Nasceu em Coimbra, em 1988, e licenciou-se em Direito pela Universidade Nova de Lisboa. Venceu dois prémios e, em seis meses, publicou dois livros arrebatadores: Aqui Onde Canto e Ardo (Gradiva) e Morramos ao Menos no Porto, que acaba de sair com a chancela da Quetzal. Escreve há mais de dez anos e, durante esse tempo, fez algumas tentativas de publicação que não foram bem-sucedidas. É sem ponta de exagero que se diz: Francisco Mota Saraiva sabe o que faz e a sua literatura vai dar que falar.
Quando recebeu o Prémio Saramago, disse que “vivíamos momentos com pouca luz”, dando a entender que o livro era a sua proposta de iluminação, no meio das sombras do mundo. Ainda é assim que olha para ele?
Sim, acho inevitável que alguém que se coloque no espaço e no tempo que hoje habitamos não veja ou não se sinta ameaçado, de alguma maneira, relativamente àquilo que eram valores que tínhamos por mais certos. A seguir à II Guerra Mundial, sobretudo no mundo ocidental, vivemos uma relativa paz e agora vivemos…
Tempos de incerteza?
Há muita incerteza e há também um certo discurso… Não me refiro tanto ao discurso dos que detêm o poder, dos políticos. Mas há um discurso que se tornou banal na sociedade e que também noto nas pessoas que me rodeiam. Dizer determinadas coisas, afirmar determinados pensamentos, é um pouco aquela ideia da banalidade do mal de Hannah Arendt… Os tempos estão mais sombrios. Obviamente que há que ter alguma esperança e há que lutar para que as coisas possam ser diferentes. Mas tenho algum medo do mundo em que hoje vivemos.
Até que ponto pode a arte ‒ um livro, neste caso ‒ mudar o mundo, contribuir para essa mudança?
Não vejo a arte como algo capaz de mudar o mundo. No entanto, julgo que a arte tem sempre um papel relativamente político. Se calhar, a maior parte dos artistas não pretende, através da arte, fazer uma afirmação política ou apresentar propostas políticas. Mas qualquer artista (um escritor, um pintor ou um escultor), a bem ou a mal, esconde sempre algo de político, naquilo que é a sua proposta artística. Porque se trata de um comportamento social, e nós, enquanto seres sociais, acima de tudo, somos seres políticos. É natural que a criação artística possa representar alguma ideia, alguma proposta de valores. O próprio sentido estético também está muito associado a esta proposta de valores. Mas isto não era o meu objetivo com o livro, só tinha uma ideia…
O que tinha, quando começou?
Não tinha absolutamente nada. Já contei esta história algumas vezes: anteriormente, vivi numa outra casa, uma daquelas casas antigas de Lisboa, com chão de madeira, numa grande avenida, poluída e barulhenta. Era uma casa dos anos 30 e, de certa forma, essas casas têm vida. Um dia, sentei-me à secretária para escrever, não sabia muito bem o que ia escrever e senti que aquele chão respirava, havia barulhos… Através das próprias paredes também se ouviam algumas coisas.
A dinâmica do prédio, tal como no livro.
Exatamente. Então, comecei a imaginar as personagens que viviam debaixo daquele chão, como se os nossos mortos e as nossas memórias eclodissem desse chão e ganhassem vida. Depois, fui povoando o livro com outras personagens, aquilo para mim era só o início da narrativa. Nunca tive uma ideia política, mas, como eu dizia, parece-me inevitável que acabemos por convocar determinadas realidades que nos são próximas.
Também foi buscar a questão do aborto clandestino, que parece estar mais ou menos resolvida em Portugal. Porquê?
Acho que, em Portugal, temos por vezes a ideia de dar os problemas como resolvidos através de uma lei e não sei se é exatamente assim. Sobre a questão do aborto, tem-se levantado a possibilidade de ser algo de legal e, simultaneamente, haver tantas mulheres que continuam a fazê-lo de forma ilegal. Fiquei mais desperto para algumas realidades, nomeadamente, a violência sobre as mulheres, a violência de género que, muitas vezes, está presente não só na violência doméstica mas também na forma como os abortos são praticados em Portugal. Um amigo chamou-me a atenção para essa realidade. E, entretanto, também comecei a ler mais escritoras, despertei para uma literatura feminina que, finalmente, parece estar a eclodir. É um lado da literatura que está pouco explorado e que também me interessa. Para mim, é desafiante tentar construir narrativas a partir de um lado que não é o meu.
Acautele-se: esse não é “o lugar da fala”.
