Em dia de luto nacional pela morte do Papa Francisco, milhares de pessoas responderam ao apelo para celebrar nas ruas o 25 de Abril e encheram a Avenida da Liberdade para o tradicional desfile comemorativo da Revolução de 1974, ladeadas por outra multidão que assistiu nas laterais.
Com a avenida cheia desde a zona do Marquês de Pombal até à Praça dos Restauradores, ouviram-se gritos de celebração da liberdade e da democracia.
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“Venho desde que me lembro de ser gente. É uma manifestação de amor pela liberdade, pela democracia, num tempo em que isso é cada vez mais necessário, dado o ressurgimento da extrema-direita. A única resposta é afirmar a alternativa pela liberdade, pela democracia”, disse à Lusa um dos manifestantes.
JOSÉ SENA GOULÃO/ LUSA
Entre os cravos vermelhos e bandeiras Portugal, partidos e movimentos associativos, os participantes erguiam também cartazes em que era possível ler mensagens como “Em cada rosto igualdade”, “A revolução será feminista ou não será”, “As mulheres ciganas também fizeram o 25 de abril “.
Outros dirigiam-se ao Governo, com avisos de que “Se o país continuar assim, a Assembleia voltará a ser um ninho de lacraus”.
Mais de uma hora depois de as duas chaimites marcarem o arranque da marcha, os primeiros participantes chegavam ao Rossio, onde a Associação 25 de Abril encerrou o desfile com um discurso de Adelino Costa, que substituiu Vasco Lourenço nessa tarefa. “Os ideais do 25 de Abril estiveram presentes no nosso percurso histórico nos últimos 50 anos e continuam bem vivos na sociedade portuguesa, (…) porém, há muitas ameaças a surgir no nosso horizonte”, alertou, defendendo que “Portugal tem de continuar a ser um país livre, justo, solidário e amante da paz”.
No final, ouviu-se novamente uma das senhas da revolução, a “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso, entoada em uníssono uma última vez.
Na primeira metade do século XX, agricultores e pastores tinham no fogo um aliado. Consideravam-no um instrumento fundamental para fertilizar as terras e substituir o trabalho braçal na limpeza do mato, de modo a abrir terreno cultivável para produzir cereais e criar novas pastagens. Havia muitos fogos, mas praticamente nenhum incêndio.
Até que começou a ganhar espaço a ideia de que os camponeses não sabiam o que faziam e que o fogo era inimigo da floresta, a nova coqueluche entre a classe dominante. O fogo foi sendo proibido e os campos agrícolas deram lugar a pinhais e, depois, a eucaliptais. Os incêndios começaram, então, a surgir, cada vez maiores, cada vez mais frequentes, cada vez mais imparáveis. E assim chegámos à triste posição que ocupamos hoje: o país que mais arde (de longe) na Europa.
Florestação de Monsanto A serra era um ermo pedregoso, com pastagens, algum trigo e oliveiras, até ser alvo de uma plantação de larga escala em 1938
Esta relação de causa-consequência – da supressão dos fogos agrícolas e da florestação de Portugal ao advento dos grandes incêndios – é a principal conclusão do projeto FIREUSES, Paisagens de Fogo, divulgado nesta quinta-feira, 24, na conferência Paisagens de Fogo: Uma História Política e Ambiental dos Grandes Incêndios em Portugal, na Biblioteca Nacional, em Lisboa. Além do trabalho de pesquisa documental, o projeto incidiu sobre os casos particulares das serras da Lapa e da Nave, no Norte, e de Monchique, no Sul, como dois exemplos diferentes e paradigmáticos de paisagens de fogo.
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“A agricultura ocupava grande parte do território e tinha uma relação muito forte com o fogo, com práticas diversificadas”, explica Miguel Carmo, coordenador do estudo e investigador do Instituto de História Contemporânea (IHC), da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. “É impressionante a quantidade de técnicas com nomes e aplicações diferentes. Algumas são relativamente recentes, desenvolvidas já no século XX, no contexto da expansão do trigo, que alterou significativamente as formas de cultivo. Encontrámos uma agricultura do fogo dinâmica e rica.”
Mas o Estado Novo, baseando-se em ilusões semeadas décadas antes, decidiu que Portugal teria de ser “novamente” coberto por florestas. Nesse país, haveria menos espaço para a agricultura e a pastorícia, e menos ainda para uma agricultura e uma pastorícia em que o fogo desempenhava um papel fundamental. O fogo era amigo da agricultura, mas inimigo da floresta.
Um erro que haveria de ter impactos colossais a partir de finais da década de 1960.
Os “camponeses ignorantes”
A decisão de substituir campos agrícolas por florestas tem por trás uma dimensão económica e estética com origem ainda no século XIX, diz José Ferreira, também investigador do IHC e colaborador do projeto. “Há uma ideia de romantismo, do sublime, de que uma serra coberta de verde é inerentemente mais bonita e saudável, enquanto uma serra desbastada pelo pastoreio e pelo fogo é deprimente e insalubre, além de produzir menos riqueza do que uma floresta. Até a arborização de Monsanto [em 1938] nasceria dessa convicção de que uma serra pedregosa não era suficientemente produtiva nem se parecia com a imagem de paisagem ideal que estava na cabeça de uma elite política, intelectual e científica que, muitas vezes, estudou na Alemanha e vira os Alpes.”
A paisagem, acreditava-se, tinha sido vítima de uma degradação ambiental ao longo dos séculos, causada por camponeses ignorantes. A floresta seria um regresso a um (duvidoso) passado idílico em que as árvores cobriam grande parte do território. Com tanta sapiência, ninguém se lembrou de que o clima português não é o alemão.
A teoria é transposta para o papel num relatório que acompanha a primeira carta de uso do solo, de 1868, com uma mensagem de que havia de se rentabilizar o território (com floresta), instruir os camponeses (tidos como responsáveis pela desflorestação) e desenvolver uma racionalidade científica na gestão do território (errada, como se veria demasiado tarde). Esses conceitos seriam recuperados pelo Estado Novo, para justificar o Plano de Povoamento Florestal, que passava pela plantação de árvores (sobretudo pinheiros) nos baldios a norte do Tejo, terras que passariam a ser geridas, não pela comunidade, mas sim pelos Serviços Florestais, gerando, pelo caminho, uma série de conflitos.
Para proteger essa nova floresta, que primeiro alimentava a indústria da madeira e a partir dos anos 50, o ainda mais lucrativo setor do papel, seria necessário excluir as práticas agrícolas baseadas no fogo. Menosprezar e atacar essas práticas seria contraproducente: ao invés de pequenos fogos controlados para queimar a matéria orgânica, passaríamos a ter incêndios devastadores.
Agora é tarde
A transição da paisagem é muito clara na serra de Monchique, aponta Miguel Carmo. “O eucalipto começa a chegar nos anos 50, com grandes incentivos do Estado e uma indústria da celulose a produzir papel de qualidade, o que gera uma revolução: o eucalipto passa a ser uma alternativa viável ao trigo e ao centeio. Nos anos 60, começa o abandono da população, para se empregar nos hotéis do Algarve e emigrar para França, e a economia agrícola e a sua prática de fogo começam a desaparecer. E em 1966 há um primeiro grande incêndio, que chega a Aljezur. No ano seguinte, o comandante da GNR escreve um relatório que envia ao governador-civil a explicar que os grandes incêndios na região se devem às queimadas de setembro, então legalmente autorizadas, e sugere que passem a ser realizadas num período posterior. No final dos anos 60, o fogo reduziu-se por ação desta transformação.”
