À vista de um leigo, a descarga da azeitona para os tegões tem o seu quê de encantatório se nos deitarmos à adivinhação sobre quais serão as variedades que dão origem ao Azeite de Moura DOP, “o primeiro com Denominação de Origem Protegida em Portugal, uma certificação obtida há 30 anos”, diz Hélder Transmontano, diretor-geral da Cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos.

Carregamento atrás de carregamento, este fruto, incluído na Dieta Mediterrânica, é trazido pelos olivicultores associados, cerca de 1300 num universo de 4000 sócios. E assim há de continuar a acontecer até ao final de janeiro, quando terminar a campanha iniciada em novembro.

O ritual repete-se há 70 anos, nesta que é a maior cooperativa olivícola do País, com 20 mil hectares de olival na sua área de abrangência, e o maior e mais moderno lagar. Este ano, “a produção estimada é de cerca de 40 mil toneladas de azeitona e de quase 6500 toneladas de azeite”, diz o presidente da instituição José Duarte.

Apanha da azeitona em olival tradicional. Foto: DR

O Azeite de Moura DOP é feito exclusivamente com as variedades Cordovil de Serpa, Galega e Verdeal Alentejana, “um azeite maduro, com algum picante, um pontinho de verde folha, a fazer lembrar a planta de tomateiro, conjugada com um toque subtil de maçã e notas de amêndoa e frutos secos,” explica a cicerone da nossa prova de azeites, feita na loja da Cooperativa, um dos pontos de paragem da nova Rota do Azeite de Moura, lançada no final de novembro.

Pé no olival

Como se escreveu em cima, na loja da Cooperativa pode fazer-se a prova do azeite de Moura e ficar a conhecer um pouco da sua história. Mas bom, bom mesmo, é fazer o percurso pedestre de três quilómetros sugerido na nova rota lançada pela Câmara Municipal de Moura. Com grau de dificuldade fácil, a volta pede tempo, como tudo no Alentejo, aliás, e deve ser feita durante a campanha da apanha da azeitona, para se apanhar todo o ciclo produtivo.

O passeio começa numa extrema, num olival tradicional desta cidade, conhecida como terra mãe do azeite no Alentejo. O seu património olivícola inclui não só os olivais mas também o Lagar de Varas de Fojo, convertido em museu e testemunho do fabrico de azeite no século XIX, e o Jardim das Oliveiras. Localizado em frente ao lagar-museu, dá a conhecer as diferentes variedades desta árvore, incluindo uma oliveira albina, onde as azeitonas nascem verdes e, ao amadurecerem, vão ficando brancas.

As ruas floridas da cidade. Foto: Luís Barra

Com sete pontos de passagem, a Rota do Azeite de Moura, que também inclui locais ligados à produção, defesa, promoção e comercialização do azeite, é um passeio entre o campo e o coração da cidade que se pode fazer autonomamente, de mapa na mão, ou numa visita guiada, orientada pelos funcionários do Posto de Turismo (mediante marcação).

Aqui chegados, aproveite-se para percorrer as ruas de Moura. Sugerimos passar pela mouraria e pela zona das ruas floridas, descobrir a Igreja de São João Batista, Monumento Nacional, e subir ao castelo.

Vista do Castelo de Moura. Foto: Luís Barra

O roteiro gastronómico ficará para mais tarde, porque primeiro é preciso recuperar forças. O Hotel de Moura fica instalado no antigo convento da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, fundado no século XVII e adaptado para Grande Hotel de Moura no ano de 1900. O nome de Amália Rodrigues faz parte da lista de hóspedes ilustres – da varanda do quarto 101, onde pernoitou, cantou aos mourenses que chamavam por ela da Praça Gago Coutinho, também conhecida por jardim dos mal-encarados. 

Bendito azeite que chegas ao prato

Há coisa melhor do que começar uma refeição a molhar o pão num bom azeite? É assim em vários restaurantes da cidade, incluindo na Taberna O Barranquenho, que casa as tradições alentejanas com o vinho e os petiscos. Há três anos, o jovem Luís Rico deu nova vida a esta antiga tasca e transformou-a num lugar diferente dos que havia em Moura, evocando a tradição tauromáquica e o artesanato tradicional, na decoração, e o cante alentejano, todas as quintas-feiras com atuações de vários grupos e artistas. A carta, inspirada no receituário familiar, apresenta sugestões como os ovos com batatas e lascas de presunto, o frango frito da Avó Bia, bem temperado e crocante, e os saborosos calamares do Tio Estêvão.

Em Moura, há bons sítios para comer, como o Andre’s, junto ao jardim dos mal-encarados. O negócio familiar, com André na sala e a mulher, Laura, na cozinha, é uma boa opção para os amantes de carne, seja uma posta do acém ou um t-bone de mertolenga, bem grelhado e suculento. Também servem um bom choco frito, no prato ou na versão sanduíche em bolo do caco, e um prego da alcatra, também em bolo do caco, e pratos do dia.

De portas abertas há mais de meio século, O Molho é uma referência da cozinha tradicional alentejana e mourense. A esta casa singela vai-se pelo sabor do cozido de grão com carne e chouriço, pelas costeletas de borrego bem fritinhas, pelo caldo de espinafres com bacalhau, ovo e queijo fresco, pelas migas de espargos com carne de porco preto. Os grelhados – lagartos, abanicos, plumas de porco preto – também são de levar em conta e chegam à mesa com gulosas batatas fritas caseiras.

Avios na mercearia

Com azeite, essencial na gastronomia portuguesa, e mais ainda na alentejana, faz-se o tradicional Bolo Podre e os biscoitos de azeite, uma bela açorda alentejana e migas gatas, conservam-se as azeitonas, para que se possam consumir durante todo o ano, e confeciona-se um gaspacho, que tão bem sabe no verão. Muitos destes pratos e doces provam-se nos restaurantes. mas também se levam para casa.

Azeite da Cooperativa Agrícola Moura e Barrancos. Foto: DR

Na centenária Casa Cavalheiro, do casal Manuel Luís e Gina, destacam-se os enchidos artesanais produzidos na casa e a variedade de artigos de artesanato, dos cestos de vime aos taleigos alentejanos. Já a mercearia catita de D. Amália e do Sr. Herberto Telo (na mesma praça do restaurante Andre’s) está recheada de produtos locais, dos bolos, enchidos e queijos aos vinhos e pão fresco. Trazer uma destas iguarias é uma boa forma de recordar esta viagem, cheia de aromas e sabores.

