O caso Jeffrey Epstein não é apenas um processo criminal encerrado pela morte do principal arguido. É um retrato inquietante de como o poder, quando amparado por riqueza extrema e relações estratégicas, pode deformar a justiça e anestesiar consciências. Durante anos, denúncias consistentes de abuso sexual de menores circularam em tribunais e redações, enquanto Epstein continuava a circular nos ambientes certos, ao lado de milionários, académicos, políticos e figuras públicas. Nada parecia suficiente para romper a blindagem social que o protegia.

A engrenagem não era improvisada. Funcionava porque estava inserida num ecossistema onde prestígio gera silêncio e influência cria zonas cinzentas. O acordo judicial de 2008, que lhe permitiu cumprir uma pena amplamente considerada indulgente face à gravidade dos factos, tornou-se símbolo dessa distorção. Para muitas vítimas, foi a prova de que coexistem dois sistemas: um rigoroso para os anónimos, outro maleável para quem se move nas altas esferas.

A presença de figuras influentes no seu círculo — entre elas Ghislaine Maxwell, posteriormente condenada por tráfico sexual de menores — não foi um detalhe mundano. Foi parte de uma arquitetura relacional que confundia filantropia com reputação e proximidade com proteção. Num mundo onde imagem é capital, poucos arriscam questionar quem distribui convites para os lugares mais exclusivos.

Quando Epstein foi encontrado morto numa cela do Metropolitan Correctional Center, em Nova Iorque, oficialmente por suicídio, o processo judicial extinguiu-se com ele. As falhas de vigilância, as câmaras inoperacionais e a sucessão de erros administrativos alimentaram suspeitas que continuam a ecoar. A morte travou interrogatórios, impediu confrontos diretos e deixou por apurar a eventual extensão das responsabilidades. O sentimento que perdura é o de uma verdade interrompida.

Mas o caso também expôs algo mais estrutural: a obsessão das elites pela superação de limites. Limites legais, morais — e biológicos. A busca pela longevidade, outrora território da mitologia, é hoje financiada por investimentos milionários em biotecnologia, terapias experimentais e projetos de extensão da vida. Para alguns dos mais ricos, envelhecer deixou de ser um destino inevitável para se tornar um problema técnico a resolver. A promessa de prolongar a existência converteu-se numa nova fronteira de poder.

É neste clima de suspeição que ressurgem, ciclicamente, alegações sobre o uso de substâncias como o adrenocromo por figuras públicas, apresentado em fóruns digitais como suposto elixir de juventude. Não existe qualquer evidência científica que sustente tais propriedades, nem provas judiciais que confirmem o seu uso com esse fim. Ainda assim, o facto de estas narrativas encontrarem eco revela algo mais profundo do que a própria teoria: a erosão da confiança nas elites e a convicção difusa de que, quando dinheiro e poder se acumulam sem escrutínio suficiente, quase tudo se torna imaginável. O problema não é o adrenocromo enquanto mito químico; é o vazio de transparência que permite que o mito floresça.

Convém não confundir especulação com realidade comprovada. O tráfico de menores é um fenómeno documentado e brutal. Estima-se que entre 1,2 e 1,7 milhões de crianças estejam, em determinado momento, em situação de tráfico humano no mundo. Todos os anos, números semelhantes de menores são dados como desaparecidos. Muitos casos resolvem-se; outros não. A discrepância entre desaparecimentos e situações oficialmente identificadas levanta uma questão perturbadora: quantas histórias ficam por contar?

O caso Epstein demonstrou como redes de exploração podem operar durante anos sob a capa de respeitabilidade social. As suas propriedades luxuosas, incluindo a ilha privada de Little Saint James, tornaram-se símbolo de um universo onde exclusividade e segredo funcionavam como escudo. A explicação puramente sexual parece insuficiente para compreender a extensão das ligações estabelecidas. Sexo pode ser instrumento de manipulação; influência pode ser moeda de troca. A combinação cria dependências difíceis de desmontar.

Permanece igualmente por esclarecer a origem da fortuna que sustentou todo este sistema. Oficialmente, Epstein construiu riqueza como gestor de patrimónios de clientes ultra-ricos, operando num universo de investimentos privados e estruturas fiscais sofisticadas. Não liderou grandes empresas públicas nem criou inovação visível. A sua fortuna parece ter crescido na sombra de relações discretas com bilionários, de engenharia financeira complexa e de operações pouco transparentes. Investigações jornalísticas revelaram uma rede de sociedades e contas offshore cuja opacidade dificulta uma reconstrução completa do fluxo de capitais. Até hoje, a dimensão exata do seu património e os mecanismos que o alimentaram permanecem parcialmente obscuros.

Epstein tornou-se mais do que um nome próprio. Tornou-se um símbolo das fragilidades institucionais de uma era marcada por desigualdade extrema. Símbolo de um sistema onde riqueza pode funcionar como amortecedor judicial. Símbolo de uma cultura que se deslumbra com o poder e hesita em confrontá-lo.

Entre factos comprovados e teorias que prosperam na ausência de respostas totais, permanece a pergunta essencial: como foi possível? Talvez porque o problema nunca tenha sido apenas um homem. Talvez resida numa estrutura social que, fascinada pelo brilho do dinheiro e pela proximidade do poder, prefere demasiadas vezes não fazer perguntas incómodas — até que o escândalo se torne grande demais para ser ignorado.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Hoje, o calendário volta a parar no dia 23 de fevereiro. O tempo passou, mas a memória daquele dia de 1987 permanece intacta, gravada a fogo na minha juventude. Tinha eu 17 anos, quase a completar 18, numa idade em que o mundo começava a fazer sentido através das causas e dos ideais. Foi nessa manhã, ao chegar à Escola Secundária José Estêvão, em Aveiro, que a vida me deu uma lição de saudade que nunca mais esqueci. Os meus colegas e amigos, que tão bem conheciam a minha admiração pelo Zeca, aguardavam-me à porta, num silêncio pesado. Quando me deram a notícia de que Zeca Afonso nos tinha deixado, o chão abriu-se. Explodi em lágrimas. Não era apenas a perda de um cantor; era o silêncio súbito de uma consciência nacional.


E que ironia do destino, ou talvez destino mesmo, que essa homenagem radiofónica que gravámos um mês antes tivesse acontecido aqui, em Aveiro. Porque foi precisamente nesta cidade, na freguesia da Glória, que José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos nasceu a 2 de agosto de 1929. Zeca foi um filho de Aveiro, cresceu “na parte da cidade voltada para o realismo e para o mar”, viveu os seus primeiros três anos numa casa no Largo das Cinco Bicas, com a tia Gé e o tio Chico, antes de seguir para Angola em 1933, onde o pai trabalhava como juiz colonial. Aveiro foi o berço deste gigante que mais tarde se tornaria a voz da liberdade portuguesa.
O destino, por vezes, tem uma ironia doce e dolorosa. Apenas um mês antes da sua partida, por desafio da nossa professora de Jornalismo, tínhamos mergulhado de alma e corpo na obra deste aveirense ilustre.

Tínhamos estado num pequeno estúdio do nosso colega e amigo Rui Loura (atual jornalista na CNN) a gravar um programa de rádio que foi muito mais do que um trabalho escolar; foi uma iniciação. Deambulámos pelas melodias de “Maria Faia”, sentindo a força das raízes e explorámos o convite fraternal de “Traz Outro Amigo Também”. Conjugámos essas notas com a sua biografia, tentando entender o homem por detrás do mito. Mal sabíamos que, semanas depois, essa homenagem se transformaria num adeus.

Para mim, aos 17 anos, o Zeca não era apenas uma figura histórica do 25 de Abril. Era a prova de que a música pode ser uma arma de combate e um colo de abrigo. A sua força residia na coerência. Enquanto a doença — essa maldita Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) implacável — lhe ia roubando os movimentos e lhe cerrando o corpo, a sua voz interior nunca se calou. Ele ensinou-nos que é possível estar preso num corpo que falha e continuar livre na alma que canta.

O seu património musical é uma herança que não nos é permitido esquecer. Não podemos deixar cair no esquecimento obras primas como “Grândola, Vila Morena”, o sinal da liberdade; “Os Vampiros”, que denunciou a opressão com uma genialidade ímpar; “Venham Mais Cinco”, hino de resistência; “Menino do Bairro Negro”, que nos obrigou a olhar para os marginalizados; “Canto Moço”, “A Morte Saiu à Rua”. Cada acorde é uma lição de cidadania.

Zeca Afonso partiu neste dia, mas o seu legado é imortal. Aquele programa de rádio que gravámos com tanto carinho no estúdio do Rui Loura foi o meu primeiro passo para entender que a cultura se constrói com memória. Hoje, anos depois, continuo a ouvir o Zeca. Continuo a chorar a sua falta, mas acima de tudo, continuo a cantar a sua presença.

O seu corpo sucumbiu à doença, mas a sua música venceu a morte. E enquanto houver quem cante “Grândola” ou quem se emocione com “Traz Um Amigo Também”, Zeca Afonso estará vivo, entre nós, na Escola Secundária José Estêvão, nas ondas da rádio, em Aveiro que o viu nascer, e sobretudo, na alma de quem, como eu, tinha 17 anos quando o mundo ficou mais silencioso, mas aprendeu a ouvir melhor.