O papel do fogo como ferramenta de prevenção de incêndios também se foi perdendo. “Um equívoco ecológico que permaneceu até muito tarde”, descreve o investigador. “Só nos anos 1970 aparecem os primeiros profissionais a apontar que os fogos que excluímos da paisagem estão a voltar na forma de grandes incêndios.”
Quando os Serviços Florestais se aperceberam de que o fogo era importante, já não havia gente para o fazer. O conhecimento perdera-se
Nessa altura, surgem algumas teses no Instituto Superior de Agronomia sobre o fogo como forma de gerir a paisagem, normalmente de investigadores que haviam passado pelos EUA, onde o fogo controlado era estudado desde os anos 50. Mas era tarde demais. Primeiro, porque décadas de demonização dos fogos criaram desconfiança nos silvicultores, que se recusavam a aceitar as teorias americanas. Segundo, porque os “camponeses ignorantes” que sabiam usar o fogo estavam a desaparecer. José Joaquim Moreira da Silva, engenheiro silvicultor que dirigiu o Parque Nacional da Peneda-Gerês (onde fez experiências com fogo controlado) em finais dos anos 70, ainda defendeu inquéritos na população rural para que não desaparecessem esses conhecimentos, mas em vão.
“Quando os serviços se aperceberam de que o fogo, afinal, era importante, já não havia pessoas para o fazer”, diz José Ferreira. “Há quem tente reintroduzir o fogo controlado nos Serviços Florestais, mas isso não se traduz em políticas públicas. Persiste a desconfiança a nível político e administrativo. A ideia do fogo com mão criminosa, aliás, nasce no Estado Novo. Todos os verões ouvimos que o uso do fogo é mau, queimadas são más, e pelo caminho a paisagem foi-se tornando muito mais combustível.”
Nem toda a culpa estrutural pode ser imputada às políticas do Estado Novo, sublinha Miguel Carmo. “Os Serviços Florestais eram uma instituição com uma presença enorme no território, mas a estrutura vai sendo reduzida e, a partir dos anos 80, desmantelada. Hoje, há muito pouca gente para fazer fogo controlado.”
Em junho de 1974, quem abrisse o Diário da República iria deparar-se diretamente com uma nova fase de progresso em Portugal. Por via do decreto nº251/74, de 12 de junho, promulgado pelo Presidente da República, António de Spínola, assumiu-se, pela primeira vez, e sem hesitações, a evidência de que a discriminação baseada no sexo é contrária aos princípios democráticos. Deste modo, o diploma em causa afirmou em tom solene que se impunha dar início à reparação de uma injustiça histórica, começando pelo setor da Justiça, mas com o desejo de que essa reparação se tornasse sistémica.
Decretado por um governo ainda provisório, os novos ventos de Abril determinaram que “o acesso aos cargos judiciários ou do Ministério Público e aos quadros dos funcionários de justiça [fossem] facultados a todos os cidadãos portugueses, independentemente do seu sexo”. Do mesmo modo, se firmou que “até ao final do ano de 1977 poderão ser admitidos aos concursos para juiz de direito e para delegados do procurador da República e nomeados interinamente delegados do procurador da República os cidadãos do sexo feminino que não tenham mais de 45 anos de idade”.
Volvidos menos de dois meses sobre o “dia inicial, inteiro e limpo”, nas palavras eternas de Sophia, foi no setor da Justiça que, simbolicamente, se abriram as primeiras portas para uma consagração do princípio da Igualdade, vertendo-se em letra de lei a possibilidade de acesso das mulheres a poderes soberanos do Estado. Porém, Abril não se fez de uma vez só. Na verdade, nenhuma lei, por si só, muda automaticamente as mentalidades, sobretudo num país atormentado, durante largas décadas, por uma escuridão que levou Jorge de Sena a suplicar pela “cor da liberdade”.
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De facto, enquanto boa parte da Europa se refazia do pós-guerra, progredindo na sua legislação e na sua visão do mundo, Portugal afundava-se num fechamento, vivendo ensimesmado e reprimindo quaisquer tentações “desestabilizadoras” através dos horrores da guerra, da polícia política e da censura. Essa vivência assentou, além do mais, em legislação retrógrada que desenhou as relações familiares e sociais com base em padrões do século XIX e que perdurou imutável por quase um século. Entre 1868 e 1967, vigoraram em Portugal normas que deixaram marcas profundas na mentalidade coletiva. Com efeito, o Código Civil, também conhecido como Código de Seabra (aprovado pela Carta de Lei de 1 de julho de 1867, em pleno reinado de D. Luís), determinava expressamente que ao marido incumbia a obrigação de proteger e defender a pessoa e os bens da mulher, sendo que a esta incumbia o dever de lhe prestar obediência. A mulher não podia publicar os seus escritos sem autorização do marido, ao passo que a este cabia a administração de todos os bens do casal. A mulher casada não podia recorrer ao tribunal sem autorização do marido, a menos que fosse ré, tal como não podia adquirir bens ou contrair obrigações. A separação de pessoas e bens apenas era justificada caso se verificasse adultério da mulher, sendo que no caso de adultério do marido este apenas era causa de “interrupção da sociedade conjugal” se se verificasse uma situação de “escândalo público”.
Após quase cem anos de imutável legislação, normalizadora de relações sociais desiguais em função do género e sem as alterações progressistas próprias da nova era surgida após 1945, ceifaram-se gerações sedentas de futuro, com muitos jovens a “fugir a salto”, na clandestinidade rumo à Europa central.
Porque é de novo abril, tenhamos consciência de que a tão almejada democracia apenas subsiste numa sociedade que seja verdadeiramente humanista, assente nos valores da liberdade e da dignidade
Neste contexto, a Revolução constituiu a “madrugada” que todos esperavam e de que todas as gerações seguintes são beneficiárias. Contudo, apesar da evolução espelhada, por exemplo, na consagração do sufrágio universal e na abolição de várias discriminações impostas às mulheres, a verdade é que, volvidos 51 anos em democracia, somos hoje confrontados, tal como noutras democracias estabilizadas, com um adormecimento coletivo. Após a euforia da liberdade, a que se seguiu um período de grande labor em torno da construção e estabilização do nosso edifício legal e constitucional, surgiu a fase da paz, do progresso económico e educacional, da integração europeia e da criação de novas infraestruturas. Mas aqui como em diversas democracias liberais, o decurso do tempo gera erosão do entusiasmo fundador. Paradoxalmente, a esperança inicial tende a esmorecer perante a estabilidade alcançada, ao que não é alheio o descontentamento gerado pela constatação de que os objetivos progressistas não se cumpriram na sua plenitude.
De facto, volvidas escassas cinco décadas, direitos que se proclamaram logo no dia da Revolução estão hoje novamente sob ameaça. No que ao género diz respeito, para além das chocantes discriminações ainda verificadas, à luz do que deviam ser os critérios e os valores em pleno século XXI, afiguram-se especialmente perturbadores e merecedores de atenção coletiva os dados relativos à disseminação dos crimes sexuais, de ódio e de violência de que mulheres e meninas são vítimas, facilmente divulgados e incentivados através da partilha de conteúdos on line, perante a passividade generalizada dos destinatários de tais informações. Numa era em que a igualdade não devia ser uma questão a discutir, preocupa o surgimento de correntes de pensamento que se movem num submundo digital e que se materializam na banalização do mal na vivência diária off line.