[Risos.] Sim, isso aconteceu com o Afonso Reis Cabral por causa do seu livro [Pão de Açúcar, que também venceu o Prémio Saramago, em 2019] sobre a transgénero que foi assassinada [Gisberta Salce Júnior, que morreu no Porto, em 2006]. Nos EUA, gostaram do livro, mas disseram-lhe que, como ele não era transgénero, não podia escrever sobre isso. Tudo isto também me assusta, estamos a colocar muitas amarras à arte quando dizemos quem é que pode ocupar o lugar da fala, quais é que devem ser as vozes. Julgo que todo o artista pode debruçar-se sobre qualquer criação que entenda que faz sentido, independentemente de ter uma ligação mais ou menos próxima dessa realidade. Posso dar um exemplo: por esta ordem de ideias, eu nunca poderia escrever sobre a experiência de um cárcere, sobre um prisioneiro que está preso, a menos que me enfie numa prisão. Zola foi viver para os bairros sociais, mas não creio que isso seja necessário. Podemos escrever através de uma certa transmutação, a partir de uma experiência de sentimentos e tentar transformá-los.
Como se um escritor não fosse livre de escrever sobre o que bem entende, além do mais?
Claro. Quando apresentou o meu primeiro livro [Aqui Onde Canto e Ardo, vencedor do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís], o Gonçalo M. Tavares foi muito generoso e disse-me uma coisa: “Nunca deixes de escrever o que entendes.” Ou seja, nunca deixes uma palavra por dizer, não te deixes amarrar por convenções, pelos leitores, pelo mundo editorial, seja por quem for. Porque, se o fizermos, não estaremos a ser honestos com a literatura.
Já li que não quer contar histórias, pois considera que as grandes histórias já foram todas contadas. Se eu for muito literal, ao resumir a história do livro, concorda que fica a parecer demasiado tétrico?
Sim, é verdade. O que me interessa é a exploração da personagem, mergulhar nas suas dores e violências. Como disse, quando comecei a escrever o livro, não tinha grandes ideias, mas a certa altura esse protagonista, o António, começou a ganhar alguma relevância. Imaginei: e se este homem tivesse vivido uma grande história de amor? E se essa história de amor se prolongasse além da vida, literalmente, como seria? No fundo, uma espécie de efabulação: posso prolongar esse amor, torná-lo quase perpétuo, um amor entre alguém que está vivo e alguém que está morto; uma relação que pode prolongar-se até ao ponto de eles puderem juntar-se na mesma condição física, continuarem esse amor para lá das suas vidas.
É lírico e melancólico, mas também é um sinal de esperança.
Sou um pessimista, mas sou um pessimista esperançoso. E acredito profundamente nesta ideia de que duas pessoas podem estabelecer uma relação para lá da sua própria vida. A certa altura, no momento da escrita, percebi que estava a contar uma história que eu próprio já tinha presenciado. O nome das personagens, António e Silvina, são os nomes dos meus bisavós. A minha bisavó morreu repentinamente. Ela e o meu bisavô tinham uma relação tão forte que, muito pouco tempo depois da morte dela, o meu bisavô acabou por morrer, sem uma doença que se conhecesse. Teve um profundo desgosto de amor.
Estamos a colocar muitas amarras à arte quando dizemos quem é que pode ocupar o lugar da fala, quais é que devem ser as vozes. Todo o artista pode debruçar-se sobre qualquer criação que entenda que faz sentido
Quando lhe atribuíram o prémio, a Adriana Lisboa, membro do júri, também disse que o livro era “o espelho da desintegração do mundo”. É possível estabelecer uma relação direta com o que se passa em Portugal?
Obviamente que, no papel de escritor, é com essa lente que observo e que trago isso para a minha escrita. Julgo que quem ler o livro vai, inevitavelmente, encontrar um paralelismo com o Portugal de hoje. A verdade é que sinto que as pessoas estão relativamente doentes dos olhos, estão reféns das suas ambições, das redes sociais, viraram-se muito para elas próprias, para as suas raivas e para os seus ódios. Enquanto isso, de facto, há um mundo que se desintegra lá fora. Estamos cada vez mais longe uns dos outros. E também é por causa disso que, no livro, há uma série de personagens que, apesar de habitarem o mesmo prédio, não conseguem comunicar.
Nota muita indiferença, é isso?
Vivem as suas histórias, as suas dificuldades e são relativamente indiferentes uns aos outros. Acho que deixámos de olhar para o outro, deixámos de olhar para o meio que nos rodeia com simpatia e generosidade. Estamos tão interessados no que somos, no que queremos ser ou no que queremos transmitir aos outros que deixamos de olhar para o outro. E julgo que, efetivamente, é através do outro que nos completamos. Ficámos desatentos. E, quando estamos desatentos, do outro lado, provavelmente, está alguém demasiado atento, a dirigir a sua atenção não necessariamente para o bem.
Percebe-se que é um grande leitor. Como foi o seu caminho enquanto leitor: o que foi gostando ao longo dos anos, o que foi lendo, o que foi descobrindo…?
