“O Egito está a propor ao [grupo islâmico] Hamas um acordo final e abrangente para acabar com a guerra e com garantias internacionais”, disse este sábado à agência de notícias espanhola EFE uma fonte de segurança do Egito, um dos principais mediadores entre o Hamas e Israel. O acordo visa uma trégua longa e inclui a garantia de que os combatentes do grupo islâmico não serão perseguidos, se o Hamas desistir do controlo da Faixa de Gaza.

A mesma fonte, que pediu anonimato, adiantou que “um acordo final está a ser formulado atualmente para um cessar-fogo e a libertação dos reféns” ainda mantidos pelo grupo islâmico. A proposta sobre a mesa “inclui um período de colocação em prática de um acordo que pode durar até 45 dias”.

O Hamas enviou este sábado, pela segunda vez em menos de uma semana, uma delegação de alto nível ao Cairo.

A pressão sobre o Hamas tem aumentado nas últimas semanas para que o grupo liberte os reféns, entregue suas armas e renuncie ao controlo de Gaza – que mantém desde 2007 – para acabar com a guerra que já matou mais de 51 mil habitantes daquele território desde outubro de 2023.

Na quinta-feira, o Conselho Ministerial da Liga Árabe, composto por 22 países, expressou o seu apoio à entrega do controlo da Faixa de Gaza ao governo da Autoridade Nacional Palestiniana (ANP), do presidente Mahmoud Abbas, afirmando que ele deve ser o único executivo que controla as armas e representa os palestinos perante a comunidade internacional.

No início do mês, o grupo islâmico rejeitou outra proposta de cessar-fogo em Gaza, na qual Israel insistiu no seu desarmamento, e disse que não estava “disposto a abrir mão das armas da resistência”.

A importância das mitocôndrias, essa espécie de pequenas baterias responsáveis pela produção da maior parte da energia química das células do nosso corpo, é uma verdade indisputável. O transplante de órgãos não é uma novidade para ninguém. Juntem-se estas duas certezas e temos a comunidade científica entusiasmada com todas as hipóteses que o transplante mitocondrial pode representar para a nossa saúde.

James McCully, professor de Cirurgia na Escola Médica de Harvard, em Boston, nos Estados Unidos da América, é um dos investigadores que já têm resultados para apresentar.

Num ensaio clínico com dez bebés prematuros que tinham os músculos cardíacos danificados por isquemias (quando o fluxo de sangue e oxigénio é inadequado), McCully retirou um pequeno pedaço de tecido da parede abdominal de cada criança, partiu-o para libertar as mitocôndrias, separá-las de outros resíduos celulares numa centrifugadora e perfundi-las de novo no coração em insuficiência.

Esses bebés precisariam da assistência de uma máquina coração-pulmão para não morrerem – e, mesmo assim, só 60% sobreviveriam. Os resultados do ensaio, publicados há cerca de quatro anos, demonstram que a intervenção melhorou a taxa de sobrevivência para 80 por cento.

O facto de o procedimento ter envolvido apenas dez bebés doentes não permite afirmar que funciona – o grupo era tão pequeno que os resultados podem ter sido um mero acaso estatístico. Mas o ensaio sugeriu que se trata de uma técnica segura.

McCully e os seus colegas de equipa descobriram que a nova abordagem aumentou imediatamente a produção de moléculas de sinalização nos bebés (essenciais para a comunicação entre células e a regulação de processos biológicos), impedindo a inflamação e o suicídio celular.

Pouco tempo depois, os mesmos investigadores verificaram que as mitocôndrias perfundidas se fixaram no músculo cardíaco danificado, restaurando a sua função a longo prazo.

A FDA (Food and Drug Administration, a agência do medicamento norte-americana, que regula os ensaios clínicos) já está a avaliar a técnica. Se ela for aprovada, tudo indica que será alargada a outros tecidos afetados por isquemias, incluindo corações, pulmões e rins de adultos.

Função neurológica

Mightychondria, chamam-lhe num artigo recente da revista The Economist, jogando com o nome e a palavra “poderosas” (mighty, em inglês). Não se trata de exagero de jornalista.

A função mais conhecida das mitocôndrias é produzir uma substância química chamada ATP (adenosina trifosfato), essencialmente a moeda energética que alimenta quase tudo o que as células fazem. Mas as mitocôndrias são bem mais do que “centrais elétricas”.

Sozinhas, elas desempenham uma série de tarefas vitais, daí que, quando apresentam defeitos, acabam por provocar ou contribuir para várias doenças. O seu desgaste com a idade também pode levar a diabetes ou a problemas cardiovasculares.

Não admira, por isso, que cientistas um pouco por todo o mundo se tenham virado para o transplante de mitocôndrias.

Segundo o mesmo artigo, Lance Becker, do Instituto de Medicina Bioeletrónica do Instituto Feinstein, em Nova Iorque, EUA, planeia testar uma técnica semelhante à de James McCully também em bebés prematuros.

Substituir mitocôndrias danificadas por mitocôndrias totalmente novas é, aliás, algo que esse médico, reconhecido internacionalmente no campo da reanimação, anda a testar há alguns anos. Recentemente, demonstrou que o transplante mitocondrial pode melhorar a sobrevivência e os resultados neurológicos após uma paragem cardíaca.

