É CEO do Grupo Evolutio em Portugal desde maio de 2023 e da Warpcom desde 2024. Que balanço faz deste período?

O balanço é bastante positivo. Ao longo do tempo construímos uma base sólida, conseguimos incorporar novas capacidades e ajustar a empresa de forma a manter o seu crescimento, focando-nos na melhoria contínua do serviço prestado aos nossos clientes. Portugal é um mercado prioritário e estratégico para o Grupo Evolutio, e a Warpcom é um ativo crucial na concretização desta visão.

A Warpcom tem reforçado a sua liderança nas áreas de cibersegurança, cloud, networking e experiência digital e feito um forte investimento no sentido de entregar serviços especializados e soluções inovadoras aos nossos clientes. O nosso foco é, de facto, continuar a escalar este sucesso, mantendo a aposta em serviços diferenciadores como o MXDR (Managed Extended Detection and Response), e na dedicação das nossas equipas locais, que asseguram a proximidade necessária para preparar os clientes para os desafios atuais e futuros. Esta combinação de know-how, experiência, inovação tecnológica, proximidade e confiança dos nossos clientes, coloca-nos numa posição ímpar.

Quando tomou posse disse que se manteriam atentos a operações de crescimento inorgânico. Neste âmbito, está prevista alguma operação para breve?

Mantemos o compromisso de explorar oportunidades de crescimento inorgânico que fortaleçam a nossa oferta e posição no mercado. Estamos atentos a potenciais aquisições que adicionem valor, seja pela expansão de competências ou acesso a novos mercados.

Angel Mateos Aguado, CEO Warpcom

Acreditamos que ter uma cultura de inovação, onde incentivamos a formação dos nossos colaboradores e, paralelamente, nos desenvolvemos em conjunto com os nossos parceiros, permite mantermo-nos na vanguarda da inovação

Em 2024, a Warpcom registou um volume de negócios de 52,9 milhões de euros. Que factores permitiram este crescimento de 20,2% face ao ano anterior?

Apesar dos desafios impostos pela incerteza geopolítica internacional e o impacto da inflação nas decisões de investimento dos nossos clientes, conseguimos manter uma trajetória de crescimento graças à combinação de alguns fatores. Em primeiro lugar, a nossa equipa demonstrou uma dedicação incansável e uma capacidade de adaptação excecional, garantindo a excelência na entrega dos nossos serviços e projetos. Em segundo, a confiança contínua dos nossos clientes foi decisiva. A Warpcom foi capaz de conquistar novos projetos de grande impacto, especialmente em setores estratégicos como a Administração Pública, o setor Financeiro, Indústria e Utilities. Esta confiança reflete a qualidade das nossas soluções e o nosso foco em oferecer serviços de alto valor. Por último, a captação de novos clientes também foi um fator determinante ao permitir-nos diversificar a base de clientes existentes e aumentar a presença em áreas de grande relevância para o futuro.

Estes fatores permitiram-nos manter o crescimento expressivo em 2024, que se materializou num volume de negócios de 52,9 milhões de euros, o que representa um crescimento de 20,2% face a 2023.

Com quantos colaboradores contam atualmente em Portugal e em que áreas?

Atualmente, a Warpcom conta com cerca de 150 colaboradores distribuídos pelos escritórios em Lisboa, Porto, Funchal e Madrid. A nossa equipa está organizada em torno de várias áreas estratégicas, com destaque para Cibersegurança, Networking & Infrastructure, Data Center & Cloud, Digital Experience e Serviços (Consultoria Tecnológica, IT Operations, NOC, SOC e Serviços de Suporte).

Qual a importância do programa Warp Trainee, que estrearam este ano? Irá manter-se nos próximos anos?

O programa Warp Trainee tem um papel central na nossa estratégia de atrair e desenvolver os melhores talentos na área das tecnologias. Este programa não só proporciona aos estagiários uma formação técnica sólida, como também promove o desenvolvimento de competências interpessoais que consideramos fundamentais para o sucesso de cada colaborador, e da empresa como um todo. Acreditamos que a inovação e o futuro da nossa empresa passam pelo investimento nas pessoas, e no seu desenvolvimento profissional. O Warp Trainee é um reflexo desse compromisso.

Através deste programa, fomentamos a inovação e proporcionamos uma melhor integração dos trainees na nossa cultura organizacional, o que é crucial para garantir que os novos talentos estão alinhados com os nossos valores e objetivos de longo prazo. Investimos significativamente neste programa porque acreditamos muito no seu potencial transformador.

Quanto à sua continuidade, o nosso plano é mantê-lo nos próximos anos, já que vemos nele uma ferramenta essencial para fortalecer a nossa equipa com novas ideias, perspetivas e, claro, para garantir que retemos os melhores talentos do mercado. Este mês (fevereiro) vamos lançar a primeira edição do Warp Trainee, dando as boas-vindas a cerca de dez jovens talentos para integrarem a empresa e desenvolverem competências em áreas estratégicas do setor tecnológico.

Vamos continuar a evoluir como um parceiro de confiança para as organizações que procuram inovar com segurança e resiliência no seu percurso de transformação digital

A inovação constante é um marco no mercado das TIC. Qual o segredo da Warpcom para se manter a par das tecnologias mais recentes?

Acreditamos que ter uma cultura de inovação, onde incentivamos a formação dos nossos colaboradores e, paralelamente, nos desenvolvemos em conjunto com os nossos parceiros, permite mantermo-nos na vanguarda da inovação. Só com este mindset conseguimos antecipar tendências e necessidades do mercado.