Para que se cumpra Abril nesta matéria, e porque as mentalidades não se mudam por decreto, sobretudo numa era de populismo crescente e de proliferação descontrolada de perigosos doutrinadores, importa que os valores iniciais não se repitam ano após ano em discursos meramente proclamatórios. Impõe-se uma aposta séria na formação integral, não firmada apenas na dimensão estritamente académica, mas também na valência da educação para a igualdade. A título de exemplo, a Dinamarca já pratica desde os anos 90 com a implementação de aulas (Klassens tid) destinadas exclusivamente à discussão e à busca de soluções, em contexto de turma, para problemas reais que afetam os alunos, assim se fomentando, em grupo, a tão necessária empatia como uma componente estrutural das crianças e jovens.
Em 1932, Aldous Huxley no seu Admirável Mundo Novo descreveu uma sociedade que, quase cem anos volvidos, não pode deixar de nos fazer refletir face às similitudes do mundo atual. Uma civilização marcada pelo progresso científico, em que se renega a História, em que se vive segundo uma filosofia utilitarista, em que tudo se destina à felicidade e ao prazer imediato, em que se predestinam as pessoas através de mecanismos pavlovianos e em que o passado e o futuro não têm qualquer relevo.
Porque é de novo abril, tenhamos consciência de que a tão almejada democracia apenas subsiste numa sociedade que seja verdadeiramente humanista, assente nos valores da liberdade e da dignidade. Nas palavras do recém desaparecido Papa Francisco, na sua vertente de pensador das questões da educação, do direito e da justiça, na Mensagem para o Pacto Educativo (de 2019): “Nunca, como agora, houve necessidade de unir esforços numa ampla aliança educativa para formar pessoas maduras, capazes de superar fragmentações e contrastes e reconstruir o tecido das relações em ordem a uma humanidade mais fraterna.”
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Morreu o Papa. E em poucas horas, nasceu uma biblioteca. Um quiosque tonitruante. Artigos, vídeos, teses, beatificações instantâneas. Não por ele, note-se. Mas por nós, pobres diabos com uma compulsão súbita para dizer seja o que for. Miguel Tamen, com uma clarividência que só os justos conservam, já o explicara, comparando opiniões com galochas: confundimos liberdade de expressão com obrigação de expressão.
Opina-se. Chora-se. Inventa-se doutrina. Mas é tudo projecção. E, nesse gesto, Francisco deixa de vestir de branco, para passar a usar colete reflector. Reflecte ideologias. Reflecte sentimentos. Reflecte — sobretudo — o vazio.
E, contudo, a unanimidade é desconcertante num ponto: a adesão com que tantos recordam a sua prioridade pela pobreza. É genuína, talvez. Mas é também projectiva. O Papa preferia os pobres (preferia mesmo!) — e isso cai bem. Mas todos fugimos da pobreza como o diabo da cruz. O nosso corpo rejeita a pobreza como rejeita o rigor, o jejum, o silêncio.
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Hoje, a burguesia cultiva uma contenção estilizada — chamemos-lhe assim. Um certo minimalismo ou ascese performativa. Mas isso não tem nada que ver com o mau cheiro no rosto dos outros. A esmola é mal vista. O discurso político liberal trata a pobreza como algo que deve ser erradicado, não tocado.
E, no entanto, há na calidez de um homem que retoma a proximidade física, qualquer coisa que toca num nervo antigo. Uma alegria alegre. Uma pobreza pobre. Como diria Santa Teresa d’Ávila, no desarmante pleonasmo das coisas como elas são. E é isso, talvez, que tanto se projecta sobre ele. Não o Papa real. Mas o reflexo do que se perdeu. Ou do que nunca se chegou a ter.
Basta ligar a televisão. Logo ali, no calor dos painéis, começa o ritual. O Papa transformado em holograma progressista. Um Che Guevara de branco. Um Subcomandante litúrgico enviado para libertar Roma do latim e do Inferno. E se alguém disser “Blaise Pascal”? Se alguém recordar que a última coisa que Francisco escreveu foi uma condenação clara e contundente do aborto e da eutanásia? E se, por absurdo, mencionar que ele punha papelinhos aos pés de São José? Silêncio. Troca de canal. Este Papa — o que fala da velhice como vocação de sabedoria e acredita no Diabo — ninguém quer ver. Porque esse exige e divide. Esse escapa às alegorias.
Desaparece. E sobra o Papa de todos. Que é, evidentemente, o Papa de ninguém.
Eis o que quero dizer: quanto menos soubermos sobre alguém, mais nos é útil como espelho: é a cruz que é de prata, o apartamento em Santa Marta, a expressão cromática do calçado. Tudo é sinal de outra coisa qualquer. Qualquer que seja a virtude do dia. Era o Papa do Povo. Dos Ateus. Dos Ambientalistas. E até a tumba escolhida em testamento foi lida como homenagem à mulher contemporânea. Chega a ser admirável, na sua lógica delirante.
Para o mundo, ele não era um homem — era uma metáfora.
Mas na fúria de projectar as suas ânsias, os meios de comunicação ignoram a realidade: o povo de Deus não quer saber dessas coisas. Quer ir à Missa, tentar ser bom como Jesus foi bom. Cumprir os sacramentos. Educar os seus filhos. Protegê-los do mal. E que o deixem em paz.
Quando a História resolve acontecer, é natural que todos queiram aderir. É magnético. Ninguém quer ficar para trás. Mas haveria outro tipo de participação possível. Li um título que dizia assim “Multidão em silêncio no velório do Papa”. E pensei: “Ah, bom.”
Na sua coluna da Revista do Expresso do fim-de-semana passado, o Pedro Mexia citava um tal William James. Dizia assim: “(…)o modo patético de viver certos desastres é mais natural às pessoas que estão distantes do que às vítimas imediatas.” Isto era a propósito de um sismo. Mas poderia ter sido sobre a morte do Papa Francisco. Que não estremeceu a terra — mas desencadeou um terramoto palavroso.
Hoje, o silêncio é suspeito. Há dois modos de fugir à realidade de Francisco: exaltá-lo como símbolo. Amá-lo como ilusão. Ambos o usam. Ambos valem mais para nos fazer sentir bem do que para nos obrigar a mudar de vida.
O Papa, coitado, serviu-nos uma última vez como espelho. De unanimidades artificiais. De carências inconfessas. De uma fé sem risco. Não que isso diga muito sobre ele. Mas diz tudo sobre nós.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa. Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
A liberdade não tem cheiro, nem cor, nem ocupa espaço. Mas é ela que nos dá caminho e chão, que nos dá largueza e segurança. A liberdade é frágil, difícil, instável. Mas é também o ar que nos enche o peito, que nos faz funcionar. O problema da liberdade é que, quando existe, não se vê. Quando a conquistamos, parece de pedra, natural como o céu e o sol. Não percebemos quando começa a desabar, porque ela nunca acaba num só dia. Vai desaparecendo devagarinho, debaixo de muros e sombras, de mordaças e interdições pequenas, esvaindo-se aos poucos, sem que demos por isso. Todos os dias nos custa mais a respirar, mas os pulmões habituam-se à rarefação e, mesmo que tudo seja mais lento e pesado, não nos apercebemos logo do que está a acontecer.
A liberdade vai escasseando. E quase ninguém dá por isso. O espaço está mais estreito, mas nós vamo-nos encolhendo e achamos que continuamos a caber. Pior: convencem-nos de que a liberdade é um problema. A liberdade é tão elástica que pode ser usada pelos seus próprios inimigos. E eles não têm problemas nenhuns em usá-la para nos privarem dela.
Quando ouvirem alguém dizer que “agora já não se pode dizer nada”, saibam que é um inimigo da liberdade que o diz. Porque esse tempo antes deste “agora” era o momento em que muito poucos tinham toda a liberdade de esmagar todos os outros debaixo da repressão e da censura. O que antes se podia dizer, continua a ser dito, porque a liberdade também é isso. A diferença – e é isso que eles não suportam – é que agora o que dizem podem ser desdito, contraditado, questionado. Podem dizer tudo o que quiserem, deixaram foi de poder calar os outros.
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A liberdade não funciona no vazio. Ela precisa de estruturas, feitas de leis que protejam os mais fracos, de uma igualdade material que a sustente. Não há liberdade a sério quando se tem a barriga vazia e se está à mercê de quem tem tudo e faz as regras.
Não se é livre sozinho. A liberdade constrói-se em comum, numa sociedade em que os direitos são respeitados e os mais fracos protegidos. Não há liberdade a sério quando é cada um por si e ganha o mais forte.
Os libertários são inimigos da liberdade. São os que a querem só para eles, sem limites, nem freios, porque se acham mais fortes do que todos os outros e querem usar essa posição de domínio para crescer esmagando os que ficarem por baixo.
Precisamos de falar de liberdade. Precisamos de nos lembrar do que é não a ter, precisamos de ver como ela está a desaparecer, deixando-nos as mãos mais atadas e as bocas caladas. Precisamos de saber que a liberdade não é só festa, é luta. E que não basta andar com um cravo na lapela e descer a avenida, se no dia a seguir nos calamos e encolhemos e fechamos os olhos às injustiças e deixamos que os novos donos da liberdade a vendam como flexibilidade, precariedade e competição pura.
O 25 de Abril é o dia da liberdade porque foi a revolução que nos trouxe “a paz, o pão, habitação, saúde, educação”. Precisamos de voltar a cantar essa canção do Sérgio Godinho, porque está tudo lá. Não para celebrar o passado, mas para construir o futuro.
O 25 de Abril já aconteceu, mas ainda está a acontecer, se tivermos a força de nos agarrarmos a essa liberdade. O 25 de Abril é um dia que ainda não veio, que é preciso construir todos os dias. Porque a democracia e a liberdade nunca acabam de se fazer, a não ser quando morrem.
Aos que acham que está tudo feito, aos que se agarram ao passado, aos que acreditam que antes é que era bom ou que a revolução é só uma coisa ultrapassada, aos que fingem que não aconteceu nada, aos que sentem saudades do que foi ou do que podia ter sido, aos que chegaram agora e não sabem nada porque vêm com a ignorância de quem não precisou de aprender tudo da maneira mais difícil, aos que acham graça aos desfiles e usam cravos como adereços de moda vazios, aos que fazem comércio e aos que fazem escárnio. A todos esses precisamos de falar de liberdade, da liberdade a sério, construída em luta e festa, feita com todos e para todos, mesmo para os que não gostam dela, para que até esses possam dizer o que querem e que não lhes falte a saúde, a educação e a habitação quando o azar lhes bater à porta e descobrirem que, afinal, a liberdade não é um substantivo individual, mas só é plena quando se escreve no coletivo.
Aqui estou resignado na bicha que me coube para ser eleitor. Confesso que saltei da cama mal-humorado e sonolento. Tomei um banho rápido, escanhoei-me com o civismo rabugento matinal e fui ocupar com lentidão diligente o lugar na bicha da minha secção.
É esta. Bem. Tive sorte. É das mais curtas do local, constituída totalmente por Josés, associação a que nunca pertenci. Mas pertenceu o meu amigo, já morto, embora continue vivo em alguns discos. José Paradela de Oliveira (e, ainda bem que me lembrei dele agora), sempre tão amoroso de tudo o que deixava na boca o sabor popular a canções que ele cantava com tanto gozo de amar a vida e a liberdade. Um dia – contou-me o poeta Edmundo Bettencourt, que também entoava com volúpia cantigas do Povo com puríssimos agudos de tenorino – um dia, o Paradela proferiu na sede dos Josés uma conferência sobre José Régio, Armindo José Rodrigues e José Gomes Ferreira.
Por acaso – continuava o Edmundo – nessa sessão um dos associados presentes, elogiou com veemência as “inesquecíveis páginas dos Ceifeiros” de José Fialho de Almeida, desta maneira, pouco mais ou menos: quando leio essa obra-prima que capta os hórridos trabalhos forçados dos ceifeiros naquele inferno de suor e fel, digo sempre de mim para mim: quantos Josés não estarão ali a penar, na ceifa…”
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Bem. Felizmente que me recordei destes meus dois amigos para me aquecerem a impaciência de esperar. Agora estou a fitar com atenção psicológica os Josés que me rodeiam, na tentativa de descobrir os partidos em que irão votar. Apuro o ouvido e ouço sobretudo falar dos cafés fechados.
“Que chatice! – exclamava um rapaz de boné à Lenine: tenho uma fome de lobo! Vinha com a intenção de tomar o pequeno-almoço num snack-bar, mas afinal…” – Respondi-lhe com doçura burguesa: “Pois eu roí as minhas torradinhas em casa.” Olham-me com inveja. (Até o extremista do boné, implacável.) Caramba!
Como a bicha se desloca com pernas de tédio rastejante, vale-me a imaginação. Por exemplo, deviam construir o Palácio do Voto com cadeiras instaladas em tapetes rolantes que nos levassem com delicadeza democrática até às urnas. Seria tão bom poupar as pernas. Mas que remédio senão continuar de pé e, para não desistir, invoco a coragem com que alguns presos políticos, no tempo do salazarismo, se mantinham hirtos, duros, terríveis: sem quebras nem choraminguices, durante a terrível tortura da estátua. Em 1958, aquando das eleições de Humberto Delgado, a espera foi bem mais longa, pois naquela altura jogava-se a comoção de outro destino, posto que eu, pessoalmente, nunca acreditasse em qualquer libertação pelo voto. E então, para aquietar a impaciência, resolvi entregar-me à poesia. Reparando que a maioria dos eleitores em redor de mim traziam escondidos nos envelopes da União Nacional, os votos da oposição com o nome do Delgado, pus-me a magicar mentalmente:
De repente desato a rir do último arrojo do Grito Plural agora silêncio de cobra em filas
Combate astucioso com armas de papel em bainhas inimigas
Cólera de abelhas que só picam em segredo por indústria macia de cera e mel. etc., etc., etc.
O mais curioso (ou melhor, como era lógico) é que estes versos, insertos em Grito Plural da minha Poesia V, foram cortados pelo Exame Prévio, quando uma revista de Lisboa tentou publicá-los nas últimas eleições para a Assembleia Nacional Caetanista.
E se eu agora também fizesse versos para entreter estes últimos momentos de espera? Para quê? Não vale a pena. Não falta muito tempo para terminar o sacrifício. Com toda a franqueza, estas eleições, depois da assinatura da plataforma com as Forças Armadas, não possuíam para mim qualquer aspecto de dramatismo poético especial. Talvez fosse preferível organizar um referendo com a seguinte pergunta: “Quer ou não quer que se instale o Socialismo em Portugal?” Seria porventura mais apaixonante e útil. Mas, agora, não temos outro remédio senão ir para diante. Aliás, já não me restam minutos para meditar. Cheguei à mesa e o presidente lê o meu nome em voz bem timbrada.