Num estudo, publicado na revista BMC Medicine, em março de 2023, Becker analisou a capacidade e a eficácia do transplante de mitocôndrias num tubo de ensaio (in vivo) e os seus efeitos em modelos animais de ratinhos (in vitro).

Os resultados mostraram que os animais que receberam a infusão de novas mitocôndrias melhoraram a função neurológica e a sobrevivência, de 55% para 91%, após a paragem cardíaca e a reanimação.

“Quando o nosso corpo, cérebro e órgãos, não recebe oxigénio suficiente, quer seja após um ataque cardíaco ou de outra maneira, surgem complicações e a sobrevivência diminui”, lembrou, então, o investigador. “E o transplante de mitocôndrias poderá restaurar a função cerebral em pessoas após um grave ataque de privação de oxigénio com risco de vida.”

Em células de cancro

No final de 2024, foi a vez de Melanie Walker, professora de Cirurgia Neurológica na Faculdade de Medicina da Universidade de Washington, em Seattle, EUA, publicar os resultados de uma experiência sobre um tipo de isquemia que provoca acidentes vasculares cerebrais.

Em dezembro do ano passado, no Journal of Cerebral Blood Flow & Metabolism, a médica e investigadora relatou o transplante de mitocôndrias que realizou em quatro pacientes, num ensaio conduzido sobretudo para verificar a segurança do tratamento.

A sua técnica envolveu a infusão de mitocôndrias no local do coágulo sanguíneo que induz a isquemia, como parte de um procedimento normal para remover o coágulo. Os primeiros indicadores de eficácia foram “promissores”, disse, então, Walker.

No futuro, a investigadora planeia conseguir impedir que os neurónios afetados pelo AVC se “suicidem”. Mas, entretanto, já avançou com outros ensaios. Um deles tem como objetivo restaurar a função dos neurónios lesionados por traumatismos físicos e não por acidentes vasculares cerebrais.

Numa fase anterior aos ensaios em humanos, já houve várias experiências com culturas de células e animais de laboratório a terem bons resultados.

Entre elas está o trabalho de Aybuke Celik, colega de McCully em Harvard, que tem investigado o efeito de mitocôndrias transplantadas em células de cancro da próstata e do ovário. A médica e investigadora descobriu que as novas mitocôndrias reduzem a quantidade de quimioterapia necessária para que essas células se matem, relatou na revista Biomedicine & Pharmacotherapy, em maio de 2023.

Mais um possível superpoder do transplante mitocondrial a que vale a pena estarmos atentos.

Doping indetetável

Atletas mais rápidos e durante mais tempo, graças ao transplante mitocondrial?

Já se demonstrou que as mitocôndrias podem ser transferidas de um tipo de músculo para outro, aumentando a quantidade de energia que uma célula produz e, por isso, a resistência e a potência. Num estudo realizado com ratinhos, em 2020, verificou-se que a injeção de mitocôndrias de animais mais jovens em animais mais velhos permitiu-lhes correr 50% mais tempo e 50% mais depressa.

O processo é relativamente fácil e as mitocôndrias são quase impossíveis de detetar depois de injetadas, lembrou James McCully, da Escola Médica de Harvard, durante a conferência anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência, em Boston, EUA, em fevereiro. Acrescentou-se a suspeita de haver já atletas a experimentar para melhorar o seu desempenho.

“Recebo telefonemas constantes sobre isto. É fácil de fazer e os protocolos estão mesmo no nosso site”, contou o investigador aos jornalistas. “Estou a ver o transplante mitocondrial a ajudar muito as pessoas, especialmente em coisas relacionadas com a resistência.”

As chamadas começaram um ano antes dos Jogos Olímpicos de Paris, mas McCully não faz ideia de quem eram, porque os contactos foram feitos por telefone, sem registo em papel. Ainda segundo ele, as autoridades já estão a investigar este novo truque de dopagem que pode ajudar os atletas a correrem mais depressa e durante mais tempo.

Palavras-chave:

Segundo um novo balanço das autoridades iranianas, a explosão deixou mais de 700 pessoas feridas e há 18 mortes confirmadas.

A explosão deu origem a um grave incêndio e as imagens transmitidas pela televisão estatal iraniana mostram uma enorme nuvem negra sobre o porto, bem como cenas de pânico na zona. A violência da explosão danificou edifícios e carros na área envolvente, tendo sido ouvida a mais de 10 quilómetros de distância.

“É altamente provável que a explosão tenha tido origem num depósito de produtos perigosos e produtos químicos localizado na zona portuária”, disse a alfândega do porto de Shahid Rajai, em comunicado.

Por sua vez, o governador da província de Hormozgan, onde ocorreu o acidente, Mohammad Ashuri, disse que “a origem da explosão ainda é desconhecida”, mas apontou para alguns contentores sem dar mais explicações.

Shahid Rajai é um porto comercial e industrial em Bandar Abbas, capital da província de Hormozgan, cobrindo uma área superior a 2.400 hectares e com uma capacidade anual para movimentar mais de 88 milhões de toneladas de carga.