No entanto, não nos podemos cingir a acompanhar as tecnologias emergentes, temos de nos questionar constantemente como é que estas podem ser aplicadas de forma a criarmos soluções inovadoras que tragam verdadeiro valor acrescentado para os nossos clientes. Por isso, há que manter uma colaboração estratégica tanto com os nossos parceiros como com os nossos clientes. Só tendo uma abordagem colaborativa nestas duas frentes, conseguimos identificar oportunidades de inovação e de negócio. Esses fatores juntos garantem que a Warpcom não permaneça apenas relevante, mas também se posicione como um líder no mercado de TIC.

O foco na sustentabilidade tem sido uma marca no percurso da empresa. Que iniciativas estão em curso neste âmbito?

O foco na sustentabilidade reflete o nosso compromisso em conciliar crescimento económico com responsabilidade social e ambiental. Na Warpcom as preocupações com a sustentabilidade existem desde a génese da empresa e têm vindo a crescer, ocupando um lugar cada vez mais de destaque no dia a dia da nossa organização. Temos diversas práticas implementadas há muitos anos e procuramos diariamente envolver os colaboradores numa cultura ética e responsável em relação à proteção do planeta, de forma a despertar uma maior consciência sobre o impacto que cada um de nós pode ter no mundo.

Além disso, fazemos uma seleção muito criteriosa de fornecedores para que que sejam comprometidos com práticas sustentáveis, medimos e monitorizamos indicadores como emissões de CO2, consumo de energia e uso de água, mantemos uma aposta forte na mobilidade sustentável na tentativa de reduzir significativamente a nossa pegada de carbono e temos procurado realizar atividades que visam a preservação da natureza e dos ecossistemas. Estamos sempre à procura de novas formas de integrar práticas sustentáveis no nosso dia a dia, incentivando os nossos colaboradores a tornarem-se embaixadores da sustentabilidade tanto dentro quanto fora da empresa.

Quais as tendências do mercado das TIC que antevê para 2025?

Na minha opinião, o mercado das TIC em 2025 vai ser pontuado por três fatores principais: cibersegurança, inteligência artificial e o aumento da regulamentação. Com a digitalização das organizações e o valor crescente dos dados, a cibersegurança deixará obrigatoriamente de ser secundária para se tornar numa prioridade essencial. No caso da IA, esta tecnologia já desempenha um papel crucial na proteção cibernética, mas com ferramentas de machine learning, será possível identificar padrões suspeitos e prevenir ataques em tempo real, tornando a defesa mais preparada e proativa. Por fim, a implementação da NIS2 trará novas exigências para diversos setores. Mesmo empresas fora do alcance direto da Diretiva vão sentir a pressão, com a conformidade a estender-se a toda a cadeia de fornecimento.

Que novidades trará o próximo ano para a Warpcom?

Vamos continuar a evoluir como um parceiro de confiança para as organizações que procuram inovar com segurança e resiliência no seu percurso de transformação digital. A nossa estratégia está focada na oferta de serviços geridos onde pretendemos reforçar a nossa posição como Trusted Partner no mercado, para isso vamos continuar a desenvolver novas capacidades em áreas como a Cibersegurança, DC & Cloud, Digital Experience e Inteligência Artificial, para que possamos expandir ainda mais a nossa oferta de serviços.

Com o avanço da regulamentação, como a NIS 2, as empresas vão precisar de apoio especializado para garantirem conformidade e proteção, nesse sentido a cibersegurança será um dos pilares centrais da nossa abordagem, com o fortalecimento dos nossos serviços MXDR e soluções avançadas de deteção e resposta a ameaças e, é precisamente aí, que pretendemos fazer a diferença.

“Vamos escrever todos os dias em apoio e defesa de dois pilares: liberdades individuais e mercado livre”, ou seja, contra as regulações na economia, escreveu Jeff Bezos numa nota às equipas do jornal. “É claro que abordaremos outros temas, mas pontos de vista que se opõem a estes pilares serão publicados por outros”, acrescentou.

A decisão do fundador da Amazon, pouco habitual para um jornal com a reputação do Washington Post, segue a tendência maior interferência de Bezos nas decisões do jornal que comprou em 2013 e levou à demissão do editor de opinião do jornal, David Shipley. Jeff Bezos já indicou que vai procurar outra pessoa para o cargo.

Jeff Stein, responsável pelas páginas económicas do Washington Post, denunciou a ingerência de Bezos na secção de opinião, mas disse que “ainda não sentiu qualquer interferência” no seu trabalho como jornalista nas páginas de notícias, que estão separadas. Mas “se Bezos tentar interferir nas notícias, apresentarei de imediato a demissão e saberão disso”, acrescentou.

O milionário, cada vez mais alinhado com as posições do Presidente norte-americano, Donald Trump, esteve em destaque na tomada de posse do republicano, depois de ter feito uma doação de um milhão de dólares para a investidura, tal como outros proprietários de grandes empresas tecnológicas.

Antes das eleições de novembro, Bezos impediu o Washington Post de declarar apoio à candidata democrata Kamala Harris durante a campanha eleitoral. Foi a primeira vez em décadas que o jornal da capital norte-americana não apoiou um candidato presidencial.

O diário, que teve uma linha editorial muito dura em relação a Trump no seu primeiro mandato (2017-2021), apoiou Hillary Clinton em 2016 e Joe Biden em 2020, ambos democratas.

