, muito grato pelas músicas, adeus. Assim iniciámos um rápido processo negocial, e uma estreita amizade, que havia de me levar, juntamente com Mário Barreiros, talentoso multi-instrumentista e então co-produtor dos meus discos, até ao Minnesota.
O acordo incluía gravar com Tom Tucker enquanto engenheiro e com os New Power Generation, não enquanto grupo assumido mas sim somatório de todos os seus músicos por forma a produzir ‘aquele’ som. Assim, havia de surgir o meu segundo disco, Tempo (1996), um cruzamento inusitado entre a Rua do Heroísmo, 235, e a baixa de Minneapolis.
Contudo, nunca cheguei a trabalhar directamente com Prince nem a gravar no Paisley Park como tanto desejaramos. Ainda antes de embarcar, sabíamos já que havia problemas em Paisley Park e que, apesar de todos os músicos e técnicos estarem disponíveis para a gravação, teríamos que utilizar um outro estúdio em Minneapolis, o Oarfin Studio. Assim, o Mário e eu, o Tom Tucker, o Paul Peterson, o Ricky Peterson, o Michael B. Nelson, o David Strand, a Kathy Holmes, o Kenny e o Kirk Johnson, ali passámos uma semana em intensas gravações que se haviam de estender ao House of Blues, em Memphis, com o Ozzie Melendez.
A notícia de que algo estava mal em Paisley Park parecia deixar um desconforto em todo aquele grupo. Os estúdios estavam, de facto, fechados por ordem de Prince. Finalmente, numa quinta-feira de manhã, guiados por Tom Tucker, foi-nos concedida autorização para entrar em Paisley Park: uma esbranquiçada estrutura exterior, do tipo industrial, escondia quatro estúdios topo de gama, múltiplas regies impecavelmente apetrechadas e um estúdio de TV usado apenas para gravação dos videoclips e filmes de Prince. Elegantemente atapetado de púrpura, a letra integral de Purple Rain, bordada na alcatifa, sobressaía num dourado reluzente que não apetecia pisar. No piso superior, aposentos pessoais, escritório, salas de conceção de guarda roupa. Por todo o lado, transbordava a reminiscência da música que ali tinha sido gravada, escrita, composta e celebrada: troféus, múltiplos discos de platina, estatuetas, fotos, capas de discos, tudo remetia para os então 15 anos de êxitos e míticas canções. Numa das regies, ardia ainda o incenso. Um cheiro de presença que se ausentara. O microfone AKG C-12, colocado numa ‘girafa’ por sobre a mesa de mistura Neeve, fazia adivinhar uma gravação em curso, temporariamente suspensa por razões que desconhecíamos. Por detrás, sobre as racks de outboard, uma fotografia emoldurada do pai de Prince. As guitarras roxas, amarelas, cravejadas de brilhantes, ou simples Fenders e Les Paul, estavam convenientemente dispostas no centro da sala grande. E, curiosamente, também um pequeno parque infantil em gradeado de madeira, com alguns brinquedos, um acolchoado e um móbil. E no entanto era o silêncio. Esse ensurdecer silêncio que, ainda hoje, ecoa por dentro. Nem uma nota de música, nem um acorde, um harmónico que fosse, soava de todas aquelas divisões inteiras, cheias de instrumentos, de História, e vazias de som. Nada. Até o móbil parado, geralmente anúncio de alegria, sublinhava aquele silêncio, quase tumular, de um mausoléu abandonado à pressa.
Viria a saber que a razão pela qual os estúdios estavam fechados: era a gravidez frágil da sua mulher, Maitë. Nos dias subsequentes, Prince e Maitë iriam chorar a morte prematura do seu recém-nascido. Às vezes, o silêncio é a mais pura das músicas e, certamente, a melhor forma de expressão de dor.
Hoje, é por Prince que eu choro, pela perda irreparável de um homem provavelmente muito só, com tanto para dar e a quem tanto faltou. Talvez o amor de um filho o tivesse resgatado a esta estúpida e prematura morte. Imagino o silêncio, hoje, em Paisley Park. Consigo ouvi-lo daqui. O Príncipe morreu. Viva Prince!

Tom Tucker (na imagem, ao lado do cantor e do produtor Mário Barreiros), engenheiro chefe dos estúdios de Prince, disse que sim. A comitiva seguiu para os EUA, e daí surgiu o segundo disco, Tempo (1996), “um cruzamento inusitado entre a Rua do Heroísmo, 235, e a baixa de Minneapolis
DR