1. Eles Pensavam que Eram Livres
Milton Mayer

“Como americano, a ascensão do nacional-socialismo na Alemanha causou-me repugnância; como americano de ascendência alemã, encheu-me de vergonha; como judeu, deixou-me destroçado; como jornalista, senti-me fascinado”, escreveu Milton Mayer, em 1954, contextualizando o trabalho a que se propôs, carregando todas essas identidades, mas privilegiando o impulso, as regras e o entusiasmo dados pela sua profissão. No livro Eles Pensavam que Eram Livres – Os Alemães 1933-1945, o jornalista queria perceber melhor, através de conversas com alemães comuns, o fenómeno do nazismo e o modo como conquistou tantos alemães (“Era um movimento de massas e não a tirania imposta a milhões de cidadãos indefesos por uns quantos indivíduos diabólicos”, escreve). Para cumprir esse objetivo esperou algum tempo, mas não demasiado, e sete anos depois do fim da II Guerra Mundial entrevistou longamente dez alemães com percursos muito diversos (um polícia, desempregados, um estudante, um alfaiate, um professor…) e que, de algum modo, foram próximos desse “movimento de massas”. O livro tem uma dedicatória: “Aos meus dez amigos nazis”, seguindo-se o nome e a profissão de cada um. “Como foi possível?”, parece ser a pergunta na base de toda esta pesquisa. E se dermos por nós a pensar como este trabalho com mais de 70 anos pode ter bastante atualidade, ficaremos (ainda) mais inquietos ao ler as próprias palavras de Mayer, escritas na época: “Regressei a casa algo receoso pelo meu país [EUA], com medo daquilo que ele pudesse desejar, alcançar e apreciar, pressionado pela realidade e a ilusão. Parecia-me – e ainda me parece – que não conhecera o Homem Alemão, mas o Homem, simplesmente.” Pedro Dias de Almeida. Tinta-da-China, 400 págs., €23,90
2. Herança
Harvey Whitehouse

O que podemos aprender com as sociedades mais antigas, aquela das quais, até, não há registo escrito? O que pode sugerir-nos a antropologia para a construção de um mundo dinâmico? São estas as duas grandes perguntas que percorrem o ensaio de Harvey Whitehouse, professor da Universidade de Oxford. Um olhar para o passado que se suporta em várias disciplinas e na capacidade que hoje temos de analisar grandes dados (com a ajuda da informática). É assim que se definem condicionantes da evolução coletiva – o conformismo, a religiosidade e o tribalismo –, ao mesmo tempo que se equaciona de que forma essas características sociais inatas podem jogar a nosso favor. Temas e Debates, 424 págs., €22,20
3. Quatro Personagens à Procura de Abril
Luís Reis Torgal

Estamos em abril de 2025 e é óbvio que ainda há muitas histórias por contar e aprofundar sobre um outro célebre abril, que aconteceu há 51 anos. O historiador Luís Reis Torgal assume no “prefácio ou posfácio” que este livro de História é, também, “de memórias”. Está organizado em torno de quatro figuras, “personagens reais mas simbólicas com que o autor contactou como leitor, como cidadão ou como militar”: o escritor Luís de Sttau Monteiro (1923-1993), o político e dinamizador cultural Joaquim Santos Simões (1923-2004), o padre Mário de Oliveira (1937-2022) e o militar Carlos Fabião (1930-2006). Lendo um historiador que escreve na primeira pessoa, temos uma visão singular do período revolucionário. P.D.A. Temas e Debates, 264 págs., €18,80
4. SPQR
Mary Beard

