A startup britânica Earthwave e um grupo de cientistas de dados analisaram informação proveniente de satélites e concluem que os glaciares nos Alpes estão a diminuir a um ritmo bastante superior ao que é registado globalmente: 39% nos últimos 20 anos, comparados com os 5% de média global. “Desenvolvemos um algoritmo para combinar os diferentes conjuntos de dados numa única estimativa comum da massa glaciar, dando-nos uma nova e melhorada imagem sobre o comportamento do glaciar nos últimos 20 anos”, explica Livia Jakob, da Earthwave, citada pela publicação The Next Web.

Em todo o mundo, os glaciares perderam 273 mil milhões de toneladas de gelo por ano desde 2000. O ritmo tem aumentado, de 231 mil milhões de perdas anuais entre 2000 e 2011 para 314 mil milhões de toneladas anualmente perdidas entre 2012 e 2023, revelava um estudo da Nature.

Percebe-se que as elevadas temperaturas na Europa (sobem duas vezes mais rápido do que a média mundial) têm conduzido a perdas rápidas nas montanhas geladas. Os Alpes suíços terão perdido 6% do volume total só em 2022. As partículas do deserto do Sara, que assentam na superfície do gelo, escurecendo-o e levando a que absorvam mais radiação solar, fazem também com que o derretimento na Europa seja acelerado. As estimativas não são animadoras, com alguns cientistas a preverem que os Alpes possam perder 90% da sua massa glaciar até 2100.

A pesquisa citada aqui foi feita no âmbito do GIambie, ou Glacier Mass Balance Intercomparison Exercise, uma iniciativa sedeada na Universidade de Zurique, em colaboração com o World Glacier Monitoring Service, a Universidade de Edimburgo e a Earthwave.

A informação usada provém de vários satélites que usam instrumentos de medição ótica, radares e lasers para avaliar a espessura do gelo a partir da órbita. O GIambie analisa depois esta informação, criando um repositório global comum.

Este tipo de estudos é importante para avaliar como o derretimento dos glaciares vai ter impacto no fornecimento de água potável, nos ecossistemas e na subida do nível das águas e o que pode ser feito para mitigar os piores efeitos do aquecimento global.

O responsável operacional da OpenAI, Brad Lightcap, anunciou na rede social X que o ChatGPT já chega a mais de 400 milhões de utilizadores todas as semanas: “Somos felizardos por servir 5% da população do mundo todas as semanas”. Este registo é impressionante, especialmente se tivermos em consideração que é o dobro do que foi registado em agosto de 2024 que, por sua vez, era o dobro do registado em novembro de 2023, lembra o Engadget.

https://x.com/bradlightcap/status/1892579908179882057

A estratégia da empresa passa agora por simplificar as diferentes ofertas que tem com o ChatGPT, de modo que os utilizadores não tenham de escolher qual o modelo de Inteligência Artificial que irá responder aos seus pedidos. Outra novidade passa pela chegada dos modelos GPT-4.5 e GPT-5 às mãos dos utilizadores, o que irá provavelmente reforçar o crescimento do número de utilizações.

A revelação do número crescente de utilizadores do assistente de Inteligência Artificial acontece pouco tempo depois de o assistente chinês DeepSeek ter saltado para a ‘ribalta’ e no meio de outros grandes anúncios no setor, como o modelo Grok-3 e o lançamento de novas versões do Google Gemini.

Se há algo que os últimos tempos tem ficado demonstrado é a falta de senso comum, aquela capacidade de olhar para além das bitolas estanques das regras e das leis em prol dum bem maior.

Parafraseando uma afirmação do Grande Livro, as leis foram feitas para os homens e não os homens para as leis. Quer isto dizer que, no centro de toda a atividade humana, seja ela política ou económica, deve estar a premissa de que o Homem é o bem maior e que nada nem nenhum outro poderá substituir uma vida que se tira ou destrói.

Esta falta de senso comum alastra como um vírus e instala-se na passividade e desresponsabilização que se vêm a generalizar, num processo de desumanização dramático, preocupante e que não augura nada de bom.

A recente história do homem que às portas de hospital não foi admitido diretamente, tendo que passar pelo processo burocrático que levou à chamada do INEM, para depois ser admitido nas urgências que distavam menos de cem metros, é paradoxal!