Zeca, presente! Sempre.

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O meu amigo e companheiro de trincheira cinéfila, Jorge Leitão Ramos, escreveu esta semana na revista Expresso sobre o fim do cinema. Eu, com todo o respeito e uma pitada de provocação, prefiro falar do fim da crítica de cinema tal como a conhecemos. Não do cinema. Nem sequer da crítica. Mas do monopólio da crítica. Porque, vejamos: hoje toda a gente quer ser crítico de cinema. E pior: toda a gente pode ser. O culpado? Ou o salvador? Chama-se agora Letterboxd, mas estende-se também a muitos sites e blogues de cinema.

Durante décadas, a crítica vivia nos jornais, nas revistas, nos suplementos culturais. Havia meia dúzia de nomes que “faziam opinião” e que quase “vendiam bilhetes de cinema”, fosse pela positiva, fosse pela negativa: os bola-preta, às vezes, vendiam tantos bilhetes como os cinco estrelas. O público lia, concordava, discordava, mas respeitava. O crítico era uma espécie de padre laico do gosto cinematográfico: tinha acesso antecipado aos visionamentos privados em sala, escrevia com autoridade e raramente era contestado. Ou era pelos distribuidores. Conta-se que uma velha lenda da distribuição nacional, depois de um visionamento de imprensa, se aproximou de um crítico que estava com cara de poucos amigos e lhe disse: “Pode dizer mal à vontade do filme, mas já agora ponha uma fotografia bem grande.”

Agora? Agora as estreias de cinema são tantas todas as semanas que, às vezes, até vemos filmes em casa através de links, e o crítico profissional é apenas mais uma conta no meio de 26 milhões de utilizadores, fora o resto que anda pela net.

Só no Letterboxd são 26 milhões de utilizadores. Em 2020 eram 1,7 milhões. Em 2026 já ultrapassaram os 26 milhões. E continuam a crescer como se fosse uma saga da Marvel no seu auge, antes da fadiga das sequelas.

No Letterboxd, por exemplo, um miúdo de 17 anos começa por dar cinco estrelas a La La Land – Melodia de Amor (2016), de Damien Chazelle, e, poucos meses depois, descobre Harakiri (1962), de Masaki Kobayashi. Quantos de vocês viram este filme? E o miúdo escreve nos comentários que talvez ainda não esteja preparado para ele. Promete voltar daqui a uns anos. E volta. Isto não é ignorância. Isto é formação cinéfila em tempo real. É bonito, assustador, mas também é democrático.

Enquanto isso, os jornais fecham páginas de cultura. As redações emagrecem. A crítica profissional torna-se freelance, precária, comprimida em 3.000 caracteres e num título SEO-friendly. Mas no Letterboxd, um utilizador qualquer pode escrever 2.500 palavras sobre Sátántangó (1994), do recém-falecido Béla Tarr, analisando segundos de cada plano, e ter leitores atentos. O que mudou? Mudou tudo.

O Rotten Tomatoes, outro site bastante popular e referido em muitas “críticas de cinema” para optimizar o SEO, transformou-se também numa ferramenta de marketing. “100% Fresh” estampado nos cartazes. Não deixa de ser estranho como uma percentagem pode decidir bilheteiras. Mas o Letterboxd é outra coisa, mais sofisticada. É uma colmeia caótica, irónica, apaixonada. Ali convivem MoonlightPulp Fiction e até um qualquer obscuro drama polaco que ninguém encontra no streaming. Ali há listas de “filmes onde alguém joga basquetebol inesperadamente”. E, curiosamente, funcionam como porta de entrada para obras que nunca passariam no radar do grande público. Há crítica séria? Há. Mas também há muita porcaria. Há piadas e “bocas” de uma linha? Também. Há jornalismo gonzo teórico, emocional e pouco objectivo e há “vibes enormes”. E é aqui que entra o embaraço e o grande incómodo.

Quando um utilizador resume Dois Homens e um Destino (Butch Cassidy and the Sundance Kid), com Paul Newman e Robert Redford, a “vibração é sempre enorme”, metade da crítica dita responsável espuma. Quando alguém escreve que Música no Coração (The Sound of Music) merece duas estrelas, o mundo arde. Mas essa fricção é a própria essência da cinefilia: discutir à saída do cinema, indignar-se, rir, exagerar.

A crítica deixou de ser vertical. Tornou-se horizontal. E isso dói a quem cresceu numa lógica de autoridade. Mas atenção: não é o fim da crítica. É apenas o fim do pedestal.

No Letterboxd, os clássicos a preto e branco convivem com animação japonesa, terror experimental e blockbusters. Marie Antoinette, de Sofia Coppola, encontrou ali o amor que lhe faltou na estreia. Jovens espectadores vão ver retrospetivas de Edward Yang (Yi Yi) ou Andrei Tarkovsky (Nostalgia) porque alguém os desafiou num “Criterion Challenge”. Isto pode ser superficial? Às vezes. É também competitivo? As estatísticas de “quantos filmes viste este ano” criam ansiedade. Mas, acima de tudo, torna-se contagiante.

A geração que cresceu a deslizar no YouTube e agora no TikTok está, paradoxalmente, a ver A Cura (1997), de Kiyoshi Kurosawa, ou a descobrir as repetições melancólicas do realizador coreano Hong Sang-soo (A Romancista e o Seu Filme), também ainda graças à crítica que sobra. E isso devia interessar aos estúdios mais do que qualquer algoritmo ou a opinião de um “influencer”. O cinema também não está a morrer. Está a deslocar-se.

Quando Batalha Após Batalha, de Paul Thomas Anderson, passa em 70mm e alguém sai da sala com vontade de discutir o filme às duas da manhã, essa discussão já não precisa de um suplemento cultural. Precisa simplesmente de Wi-Fi.

E há outro detalhe fundamental que importa referir: o Letterboxd é também estranhamente “old school”. Não há mensagens privadas, botão de “não gosto” ou algoritmos a premiar a indignação tóxica. Há perfis personalizados, listas, seguidores. Lembra um pouco a internet do início dos anos 2000, ou seja, mais comunidades do que tribos.

O que me leva à pergunta inevitável: e nós, críticos profissionais, fazemos o quê? Choramos o fim da autoridade? Ou entramos na conversa?

Richard Brody, o conceituado crítico da The New Yorker, diz que a crítica de cinema está melhor do que nunca porque há mais gente a escrever com paixão. Talvez tenha razão. Talvez o problema não seja a abundância de vozes, mas a nossa incapacidade de aceitar que já não somos os únicos microfones.

O futuro dos filmes não vive apenas nas salas IMAX ou nas salas de cinema dos multiplex, nem nas estratégias de marketing das majors. Vive na excitação genuína. Na descoberta inesperada, às vezes em pequenas salas com verdadeira curadoria e programação cuidada e criteriosa: nos miúdos que começam com comédias de adolescente ou musicais docinhos como La La Land e acabam a analisar o desmantelamento do mito do samurai.

O cinema sobreviverá? Claro que sim. A crítica de cinema sobreviverá? Também. Mas não será como era antes. Será mais partilhada, fragmentada, mais caótica. Menos solene. Talvez menos elegante. Mas mais viva.

E, no fundo, se o cinema sempre foi uma arte coletiva — realizadores, atores, técnicos, público — talvez a crítica também estivesse destinada a tornar-se coletiva.

Não é o fim da crítica. É o fim de uma certa exclusividade. E isso, para quem ama verdadeiramente o cinema, pode ser a melhor notícia dos últimos anos.

A Direção do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP) apresentou, recentemente, o seu parecer sobre a proposta de Lei n.º 54/XVII/1.ª, pela qual se pretende introduzir no Código de Processo Penal (e, conexamente, no Regulamento das Custas Processuais) um conjunto de alterações pautadas por um propósito de aperfeiçoamento do funcionamento do sistema penal e de promoção da celeridade na administração da justiça, nomeadamente no que respeita aos processos especialmente complexos.

Foram vários os aspetos que mereceram o aplauso do SMMP, o qual, aliás, já se tinha pronunciado em sentido semelhante e em momento próprio, designadamente, no âmbito da reunião de trabalho que teve lugar no dia 7 de novembro de 2025, convocada por Sua Excelência o Presidente da Assembleia da República.

Destacamos algumas.

Vemos com agrado a introdução de multa pela prática de ato dilatório, destinada a sancionar os atos que, sendo manifestamente infundados, visem ou tenham por efeito entorpecer ou retardar o andamento do processo ou a disposição substancial de tempo e meios, estabelecendo um regime semelhante ao consagrado no processo civil no que respeita à litigância de má-fé. Em sentido semelhante, a introdução da defesa contra demoras abusivas que visa consagrar no processo penal o instituto já existente no processo civil, para obviar a requerimentos e incidentes manifestamente infundados na fase de recurso, em que o objetivo é o de evitar o cumprimento do julgado ou o seu trânsito, que agora se adapta às especificidades do processo penal.

Também nos pareceu de salutar a supressão da obrigatoriedade de envio da cópia da acusação ou da pronúncia, sob pena de nulidade, aquando da notificação do despacho para apresentação de contestação, assim se eliminando a duplicação resultante do facto de tal cópia ter já sido fornecida aquando da notificação da acusação, numa repetição com custos não despiciendos, sobretudo no caso de processos de maior extensão.