Panos Panay, vice-presidente da Amazon, demonstrou o Alexa+ explicando que o novo modelo vai permitir mais e melhores conversas com o utilizador. O sistema é capaz de interpretar o tom e o estado de espírito do utilizador pela sua voz, surge com uma voz mais natural e pode ser ativado com um simples “Alexa”. O modelo vai ainda ser capaz de se lembrar de partes anteriores da conversa, conseguindo manter o contexto.

O Alexa+ é mais inteligente e consegue dar respostas mesmo com pedaços de informação e pedidos incompletos. Na demonstração, Panay pergunta “qual a música que o Bradley Cooper canta… é como um dueto?” e o assistente identifica corretamente o tema Shallow e explica que é cantada com Lady Gaga no filme A Star is Born. Depois, o executivo pediu para o Alexa+ ‘mover’ a música no lado direito da sala e o assistente conseguiu identificar qual a coluna que estava a servir essa área. Segundo o Engadget, Panay contou ainda que vai ser possível fazer pedidos como “toca a música em todo o lado, mas não acordes o bebé” e o Alexa+ vai ativar todas as colunas da casa, menos as que estiverem perto do quarto da criança.

A Amazon trabalhou também na integração deste assistente com os seus outros produtos e serviços e vai ser possível, por exemplo, estar a ver um conteúdo no Prime e pedir para ir para uma cena onde figure determinado ator ou personagem, mesmo que não se saiba o tempo exato em que isso acontece, podendo-se procurar por gravações feitas com o Ring da mesma forma.

É expectável que a Amazon esteja a trabalhar com parceiros para a integração de funcionalidades mais avançadas em aplicações como a Uber, Grubhub ou OpenTable, para tirar partido da maior inteligência do Alexa+.

Foram anunciadas ainda capacidades multimodais, mas aí a demonstração não correu como esperado, com o Alexa+ a sobrepor-se à voz do utilizador antes de ter de ser feito um segundo pedido para se conseguir o documento correto.

O Alexa+ vai ser disponibilizado com a subscrição do Prime ou de forma independente com um preço de 20 dólares por mês. O lançamento deve acontecer já a partir de março, de forma controlada e deverá expandir-se a outras regiões nos tempos seguintes.

A corrida pelo domínio na Inteligência Artificial está ao rubro, com a chinesa Alibaba a anunciar a disponibilização gratuita de quatro modelos de geração de vídeo e imagens da Wan2.1 series. Estes modelos permitem ao utilizador conseguir vídeos e imagens gerados pela Inteligência Artificial a partir de entradas feitas por texto e por outras imagens.

Os modelos vão estar disponíveis no Hugging Face, um repositório especializado em Inteligência Artificial, e através do Model Scope da Alibaba Cloud, noticia a CNBC, e destinam-se a utilizadores particulares, investigadores e organizações.

Este movimento é o mais recente vindo da China, depois de a DeepSeek ter mostrado um modelo avançado e treinado com uma fração de custos e recursos do que precisaram os rivais, por exemplo, da OpenAI. Ambos os modelos chineses, da Alibaba e da DeepSeek, são de código aberto, o que significa que podem ser descarregados e modificados por outros utilizadores.

A estratégia de abordar por código aberto ajuda a encorajar a inovação e construir comunidades em torno do produto e tem vindo a ser usada pelos players chineses particularmente, mas também a Meta envereda por um caminho semelhante com o Llama.

Nas últimas horas surgiram vários vídeos em diferentes plataformas onde os utilizadores ditam a palavra “racist” (racista, em inglês) e o seu iPhone mostra, por breves momentos “Trump”. O nome do presidente surge apenas por alguns momentos, sendo depois substituído pelo termo correto.

A Apple justificou a falha dizendo que se tratava de um tema relacionado com a fonética, onde o sistema tinha dificuldade em lidar com palavras com a letra “R” e sonoridades semelhantes, prometendo ainda “uma correção ainda hoje [ontem]”.

Um especialista ouvido pela BBC afirma que a explicação da Apple “não é plausível”, enquanto um ex-funcionário da Apple ouvido pelo The New York Times e que trabalhou no desenvolvimento do Siri conta que parece tratar-se “de uma partida séria”.

Recorde-se que esta não é a primeira vez que sistemas de Inteligência Artificial (da Apple e não só) geram resultados duvidosos. Neste momento, a ‘falha’ parece estar sanada.

Veja alguns vídeos publicados nas últimas horas com este bug.

Além de confirmar a morte de Gene Hackman e da sua mulher, Betsy Arakawa, o xerife do condado de Santa Fé, Adan Mendoza deu conta também da morte do cão do casal.

A causa dos óbitos não é conhecida ainda.”Está uma investigação em curso, no entanto, neste momento, não acreditamos que se trate de um crime”, disse o xerife.

O ator, com uma carreira que se estendeu por mais de seis décadas, recebeu dois Oscars, dois Bafta, quatro Globos de Ouro e um Screen Actors Guild Award.

Galeto

No mais popular snack-bar da capital, que encerra apenas um dia por ano – não é nem no Natal nem no Ano Novo, mas sim no dia 1 de maio, Dia do Trabalhador –, a última entrada acontece às três da manhã, confirma-nos Francisco Oliveira, filho de um dos fundadores, António Oliveira, e atual proprietário do Galeto, aberto há 59 anos. Obra dos arquitetos Victor Palla e Bento d’Almeida, símbolo do que de mais moderno se fazia no País em meados dos anos 1960, ganhou o título de Loja com História em 2016.

No Galeto a última entrada acontece às três da manhã. Foto: José Carlos Carvalho

Desengane-se quem acha que poderá ser o único com apetite durante a madrugada. A recente fila de espera que se forma noite adentro para conseguir lugar naquele balcão de madeira envernizada comprova que o Galeto está (de novo) na moda. Ou talvez nunca tenha saído. Seja no fim de um concerto, no Campo Pequeno, por exemplo, depois de um jogo de futebol, ou de mais um turno no trabalho, sabe bem repor os níveis de bons sabores. Escolher o bife à Galeto (€18,80), servido no típico prato de alumínio com ovo estrelado, fatia de fiambre e pickles, mais a “meia meia” (€4,30), como lhe chamam os empregados, um prato com metade de batatas fritas e outra metade de esparregado, é seguramente um dos pedidos que mais trabalho dá à cozinha. Av. da República, 14 > T. 21 354 4444 > seg-dom 7h30-3h

Evolution Lisboa

Este pode ser um dos segredos mais bem guardados da capital, mas que a partir desta nossa edição será revelado a todos os que noite dentro, em bons convívios, têm um “ratito” que não os larga enquanto não comem qualquer coisa. Se a maioria dos lisboetas natos conhece de cor os lugares a funcionar até de madrugada, talvez ainda não tenham descoberto o The Kitchen e o The Living Room, restaurante e bar abertos 24 horas no amplo e convidativo lobby do hotel Evolution Lisboa, graças à iluminação a atirar para o futurista.

Cozinha aberta 24 horas no hotel Evolution Lisboa, no Saldanha. Foto: José Carlos Carvalho

Neste quatro estrelas do grupo Sana, bem localizado na central Praça do Saldanha e bem visível graças à escultura de Gustavo Fernandes – uma mão esquerda com 8,5 metros de altura, que sustenta o hotel –, a cozinha não fecha e a qualquer hora se pode comer um entrecôte de novilho Black Angus (€28), um hambúrguer de picanha com queijo cheddar, alface, tomate, aioli de malagueta (€18) ou um pica-pau do lombo, com alho e pickles (€22, 150 gramas). A única restrição é servirem bebidas alcoólicas até às três da manhã, depois dessa hora venham as águas, os sumos e refrigerantes ou os mocktails. Tudo o que nos hidrate, pois a noite vai longa. Pç. Duque de Saldanha, 4 > T. 21 159 0200 > aberto 24h

Snob

Passou a abrir todos os dias, desde que reabriu em dezembro passado, depois de Miguel Garcia (sócio do Café de São Bento) ter comprado o Snob ao anterior proprietário, o senhor Albino Oliveira. Entrando, tudo é familiar neste bar que abriu em 1964, embora esteja visivelmente renovado. A madeira que cobre as paredes foi tratada, a alcatifa no chão é de um vermelho-vivo. Sobre as mesas já não há panos verdes de jogo, mas os candeeiros de latão são os mesmos, assim como os sofás, agora forrados de couro verde-garrafa.

O Snob está aberto todos os dias. Foto: Guilherme Ornelas

Da pequena cozinha envidraçada, instalada na segunda sala, sai o prato supremo da casa: o bife à Snob (lombo €20, vazia €17), 160 gramas de carne frita num molho de natas, com batatas fritas cortadas aos palitos grossos, seguindo a receita do senhor Albino. Os valentes dificilmente hão de resistir aos croquetes (€4,50/duas unidades) com mostarda Savora. Basta descer uns 30 metros da Rua de O Século, pelo passeio do lado esquerdo, e tocar à porta encimada por um toldo verde, como sempre se fez. R. de O Século, 178 > T. 92 645 9164 > seg-dom 19h-2h (cozinha fecha à 1h)

Café de São Bento

É preciso tocar à campainha – “Please ring the bell”, lê-se na tabuleta dourada –, e ali estamos a tocar. Um dos empregados, fardado com camisa branca, papillon e colete em padrão escocês, recebe-nos com simpatia e deixa-nos passar, desviando a pesada cortina. Situado a dois passos da Assembleia da República, o Café de São Bento ganhou fama como sendo o poiso habitual de muitos políticos, mas, se isso é verdade, entre a clientela é possível muitas vezes encontrar três gerações de uma família à mesa. A esmagadora maioria vem pelo bife, inspirado no antigo bife à Marrare, numa receita apurada ao longo dos anos, que é a imagem deste clássico lisboeta inaugurado em 1982 (faz no próximo mês de julho 43 anos).

O Café de São Bento irá comemorar 43 anos em julho. Foto: Afonso Moreira Pires

O bife à Café de São Bento (vazia €27/200 g, lombo €30/200 g, €35/250 g) chega mergulhado num molho saboroso, perfeito para molhar as batatas fritas aos palitos servidas numa taça à parte, e, para quem desejar, com ovo a cavalo (€2,50) ou esparregado de espinafres (€4,50). Há outras duas opções, o bife grelhado (com batatas fritas aos palitos ou às rodelas) e o “à portuguesa” (com alho, louro e presunto, acompanhado de batatas fritas às rodelas). Em 2022, o Café de São Bento teve umas obras de renovação, não para mudar alguma coisa, mas para substituir o que já estava marcado pelo tempo. A remodelação chegou ao primeiro andar do edifício, onde existe uma outra sala de refeição. R. de São Bento, 212 > T. 91 365 8343 > seg-sex 12h30-14h30, 19h-2h, sáb-dom 19h-2h (cozinha fecha à 1h)

Café do Paço

Entre a azáfama da campainha da porta a tocar, mais os telefonemas a tentar uma reserva tardia, os três empregados não têm mãos a medir. Às sete em ponto, abre-se uma das salas de refeições mais acolhedoras e cinematográficas da cidade, com os seus sofás altos de veludo carmim com capitoné, uma espécie de cabine com privacidade, para duas a quatro pessoas. Ao som de Frank Sinatra e Nat King Cole, os comensais vão chegando, desde pares de namorados jovens a estrangeiros que já falam português, habitués solitários, famílias com as três gerações, todos à procura do ambiente familiar e intimista, mas com alma transformada em burburinho.