O caixão simples de madeira com o corpo de Jorge Mario Bergoglio (que renunciou à prática de séculos de o papa ser enterrado em três caixões interligados feitos de cipreste, chumbo e carvalho) foi depositado na Basílica de Santa Maria Maior (outra decisão que cortou o tradicional enterro na Basília de São Pedro), o local escolhido por si, num túmulo feito em mármore de origem da Ligúria, região no noroeste de Itália, apenas com a inscrição “FRANCISCUS”, o nome do Papa em latim, e a reprodução da sua cruz peitoral. Fica localizado numa das naves laterais da Basílica, entre a Capela Paulina (onde se encontra o ícone bizantino do século VI Salus Populi Romani, que retrata Maria com Jesus ao colo) e a Capela Sforza, junto ao altar de São Francisco.

O percurso da urna pela cidade de Roma, entre o Vaticano e a Basílica de Santa Maria Maior, teve cerca de seis quilómetros, passando por locais como a Praça Veneza, os Fóruns Imperiais e o Coliseu.

À chegada à Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, o caixão foi acolhido nas escadarias por um grupo de pessoas necessitadas.

Segundo informação da sala de imprensa do Vaticano, o grupo era constituído por cerca de 40 pessoas pobres e necessitadas, migrantes, presos e transgénero.

“Os pobres têm um lugar privilegiado no coração de Deus, bem como no coração e no ensinamento do Santo Padre, que escolheu o nome Francisco para nunca os esquecer”, segundo uma nota do Vaticano justificando a ação de hoje.

A preocupação com os mais pobres e os excluídos foram uma preocupação do pontificado do Papa Francisco, tendo hoje merecido uma referência especial na homilia da missa exequial presidida pelo cardeal Giovanni Battista Re.

Na Praça de São Pedro estiveram presentes vários líderes mundiais, incluindo presidentes dos EUA, França, Itália, Brasil, Argentina e Portugal, assim como os reis de Espanha. Também presentes para assistir ao funeral estiveram a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, a presidente do Conselho Europeu, Ursula Von der Leyen, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, e o antigo Presidente dos EUA Joe Biden.

Um total de 140 delegações estrangeiras chegaram à praça, onde cerca de 200 mil pessoas – 40 mil na praça e as restantes nos arredores – estiveram presentes para o funeral.

A capela mortuária do Papa Francisco na Basílica de São Pedro fechou na tarde de sexta-feira, depois de três dias em que 250 mil fiéis se despediram do pontífice, após o que o caixão foi fechado.

O Papa Francisco morreu na segunda-feira aos 88 anos, vítima de um acidente vascular cerebral.

À margem do funeral, os presidentes da Ucrânia e dos Estados Unidos tiveram uma breve reunião “muito produtiva”, segundo a Casa Branca.

“A reunião ocorreu e já terminou”, disse aos jornalistas o porta-voz presidencial ucraniano, Sergei Nykyforov, escusando-se a mais detalhes. Por seu lado, a Casa Branca disse que os dois chefes de estado tiveram uma reunião “muito produtiva”.

“O Presidente Trump e o Presidente Zelensky encontraram-se em privado e tiveram uma reunião muito produtiva”, disse o diretor de comunicação da Casa Branca, Steven Cheung, remetendo detalhes para mais tarde.

Segundo o porta-voz de Zelensky, Sergey Nikiforov, as equipas dos dois presidentes estão a tentar organizar ainda para este sábado um novo encontro entre os dois líderes.

Dezenas de chefes de Estado e de governo, bem como outros altos dirigentes, reuniram-se este sábado em Roma para participar no funeral do Papa Francisco, proporcionando diversos encontros e reuniões diplomáticas.

Na sexta-feira à noite, o presidente dos Estados Unidos deixou a garantia que a Rússia e a Ucrânia estavam “muito perto de um acordo”, embora sem revelar pormenores.

Já o seu homólogo russo Vladimir Putin, com quem vem desenvolvendo uma reaproximação significativa há vários meses, admitiu a “possibilidade” de “negociações diretas” entre Moscovo e Kiev.

O mundo católico está em suspenso. Com a morte do Papa Francisco, depois de mais de doze anos de um pontificado transformador, regressa a velha questão: quem será o próximo Papa? Como sempre, especulações multiplicam-se — entre análises geopolíticas, correntes dentro da Igreja, e até… profecias. E é neste ponto que o nome de Nostradamus volta a circular, com um misto de curiosidade, mistério e fascínio.

De entre os seus muitos versos enigmáticos, um em particular chama a atenção de alguns intérpretes modernos: a referência a um sucessor de Roma com “pele escura”, com menos de 80 anos, chamado “Pedro”, que destruirá a “forma papal” tal como a conhecemos. A ideia em si é provocadora. Mas e se a profecia não for lida literalmente? E se “pele escura” não significar tom de pele, mas diferença? E se “Pedro” não for o nome, mas o símbolo do regresso ao essencial, a São Pedro, o primeiro Papa? E se “destruir” a forma papal for, afinal, uma renovação da função, uma evolução da figura do Papa como a conhecemos?

É nesta especulação que o nome de D. José Tolentino Mendonça começa a surgir com força, tanto em círculos religiosos como culturais. Feito cardeal por Francisco e nomeado para funções de alta responsabilidade no Vaticano, Tolentino é uma figura absolutamente singular: poeta, biblista, teólogo, diplomata, humanista. Tem 58 anos — o que o torna um dos cardeais mais jovens com real influência — e é português, da ilha da Madeira.