Entendemos constituir uma mais-valia em termos de celeridade processual a extensão do regime-regra dos efeitos da confissão integral e sem reservas aos crimes punidos com pena superior a cinco anos de prisão.

Afigura-se-nos que conferirá elevado ganhos de eficácia a possibilidade conferida ao juiz que preside à audiência, de determinar, por despacho irrecorrível, que os requerimentos devem ser apresentados por escrito. Assim, as audiências não terão de “parar” para os sujeitos processuais ditem os seus requerimentos.

A irrecorribilidade do despacho que determine ou admita a produção de prova que considere necessária à decisão da causa (proferido nos termos do disposto no artigo 340.º do Código de Processo Penal) é, de igual modo, uma medida importante, considerando que evita o entorpecimento da prossecução da audiência por via de um recurso, respeitando o princípio da investigação e da descoberta da verdade material.

Contudo, a Proposta de Lei fica muitíssimo aquém do que se pretendia.

Alterações como impor a organização da prova por anexos, a descrição factual por artigos e indicação da prova relacionadas com os factos pareceu-nos redundante, uma vez que, na prática, já é o que efetivamente acontece, especialmente, em processos complexos.

Lamentamos que não tenham sido acolhidas propostas que permitiriam um maior aproveitamento da prova coligida em inquérito, sem necessidade da sua repetição nas fases ulteriores, como por exemplo, a permissão de reprodução em julgamento de depoimento de testemunha gravado, com imagem e som, perante órgão de polícia criminal na fase de inquérito, sem necessidade de acordo dos sujeitos processuais na leitura, ou a irretratabilidade do direito de renúncia à faculdade de recusa de depoimento (artigo 134.º, n.ºs 1 e 2, do Código de Processo Penal).

Foi completamente ignorado o princípio “digital by default”. Não se compreende como não foi consagrada a possibilidade de notificações eletrónicas dos despachos de encerramento do inquérito. Além de evitar os enormes gastos em papel, evitaria que se procedesse a notificações pessoais, nos processos mais complexos, em que as folhas não cabem nas caixas do correio!

Também não conseguimos perceber como não se reviu o regime da fase facultativa da instrução, de forma a evitar que continue a transformar-se num “pré-julgamento”.

E os recursos para o Tribunal Constitucional? Fica tudo na mesma!

A “reforminha” do processo penal, constante da Proposta de Lei apresentada vai traduzir-se em pequenos ganhos de celeridade, mantendo, na sua essência, os grandes fatores responsáveis pelos atrasos na justiça penal.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Há instantes em que a arte não se limita a ser contemplada: acontece-nos. A mim, aconteceu-me pela primeira vez no Musée Rodin, em Paris, tinha uns 13 anos. Estava diante de La Cathédrale, de Rodin – duas mãos que se elevam como oração suspensa – quando o mundo começou a perder densidade, como se o ar se tornasse subitamente demasiado fino para respirar. Senti o coração a acelerar, a vista a oscilar, o corpo a abandonar por momentos a lógica do físico para entrar num domínio outro, onde o espírito se adensa e as lágrimas escorrem. Só anos mais tarde percebi que esse abalo tinha um nome: síndrome de Stendhal.

Em 2014, dei finalmente nome ao estremecimento. E desde então ele nunca mais cessou – uma espécie de companheiro secreto que regressa sempre que a beleza se excede e me excede. Regressou então, por exemplo, diante do Guernica, de Picasso, da Mulher à Janela, de Dalí, e regressou também diante d’A Gioconda, com aquele olhar impossível que nos segue sem se mover; diante da sensualidade alongada, quase inumana, d’A Grande Odalisca, de Ingres; e regressou, como um clarão histórico, diante de A Liberdade Guiando o Povo, de Delacroix, onde a bandeira irrompe como se ainda estivesse quente, saída do fogo da rua. Nesses momentos, a alma estremece – não porque seja frágil, mas porque é permeável.

A ciência descreve a síndrome de Stendhal como um distúrbio psicossomático capaz de provocar aceleração cardíaca, tonturas, confusão mental, desmaios e até alucinações quando alguém se confronta com obras de grande intensidade estética. O nome deriva do escritor francês Stendhal (Henri-Marie Beyle), que em 1817, na Basílica de Santa Croce, em Florença, descreveu um êxtase tão forte diante dos frescos de Giotto que temeu cair, exaurido pela beleza. A síndrome só viria a ser reconhecida em 1979 pela psiquiatra Graziella Magherini, após o estudo de mais de cem casos semelhantes em visitantes de Florença.

Mas nenhuma definição clínica – nenhuma – explica verdadeiramente o que acontece quando a arte nos trespassa. E os desenhos, a obra de Teresa Gonçalves Lobo souberam encontrar a minha alma.

Teresa Gonçalves Lobo nasceu no Funchal, em 1968. Estudou desenho, pintura, gravura e fotografia no Ar.Co e no Cenjor, construindo ao longo de quase duas décadas uma obra profundamente ancorada no desenho como linguagem primeira. Expõe em Portugal e internacionalmente, é representada pela galeria londrina Waterhouse & Dodd, e tem sido estudada por críticos como Nuno Faria, João Pinharanda e Bernardo Pinto de Almeida.

O seu trabalho – gestual, caligráfico, intuitivo, quase sísmico – é feito de linhas que não descrevem: respiram. Linhas que são pensamento, impulso, vibração, silêncio, corpo, memória. Linhas onde a fluidez e a inquietação se tornam matéria viva, uma gramática interior que transforma o papel num território emocional inteiro.

“Os desenhos transportam e representam um lugar atmosférico; são corpo e ar ao mesmo tempo – entramos neles como num mapa, abstracto e concreto.” – Nuno Faria, O mapa do ar, 2015

Quando me aproximo dos desenhos de TGL, sinto novamente aquele tremor primeiro – o mesmo que me atravessou no Musée Rodin. Uma vibração funda, quase subterrânea, que sobe pelo corpo como um murmúrio. O coração acelera. Algo dentro de mim cede espaço ao indizível. E nesse instante percebo que a síndrome de Stendhal não é doença: é transfiguração.

“Uma livre coreografia de gestos – uma dança da mão, do braço, do corpo sobre o espaço do papel.” – João Pinharanda, A família dos is

A obra de Teresa é isto: uma coreografia invisível que não se vê, sente-se. É um arrepio lento. Uma respiração que se altera. Um silêncio novo que se instala.

Em 2024, durante uma palestra, Teresa Gonçalves Lobo disse-o com uma clareza luminosa: “Neste país, não é fácil ser artista.” E insistiu que não se pode sacrificar a essência para agradar aos outros. É essa fidelidade à verdade interior – esse rigor emocional – que a sua obra traz ao papel e ao mundo.

“No trabalho de Teresa Lobo há dois planos: o traço como estrutura poética e, depois, um plano profundo – um improviso à maneira do jazz, onde o desenho renasce como invenção, puro campo de experimentação.” – Bernardo Pinto de Almeida, A disciplina secreta do desenho

Há desenhos de Teresa que parecem mapas de respiração. Segue-se um traço mais espesso, perde–se o rumo no arabesco seguinte e, de repente, o papel tornou-se paisagem interior – uma topografia feita de memória, vibração e silêncio

Há desenhos de Teresa que parecem mapas de respiração. Segue-se um traço mais espesso, perde-se o rumo no arabesco seguinte e, de repente, o papel tornou-se paisagem interior – uma topografia feita de memória, vibração e silêncio. Neles, a síndrome de Stendhal não é excesso: é a medida justa do espanto. Os seus desenhos são, como escreveu Nuno Faria, “uma máquina de emaranhar paisagens” – paisagens do mundo, do corpo, da alma.

No Museu Nacional Soares dos Reis, quando Teresa Gonçalves Lobo dialogou com Domingos Sequeira, o curador Bernardo Pinto de Almeida descreveu a sua obra como uma “invenção plástica e metamórfica do desenho”, uma coreografia de linhas que, mesmo quando não figurativas, fazem emergir forma – forma que não se vê, mas que insiste em existir. Ali, o desenho era, ao mesmo tempo, risco e abrigo, vertigem e casa. E nesse entre, a síndrome voltou, doce e profunda, como se a beleza me reconhecesse ao longe e me chamasse pelo nome.

Desde 2014, caminho por cidades onde a beleza me surpreende sempre: nos olhos enigmáticos d’A Gioconda; no Louvre, onde a Odalisca se estende num impossível que desafia a lógica do corpo; diante da Liberdade de Delacroix, que levanta a bandeira e arrasta connosco a pulsação da História, a Liberdade.

Cada obra é um limiar. Cada encontro, um sobressalto. É um dom raro – esta vulnerabilidade estética – e aprendi a reconhecê-lo não como fraqueza, mas como prova de que o coração ainda se apressa quando a beleza o chama.

A síndrome de Stendhal explica-se com sintomas, literatura médica e estudos psicológicos, mas não se explica no instante em que a alma se expande mais depressa do que o corpo consegue acompanhar.

Talvez a beleza seja isso mesmo: um sobressalto. Uma vertigem que aquece por dentro. Uma lágrima que cai antes de sabermos porquê. No Musée Rodin, descobri o primeiro abismo. Desde 2014, caminho por ele repetidas vezes.

E com Teresa Gonçalves Lobo, compreendi que a arte – quando verdadeira – não se contempla: transborda.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

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A reunião está agendada para as 09:30 no Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSSS), em Lisboa, segundo uma nota informativa enviada pelo gabinete de Rosário Palma Ramalho, na quarta-feira passada.

O encontro deverá servir para fazer um balanço das reuniões técnicas que têm decorrido entre Governo, confederações empresariais e UGT sobre as alterações à lei laboral, que estão a ser discutidas em sede de Concertação Social, onde a CGTP tem também assento.

Na quarta-feira passada, a ministra do Trabalho tinha convocado a UGT e as confederações patronais para uma reunião, mas o encontro acabou por ser realizado sem a presença de representantes sindicais: a CGTP não foi convocada pelo Governo e a UGT anunciou que não iria participar na reunião, considerando-a “extemporânea” e lamentando a sua divulgação quando informou atempadamente o Governo da sua indisponibilidade nesta data.

Fonte oficial do ministério tinha indicado à Lusa que “a UGT foi convidada e não mostrou disponibilidade em nenhum momento esta semana”, mas que “o Governo mantém toda a disponibilidade para conversar” com a central sindical.

Perante a ausência da UGT, à saída do encontro, as confederações empresariais indicaram que tinham “interesse” em alcançar um acordo sobre a lei laboral, pelo que sem a presença da central sindical “na prática não houve reunião” e mostraram-se disponíveis para negociar com a central sindical a partir desta semana.

A indicação tinha sido feita pelo presidente da Confederação do Turismo de Portugal (CTP), Francisco Calheiros, que falou aos jornalistas em representação das restantes três confederações empresariais.

Questionado sobre o facto de a CGTP, que além das confederações empresariais e da UGT também tem assento na Comissão Permanente de Concertação Social (CPCS), não ter sido convidada para estar presente na reunião, Francisco Calheiros escusou-se a comentar.

Em declarações à Lusa, o secretário-geral da CGTP tinha acusado o Governo de tentar afastar a intersindical da discussão das alterações à lei laboral e de utilizar formas de discussão “completamente à margem” do que tem sido a condução de processos negociais.

O anteprojeto de reforma, chamado “Trabalho XXI”, foi apresentado pelo Governo de Luís Montenegro (PSD e CDS-PP) em 24 de julho de 2025 e a ministra do Trabalho já sinalizou a intenção de submeter a proposta de lei no parlamento, ainda que não se comprometa com uma data.

As alterações propostas pelo Governo em julho mereceram um ‘não’ das centrais sindicais, que consideram as mudanças um ataque aos direitos dos trabalhadores. A oposição levou a CGTP e a UGT a avançarem, em conjunto, para uma greve geral, realizada em 11 de dezembro de 2025.

As confederações empresariais aplaudiram a reforma, ainda que digam que há espaço para melhorias.

Perante as críticas da CGTP e da UGT, o executivo entregou à UGT uma nova proposta com algumas cedências, mas reiterou que não está disponível para retirar toda a iniciativa, nem para deixar cair as traves mestras das alterações anunciadas.

A UGT fez chegar uma contraproposta ao Governo em 04 de fevereiro e sinalizou que tem linhas vermelhas em matérias como a da contratação a termo ou o ‘outsourcing’, cujas medidas considera”inaceitáveis”.

Querida Portela,

Começo por falar-te do animal mais célebre do momento: o Punch, um filhote de macaco-japonês rejeitado pela mãe num jardim zoológico no Japão, a quem foi entregue um símio de peluche para atenuar os efeitos da rejeição materna e do grupo de macacos que ocupa o mesmo habitat. Os vídeos enternecedores do pequeno Punch, abraçado ao macaco de peluche em busca de afeto, tornaram-se virais entre 18 e 22 de fevereiro nas redes sociais, e comoveram o mundo inteiro. Porém, fiquei perplexa ao deparar-me imediatamente com a campanha da marca sueca que fabrica o referido brinquedo, que, aproveitando um momento da mais pura inocência animal, o transformou num anúncio eficaz para fazer disparar as vendas. A aquisição do peluche aumentou exponencialmente em vários países. Comuniquei à minha filha a minha perplexidade perante esta situação, uma vez que tinha sido ela a mostrar-me os vídeos do Punch, e confesso que me enervei ao tentar explicar-lhe esta exploração económico-emocional: ela não conseguia compreender. Não via qualquer problema no facto da marca aproveitar a situação do macaco órfão para vender mais bonecos. Tive de pensar durante uns momentos para perceber que esta perplexidade talvez fosse geracional por dois motivos: primeiro, porque ela já cresceu a ver vídeos reais e comoventes nas redes sociais; segundo, porque não se apercebe da perversidade da lógica económica quando esta se apropria e explora um acontecimento claramente emocional.

Senti vergonha ao ver o anúncio da marca sueca onde se podia ler: “Às vezes, a família é quem encontramos pelo caminho”. Ora bem, que um macaco bebé “macaquifique” um objeto é uma coisa; que um grupo de seres humanos queira transformar um objeto num membro da família, é algo completamente diferente. Tenho de dizer que considero a publicidade um mercado bem mais obsceno do que a pornografia, por exemplo. Ao menos na pornografia a pessoa sabe ao que vai, que está perante um produto. Já no grande reino da publicidade, que parece ser o mundo inteiro neste momento, as marcas que despertam mais emoções dominam o algoritmo, conquistam o público e cada vez mais parecem preocupadas e conscientes, quando o único objetivo é a faturação.

A minha filha não conseguiu ver maldade na campanha publicitária e eu senti-me por instantes uma daquelas pessoas dispostas a escalpelizar tudo. Só que não. A verdade é que olhamos para as coisas cada vez mais embrutecidos e cegos, consumindo praticamente a todas as horas do dia, sejam objetos, informação ou serviços, sem nos apercebermos de nada. Do que estamos, de facto, cada vez mais distantes é das pessoas, do afeto sem interesse, do amor sem preço (tudo tem um preço? Acredito que sim, mas não monetário). Talvez as emoções humanas nunca tenham estado tão ligadas a produtos: o que nos faz rir, o que nos faz chorar paga-se, diante ou longe dos ecrãs. Sou só eu que acho isto assustador?

Eu tive um macaco de peluche quando era miúda, um macaco sem anúncio, barato, comprado num sítio qualquer, sem marca reconhecível. Era um macaco parvo que enfiava os dedos no próprio nariz e nas orelhas; eu ria-me e era feliz a brincar com ele. Não precisei de um anúncio, ou que me comovessem, para gostar daquele brinquedo.

Talvez o que mais me tenha ficado dos vídeos do Punch, não tenha sido a imagem do pobre macaco agarrado ao peluche, mas a sensação de vergonha. Vergonha por fazermos de tudo matéria de mercado, até a carência mais elementar. Não é apenas a campanha da marca que me inquieta, é a normalidade com que aceitamos que o afeto seja embalado, etiquetado e distribuído como qualquer outro produto. Que a fragilidade de um animal bebé possa ser convertida, sem sobressalto coletivo, numa estratégia de marketing bem-sucedida. Envergonha-me esta voracidade tranquila, esta capacidade de transformar ternura em slogan.

Cláudia Lucas Chéu

Esta rubrica é uma troca de correspondência entre Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela

A semana passada, na ressaca das tempestades Kristin e Leonardo, foi muito penosa para a credibilidade do Governo Montenegro 2.0 e para uma opção que privilegiou a aproximação ideológica à extrema-direita sobre a realidade e a busca de necessários consensos.

Ao fim de vários anúncios, em Alcácer do Sal, em Coimbra e na Assembleia da República, o PTRR apresentado é apenas um mal-amanhado PowerPoint de 10 páginas, sem medidas concretas para quem, fora dos 68 municípios que estiveram em Estado de Calamidade, ficou desalojado, sem local de trabalho, sem estrada ou com as culturas destruídas.

Afinal, temos apenas simpáticas banalidades sobre Transformação, Recuperação e Resiliência, mas não sabemos quais os meios financeiros adicionais, as áreas abrangidas, nada estará aprovado antes de meados de abril e o plano de execução irá prolongar-se até ao quase infinito ano de 2034 , daqui a vários governos e provavelmente vários primeiros-ministros.

Mas quem com urgência quer cobrir o telhado destelhado, reparar a estrada esventrada, encontrar soluções para o realojamento, ou garantir compromissos de entregas de encomendas aos clientes sabe que os apoios anunciados são curtos e que não pode esperar por amplos consensos nacionais depois da auscultação de quase tudo o que mexe na vida pública.

A única certeza para já é que a falta de mão-de-obra se irá acentuar e dificultar as reparações mais urgentes, mas a cegueira da política migratória de Montenegro e de Leitão Amaro está muito feliz com a redução em cerca de 40%, verificada em 2025, das inscrições de novos trabalhadores estrangeiros na Segurança Social, acredita que a solução está no mercado interno (talvez com recurso preferencial aos patriotas apoiantes de André Ventura) e que só em último caso será utilizada a Via Verde para a imigração, que só conseguiu recrutar pouco mais de mil trabalhadores em quase um ano.

