
Todos os Contos, Clarice Lispector
“Um Tchékov feminino nas praias de Guanabara.” Epitáfio difícil de suplantar, o da última linha de introdução escrita por Benjamin Moser, biógrafo de Clarice Lispector (1920-1977) e editor do presentre volume. Mas este é um daqueles casos em que não se ignora as ribombantes salvas disparadas na contracapa. A poeta Elizabeth Bishop a proclamar que Lispector é “melhor do que Borges”? Colm Tóibín a ascendê-la ao mesmo panteão de Pessoa? As décadas correm como o rio de Heraclito, e Clarice é sinónimo de fascínio – uma feiticeira, retifica Moser.
A escritora de origem ucraniana, emigrante transfigurada em esposa de diplomata, eterna estrangeira no calçadão brasileiro e nas livrarias do seu tempo, libertou, aos 23 anos, um livro-fera, Perto do Coração Selvagem (1943). Ouvido o “coração selvagem” da sua linguagem desassombrada, não era possível fazer de conta que tudo continuava na mesma. Todos os Contos devolve essa mesma certeza, a da alienígena literária dotada de afiados instrumentos que escancaravam emoções – suas e dos outros, e das mulheres. Fossem as paixões ou as irritações, as pregas do quotidiano ou dos vestidos.
Ficamos nessa corda bamba, descrita em Começos de uma Fortuna: “O coração batia como um punho.” “Parte da estranha gramática de Lispector pode remontar à poderosa influência do misticismo judaico, no qual foi iniciada pelo pai. Mas outra parte dessa singularidade pode ser atribuída à sua necessidade de inventar uma tradição”, escreve Moser. Faz-se, aqui, uma grande viagem cronológica, do primeiro conto, O Triunfo, escrito aos 19 anos, passando por textos desconsiderados, o núcleo Laços de Família antes separado em livro independente, até chegar aos últimos escritos quebrados, incompletos. Textos que revelam a sua vida e envelhecimento. Ou uma proximidade ao silêncio da noite na montanha, em Silêncio: “Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia dentro de nós.”
Todos os Contos (Relógio D’Água, 552 págs., €22) inclui um dos contos, Cartas a Hermengardo, descoberto pelo próprio Benjamim Moser, escondido num arquivo.

A Invenção da Natureza, Andrea Wulf
A escalada fez-se através de carreiro íngreme com cinco centímetros de largura, rente a um penhasco de 300 metros, numa atmosfera rarefeita em que nem plantas, insetos ou outro sinal de vida orgânica pulsava, e era o caminho escolhido para ascender ao vulcão Chimborazo, localizado nos Andes, a quase 6400 metros de altitude – a montanha mais alta do mundo, acreditava-se em 1802. É assim que Alexander Von Humboldt (1769-1859) encontrará a sua epifania: “Enquanto estava de pé no topo do mundo, olhando lá em baixo as cordilheiras enrugadas, Humboldt começou a ver o mundo de forma diferente. Viu a terra como um grande organismo vivo, em que tudo estava ligado, concebendo uma ousada nova visão da natureza, que continua a influenciar a forma como compreendemos o mundo natural.”
Nascido na Prússia, Alexander Von Humboldt é, defende a biógrafa, “o” grande cientista injustamente esquecido, apesar de centenas de espécies e fenómenos naturais batizados com o seu nome. Aquele que primeiro assinalou e previu as alterações climáticas futuras provocadas pelos humanos, e que contribuiu para o estudo das espécies e para uma teoria da conservação da natureza, hoje tão l’air du temps. É o mesmo homem que inventou as linhas isotérmicas (as linhas da temperatura e da pressão atmosférica, encontradas nos mapas meteorológicos atuais) e descobriu o equador magnético. “Ele queria suscitar o amor pela natureza”, sublinha Andrea Wulf, que não economiza na amplitude da sua sombra. A revolução de Simão Bolívar? Foi influenciada pelas suas ideias. Darwin? Embarcou a bordo do Beagle por causa dele. “Os livros, os diários e as [mais de 50 mil] cartas revelam um visionário.” A escrita deste tomo é apaixonada, bem documentada, sensível ao colorido das selvas e do dramatismo do perigo – como se o género biográfico pudesse ser uma aventura de Emílio Salgari. Humboldt é um herói à medida: um iluminista que gostava da corte, um curioso incansável, um ávido explorador e viajante, que começou numa expedição de cinco anos à América Latina. Inspirador.
A Invenção da Natureza – As Aventuras de Alexander Von Humboldt, o herói esquecido da ciência (Temas e Debates, 568 págs., €22,20) foi o livro vencedor do Costa Biography Award 2015.

Histórias Curtas, Rubem Fonseca
Ah, estes tipos inesquecíveis. Ou serão o mesmo bicho? Histórias Curtas (Sextante, 168 págs., €14,40) é um desfile de gente na primeira pessoa, transformando-nos em psicanalistas ou barmen: ambos já ouviram tudo. Assassinos-jardineiros dedicados, amantes que desdenham filosofia, gorduchos a caírem de edifícios ou a afundarem-se nos olhos da amada, tudo isto é servido com linguagem enxuta, ironia, e sem misericórdia, nos 38 contos-shot.

Vida de Ramon, Luísa Costa Gomes
Quantos autores regressam aos seus livros, 25 anos depois? LCG reviu extensamente Vida de Ramon (D. Quixote, 296 págs., €17,90), biografia ficcionada sobre Ramon Lull, filósofo, matemático e escritor do século XIII. Um retrato alinhavado com mestria.

Levante-se o Réu Outra Vez, Rui Cardoso Martins
Pouco sabemos das vidas que diariamente desaguam nos tribunais. Mas houve uma altura em que tinhamos um acesso privilegiado: nas crónicas Levante-se o Réu que Rui Cardoso Martins assinou nas páginas do Público durante 20 anos. Esta é já a segunda recolha em livro (Tinta da China, 343 págs., €16,90) e reencontramos aqui “toda a humanidade em Portugal” (palavra do autor). “Cabrão”, dizia José Cardoso Pires a António Lobo Antunes (que assina o prefácio) como elogio supremo à arte deste jornalista escritor.