Há aqui uma convergência rara entre o simbólico e o factual. Um “Pedro” com menos de 80 anos? Tolentino não se chama Pedro, mas representa a espiritualidade original e despojada que a figura de Pedro simboliza. “Pele escura”? Talvez não literal, mas expressão de uma diferença: Tolentino não pertence à elite romana tradicional, não representa o centro, mas sim a periferia do pensamento, o Atlântico, o diálogo. E quanto a “destruir” a forma papal? Se há figura que poderia transformar a imagem do Papa imperial e hierárquico numa liderança mais aberta, fraterna e cultural, é ele.

O próprio aumento do número de países representados no Colégio Cardinalício — de 48 para 71 durante o pontificado de Francisco — reforça a ideia de uma Igreja cada vez mais global e menos eurocêntrica. Mas será esse processo irreversível? Ou, com a morte de Francisco, haverá um movimento de recuo, de regresso ao conservadorismo e ao poder central?

As casas de apostas continuam a apontar para nomes italianos como Pietro Parolin ou Matteo Zuppi. Outros referem o cardeal filipino Luis Antonio Tagle, uma espécie de Francisco asiático. E há os que sonham com um Papa africano, como Peter Turkson. Mas a verdade é que, historicamente, os favoritos quase nunca são escolhidos. Foi assim com o próprio Francisco, que em 2013 não estava sequer entre os cinco mais falados. O conclave, como já vimos antes, é imprevisível. E o Espírito Santo, dizem os crentes, sopra onde quer.

Numa nota curiosa — ou simbólica — Tolentino Mendonça acaba de vencer o Prémio Eduardo Lourenço 2025, uma distinção atribuída a quem se destaca pela sua intervenção cultural no espaço ibérico. Num ano de transição papal, não deixa de ser significativo que seja justamente um cardeal português, com perfil humanista e ecuménico, a receber um prémio que homenageia a inteligência, a reflexão e o diálogo. O prémio surge quase como um sussurro paralelo ao que se discute em surdina nos corredores do Vaticano.

A tradição tem sido clara: os papas vêm sobretudo da Itália, com raras exceções — Polónia, Alemanha e recentemente Argentina. O peso histórico, cultural e político joga quase sempre contra figuras “fora do eixo”. Mas também é verdade que, nos momentos de viragem, a Igreja surpreende. E se há momento propício à surpresa, é este.

D. Tolentino Mendonça tem uma vantagem: não é divisivo. Não pertence a alas polarizadas. Fala ao mundo com linguagem de pontes, de poesia, de fé com sentido. Nunca impõe. Escuta. É essa uma das maiores marcas que Francisco quis deixar na Igreja: uma liderança feita de serviço, não de trono. Se o conclave quiser dar continuidade a essa herança, Tolentino é um nome possível. E desejável.

É claro que tudo isto pode não passar de projeção, esperança ou coincidência. Mas não deixa de ser significativo que, neste preciso momento histórico, um português esteja tão silenciosamente próximo da linha da frente. E que uma profecia obscura de Nostradamus, lida com olhos contemporâneos, possa encaixar mais num poeta da Madeira do que em qualquer outro nome com maior mediatismo.

A probabilidade estatística pode ser baixa. Mas a possibilidade simbólica e espiritual, essa, nunca esteve tão aberta.

No fim de contas, talvez o “Pedro” que vem aí não seja o destruidor da Igreja, mas aquele que lhe devolve o rosto humano. E se for português, tanto melhor.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Os cartazes estão espalhados pelo País. A AD diz que “Portugal não pode parar” e o PS garante que “o futuro é já”. Mas para onde irá o País se Luís Montenegro voltar a ser eleito primeiro-ministro? E o que nos reservará um futuro em que Pedro Nuno Santos chegue ao poder? Uma das formas de tentar percebê-lo é lendo os programas dos partidos. Enredados nos soundbites da campanha, distraídos pelos momentos quentes dos debates ou pelas gaffes, nem sempre nos apercebemos do que verdadeiramente une e separa os projetos dos partidos que vão a votos.

Nas 277 páginas do Programa Eleitoral da AD há uma parte substancial dedicada ao que PSD e CDS acreditam ser os grandes feitos de 11 meses de governação. Não é por acaso que o documento arranca com um “Mais do que promessas, resultados”. A ideia é a de que só votar na AD permitirá continuar um caminho que serviu para repor rendimentos em várias áreas da administração pública, baixar impostos, mudar as regras da imigração e chegar ao fim com um excedente orçamental de 0,7% do PIB.

Onde a AD vê políticas que resultaram e precisam de continuar, o PS vê “um ano perdido para o País nas políticas económicas e sociais”. O “Novo impulso para Portugal” que o PS promete em 236 páginas vai aos números para mostrar que o que aconteceu desde que Luís Montenegro chegou a São Bento foi, no fundo, uma desaceleração do que os socialistas tinham conseguido nos últimos oito anos. Para o atestar, lembram que em 2024 Portugal cresceu menos do que a média das governações socialistas e houve um abrandamento na subida dos salários.