Café do Paço, uma das salas de refeições mais cinematográficas de Lisboa. Foto: Luís Ferraz

O pedido faz-se sem hesitações: um croquete com mostarda (€1,90), quentinho acabado de fazer, e meio bife (€18,50, 120 g), a que chamam prego do lombo no prato, de uma carne muito tenra e saborosa, cujo molho à base de natas não se sobrepõe. As batatas fritas em palito e o esparregado de espinafres e nabiças são as guarnições certas (quem quiser, pode pedir ovo estrelado, €2). Os bifes do lombo (€25,50, 200 g) podem também ser fritos com alho ou com molho três pimentas. Guarde-se apetite para mais um clássico, o quente e frio da sobremesa (€5,50), guloso gelado de nata com chocolate quente derretido. Aberto há 16 anos, numa zona menos movimentada da cidade, perto do Campo dos Mártires da Pátria, o Café do Paço passou em 2024 a fazer parte do grupo Paradigma e, felizmente, a classe e a qualidade mantêm-se inalteradas. Paço da Rainha, 62 > T. 21 888 0185 > seg-sáb 19h-1h

OUTROS POISOS TARDIOS

Intenso

Boa carne e bom molho no Intenso. Foto: Carlos Vieira

Serve comida tradicional portuguesa, bem pensada e melhor confecionada pelo chefe Mateus Freire. O clássico bitoque do lombo (€19) vem com batata frita (duas frituras), ovo a cavalo e um molho guloso, apurado durante 62 horas e refrescado com vinho branco, onde se ensopa o pão de trigo, feito na fornada da tarde para o jantar. São 180 gramas de carne macia, para comer num ambiente descontraído. R. da Boavista, 69A > T. 93 838 1922 > seg-qui e dom 12h-24h, sex-sáb 12h-1h

Rocco – Gastrobar

Por ficar próximo de teatros (São Carlos, Trindade e São Luiz), nada como uma sessão cultural seguida de um belo repasto. Sente-se num dos balcões mais vistosos da cidade e mande vir um bife à casa, lombo de novilho, batata frita caseira e ovo estrelado (€32). The Ivens Hotel, R. Ivens, 14 > T. 21 054 3168 > seg-dom 10h30-1h

JNcQUOI Avenida – DeliBar

Na cozinha, estão os chefes António Bóia e Filipe Carvalho, quatro abençoadas mãos na preparação das comidas. Na barra, desenhada pelo catalão Lázaro Rosa-Violán, há 48 lugares à espera, num ambiente elegante, moderno e descontraído. Para fomes mais tardias, quem sabe depois de um espetáculo ou concerto no vizinho Tivoli, no Parque Mayer ou no Coliseu dos Recreios, uma das opções: bife pimentas (€36) ou bitoque com ovo a cavalo, foie gras e chips de batata (€37). Av. da Liberdade, 182-184 > T. 21 936 9900 > qui-sáb, véspera feriado 12h-2h, dom-qua 12h-24h

Cockpit

Pequenino como o cockpit de um avião, este clássico de Alvalade estende-se para uma esplanada aquecida e bastante concorrida por uma clientela heterogénea. Pedro Maurício, o proprietário, é um anfitrião exemplar. Sempre atento, cumprimenta os clientes e tira os pedidos, dando sugestões sem hesitar. Quando lhe perguntamos por um bife (“nem é o que sai mais na casa”), dá-nos quatro opões: recheado com queijo de Serpa (€15), com molho três queijos, com molho de natas (ambos €14), ou um naco de 200 gramas de carne fatiada. Todos levam ovo e acompanham com batata assada e salada. Av. Sacadura Cabral, 18C > T. 21 796 7856 > seg-sáb 18h-2h

Marisqueira O Palácio

Em Alcântara Terra, no “largo das cervejarias” (intersecção entre as ruas Prior do Crato, Vieira da Silva e Maria Pia), fica este templo de bem comer marisco, pratos de cozinha portuguesa e petiscos vários. Na lista, constam bifes e bitoques do lombo com “molho glutão” da casa, acompanhados por uma travessa de batatas fritas aos palitos e uma imperial bem geladinha. R. Prior do Crato, 142 > T. 21 396 1647 > seg-qua, sex-dom 12h-2h

Portugália

Na casa que assinala um século este ano, no dia 10 de junho, mantém-se a máxima com que abriu em 1925: “Uma cervejaria democrática.” Os bitoques no prato de barro podem ser servidos com molho à Portugália, ou grelhados com manteiga de ervas. Os cortes da carne de vaca variam entre vazia (€17,50), alcatra (€14) e lombo (€23,50). À meia-noite, temos de estar saciados e na rua. Av. Almirante Reis, 117 > T. 21 314 0002 > seg-dom 12h-24h

Brilhante

Carne do lombo e lavagante na Brilhante no Cais do Sodré. Foto: D.R.