Professora da Universidade de Cambridge, Mary Beard é uma das grandes classicistas do nosso tempo, com uma obra vasta que não se limita a recuperar o passado, mas que define inúmeras pontes com a atualidade, como é o caso dos volumes Civilizações e Doze Césares. Depois de ter lançado Imperador de Roma, a editora Crítica recupera SPQR, que teve a sua primeira edição portuguesa há dez anos. É um dos seus estudos mais consagrados, uma visão global da evolução da História de Roma, desde a sua fundação ao seu legado, que ainda hoje influencia a sociedade contemporânea. Para a especialista, “Roma ainda ajuda a definir a maneira como compreendemos o nosso mundo e como pensamos acerca de nós mesmos, das teorias mais complexas à comédia mais simples. Após 2 000 anos, continua a escorar a cultura e a política ocidentais, o que escrevemos e como vemos o mundo e o lugar que nele ocupamos”. Crítica, 584 págs., €23,90
5. Scotland Yard
Simon Read

No cinema, nos romances e na música, a Scotland Yard, sede da Polícia Metropolitana de Londres, alcançou um estatuto mítico. “[Ela] faz parte do nosso tecido cultural, é uma ligação entre a História e a cultura pop”, defende Simon Read. “A obsessão atual pelos casos reais deve-se, em grande parte, aos primeiros casos da Yard, à cobertura sensacionalista levada a cabo pela imprensa, aos relatos pormenorizados dos processos penais e à glorificação dos detetives.” É todo esse processo que o jornalista norte-americano apresenta nesta história dos assassínios mais infames investigados pela polícia de Londres entre os inícios dos séculos XIX e XX. Read cita notícias de jornais, transcrições de julgamentos e depoimentos dos polícias para mostrar a construção da investigação criminal e, em particular, a ciência forense e o perfil do assassino. Casa das Letras, 592 págs., €26,90
6. Humano, Demasiado Humano
Neil D. Lawrence

Eis uma boa pergunta: “O que nos torna únicos na era da Inteligência Artificial (IA)?” Num mundo de computadores, de ferramentas que facilitam toda e qualquer tarefa, incluindo as criativas, a pergunta colocada por Neil D. Lawrence torna-se ainda mais pertinente. Mas o professor de Cambridge não se limita a colocá-la, ensaia uma resposta, no que podemos considerar uma história do presente que estamos a viver. Também não é um cético, nem um pessimista, ou não liderasse ele a área de IA da sua universidade. É por isso uma reflexão pessoal, uma “filosofia fragmentada”, que percorre várias etapas que nos conduziram até onde estamos, da mesma forma que define o que pode, no futuro, fazer a diferença. Como isto: “Precisamos de trabalhar com as máquinas de uma maneira que nos permita manter a autoria informada de quem somos.” Gradiva, 504 págs., €26,50
7. As Cleópatras
Lloyd Llewellyn-Jones

Entre o muito que se sabe (e se inventa) sobre Cleópatra, a poderosa rainha do Egito, aquela que seduziu dois dos mais relevantes homens da História de Roma, Júlio César e Marco António, eternizada (e denegrida) por poetas e dramaturgos, há um número poucas vezes mencionado: o VII. Cleópatra, a amada e odiada monarca do Egipto, de terras sem fim e ricos cereais, foi a sétima de uma dinastia de rainhas, a maior parte consorte, e o derradeiro nome do Egito governado pelos Ptolomeus. Grande especialista em História Antiga, Lloyd Llewellyn-Jones, da Universidade de Cardiff, no País de Gales, apresenta um retrato inédito dessas mulheres, todas excecionais, umas mais do que outras, como sempre sucede, mas que por vários motivos se destacaram no seu tempo. Além de ser uma outra forma de contar os últimos anos do Império Egípcio, antes de dar lugar à dominação romana, este também é um olhar para o poder exercido pelas mulheres, área de estudos que tem ganhado importância nos últimos anos. Desde o tempo de Hatshepsut, que se fizera representar em moldes masculinos, muito mudara no reino do Nilo. E para lá da lenda, muitas vezes negra, a própria Cleópatra foi uma governante quase sempre positiva, mesmo quando cometeu os seus erros e desvios, em particular o de se envolver nas fações da guerra civil romana. Por fim, ler estas biografias reais é descobrir ainda o mosaico de que o Crescente Fértil era feito, em verdadeiros (e estimulantes) encontros (e choques) culturais. Bertrand, 408 págs., €22,20