Divergências nos impostos

O diagnóstico é mesmo onde mais divergem sociais-democratas e socialistas. Mas não é só: se o programa de Montenegro assenta em grande medida numa continuação da descida do IRS e do IRC, Pedro Nuno quer descer o IVA nos alimentos essenciais e na eletricidade, tentando puxar dos galões da descida de impostos que já aconteceu. “O PS promoveu, nos últimos anos, várias descidas de impostos”, escrevem os socialistas, vincando que a descida de 1 500 milhões de euros em IRS anunciada pela AD há um ano “afinal, já estava concretizada em 80% pelo governo do PS”. O programa eleitoral do PS lembra que foi António Costa quem no IRC “eliminou o pagamento especial por conta” e “reduziu taxas para PME” e que foi Pedro Nuno Santos que, em 2024, “com o voto contra do PSD e do CDS”, conseguiu aumentar de 600 para 800 euros a dedução dos encargos com rendas em IRS e duplicar o consumo de energia elétrica sujeito à taxa reduzida do IVA.

Alinhamento nos salários e na Defesa

Se o diagnóstico e a descida dos impostos separam claramente as águas entre AD e PS, une-os o mantra das contas certas e a promessa de subida dos salários mínimo e médio. O alinhamento é total: Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos prometem ambos fazer crescer o salário mínimo até aos 1 100 euros em 2029, ano em que querem que o vencimento médio esteja nos 2 000 euros, mesmo que não seja muito claro o caminho para fazer subir essa média.

Outro ponto importante que une AD e PS é a promessa de aumentar os gastos com a Defesa para os 2% do PIB até ao final da legislatura. Um valor que foi acertado entre Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos, já depois da queda do Governo, para responder à pressão que vem nesta matéria da União Europeia e da NATO. Apesar deste alinhamento, nem um nem outro põe nos respetivos programas as contas sobre esses gastos nem faz refletir essa despesa nos cenários macroeconómicos que apresenta. Um e outro prometem que a despesa será investimento e que, como se lê no programa da AD, será feita “nunca pondo em causa o Estado social”.

O PS desenvolve um pouco mais o tema com as promessas de “apoiar a criação de um cluster de Indústria Naval de Defesa”, de “participar em consórcios europeus de produção de equipamento militar” e de “fomentar a participação em empresas portuguesas de fundos de investimento associados a capitais de risco”. Como é que isso se paga? A AD não diz, o PS é vago, mas promete “pugnar por um reforço do investimento europeu em Defesa que não coloque em causa as políticas de coesão e o Estado social, privilegiando o endividamento comunitário como instrumento financeiro”.

PS não promete reversões

Não é, contudo, só na Defesa que AD e PS se encontram ao centro. Consciente dos altos índices de popularidade da governação de Luís Montenegro em todos os estudos de opinião, Pedro Nuno Santos está apostado em apresentar-se como “a mudança segura”. E é por isso que o programa socialista não apresenta uma única reversão. O PS defendeu que a isenção do IMT e do imposto de selo aos menores de 35 anos na compra de casa ajudou a acelerar a escalada dos preços da habitação, mas nem por isso pretende mexer nessas medidas. Foi muito crítico do IRS Jovem (que acabou por aprovar no Orçamento para 2025, numa versão diferente da que a AD tinha apresentado originalmente), mas agora a única menção que faz a esse programa é a criação de um ano zero que permita “aos jovens que ingressam no mercado de trabalho, no segundo semestre de um determinado ano, beneficiar imediatamente do regime sem perda do 1º ano de isenção”. E quanto às PPP na Saúde, critica os anúncios feitos “sem transparência e sem que estivessem concluídos os respetivos estudos de viabilidade económica, obrigatórios por lei”, mas não diz claramente que não seguirá esse caminho.

E os outros? As promessas dos mais pequenos…

O Chega tardou em apresentar o seu programa. A IL quer um departamento ao estilo Elon Musk e um seguro de saúde público, o BE quer taxar os ricos, a CDU reclama aumentos de 15% nos salários, o Livre quer um novo imposto sucessório e o PAN a criminalização da remoção não consentida do preservativo

André Ventura repete que quer ser primeiro-ministro e “acabar com a bandalheira”, mas já adiou duas vezes a apresentação do programa eleitoral do Chega. A última das quais nesta segunda-feira, o dia em que se soube da morte do Papa Francisco. À data de fecho desta edição, não havia, por isso, nenhum documento que explicasse as medidas que Ventura considera essenciais, nem como pretende combater a corrupção e regular a imigração, duas das suas principais bandeiras eleitorais.

Mas se o Chega tarda em publicar o seu programa eleitoral, todos os outros partidos já divulgaram as suas ideias. Apenas um ano depois das últimas eleições legislativas, as várias forças políticas não mudaram muito os programas que levaram a votos em 2024, mas aproveitaram para os atualizar e para puxar por alguns temas que dizem mais aos seus eleitorados.

A inspiração em Elon Musk

No caso da IL, há uma grande novidade (pelo menos, no formato), que parece ter sido inspirada por Elon Musk e o trabalho que tem feito na Administração Trump e que, diga-se, lhe tem valido duras críticas pela forma cega como tem cortado departamentos essenciais do Estado. Se os liberais sempre quiseram cortar no que acham ser “as gorduras do Estado”, este ano propõem um novo departamento para o fazer: “Uma estrutura única para liderar a transformação digital e a modernização do Estado.”