Tenho sempre dificuldade em responder a isso, porque claro que há muitos autores que me influenciaram… Os meus pais também eram grandes leitores. Quando comecei a ler literatura portuguesa, comecei muito pelo Eça de Queirós e, depois, fui fazendo um caminho largo. Penso que existem alguns livros cujo contacto me fizeram pensar que a escrita podia ser feita de uma forma relativamente diferente. Aconteceu-me com O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago, com O Outono do Patriarca, de Gabriel García Márquez, muitos dos livros de António Lobo Antunes, Borges, Cortázar, Bolaño… Tenho um prazer recente, que é ler teatro: gosto muito de teatro, gosto muito de ir ao teatro e acho fascinante que também possa ser lido, estando inicialmente pensado para ser representado. Como disse, também tenho lido muitas escritoras: Clarice Lispector, Virginia Woolf, Deborah Levy, Leila Slimani, Fernanda Melchor, Annie Ernaux, Natalia Ginzburg… E depois há ainda dois escritores que me marcaram muito: Proust e Céline. O Em Busca do Tempo Perdido é um colosso literário e a literatura de Céline é magnânima, apesar de muitas vezes ser tido como um autor não recomendável, por motivos políticos…
Nessa avaliação, não se dissocia a figura do escritor?
Sim. Acho que o que as pessoas também procuram é tentar perceber quem está do outro lado. Agustina dizia que achava que as pessoas eram muito simpáticas com ela na rua, mas que nunca tinham lido um livro dela. Só gostavam dela enquanto pessoa que aparecia nos jornais e na televisão. É natural, o leitor quer conhecer quem está do lado de lá, mas a mim isso parece-me um mau princípio para a descoberta da criação artística.
Tal como outros meios, o meio literário também vive de figuras.
Pois, mas isso não me interessa muito, às vezes até prefiro não conhecer quem está do outro lado. Li há pouco tempo um livro do Javier Marías, Vidas Escritas, em que ele diz qualquer coisa como: um escritor não é muito diferente de uma pessoa normal, alguém que viva no perfeito anonimato. E nós temos tendência para atribuir determinados caprichos, extravagâncias, irritações e depois empolá-los, porque, de alguma maneira, isso também nos permite estabelecer uma relação com o escritor, sentimo-nos atraídos por saber que também tem defeitos…
Prémios literários: que importância lhes dá?
No meu caso, os prémios que ganhei tiveram alguma importância porque me deram a possibilidade de publicar. Mas, na verdade, não lhes dou grande importância. Atribuo-lhes algum valor, porque estão ali algumas pessoas – leitores mais experimentados, académicos, críticos… – que, de alguma maneira, dizem que o que eu fiz é digno de ser publicado. Ao mesmo tempo, os prémios também podem ajudar a separar o trigo do joio, embora aqui eu possa estar a ser muito injusto porque há tão bons escritores que nunca foram premiados…
E não sente que trazem também alguma visibilidade?
Sim, os prémios também são importantes porque dão alguma visibilidade à literatura. Precisamos de grandes momentos, de grandes ocasiões, de desígnios que às vezes só se cumprem com determinados rituais. É um pouco como uma religião, com todos aqueles ritos associados que atraem as pessoas para a religião. Tal como os festivais literários, os prémios também têm isto: chamam a atenção, permitem que os livros estejam vivos. Num tempo em que se fecham livrarias e cinemas, os prémios têm o condão de dizer que a literatura está viva, que há pessoas que merecem, que são dignas de os receber. Todos esses ritos alimentam não só os leitores mas também quem escreve.
Uma última pergunta sobre o Direito. E, no fundo, para saber se faz com gosto ou se é apenas uma forma de pagar contas?
Tinha muitas ilusões relativamente ao mundo do Direito, tinha a ilusão de que seria uma profissão mais romântica do que aquilo que ela é realmente… O que gosto mesmo de fazer é escrever. Mas o Direito acabou por se tornar um trabalho, digo sempre que tenho dois ofícios. Em Portugal, infelizmente, contar-se-ão pelos dedos de uma mão os escritores que podem viver da sua escrita, muito menos eu, que ainda agora comecei…
E tem conseguido conciliar as duas coisas de forma disciplinada?
Já o faço há alguns anos, mas acho que esse é o meu maior desafio. Como é que todos os dias encontro uma disciplina, uma rotina para que as duas coisas não se atrapalhem, para que nem uma nem outra fiquem prejudicadas. Obviamente que isto é feito com muito sacrifício, mas há tantas pessoas que, por razões financeiras, têm dois empregos e que se dão a eles com afinco… É o que procuro fazer. O meu trabalho como jurista também me ensinou muito esse lado da disciplina. Mas, pronto, são menos horas que se dormem, programas que às vezes ficam adiados, com a família ou com os amigos. Acho que vale a pena. E, na verdade, eu também não conseguiria fazer de outra forma. Preciso disto para um certo bem-estar pessoal e, além do mais, já se tornou uma espécie de vício.




