Evidentemente que há regras e que estas têm que ser cumpridas. Mas as circunstâncias ditam as exceções que, como sabemos, existem na mesma medida das leis.

Deixar-se-ia morrer um homem ali sem cuidados porque não se tinham cumprido os procedimentos regulamentares? Isto já para não falar no custo da intervenção do INEM no caso, que teria sido perfeitamente escusada se tivesse havido bom senso.

Sejamos sérios, há de facto um turismo de saúde em Portugal. Não é um “achismo”, é uma realidade e não vale a pena pedir números porque, nesta como noutras situações, eles não existem. O que existe é a observação do dia a dia e as trocas de informação em chats e redes sociais, onde se explica como fazer para obter tratamento em Portugal

Esta história seria caricata não fosse a gravidade e o facto de não ser única.

O problema do acesso à saúde em Portugal, se excetuarmos estes casos aberrantes em que o medo se sobrepõe à tomada de decisão (somos um país em que ninguém “se atravessa” com medo de vir parar aos jornais ou ser alvo de processos sem pés nem cabeça) é dos melhores que conheço porquanto ninguém fica sem cuidados médicos.

Ninguém? Bom, depende porque, no que à população migrante diz respeito, a universalidade do SNS é um pau de vários bicos.

Sejamos sérios, há de facto um turismo de saúde em Portugal. Não é um “achismo”, é uma realidade e não vale a pena pedir números porque, nesta como noutras situações, eles não existem. O que existe é a observação do dia a dia e as trocas de informação em chats e redes sociais, onde se explica como fazer para obter tratamento em Portugal.

Exatamente devido à utilização abusiva dum direito que deveria ser incontestável, é que muitos bradam sobre restringir o acesso ao SNS a migrantes em situação regular em território nacional.

Mas o que é um migrante em situação regular? Naturalmente, o que tem um cartão de residência.

Ora, acontece que estando as marcações AIMA bloqueadas, grande parte dos migrantes encontram-se em situação “indefinida”, num limbo que os torna praticamente inexistentes.

Não obstante o Governo ter decidido pela prorrogação da validade de toda a documentação até final de junho deste ano, assumindo assim a sua falha perante estes cidadãos, o certo é que essa extensão de prazo não é reconhecida nem externa nem internamente. A falta de articulação entre as diferentes entidades e a completa falta de informação ou até mesmo a existência de informação contraditória, levam a que pessoas que contribuíram e continuam a contribuir para o sistema social português se vejam excluídas dos cuidados de saúde gratuitos a que têm direito.

A história de Z… é kafkiana e verdadeira.

Chegou a Portugal em 2018. Como muitos dos seus compatriotas, chegou sem visto de trabalho que, no seu caso, implicava uma viagem de mais de mil quilómetros e o pagamento a uma empresa acreditada junto do Estado Português para o efeito.

Uma fortuna que não tinha. Mesmo assim pagou uma outra mais pequena e acabou a trabalhar na construção civil e na restauração. Com alguns estudos que lhe poderiam ter dado acesso a outro tipo de actividade, Z… não fez má cara ao que encontrou.

Pagou os seus impostos e tentou, por todos os meios, regularizar-se. Conseguiu agora passados todos estes anos, mas…no entretanto o destino foi-lhe cruel.

Como tantos, caiu no desemprego e, ao invés de pedir o subsidio a que tinha direito após vários anos de contribuições ininterruptas, fez-se estafeta.

Pedalando numa bicicleta velha, corria quilómetros nas entregas a horas e desoras.

Abalroado por um automobilista acabou numa mesa de operações dum hospital com uma das pernas partida em dois sítios. Foi assistido gratuitamente e “… muito bem”, faz questão de realçar.

Algum tempo depois, teve alta hospitalar com a indicação de fisioterapia e a utilização dum andarilho, até estar completamente restabelecido.

Z… não consegue andar sem ajuda e naturalmente não consegue trabalhar.

Recorreu à sua rede de amigos e conterrâneos, com mais anos de estada em Portugal e mais capacidade no domínio da língua, para que o ajudassem.

A primeira etapa foi solicitar o subsídio por doença devido a acidente de trabalho.

Na Segurança Social disseram-lhe que só poderia aceder a tal se apresentasse um atestado, confirmando a incapacidade para o trabalho (Z… não anda sem ajuda).

No hospital onde foi operado, foi-lhe dito que não podem passar atestados e que teria que dirigir-se ao Centro de Saúde da sua residência.