Entre o olival e a cidade: Pontos de paragem para explorar

Rota do Azeite

Olival tradicional > Estrada dos Escoteiros

Olival moderno > R. de São Sebastião

CEPAAL – Centro de Estudos e Promoção do Azeite do Alentejo > Pç. Gago Coutinho, 2

Jardim das Oliveiras > R. S. João de Deus, 17 > seg-dom 9h-12h30, 14h-17h30

Lagar de Varas do Fojo > R. S. João de Deus, 20 > T. 285 253 978 > seg-dom 9h-12h30, 14h-17h30 > grátis

Cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos > R. Forças Armadas, 9 > T. 285 250 720

Loja da Herdade dos Coteis > R. de S. Lourenço, 4 > T. 285 253 363

Fora da rota

Andre’s > Pç. Gago Coutinho, 6A > T. 96 637 2119 > qui-seg 12h-15h, 19h-22h, qua 19h-22h

O Molho > R. Nova do Carmo, 11 > T. 285 252 895 > ter-dom 12h-16h

Taberna O Barranquenho > R. de S. Lourenço, 2 A > T. 96 146 3813 > qua-sex 11h-15h, 17h-1h, sáb-dom 11h-1h

Hotel de Moura > Pç. Gago Coutinho, 1 > T. 285 251 090 > a partir de €40

Loja da Esquina > Pç. Gago Coutinho, 14 > T. 92 512 4193 > seg-sex 7h30-13h, 15h-19h, sáb 7h30–13h  

Casa Cavalheiro > Lg. da Latôa, 21 > T. 96 582 4974 > seg-sex 9h-13h, 15h-19h, sáb 9h-19h

Quando partiram de férias para a Grécia, as amigas Isabel, Ema, Laura e Inês, cada uma bem instalada na sua profissão, com 30 e 31 anos, não poderiam imaginar que trariam na mala a ideia maluca de se tornaram gerentes de um quiosque.

Já em Lisboa, onde todas vivem, embora nenhuma tenha nascido na capital, o souvenir transformou-se num contrato assinado. Depois, dedicaram-se a esvaziar o quiosque trespassado, a limpá-lo de cima a baixo, pintá-lo e a acrescentar-lhe uma pérgula que agora protege os clientes dos dias mais feios.

Em pouco menos de um mês, ficaram à frente do Las Ganas, que se esconde no Parque Urbano Vale da Montanha, perto do cruzamento da Gago Coutinho com a Estados Unidos da América, num pedaço verde pouco conhecido da cidade.

Antes, as amigas eram frequentadoras de quiosques e andavam sempre em cima de festas e de coisas giras para fazerem nos tempos em que não estavam a trabalhar nas áreas do imobiliário, nutrição, contabilidade ou finanças.

Agora, a ideia é passar esse frenesim para a agenda cultural do Las Ganas, embora ainda estejam algumas ideias por concretizar. E, já se sabe, sem bebida, não se consegue nada, por isso têm a carta repleta de cocktails e um cartão de 13 euros que dá para beber 10 imperiais.

De resto, há menus de almoço, com sopa, tosta e bebida (€8,80) ou com salada por mais um euro. Têm também pizzas, aperitivos, petiscos e algumas sobremesas.

Estão planeadas muitas atividades como concertos, quizzes ou sessões de jogos de tabuleiro

Como o quiosque está aberto de manhã à noite, os públicos vão mudando. Ao fim de semana, de dia, juntam-se as famílias, pois há um parque infantil mesmo ao pé. Logo de manhã, são os vizinhos do bairro. Ao final do dia, aparecem os que vêm beber um copo, ver um jogo de futebol (passam-nos todos), ouvir uma musiquinha quando há concertos ou dj set, participar de um quiz (a partir de janeiro, aos domingos, às seis da tarde) ou de um jogo de tabuleiro (todas as segundas, às 20h30).

Isabel Vieira, a porta-voz do grupo, confessou que gostaria que o quiosque se transformasse numa espécie de café da série Friends, em que as pessoas aparecem sem combinar porque sabem que haverá sempre por lá alguém conhecido.

Quiosque Las Ganas > Parque Urbano do Vale da Montanha > T. 96 678 0330 > seg-dom 11h-23h

Na sessão de lançamento deste Vinil, no atelier da artista Joana Vasconcelos (filha do autor), em Alcântara, Lisboa, Jorge Pereirinha Pires (autor do posfácio) disse que Luís Vasconcelos foi uma das pessoas que mais contribuiu para construir uma imagem da música portuguesa nos anos 80, com destaque para o célebre boom do rock nacional – simbolicamente inaugurado com o sucesso do disco Ar de Rock, de Rui Veloso, lançado em 1980, com uma fotografia do autor deste livro na capa. Os mais distraídos poderão achar que é um desses exagerados elogios de circunstância, mas ao folhearem este novo livro vão sendo convencidos, página a página, de que a afirmação é totalmente justa.

Podia não ter sido assim. Luís Vasconcelos vivia em Paris, onde criou uma editora de livros, a Germinal, quando a explosão de liberdade do 25 de Abril aconteceu em Lisboa. No dia 29 de abril de 1974 chegava a uma cidade em festa, que ele não conhecia lá muito bem. A juventude, e a descoberta da paixão pela fotografia, tinha acontecido na Beira, Moçambique, e tinha passado um ano e meio no Porto, a estudar Arquitetura, antes de, como muitos, dar o salto para a Europa livre, escapando à Guerra Colonial.

No regresso a Portugal fez-se, rapidamente, fotojornalista de agência (na ANOP, Notícias de Portugal e, finalmente, na Lusa, quando esta foi criada, em 1986; mais tarde marcaria as redações do Público e da nossa VISÃO, onde esteve de 1999 a 2008).

Mas a música cedo se intrometeu no seu quotidiano de fotógrafo, não só na cobertura de concertos em Portugal e no estrangeiro mas também como fotógrafo muito solicitado pelas editoras para imagens de promoção e capas de discos num fervilhante meio musical, ansioso por novidades e por dar a banda sonora certa a um Portugal democrático, sintonizado com o mundo contemporâneo.