É num ambiente de brasserie, com balcão em pedra com 26 lugares, que o chefe Luís Gaspar serve o bife à Brilhante, inspirado no clássico bife à Marrare, especialidade dos antigos cafés do século XIX, trazida para Lisboa por António Marrare, cozinheiro napolitano. A receita ganhou aqui nova identidade, sobretudo graças ao molho, depois é só escolher carne do lombo (€31) e os acompanhamentos: ovo estrelado (€2,50), escalope de foie gras e esparregado de espinafres com Parmigiano Reggiano (€12) ou lavagante (€25). R. da Moeda, 1 l > T. 21 054 7981 > seg-qui 12h-16h, 19h-24h, sex, véspera feriado 12h-16h, 19h-1h, sáb 12h-1h, dom, feriados 12h-24h

Sala de Corte

Há dez anos, que esta steakhouse especializada em carne maturada marca o ritmo dos restaurantes centrados na proteína bovina. São vários os cortes à escolha (vazia, picanha, entrecôte, lombo, chateaubriand, t-bone, chuletón), com gramagens diferentes e preço cobrado por quilo. Vai para a mesa numa tábua de madeira e um dos sete molhos disponíveis (chimichurri, maionese de trufa-preta, béarnaise, manteiga Café de Paris, pimentas, cogumelos, Stilton). Pç. D. Luís I, 7 > T. 21 346 0030 > seg-qui 12h-16h, 19h-24h, sex, véspera feriado 12h-16h, 19h-1h, sáb 12h-1h, dom, feriados 12h-24h

Mini Bar Avillez

Passando a agitação habitual do Bairro do Avillez, escondida naquela que parece uma estante, fica a porta que dá acesso ao Mini Bar. O bar gastronómico do chefe José Avillez, onde o ambiente é festivo (há música ao vivo e DJ set), serve um lombo maturado na brasa com mostarda trufada (€26,25). Os acompanhamentos são à parte: batatas fritas simples (€6,50) e com trufa e parmesão (€12). Bairro do Avillez > R. Nova da Trindade, 18 > T. 21 130 5393 > seg-qua e dom 19h-2h, qui-sáb 19h-3h

Cervejaria Trindade

Abriu em 1836 aquela que é considerada a cervejaria mais antiga do País. Em 2022, na última remodelação, reabriu com novidades pensadas pelo chefe Alexandre Silva. No entanto, os clássicos mantêm-se e entre eles lá está o bife à Trindade, da vazia (€17,90) ou do lombo (€25,40), servido com molho, batata frita (€3,20) e ovo estrelado (€1,30) na típica frigideira de cobre. O que interessa é ter lugar na Petiscaria, no balcão, no restaurante ou na esplanada, pois a cozinha trabalha em contínuo até ao fecho. R. Nova da Trindade, 20C > T. 21 342 3506 > seg-qui, dom 12h-24h, sex-sáb e véspera feriado 12h-1h

Atribui-se a Gouveia e Melo a seguinte frase: “Se eu algum dia for para a política, deem-me uma corda, para me enforcar!” Em 1976, o próprio general Eanes (de quem também não se conhecia um único pensamento político e não foi por isso que os principais partidos o não apoiaram convictamente…), pressionado a candidatar-se a Belém, dizia aos mais próximos: “Deviam ter pensado antes no [Vasco] Rocha Vieira [também militar, recentemente falecido], esse é que percebe de política!” E agora, eis o refluxo de uma época: foi você que pediu um Eanes de segunda geração? Pois aqui o tem.

Se o artigo de Henrique Gouveia e Melo, publicado no Expresso, é, genericamente, uma coleção entediante de lugares-comuns, ele tem o supremo mérito de esclarecer o País de que não estamos perante nenhum bicho-de-sete-cabeças armado em ditador para destruir a democracia. Na verdade, o la paliciano título que fez manchete no Expresso, “O Presidente não está ao serviço dos partidos”, ideia extraída do artigo, é já uma peça do combate político que aí vem: Gouveia e Melo diz uma evidência com a intenção de insinuar que os seus adversários, esses sim, são suspeitos de estar ao serviço dos partidos, uma tese mais desenvolvida, no texto, e que pretende servir de carapuça aos únicos candidatos anunciados, Marques Mendes e Mariana Leitão –, mas que terá alguma dificuldade em encaixar em António José Seguro, visto que este, tudo o indica, se se candidatar, será a contragosto do PS… Portanto, a principal conclusão deste artigo (em larga medida dececionante) é a de que Gouveia e Melo, tão cinzentão como os demais, inicia um combate político corriqueiro, com os argumentos habituais e de forma nenhuma assustadores. A principal desilusão é que também não inova.

Se fizermos, porém, uma análise mais fina à sua primeira grande mensagem, identificamos nela um potencial de conflito entre a Presidência e os partidos que recupera – linha a linha – os tempos áureos do Presidente Ramalho Eanes quando, a partir de Belém, conseguiu exasperar dois primeiros-ministros de dois partidos diferentes, Mário Soares, do PS, e Sá Carneiro, do PSD. É esse perfil demasiado parecido com o de Eanes que está a assustar, de novo, os partidos. E se a História se repete e Gouveia e Melo tiver um projeto bonapartista de formação de um grande movimento, a partir de Belém, como chegou a parecer o PRD de Ramalho Eanes? Embora os presidentes detenham, hoje, depois da revisão constitucional de 1982, menos poder do que no tempo de Eanes, a legitimidade de Gouveia e Melo pode ser ainda maior do que a do seu “modelo”. É que Eanes chegou a Belém com o apoio, precisamente, dos partidos do sistema, enquanto Gouveia e Melo aspira a lá chegar dispensando esse apoio. Se isso suceder, as duas legitimidades, a parlamentar e a presidencial, chocar-se-ão com muito mais estrondo, o que representa, por si só, um risco para a estabilidade. Mas é um risco que Eanes, perante governos minoritários do PS, primeiro, e maioritários da AD ou do bloco central, depois, também sempre representou, afinal.