A segunda má noticia para quem prefere governar com base em perceções com escassa adesão à realidade é a surpreendente nomeação para o MAI do até agora diretor da PJ, Luís Neves. À terceira tentativa, parece ter sido encontrado um ministro com demonstrada capacidade operacional e pouco dado a populismos em matéria de segurança.

Depois do conúbio ideológico com o Chega, desvalorizando os elevados padrões de segurança que colocaram Portugal no topo do ranking do Global Peace Índex e desconfiando dos dados oficiais do RASI, e das dramáticas declarações de Montenegro e de Leitão Amaro, estabelecendo uma correlação entre aumento da imigração, insegurança e criminalidade, não deixa de ser irónica a nomeação para o MAI do profissional de investigação criminal que durante 8 anos liderou a PJ combatendo, como disse em fevereiro de 2025, na Assembleia da República, ”a desinformação e os paladinos do caos”.

Para um Governo que escolheu como prioridade da agenda parlamentar as leis de estrangeiros e da nacionalidade, sempre em choque com a Constituição da República e de braço dado com o Chega, vai ser um momento de pedagogia da realidade passar a ter na mesa do Conselho de Ministros quem demonstrou com base nos dados da criminalidade registada e do sistema prisional a inexistência de qualquer preponderância de imigrantes nas práticas criminais.

Depois de ter dito que a Lei da Nacionalidade fazia “de Portugal mais Portugal“ e de dizer que a economia se deveria adaptar às alterações da Lei de Estrangeiros, Leitão Amaro embatucou na sala de produção dos vídeos de propaganda com a necessidade de mais trabalhadores para recuperar as zonas devastadas pelas tempestades e, desde a decisão unânime de dezembro do Tribunal Constitucional, ainda não encontrou o buraco da agulha para salvar a malfadada lei .

Talvez o Governo deva refletir sobre os 77% de eleitores da AD, ou os 89% dos votantes de Marques Mendes, que preferiram votar Seguro em vez de Ventura na segunda volta das eleições presidenciais. Parece difícil uma mensagem mais clara sobre qual a área política que os eleitores da direita democrática e moderada preferem como parceiro de diálogo e de convergência.

Contudo, alguns tiques revelam que alguns setores do Governo preferem ignorar a mensagem das eleições presidenciais e reiterar as manifestações de arrogância.

São claros exemplos recentes disso a tentativa de Rosário Palma Ramalho de fazer diálogo social sobre as leis laborais sem representantes dos trabalhadores, só travada pelo bom senso das confederações patronais, ou a nomeação apressada como pagamento de frete político, desadequada e violando as regras de limite de idade em posto no estrangeiro aplicáveis aos diplomatas, de Rui Moreira para embaixador na OCDE.

É neste contexto de choque do Governo com a realidade que mais informação rigorosa é essencial. Por isso, são muito importantes para desfazer falsas perceções as novas estatísticas da Segurança Social sobre trabalhadores estrangeiros publicadas na semana passada e com promessa de atualização mensal.

Provam como os novos trabalhadores estrangeiros compensaram a redução de inscritos nacionais e que com o pagamento de 4,1 mil milhões de euros em 2025, cerca de 14% dos pagamentos totais, contribuíram decisivamente para o saldo da Segurança Social. Temos hoje 5 vezes mais trabalhadores estrangeiros inscritos do que em 2015 mas os pagamentos são 8,6 vezes superiores. Já os famosos “subsídios”, que tanto podem ser abonos de família a menores, como pagamentos por doença ou desemprego, ascenderam a 822 milhões de euros, ou seja 19,8% das contribuições pagas pelos trabalhadores imigrantes ou apenas 11% do montante total das prestações sociais.

Na apresentação destes dados inovadores a Secretária de Estado da Segurança Social corrigiu mitos, prometeu informação regular e destacou o contributo positivo dos trabalhadores estrangeiros para a economia nacional.

Pelo contributo para a transparência que desfaz a demagogia populista e permite iluminar as prioridades da ação política em tempos sombrios para o Governo Montenegro, o prémio Laranja Doce de hoje vai para a Secretária de Estado da verdade sobre os trabalhadores migrantes Susana Filipa Lima.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

No início do século XX, Chicago era famosa pela imundície. Inicialmente, a culpa era atribuída à localização física e à ecologia: os terrenos eram pantanosos, tornando as ruas da cidade velha insuportavelmente lamacentas. Os primeiros cidadãos viviam com os odores terríveis resultantes do sistema deficiente de drenagem. A cidade adquiriu a alcunha de “Cidade de Chapa” graças aos edifícios desleixados construídos pela população em rápido crescimento. A reconstrução após o grande incêndio de 1871 aliviou alguns destes problemas. Outras formas de sujidade revelaram-se mais obstinadas. Como rampa de lançamento para os migrantes que rumavam para oeste do Mississípi, Chicago era afamada pela transitoriedade, pela moral duvidosa e pela corrupção.

Império do crime
“Máfia, uma HistóriaGlobal”, uma inves- tigação de duas décadas do historiador norte-americanoRyan Gingeras, demonstra, em 480 páginas muito bem documentadas, que nenhuma outra força moldou o nosso mundo de forma tão poderosoa, e tãosecreta, comoo crime organizado.
Edição: Casa das Letras – €29,90

Enquanto o movimento progressista na América atingia o auge do seu poder, entre as décadas de 90 do século XIX e 20 do século XX, havia pelo menos 500 operações de porta aberta dedicadas ao sexo (e sem dúvidas muitas mais nunca contabilizadas). A liberdade gozada por madames e senhores do jogo acompanhou de perto a evolução da cidade até se tornar um dos baluartes do Partido Democrático.

A máquina política começou a rugir na década de 70 do século XIX sob o proeminente jogador Michael Cassius McDonald. A fortuna particular e as ligações às forças musculadas locais permitiam-lhe escolher quais os candidatos às eleições municipais. No seu reinado, a corrupção era a ordem do dia. Foi Chicago quem deu ao mundo a expressão “vota cedo e vota muito”.

A cidade já tinha mais do que a sua conta de gangues e figurões antes da chegada de Al Capone, que não poderia ter sido mais oportuna: coincidiu com o abate a tiro de “Big” Jim Colosimo, um dos gangsters mais temidos de Chicago. À época considerado “o assassínio da Máfia mais célebre da América”, está até hoje oficialmente por resolver. É, no entanto, indiscutível que os homens que beneficiaram mais com a morte de Cosimo foram os herdeiros do seu império criminoso.

Como seu antigo número dois, Johnny Torrio herdou de Jim os bordéis, os saloons e as salas de jogo. Designou o jovem Snooky – como Capone era tratado pelos amigos – para trabalhar à porta do seu clube, o Four Deuces. O dinheiro regular que Alphonse ganhava era mais do que alguma vez ganhara em Nova Iorque.

Álcool Foram mortas 700 pessoas em Chicago até ao levantamento da Proibição. Houve meses em que a média de mortes na cidade foi de uma por dia. Anos depois, Bugsy Siegel (foto em baixo) aproveitou a venda de álcool e o negócio do sexo para criar um negócio lucrativo em Las Vegas

As oportunidades de negócio multiplicaram-se à medida que ele criava um grupo próprio e variado de confidentes e capangas.

Havia Jake Guzik, oriundo de uma família alargada de proxenetas e corretores nascidos na Rússia, e o contrabandista e recetador Frank Nitti, que também se mudara para Chicago depois de uma infância passada na Sicília e em Brooklyn. No final da década de 20 do século passado, esta parceria rendera a Capone uma fortuna estimada em 40 milhões de dólares.

A violência no terreno, mais do que qualquer outra coisa, foi a pedra-base da fama e da fortuna de Capone. A Guerra Castellammarese de Nova Iorque foi uma bagatela em comparação com a carnificina a que Chicago assistiu na disputa de distribuição de álcool e de outros vícios. Foram mortas 700 pessoas em Chicago até ao levantamento da Proibição. Houve meses em que a média de mortes na cidade foi de uma por dia. Os gangsters abonados aproveitaram a venda no mercado negro de metralhadoras do exército, frequentemente referidas como “máquinas de escrever de Chicago”. Nenhuma das máfias da cidade tinha escrúpulos em usar dinamite para se livrar de lojas, clubes e armazéns pertencentes aos rivais.

Foram as batalhas com Dean O’Banion e Bugs Moran, da zona norte da cidade, que promoveram Capone a uma posição de liderança.

Em 1924, depois de Johnny Torrio conseguir eliminar o mentalmente instável O’Banion, atiradores irlandeses fizeram-lhe uma emboscada e deixaram-no por morto. Torrio sobreviveu, mas a sua decisão de se reformar permitiu a Capone assumir totalmente as rédeas da organização.

Lucky’ Luciano
Devido à sua ação na II Guerra Mundial, o patrão da Máfia de Nova Iorque viu a sua pena de prisão ser comutada. Tornou-se também uma celebridade. Mas, ao contrário de Al Capone, nunca chegou a ser retratado na capa da revista Time

A guerra atingiu o auge no Dia de São Valentim de 1929. O massacre a tiros de metralhadora de sete homens numa garagem da zona norte incluiu todos os tenentes principais de Moran. Capone estava evidentemente implicado, claro, mas nunca foi acusado.

Capone gabava-se abertamente dos jornalistas que tinha no bolso. Mas não precisava de subornar jornalistas para escreverem sobre ele. As suas atividades e tropelias tinham uma notável difusão a nível nacional. Ele adorava a atenção das câmaras e dava liberalmente entrevistas. Vestia-se de modo berrante, um facto que reconhecia e no qual se deleitava. A persona pública de Capone era desarmante e até encantadora. “Toda a sua postura”, observou um jornalista, “é de uma criança grande”. Poderia facilmente convencer um incauto de que era tão “inofensivo quanto um grande são-bernardo”. Também tinha sentido de humor, um traço que refletia a crueza do que o rodeava. Ao chegar a Chicago, mandara fazer cartões de visita enquanto trabalhava à porta do Four Deuces de Torrio, que o apresentavam como Al Brown, vendedor de móveis em segunda mão. Quando lhe perguntaram que tipo de móveis vendia, respondeu: “Qualquer velharia onde um homem possa querer deitar-se.” Esta fachada ocultava apenas em parte uma verdade essencial sobre Capone: ele matava sem hesitação nem remorso.

Tendo cometido o seu primeiro homicídio na adolescência, atraiu três dos seus próprios capangas para uma festa privada, drogou-os, e a seguir massacrou-os com um taco de basebol.

A história das mortes do taco de basebol foi uma das muitas repetidas na primeira biografia publicada de Capone, em 1930. O autor, Fred Pasley, repórter do Chicago Tribune, também dava credibilidade a histórias menos prováveis, como a alegação de que Capone tinha combatido em França durante a guerra (uma história que ele usou mais do que uma vez para justificar as cicatrizes que tinha na cara). O retrato de self-made man feito por Pasley ainda fascinava o público muito depois da queda de Capone. Muitos partilhavam da convicção de Pasley de que ele revolucionara “o crime e a corrupção”, dando-lhes uma natureza mais eficiente e pragmática. E, realmente, a noção de Capone como um Henry Ford hipermalévolo condizia com os tempos.

A produção e o consumo em massa tinham alterado as vidas de todos os americanos na década de 20 do século XX. Ironicamente, a primeira narrativa ficcional da sua vida, o romance Scarface, não oferece lições alegóricas aos leitores. Lançado no mesmo ano que a biografia escrita por Pasley, a história do autor Armitage Trails sobre o gangster Tony Camonte é pura literatura de cordel. Camonte, tal como Capone, virá a tornar-se poderoso e célebre, mas a sua dramática ascensão e queda pouco tem de declaradamente moralizante.

Homens da Lei
Harry Anslinger (ao centro) foi quem primeiro percebeu os tentáculos do comércio moderno de narcóticos.No entanto, ficou menos famoso do que Eliott Ness, o homem que perseguiu Al Capone

Hollywood manteve toda a emoção das interpretações de Pasley e Trail da vida de Capone, mas acrescentou doses muito mais pesadas de piedade. Antes de Hawks terminar Scarface, foram lançados dois outros filmes: O Pequeno César e Inimigo Público. César e Inimigo continham apenas vagas referências a Capone. Os desempenhos dos protagonistas de cada um dos filmes – Capone, Paul Muni, Edward G. Robinson e James Cagney – não deixam dúvidas sobre quem inspirou as suas personagens.

Ao contrário do Capone da vida real, a personagem principal de cada um dos filmes tem uma morte violenta. A falta de ambiguidade era intencionalmente crua. Sob a sombra da Depressão, Hollywood queria que os espectadores saíssem das salas com a mesma lição: não cedam ao dinheiro fácil. O crime não compensa.

Os críticos estrangeiros, como muitos nos Estados Unidos, tiveram dificuldade em ver além da violência de Scarface. Um crítico do Times de Londres entendeu que a Metro-Goldwyn-Mayer tinha o desejo declarado de expor os espectadores à “selvageria do mundo dos gangsters”, a fim de o denegrir aos olhos do público. “Isso, claro, é um disparate.” Scarface, do ponto de vista do crítico, era “uma exploração brilhante e desprovida de escrúpulos das possibilidades dramáticas da guerra de gangues”. Não era de modo algum “um panfleto de ética social” para os espectadores levarem para casa e digerirem.

No entanto, o filme tinha pontos positivos. Estava bem interpretado e bem filmado, embora fosse confusa a razão por que a personagem principal tratava a irmã com “uma possessividade tão estranha e feroz”.

As alusões propositadas de Hawks ao incesto podem ter passado ao lado de muitos espectadores, mas a sua dramatização da vida de Capone sintonizou-se com um surto internacional de fascínio. Na era da rádio, noticiários de cinema e divulgação crescente, a violência da terra dos gangues americana cativava o interesse das pessoas em todo o mundo. Capone tornou-se o seu rosto mais reconhecível. Os observadores estrangeiros, porém, retiravam lições diferentes do que estava a acontecer em Chicago e noutros lugares dos Estados Unidos. “Não temos de desdenhar esta América que deixa andar à solta os seus criminosos mais proeminentes”, aconselhava um editor alemão aos seus leitores. Também eles tinham os seus demónios, como os irmãos Sass, que foram acusados de uma série de roubos em Berlim no final da década de 20 do século passado. Os irmãos Sass não atingiam a estatura de Capone. Mas também eles raramente passavam mais do que poucas semanas na prisão apesar de “toda a gente saber deles”. Um comentador francês concordava. Não havia dúvida de que os “‘bandidos de Chicago’ estavam na ribalta da imaginação popular” devido à influência do cinema e dos romances em fascículos. Mas, na verdade, estes “luxuosos bandidos americanos não são mais [nem] menos sanguinários e brutais do que os vilões apaches de outras grandes cidades do mundo”. Pegando na deixa dos relatos europeus, um diário turco coroou Capone “o rei dos bandidos” da América. Escrevendo num país onde os bandidos à antiga ainda aterrorizavam o interior, um comentador achava chocante que o banditismo tivesse tirado as vidas a mais de 12 mil americanos.

Capone era uma “ameaça exemplar à civilização americana”, mas não estava só. Afinal, Arnold Rothstein chegara a ser “tão poderoso quanto o Presidente americano”.

Máfia americana internacionaliza-se

As “Famílias”
Durante a década de 20 do século XX, algumas organizações desenvolveram grandes esferas geográficas de influência, com Al Capone a conhecer uma posição dominante, apesar das suas inúmeras passagens pelas esquadras de polícia

Eliot Ness não gostava menos dos holofotes que Alphonse Capone. Fazia tudo para ter equipas de filmagens a postos quando organizava rusgas em bares clandestinos por toda a Chicago. E, contudo, o homem que inspirou o filme e a série televisiva Os Intocáveis não foi o homem que colocou Capone atrás das grades. Essa honra coube a Elmer Irey, chefe da autoridade executiva do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. Foram os seus agentes que investigaram os registos financeiros de Capone e recolheram provas que documentavam os seus pagamentos em falta à autoridade tributária. Na elaboração do caso, os promotores de acusação puxaram à emoção do júri, aconselhando os jurados a não ver os crimes do arguido como inofensivos ou inconsequentes. Capone, insistiram, não era Robin Hood. Não comprara 6 500 dólares de carne ou 8 000 dólares de fivelas de cinto para beneficiar aqueles que a Depressão deixara desempregados. Enquanto os cidadãos comuns que ganhavam muito menos pagavam o que deviam, Capone escondera a sua exorbitante fortuna, gastando-a consigo próprio. As suas transgressões importavam pelo significado que tinham para o bem comum. A letra da lei tinha de ser aplicada na totalidade, independentemente da aparente trivialidade. Todos os cidadãos tinham de comunicar voluntariamente os seus rendimentos e pagar o que deviam. De outro modo, advertiu-se o júri, a justiça desapareceria e a sociedade organizada regrediria “ao estado selvagem”. 

A vitória obtida por Irey e pelos procuradores federais refletia uma verdade mais profunda sobre a natureza do Estado americano nesta época. Sob a Presidência de Herbert Hoover, os braços do governo federal cresceram em tamanho e força.

No final da década de 20 do século passado, o Departamento do Tesouro, ao qual pertenciam Ness e Elmer, possuía a autoridade e o financiamento necessários para esmagar contrabandistas como Capone. Em 1930, o seu Bureau de Proibição empregava cerca de quatro mil pessoas e tinha um orçamento de treze milhões de dólares. Anos antes, J. Edgar Hoover tomou conta do que então se chamava Bureau de Investigação. Sendo um gabinete executivo inicialmente encarregado de policiar a escravatura branca ao abrigo da Lei Mann, o bureau de Hoover era mais pequeno, e em 1930 tinha um orçamento de apenas dois milhões de dólares. A sua recente cruzada contra assaltantes de bancos e inimigos públicos como Machine Gun Kelly e Babyface Nelson popularizou-o na América. Assim, o seu orçamento aumentou para uns ainda modestos cinco milhões de dólares. Não obstante, a influência de Washington sobre as autoridades e administrações locais estava em expansão.  

Mais do que qualquer outra coisa, foi a exaustão do público americano o que pôs fim à tirania da Proibição. A rescisão da Décima Oitava Emenda, em 1933, foi saudada com cenas de alegria louca. Para aqueles que tinham acumulado fortunas com o contrabando de álcool, os esforços para reconverter o negócio das bebidas já tinham começado. Alguns procuravam reinvestir em negócios legítimos ou em esquemas mais estáveis, como a extorsão laboral. Outros esgueiraram-se para a obscuridade. Outros ainda foram para a prisão. Em Nova Iorque, uma revolução política varreu o submundo. Em 1934, os eleitores da cidade elegeram para mayor o republicano Fiorello La Guardia.

La Guardia, ele próprio filho de imigrantes sicilianos, ganhou reputação ao desmascarar mafiosos e os políticos que os protegiam. A ajudar a sua vantagem como reformador estava a nomeação de um procurador do Ministério Público republicano, Thomas Dewey, que enfrentou a indústria do vício da cidade.

Com a ajuda da primeira vice-procuradora afro-americana da cidade, Eunice Carter, Dewey condenou Lucky Luciano com a acusação de gerir prostitutas. Em 1936, um juiz de Nova Iorque condenou-o a não menos de 30 anos de prisão. Dewey dedicou-se então a ajudar ao colapso de uma das organizações mais temidas da cidade, a Murder Inc. O seu dirigente, Louis “Lepke” Buchalter, fora essencial para consolidar a posição da Murder Inc. como força dominante no tráfico de drogas e nos esquemas laborais na cidade de Nova Iorque. No final da década, acusações bem-sucedidas e mortes misteriosas tinham dizimado as fileiras da Murder Inc. Thomas Dewey certificou-se de que Lepke morresse na cadeira elétrica em 1944.

O encarceramento de Luciano e a morte de Al Capone às mãos da demência sifilítica foram apenas percalços para as organizações criminosas nascidas sob a Proibição. O domínio do submundo de Chicago passou para um consórcio de veteranos das Guerras da Cerveja, incluindo homens como Jake Guzik e Frank Nitti. O suicídio de Nitti, em 1944, abriu caminho para um afluxo de sangue fresco à cabeça do que viria a chamar-se o Outfit de Chicago. Assumindo a parte de leão das responsabilidades estava Joe Accardo, um dos supostos atiradores no massacre do Dia de São Valentim, e Sam Giancana, o seu protegido.

Hollywood
O filme Scarface foi declaradamente inspirado em Al Capone, mas O Pequeno César e Inimigo Público continham apenas vagas referências ao patrão da Máfia de Chicago. Mas os desempenhos dos protagonistas de cada um dos filmes – Paul Muni, Edward G. Robinson e James Cagney – não deixam dúvidas sobre quem inspirou as suas personagens

As Cinco Famílias de Nova Iorque também sofreram mudanças em termos de chefias e orientação. Mas estas, juntamente com outros baluartes da era da Proibição, começavam a pensar em grande. Durante a década de 20 do século XX, algumas organizações desenvolveram grandes esferas geográficas de influência. Com Capone, Chicago reinava sobre grande parte do Centro-Oeste americano. A sua aquisição de uma grande propriedade na Flórida, bem como a compra, por parte de Lansky, de uma pista de corridas de cavalos em Miami, foram marcos na relação nascente deste estado com o crime organizado. Durante um célebre conclave de gangsters, Johnny Torrio lançou a ideia de um entendimento mútuo em termos de expansão.

O país era suficientemente grande para que houvesse “cidades abertas”, onde as famílias do norte e do leste fossem livres para explorar oportunidades. E os gangsters já estavam de olhos postos em cidades a oeste do Mississípi.

Entre os primeiros a chegar ao Pacífico estava Jack Dragna. Na juventude, Jack alternava entre Nova Iorque e a sua Corleone natal, na Sicília. Ganhou corpo como membro da família de Giuseppe Morello, mas saiu da cidade para fugir à lei. Extraordinariamente, chegou a Los Angeles em 1915 sem conhecer ninguém e sem qualquer plano aparente para ter sucesso. No final da década de 20 do século passado, o controlo do comércio do vício na cidade levava a gente dos jornais a chamar-lhe o “Al Capone do Oeste”. A jovem família de Dragna foi gradualmente acolhendo outros vindos do leste. Uma chegada digna de nota foi a de Johnny Roselli. Após uma temporada com Capone em Chicago, Johnny adotou a Califórnia e a oportunidade de reinvenção. Repudiou a agressividade grosseira associada à imagem de gangster do tipo de Capone. Empenhou-se em perder o sotaque e adotou uma aparência mais elegante e cuidada. “O Johnny era muito observador”, recordava um amigo, “e, obviamente, quando era bastante jovem, percebeu que as boas maneiras, o bom aspeto, os gestos apropriados, os vinhos aconselháveis, a boa comida, tudo isso, eram muito importantes para quem queria ser um cavalheiro”. E acabou por dar bom uso à sua experiência. Enquanto mantinha ligações estreitas com as famílias de Nova Iorque e de Chicago, abriu caminhos em Hollywood como corretor de apostas e fura-greves. 

Os passos de Roselli seriam em breve seguidos por Bugsy Siegel. O contrabandista de álcool nova-iorquino chegou também na expectativa de um novo começo – um anseio que Roselli ajudou a satisfazer. Os dois não tardaram a travar amizade.

Antes do final da década de 30 do século XX, ambos os gangsters atendiam à indústria e às necessidades de vedetas e executivos de Hollywood. Os dois uniram então forças para comprar uma pista de corridas em Tijuana, no México. Esta aquisição alimentou os apetites e as ambições de Siegel. A sua primeira incursão em Las Vegas deu-se quando, juntamente com Meyer Lansky, comprou um hotel na cidade. Havia casinos no que viria a ser Vegas Strip, mas o local “estava num estado lastimoso”, recordava Lansky. “As condições de vida eram más. Ninguém queria ir jogar a Las Vegas. As ligações aéreas eram deficientes. E a viagem por estrada era incómoda. O calor era tanto que os fios dos carros derretiam.” Siegel tinha outra visão. Em 1945, usurpou o plano de um investidor para construir uma estância de luxo, o Flamingo. Durante os dois anos seguintes, deu tudo ao projeto. O cantor e dançarino Jimmy Durante encabeçou a primeira noite de entretenimento, em dezembro de 1946, e um desfile de talentos de Hollywood compareceu à inauguração.

Os entendidos da indústria elogiaram Las Vegas como uma versão mais limpa e glamorosa da Barbary Coast de São Francisco. No entanto, a realização deste sonho valeu a Siegel dívidas tremendas e inimizades. Homens armados certificaram-se de que a sua glória fosse breve.

É quase certo que Meyer Lansky soubesse do assassínio do amigo de infância e o aprovasse. O dinheiro que ele e outros figurões da Costa Leste tinham investido na construção do Flamingo tornou-os sócios passivos por muitos anos. Quando Siegel foi morto, em 1947, Lansky já se transformara numa espécie de magnata internacional do jogo. No início da década de 30 do século passado, financiou um casino na cidade de corridas e lazer de Saratoga, um lugar que tinha anteriormente acolhido Arnold Rothstein. Viu oportunidades ainda maiores em Cuba. À chegada, Lansky encontrou o país enfraquecido pela Depressão e por uma mudança violenta de governo. Antes do crash de 1929, os promotores locais tinham atraído legiões de turistas americanos para a ilha, com ofertas de sexo barato, rum acessível e vida fácil. Na última fase da Depressão, as coisas começavam a mudar. O clima tenso que se seguiu a um golpe de 1933 levou as empresas de turismo a advertir os passageiros de que os navios de cruzeiro só atracavam em Havana “se as condições permitirem”. Lansky divisou um plano para ajudar a revitalizar os casinos de Havana e reanimar a indústria turística do país. Com a contribuição financeira de Bugsy Siegel e de Moe Dalitz, antigo contrabandista de álcool de Cleveland, Lansky comprou quotas no Hotel Nacional e noutros estabelecimentos de jogo. Não havia nada de ilegal no interesse crescente de figuras da Máfia em Cuba. Com o apoio do ditador Fulgencio Batista, Lansky e outros gangsters americanos enriqueceram, mantendo-se fora do alcance de Thomas Dewey e dos agentes da autoridade tributária dos Estados Unidos.

Também estabeleceram um novo padrão para o turismo internacional. Os seus hotéis e casinos eram elegantes, bem geridos e economicamente acessíveis. Havana era acessível por via aérea e marítima, o que a tornava ideal para os turistas chegados de mais longe. Foi por estes padrões que Las Vegas foi mais tarde avaliada.