São esses dois registos – as poses ensaiadas e a espontaneidade nos palcos, não só de artistas nacionais – que fazem a força deste Vinil, grande viagem no tempo, a preto-e-branco e a cores.

Vinil (Tinta-da-China, 156 págs., €54,90) inclui mais de 130 fotografias de Luís Vasconcelos a músicos portugueses e estrangeiros realizadas nos anos 70 e 80 do século passado. O único texto nessas páginas é o posfácio de Jorge Pereirinha Pires que contextualiza o trabalho do fotojornalista que passou pela VISÃO, como editor de fotografia, entre 1999 e 2008

Ignorando todos os pedidos de cessar-fogo imediato, semana após semana, vindos de organizações de direitos humanos ou de países aliados, já para não falar do Tribunal Internacional de Justiça e das Nações Unidas, supostamente um farol mundial em matérias como a paz e a segurança, os direitos humanos ou a ajuda humanitária, Israel manteve-se firme, ao longo de todo o ano, no seu propósito de aniquilar o Hamas, arrastando para a morte, sob tal pretexto, mais de 45 mil palestinianos, a maioria crianças e mulheres, e impondo uma destruição brutal de uma ponta à outra da Faixa de Gaza.

O balanço de vítimas mortais é contabilizado desde o atentado de 7 de outubro de 2023 no sul de Israel, que desencadeou a ofensiva em larga escala sobre o território vizinho, com uma população estimada em quase 2,4 milhões antes dos acontecimentos dos últimos 15 meses. No atentado em solo israelita, cerca de 1200 pessoas foram assassinadas a sangue frio e outras 251 raptadas pela organização terrorista que controla Gaza desde 2007.

Genocídio? É a conclusão a que chegaram a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch, por identificaram uma intenção deliberada de destruir os palestinianos de Gaza LUSA/MOHAMMED SABER

Segundo um relatório do comité especial da ONU para a investigação de violações dos direitos humanos por parte de Israel contra o povo palestiniano, no início deste ano já tinham caído sobre a Faixa de Gaza “mais de 25 mil toneladas de explosivos, o equivalente a duas bombas nucleares”, o que “causou uma destruição massiva e o colapso dos sistemas de água e sanitário, devastação agrícola e poluição tóxica”.

Revelado a 14 de novembro, este relatório cobre o período do conflito até julho e concluiu que “Israel está intencionalmente a causar mortes” e a usar “a fome como arma de guerra”, “infligindo uma punição coletiva à população palestiniana”, ações “consistentes com as características de genocídio”.

Já neste mês de dezembro, a Amnistia Internacional (AI) e a Human Rights Watch (HRW) foram taxativas em classificar de genocídio o que está a acontecer em Gaza.

“Israel argumenta repetidamente que as suas ações em Gaza são legais e podem ser justificadas pelo objetivo militar de erradicar o Hamas, mas a intenção genocida pode coexistir com objetivos militares, não precisa de ser a única intenção”, sustentou Agnès Callamard, responsável máxima da AI, alegando que “as atrocidades” do atentado de 7 de outubro de 2023 “não podem nunca justificar o genocídio de Israel contra os palestinianos de Gaza”.

Na mesma linha, a ativista francesa dos Direitos Humanos defendeu que a presença de combatentes do Hamas entre a população não desobriga Israel de tomar “todas as precauções para poupar os civis e evitar ataques indiscriminados e desproporcionais”, acusando Israel de “manter um bloqueio sufocante e ilegal” sobre Gaza, além de “obstruir a entrega de ajuda humanitária”.

Em declarações à VISÃO, Jorge Moreira da Silva, o português que dirige a agência da ONU encarregada de coordenar a entrada e distribuição de bens essenciais em Gaza, confirma estas e outras dificuldades: “As quatro fronteiras abertas são insuficientes, o número de autorizações de Israel para os camiões circularem em Gaza é inferior ao necessário, mesmo com essas autorizações os veículos são afetados por bombardeamentos e, finalmente, a proliferação de assaltos a que se está a assistir nos últimos tempos, em virtude do desespero da população.”

Dor Imagens de sofrimento dos dois lados do conflito, que parece não ter fim à vista, apesar de decorrem conversações para um cessar-fogo
Guerra EUA lançam ajuda humanitária por via aérea na Faixa de Gaza, em março; soldados israelistas detêm um palestiniano nos territórios ocupados da Cisjordânia, no início do ano

A fome grassa, mas a desidratação é outro grave problema e está na base das conclusões da HRW, que escreve no seu relatório que “as autoridades israelitas obstruíram deliberadamente o acesso dos palestinianos às quantidades adequadas de água para a sobrevivência”, ao destruírem várias infraestruturas e inviabilizarem reparações dos danos causados.

“Isto não é só negligência. É uma estratégia calculada de privação que levou à morte de milhares de pessoas por desidratação e doenças, o que constitui nada menos do que um crime contra a Humanidade e um ato de genocídio”, declarou a diretora executiva da ONG, Tirana Hassan.

Regras do Direito Internacional “como as que referem que os civis e as infraestruturas não podem ser atacados não têm sido respeitadas”

Jorge Moreira da Silva

No âmbito das suas responsabilidades logísticas em Gaza, Jorge Moreira da Silva passou pelo território no início do ano e, entre o que viu e os testemunhos das equipas da ONU no terreno, não hesita em afirmar que “houve uma forte restrição do acesso a água, alimentos e medicamentos durante estes 15 meses”, ressalvando que as Nações Unidas deixam para a Justiça a classificação dos acontecimentos. Ainda assim, sublinha que “várias regras do Direito Internacional não têm vindo a ser respeitadas, nomeadamente as que referem que os civis não podem ser atacados nem as infraestruturas civis, como escolas, hospitais e habitações, podem ser alvo de bombardeamentos indiscriminados, assim como restrições à circulação de ajuda humanitária dentro de Gaza e o ataque a funcionários nas Nações Unidas e organizações humanitárias não estão em conformidade com essas regras”.

As Forças Armadas israelitas classificaram as acusações de genocídio como “infundadas” e lembraram que o Hamas viola a lei internacional quando “usa civis como escudos humanos e tem como alvos deliberados civis em Israel”. Grupos ligados ao Irão, como o Hezbollah e os rebeldes do Iémen, além do próprio Irão, também atacaram diretamente o território de Israel, em defesa do Hamas, alargando o conflito no Médio Oriente, sobretudo ao Líbano, onde o Hezbollah tem as suas bases e Israel entrou em força.

Guterres a falar sozinho

António Guterres tem sido das vozes mais ativas a condenar a investida israelita, mas parece ter sido só mais um a pregar no deserto durante todo este tempo, a ponto de Benjamin Netanyahu, o chefe do Governo israelita, ter deixado de lhe atender o telefone. Em janeiro, o secretário-geral da ONU salientou que “as operações militares de Israel espalharam destruição massiva e mataram civis numa escala sem precedentes” durante os oito anos que já leva no cargo. Em março, defendeu que “nada justifica os atos hediondos do Hamas no dia 7 de outubro”, assim como “nada justifica a punição coletiva do povo palestiniano”. Em julho, falou numa “situação de terror verdadeiramente dramática” e, dois meses mais tarde, classificou a Faixa de Gaza como “o lugar mais perigoso do mundo para a assistência humanitária”. Várias organizações de ajuda humanitária sofreram baixas, como a Médicos Sem Fronteiras ou a Save the Children, e muitas abandonaram o local. Só a ONU perdeu cerca de 230 funcionários no terreno.

“Apocalítica” foi o adjetivo que o português escolheu para descrever, já no início deste mês, a vida na Faixa de Gaza, que tem agora “o maior número de crianças amputadas ‘per capita’ do mundo”, com muitos dos feridos a serem “submetidos a operações cirúrgicas sem anestesia”.

Os bombardeamentos de Israel no Líbano, supostamente contra posições do Hezbollah, também atingiram os capacetes azuis da ONU e o exército libanês. Perante a chamada de atenção dos EUA, o então ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, desculpou-se com a proximidade de alvos do Hezbollah, que “usa missões de manutenção da paz como escudo para as suas atividades”.

Neste final do ano, decorrem negociações de paz no Qatar, e até tem havido sinais de algum otimismo de ambas partes no sentido de se chegar a um acordo desta vez, mas o conflito já dura há tanto tempo que manda a prudência não lhes atribuir muita importância até haver fumo branco.

Números do terror

Os reféns, as mortes e a devastação em Gaza

62

reféns que podem estar vivos
Segundo a BBC, é esta a expectativa das autoridades israelitas, num total de 96 do grupo inicial de sequestrados a 7 de outubro de 2023 que ainda se encontram retidos pelo Hamas.

45 mil

Mortos em Gaza
É a estimativa do Ministério da Saúde do Hamas, considerada credível pela ONU e pela Organização Mundial de Saúde. Há ainda mais de 10 mil desaparecidos, muitos sob os escombros, a que se soma o receio de o número real triplicar, devido às mortes indiretas, por fome, desidratação ou doença. Israel alega que matou cerca de 17 mil membros do Hamas.

88%

Das escolas foram danificadas
Tal como mais de metade das casas, 47% dos hospitais, 68% dos campos agrícolas e 80% do comércio, divulgou a Al Jazeera, com base em dados oficiais até 18 de dezembro.

Palavras-chave:

Testámos dezenas de produtos ao longo do ano, mas só os melhores dos melhores chegam a esta lista. Pela inovação que apresentam, pela conjugação de características únicas ou porque facilitam muito a forma como as pessoas usam e tiram partido da tecnologia. Mal podemos esperar para colocar à prova os sucessores.

Todos os produtos tecnológicos nesta lista foram galardoados com o prémio Produto do Ano, entregues no final de novembro no evento Os Maiores & As Melhores do Portugal Tecnológico.

As nódoas negras fazem parte da vida. São mais comuns na infância, fruto das brincadeiras da idade, e na velhice, porque os vasos sanguíneos ficam mais frágeis. Estes hematomas, que começam por ser vermelhos e, depois, assumem vários tons com o passar do tempo, como azul, preto, roxo, castanho, verde ou amarelo, são resultado de lesões nos vasos sanguíneos que causam hemorragia sob a pele, perto da sua superfície. As quedas ou embates em móveis, por exemplo, são as causas mais frequentes, mas há outros fatores que podem ser sinais de doença.

1 – Doenças do sangue

O défice de plaquetas e a leucemia estão associados a uma maior facilidade em fazer nódoas negras. Se os hematomas aparecerem principalmente em locais onde esperaria bater – como nas canelas e nos cotovelos –, é menos preocupante do que no tronco ou noutras áreas de tecidos moles (músculos, tendões ou articulações).

2 – Falta de vitaminas

A vitamina C ajuda na produção de colagénio, uma das proteínas que mantêm os vasos sanguíneos saudáveis. Quando temos défice desta vitamina, estamos mais propensos a ter nódoas negras, especialmente os fumadores. O tabaco, ao causar estreitamento dos vasos sanguíneos, também leva a que as contusões demorem mais tempo a sarar. Podem igualmente ser sintoma do consumo excessivo de álcool, já que este é um vasodilatador.

3 – Demasiado sol

A exposição solar excessiva ao longo dos anos pode danificar as paredes dos vasos sanguíneos, o que, além de levar ao aparecimento de manchas nas mãos e nos braços, faz aumentar a propensão para ter hematomas.

4 – Medicamentos

Alguns medicamentos, incluindo esteroides, anticoagulantes e anti-inflamatórios, podem causar hematomas mais facilmente, assim como os analgésicos vendidos sem receita médica, como a aspirina ou o ibuprofeno.

(Artigo publicado originalmente na VISÃO Saúde nº 33 de dez 34/jan 24)

António Costa, modo de usar

O ex-primeiro-ministro não tem a unanimidade nacional para presidir ao Conselho. Mas não são os eurodeputados que decidem isso…

A visão de António Costa para a Europa tem provas dadas

Marta Temido, Cabeça de lista do PS às eleições europeias

VS

Não há vantagens em ter Costa [no Conselho Europeu]. O que interessa é o que as pessoas pensam e fazem, não o sítio onde nasceram

Cotrim de Figueiredo, Cabeça de lista da IL às eleições europeias

Por um voto se ganha, por um voto…

Desta vez, foram os socialistas a ganhar por “poucochinho”. A Aliança Democrática encontrou alento para sair de cabeça erguida

O PS venceu as eleições e é hoje a primeira força política em Portugal

Pedro Nuno Santos, Secretário-geral do PS

VS

O resultado dá-nos, muito, muito alento para cumprirmos a caminhada que nos trouxe até aqui

Luís Montenegro, Presidente do PSD

Mulheres à beira de um ataque de nervos

Definitivamente, a ministra da Justiça e a procuradora-geral da República entraram em rota de colisão

Precisamos de um novo procurador-geral que ponha ordem na casa. Os tempos modernos já não se compatibilizam com a ideia de que podemos estar fechados nos nossos gabinetes e não comunicarmos com os cidadãos nas sedes próprias

Rita Alarcão Júdice Ministra da Justiça

VS

Fiquei algo incrédula e perplexa. São declarações indecifráveis e graves, porque não mo disse numa audiência de três horas. Graves porque disse que o MP tem uma situação de falta de liderança, e que precisa de arrumar a casa. Rejeito essas críticas

Lucília Gago, Procuradora-geral da República

Sei o que fizeste…

Pedro Passos Coelho decidiu contar alguns segredos da coligação Portugal à Frente. Paulo Portas não achou muita graça

Para impedir uma humilhação do ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, obriguei o ministro das Finanças a assinar comigo e com ele a carta para as instituições. Julgo que ele não sabe isto. A Troika exigia era uma carta dele, assinada por ele, porque não confiava nele

Pedro Passos Coelho, Antigo primeiro-ministro

VS

Dava a entender que achava que a Troika era um bem virtuoso. Eu achava que era um mal necessário. Para aguentar aquele programa que resolvesse a falência de Portugal e nos permitisse recuperar a normalidade, era preciso coesão social na sociedade portuguesa

Paulo Portas, Antigo ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros

Quem nos trata da Saúde?

Nos 45 anos do Serviço Nacional de Saúde, confrontam-se duas perspetivas para o seu futuro

Temos de fazer uma nova mudança estrutural, criando um SNS em mudança, mantendo o substrato, os seus valores do humanismo, do personalismo e do profissionalismo

Ana Paula Martins, Ministra da Saúde

VS

O Governo tem uma gestão sádica do SNS. Temos um Governo, uma ministra [da Saúde] que não dá aos hospitais as condições para poderem funcionar

Mariana Mortágua, Coordenadora do Bloco de Esquerda

Imigração, o tema que escalda

Carlos Moedas disse “imigração”, “desordem” e “redes criminosas” na mesma frase. O contexto explica o discurso ou nem por isso?

Não podemos aceitar uma política de portas escancaradas que conduz à desordem, dá espaço a redes criminosas e multiplica casos de escravatura moderna

Carlos Moedas, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa

VS

A República também produz pequenos Napoleões. Foi lamentável a forma como o senhor presidente da Câmara de Lisboa se colou ao discurso de extrema-direita

Fabian de Figueiredo, Líder parlamentar do BE

Pensão ou bónus, eis a questão

O Governo propõe aumentar o Complemento Solidário para Idosos (CSI), mas o PS rejeita o “bónus” e quer o aumento permanente das pensões

Quando é que iriam dar [o CSI]? Em setembro, para se fazer sentir em cima das eleições autárquicas, em outubro? Estamos no limiar de uma demagogia

Alexandra Leitão, Líder parlamentar do PS

VS

Aumento das pensões sim, havendo a possibilidade de o País o fazer como aumento extraordinário num pagamento suplementar. Esta é uma posição mais responsável

Hugo Soares, Líder parlamentar do PSD

25 de Novembro, sempre?

Quase meio século depois, o 25 de Novembro de 1975 continua a dividir opiniões na sociedade (e na política) portuguesa

Com o 25 de Abril, ganhámos a liberdade. Com o 25 de Novembro, evitámos que a liberdade se perdesse (…) Novembro não se fez contra Abril

Paulo Núncio, Líder parlamentar do CDS

VS

A atual mistificação (…) do 25 de Novembro é uma manobra dos derrotados de Abril (…) Cá estaremos, quando chegar o dia de voltar a chamar a nossa democracia pelo seu único nome: Abril

Joana Mortágua, Deputada do Blocode Esquerda

As tarjas que “mancham”

O Chega “decorou” o Parlamento com tarjas sobre o aumento dos salários dos políticos. O MP abriu inquérito ao “protesto”

Lamento, repudio e é um incumprimento das regras da defesa do património nacional. A publicidade no exterior é proibida (…) não tem nada que ver com liberdade de expressão

Aguiar-Branco, Presidente da AR

VS

[Era] uma comunicação aos cidadãos de que estavam a ser roubados. Fui eu que tomei a decisão” [de colocar as tarjas] “e voltaria a fazê-lo se fosse hoje

André Ventura, Presidente do Chega

Entre amendoins, pistácios, cajus, avelãs, nozes ou amêndoas os frutos secos ocupam, nesta altura do ano, um lugar de destaque nas mesas festivas, a servir de acompanhamento ou aperitivo. Divididos entre oleaginosos e desidratados, os frutos secos são nutricionalmente muito ricos e contêm uma grande diversidade de vitaminas, fibras e minerais essenciais ao bom funcionamento do organismo e que ajudam a prevenir o aparecimento de doenças – como as cardiovasculares e neurológicas – a promover o bem-estar.

+ Leia mais sobre os benefícios dos amendoins aqui

As oleaginosas – tal como o nome indica – são frutos com um elevado teor de ácidos gordos polinsaturados, também designados por “gordura saudável” que contribuem, sobretudo, para a saúde do coração. Este é o caso das nozes e das amêndoas, frutos secos muito consumidos em Portugal e dos quais falamos neste artigo.

As nozes, por exemplo, são uma fonte de gorduras polinsaturadas. Com origens na Pérsia – atual Irão -, China e Japão, passaram a ser de consumo comum no continente europeu durante a Grécia e Roma e antiga, sendo atualmente um fruto muito apreciado em Portugal e produzido nas regiões de Trás-os-Montes e Alentejo.

  • Contribuem para a saúde cardiovascular – Com elevados níveis de gorduras polinsaturadas – como os ácidos gordos ómega-3 – as nozes ajudam a diminuir o “mau” colesterol no sangue – também conhecido por LDL – e a prevenir problemas cardiovasculares. O ómega-3 tem ainda propriedades anti-inflamatórias.
  • Ricas em vitamina – Ricas em vitaminas B6, as nozes contribuem para a saúde do sistema hormonal, imunitário e nervoso e estimulam a produção de proteínas e glicogénio, que contribuem para a diminuição da sensação de cansaço e fadiga.
  • Propriedades anticancerígenas – Com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, as nozes contribuem para o envelhecimento celular, contribuindo assim para a prevenção de alguns tipos de cancro.
  • Ajudam a evitar a malformação do feto durante a gravidez – Com elevados níveis de ácido fólico, este fruto de casca rija é também muito benéfico para mulheres grávidas ao contribuir para o normal desenvolvimento do feto e para prevenção de malformações.
  • São uma fonte de ferro – Um mineral muito importante na prevenção de anemia e para o sangue.
  • Promovem a saúde cognitiva – Com ácidos gordos essenciais, as nozes têm um impacto positivo na função cognitiva.

Apesar dos benefícios, as nozes são um fruto bastante calórico – mesmo promovendo a sensação de saciedade – e devem ser consumidas, à semelhança de outros alimentos, com moderação.

Já as amêndoas, também oleaginosas, são também muito ricas em fibras, nutrientes e vitaminas do complexo B2 e E. Consumidas também em épocas especiais – nomeadamente na Páscoa – as amêndoas, fruto da amendoeira, são originárias da Ásia Central, tendo sido os árabes a introduzir a sua produção em Portugal. As suas principais plantações, no país, estão localizadas no Algarve e em Trás-os-Montes.

  • Ajudam a prevenir o cancro – Ricas em vitamina E, as amêndoas são antioxidantes que ajudam a combater a presença de radicais livres no organismo, associado muitas vezes ao desenvolvimento de determinados tipos de cancro.
  • Reduzem a tensão arterial – Com um elevado teor de potássio na sua composição, o consumo deste fruto estimula a eliminação de sódio pela urina, contribuindo assim para o equilíbrio da tensão arterial. Também são muito ricas em magnésio, um mineral que ajuda a reduzir o cansaço e a fadiga.
  • Promovem a saúde cardiovascular e ajudam a controlar os níveis de colesterol – Com ómega 3,6 e 9, as amêndoas são bastante ricas em gordura saudáveis que possuem propriedades anti-inflamatórias, que estimulam a circulação sanguínea e que ajudam a reduzir os níveis de LDL no organismo. Os seus compostos promovem ainda o equilíbrio dos níveis de colesterol e de triglicéridos. De acordo com o Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável da Direção-Geral da Saúde, cerca de 28 gramas de amêndoas são suficientes para fornecer a um adulto “14 % das necessidades diárias de fibra alimentar”, uma “substância essencial ao bom funcionamento dos intestinos, à prevenção de determinados tipos de cancro e à regulação do colesterol”.
  • Ajudam a controlar a diabetes – O elevado teor de fibra presente nas amêndoas ajuda a diminuir a velocidade de absorção de açúcar no sangue e a controlar os níveis de glicose. No mesmo sentido, os antioxidantes, flavonoides e taninos que também se encontram presentes na sua composição contribuem para o bom funcionamento do pâncreas, órgão produtor e insulina.
  • Podem ajudar quem quer perder peso – Por serem ricas em fibras, as amêndoas (mas também as nozes) prolongam o tempo de digestão e contribuem para o sentimento de saciedade.
  • Ajudam a prevenir o aparecimento de doenças como o Alzheimer – A vitamina E e os flavonoides presentes nas amêndoas ajudam ainda a proteger as células nervosas e contra a ação dos radicais livres e a prevenir o desenvolvimento de doenças neurológicas como o Alzheimer ou a demência.
  • Fortalece os ossos – Ricas em minerais como o fósforo, magnésio ou cálcio, as amêndoas ajudam a fortalecer os ossos e a prevenir doenças como a osteoporose ou a reduzir o risco de fraturas.
  • Tem benefícios na pele – Além dos benefícios nutricionais, as amêndoas têm efeitos positivos na pele. O óleo de amêndoas doces ajuda a hidratar e proteger a pele e a prevenir o aparecimento de estrias, sendo sobretudo indicado para peles sensíveis.

“Esta riqueza mineral e vitamínica, ainda por cima sem colesterol e sal, tornam a amêndoa um alimento interessante para ser consumido regularmente ao longo da semana e integrado numa alimentação saudável”, lê-se no site da DGS. À semelhança das nozes, são também um fruto com um valor calórico elevado.

Será necessário ter em consideração que a grande maioria das misturas de frutos secos que, geralmente, se encontram em pequenos pacotes nos supermercados são de evitar dado que, por norma, o seu teor de sal é bastante elevado e poderá ter consequências na saúde.

Gisèle Pelicot fez tudo ao contrário do que seria esperado ou, pelo menos, do que ditavam os conselhos mais prudentes. Os seus advogados começaram por querer que o julgamento decorresse à porta fechada. Mas ela insistiu que fosse público. Depois, ainda defenderam que se evitasse a exibição das imagens e dos vídeos que são a prova da miséria moral e da barbárie. E ela voltou a insistiu que estes fossem mostrados. A francesa de 72 anos – que, entretanto, foi transformada num símbolo do feminismo à escola global e que, por isso mesmo, é uma das mulheres que se destacaram durante 2024 – não só não se escondeu como fez ainda questão de comparecer a todas as sessões no tribunal.

Em todas essas situações, a intenção seria boa, tinha como objetivo protegê-la, tinha passado pelo inferno na Terra e estava fragilizada. Gisèle Pelicot não quis propriamente exibir-se, mas dispensou todos esses cuidados. Queria transformar o seu drama individual numa causa pública, explicou. Os próprios advogados acabaram por compreender: “Ela quer que as pessoas saibam o que lhe aconteceu e acredita que não tem motivos para esconder. Goste-se ou não, este julgamento ultrapassa os limites deste tribunal. E ficar de portas fechadas também significa pedir à minha cliente que seja trancada num lugar com aqueles que a atacaram.”