No dia 25 de abril de 1975, eu tinha 30 anos e votei pela primeira vez. Era repórter na RTP e, nessa condição, andei por secções de voto da Grande Lisboa, orientando a captação de imagens, obtendo declarações, realizando pequenas entrevistas.
Um ano antes, em 25 de abril de 1974, trabalhava na redação do Diário de Lisboa. Estive no Largo do Carmo, onde Marcello Caetano se tinha refugiado no quartel da GNR, cercado pelas forças da Escola Prática de Cavalaria, comandadas pelo capitão Salgueiro Maia, com quem mantive um diálogo intenso ao longo de muitas daquelas horas de espera. Um ano depois, repórter de televisão, via como a revolução, através do voto, se transformava numa democracia.
Os muitos milhares que em 25 de abril de 1974 iam surgindo na rua, à medida que as horas passavam, apoiando os capitães que os libertavam da ditadura, apresentavam-se um ano depois junto das secções de voto.
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Em 1974, no Largo do Carmo, eu pedia às pessoas que moravam ali perto para me deixarem usar o telefone e assim poder enviar as notícias para a redação, finalmente liberta da censura. Um ano depois, as imagens captadas na rua e nas secções de voto tinham que chegar às instalações da RTP no Lumiar cinco ou seis horas antes de serem emitidas.
Filas de gente para votar
Nas várias secções de voto onde estive havia, em todas, longas filas de gente para votar. O ambiente era de descontração, um ou outro interrogava-se se ia correr tudo bem, mas o clima era de grande confiança. A única noticia que abanou um pouco este otimismo veio de Braga. Arnaldo Matos do MRPP foi preso por estar a lançar panfletos a apelar ao boicote das eleições e por posse de arma ilegal. Porém, o eco da notícia pouco durou e a votação prosseguiu.
Uma senhora que entrevistei, numa secção de voto próxima de Mafra, disse-me que ia votar numa mesa de voto onde estava o seu filho. Perguntou-me se eu sabia que partido ia ganhar, disse-lhe que não sabia, e respondeu: “Deixe lá, vamos ganhar todos, isso é que importa.” Alguns perguntavam aos elementos da mesa como é que se votava. Davam-lhes todas as explicações, mas depois via-se como se sentiam hesitantes no momento de ficarem sozinhos na cabina onde deviam preencher o boletim de voto.
Os jornalistas que andavam por terras mais distantes eram transportados em helicópteros da Força Aérea. Fora dos grandes centros, afirmavam, havia mais dificuldades. Muita gente não conseguia identificar alguns dos doze partidos que faziam parte das listas. A grande maioria nunca tinha votado, o que não espantava. No final do dia, foram contados cinco milhões de votos (4 736 666 válidos, 333 000 nulos) quando, no tempo da ditadura, o número de votantes pouco passava de um milhão, os mortos não eram retirados dos cadernos eleitorais e contavam como votos válidos e favoráveis ao regime.
Repórteres da RTP como eu, o Joaquim Furtado, o Adelino Gomes, o Joaquim Vieira, iam e vinham nos carros de reportagem ou nos helicópteros da Força Aérea porque as imagens deviam chegar fisicamente aos estúdios do Lumiar. Não havia ainda condições para as emitir à distância. As câmaras de reportagem gravavam em filme de 16mm. Depois da equipa chegar, a película ia para o laboratório e a revelação demorava quatro horas. Só depois era possível fazer o visionamento, escolher as imagens e os sons a emitir e passar para a mesa de montagem. Em dias normais, para uma reportagem entrar no Telejornal, a equipa devia chegar até às 15 horas.
Jornalistas de 35 paÍses
Além do Lumiar, a RTP contava com um estúdio na Gulbenkian, onde a Comissão Nacional de Eleições instalou um centro de imprensa. Pela Gulbenkian passaram grande parte dos dirigentes políticos. Mário Soares chegou lá ao fim da tarde do dia 25 e ficou por ali muitas horas dando entrevistas, participando em longas conversas. Na Gulbenkian, o pivot no estúdio da RTP era o jornalista António Borga. Um jornalista espanhol do semanário madrileno Triunfo confessava que tinha chegado a Lisboa muito apreensivo à espera de um clima pesado e muitos distúrbios, o que, de facto, não acontecia. Na Gulbenkian, iam e vinham os correspondentes da imprensa estrangeira de 35 países, em especial de França, Alemanha, Itália e Espanha. Foi no contacto com os jornalistas espanhóis que soubemos de manifestações de apoio à revolução portuguesa em Madrid e Barcelona, reprimidas pela polícia. Franco morreu em novembro de 1975 e só a partir dessa data começou a longa transição espanhola para a democracia.
Naquele tempo, a RTP era a única estação de televisão. Emitia regularmente a partir da tarde, com um primeiro jornal, e durava até cerca da meia-noite. A emissão terminava com a exibição da bandeira e o hino nacional. Naquela sexta-feira, 25 de abril de 1975, a emissão de eleições começou ao início da tarde e só acabou no dia 26 à meia-noite. Pela primeira vez, a RTP esteve mais de 24 horas no ar. O laboratório e as cabinas de montagem trabalharam toda a noite, de tal maneira que, em cantos separados das instalações, foram colocadas camas para quem quisesse bater uma soneca.
De toda esta longa emissão, que culminou com a divulgação dos resultados finais, a grande figura foi o jornalista Joaquim Letria. Do minuto inicial ao minuto final, ele esteve sempre no ar, entrevistando, apresentando comentadores, lançando reportagens.
De par com muito trabalho e algum baralho havia, se bem me lembro, expectativa e preocupação nos velhos estúdios da RTP do Lumiar, nessa tarde de 25 de Abril de 1975. Expectativa e preocupação que não excluíam, pelo contrário, entusiasmo ou até alegria. Um certo clima de festa, que era o dominante lá fora, no dia em que os portugueses pela primeira vez em meio século votavam em liberdade. Em que era mesmo a primeira vez na nossa História que havia umas eleições em liberdade por sufrágio universal. E com uma lei que se esmerara, até ao exagero do impraticável, em assegurar a igualdade de todas as candidaturas.
Eram os últimos preparativos para o que seria uma emissão também ela histórica, única, de 30 ou mais horas, planeada fundamentalmente pelo Carlos Cruz (ainda por incumbência do anterior presidente da RTP, e futuro Presidente da República, Ramalho Eanes) e por ele muito bem coordenada. Carlos inclusive presente no estúdio, sentado numa mesa, e por vezes intervindo, mesmo em diálogo com o pivot Joaquim Letria, jornalista/apresentador da emissão, cujo “êxito” a ele muitíssimo ficou a dever – excelente comunicador e entrevistador televisivo, com uma intuição e uma empatia raras.
Eu também lá estava, vivi e participei, por vezes com emoção, nessas longas inesquecíveis horas. Porque era, com o Letria, diretor de informação – ou da direção de Informação, nessa altura todos os departamentos tinham como titular um militar, no caso o tenente Bargão dos Santos (que, além do mais, tirou depois o curso de Medicina e como major-general viria a ser diretor do Hospital Militar).
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Mas posso falar à vontade do “êxito” da emissão porque em nada participei no seu planeamento, e nada ou pouquíssimo na sua preparação, pois estava naquelas funções há muito pouco tempo. De facto, após o 11 de março recusara continuar na direção, e ser diretor, do Diário de Notícias, por motivo que não vem para aqui. E como tal motivo não se aplicava à RTP o MFA quis-me nela, de que era comentador desde o 25 de Abril. Assim, considerando-me do que chamava o “MFA civil”, senti-me obrigado a aceitar, mas pondo três condições: uma delas a de não ser remunerado, para ficar claro tratar-se de uma “missão” e transitória…
Abordagens variadas
Para imaginar hoje tudo o que significou essa excecional cobertura televisiva das eleições, para a Assembleia Constituinte, de há meio século, convém lembrar que, após a frustrada tentativa de golpe de 11 de março e a conturbada “aceleração revolucionária” que se lhe seguiu, a realização do sufrágio esteve ou pareceu estar ameaçada. Mas também aí o MFA se manteve fiel e cumpriu as suas promessas e o seu programa, do qual constava eleições no prazo máximo de um ano.
Ora, sendo a RTP a única televisão, se a sua audiência normal, quando havia grandes acontecimentos de qualquer género, já era de milhões de espectadores, até para os então poucos e selecionados comentários (posso testemunhá-lo), obviamente a dita cobertura, pelo menos até meio da madrugada, deve ter batido recordes.
Batido recordes, obviamente pelo “tema”, pela extraordinária participação no sufrágio, quase 92% de votantes, e o correspondente interesse em saber os resultados. Mas, para manter audiência, também pela qualidade da emissão: com uma assinalável variedade de abordagens, no estúdio e a partir da Gulbenkian, então centro da CNE e da contagem de votos, com reportagens feitas durante todo o dia em diversas regiões e terras do País, mesmo as mais interiores e longínquas (ou no meio do mar, nas Berlengas, ouvindo os faroleiros…). O que só foi possível com deslocações de helicóptero, graças ao apoio da Força Aérea, e noutros casos da GNR. E, depois, com o intenso trabalho, mormente de montagem, dos profissionais em serviço em Lisboa. Aliás, uma coisa que saliento é não ter havido, que recorde, nenhum conflito ou problema entre jornalistas e técnicos afetos aos principais partidos e numerosos grupos políticos, em especial de extrema-esquerda: praticamente todos – ao contrário do que aconteceu em outras ocasiões… – trabalharam muito e bem para essa emissão histórica.
Sem computadores como hoje os conhecemos, com meios rudimentares, os resultados, e de mesas eleitorais de pequenas localidades, só começaram a ser conhecidos muito tarde e pingo a pingo, o Adriano Cerqueira a mostrá-los numa geringonça constituída por uns pequenos cubos de papelão. Mas, mesmo assim, a emissão com muito bom ritmo, com surpresas – incluindo uma espécie de “intervalos” com participação de artistas e programação avulsa – foi suscitando interesse e curiosidade sobre o que viria a seguir.
Lembro-me bem da chegada dos primeiros resultados, e dos que foram indiciando por um lado uma clara vitória, por outro um resultado abaixo do esperado do PCP e do MDP. E lembro muito em especial da notícia da eleição do primeiro deputado, por Macau, lá para as quatro da madrugada. Ao anunciá-la, o Joaquim disse uma piada ou fez uma observação e começou a rir-se, o riso propagou-se a toda a gente no estúdio (o Carlos, o Megre, salvo erro o Fialho Gouveia, etc., etc.), todos se riam e não se conseguia parar, decerto um momento único na televisão portuguesa,
E só lá pelas sete da manhã – disso tenho a certeza, porque a antecipá-lo o Letria disse que íamos na 12.ª hora de emissão – existiu o primeiro “comentário” aos resultados conhecidos, em conversa minha com o Augusto Abelaira. Não muito depois, lá entre as 8h e as 9h da manhã, um grande estrondo e susto: o calor era imenso, os holofotes da iluminação desse tempo não estavam preparados para tanto, e dois “rebentaram”…
Mas a emissão prosseguiu. E a mim coube-me, com mais três camaradas, entrevistar os líderes dos até então considerados os principais partidos: Mário Soares, do PS, Álvaro Cunhal, do PCP, Magalhães Mota, do PPD (Sá Carneiro estava no Porto), Pereira de Moura, do MDP (que eu recorde só uma vez, meses antes, eles – mas Sá Carneiro, não MM – tinham estado juntos na televisão, numa mesa moderada por mim).
Enfim, uma emissão que coroou um acontecimento da maior relevância para a nossa democracia e para o nosso país. De tal forma, que no último JL, Jornal de Letras, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa diz, sobre esse dia 25 de Abril de 1975: “Constitui o mais importante de todos na minha existência de cidadão. Até hoje.”
“Pela primeira vez, no último meio século, os mortos não votaram e os vivos não votaram duas vezes.” Foi assim, com a voz e a imagem do jornalista Joaquim Letria, que a RTP iniciou, a 25 de abril de 1975, faz agora 50 anos, a emissão de cobertura das eleições constituintes que se realizaram naquele dia, marcando bem a diferença da liberdade conquistada após o golpe militar do 25 Abril de 1974 para os simulacros de sufrágio durante a ditadura do Estado Novo, então derrubada.
Naquelas inaugurais eleições livres com sufrágio universal, pela primeira vez, todos os cidadãos maiores de 18 anos, incluindo analfabetos, ganharam o direito de voto, e a eliminação dessa e de muitas outras restrições acabou por triplicar o universo eleitoral. Dos cerca de dois milhões de recenseados autorizados a votar na ditadura, passou-se para 6 231 372, tendo a participação nas urnas sido de 92%, um recorde até hoje. Também a RTP chegaria a um recorde, com cerca de 36 horas de emissão ininterrupta na cobertura daquelas históricas eleições. Mas a estação pública de TV, a única à época existente no País, não estava imune, claro, à constante turbulência do processo revolucionário então em curso. Lá iremos.
Presentes De Joaquim Letria a Eládio Clímaco, de Carlos Cruz a Raul Durão e a Adriano Cerqueira, entre outros, todas as figuras conhecidas da Informação da RTP participaram na cobertura histórica das eleições de 1975
Carlos Cruz, na altura diretor-adjunto de Informação da RTP, tinha já um bilhete de avião para o início de abril, com destino a Nova Iorque, para começar uma comissão de serviço na Missão Permanente de Portugal junto da ONU. No princípio de março, contudo, seria abordado pelo presidente da estação, o então major Ramalho Eanes, com uma ordem: “Disse-me que tinha de adiar a viagem, porque a partir daquele momento ficava encarregado de organizar toda a emissão de cobertura das eleições constituintes”, recorda Carlos Cruz.
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“Os meios técnicos da RTP, na altura, eram muito pobres”, lembra, por sua vez, António Borga, que seria o pivot do estúdio montado na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, onde se situava o “quartel-general” da Comissão Nacional de Eleições (CNE), com uma bateria de máquinas de telex e de telefones fixos a recolher os resultados por distrito, algo com contornos de uma operação militar. “Em grande parte, aqueles meios tinham sido comprados em segunda mão a uma televisão regional alemã e, portanto, estavam ultrapassados”, acrescenta António Borga, sem deixar de reconhecer que as equipas técnicas da RTP “faziam milagres” com eles.
“OPERAÇÃO MILITAR”
Ainda assim, Carlos Cruz, com “uma equipa de duas ou três pessoas”, ia delineando uma ambiciosa cobertura das eleições, também ela com contornos de operação militar. “Tinha um quadro numa parede onde fazia desenhos e escrevia – e aí planeei a emissão”, recorda. “O primeiro objetivo que tinha era o de mostrar o entusiasmo do povo a votar pela primeira vez, em vários locais do País, mesmo os mais distantes e remotos – uma cobertura exaustiva”, diz. Para isso, conseguiu mobilizar helicópteros da Força Aérea e jipes da GNR, sobretudo para que fizessem chegar à sede da RTP, no Lumiar, em Lisboa, os filmes das reportagens. O plano, aliás, interditava o estacionamento de automóveis no perímetro das instalações da estação, para que as aeronaves pudessem aterrar.
Funções António Borga foi o pivot no estúdio montado na Gulbenkian, “quartel-general” da CNE, e Carlos Cruz, no Lumiar, dirigiu as operações
Esta era uma maneira de contornar o problema de as câmaras, à época, gravarem em filme de 16 mm. “Havia que revelar os filmes e dar o mínimo de montagem àquilo, para reduzir a dimensão dos apontamentos de reportagem”, o que podia levar entre cinco e seis horas, até as imagens e os sons estarem em condições de ser emitidos, conta Carlos Cruz. Para preencher os tempos mortos, decidiu-se pela estreia em Portugal do Benny Hill Show, do humorista britânico homónimo (um êxito que se estendeu pelos anos seguintes), por um concerto do cantor e ator franco-italiano Yves Montand e por momentos musicais em estúdio. Era também para dar espaço a estes artistas que Joaquim Letria, “o homem das entrevistas”, estava sentado a uma mesa sobre “uma plataforma que tinha rodas em baixo, para se poder deslocar”.
Outro problema era a obtenção de resultados, que iriam demorar uma eternidade a chegar. Para conseguir números de forma mais rápida e em primeira mão, Carlos Cruz contava com uma jovem jornalista chamada Maria Elisa Domingues, que tinha um contacto profissional privilegiado com um militar membro da CNE. Para tratamento dos dados, existiria uma equipa da IBM com computadores, que hoje são peças de museu. “Havia também uma espécie de fax, um telefone que tinha uma maquineta com uma manivela, de que precisávamos para enviar resultados oficiais da CNE para o centro da RTP do Porto”, lembra Carlos Cruz.
“NÃO FAÇO”
Impossível de contornar era a transmissão por feixes hertzianos (e não por satélite), que afetava, e muito, a qualidade da emissão. Por exemplo, para António Borga entrar em direto, do estúdio montado na Gulbenkian, era necessária a comutação dos feixes hertzianos enviados da RTP no Lumiar, via emissor de Monsanto, para o carro de exteriores ali colocado. “Por isso, antes de se ver o meu rosto, apareciam sempre um ecrã negro e umas riscas”, explica o jornalista. A ligação em direto com o centro do Porto era tecnicamente semelhante.
Também não havia volta a dar aos quadros de apresentação dos resultados, a cargo de Adriano Cerqueira, que os indicava com um ponteiro, e cujos números eram mudados à mão. “Desde que apresentámos informações, os nossos camaradas que trabalham atrás desse cenário, e que já têm os dedos bastante marcados, fizeram até este momento 8 800 modificações”, ouvir-se-á Carlos Cruz dizer, a dada altura da emissão.
Presidente da RTP desde outubro de 1974, Ramalho Eanes viria as suas relações com o primeiro-ministro, Vasco Gonçalves, próximo do PCP, começarem a deteriorar-se em março de 1975. Foi o próprio Eanes quem o contou num encontro com estudantes universitários, em 2008. Despachava todas as semanas com o chefe do Governo Provisório, na presença do ministro da tutela, Vítor Alves. Às tantas, Vasco Gonçalves disse que queria na direção de programas um “militar revolucionário”. Eanes recusou. Embora com urbanidade, Vasco não escondeu o desagrado.
Às urnas! As eleições de 1975 tiveram 6 231 372 recenseados, e a participação foi de 92%, um recorde até hoje. Pela primeira vez, todos os cidadãos maiores de 18 anos, incluindo analfabetos, ganharam o direito de voto
Até que um dia Eanes soube que Vasco enviara “pessoalmente” uma notícia para o Telejornal. Deixou que fosse transmitida, mas com o esclarecimento de que se tratava de uma indicação expressa do primeiro-ministro. Seguiu-se um telefonema “desabrido” de Vasco, que acusou Eanes de deslealdade. O então presidente da RTP admitiu-a, notando, porém, que a sua falta de lealdade fora precedida por outra falta de lealdade.
O despacho semanal terminou e, de 11 para 12 de março de 1975, numa chamada “assembleia selvagem” do Movimento das Forças Armadas (MFA), na sequência do frustrado golpe spinolista que começou com dois aviões de combate T-6 a metralharem o Regimento de Artilharia Ligeira nº 1,em Lisboa, “militares próximos do primeiro-ministro” atacaram Eanes. Invocaram o seu spinolismo e a sua relação familiar com um dos pilotos envolvidos na ação, ligando-o ao golpe e pedindo a sua prisão.
Eanes será defendido por Vasco Lourenço, da ala moderada do MFA, mas demitiu-se de presidente da RTP, dizendo que só voltaria a exercer funções se fossem tornados públicos os resultados de um inquérito que então exigiu. O certo, porém, é que a TV do Estado, apenas naquele março de 1975, teve sucessivamente quatro presidentes, um dos quais, o major José Emídio da Silva, contrariou o plano apresentado por Carlos Cruz, argumentando que “não era preciso fazer uma emissão tão exagerada”. Recorda Carlos Cruz: “Disse-me que bastava fazer uma emissão com os telejornais.” Aí, o então diretor-adjunto de Informação pôs os pés à parede. “Respondi-lhe que não ia atraiçoar o valor histórico das primeiras eleições livres em Portugal, que estava encarregado de concretizar a emissão e que a fazia como a tinha planeado ou não a fazia. ‘Não faço e os senhores tomam conta disso e fazem como quiserem. Eu não faço’, lembro-me perfeitamente de lhe ter dito.”
SAIR DO ESTÚDIO? “SÓ PARA CHICHI”
A reunião terminou sem qualquer resolução. “Não fui desautorizado nem ‘desnomeado’ e continuei a trabalhar no que estava previsto”, diz Carlos Cruz. Ou seja, a histórica cobertura da RTP das também históricas eleições de 1975 podia não ter acontecido como hoje a conhecemos.
Cruz liga o incidente à ala do MFA que pretendia menorizar as constituintes, defendendo o voto em branco. O politólogo Pedro Magalhães – curador, com a cineasta Catarina Vasconcelos, da exposição Haverá Eleições. 1975: As Primeiras Eleições Livres em Portugal, inaugurada, na passada terça-feira, 22, na Fundação Calouste Gulbenkian – confirma aquela tendência. “Esse apelo ao voto em branco vinha de setores, seja partidários, seja militares, mais radicalizados à esquerda”, explica. “Havia razões ideológicas, relacionadas com a ideia de que o voto é um ritual da democracia burguesa e o que queriam construir em Portugal era outra coisa”, acrescenta. “Apresentaram o voto em branco como a opção pela revolução e contra a reação, mas na verdade anteciparam corretamente que o resultado das eleições iria revelar uma relação de forças que não era bem aquela que se intuía do que se passava nas ruas.” Ganharam os partidos moderados: PS, com 37,8% dos votos (116 deputados eleitos) e PPD (atual PSD), com 26,3% (81), ficando o PCP num surpreendente 3º lugar – 12,4% (30).
