A importância das mitocôndrias, essa espécie de pequenas baterias responsáveis pela produção da maior parte da energia química das células do nosso corpo, é uma verdade indisputável. O transplante de órgãos não é uma novidade para ninguém. Juntem-se estas duas certezas e temos a comunidade científica entusiasmada com todas as hipóteses que o transplante mitocondrial pode representar para a nossa saúde.
James McCully, professor de Cirurgia na Escola Médica de Harvard, em Boston, nos Estados Unidos da América, é um dos investigadores que já têm resultados para apresentar.
Num ensaio clínico com dez bebés prematuros que tinham os músculos cardíacos danificados por isquemias (quando o fluxo de sangue e oxigénio é inadequado), McCully retirou um pequeno pedaço de tecido da parede abdominal de cada criança, partiu-o para libertar as mitocôndrias, separá-las de outros resíduos celulares numa centrifugadora e perfundi-las de novo no coração em insuficiência.
Esses bebés precisariam da assistência de uma máquina coração-pulmão para não morrerem – e, mesmo assim, só 60% sobreviveriam. Os resultados do ensaio, publicados há cerca de quatro anos, demonstram que a intervenção melhorou a taxa de sobrevivência para 80 por cento.
O facto de o procedimento ter envolvido apenas dez bebés doentes não permite afirmar que funciona – o grupo era tão pequeno que os resultados podem ter sido um mero acaso estatístico. Mas o ensaio sugeriu que se trata de uma técnica segura.
McCully e os seus colegas de equipa descobriram que a nova abordagem aumentou imediatamente a produção de moléculas de sinalização nos bebés (essenciais para a comunicação entre células e a regulação de processos biológicos), impedindo a inflamação e o suicídio celular.
Pouco tempo depois, os mesmos investigadores verificaram que as mitocôndrias perfundidas se fixaram no músculo cardíaco danificado, restaurando a sua função a longo prazo.
A FDA (Food and Drug Administration, a agência do medicamento norte-americana, que regula os ensaios clínicos) já está a avaliar a técnica. Se ela for aprovada, tudo indica que será alargada a outros tecidos afetados por isquemias, incluindo corações, pulmões e rins de adultos.
Função neurológica
Mightychondria, chamam-lhe num artigo recente da revista The Economist, jogando com o nome e a palavra “poderosas” (mighty, em inglês). Não se trata de exagero de jornalista.
A função mais conhecida das mitocôndrias é produzir uma substância química chamada ATP (adenosina trifosfato), essencialmente a moeda energética que alimenta quase tudo o que as células fazem. Mas as mitocôndrias são bem mais do que “centrais elétricas”.
Sozinhas, elas desempenham uma série de tarefas vitais, daí que, quando apresentam defeitos, acabam por provocar ou contribuir para várias doenças. O seu desgaste com a idade também pode levar a diabetes ou a problemas cardiovasculares.
Não admira, por isso, que cientistas um pouco por todo o mundo se tenham virado para o transplante de mitocôndrias.
Segundo o mesmo artigo, Lance Becker, do Instituto de Medicina Bioeletrónica do Instituto Feinstein, em Nova Iorque, EUA, planeia testar uma técnica semelhante à de James McCully também em bebés prematuros.
Substituir mitocôndrias danificadas por mitocôndrias totalmente novas é, aliás, algo que esse médico, reconhecido internacionalmente no campo da reanimação, anda a testar há alguns anos. Recentemente, demonstrou que o transplante mitocondrial pode melhorar a sobrevivência e os resultados neurológicos após uma paragem cardíaca.
Num estudo, publicado na revista BMC Medicine, em março de 2023, Becker analisou a capacidade e a eficácia do transplante de mitocôndrias num tubo de ensaio (in vivo) e os seus efeitos em modelos animais de ratinhos (in vitro).
Os resultados mostraram que os animais que receberam a infusão de novas mitocôndrias melhoraram a função neurológica e a sobrevivência, de 55% para 91%, após a paragem cardíaca e a reanimação.
“Quando o nosso corpo, cérebro e órgãos, não recebe oxigénio suficiente, quer seja após um ataque cardíaco ou de outra maneira, surgem complicações e a sobrevivência diminui”, lembrou, então, o investigador. “E o transplante de mitocôndrias poderá restaurar a função cerebral em pessoas após um grave ataque de privação de oxigénio com risco de vida.”
Em células de cancro
No final de 2024, foi a vez de Melanie Walker, professora de Cirurgia Neurológica na Faculdade de Medicina da Universidade de Washington, em Seattle, EUA, publicar os resultados de uma experiência sobre um tipo de isquemia que provoca acidentes vasculares cerebrais.
Em dezembro do ano passado, no Journal of Cerebral Blood Flow & Metabolism, a médica e investigadora relatou o transplante de mitocôndrias que realizou em quatro pacientes, num ensaio conduzido sobretudo para verificar a segurança do tratamento.
A sua técnica envolveu a infusão de mitocôndrias no local do coágulo sanguíneo que induz a isquemia, como parte de um procedimento normal para remover o coágulo. Os primeiros indicadores de eficácia foram “promissores”, disse, então, Walker.
No futuro, a investigadora planeia conseguir impedir que os neurónios afetados pelo AVC se “suicidem”. Mas, entretanto, já avançou com outros ensaios. Um deles tem como objetivo restaurar a função dos neurónios lesionados por traumatismos físicos e não por acidentes vasculares cerebrais.
Numa fase anterior aos ensaios em humanos, já houve várias experiências com culturas de células e animais de laboratório a terem bons resultados.
Entre elas está o trabalho de Aybuke Celik, colega de McCully em Harvard, que tem investigado o efeito de mitocôndrias transplantadas em células de cancro da próstata e do ovário. A médica e investigadora descobriu que as novas mitocôndrias reduzem a quantidade de quimioterapia necessária para que essas células se matem, relatou na revista Biomedicine & Pharmacotherapy, em maio de 2023.
Mais um possível superpoder do transplante mitocondrial a que vale a pena estarmos atentos.
Doping indetetável
Atletas mais rápidos e durante mais tempo, graças ao transplante mitocondrial?
Já se demonstrou que as mitocôndrias podem ser transferidas de um tipo de músculo para outro, aumentando a quantidade de energia que uma célula produz e, por isso, a resistência e a potência. Num estudo realizado com ratinhos, em 2020, verificou-se que a injeção de mitocôndrias de animais mais jovens em animais mais velhos permitiu-lhes correr 50% mais tempo e 50% mais depressa.
O processo é relativamente fácil e as mitocôndrias são quase impossíveis de detetar depois de injetadas, lembrou James McCully, da Escola Médica de Harvard, durante a conferência anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência, em Boston, EUA, em fevereiro. Acrescentou-se a suspeita de haver já atletas a experimentar para melhorar o seu desempenho.
“Recebo telefonemas constantes sobre isto. É fácil de fazer e os protocolos estão mesmo no nosso site”, contou o investigador aos jornalistas. “Estou a ver o transplante mitocondrial a ajudar muito as pessoas, especialmente em coisas relacionadas com a resistência.”
As chamadas começaram um ano antes dos Jogos Olímpicos de Paris, mas McCully não faz ideia de quem eram, porque os contactos foram feitos por telefone, sem registo em papel. Ainda segundo ele, as autoridades já estão a investigar este novo truque de dopagem que pode ajudar os atletas a correrem mais depressa e durante mais tempo.