O início da Segunda Guerra Mundial tolheu, mas não deteve, a ressurgência de Havana. Com a entrada da América no conflito, em 1941, o patriotismo impeliu alguns mafiosos a juntar-se à luta. Moe Dalitz, o sócio de Lansky em Cuba, alistou-se e ascendeu ao posto de segundo-tenente enquanto supervisionava o departamento de lavandaria do exército. Concluída a guerra, Dalitz apoiou-se na sua folha de serviços e restabeleceu-se como o financiador legítimo do Desert Inn Resort and Casino, em Las Vegas. Para “Lucky” Luciano e outros em Nova Iorque, a participação no esforço de guerra aconteceu por acaso. Em fevereiro de 1942, um vapor de passageiros atracado da doca de Manhattan incendiou-se. A investigação ao incidente foi inconclusiva. Não obstante, a Marinha dos Estados Unidos receou que tivesse sido sabotagem. Para prevenir ataques futuros, os agentes de contrainformação foram autorizados a abordar membros do submundo de Nova Iorque. Meyer Lansky agarrou a oportunidade de ajudar. Antes da guerra, organizava espancamentos de simpatizantes nazis. Agora ofereceu-se como intermediário entre o governo e Luciano. Da sua cela de prisão no norte do estado de Nova Iorque, Lucky aceitou dar assistência aos esforços da Marinha no policiamento da atividade dos estivadores nas docas da cidade. Lansky intermediou acordos semelhantes com outros patrões das famílias de Nova Iorque para o estabelecimento de operações de vigilância em cafés, hotéis e bares locais. Em troca dos seus serviços, alguns agentes do governo ajudavam a cobrar dívidas em nome de Luciano.

“Entregavam o dinheiro que recolhiam e foram sempre honestos nas suas ações”, vangloriou-se mais tarde Luciano.

“Acho que foi a primeira vez que a Marinha dos Estados Unidos ajudou diretamente a Máfia.” Luciano obteve uma farta recompensa pela sua assistência. Em 1946, Thomas Dewey, agora governador do estado de Nova Iorque, comutou-lhe a sentença e libertou-o. Os oficiais da Marinha que o empregaram durante a guerra mostraram-se defensivos ao falar com a imprensa sobre essa colaboração. “Luciano foi como todos os informadores utilizados pelo nosso trabalho de espionagem”, alegou um deles. “Não fez mais do que qualquer bom cidadão americano teria feito.” Apesar de ter sido deportado para Itália pelo governo como estrangeiro indesejável, Luciano não cortou com a sua vida antiga. No início de 1947, circulavam rumores nos jornais de que ele estava em Cuba “a fazer um negócio de narcóticos”. No oeste, os repórteres citavam a morte de um “cabecilha mexicano da droga” como indício da “tomada pela Máfia do comércio mexicano de droga”.

O assassínio parecia ser a prova definitiva de que Lucky Luciano, tido como patrão “da Máfia”, exercia influência além dos Estados Unidos. O submundo americano era uma poderosa força internacional.

As autoridades americanas estavam sem dúvida na origem destas revelações. Contudo, a narrativa alargada que ligava Luciano ao comércio de droga foi quase exclusivamente obra de um homem. Antes da Segunda Guerra Mundial, a estatura de Harry Anslinger no combate ao crime era pequena em comparação com a de J. Edgar Hoover. A sua agência, o Bureau Federal de Narcóticos (FBN), era pequena e recebia muito menos atenção mediática do que o FBI de Hoover. Mas, nos últimos tempos da Proibição, os homens de Anslinger foram encarregados de policiar a venda e o consumo de drogas nos Estados Unidos. Ao contrário de Hoover, Anslinger estendeu a sua luta à Europa, à Ásia e à América Latina. Os arquivos dos seus casos neste período constituem os alicerces de muito do que sabemos sobre o comércio moderno de narcóticos e as suas origens. Foram as suas investigações, juntamente com os seus fiáveis agentes, que apresentaram ao mundo Elie Eliopoulos e os traficantes de entre guerras. O contributo de Anslinger para a aplicação da lei não parou aí. Foi ele, mais do que Al Capone ou qualquer outra figura no século XX, quem definiu a importância da Máfia no nosso tempo.

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Pela primeira vez na democracia portuguesa, um Presidente da República foi eleito no meio de uma crise climática severa, sem paralelo recente na História. Portugal escolheu o seu novo Chefe de Estado enquanto o País era atravessado por um comboio de tempestades, classificação usada pelas Nações Unidas para descrever a sucessão encadeada de sistemas extremos ainda ativos no território. A eleição não aconteceu apesar da crise, aconteceu dentro dela.

A vitória de António José Seguro não resolve, por si só, os impasses da transição climática. Em Portugal, a Presidência da República não define nem executa políticas públicas setoriais, incluindo medidas de adaptação ou descarbonização. Essas competências pertencem ao Governo e à maioria parlamentar que o sustenta. A Constituição atribui, contudo, ao Presidente um papel determinante na gestão política e institucional de crises, designadamente na declaração e na legitimação dos estados de emergência e na condução simbólica do País em momentos críticos.

Quando o tempo político e o tempo climático se alinham

Projeções do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas da ONU (IPCC) e da Organização Meteorológica Mundial (OMM) indicam que os próximos cinco anos deverão situar-se entre os mais quentes já registados, com elevada probabilidade de novas ultrapassagens temporárias do limiar de 1,5°C e intensificação de eventos extremos. É neste ponto que o tempo político e o tempo climático se alinham. O Presidente assume funções num contexto de crise climática já instalada e num horizonte temporal em que, segundo a Ciência, o risco tende a agravar-se ao longo dos próximos cinco anos.

Em Portugal, este cenário traduz-se em maior exposição a ondas de calor prolongadas, secas severas, grandes incêndios florestais e episódios de precipitação extrema, com impactos diretos na saúde pública, nas infraestruturas, na economia e na coesão social. O risco não é projetado para um futuro distante. É acumulado.

A Ciência é clara quanto às causas. O aquecimento global resulta maioritariamente da atividade humana, em particular da queima de combustíveis fósseis e das alterações no uso do solo. Segundo o IPCC, o planeta já aqueceu cerca de 1,1°C acima dos níveis pré-industriais, aproximando-se do limiar definido no Acordo de Paris.

Os dados mais recentes da OMM confirmam que esta trajetória está a acelerar. Os anos de 2024 e 2025 figuram entre os mais quentes já registados, com temperaturas oceânicas e concentrações de dióxido de carbono em níveis recorde. Nalguns destes anos, o aquecimento global ultrapassou temporariamente o limiar de 1,5°C. A ultrapassagem é episódica, ainda não estrutural, mas o sinal é inequívoco: a probabilidade de cenários de risco elevado está a aumentar.

Península vulnerável às alterações climáticas

Portugal continua a enfrentar este ciclo de instabilidade atmosférica. As depressões sucessivas, batizadas como Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo e Marta, atingiram o território em cadeia, com impactos acumulados sobre solos já saturados, infraestruturas fragilizadas e populações expostas. Não se trata de episódios isolados, mas de um padrão em curso, marcado pela persistência e pela sobreposição de eventos extremos.

A Península Ibérica é uma das regiões europeias mais vulneráveis às alterações climáticas. O aumento da frequência e da intensidade das ondas de calor, o agravamento da seca e o risco acrescido de incêndios florestais correspondem aos padrões projetados para regiões de clima mediterrânico em aquecimento. Os efeitos já se refletem na saúde pública, na segurança hídrica, na agricultura, na habitação e nas infraestruturas críticas, um alerta reiterado também pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

O resultado eleitoral ocorreu sob esta pressão física e política contínua. Seguro venceu com cerca de 67% dos votos, numa margem histórica que afastou a extrema-direita da Presidência da República e do papel de árbitro institucional em momentos de crise. O resultado não configura um mandato climático explícito, mas traduz a rejeição de discursos de negação científica e de estratégias que procuraram empurrar o clima para fora da decisão pública, apesar da evidência no território.

Durante a campanha, o Chega apresentou uma abordagem restrita à questão climática. As propostas centraram-se em soluções económicas fragmentadas, sem integração de políticas públicas estruturadas de mitigação, adaptação, ordenamento do território ou gestão do risco. A Ciência foi marginalizada enquanto base de decisão e o Estado reduzido a um papel secundário. O afastamento desta visão da Presidência da República tem, por isso, um significado político e institucional relevante.

Ciência, medo e risco climático

Nos próximos cinco anos, o desafio central da Presidência não será fazer política climática, mas assegurar liderança institucional num contexto de emergência recorrente. Isso implica legitimar decisões excecionais, enquadrar socialmente estados de emergência, proteger a centralidade da Ciência e impedir que a gestão do risco climático se transforme em terreno fértil para o medo, a desinformação ou o autoritarismo.

A experiência recente oferece um precedente claro. Durante a pandemia de Covid-19, Marcelo Rebelo de Sousa desempenhou um papel decisivo na condução política dos estados de emergência e na comunicação direta com a população, num momento de forte pressão social. A presença constante, a pedagogia pública e as mensagens de coesão – “É uma tarefa de todos e não de cada um abandonado à sorte”, “Não podemos, neste momento decisivo, baixar a guarda. E é nesse sentido que eu queria agradecer aos portugueses o que mostraram ontem, esperando que continuem a mostrar hoje, amanhã, no domingo e na segunda” – ajudaram a sustentar a confiança democrática em tempos difíceis. É plausível que, num cenário de alterações climáticas em aceleração, a Presidência volte a ser chamada a desempenhar uma função semelhante, agora perante emergências climáticas sucessivas, com impactos desiguais sobre diferentes grupos sociais.

A eleição presidencial não encerra o debate climático em Portugal. Pelo contrário, inaugura um ciclo em que o risco climático, já presente no quotidiano, exigirá respostas mais claras, coerentes e politicamente sustentadas. Pela primeira vez, um Presidente inicia o seu mandato no meio de um comboio de tempestades. É nesse contexto que será testada a capacidade da democracia portuguesa para governar o risco climático como política de Estado.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

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