De volta à emissão: a memória profissional mais viva que António Borga guarda é a de ter entrevistado de uma só vez, sentados no estúdio montado na Gulbenkian, o Presidente da República, Costa Gomes, o primeiro-ministro, Vasco Gonçalves, e os membros do Conselho da Revolução Rosa Coutinho e Vasco Lourenço. “Foi uma conversa em direto e descontraída com todos eles, sem perguntas combinadas nem qualquer protocolo, como, no fundo, devem ser as relações entre os jornalistas e o poder”, diz.
Já Carlos Cruz, pivot central da emissão, lembra-se de, naquelas 36 horas, só ter saído do estúdio “para fazer chichi”. Em direto, dizia à régie o que se seguiria, e é capaz de ter sido o único, entre as centenas de pessoas que participaram na cobertura, que apenas se alimentou de sandes que lhe iam trazendo. Recorda-se ainda de que, quando chegou a casa, já na madrugada de dia 27, exausto e com muitíssimos cigarros fumados (em direto, claro), custou-lhe adormecer – a adrenalina subsistia. E de que saiu do Lumiar reconfortado: “Senti que a RTP era uma família unida, que estávamos ali para o crime e para a desgraça, e que ninguém nos batia.”
Baseado em dados estatísticos da Fundação Francisco Manuel dos Santos, o trabalho está dividido em duas partes e analisa, primeiramente, as eleições legislativas realizadas no País entre o 25 de abril de 1974 e as últimas eleições, de 2024.
Em 50 anos de democracia ocorreram 17 eleições legislativas
De acordo com os cálculos feitos pela Pordata, já entraram mais 95 milhões de votos nas urnas desde 1976, em 17 eleições legislativas (a Pordata explica que não se consideram, nesta análise, as eleições para a Assembleia Constituinte, de 1975, as primeiras eleições livres). Por duas vezes, as eleições com maior taxa de participação acabaram por dar vitória à Aliança Democrática (AD), a primeira em 1979, com Sá Carneiro, e a segunda em 2024, com Luís Montenegro. Os sociais-democratas foram também o partido com maior número de votos numa eleição legislativa, com 2,9 milhões de votos, em 1991, com Cavaco Silva.
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Quanto aos dados relativos à abstenção, foi a eleição de 2019, que elegeu António Costa para um segundo mandato enquanto primeiro-ministro, que teve a taxa mais alta, de 51,4 por cento. No entanto, a taxa de participação – o número total de eleitores – não ultrapassa os 60% dos eleitores desde 2009.
Noutros dados, em cinco décadas, apenas seis governos concluíram o mandato que lhe estava confiado: Cavaco Silva (1987/1991 e 1991/1995), António Guterres (1995-1999), José Sócrates (2005-2009), Pedro Passos Coelho (2011-2015) e António Costa (2015-2019).
Ao longo do período democrático, o PS e a AD conseguiram, mais de dois terços do total dos votos válidos em 14 eleições legislativas, ficando aquém dessa representatividade apenas em 1980, 1985 e 2024.
Existiram ainda seis governos de maioria absoluta, dois dos quais liderados pelo PS e quatro pelo PSD.
O PS liderou o País por mais de 21 anos
Entre as forças políticas, o Partido Socialista foi o que liderou Portugal durante mais tempo, tendo formado governo nove vezes, sete das quais nas últimas três décadas. Em contrapartida, nos últimos 30 anos, pouco mais de 8 anos corresponderam a um governo liderado pelo PSD.
Ao olhar para o crescimento dos partidos em 50 anos de democracia, o número de opções políticas aumentou nos últimos anos. De 14 partidos a votos em 1976, cresceu para 20 o número de partidos ou coligações candidatas a formar Governo em 2024.
Os dados indicam ainda que o Partido Renovador Democrático (PRD) foi o partido que mais cresceu numa eleição, em 1985, conseguindo 45 deputados nas suas primeiras legislativas. Recentemente, CHEGA tem aumentou o número de deputados de forma significativa de uma eleição para a outra, crescendo de 12 para 50 deputados entre as eleições de 2022 e 2024.
As mulheres representam, desde 2015, pelo menos 30% dos deputados eleitos na Assembleia da República. O parlamento com maior número de mulheres foi eleito em 2019, do PS, 38,7% de deputadas.
Já tendo em conta os círculos eleitorais, Lisboa, Porto, Braga e Setúbal são os que elegem mais de metade dos deputados.
O que mais preocupa os inquiridos em Portugal?
A segunda parte do retrato, centrado nos dados reunidos pelo Eurobarómetro, é dedicada à análise do contexto europeu e das perceções dos cidadãos europeus – incluindo Portugal – sobre a política nacional e europeia.
No que diz respeito aos assuntos que mais preocupam os portugueses, o retrato da Pordata revela que 8 em cada 10 inquiridos em Portugal afirmam não confiar nas forças políticas. Uma tendência verificada em 13 dos 27 estados-membros da União europeia, em que mais 70% das pessoas não confiam nos partidos políticos. As exceções são a Dinamarca e o Luxemburgo, onde a proporção de pessoas que confiam é maior do que as que não confiam nos partidos políticos.
Em Portugal, 53% dos cidadãos não confiam na AR – um valor abaixo da média europeia, (58%) – e 56% refere não confiar no sistema de justiça – o que coloca Portugal acima da média e entre os seis países que menos confiam nesta instituição.
Por outro lado, 67% dos inquiridos portugueses tendem a confiar na UE, uma percentagem mais de 10 pontos percentuais acima da média e que tem melhorado significativamente desde o verificado no inquérito de 2023.
Aumento do custo de vida, saúde e habitação são as maiores preocupações dos portugueses
A análise aos dados do Eurobarómetro revela ainda que 43% das pessoas em Portugal consideram o custo de vida como um dos maiores problemas que o país enfrenta atualmente – uma preocupação partilhada com os restantes países da UE – seguindo da Saúde (36%) e da Habitação (28%).
A habitação é vista de forma díspar pela Europa, sendo tomada como um problema prioritário em países como os Países Baixos (47%), Espanha (35%) e Portugal, mas considerada residual nos países nórdicos ou na Europa de leste.
Quanto à imigração, este é vista como um problema a nível europeu e apontado como prioritário por 1 em cada 5 cidadãos europeus, sobretudo em países como Chipre, Países Baixos, Alemanha e Malta. Em Portugal, contudo, é apenas apontado por 1 em cada 10 residentes, ou seja, cerca de 10%.
Economia e defesa devem ser prioridades da União Europeia
Nos primeiros meses do ano – e segundo os dados do Eurobarómetro especial de Inverno – 41% dos inquiridos em Portugal considerava a competitividade, economia e indústria as principais prioridades da União Europeia, seguida pela Defesa e segurança (39%).
Já segundo os dados europeus, para além da defesa (36%), os inquiridos europeus acreditam ser prioritária uma maior intervenção na Segurança alimentar e agricultura (27%), Independência Energética, recursos e infraestruturas (25%), Educação e investigação (22%) e Valores da EU27, incluindo democracia e proteção dos direitos humanos (21%).
O retrato, por fim, revela que 35% das pessoas em Portugal não falam sobre política com amigos ou familiares. Apenas 10% dos inquiridos refere debater política frequentemente, abaixo da média europeia, de 23%.