Sentença O tribunal condenou os 51 homens que se sentaram no banco dos réus. À saída, Gisèle Pelicot disse pensar “nas vítimas não reconhecidas cujas histórias permanecem na sombra” Foto: LUSA

Mesmo quando falou, mesmo quando diante dos que a maltrataram disse sentir-se uma “boneca de trapos” e “um campo de ruínas”, a septuagenária revelou sempre a calma e a serenidade dos que mantêm toda a dignidade, apesar da tragédia humana em que se veem envolvidos. Contou em tribunal o caos em que a sua vida se transformou quando soube a verdadeira razão que estava por detrás dos problemas ginecológicos de que sofreu, das doenças sexualmente transmissíveis que contraiu, da queda de cabelo, das enxaquecas, dos apagões de memória que, por ingenuidade, atribuía à doença de Alzheimer.

O julgamento dos crimes de Mazan, uma localidade de seis mil habitantes, na periferia de Carpentras, começou no princípio de setembro, em Avignon. Foi um julgamento rápido, durou pouco mais de três meses, até à sentença. A certa altura, Gisèle Pelicot tirou os óculos de sol que inicialmente lhe ocultavam o olhar e enfrentou, olhos nos olhos, os 51 homens que se sentaram no banco dos réus: o seu ex-marido, Dominique Pelicot, e mais outros 50 por ele recrutados num chatroom (e estes 50 são apenas os que, entre os 72 suspeitos, as autoridades francesas conseguiram identificar). “Fui sacrificada no altar do vício”, afirmou no tribunal. “Que mulher podia suportar isto?”

Combate por um mundo melhor

Gisèle Pelicot dispensou protagonismos e mediatismos, mas sempre agradeceu a atenção. Durante o julgamento, foi recolhendo apoios de todos os cantos do mundo. Chegou a usar um lenço que lhe foi enviado da Austrália por uma organização ligada à violência sexual sobre mulheres mais velhas. Involuntariamente, fez-se heroína, porque foi capaz de transpor o sentimento da vergonha – associada às vítimas de violência sexual – para o lado dos agressores. Quando, na semana passada, foi lida a sentença, relataram os jornalistas presentes na sala que a maioria dos homens chorou em silêncio e baixou a cabeça.

Revelou sempre a calma e a serenidade dos que mantêm toda a dignidade, apesar da tragédia humana em que se veem envolvidos

O caso Pelicot começou por chocar a França e, depois, as suas ondas de choque estenderam-se pelo mundo fora. O impacto foi tal ordem que o tribunal de Avignon recebeu centenas de pedidos de acreditação de órgãos de informação vindos de todo o lado. A discreta avó francesa – que apenas tencionava ter uma reforma tranquila na região da Provença, ao lado do homem com quem partilhou 50 anos de vida em comum – não se conformou e, na medida do que estava ao seu alcance, quis mudar o mundo. Transformou o insustentável drama da sua vida – durante dez anos, foi drogada, agredida e violada pelo marido, o qual recrutou na internet dezenas de outros homens para a violarem também – num combate por um mundo melhor. Quando lhe chamaram corajosa, ela foi clara e respondeu: “Não é bravura, é a vontade e a determinação em mudar a sociedade.”   

Na semana passada, quando o Tribunal Criminal de Vaucluse, em Avignon, no Sul de França, condenou todos os homens que abusaram dela, à porta do tribunal, houve gritos e sobretudo houve aplausos. E cartazes, palavras de ordem por todo o lado: “Bravo, madame”, “merci, Gisèle”.

Dominique foi condenado à pena máxima, 20 anos de prisão. Os outros 50 homens também foram considerados culpados, com penas entre os três e os 15 anos de cadeia (algumas das penas são inferiores às que foram solicitadas pelos procuradores e, por isso, sofreram algumas críticas, nomeadamente, dos filhos de Gisèle). No total, houve 46 condenados por violação, dois por tentativa de violação e outros dois por agressão sexual.

Iranianas de coragem

Em novembro, a estudante Ahoo Daryaei protestou contra o assédio da “polícia da moralidade” para usar o hijab, o lenço islâmico obrigatório, sem bandeiras nem pedras, sem cartazes nem multidão. Simplesmente, despiu-se e, em roupa interior, fazendo do corpo um manifesto, caminhou pela Universidade Islâmica Azad, em Teerão – até ser forçada a entrar num carro misterioso. As autoridades comunicaram que foi levada para um hospital psiquiátrico porque sofria de problemas mentais – o argumento mais usado para conter os protestos das iranianas, confrontadas com a crescente e violenta repressão, e a que a Amnistia Internacional apelida de “guerra contra as mulheres e as raparigas”. Agora, o Irão suspendeu (temporariamente?) a promulgação de uma lei duríssima sobre o uso do hijab, com sanções severas até prisão por 15 anos. Dizem os analistas que foi por receio de um reacender dos protestos, ocorridos no pós-assassinato de Mahsa Amini, por uso indevido do lenço, em 2022. A coragem das iranianas está a abrir rachas no regime?

No final da sentença, Gisèle trazia uma mensagem para ler. “Foi um processo muito difícil e, neste momento, penso sobretudo nos meus três filhos: David, Caroline e Florian. Penso também nos meus netos porque eles são o futuro. Também foi por eles que travei esta batalha. Gostaria de exprimir a minha gratidão a todas as pessoas que me apoiaram. Penso também em todas as outras famílias afetadas por esta tragédia. Por fim, penso nas vítimas não reconhecidas cujas histórias permanecem muitas vezes na sombra”, disse.

Numa declaração sem ponta de raiva ou de rancor, Gisèle dirigiu-se a todas as outras vítimas e, sobretudo, às que preferem manter o anonimato: “Quero que saibam que partilhamos o mesmo combate. Quando abri as portas do processo, a 2 de setembro, era exatamente isso que queria fazer: que a sociedade possa apreender os debates que ali tiveram lugar. Nunca me arrependi dessa decisão.” 

Com a mesma serenidade, Gisèle Pelicot falou ainda no futuro: “Estou agora confiante na nossa capacidade de aproveitar coletivamente um futuro em que todos, mulheres e homens, possam viver em harmonia, com respeito e compreensão mútuos.”    