Além disso, voltam a pedir a privatização da TAP, da CGD, da RTP e da CP. Também querem revolucionar a Segurança Social, com uma transição progressiva para um modelo de pensões assente em três pilares, “repartição, capitalização voluntária e capitalização obrigatória”, e mudar por completo o SNS, criando uma espécie de seguro de saúde público obrigatório, “com liberdade de escolha de prestador e financiamento público”. Embora não usem a expressão “cheque-ensino”, propõem o “financiamento ao aluno, permitindo liberdade de escolha entre ensino público, privado e cooperativo” e “valorizar a carreira docente com base no mérito e na competência, não no tempo de serviço”.

Tetos para rendas e leques salariais

“Taxar os ricos” é uma das bandeiras do BE nestas eleições. “Queremos gerar receitas para financiar os serviços públicos e salários justos, através de impostos justos sobre as empresas digitais e as grandes fortunas. Este imposto aplica-se a fortunas acima dos 3 500 salários mínimos nacionais – cerca de três milhões de euros (deduzidos de dívidas), sendo aplicada uma taxa progressiva entre 1,7% e 3,5%”, lê-se no programa eleitoral, que também propõe a criação de “leques salariais nas grandes empresas para que um administrador não possa ganhar mais num mês do que um trabalhador num ano”.

O BE quer travar a privatização da TAP e os projetos de mineração contestados pelas populações, reduzir a semana de trabalho para quatro dias e aumentar o salário mínimo para os mil euros em 2026. Outra medida emblemática é a criação de um sistema de tetos às rendas, que calcule em cada zona o valor máximo que pode ser cobrado por tipologia.

Licença parental de 210 dias

A grande prioridade da CDU é aumentar salários e pensões, com o salário mínimo nos mil euros já em julho de 2025 (em Espanha está nos 1 184 euros) e um aumento geral dos salários na ordem dos 15%, através do reforço da contratação coletiva e da valorização das carreiras públicas. Os comunistas pedem a redução do horário de trabalho para as sete horas diárias, sem diminuição do salário ou outros direitos e remunerações, e a fixação do direito de todos os trabalhadores ao subsídio de refeição, nunca inferior ao da Função Pública.

Do programa da CDU fazem ainda parte o alargamento da licença de maternidade e paternidade para 210 dias, paga a 100%, o controlo do preço dos bens alimentares essenciais e a fixação do preço da botija do gás em 20 euros e uma atualização extraordinária das reformas, “garantindo já em 2025 um aumento, com efeitos a partir de janeiro, em 5% e um valor mínimo de 70 euros”. Os comunistas querem incentivar a dedicação exclusiva ao SNS, com uma majoração de 50% do salário base, uma rede de creches públicas, refeições escolares gratuitas e “a fixação de valores máximos das rendas em contratos em vigor e novos contratos” na habitação.

Taxar os fundos imobiliários

O Livre também quer ajudar a resolver a crise na habitação, com o “reforço da tributação do património imobiliário que não se destine a habitação permanente ou seja propriedade de fundos e sociedades de investimento imobiliário”. Para criar uma “herança social” de cinco mil euros para todos os jovens aos 18 anos, propõem recuperar o imposto sucessório “para grandes heranças e grandes doações”, sem especificar montantes. E querem criar uma rede pública de residências assistidas e de estruturas residenciais para pessoas idosas.

O partido de Rui Tavares também pretende subir o salário mínimo até aos 1 250 euros em 2029 e “regular as diferenças salariais dentro da mesma entidade, através da definição de um limite máximo para a diferença entre o salário mais baixo e o salário mais alto de cada empresa, organização ou ramo de atividade”. O Livre pede ainda o “aumento progressivo da licença parental para 16 meses”, sem estabelecer um calendário, mas dizendo querer recuperar a ideia da “iniciativa legislativa cidadã que caducou na legislatura e propunha, pelo menos, seis meses de licença parental inicial pagos a 100%”.

Violação como crime público

O PAN não deixou de ser animalista, mas este ano faz da violência doméstica e de género a sua grande bandeira, naquilo a que chamou o “compromisso violeta”. Inês Sousa Real quer tornar a violação sexual um crime público (com a possibilidade de, a pedido da vítima, o caso ser arquivado a qualquer momento), a criminalização do stealthing (remoção não consensual do preservativo), a criação de um plano nacional para combater a violência sexual baseada em imagens e que as seguradoras passem a estar legalmente obrigadas a incluir “o realojamento por violência doméstica no âmbito da cobertura dos seguros da habitação”.

O PAN volta a pedir a criação de um SNS Animal, a redução do IVA dos serviços veterinários para 6%, a criação de passes sociais gratuitos para os transportes públicos e incentivos fiscais para empresas que invistam em tecnologias verdes, transição digital e emprego qualificado. Sousa Real também quer baixas médicas com remuneração a 100% para doentes oncológicos e o fim dos apoios públicos às touradas.

Palavras-chave:

Os ânimos na zona do Rossio, em Lisboa, estiveram exaltados mas acalmaram pelas 18h00 desta sexta-feira, depois de confrontos violentos, envolvendo apoiantes de movimentos de extrema-direita, e passou a um clima de festa, sobretudo com os manifestantes que desceram a Avenida da Liberdade.

Entre os cravos vermelhos e bandeiras Portugal, partidos e movimentos associativos, os participantes erguiam também cartazes em que era possível ler mensagens como “Em cada rosto igualdade”, “A revolução será feminista ou não será”, “As mulheres ciganas também fizeram o 25 de abril “. Outros dirigiam-se ao Governo, com avisos de que “Se o país continuar assim, a Assembleia voltará a ser um ninho de lacraus”.