No Centro de Saúde foi informado que só o seu médico de família lhe poderia passar o atestado. Z… não tem médico de família e tão pouco o pode ter porque… não tem cartão de residente.

Z…não anda sem ajuda. Espera agora numa cadeira à qual uns amigos colocaram rodas, que chegue o tão desejado cartão de maneira a que possa, quem sabe?, usufruir daquilo a que tem direito.

Este caso não é, infelizmente, único.

Muitos imigrantes não acedem às Unidades de Saúde por medo ou desconfiança. Não dominam o português e a tal rede de interpretes é praticamente inexistente. Cria-se um fosso intransponível que vai aumentando.

Quando se falam em números já alguém apurou a quantidade de partos feitos em casa, dentro das comunidades migrantes, recorrendo a mulheres mais velhas, sem condições mínimas? Alguém já fez o censo das doenças infecto contagiosas multirresistentes nas comunidades oriundas de outros países? Em 2018 estimava-se que a tuberculose estaria a aumentar a uma velocidade de 16% junto desta população. Criou-se um grupo que trabalhou arduamente para que o acesso aos cuidados de saúde nestes casos fosse sistemático. Deparou-se com a barreira do medo da extradição por falta de documentos.

É por isso que a necessidade da existência duma visão holística para a migração é tão importante, evidente e urgente!

O Estado não pode legislar cegamente, sob pena de espartilhar os mais elementares direitos. Não basta gritar contra os que vêm indevidamente usufruir dum direito que não têm. É preciso proteger os que o têm e se veem impedidos de o exercer e sobretudo do usufruir.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Será a língua uma cultura que nos une? Como professora de LPNM, sinto diariamente a peso da barreira linguística que se ergue entre mim e os meus alunos, que tento derrubar de todas as maneiras possíveis. Consciente da extrema importância que a mestria linguística assume na integração social destes indivíduos oriundos hoje em dia maioritariamente de países asiáticos, a escola desempenha um papel crucial na construção dos seus percursos identitários e de parte significativa das suas histórias de vida, experienciados agora longe do país de origem.

Na minha aula de Língua Portuguesa Não Materna coabitam alunos nepaleses, indianos, afegãos e bengalis que foram lançados para uma turma do décimo ano de escolaridade de um curso profissional, alguns deles sem compreenderem quase nada do que os professores dizem. Para além de não falarem a nossa língua, alguns deles também não possuem conhecimentos básicos de Inglês que permita a comunicação. Estes alunos, alguns recém-chegados a Portugal, lutam desesperadamente por uma integração que lhes permita retomar a sua vida interrompida, em alguns casos, por situações de extrema complexidade política, social e familiar, alguns mesmo possuidores de um estatuto de refugiado.

No livro Entre Dois Mundos Entre Línguas (Machado, 2007, Editora Colibri), a autora já anunciava a realidade vivida hoje: “Numa altura em que novos fenómenos migratórios provocam um aumento da diversidade cultural no seio das sociedades ocidentais, Portugal volta a ser um país de acolhimento, desta vez de fluxos migratórios provenientes da Europa de Leste, da Ásia e do Brasil. O contexto do século XXI será o de miscigenação, exigindo da cada país forte ligação ao mundo e uma maior capacidade de resposta às necessidades específicas destes fluxos migratórios.”

A escola em geral, e a sala de aula em particular, transformou-se num espaço multilinguístico e multicultural onde a partilha e o debate de diferentes formas de estar, ser, pensar e sentir se tornou urgente. Lado a lado com os meus atuais alunos de origem nepalesa, indiana ou afegã que se me dirigem em Inglês, alguns deles acabados de chegar a Portugal, debatendo-se diariamente com as dificuldades de aprendizagem da língua portuguesa, existe um forte sentimento de exclusão, faltando os vínculos e os afetos. A dificuldade em fazer amigos portugueses, dentro e fora da escola, é uma realidade e muitos referem sentir muita discriminação por parte da sua geração, de jovens que os tratam por indianos e nunca os convidam para atividades fora da escola. Por incrível que possa parecer, os muitos alunos com quem falei confessam sentir-se muitas vezes excluídos quando os professores em atividades de grupo, juntam no mesmo grupo os alunos de origem estrangeira impedindo-os assim de interagir com os alunos portugueses.

A capacidade de motivar estes alunos para a escola parece ser uma competência essencial do professor de LPNM embora, sabemo-lo, a preocupação curricular com o desenvolvimento das competências linguísticas e comunicativas destes alunos deva ser transversal a todas as disciplinas, situações e contextos do espaço escolar, realidade que em boa verdade, parece não existir. Muitas vezes, os professores de disciplinas específicas são obrigados a utilizar a língua inglesa nas suas aulas para que algumas aprendizagens possam ocorrer.

A disciplina de LPNM desempenha, indiscutivelmente, um papel central neste processo de integração ao promover, paralelamente ao ensino da língua, uma reflexão sobre culturas, imaginários e códigos de referência diferenciados, tendo em conta o facto de estarmos perante Indivíduos de terceira cultura ou third culture kids (de acordo com o quadro teórico proposto por Pollock et all, 1999), não estando ainda integrados na cultura de acolhimento ao mesmo tempo que desvirtuam já, de algum modo, as referências culturais dos seus países de origem,

Estamos perante um quadro de educação multicultural que exige de todos, não apenas dos professores de LPNM mas de toda a comunidade escolar, uma preocupação com a valorização da comunicação em língua portuguesa, proporcionando experiências sociais, culturais e linguísticas que envolvam estes alunos, tantas vezes perdidos e sem referências dentro de uma terceira cultura que resulta desta mistura entre o que trouxeram de fora e o que encontram cá dentro.

Uma vez que os estudos comprovam a existência cada vez maior de uma relação entre o domínios dos códigos linguístico e comunicativo e vantagens sociais, qual é afinal o papel da escola na mestria linguístico-comunicativa destes alunos que frequentam as aulas de Língua Portuguesa Não Materna bem como na sua integração e socialização? Sendo inegável que a escolarização nas competências de expressão oral e escrita e de leitura em língua portuguesa dota estes indivíduos de mais e melhores recursos para outras perspetivas e para outras possibilidades de percursos de vida, deve a escola ajudar no processo de socialização e de integração dos muitos Manesh, Sandesh, Susan, Alan, Talha, Adrita, Kripa, Abdulah e Noordeep que chegaram a Portugal com esperança num futuro melhor.

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É um dos maiores investimentos industriais de sempre em Portugal. A CALB confirmou que vai avançar com una grande fábrica de baterias em Sines. De acordo com o Expresso, a construção deverá ser iniciada já no segundo trimestre deste ano. Segundo o mesmo jornal, o presidente da CALB anunciou que “Este investimento em Sines faz parte da nossa estratégia a longo prazo, com um compromisso com a sustentabilidade, a inovação e o desenvolvimento do mercado europeu”. Recorde-se que a chinesa CALB é um dos maiores fabricantes de baterias do mundo e a nova fábrica deverá fornecer diferentes fábricas de automóveis na Europa.

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Nos últimos anos, a crise da habitação tornou-se uma das questões centrais do debate público em Portugal. A habitação acessível é um desafio complexo, resultado de múltiplas causas, como o aumento dos preços das casas, a escassez de oferta e as dificuldades no licenciamento urbanístico e os elevados custos de aquisição de terrenos para construção. Dada a natureza do mesmo, a solução passa necessariamente por implementar um conjunto diversificado de medidas. Neste contexto, a nova lei dos solos surge como uma tentativa de responder a estas dificuldades, flexibilizando regras e permitindo uma reclassificação de solos para urbanização.

Porém, é necessário perceber o que implica esta nova lei. Inserida no programa “Construir Portugal”, esta possibilita a transformação de terrenos classificados como rústicos em solo urbano com o objetivo de aumentar rapidamente a oferta de habitação pública e de arrendamento a preços acessíveis, esperando-se que esta medida contribua para a redução dos custos de aquisição de terrenos. Importa salientar que estas alterações se aplicarão apenas a terrenos rústicos adjacentes a áreas urbanas, sempre em conformidade com o Plano Diretor Municipal (PDM) e sujeitas a aprovação em assembleia municipal.  

De um ponto de vista prático, a nova legislação representa um passo importante na flexibilização da utilização dos solos, sendo que a simplificação e aceleração de processos poderá trazer uma resposta muito mais rápida à crise da habitação. Assim, seria possível aumentar a oferta num curto espaço de tempo e promover a construção de casas a preços mais ajustados com a realidade portuguesa. Num mercado onde os valores disparam de ano para ano, é fundamental criar mecanismos que favoreçam a oferta pública e privada.

No entanto, esta lei também levanta algumas preocupações, especialmente quanto à qualidade do planeamento urbano, uma vez que pode resultar em expansões desordenadas, com impactos negativos em infraestruturas e serviços públicos. Além disso, a conversão de áreas de reserva ecológica ou agrícola em solo urbano gera algumas dúvidas sobre a sustentabilidade ambiental da medida. Será crucial garantir um planeamento adequado para evitar consequências como o aumento da impermeabilização dos solos, a pressão sobre os recursos hídricos e a perda de biodiversidade.

Outro grande risco em relação à nova legislação é que não existe uma garantia de redução do preço das casas, uma vez que este é influenciado por diversos fatores, nomeadamente pelo aumento da oferta, pelos custos de construção, pela fiscalidade e pela própria dinâmica do mercado imobiliário.

Olhando tanto para os benefícios como para os riscos, é possível concluir que a lei dos solos não vai ser uma solução milagrosa, mas também não representará um retrocesso descontrolado. Aliás, considero que o seu sucesso dependerá da capacidade de implementação eficaz e de planeamento a longo prazo, que evite soluções apressadas e desordenadas.

O setor imobiliário precisa de regras claras e equilibradas que permitam o desenvolvimento de habitações acessíveis sem comprometer a qualidade do território e a sustentabilidade ambiental. Para isso, é essencial que as entidades públicas e privadas assegurem esta transformação de forma responsável, garantindo a qualidade de vida das cidades e dos seus habitantes. Acompanhar a aplicação desta lei é fundamental para que a prioridade dada à habitação acessível não comprometa os alicerces do desenvolvimento urbano. Como sempre, o equilíbrio será o caminho mais sustentável para o futuro do setor e da sociedade.

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É domingo num centro comercial na franja de Lisboa. A zona da restauração está cheia. Nas mesas, quase todas as crianças estão absortas em telefones ou tablets e o mesmo se pode dizer da maioria dos adultos. Uns e outros curvados sobre ecrãs, juntos, mas distantes. Estou na fila para a Kidzania, uma espécie de Portugal dos Pequeninos sem regionalismos nem colonialismo, onde os símbolos nacionais foram substituídos por marcas. As crianças impacientam-se na espera para o check -in, feito num balcão que reproduz o dos aeroportos, para simular a viagem que os levará a um mundo em que poderão experimentar as profissões que quiserem e receberem em troca uma espécie de dinheiro de monopólio, que serve para usar nas brincadeiras, mas que rapidamente transforma os pequenos em capitalistas avarentos, maravilhados com a ideia de acumular aqueles pedaços de papel, recusando-se a gastá-los nas atividades, para depois os levarem para casa, onde ficarão esquecidos numa caixa de brinquedos.

Atrás de mim, duas irmãs entusiasmam-se com o que poderão de fazer quando finalmente se abrirem as portas. “Quero ir trabalhar nas limpezas do hotel”, diz a mais nova, resoluta. A ambição é cortada pela mãe, ríspida. “Isso é trabalho de pobre”, sentencia, perante o silêncio do pai, impaciente com a espera, talvez desejoso de se ver livre do programa familiar. A criança engole a resposta em silêncio. Pensa por um momento. “E polícia? Posso ser polícia?”, pergunta já sem a mesma certeza. “Ou cabeleira”, arrisca. “Só gostas de trabalhos de pobre”, critica, novamente a mãe, que lhe sugere outras ambições profissionais para a brincadeira, como ser médica ou veterinária.

A criança não reage. E eu tento olhar discretamente para a família para perceber de onde vem aquela conversa. Pai, mãe, duas filhas. A mais velha não terá mais do que nove anos, a mais nova andará pelos cinco. Nenhum sinal exterior de riqueza, nenhum tom de voz afetado, nada que os distinga do que poderá ser uma classe média baixa suburbana, certamente remediada. Ponho-me a pensar que profissão poderão ter e é impossível ter a certeza de acertar. Podem ser pequenos comerciantes, talvez ela trabalhe num cabeleireiro e ele seja eletricista, ou talvez sejam administrativos, um nos seguros, outro na Função Pública. É impossível saber ao certo, mas interrogo-me: de onde poderá vir esta ideia de que há “trabalhos de pobre” que os filhos não devem ter nem a brincar?

Poderá essa ideia nascer da rejeição da sua própria condição? Sou de uma geração criada por pais que viam na educação um passaporte para uma vida melhor. Tenho vários amigos que ostentavam o orgulho e a responsabilidade de serem os primeiros da família a chegar à universidade. Mas não me lembro de ter ouvido esta expressão “trabalho de pobre”. E Deus sabe como muitos dos mais qualificados da minha geração têm tido trabalhos precários e mal pagos, deitando por terra os sonhos que os pais acalentaram enquanto lhes financiavam (muitas vezes a muito custo) os estudos.

Lembro-me, então, de uma expressão racista que ouvi tantas vezes. “Trabalha como um preto” ou “é uma moura de trabalho”, dizia-se muitas vezes, quase sempre num tom entre o desprezo e a pena, que andam tantas vezes de mãos dadas. O Eduardo Lourenço dizia que “não trabalhar foi sempre, em Portugal, sinal de nobreza e quando, como na Europa futuramente protestante, o trabalho se converte por sua vez em sinal de eleição, nós descobrimos coletivamente a maneira de refinar uma herança ancestral transferindo para o preto essa penosa obrigação”. E é capaz de estar aí parte da explicação para o que ouvi naquela tarde de domingo.

Há uma desvalorização do trabalho pelas elites que é mimetizada pelas classes mais baixas, cada vez mais iludidas com a ideia de uma ascensão social fictícia. O trabalho não é valorizado a menos que possa dar dinheiro. Já nem o estatuto social que era atribuído a algumas profissões se mantém. Não é importante ser professor, médico ou engenheiro. É importante ter dinheiro. Não é valorizado o contributo que cada um de nós, com o seu trabalho, possa dar à sociedade. É valorizado o poder material.

Há crianças e adolescentes que respondem sem pestanejar com um “quero ser rico” à tradicional pergunta que sobre o que querem ser. Eles querem ser youtubers, jogadores da bola, influencers, criptomilionários. Não querem ser nada, verdadeiramente, querem ter. Ironicamente, as profissões que parecem mais distantes de desaparecer na vaga tecnológica da Inteligência Artificial são as que hoje estão na categoria de “trabalho de pobre”, as que se dedicam ao cuidado e às limpezas, aos trabalhos manuais, que na pandemia dissemos serem “essenciais”, mas que tanto desprezamos e desvalorizamos.

A ideia de que o trabalho nos define está, cada vez mais, fora de moda. E talvez haja um lado muito positivo nisso. Mas o desprezo por aquilo que se faz é também um sintoma de uma sociedade deslassada, que endeusa o ilusório mérito individual e perde de vista a força do que se produz num coletivo. Estamos cada vez mais pobres. E é de espírito.

Talvez esteja na altura de ensinarmos às crianças que há uma dignidade associada ao trabalho, que não se esgota no estatuto nem no dinheiro, mas na possibilidade de produzirmos um efeito no mundo. E que essa será sempre uma enorme riqueza.

A família do novo Model Y está quase completa – fica a faltar, apenas, a versão Performace. Isto porque a Tesla anunciou a chegada ao mercado das versões Tração traseira, com autonomia WLPT de 500 km, aceleração dos 0 aos 100 km/h em 5,9 segundos; Long Range, tração traseira, com 622 km de autonomia e aceleração de 5,6 segundos; e Long range, tração integral, com 568 km de autonomia e 4,8 segundos de aceleração. Os preços anunciados são, respetivamente, de 44.990. 49,990 e 52.990 euros. Estas três novas versões já disponíveis para configuração e encomenda no site da Tesla.

Como é habitual na marca norte-americana, a lista de equipamento de série é enorme e há poucos opcionais disponíveis. Na verdade, do que diz respeito ao hardware, os clientes só precisam de escolher a cor, as jantes e podem adicionar o engate de reboque. Isto porque os restantes opcionais, os pacotes Autopilot, também podem ser adquiridos posteriormente.

Uma das novidades é o cinzento ser a cor base, ou seja, a cor que não exige um custo extra. Uma opção que parece ser mais adequada à realidade do mercado nacional.

O comunicado da Tesla especifica o equipamento de série: “Todos os novos veículos Model Y estão equipados com barras de luzes dianteira e traseira, vidro acústico, ecrã tátil traseiro de 8 polegadas, abertura mãos-livres do porta-bagagens, iluminação ambiente personalizável e câmara frontal adicional.” O mesmo comunicado indica que o novo Model Y traz “uma extensa reestruturação à maximização da eficiência, passando pelo conforto, a conetividade e a segurança”.

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“Vejam lá se conseguem adivinhar o cheiro desta camélia?”, pede-nos António Assunção, 66 anos, pegando numa pequena flor branca. O aroma que a planta emana é-nos familiar, mas não conseguimos identificar. “Parecem os rebuçados Dr. Bayard, não acham? Cheira a anis”, atira, soltando uma gargalhada efusiva de quem sabe ser difícil a leigos como nós acertar na resposta. António explica tratar-se da camélia Grijsii Zhenzhucha, “uma espécie selvagem nativa que normalmente tem odor”. E continua: “Ali está uma Taliensis, aquela do chá verde diário tomado pelos chineses, por isso é que eles têm a barriga lisa [risos].”  

Aberto a visitas, o viveiro de António Assunção tem mais de 1500 espécies de camélias

Numa visita guiada pelo Camélias Park Flavius, em São Torcato, perto de Guimarães, com mais de 1500 espécies de camélias que António Assunção começou a plantar em 2006, é difícil memorizar todos os nomes. Mas, percorrendo este terreno com sete mil metros quadrados junto ao rio Selho, são as cores, os tamanhos e os cheiros que nos ficam na memória. Além da paixão deste homem pela planta originária do Japão com raízes em Portugal desde os Descobrimentos. “Toda esta mancha do lado direito é japónica, pequena e mais comum no nosso país, do outro lado é a chamada reticulata com flores muito grandes que podem atingir os 32 cm de diâmetro”, vai apontando o ex-funcionário da indústria têxtil, natural de Favaios, Alijó (daí ter atribuído o nome Flavius ao viveiro). 

“Este património é nosso” 

A paixão de António Assunção pelas camélias começou há 30 anos no jardim da sua casa, em Guimarães. Fez centenas de pesquisas, trocas e intercâmbio com outros apaixonados de todo o mundo – do Japão à China e Vietname, da Europa ao Brasil –, e hoje o colecionador conhece os nomes, as formas da flor e o formato das folhas de cada uma delas. Até já tem 20 camélias patenteadas, criadas a partir da sementeira e enxertia: a António Assunção (o seu nome), a Emília Cardoso (o da sua mulher), a Joana Andersen, a Armando Oliveira… até à mais recente, a Lady Laura, a sua neta com 16 meses. “É uma forma de homenagear as pessoas de quem gosto”, justifica. 

Neste viveiro com flores de todas as cores, aberto a visitas por marcação, há fileiras temáticas como as de origem portuguesa (Saloia, Jasmim, Alfredo Allen, D. Pedro V, Bela Portuense, Grão Vasco, Conde de Bonfim…), do Japão, dos parques de Sintra, e uma das maiores coleções de Chrysantha (flor amarela).  

É verdade que as camélias são conhecidas como a flor de inverno, já que a sua floração atinge o apogeu entre fevereiro e março, mas pelo facto de António Assunção ter tantas espécies diferentes, o Park Flavius tem flores todo o ano, como os híbridos da azálea que florescem no verão.

No Camélias Park Flavius, há camélias de todas as cores e formas, oriundas de várias partes do mundo

Em quatro estufas (incluindo maternidade e berçário), António vai criando novas coleções a partir da enxertia de espécies. “Este é um legado português, trazido para a Europa pelos portugueses. Quero concentrar aqui este espólio para demonstrar que este património é nosso”, justifica o colecionador de São Torcato, que se tornou um botânico desta planta.

Camélias Park Flavius > R. da Charneca, São Torcato, Guimarães > visitas seg-sex por marcação (viveirosflavius@gmail.com) > grátis  

Época das camélias 

Exposições, visitas guiadas e workshops para celebrar a flor de inverno  

XII Exposição de Camélias Sintra  A mostra no Parque da Pena (com uma coleção de mais de 3858 plantas) é o culminar de um mês em que quatro quintas públicas e privadas com camélias se abriram a visitas guiadas, assinalando os 30 anos de classificação da Paisagem Cultural de Sintra pela UNESCO. Neste sábado, 22, será feito um percurso no Jardim das Camélias do Parque da Pena, com uma coleção iniciada por D. Fernando II no século XIX e que é distinguido, desde 2014, pela International Camellia Society como Jardim de Camélias de Excelência. Abegoaria do Parque da Pena > Sintra > 22-23 fev, sáb 13h-17h, dom 10h-17h > grátis, mediante bilhete de entrada Parque da Pena €10 

29ª Exposição de Camélias do Porto  O Parque de São Roque, onde existem mais de 200 espécies de camélias (património natural e cultural da cidade), volta a receber a mostra anual da flor em que participam 23 colecionadores e na qual será eleita a Melhor Camélia, a Melhor de Origem Portuguesa e o Melhor Arranjo Floral. Parque de São Roque, Porto > 1-2 mar, sáb 14h-19h, dom 10h-19h > grátis  

XV Festival Internacional de Camélias Lousada Além do mercado de camélias, há passeios pelos jardins (Casa do Porto, Casa de Vila Verde e Casa de Ronfe), com visitas encenadas pela Jangada Teatro. Pç. das Pocinhas, Lousada > 8-10 mar, sex-sáb 15h-19h, dom 10h-19h > grátis  

XX Festival Internacional das Camélias Celorico de Basto A celebrar duas décadas, e além da exposição de camélias, o festival terá um desfile de moda para a eleição da Rainha das Camélias e uma mostra fotográfica. 14-16 mar, sex-sáb > grátis  

Florescer das Camélias Parque Terra Nostra Com uma coleção de mais de 800 variedades e 2 720 camélias georreferenciadas, o Parque Terra Nostra renovou o título de Jardim de Camélias de Excelência até 2034 e celebra a floração da planta durante um mês. Além da XXI Exposição de Camélias das Furnas, em Povoação (22-23 fev), organiza visitas guiadas em português (1 mar) e em inglês (15 mar), conduzidas pela engenheira agrónoma Carina Costa. Parque Terra Nostra, Furnas, São Miguel, Açores > T. 296 549 090 > 22 fev-22 mar > €12

De Arouca ao Porto são pouco mais de 60 quilómetros, mas a distância pode demorar uma hora. Fazendo jus ao velho ditado “se a montanha não vai a Maomé…”, Jorge Bastos decidiu trazer os Doces Conventuais de Arouca até à Baixa do Porto.  

“Arouca é uma vila pequena onde o turismo é sazonal, e o mais difícil é manter este negócio sustentável”, diz Jorge, um dos responsáveis deste projeto de família, herdado do pai, Manuel da Silva Bastos (que criou alguns doces, já lá vamos), e antes disso, da avó e da tia-avó, esta última afilhada de uma das últimas monjas do Mosteiro de Santa Maria de Arouca, que dali trouxe as receitas.  

A confeitaria e salão de chá com uma bonita mezzanine, gradeamento dourado e uma escada em caracol, abriu em meados de dezembro, a poucos metros da Avenida dos Aliados, “para dar a provar aos portuenses e a turistas os doces conventuais de Arouca”, reforça Jorge Bastos. E olhando para a vitrina, o mais difícil será escolher.  

Feitos sobretudo à base de ovos, açúcar e amêndoa, destacam-se as castanhas doces (€0,70), a invulgar morcela doce – primeiro estranha-se, depois entranha-se (€2,50, o único doce que não leva ovo) –, os charutos de amêndoa envolvidos numa folha de hóstia (€2), o Pão de São Bernardo (um pão doce que leva farinha, açúcar, ovo, manteiga e canela, €5-€18) e as barrigas de freira, estas servidas num frasco para comer à colher (€11).  

Além dos doces conventuais, há outras criações mais recentes, da autoria do pai de Jorge Bastos, como as parideiras (uma homenagem ao fenómeno geológico das pedras parideiras na serra da Freita, €1,50), as roscas de amêndoa (€1,50) ou o doce de chila (€3,50 a fatia). Para complementar esta montra gulosa, ainda se encontram os licores artesanais Pinguça e Saideira, além de mel de Arouca. Tudo vindo diretamente daquela vila.

A vitrina recheada de doces vindos de Arouca

Doces Conventuais de Arouca > R. Dr. Artur Magalhães Basto, 12, Porto > T. 91 215 6942 > seg-dom 10h-20h