Um exemplo: ao sugerir que o incumprimento flagrante de promessas eleitorais possa ser motivo para a dissolução da Assembleia da República (embora nada, na Constituição, o autorize…), Gouveia e Melo invoca os mais duros discursos do Presidente Eanes. Antes de 1982, porém, o PR podia despedir um chefe do governo sem dissolver a AR, enquanto hoje, só interrompendo a legislatura, isso seja (praticamente) possível. Esta terá sido, talvez, a declaração mais inquietante do artigo, mas não deverá passar de uma bravata eleitoralista.

Depois de um ciclo de presidências “doces”, o eleitorado tende a mudar para ciclos de presidências austeras (e vice-versa): Cavaco depois de Sampaio, Marcelo depois de Cavaco. Essa “severidade” é uma aposta clara de Gouveia e Melo para seduzir eleitores fartos de selfies. O seu recado é correspondente: “O Chefe de Estado usa a palavra seguindo a regra da relevância, isenção, equilíbrio, contenção e gravitas.” Este bem podia ser, também, o retrato de Ramalho Eanes ou, pelo menos, o retrato com que os portugueses, retrospetivamente, ficaram dele… Ao assumir-se “entre o socialismo e a social-democracia”, procura seduzir o centrão entre o PS e o PSD, mas revela uma certa candura: sendo frentistas e abrangentes, ambos os principais partidos representam muito mais do que as suas denominações de origem – “socialista” ou “social-democrata” –, quando não se afastaram irremediavelmente delas. Entretanto, para o debate com André Ventura, é melhor que esteja preparado: tendo em conta a forma como privilegia o espetáculo e os gestos de efeito, o candidato do Chega vai, em pleno estúdio, oferecer-lhe uma corda. Vai uma aposta?…

Golpe de Vista

A ironia é um risco, mas lá vai…

Em 1975, em pleno gonçalvismo, com um primeiro-ministro protocomunista e suspeito de simpatias soviéticas, Portugal viu ser-lhe vedado o acesso a informação classificada da NATO. De que está à espera a Organização do Atlântico Norte para fazer o mesmo, agora, com os Estados Unidos da América?…

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No mesmo mês em que celebramos os 80 anos da libertação de Auschwitz, um quinto dos eleitores alemães votou num partido neonazi. Esses alemães concentram-se sobretudo no que era a Alemanha de Leste, área que durante quase 50 anos foi uma espécie de protetorado soviético. Digamos que estes vários milhões de pessoas podem ser acusadas de muita coisa, mas não de falta de clareza: gostam de ditaduras e das mais ferozes e sanguinárias que a História regista.

Entretanto, nos Estados Unidos da América, a democracia liberal está em rápido colapso e da maneira que todos os regimes soçobram: quando as suas instituições são destruídas.

Não é em vão que Trump coloca à frente dos principais órgãos e agências governamentais gente que não percebe rigorosamente nada do assunto ou mal consegue soletrar o nome. A necessidade de obediência canina é critério básico e é por dentro que as instituições se destroem, nada como a completa incompetência e a cegueira ideológica para o fazer.

Só a ingenuidade ou a inconsciência criminosa garantiam que a democracia estava sólida porque as instituições eram à prova de bala. Elas dependem do mais destrutivo dos seres: o Homem, ou seja, são a coisa mais vulnerável que há.

O desrespeito pela separação de poderes e pelos checks and balances também já está anunciado e até, em vários casos, concretizado. Aliás, as assinaturas do novo regime estão aí. Um dos ideólogos trumpistas, Jack Posobiec, disse que era impossível Trump violar a Constituição norte-americana porque ele era a sua encarnação. E o próprio Presidente dos Estados Unidos da América deixou tudo claro quando enunciou o novo mandamento: “Quem salva o país não viola qualquer lei.”

A infalibilidade do líder e a sua vontade de ser lei é o traço distintivo duma ditadura. Se a isto juntarmos a capacidade de tudo saber, de tudo controlar, que Elon Musk, Bezos, Zuckerberg e quejandos tentam assegurar, temos uma nova versão do totalitarismo. E desta vez com meios com que os antigos totalitaristas nem sonhavam.

Seja qual for o regime que está a ser instalado nos Estados Unidos da América, há um que de certeza absoluta não é: uma democracia liberal.  

Não surpreende assim a nova postura dos Estados Unidos da América no mundo. Aliás, o discurso de JD Vance em Munique não passou de uma afirmação desses princípios.

Os Estados Unidos da América deixaram de ser aliados da União Europeia porque, pura e simplesmente, deixaram de acreditar e de lutar por uma ordem liberal e, sobretudo, repito, deixaram de ser uma democracia liberal.

São agora aliados de Putin, com quem partilham os “verdadeiros” valores cristãos, uma conceção muito própria da liberdade de expressão, o antiwokismo – leia-se desprezo pelas minorias, por direitos fundamentais e pela simples decência –, o combate à imigração e a promoção da extrema-direita.

Zelensky tem razão quando diz que o alvo de Putin é a Europa, essa parte do mundo em que, por enquanto, ainda vigoram os valores e os princípios democráticos e liberais. Neste momento, o maior apoio de Putin nesse objetivo é a América. É com essa nova América que quer dividir e partilhar a Europa. No fundo, a humilhação que os norte-americanos estão a impor aos ucranianos, as acusações de que foram eles a atacar a Rússia e a tentativa de extorsão são todas coerentes manifestações dessa recente aliança.

É preciso destruir a Europa, não só pelos despojos mas sobretudo pelos valores que ainda consegue promover.

Nesse plano estão os traidores que têm sido financiados e/ou promovidos por Putin e agora pelos seus amigos norte-americanos como JD Vance, Bannon e Musk — a AfD na Alemanha, o Reagrupamento Nacional na França, e o Chega, para dar apenas três exemplos, que ajudam a minar a democracia e que pretendem fazer da Europa um conjunto de colónias norte-americanas e russas. Por certo, algo de parecido com o que eram os países do Pacto de Varsóvia num lado e a parte ocidental no outro. A diferença é que desta vez os que eram apoiados pela América não teriam liberdade, nem democracia, nem independência estratégica. A Europa está sozinha e impotente e com os tais traidores. Tem ainda os valores, mas como diria Staline do Papa, isso não tem exércitos.

A amnésia e a perda da consciência pela condição humana fizeram-nos pensar que a bondade e aquilo que ajudamos a definir como direitos humanos e fundamentais eram um dado adquirido e que não haveria retorno possível. E, sim, desse lado estariam sempre os norte-americanos.

Esses estouvados, ingénuos e que se fartaram de promover ditaduras e outras infâmias parecidas, mas que, mesmo assim, eram os campeões de tudo o que de bom e decente tinha acontecido no último século: os direitos das mulheres, das minorias, dos que tinham sido humilhados ao longo dos séculos. Os que tanto fizeram pela cultura e pelo pensamento. Os que desenvolveram a tecnologia ao serviço de todos como nunca na História. Tantos defeitos, tanta desigualdade, tantos erros, mas as qualidades que têm e os valores que defendiam fizeram a diferença. 

Os que ainda acreditam na democracia e na liberdade são poucos e estão desarmados. Basta pensar um bocadinho para se perceber que a democracia é um pequeníssimo detalhe na história das comunidades. Pelos vistos, ainda mais pequeno do que pensávamos.

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O Presidente francês, Emmanuel Macron, encontrou-se esta semana com o Presidente dos Estados Unidos da América na Casa Branca. Ouviu o que todo o mundo ouviu de Donald Trump. Que a guerra na Ucrânia pode “terminar brevemente, dentro de semanas” e que está “muito próximo” um acordo entre Washington e Kiev para que os norte-americanos possam aceder a recursos minerais ucranianos, nomeadamente a terras raras, minerais essenciais na produção de vários produtos industriais.

A invasão da Rússia à Ucrânia, dando início à guerra, começou há três aos, completados a 24 de fevereiro. Nesta segunda-feira, 24, Vladimir Putin saía de uma reunião do gabinete russo sobre recursos naturais dizendo que está disposto a oferecer aos EUA acordos lucrativos para exploração de minerais, incluindo nos “novos territórios” anexados pela Rússia, ou seja, as regiões ucranianas de Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporijia. Além disso, falou também na exploração de alumínio na Sibéria, matéria-prima de que os EUA tanto necessitam.

Parece haver aqui dois tabuleiros em jogo – acordo EUA/Ucrânia e acordo EUA/Rússia –, mas se formos analisar bem, talvez seja sempre o mesmo jogo embaciado por manobras de diversão políticas. Num business as usual poderá encontrar-se uma tal de paz, mas vai custar à Ucrânia literalmente as suas entranhas: os seus recursos naturais, a capacidade de ser dona do seu destino, a sua independência. Anexada à Rússia ou à ganância dos Estados Unidos, tanto faz para os sonhos dos que lutaram e morreram contra a invasão.

E, na verdade, que país é verdadeiramente independente e vive em plena liberdade? Só nas ilusões dos utopistas.

Ainda na semana passada, Donald Trump tinha chamado ao Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky “comediante modestamente bem-sucedido” e “ditador”. Que ele era dispensável na mesa das negociações da “paz”. “Ele está lá há três anos e faz com que seja muito difícil fechar acordos.” Aquele que o mundo viu emergir como um herói na sequência da invasão está, mais do que nunca, no fio da navalha. Tem aqui uma saída para o atoleiro da guerra, mas, como ele próprio disse, “não posso vender a Ucrânia”. Veremos se não venderá.

O acordo que os EUA lhe propõem implica, segundo Zelensky, dar aos norte-americanos 500 mil milhões de dólares em riqueza mineral em troca do apoio fornecido durante a guerra. Implica ainda que os EUA tenham uma participação financeira de 100% num “fundo de investimento para a reconstrução” da Ucrânia, que fará a gestão conjunta dos recursos do país – minerais, petrolíferos e de gás, infraestruturas e portos. Os tais 500 milhões de dólares serão a contribuição ucraniana para o fundo, 50% das receitas do mesmo. Mas nos territórios agora ocupados pela Rússia, e que eventualmente venham a ser desocupados, a contribuição ucraniana será de 66%.

O que acha Vladimir Putin disto? Segundo Donald Trump, o Presidente russo aceitará o envio de uma força europeia de manutenção de paz para o território ucraniano depois do cessar-fogo. Aliás, a Rússia votou a favor de uma resolução norte-americana para a paz na Ucrânia, apresentada no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Reino Unido e França abstiveram-se.

Será este então o papel da Europa – tema da visita de Macron à Casa Branca –, enviar soldados de paz para a Ucrânia. Para que os negócios decorram sem sobressaltos.

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