Mais de uma hora depois de as duas chaimites marcarem o arranque da marcha, os primeiros participantes chegavam ao Rossio, onde a Associação 25 de Abril encerrou o desfile com um discurso de Adelino Costa, que substituiu Vasco Lourenço nessa tarefa. “Os ideais do 25 de Abril estiveram presentes no nosso percurso histórico nos últimos 50 anos e continuam bem vivos na sociedade portuguesa, (…) porém, há muitas ameaças a surgir no nosso horizonte”, alertou, defendendo que “Portugal tem de continuar a ser um país livre, justo, solidário e amante da paz”.

No final, ouviu-se novamente uma das senhas da revolução, a “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso, entoada em uníssono uma última vez.

Em dia de luto nacional pela morte do Papa Francisco, milhares de pessoas responderam ao apelo para celebrar nas ruas o 25 de Abril e encheram a Avenida da Liberdade para o tradicional desfile comemorativo da Revolução de 1974, ladeadas por outra multidão que assistiu nas laterais.

Com a avenida cheia desde a zona do Marquês de Pombal até à Praça dos Restauradores, ouviram-se gritos de celebração da liberdade e da democracia.

“Venho desde que me lembro de ser gente. É uma manifestação de amor pela liberdade, pela democracia, num tempo em que isso é cada vez mais necessário, dado o ressurgimento da extrema-direita. A única resposta é afirmar a alternativa pela liberdade, pela democracia”, disse à Lusa um dos manifestantes.

JOSÉ SENA GOULÃO/ LUSA

Entre os cravos vermelhos e bandeiras Portugal, partidos e movimentos associativos, os participantes erguiam também cartazes em que era possível ler mensagens como “Em cada rosto igualdade”, “A revolução será feminista ou não será”, “As mulheres ciganas também fizeram o 25 de abril “.

Outros dirigiam-se ao Governo, com avisos de que “Se o país continuar assim, a Assembleia voltará a ser um ninho de lacraus”.

Mais de uma hora depois de as duas chaimites marcarem o arranque da marcha, os primeiros participantes chegavam ao Rossio, onde a Associação 25 de Abril encerrou o desfile com um discurso de Adelino Costa, que substituiu Vasco Lourenço nessa tarefa. “Os ideais do 25 de Abril estiveram presentes no nosso percurso histórico nos últimos 50 anos e continuam bem vivos na sociedade portuguesa, (…) porém, há muitas ameaças a surgir no nosso horizonte”, alertou, defendendo que “Portugal tem de continuar a ser um país livre, justo, solidário e amante da paz”.

No final, ouviu-se novamente uma das senhas da revolução, a “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso, entoada em uníssono uma última vez.

Na primeira metade do século XX, agricultores e pastores tinham no fogo um aliado. Consideravam-no um instrumento fundamental para fertilizar as terras e substituir o trabalho braçal na limpeza do mato, de modo a abrir terreno cultivável para produzir cereais e criar novas pastagens. Havia muitos fogos, mas praticamente nenhum incêndio.

Até que começou a ganhar espaço a ideia de que os camponeses não sabiam o que faziam e que o fogo era inimigo da floresta, a nova coqueluche entre a classe dominante. O fogo foi sendo proibido e os campos agrícolas deram lugar a pinhais e, depois, a eucaliptais. Os incêndios começaram, então, a surgir, cada vez maiores, cada vez mais frequentes, cada vez mais imparáveis. E assim chegámos à triste posição que ocupamos hoje: o país que mais arde (de longe) na Europa.

Florestação de Monsanto A serra era um ermo pedregoso, com pastagens, algum trigo e oliveiras, até ser alvo de uma plantação de larga escala em 1938

Esta relação de causa-consequência – da supressão dos fogos agrícolas e da florestação de Portugal ao advento dos grandes incêndios – é a principal conclusão do projeto FIREUSES, Paisagens de Fogo, divulgado nesta quinta-feira, 24, na conferência Paisagens de Fogo: Uma História Política e Ambiental dos Grandes Incêndios em Portugal, na Biblioteca Nacional, em Lisboa. Além do trabalho de pesquisa documental, o projeto incidiu sobre os casos particulares das serras da Lapa e da Nave, no Norte, e de Monchique, no Sul, como dois exemplos diferentes e paradigmáticos de paisagens de fogo.

“A agricultura ocupava grande parte do território e tinha uma relação muito forte com o fogo, com práticas diversificadas”, explica Miguel Carmo, coordenador do estudo e investigador do Instituto de História Contemporânea (IHC), da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. “É impressionante a quantidade de técnicas com nomes e aplicações diferentes. Algumas são relativamente recentes, desenvolvidas já no século XX, no contexto da expansão do trigo, que alterou significativamente as formas de cultivo. Encontrámos uma agricultura do fogo dinâmica e rica.”

Mas o Estado Novo, baseando-se em ilusões semeadas décadas antes, decidiu que Portugal teria de ser “novamente” coberto por florestas. Nesse país, haveria menos espaço para a agricultura e a pastorícia, e menos ainda para uma agricultura e uma pastorícia em que o fogo desempenhava um papel fundamental. O fogo era amigo da agricultura, mas inimigo da floresta.