Claudia Sheinbaum

A lutadora

Vencedora das eleições presidenciais com 59% dos votos, Claudia Sheinbaum, a primeira mulher Presidente do México, prometeu logo às horas iniciais: “Não vou desiludir-vos.” Mas os desafios serão muitos a testar a determinação da “dama de gelo” na gestão de uma das maiores potências sul-americanas. Física de formação, filha de académicos e neta de emigrantes judeus oriundos da Lituânia e da Bulgária, governadora da megalópole Cidade do México durante a pandemia, esta política de esquerda, “filha do Maio de 68”, tem currículo estelar. Os analistas apontam-lhe um estilo assente em racionalidade, gestão e cálculo. Qualidades que serão postas à prova quando o próximo inquilino da Casa Branca, Donald Trump, a pressionar sobre imigração, fecho de fronteiras e tráfico de drogas – como, aliás, já o fez num telefonema. A Presidente respondeu-lhe que “a posição do México não é fechar fronteiras, mas construir pontes entre governos e entre povos”. As próximas conversas poderão alterar radicalmente o equilíbrio de forças (e as economias?) destes vizinhos.

O caso Pelicot terá ultrapassado fronteiras pela recusa de Gisèle em manter-se na sombra, mas também pela escala de horror e depravação que envolve. Ler e ouvir as descrições é uma verdadeira descida aos infernos. É preciso recuar a 2 de novembro de 2020, quando a francesa foi chamada à polícia. O marido – um pai dedicado e um avô extremoso – foi apanhado em flagrante numa mercearia a tentar filmar por baixo das saias das mulheres. Foi nessa investigação que a polícia encontrou uma drive com 20 mil ficheiros de imagem e vídeo de Gisèle a ser agredida e violada por dezenas de homens. Também foram encontradas fotografias da filha do casal, Caroline, e das noras. Apesar de Dominique negar, Caroline acredita ser sido também abusada sexualmente pelo pai. Escreveu um livro, que já teve edição inglesa, intitulado Et J’ai Cessé de T’Appeler Papa (E Deixei de te Chamar Pai).

“Sou um violador”

Durante os últimos quatro meses, os que se sentaram no banco dos réus ficaram conhecidos por monsieur tout-le-monde, por serem homens comuns, com profissões e contextos familiares ditos normais, jornalistas, enfermeiros, motoristas, funcionários públicos, bombeiros… Muitos deles são pais – um deles até tinha em curso um processo de adoção de uma criança. Com idades compreendidas entre os 26 e os 74 anos, foram todos recrutados por Dominique num chatroom, um tenebroso subterrâneo da internet que, entretanto, já foi encerrado (embora não tenha sido suspenso na sequência deste caso, por incrível que pareça).

Dominique Pelicot confessou todos os crimes. “Sou um violador”, respondeu logo na primeira vez que foi ouvido no tribunal. “Sou culpado do que fiz. Peço à minha mulher, aos meus filhos, aos meus netos… que aceitem as minhas desculpas. Peço-lhes perdão, mesmo que não seja aceitável”, continuou.

Dos 50 homens, cerca de 30 argumentaram que Gisèle tinha consentido as agressões. Como se tudo fizesse parte de um jogo sexual

Dos 50 homens, cerca de 30 argumentaram que Gisèle tinha consentido as agressões e que todas as situações tinham sido previamente combinadas com o casal. Como se tudo fizesse parte de um jogo sexual, ainda tentaram denegrir Gisèle. À acusação, bastou-lhe passar os vídeos que atestam a barbárie para ser evidente, justificaram os advogados, “o estado de torpor mais próximo do coma do que do sono”, induzido por uma mistura de ansiolíticos e comprimidos para dormir. Uns admitiram desconhecer o conceito de consentimento e outros ainda alegaram julgar que bastava a presença de Dominique para que existisse consentimento. Também houve homens que disseram ser homossexuais: declararam que, quando entraram na casa dos Pelicot, pensaram que iriam ter sexo com Dominique…

O caso Pelicot não só promoveu o debate em torno do consentimento e da agressão sexual como, do ponto de vista legislativo, é provável que venha  suscitar alterações. Politicamente, a França continua no arame e, por isso, é mais do que natural que tudo isto demore o seu tempo a ser concretizado. Há um mês, o antigo primeiro-ministro francês, Michel Barnier, já tinha anunciado que, até ao fim de 2025, iriam simplificados os procedimentos para apresentar queixa de violência doméstica nos hospitais franceses. Independentemente disso, de agora em diante, haverá sempre um antes e um depois deste caso.

Quatro meses bastaram para que muitos considerassem que Gisèle Pelicot deveria ser escolhida como uma das mulheres do ano. Pelo testemunho, por não se ter escondido, por não ter assumido a vergonha como sendo dela. Pelo facto de ter aceitado ser o rosto sereno da coragem, por ter feito tudo ao contrário do que era esperado. Por não ter desistido, mesmo quando isso significava mostrar ao país e ao mundo que tinha vivido 50 anos, mais de metade da sua vida, ao lado de um homem que agora é “o diabo” (a imagem é de um dos filhos do casal, Florian). Para travar a sua luta, Gisèle pensou, muito provavelmente, nos seus três filhos e, sobretudo, nos seus sete netos. Como ela própria proferiu, à porta do tribunal, eles são o futuro. E todos – a começar por Gisèle, aquela que se reconstruiu – têm o futuro pela frente.

Ursula von der Leyen

Ursula maior

Reeleita para um segundo mandato na presidência da comissão europeia, Ursula von der Leyen lutou pela paridade de género – apesar da relutância de vários Estados-membros, fez subir as nomeações de mulheres para o novo colégio, de 22% para 40%. A sua equipa tem 11 mulheres, incluindo quatro vice-presidentes. Kaja Callas, primeira-ministra da Estónia, agora Alta Representante da União Europeia para Relações Externas e Política de Segurança, é uma crítica vocal de Putin; Teresa Ribero, ministra espanhola do Ambiente que sucede à carismática Margrethe Vestager, lidera a Transição Verde e a Concorrência – e é uma opositora aos combustíveis fósseis e à energia nuclear; a finlandesa Henna Virkkunen, comissária europeia para a Tecnologia, tem a cargo Soberania Digital, Segurança e Democracia – com a Inteligência Artificial à porta; a romena Roxana Mînzatu assumiu Pessoas e Competências – o capital humano de um continente em perda competitiva. A portuguesa Maria Luís Albuquerque tem os Serviços Financeiros e União da Poupança e Investimento.