Um erro que haveria de ter impactos colossais a partir de finais da década de 1960.

Os “camponeses ignorantes”

A decisão de substituir campos agrícolas por florestas tem por trás uma dimensão económica e estética com origem ainda no século XIX, diz José Ferreira, também investigador do IHC e colaborador do projeto. “Há uma ideia de romantismo, do sublime, de que uma serra coberta de verde é inerentemente mais bonita e saudável, enquanto uma serra desbastada pelo pastoreio e pelo fogo é deprimente e insalubre, além de produzir menos riqueza do que uma floresta. Até a arborização de Monsanto [em 1938] nasceria dessa convicção de que uma serra pedregosa não era suficientemente produtiva nem se parecia com a imagem de paisagem ideal que estava na cabeça de uma elite política, intelectual e científica que, muitas vezes, estudou na Alemanha e vira os Alpes.”

A paisagem, acreditava-se, tinha sido vítima de uma degradação ambiental ao longo dos séculos, causada por camponeses ignorantes. A floresta seria um regresso a um (duvidoso) passado idílico em que as árvores cobriam grande parte do território. Com tanta sapiência, ninguém se lembrou de que o clima português não é o alemão.

A teoria é transposta para o papel num relatório que acompanha a primeira carta de uso do solo, de 1868, com uma mensagem de que havia de se rentabilizar o território (com floresta), instruir os camponeses (tidos como responsáveis pela desflorestação) e desenvolver uma racionalidade científica na gestão do território (errada, como se veria demasiado tarde). Esses conceitos seriam recuperados pelo Estado Novo, para justificar o Plano de Povoamento Florestal, que passava pela plantação de árvores (sobretudo pinheiros) nos baldios a norte do Tejo, terras que passariam a ser geridas, não pela comunidade, mas sim pelos Serviços Florestais, gerando, pelo caminho, uma série de conflitos.

Para proteger essa nova floresta, que primeiro alimentava a indústria da madeira e a partir dos anos 50, o ainda mais lucrativo setor do papel, seria necessário excluir as práticas agrícolas baseadas no fogo. Menosprezar e atacar essas práticas seria contraproducente: ao invés de pequenos fogos controlados para queimar a matéria orgânica, passaríamos a ter incêndios devastadores.

Agora é tarde

A transição da paisagem é muito clara na serra de Monchique, aponta Miguel Carmo. “O eucalipto começa a chegar nos anos 50, com grandes incentivos do Estado e uma indústria da celulose a produzir papel de qualidade, o que gera uma revolução: o eucalipto passa a ser uma alternativa viável ao trigo e ao centeio. Nos anos 60, começa o abandono da população, para se empregar nos hotéis do Algarve e emigrar para França, e a economia agrícola e a sua prática de fogo começam a desaparecer. E em 1966 há um primeiro grande incêndio, que chega a Aljezur. No ano seguinte, o comandante da GNR escreve um relatório que envia ao governador-civil a explicar que os grandes incêndios na região se devem às queimadas de setembro, então legalmente autorizadas, e sugere que passem a ser realizadas num período posterior. No final dos anos 60, o fogo reduziu-se por ação desta transformação.”

O papel do fogo como ferramenta de prevenção de incêndios também se foi perdendo. “Um equívoco ecológico que permaneceu até muito tarde”, descreve o investigador. “Só nos anos 1970 aparecem os primeiros profissionais a apontar que os fogos que excluímos da paisagem estão a voltar na forma de grandes incêndios.”

Quando os Serviços Florestais se aperceberam de que o fogo era importante, já não havia gente para o fazer. O conhecimento perdera-se

Nessa altura, surgem algumas teses no Instituto Superior de Agronomia sobre o fogo como forma de gerir a paisagem, normalmente de investigadores que haviam passado pelos EUA, onde o fogo controlado era estudado desde os anos 50. Mas era tarde demais. Primeiro, porque décadas de demonização dos fogos criaram desconfiança nos silvicultores, que se recusavam a aceitar as teorias americanas. Segundo, porque os “camponeses ignorantes” que sabiam usar o fogo estavam a desaparecer. José Joaquim Moreira da Silva, engenheiro silvicultor que dirigiu o Parque Nacional da Peneda-Gerês (onde fez experiências com fogo controlado) em finais dos anos 70, ainda defendeu inquéritos na população rural para que não desaparecessem esses conhecimentos, mas em vão.

“Quando os serviços se aperceberam de que o fogo, afinal, era importante, já não havia pessoas para o fazer”, diz José Ferreira. “Há quem tente reintroduzir o fogo controlado nos Serviços Florestais, mas isso não se traduz em políticas públicas. Persiste a desconfiança a nível político e administrativo. A ideia do fogo com mão criminosa, aliás, nasce no Estado Novo. Todos os verões ouvimos que o uso do fogo é mau, queimadas são más, e pelo caminho a paisagem foi-se tornando muito mais combustível.”

Nem toda a culpa estrutural pode ser imputada às políticas do Estado Novo, sublinha Miguel Carmo. “Os Serviços Florestais eram uma instituição com uma presença enorme no território, mas a estrutura vai sendo reduzida e, a partir dos anos 80, desmantelada. Hoje, há muito pouca gente para fazer fogo controlado.”

Palavras-chave: