Nasceu em Coimbra, em 1988, e licenciou-se em Direito pela Universidade Nova de Lisboa. Venceu dois prémios e, em seis meses, publicou dois livros arrebatadores: Aqui Onde Canto e Ardo (Gradiva) e Morramos ao Menos no Porto, que acaba de sair com a chancela da Quetzal. Escreve há mais de dez anos e, durante esse tempo, fez algumas tentativas de publicação que não foram bem-sucedidas. É sem ponta de exagero que se diz: Francisco Mota Saraiva sabe o que faz e a sua literatura vai dar que falar.

Quando recebeu o Prémio Saramago, disse que “vivíamos momentos com pouca luz”, dando a entender que o livro era a sua proposta de iluminação, no meio das sombras do mundo. Ainda é assim que olha para ele?
Sim, acho inevitável que alguém que se coloque no espaço e no tempo que hoje habitamos não veja ou não se sinta ameaçado, de alguma maneira, relativamente àquilo que eram valores que tínhamos por mais certos. A seguir à II Guerra Mundial, sobretudo no mundo ocidental, vivemos uma relativa paz e agora vivemos…

Tempos de incerteza?
Há muita incerteza e há também um certo discurso… Não me refiro tanto ao discurso dos que detêm o poder, dos políticos. Mas há um discurso que se tornou banal na sociedade e que também noto nas pessoas que me rodeiam. Dizer determinadas coisas, afirmar determinados pensamentos, é um pouco aquela ideia da banalidade do mal de Hannah Arendt… Os tempos estão mais sombrios. Obviamente que há que ter alguma esperança e há que lutar para que as coisas possam ser diferentes. Mas tenho algum medo do mundo em que hoje vivemos.

Até que ponto pode a arte ‒ um livro, neste caso ‒ mudar o mundo, contribuir para essa mudança?
Não vejo a arte como algo capaz de mudar o mundo. No entanto, julgo que a arte tem sempre um papel relativamente político. Se calhar, a maior parte dos artistas não pretende, através da arte, fazer uma afirmação política ou apresentar propostas políticas. Mas qualquer artista (um escritor, um pintor ou um escultor), a bem ou a mal, esconde sempre algo de político, naquilo que é a sua proposta artística. Porque se trata de um comportamento social, e nós, enquanto seres sociais, acima de tudo, somos seres políticos. É natural que a criação artística possa representar alguma ideia, alguma proposta de valores. O próprio sentido estético também está muito associado a esta proposta de valores. Mas isto não era o meu objetivo com o livro, só tinha uma ideia…

O que tinha, quando começou?
Não tinha absolutamente nada. Já contei esta história algumas vezes: anteriormente, vivi numa outra casa, uma daquelas casas antigas de Lisboa, com chão de madeira, numa grande avenida, poluída e barulhenta. Era uma casa dos anos 30 e, de certa forma, essas casas têm vida. Um dia, sentei-me à secretária para escrever, não sabia muito bem o que ia escrever e senti que aquele chão respirava, havia barulhos… Através das próprias paredes também se ouviam algumas coisas.    

A dinâmica do prédio, tal como no livro. 
Exatamente. Então, comecei a imaginar as personagens que viviam debaixo daquele chão, como se os nossos mortos e as nossas memórias eclodissem desse chão e ganhassem vida. Depois, fui povoando o livro com outras personagens, aquilo para mim era só o início da narrativa. Nunca tive uma ideia política, mas, como eu dizia, parece-me inevitável que acabemos por convocar determinadas realidades que nos são próximas. 

Também foi buscar a questão do aborto clandestino, que parece estar mais ou menos resolvida em Portugal. Porquê?
Acho que, em Portugal, temos por vezes a ideia de dar os problemas como resolvidos através de uma lei e não sei se é exatamente assim. Sobre a questão do aborto, tem-se levantado a possibilidade de ser algo de legal e, simultaneamente, haver tantas mulheres que continuam a fazê-lo de forma ilegal. Fiquei mais desperto para algumas realidades, nomeadamente, a violência sobre as mulheres, a violência de género que, muitas vezes, está presente não só na violência doméstica mas também na forma como os abortos são praticados em Portugal. Um amigo chamou-me a atenção para essa realidade. E, entretanto, também comecei a ler mais escritoras, despertei para uma literatura feminina que, finalmente, parece estar a eclodir. É um lado da literatura que está pouco explorado e que também me interessa. Para mim, é desafiante tentar construir narrativas a partir de um lado que não é o meu. 

Acautele-se: esse não é “o lugar da fala”. 
[Risos.] Sim, isso aconteceu com o Afonso Reis Cabral por causa do seu livro [Pão de Açúcar, que também venceu o Prémio Saramago, em 2019] sobre a transgénero que foi assassinada [Gisberta Salce Júnior, que morreu no Porto, em 2006]. Nos EUA, gostaram do livro, mas disseram-lhe que, como ele não era transgénero, não podia escrever sobre isso. Tudo isto também me assusta, estamos a colocar muitas amarras à arte quando dizemos quem é que pode ocupar o lugar da fala, quais é que devem ser as vozes. Julgo que todo o artista pode debruçar-se sobre qualquer criação que entenda que faz sentido, independentemente de ter uma ligação mais ou menos próxima dessa realidade. Posso dar um exemplo: por esta ordem de ideias, eu nunca poderia escrever sobre a experiência de um cárcere, sobre um prisioneiro que está preso, a menos que me enfie numa prisão. Zola foi viver para os bairros sociais, mas não creio que isso seja necessário. Podemos escrever através de uma certa transmutação, a partir de uma experiência de sentimentos e tentar transformá-los.  

Como se um escritor não fosse livre de escrever sobre o que bem entende, além do mais?
Claro. Quando apresentou o meu primeiro livro [Aqui Onde Canto e Ardo, vencedor do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís], o Gonçalo M. Tavares foi muito generoso e disse-me uma coisa: “Nunca deixes de escrever o que entendes.” Ou seja, nunca deixes uma palavra por dizer, não te deixes amarrar por convenções, pelos leitores, pelo mundo editorial, seja por quem for. Porque, se o fizermos, não estaremos a ser honestos com a literatura. 

Já li que não quer contar histórias, pois considera que as grandes histórias já foram todas contadas. Se eu for muito literal, ao resumir a história do livro, concorda que fica a parecer demasiado tétrico?
Sim, é verdade. O que me interessa é a exploração da personagem, mergulhar nas suas dores e violências. Como disse, quando comecei a escrever o livro, não tinha grandes ideias, mas a certa altura esse protagonista, o António, começou a ganhar alguma relevância. Imaginei: e se este homem tivesse vivido uma grande história de amor? E se essa história de amor se prolongasse além da vida, literalmente, como seria? No fundo, uma espécie de efabulação: posso prolongar esse amor, torná-lo quase perpétuo, um amor entre alguém que está vivo e alguém que está morto; uma relação que pode prolongar-se até ao ponto de eles puderem juntar-se na mesma condição física, continuarem esse amor para lá das suas vidas.

É lírico e melancólico, mas também é um sinal de esperança.
Sou um pessimista, mas sou um pessimista esperançoso. E acredito profundamente nesta ideia de que duas pessoas podem estabelecer uma relação para lá da sua própria vida. A certa altura, no momento da escrita, percebi que estava a contar uma história que eu próprio já tinha presenciado. O nome das personagens, António e Silvina, são os nomes dos meus bisavós. A minha bisavó morreu repentinamente. Ela e o meu bisavô tinham uma relação tão forte que, muito pouco tempo depois da morte dela, o meu bisavô acabou por morrer, sem uma doença que se conhecesse. Teve um profundo desgosto de amor.

Estamos a colocar muitas amarras à arte quando dizemos quem é que pode ocupar o lugar da fala, quais é que devem ser as vozes. Todo o artista pode debruçar-se sobre qualquer criação que entenda que faz sentido

Quando lhe atribuíram o prémio, a Adriana Lisboa, membro do júri, também disse que o livro era “o espelho da desintegração do mundo”. É possível estabelecer uma relação direta com o que se passa em Portugal?
Obviamente que, no papel de escritor, é com essa lente que observo e que trago isso para a minha escrita. Julgo que quem ler o livro vai, inevitavelmente, encontrar um paralelismo com o Portugal de hoje. A verdade é que sinto que as pessoas estão relativamente doentes dos olhos, estão reféns das suas ambições, das redes sociais, viraram-se muito para elas próprias, para as suas raivas e para os seus ódios. Enquanto isso, de facto, há um mundo que se desintegra lá fora. Estamos cada vez mais longe uns dos outros. E também é por causa disso que, no livro, há uma série de personagens que, apesar de habitarem o mesmo prédio, não conseguem comunicar. 

Nota muita indiferença, é isso?
Vivem as suas histórias, as suas dificuldades e são relativamente indiferentes uns aos outros. Acho que deixámos de olhar para o outro, deixámos de olhar para o meio que nos rodeia com simpatia e generosidade. Estamos tão interessados no que somos, no que queremos ser ou no que queremos transmitir aos outros que deixamos de olhar para o outro. E julgo que, efetivamente, é através do outro que nos completamos. Ficámos desatentos. E, quando estamos desatentos, do outro lado, provavelmente, está alguém demasiado atento, a dirigir a sua atenção não necessariamente para o bem.

Percebe-se que é um grande leitor. Como foi o seu caminho enquanto leitor: o que foi gostando ao longo dos anos, o que foi lendo, o que foi descobrindo…? 
Tenho sempre dificuldade em responder a isso, porque claro que há muitos autores que me influenciaram… Os meus pais também eram grandes leitores. Quando comecei a ler literatura portuguesa, comecei muito pelo Eça de Queirós e, depois, fui fazendo um caminho largo. Penso que existem alguns livros cujo contacto me fizeram pensar que a escrita podia ser feita de uma forma relativamente diferente. Aconteceu-me com O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago, com O Outono do Patriarca, de Gabriel García Márquez, muitos dos livros de António Lobo Antunes, Borges, Cortázar, Bolaño… Tenho um prazer recente, que é ler teatro: gosto muito de teatro, gosto muito de ir ao teatro e acho fascinante que também possa ser lido, estando inicialmente pensado para ser representado. Como disse, também tenho lido muitas escritoras: Clarice Lispector, Virginia Woolf, Deborah Levy, Leila Slimani, Fernanda Melchor, Annie Ernaux, Natalia Ginzburg… E depois há ainda dois escritores que me marcaram muito: Proust e Céline. O Em Busca do Tempo Perdido é um colosso literário e a literatura de Céline é magnânima, apesar de muitas vezes ser tido como um autor não recomendável, por motivos políticos…

Nessa avaliação, não se dissocia a figura do escritor?
Sim. Acho que o que as pessoas também procuram é tentar perceber quem está do outro lado. Agustina dizia que achava que as pessoas eram muito simpáticas com ela na rua, mas que nunca tinham lido um livro dela. Só gostavam dela enquanto pessoa que aparecia nos jornais e na televisão. É natural, o leitor quer conhecer quem está do lado de lá, mas a mim isso parece-me um mau princípio para a descoberta da criação artística. 

Tal como outros meios, o meio literário também vive de figuras.
Pois, mas isso não me interessa muito, às vezes até prefiro não conhecer quem está do outro lado. Li há pouco tempo um livro do Javier Marías, Vidas Escritas, em que ele diz qualquer coisa como: um escritor não é muito diferente de uma pessoa normal, alguém que viva no perfeito anonimato. E nós temos tendência para atribuir determinados caprichos, extravagâncias, irritações e depois empolá-los, porque, de alguma maneira, isso também nos permite estabelecer uma relação com o escritor, sentimo-nos atraídos por saber que também tem defeitos…

Prémios literários: que importância lhes dá?
No meu caso, os prémios que ganhei tiveram alguma importância porque me deram a possibilidade de publicar. Mas, na verdade, não lhes dou grande importância. Atribuo-lhes algum valor, porque estão ali algumas pessoas – leitores mais experimentados, académicos, críticos… – que, de alguma maneira, dizem que o que eu fiz é digno de ser publicado. Ao mesmo tempo, os prémios também podem ajudar a separar o trigo do joio, embora aqui eu possa estar a ser muito injusto porque há tão bons escritores que nunca foram premiados… 

E não sente que trazem também alguma visibilidade?
Sim, os prémios também são importantes porque dão alguma visibilidade à literatura. Precisamos de grandes momentos, de grandes ocasiões, de desígnios que às vezes só se cumprem com determinados rituais. É um pouco como uma religião, com todos aqueles ritos associados que atraem as pessoas para a religião. Tal como os festivais literários, os prémios também têm isto: chamam a atenção, permitem que os livros estejam vivos. Num tempo em que se fecham livrarias e cinemas, os prémios têm o condão de dizer que a literatura está viva, que há pessoas que merecem, que são dignas de os receber. Todos esses ritos alimentam não só os leitores mas também quem escreve.  

Uma última pergunta sobre o Direito. E, no fundo, para saber se faz com gosto ou se é apenas uma forma de pagar contas?
Tinha muitas ilusões relativamente ao mundo do Direito, tinha a ilusão de que seria uma profissão mais romântica do que aquilo que ela é realmente… O que gosto mesmo de fazer é escrever. Mas o Direito acabou por se tornar um trabalho, digo sempre que tenho dois ofícios. Em Portugal, infelizmente, contar-se-ão pelos dedos de uma mão os escritores que podem viver da sua escrita, muito menos eu, que ainda agora comecei…

E tem conseguido conciliar as duas coisas de forma disciplinada? 
Já o faço há alguns anos, mas acho que esse é o meu maior desafio. Como é que todos os dias encontro uma disciplina, uma rotina para que as duas coisas não se atrapalhem, para que nem uma nem outra fiquem prejudicadas. Obviamente que isto é feito com muito sacrifício, mas há tantas pessoas que, por razões financeiras, têm dois empregos e que se dão a eles com afinco… É o que procuro fazer. O meu trabalho como jurista também me ensinou muito esse lado da disciplina. Mas, pronto, são menos horas que se dormem, programas que às vezes ficam adiados, com a família ou com os amigos. Acho que vale a pena. E, na verdade, eu também não conseguiria fazer de outra forma. Preciso disto para um certo bem-estar pessoal e, além do mais, já se tornou uma espécie de vício.

Antes de mais, as explicações sobre o debate mais importante destas legislativas: Luís Montenegro vs André Ventura. Para evitar qualquer contaminação, mesmo que por simpatia, não li, ouvi ou vi qualquer comentário sobre o debate. Ouvi-me apenas a mim próprio.

O que estava em causa naquele debate, e daí a sua importância, não era saber se Luís Montenegro ganharia, mas apenas se poderia ser derrotado por Ventura. Parece confuso, mas é a dinâmica eleitoral. Um é incumbente, e o outro candidata-se ao cargo. A ideia é que o maior esforço tem de ser do desafiador.

A Cruz de Serviços Distintos (a segunda mais importante) foi atribuída, por mérito próprio, a Luís Montenegro. Esteve calmo, não esbracejou, não atropelou ninguém, nem andou com papéis de um lado para o outro. Isso já foi moda. Já não pega. Esclareceu a razão para não ponderar nenhuma aproximação ao Chega — imaturidade e inconfiabilidade — e deu depois uma estocada final: recordou os 16 anos em que André Ventura esteve no PSD e o apoio que lhe deu. E nunca respondeu a qualquer provocação do líder do Chega.

André Ventura bem tentou, mas não conseguiu. Os 16 anos no PSD pesaram, perturbaram e aniquilaram qualquer ideia de ofensiva. A imaturidade e a permanente agitação do líder do Chega, o erro de soberba ao garantir que vai ganhar as eleições e, finalmente, talvez o mais importante, o tratamento deferente que sempre concedeu a Luís Montenegro — referindo-se-lhe constantemente como “Primeiro-Ministro” —, confirmaram, intuitivamente, que Montenegro continuará nesse cargo.

O tiro longo e cuidadosamente preparado por Ventura não chegou a ser disparado. Confirma-se, por isso, que Luís Montenegro descolou com um grande desempenho perante o líder do Chega, que enfrenta ainda outra dificuldade: nunca fala do seu programa e das suas medidas, mas apenas dos outros. Não estará chegada a altura de se saber o que faria André Ventura como Primeiro-Ministro? Apesar de tudo, mereceu a Legião de Honra, pela tentativa de um desempenho excecional. Que nunca aconteceu.

Este debate, pense-se o que se pensar, poderá ter dado a Luís Montenegro uma vitória histórica. E, curiosamente, o último encontro não servirá para definir quem vai ganhar as eleições. Esse tempo já passou.

Ingredientes

4 pessoas

→ 1,5 kg de lulas

→ 100 g de azeite

→ Sal q.b.

→ 32 g de açúcar

→ 20 g de laranja

→ 20 g de limão

→ 400 g de pimento vermelho e amarelo

→ 300 g de cebola-roxa

→ Vinagre branco q.b.

→ Coentros q.b.

→ 4 grãos de pimenta da Jamaica

Preparação

Começar por marinar as lulas com azeite, casca de limão e laranja e pimenta da Jamaica. Preferencialmente deixar as lulas a marinar por seis horas. Colocar numa panela bem tapada e deixar cozinhar lentamente.

Os sucos da lula deverão ser suficientes para manter a cozedura, mas se necessário, adicionamos um pouco de caldo, por exemplo, de legumes. Reservamos sempre o suco da cozedura.

Depois de cozinhada a lula, cortamos em tamanhos irregulares e juntamos cebola-roxa, pimentos vermelhos e amarelos, tudo cortado aos cubos. Usamos um pouco do suco, vinagre branco, coentros picados e retificamos com sal. Está pronto a servir.

Dica: À parte, pode fazer um granizado de coentros e limão.

Juntar 300 g de limão, 32 g de açúcar e 20 g de coentros.

Misturar tudo e levar ao congelador. Depois é só raspar e servir por cima.

Zélia Santos é a primeira mulher a liderar um restaurante do hotel Belmond Reid’s Palace, na ilha da Madeira. Foi, aliás, neste hotel centenário que começou a trabalhar depois de ter estudado na Escola Profissional de Hotelaria e Turismo da Madeira.

O novo restaurante Brisa do Mar, de que é chefe de cozinha, funciona entre abril e outubro. A ementa é portuguesa, indo buscar sabores e ingredientes madeirenses e influências mediterrânicas. Uma comida de conforto e saborosa.

É a chegada a Portugal da marca The Social Hub. Abriu no Porto, no início de março, o vigésimo empreendimento dessa cadeia de “hotelaria híbrida”. Depois disso, já chegou também a Roma, e Carcavelos está na lista para, dentro de alguns meses, ter também o seu Social Hub.

Tudo começou em Roterdão, nos Países Baixos, em 2013, quando aí se inaugurou o The Student Hotel, misturando alojamento para estudantes, quartos de hotel, áreas de coworking e de convívio, bar e restaurante, tudo com um design contemporâneo e cativante. A mudança de nome para Social Hub quis sublinhar a ideia de comunicação com a comunidade e o ambicioso objetivo de contribuir para “uma sociedade melhor.”

Um quarto duplo com vista sobre a cidade. Foto: Lucília Monteiro

A unidade do Porto – que neste momento é o hotel com mais camas disponíveis na cidade – veio apresentar uma novidade que não existe em mais nenhuma das suas congéneres em várias cidades europeias: uma zona com 39 apartamentos (sobretudo da tipologia T1, mas também T2), que se podem alugar por um período de 12 meses.

Bem no centro da cidade, praticamente à frente do Teatro Rivoli e a dois passos do Mercado do Bolhão, dos Aliados e da Câmara Municipal do Porto, e com tantos quartos disponíveis, é surpreendente a calma e a serenidade que se sente em praticamente todos os espaços do Social Hub – o pátio exterior é comum ao complexo do Bonjardim e aberto a toda a gente e no último andar há, claro, um rooftop com vistas largas em várias direções, uma pequena piscina e, em breve, um bar.

Foto: Lucília Monteiro

Talvez as coisas se agitem um pouco mais quando vários estudantes passarem a viver ali (a abertura em março não coincidiu com o início de ano letivo ou semestre universitário). Circulando pelo The Social Hub não demoramos muito a perceber que, de facto, este hotel é muito mais do que um hotel.

A primeira meia perdida

À entrada, a primeira coisa que vemos é um balcão de cafetaria, mas que vende vários produtos, como azeite, compotas e conservas. A receção é um discreto balcão circular logo a seguir, preparado para que os clientes tratem sozinhos do check-in (mas sempre com alguém por perto para ajudar). Mais à frente, vê-se uma original mesa de pingue-pongue toda preta e uma outra de snooker com pano azul. Um hall atípico que tem feito com que, nestes primeiros tempos, alguns transeuntes mais curiosos entrem e perguntem: “Mas, afinal, o que é isto do Social Hub?” A palavra “hotel” não está escrita à porta.

Foto: Lucília Monteiro

E se continuassem a explorar o edifício, perceberiam que é mesmo mais do que um hotel. Tem, por exemplo, uma sala de silêncio, com mesas, cadeiras e livros (mas transparente, com vidros a toda a volta); uma sala multimédia, com um grande ecrã na parede e onde, por exemplo, se pode gravar um podcast com todas as condições; uma cozinha comunitária onde cada um pode cozinhar e guardar a sua comida (os frigoríficos até têm gavetas seguras individuais, que só podem ser abertas com o cartão magnético atribuído a cada hóspede); várias zonas e salas de trabalho; e uma lavandaria com máquinas de lavar e secar e tábuas de engomar que pode ser reservada através de uma aplicação.

A lavandaria com o seu cabide para as meias perdidas. Foto: Lucília Monteiro

Foi aí que, no dia da visita da VISÃO, aconteceu um momento histórico para o The Social Hub do Porto. Uma parede apresenta uma série de cabides por baixo das palavras “lost socks”. Esse misterioso drama das meias perdidas e desirmanadas acontece, já se sabe, em qualquer lugar onde exista uma máquina de lavar… Ali, quando se encontra uma meia perdida, ela é colocada na parede, esperando que o legítimo dono a reencontre. E, pela primeira vez, ali estava uma solitária peúga branca à espera do reencontro.

A ideia de criar um espírito de comunidade subjaz a todo o conceito deste… hotel. Por isso, houve mesmo um “open day” dedicado a todos os vizinhos, locais ou viajantes com curiosidade. E uma das suas funcionárias, a Kika, tem como principal missão encontrar pontes e pontos em comum entre hóspedes, potenciando ligações e, quem sabe, projetos conjuntos.

Um bom sítio para o fazer será o restaurante, com uma porta independente para a Praça D. João I, com uma carta renovada semanalmente, onde há sempre muitos petiscos para partilhar, e ininterruptamente aberto ao longo do dia, sem horários rígidos para almoçar e jantar.

Lugar de trabalho O The Social Hub Porto disponibiliza várias soluções de espaços de trabalho partilhado (coworking), independentes da funcionalidade como hotel. Há secretárias individuais (a partir de €153/mês), pequenos escritórios e a possibilidade de ter um passe diário (€12,50/dia). Ao fim de um mês e meio de abertura, esta zona do Social Hub já tem uma grande taxa de ocupação

The Social Hub Porto > Pç. D. João I, 80, Porto > T. 22 030 0550 > quartos desde €98/noite, alojamento para estudantes desde €777/mês, apartamentos desde €1 100/mês

Quando a polémica em volta da exploração de lítio em Portugal se mantém atual, A Savana e a Montanha, documentário de Paulo Carneiro, estreia-se em sala, dando voz à resistência popular contra as novas minas, concessionadas à empresa britânica Savannah Resources. O filme ganhou grande destaque ao ser selecionado para a Semana dos Realizadores no Festival de Cannes de 2024.

Paulo Carneiro, que já conhecíamos do documentário Bostofrio (2018), não esconde a militância ecológica e sociopolítica do filme neste retrato da comunidade de Covas do Barroso, em Trás-os-Montes. A Savana e a Montanha mostra movimentos organizativos populares que pretendem resistir à destruição da montanha em nome de uma certa ideia de progresso.

Focado no coletivo, mas também em personagens fortes, o estilo de Paulo Carneiro inclina-o para uma certa artificialidade que se distancia de uma ideia mais convencional de documentário. O realizador cria ou recria cenas para expor de forma eficaz as suas ideias, demonstrando grande cumplicidade com os agentes locais. E, de alguma forma, sabe tirar partido disso, incluindo para a banda sonora endógena, que se torna uma das mais-valias do filme.

A Savana e a Montanha > De Paulo Carneiro > 67 min

Os Pink Floyd foram pioneiros e exímios num certo sentido de espetacularidade dada aos concertos, em parte por a sua música psicadélica, com guitarras etéreas, se tornar muito sugestiva para uma componente visual mais ou menos abstrata. O primeiro grande momento de delírio áudio e visual terá sido este At Pompeii, que agora conhece uma nova vida, na cópia restaurada Imax, que pretende proporcionar uma experiência ainda mais imersiva, quase espiritual.

O concerto original ocorreu em 1972, uma fase relativamente inicial da banda inglesa (formada em 1965), mas já na sua segunda formação, após a saída de Syd Barrett. O produtor e realizador Adrian Maben teve a ideia ousada de gravar o concerto nas ruínas do Anfiteatro Romano de Pompeia – a cidade romana cujos habitantes ficaram petrificados depois de atingidos subitamente pela lava do vulcão Vesúvio.

A opção mais surpreendente foi a de gravar o concerto sem público (à exceção da equipa, naturalmente), talvez para fazer o contraste com Woodstock, o filme-concerto mais popular do momento, em que a atenção era dividida entre palco e audiência.

O concerto original inclui apenas sete temas. À parte da introdução original dedicada a Pompeia, constam Echoes, Part 1, Careful with That Axe, Eugene, A Saucerful of Secrets, One of These Days, Set the Controls for the Heart of the Sun, Mademoiselle Nobs e Echoes, Part 2, material correspondente a três álbuns: A Saucerful of Secrets, Ummagumma e Meddle.

À gravação feita, ao longo de quatro dias, no Anfiteatro de Pompeia, acrescentaram-se imagens de estúdio em Paris. E, para uma nova versão do filme, lançada em 1974, a produção achou importante incluir material do álbum mais recente, The Dark Side of the Moon (que se tornou o mais vendido de sempre da banda) e entrevistas aos elementos dos Pink Floyd no emblemático estúdio Abbey Road, em Londres. A versão Imax que chega agora aos cinemas inclui tudo isto, permitindo fruir da música dos Pink Floyd, num dos auges da sua carreira, num cenário mágico e pirotécnico.

Pink Floyd at Pompeii MCMLXXII > De Adrian Maben > 90 min

Regra geral, quando se fala de vinho de Favaios, imediatamente temos tendência a pensar no moscatel que é produzido nesta região do Douro. O nome da vila de Favaios, pertencente ao concelho de Alijó, tornou-se mais famoso no País pelos vinhos fortificados do que propriamente pela povoação em si. E não é para menos.

Fundada em 1952, a Adega de Favaios notabilizou-se na produção de moscatel, não só é o principal produtor deste vinho fortificado na Região Demarcada do Douro, como também o líder no mercado nacional, com uma quota de 52% de todo o moscatel que é produzido em  Portugal. Um dos seus maiores trunfos foi o lançamento da Favaíto, uma pequena garrafa com uma dose individual de moscatel, em 1985. Atualmente, a adega vende por ano, em média, 32 milhões de unidades desta garrafa miniatura de moscatel do Douro, o equivalente a 61% das vendas de moscatel produzido pela cooperativa.

Mas nem sempre foi assim. A produção de vinhos de mesa de Favaios era reconhecida no País na década de 50. Era uma venda a granel que chegava a quase todo o território nacional, principalmente a Lisboa e ao Porto. 

A aposta em vender vinhos em garrafa começou em 1961, mas só em 1974 viria a ganhar expressão com o lançamento de vinhos como Casa Velha Reserva Tinto. Esta decisão nem sempre foi consensual, pois alguns associados defendiam que a adega deveria limitar-se à vinificação e venda a granel, como era comum nas cooperativas em meados do século XX.

Mas os tempos mudam, e hoje, com novas técnicas e muito investimento feito na adega, a chancela Casa Velha continua a lançar os seus vinhos de mesa.

Como explica Miguel Ferreira, diretor de enologia, “o esforço financeiro que a Adega tem realizado nas últimas duas décadas, associado à qualidade das uvas do planalto de Favaios, tem permitido que a cooperativa produza, de forma consistente, brancos de qualidade notável e, mais recentemente, de tintos”.

No ano passado, lançaram dois brancos e um tinto com a chancela Casa Velha: Casa Velha Reserva Branco 2022, Casa Velha Grande Reserva Branco 2022 e Casa Velha Reserva Tinto 2021.

“A nossa marca de referência dos vinhos DOC Douro, Casa Velha, foi criada para valorizar as melhores colheitas de uvas tintas e brancas do planalto de Favaios”, diz Mário Monteiro, presidente da direção da cooperativa.

No ano passado, a Adega de Favaios atingiu uma faturação de 20 milhões de euros, totalizando 7,4 milhões de litros de vinho. Cerca de 10% do volume de negócios é proveniente dos mercados externos. Os seus produtos são comercializados em todos os continentes, num total de 25 países. Os principais são o “mercado da saudade” na Europa, o Brasil, EUA, Canadá, China e Angola.

O moscatel continua a ser rei na Cooperativa de Favaios. Em 2023, existiam 9,5 milhões de litros deste vinho fortificado em envelhecimento na adega.

“Temos sempre dentro de portas o triplo do moscatel que vendemos anualmente. É um investimento no futuro e na qualidade. São estas reservas que nos permitem manter um perfil constante no nosso moscatel clássico. É um selo de segurança e de confiança. É este moscatel que ganha medalhas de ouro”, esclarece Mário Monteiro.

Uma estratégia que faz sentido para acrescentar valor aos vinhos que ali são produzidos. Afinal, são os moscatéis mais envelhecidos, o Reserva e o 10 anos, os mais vendidos e com maiores margens.

A cooperativa comercializa também moscatéis de colheitas específicas, tendo atualmente no mercado edições de 2000, 1999, 1989, 1980 e a comemorativa dos 70 anos da Adega, um lote das sete melhores colheitas de cada década de existência da adega. Possui ainda vinhos fortificados mais antigos que já não estão à venda, nomeadamente de 1964 e 1975.

A par da produção e venda de vinhos, a Adega de Favaios tem a funcionar, desde 2012, um serviço de enoturismo. No total, por ano, visitam a adega e todo o processo de produção cerca de 25 mil pessoas, sendo a grande maioria proveniente dos EUA, Reino Unido e França.

Como os números mostram, em Favaios o moscatel é rei, mas isso não quer dizer que não haja produção de vinhos de mesa de qualidade. E estes três vinhos agora lançados são a prova de que Favaios não se esgota no vinho fortificado.

CASA VELHA GRANDE RESERVA BRANCO 2022

>REGIÃO
Favaios, Douro

>Onde encontrar
Em garrafeiras nacionais, PVP €16

> O vinho
Feito a partir de uvas selecionadas, das castas Viosinho e Gouveio, que juntas representam 90% deste vinho, estagiam 12 meses em barricas de primeiro e segundo ano. Na prova, é um vinho envolvente e cremoso, bem balanceado e que se prolonga na boca.

> Notação
AA

CASA VELHA TINTO RESERVA 2021

>REGIÃO
Favaios, Douro

>Onde encontrar
Nas principais garrafeiras nacionais, PVP €12

> O vinho
Tem uma seleção de três castas tradicionais do Douro: Touriga-Franca, Tinta-Roriz e Touriga-Nacional, e estágio mínimo de 18 meses em barricas de carvalho francês. O resultado é um vinho complexo, com destaques de frutos vermelhos e boa acidez.

> Notação
A


CASA VELHA RESERVA BRANCO 2022

>REGIÃO
Favaios, Douro

>Onde encontrar
Nas principais garrafeiras nacionais, PVP €11

> O vinho
Produzido a partir das castas Viosinho (50%), Gouveio (40%) e Rabigato (10%), é um vinho de cor amarela-citrina, com notas frutais cítricas bem integradas com a madeira

> Notação
A

Criámos uma escala inspirada nas agências de rating. Boas provas!

>  Notação
AAA Fabuloso
AA     Muito bom
A    Bom
BBB    Satisfatório
BB     Mau
C    Não beba!

Palavras-chave:

Já criou sondas para trazer amostras de Marte e testou satélites que orbitam a Terra. Fabrica peças para a indústria aeroespacial e está envolvido num dos projetos mais revolucionários do setor energético. No ano em que o ISQ celebra o seu 60º aniversário, Pedro Matias, presidente da instituição, fala-nos destes e de outros projetos em que a empresa está envolvida.  O gestor olha para 2025 com alguma apreensão, apesar da faturação recorde de 80 milhões conseguida no ano passado. Na sua opinião, a atual situação geopolítica está a provocar algum pessimismo entre os agentes económicos. “O mundo está a adaptar-se a uma nova realidade. Temos de olhar para 2025 com alguma prudência”, alerta.

Apesar da instabilidade internacional que vivemos, Pedro Matias prevê que o ISQ continue a crescer e considera que este momento pode ser uma oportunidade para que a União Europeia possa investir mais em inovação, neste “período de grande disrupção tecnológica”.

O ISQ faz este ano 60 anos. Como resumiria o papel desta instituição na sociedade portuguesa ao longo destas seis décadas?
O grande contributo do ISQ é ter sido um verdadeiro indutor da criação de valor da indústria portuguesa. Ajudamos as empresas e outras entidades, dos mais variados setores, a evoluir e a elevar a sua competência e inovação. Por outro lado, temos também contribuído para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. Nas mais variadas matérias, desde a segurança alimentar à aferição de aparelhos e equipamentos que são usados no dia a dia, passando pela garantia da qualidade dos produtos farmacêuticos, entre muitos outros. O nosso trabalho, apesar de ser pouco percetível pelo comum dos cidadãos, está presente no quotidiano de quase toda a população.

Como correu a atividade em 2024?
O ano começou devagar, mas acelerou na reta final. Atingimos uma faturação de 50 milhões no ISQ e quase 80 milhões no Grupo ISQ, em que consolidamos algumas das empresas participadas. Os resultados líquidos ficaram na ordem dos 4 milhões de euros.

Este crescimento tem sido contínuo nos últimos anos?
Nos últimos oito anos, temos tido uma trajetória consolidada em termos de crescimento, quer em volume de negócios quer de EBITDA, resultados operacionais e resultados líquidos.

E atendendo à instabilidade internacional, essa trajetória irá manter-se este ano?
Enquanto gestor, vejo o ano de 2025 com muita prudência. Em termos geoestratégicos, estamos perante um determinado número de acontecimentos que podem ter um grande impacto na atividade económica mundial. É preciso gerir com muito cuidado. Há vários vetores de preocupação. O mundo está a adaptar-se a esta nova realidade. E esta adaptação poderá demorar um certo tempo. Existe algum pessimismo realista, porque está a acontecer muita coisa ao mesmo tempo.

No entanto, esta instabilidade geopolítica, bem como o maior isolamento das grandes potências, poderá obrigar a Europa a investir mais em inovação, para não ficar tão dependente de terceiros. Isto pode trazer mais trabalho para o ISQ?
Sem dúvida. Assim a União Europeia não continue, como tem sido nos últimos anos, um pouco avessa à inovação.

Pode explicar?
A Europa está obrigada a dar um salto tecnológico, de forma a não perder terreno para a China ou para os EUA. Basta olhar para o exemplo do setor automóvel. E esta é uma grande oportunidade, porque estamos num período de grande disrupção tecnológica. As empresas vão ter de aproveitar esta evolução. Desde a Inteligência Artificial, passando pelas energias renováveis, a transformação digital, entre outros fatores.

A Inteligência Artificial está a tornar-se uma ferramenta fundamental para esta disrupção?
O que estamos a notar é que a evolução futura será muito mais rápida. A Inteligência Artificial já existe há muitos anos, mas até agora as coisas andaram devagar. Hoje, existem mecanismos, que já estão a ter aplicação prática, que irão encurtar os períodos de evolução. Acho que dentro de dois a três anos, o salto será significativo.

Qual o investimento previsto, para este ano, em investigação e desenvolvimento?
Cerca de 10 milhões de euros. Será um investimento muito alavancado no PRR, porque nós estamos em dez agendas mobilizadoras deste programa.

Ao longo dos últimos anos, o ISQ tem tido uma grande aposta na internacionalização. Estão em quantos países?
Neste momento, temos atividade em 14. O número de países onde estamos tem-se mantido, mas a atividade além-fronteiras tem crescido muito. E o Brasil é talvez o melhor exemplo. Hoje em dia, temos 380 pessoas naquele país. E passámos de uma para quatro delegações: Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Pará.

Este crescimento no Brasil deve-se a alguma razão em especial?
Por um lado, é um país que está com muita atividade e, por outro, é tradicionalmente um mercado fechado, um pouco avesso a empresas de fora. Mas, como nós estamos lá há 25 anos, somos vistos quase como sendo uma empresa brasileira. Estamos a colher os frutos do reconhecimento da marca, que é quase um selo de qualidade.

Qual o peso que o Brasil já tem no volume de negócios do ISQ?
Já representa cerca de 12% da nossa faturação.

E quais os setores de atividade que mais vos procuram no Brasil?
Sobretudo o setor mineiro, as celuloses e a energia. Ultimamente, estamos muito na área do ambiente e da sustentabilidade. As empresas brasileiras começam a estar muito atentas às políticas ESG [sigla de Environmental, Social and Governance].

A componente ESG tem assim tanto impacto nas empresas?
Sim. E não há volta a dar. As empresas não vivem sem clientes, sem trabalhadores e sem financiadores. E, hoje em dia, estes três elementos exigem a mesma coisa: boas práticas. Os clientes querem saber se os produtos que compram obedecem a políticas de sustentabilidade. O mesmo acontece com os trabalhadores. Nas entrevistas de emprego, muitos candidatos já perguntam qual a pegada ecológica da empresa e o que ela está a fazer em prol do desenvolvimento sustentável. E, por fim, os financiadores. As empresas não vivem sem eles, e atualmente, para se conseguir taxas de juro mais baixas, quer seja através de green bonds ou de outro tipo de financiamento verde, as empresas têm de seguir, e provar que seguem, essas práticas.

Ainda é difícil recrutar mão de obra especializada em Portugal?
Diria que está mais fácil agora. Nos últimos dois ou três anos, o mercado esteve muito concorrido e era difícil recrutar, sobretudo em setores especializados como o nosso, em que a concorrência é global. A retração na Europa, bem como noutros países, está a inverter um pouco essa tendência. Estamos a ter mais oferta de emprego.

Quantos funcionários tem o ISQ?
No total, somos 1800, dos quais cerca de mil estão em Portugal.

No final deste ano, irá completar o seu terceiro mandato como presidente do ISQ. Qual o balanço que faz destes nove anos de atividade?
O primeiro mandato foi de reestruturação e implementação de um plano estratégico. No segundo, começámos a desenvolver novas atividades e a apostar em novos mercados e serviços. Lançámos as sementes. Agora, estamos na fase em que podemos crescer mais. Temos a casa arrumada e as sementes a brotar.

Ou seja, está aberto à possibilidade de exercer um quarto mandato?
O meu objetivo é participar com os outros colaboradores para fazer crescer esta casa. Eu sou apenas uma peça entre várias. Sinto uma grande motivação para continuar este trabalho. E estamos numa fase em que podemos fazer muitas coisas.

O que é que ainda pretende fazer no ISQ que não conseguiu ao longo destes anos?
Nós já alcançámos grande parte daquilo a que nos propusemos. Chegamos a mais setores, entramos em novos mercados e acrescentamos cada vez mais valor. O desafio agora é criar escala e continuarmos a inovar. Os clientes têm cada vez mais desafios e temos de conseguir dar resposta e criar novas soluções para esses desafios. 

Os vossos clientes pedem-vos, muitas vezes, para resolver um problema?
Sim. Nós desenvolvemos muito trabalho à medida das necessidades dos clientes, para resolver problemas específicos que vão surgindo. Somos desafiados a fazer algo para o qual ainda não existe solução.

Pode dar um exemplo?
Estamos a desenvolver um robô, para consertar avarias nos tubos de extração de petróleo, que poderá ser uma verdadeira revolução nesta indústria. O projeto já está numa fase muito adiantada e, se resultar, teremos uma nova solução da qual poderá sair um novo negócio. Foi uma resposta a um desafio lançado pela Galp e pela Petrobras.

E como funciona esse robô?
Os tubos de extração de petróleo em alto-mar vão a quatro ou cinco quilómetros de profundidade, o que os sujeita a uma enorme pressão. Devido à elevada pressão, a água consegue, por vezes, penetrar nas paredes do tubo, o que inviabiliza a extração de petróleo. Quando isto acontece, os tubos têm de ser retirados e depois montados outra vez. Isto acarreta custos enormes. Cada metro destes tubos custa cerca de mil dólares e a operação de retirar e voltar a instalar os tubos é caríssima. Com este robô, que pode ser acoplado ao exterior do tubo, conseguimos através de um mecanismo de ultrassons detetar qualquer fissura e resolver o problema antes de ele existir.

Se o projeto resultar, qual será o passo seguinte? Farão dele um novo negócio?
Temos várias opções. Podemos prestar esse serviço ou criar uma nova empresa especializada neste tipo de operações, tal como fizemos com a Deep Focus. Aliás, temos várias empresas no Grupo ISQ que resultaram de spin offs de soluções que criámos.

Como nasceu a Deep Focus?
Foi um projeto de investigação e desenvolvimento, concebido por nós, que resultou na criação de um algoritmo que faz o tratamento de informação, recolhida por satélites, para identificar determinados tipos de metais raros no fundo dos oceanos. A Deep Focus foi criada em 2023 e já está a trabalhar para empresas de mineração em alto-mar.

Qual a grande diferença para o sistema atual de pesquisa no fundo do mar?
Isto vai ser uma revolução a nível mundial. Hoje em dia, este processo é feito através de navios de grande porte, com sistemas de varrimento sísmico. Demoram cerca de seis meses para mapearem 20 quilómetros quadrados. Através de satélites, conseguimos todos os dados em apenas dois ou três minutos. Depois, o nosso algoritmo diz-nos o que se encontra num determinado local. 

Essa é uma atividade que está em expansão?
A mineração no fundo do mar será muito importante para o desenvolvimento tecnológico, devido à grande procura dos chamados metais raros, indispensáveis na indústria de baterias e de outros componentes modernos.

Mas a mineração no fundo do mar está a ser muito contestada pelos ambientalistas, devido à destruição que provoca de corais e fauna marinha…
Mas este nosso processo tem uma grande vantagem a esse nível. Porque estas empresas, em vez de andarem a recolher tudo no fundo do mar, com o nosso sistema passarão a minerar apenas no local exato. O impacto ambiental será muito menor.

Também estavam muito envolvidos na área de manufatura aditiva [impressão de peças de metal em 3D]. Como está esse processo?
Tem havido muita evolução, porque muitas empresas vão ter a tendência de integrar cada vez mais a manufatura aditiva nas suas linhas de produção, ou seja, as peças metálicas são feitas na própria empresa através de uma impressora 3D. E, desta forma, as fábricas evitam a cadeia logística, reduzindo substancialmente o impacto ambiental gerado pelo transporte destas peças. Aliás, já criámos uma empresa de manufatura aditiva na China, que resultou de um spin off de uma atividade que tínhamos desenvolvido para o setor aeroespacial. Essa empresa imprime peças metálicas 3D na própria linha de montagem dos satélites e dos foguetes chineses.

Por falar em espaço e em satélites, estão também envolvidos na agenda News Space?
Sim. É um consórcio de entidades que vão desenvolver três constelações de satélites, cada uma com as suas características. Nós estamos a trabalhar na fase de testes e validação dos satélites.

Este projeto obrigou a um grande investimento?
Tivemos de comprar equipamentos para fazer testes de resistência dos materiais a satélites de grandes dimensões, bem como câmaras para os estudos de compatibilidade eletromagnética e câmaras de termovácuo, que simulam, na Terra, o ambiente que estes aparelhos vão ter no Espaço. No entanto, este trabalho e este equipamento irão posicionar-nos num outro patamar neste setor. Ficamos com capacidade e com competências para poder exportar este serviço. E se há setor que tem estado em grande crescimento é o do Espaço. A procura por este tipo de serviços tem sido enorme.

Estão também a participar no desenvolvimento do reator de fusão nuclear, um dos projetos que poderão revolucionar a indústria energética mundial. Como estão a correr os trabalhos?
Assinámos um contrato de 14 milhões de euros para continuar a fazer este trabalho. Temos equipas permanentes no local. É um projeto que ainda está no início, mas acreditamos que irá chegar a bom porto. É um protótipo de algo que nunca foi feito. É uma inovação radical e que será necessária para o consumo de energia que se prevê para o futuro.

Mas é um projeto que ainda está muito no início?
Creio que dentro de 15 anos teremos um grande avanço nesta tecnologia. E, num horizonte de 50 anos, poderemos ter em nossas casas reatores destes, que funcionarão como microgeradores, com a dimensão de um eletrodoméstico, que terão capacidade de produzir toda a energia necessária para o consumo doméstico.

Qual a dimensão deste protótipo que está a ser construído?
Para ter uma perspetiva, ocupa uma área semelhante à do Centro Comercial Colombo. É uma máquina gigante com especificações técnicas muito complexas.

E quais são as vossas funções neste projeto?
Estamos a trabalhar no controlo de qualidade da soldadura das partes do coração do reator. É uma obra de grande responsabilidade, porque tudo terá de estar perfeito. Quando começar a trabalhar, o aparelho já não pode ser aberto para reparação, por isso não pode ter qualquer tipo de falhas.

Da órbita da Terra ao fundo do mar

O ISQ tem estado envolvido em alguns dos projetos mais inovadores a nível internacional

>  Energia Inesgotável

O reator de fusão nuclear que está a ser desenvolvido no Sul de França, numa área de 180 hectares, poderá criar energia limpa de uma forma quase inesgotável. Os cientistas chamam-lhe o “pequeno sol na Terra”.

Este é um projeto de longo prazo, que apenas terá resultados dentro de uma ou duas décadas, mas poderá resolver os problemas de energia do planeta, numa altura em que se prevê que o consumo de eletricidade disparará de uma forma exponencial devido à grande implementação de centros de dados para a Inteligência Artificial em todo o mundo, bem como ao avanço da mobilidade elétrica. 

O ISQ é um dos parceiros deste projeto e tem equipas permanentes no local responsáveis pela qualidade das soldaduras do interior do reator. Um trabalho que terá de ficar 100% perfeito, porque, assim que o reator for fechado, já não pode ser aberto para reparações.

Segundo os especialistas, apesar de ser nuclear, a fusão é mais eficiente e menos perigosa do que a fissão nuclear que é usada hoje em dia para gerar energia. A fusão ocorre quando dois átomos colidem para formar um átomo mais pesado, como, por exemplo, a fusão de dois átomos de hidrogénio para formar um de hélio. É, na prática, o mesmo processo que alimenta o Sol. Gera muito mais energia do que a fusão e não produz resíduos altamente radioativos como acontece com a fissão nuclear.

>  Teste de satélites

É uma das áreas em que o ISQ mais vai investir nos próximos anos, cerca de 10 milhões de euros, só em 2025, mas abre, para a empresa portuguesa, as portas de um novo negócio que está em plena expansão em todo o mundo. O ISQ faz testes de satélites desde 2008, mas, até 2024, cingia-se apenas à certificação dos subsistemas que os compunham. No ano passado, começou a fazer os testes a todos os componentes, desde as vibrações que os aparelhos irão suportar às condições de termovácuo em ambiente espacial ‒ temperatura, pressão e radiação absorvida pelas superfícies do satélite ‒ e compatibilidade eletromagnética.

>  Ver mais longe

O telescópio mais poderoso até hoje criado, o European Extremely Large Telescope (ELT), conta com tecnologia e soluções desenvolvidas em Portugal. Situado no deserto do Atacama, Norte do Chile, deverá entrar em funcionamento já em 2028, conseguindo obter quinze vezes mais luz do que o maior telescópio atualmente em funcionamento.

Este poderoso aparelho terá uma redoma com um diâmetro de 88 metros e um peso total de 6 100 toneladas. O “olho” do telescópio, com uma área de quase 40 metros quadrados, é composto por 798 favos, ou seja, espelhos hexagonais com pouco mais de um metro, nos quais o ISQ está a desenvolver o seu trabalho.

Este potente aparelho será capaz de obter imagens de exoplanetas rochosos e caracterizar as suas atmosferas, bem como medir diretamente a aceleração da expansão do Universo.

> Vasculhar os Oceanos

O ISQ desenvolveu um algoritmo que consegue analisar toda a informação obtida pelos satélites e, com base no tratamento dessa informação, determinar onde existem metais raros no fundo dos oceanos.

O êxito deste desenvolvimento foi tal, que o ISQ criou uma empresa autónoma apenas para prestar este serviço, a Deep Focus. Atualmente, esta pesquisa é feita através de grandes navios que fazem o rastreio submarino com ultrassons. Contudo, este é um processo lento, pois cada navio necessita de seis meses para mapear uma área de 20 quilómetros quadrados. O algoritmo faz o mesmo trabalho em poucos minutos.

Com a grande expansão da atividade de exploração do fundo do mar para minerar metais raros indispensáveis para o fabrico de baterias e outros componentes da sociedade moderna, o Deep Focus tem cada vez mais clientes internacionais.

Do ponto de vista ambiental, o método usado por esta empresa consegue não só a poupança de combustível pelos navios de prospeção como também evita uma maior destruição da fauna e flora do fundo do mar, pois é bastante mais preciso na localização destes metais.

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Pelo menos nove pessoas morreram quando um carro avançou sobre uma multidão em Vancouver, quando decorria um festival para celebrar a cultura filipina. O condutor, um homem de 30 anos, cuja motivação ainda não é conhecida, está sob custódia policial depois de ter sido detido pelos presentes no local.

Além dos nove mortos, há vários feridos, em número ainda por apurar.

“Um suspeito isolado, do sexo masculino, com um veículo, atravessou um evento comunitário com muita gente que estava a ocorrer aqui perto. Esse homem foi detido no local pela multidão. Tratava-se de um evento da comunidade filipina. A multidão chamou imediatamente a polícia. De seguida, detivemos o indivíduo, que se encontra agora sob a nossa custódia”, explicou, aos jornalistas, o chefe da polícia de Vancouver, Steve Rai.

O suspeito, que já era conhecido das autoridades por “determinadas circunstâncias”, não especificadas, terá, segundo o jornal Vancouver Sun, citado pela agência de notícias espanhola Efe, problemas de saúde mental.

O atropelamento ocorreu pouco depois das 20h00 locais de sábado (04h00 em Lisboa) na zona de Sunset on Fraser.

O XADREZ E A POLÍTICA

Alfonso X, o Papa Leão XIII, Ivan o Terrível, o Rei Eduardo I, Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, Napoleão, Karl Marx, Lenine, Ernesto “Che” Guevara, Fidel Castro, Jimmy Carter – todos eles gostavam de jogar xadrez. É verdade, estou de facto a saltar para o mundo da política, uma área em que a omnipresença do xadrez é fortemente sentida.

Benjamin Franklin, um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos, foi também um dos primeiros políticos a escrever sobre xadrez. No seu curto ensaio de 1786 intitulado The Morals of Chess, sublinhou que o xadrez é mais do que um divertimento ocioso: “Várias qualidades muito valiosas do espírito, úteis no curso da vida humana, são adquiridas ou reforçadas por ele, de modo a tornarem-se hábitos, prontas para todas as situações.”

Em certa ocasião, Franklin usou o xadrez como desculpa para as suas manobras. Em dezembro de 1774, no período da rebelião dos líderes coloniais britânicos separatistas que em breve desencadeariam a Revolução Americana, encontrou-se diversas vezes com Caroline Howe, irmã do Almirante Richard Howe e do General William Howe. Os dois irmãos tornar-se-iam mais tarde comandantes das forças navais e terrestres britânicas durante a Guerra Revolucionária Americana, mas então ainda simpatizavam um tanto com a causa americana. Franklin jogava xadrez com a Senhora Howe, mas esses encontros eram também para ele uma oportunidade de se encontrar com o Richard, um dos irmãos dela, e debater maneiras possíveis de conciliar o Congresso Continental e as Treze Colónias.

O grande duelo O jogo de xadrez mais célebre de sempre foi recriado no filme O Prodígio, de 2014. Na Islândia, no contexto da Guerra Fria, o russo Boris Spassky (em baixo à dir.) foi desafiado pelo excêntrico americano Bobby Fischer (esq.)

Franklin era um fanático, mas, entre os políticos, Che Guevara era o maior amante de xadrez deles todos. Em rapaz, o pai levou-o às Olimpíadas de Xadrez de Buenos Aires, em 1939, onde Che viu o grande [José Raúl] Capablanca, se interessou por Cuba, e contraiu a febre do xadrez. Mais tarde chamaria ao xadrez “mi segunda novia” [a minha segunda namorada]. Che e Fidel Castro jogavam xadrez para matar o tempo enquanto estiveram presos no México, e, depois da revolução, no seu papel de ministro da Indústria, Che começou a promover o xadrez. Assegurou-se de que Cuba estava representada na Olimpíada de Xadrez de Leipzig, em 1960, e lançou um torneio local de equipas.

O mais significativo legado xadrezista do Che foi ter estabelecido em Havana o Memorial Capablanca anual, que ainda hoje se celebra. Nos primeiros anos, muitos grandes mestres de primeira ordem, soviéticos e europeus, participaram nessa competição, visto que o prémio pecuniário era mais alto do que em muitos outros torneios. Calculo que tenha contribuído para isso que Che fosse ao mesmo tempo ministro da Indústria e diretor do Banco Nacional. Ele e Castro foram visitas diárias no torneio inaugural de 1962 no Hotel Habana Libre, e ambos participaram em exibições simultâneas contra alguns dos grandes mestres visitantes. (Nesta velha tradição, um jogador forte joga simultaneamente contra múltiplos adversários amadores. Enquanto o especialista anda de mesa em mesa, os adversários têm de fazer a sua jogada quando o profissional chega ao tabuleiro deles.)

O Che teve uma influência duradoura no xadrez em Cuba. Durante décadas foi o país latino-americano mais forte em xadrez, só recentemente ultrapassado pelo Brasil e pelo Peru. Quando visitei Cuba em fevereiro de 2016, o amor pelo xadrez ainda era reconhecível. Fiquei surpreendido ao ver um dos principais clubes de xadrez, a Academia de Xadrez, situada no coração de Santiago de Cuba, num prédio mesmo ao lado da catedral e do Parque Céspedes. E, é claro, joguei com alguns dos jogadores de rua, enfrentando forte oposição. Diz um velho ditado que qualquer motorista de táxi russo é um jogador temível. Eu penso que em Cuba todos os condutores de carros clássicos sabem jogar xadrez.

Um dos participantes no torneio do Memorial Capablanca foi um Bobby Fischer de 22 anos. O futuro campeão do mundo, no entanto, jogou sem viajar a Cuba. Devido às tensas relações diplomáticas com os EUA, Fischer não foi autorizado a lá ir, mas os organizadores encontraram uma solução. Em vez disso, jogou no Clube de Xadrez Marshall de Nova Iorque, com as suas jogadas transmitidas a Havana por telex. Tanto o futuro campeão do mundo como os seus adversários em Cuba estavam sentados defronte de cadeiras vazias, recebendo dos árbitros os movimentos dos adversários. Quando Castro, diz-se, chamou a essa notável construção uma “vitória propagandística de Cuba”, Fischer enviou um telegrama que exigia que o líder cubano deixasse de o usar para fins políticos. Na sua resposta, Fidel negou ter feito alguma vez tal declaração e questionou a coragem de Fischer, depois do que Fischer decidiu evitar mais turbulência e limitar-se a disputar o torneio.

Depois de Fischer se ter qualificado para o Campeonato Mundial de 1972, o Presidente Nixon escreveu uma carta a dizer que o país inteiro o apoiava. No entanto, o jogo esteve para não acontecer. Um Fischer casmurro não aceitou as condições iniciais nem a localização (Reiquiavique, Islândia) e continuou a protestar, principalmente a respeito das combinações financeiras. Na cerimónia de abertura no sábado, 1 de julho, a primeira fila tinha um assento vazio visto que Fischer ainda não tinha chegado a Reiquiavique. Uma das coisas que convenceram Fischer a jogar foi que James Slater, um banqueiro de investimento bem-sucedido e amante do xadrez, doou 125 mil dólares para duplicar o prémio até 250 mil dólares. Outra, foi um famigerado telefonema.

Pep e Magnus A marca desportiva Puma juntou, em 2023, o treinador Pep Guardiola com o ex-campeão do mundo de xadrez Magnus Carlsen, que conversaram sobre as semelhanças entre o futebol e o milenar jogo de tabuleiro

Quando Fischer levantou o telefone, na segunda-feira, 3 de julho, quem estava do outro lado era nada menos do que Henry Kissinger, Conselheiro Nacional de Segurança de Nixon e futuro Secretário de Estado. É costume dizer-se que as primeiras palavras de Kissinger foram estas: “Daqui fala o pior jogador de xadrez do mundo para falar com o melhor jogador do mundo.” Kissinger apontou-lhe que aquele match era necessário ao prestígio dos EUA e que Fischer devia disputá-lo. Nessa noite, Fischer apanhou um avião para Reiquiavique. No seu livro de 2011, On China, Kissinger voltou ao jogo de xadrez ao explicar as diferenças entre as estratégias políticas ocidental e chinesa recorrendo à comparação entre o xadrez e o wéiqí (Go). Inventado na China há cerca de 2 500 anos, o Go é ainda mais antigo do que o xadrez e ainda mais complexo. Joga-se numa grelha de 19 por 19, os jogadores têm 180 pedras cada um e revezam-se em pô-las numa das 361 interseções da grelha. Depois de assim colocadas, as pedras não podem deslocar-se, mas podem ser capturadas quando cercadas pelas pedras do adversário. Kissinger observou: “Enquanto o xadrez é sobre uma batalha decisiva, o wéiqí trata de uma campanha prolongada. O jogador de xadrez visa a vitória total. O jogador de wéiqí procura vantagens relativas. No xadrez, o jogador tem sempre em conta a capacidade do jogador defronte dele; todas as peças estão completamente dispostas. O jogador de wéiqí precisa de não só avaliar as peças no tabuleiro, mas também os reforços que o adversário está em condições de utilizar.”

A localização do duelo Fischer-Spassky ficava – o que não era totalmente sem significado – justamente a meio caminho entre os EUA e a União Soviética. Estava-se no auge da Guerra Fria e o match podia facilmente ser visto como um combate simbólico entre o Ocidente capitalista e o Leste comunista, um ponto que os media não perdiam de vista. Em retrospetiva, tudo isto deve ser tomado com um grão de sal, ou seja, com alguma cautela. Spassky não era um indefetível patriota soviético como alguns dos seus colegas, enquanto o comportamento errático e às vezes desagradável de Fischer também não o tornava um representante perfeito do seu país. Além disso, aos mais altos níveis diplomáticos, os EUA e a Rússia não estavam propriamente a esfregar as mãos na expectativa de um recontro militar – talvez para eles o match fosse uma maneira melhor, mais pacífica, de lutar, como sugerira na antiga Índia o sábio Qaflān. A política é uma área que forneceu várias expressões xadrezistas à nossa linguagem. As mais comuns são: “xeque-mate”; uma entidade menor designada como mero “peão” num jogo maior; e um “empate” político. Mas há mais.

Richard Stengel, antigo secretário de Estado na administração Obama, editor na revista Time, analista político na estação MSNBC e autor de um livro de 2019 intitulado Information Wars, publicou no verão de 2024 um tweet a respeito de o Governador do Minnesota, Tim Walz, se ter tornado candidato a vice-presidente de Kamala Harris: “Fala americano, não Washington. É questão de biografia, não de ideologia. Ele é o epítome da americanidade normal, o oposto de esquisito. É uma jogada de xadrez, não de damas, e é uma boa jogada.” Há numerosos exemplos mais, mas gosto particularmente deste a seguir, da antiga Conselheira de Estado Aung San Suu Kyi, pouco após o seu partido Liga Nacional pela Democracia ter vencido as eleições de 2015 [na Birmânia]: “Se olharmos para o processo democrático como um jogo de xadrez, tem de haver muitos, muitos, lances até se chegar ao xeque-mate. E só porque não se faz xeque-mate em três jogadas não quer dizer que há um empate. Há uma grande diferença entre não fazer xeque-mate e um empate. É isto que é o processo democrático.” Um político que não deve ser referido na mesma frase em que se menciona o xadrez – pelo menos no que diz respeito a Garry Kasparov – é Vladimir Putin. Reformado como jogador de xadrez desde 2005, Kasparov é um feroz opositor do líder russo, e numa entrevista ao Der Spiegel, em 2015, proclamou: “Putin é mais um jogador de póquer. No póquer, diferentemente do xadrez, pode-se, com efeito, compensar uma mão fraca fazendo bluff. No xadrez há regras fixas e ninguém sabe como vai acabar o jogo. As coisas são o contrário nos domínios de Putin.”

Che, a lenda Entre os grandes políticos mundiais, Che Guevara era o maior amante de xadrez. Este selo cubano destaca essa sua faceta

Há muito que a política russa está profundamente entrelaçada com o xadrez. Deve notar-se que o xadrez já era bastante popular no grande império russo (que incluía partes da atual Polónia e os países bálticos), de onde surgiram grandes nomes como Mikhail Chigorin, Alexander Alekhine, Aron Nimzowitsch e Akiba Rubinstein. Depois da revolução de 1917, o jogo passou a ser um meio de propaganda para os bolcheviques, cujos líderes Vladimir Lenine, Leon Trotsky e Nikolai Krylenko eram todos jogadores de xadrez. Em 1935 e 1936 realizaram-se em Moscovo torneios luxuosos para mostrar ao mundo que na Rússia os grandes mestres eram tratados como reis. Quando a URSS bateu os Estados Unidos por grande margem num match por rádio em 1945, Estaline cumprimentou a sua equipa. O Estado soviético apoiou fortemente o ensino do xadrez a fim de criar os melhores jogadores do mundo, demonstrando assim a inteligência e a sofisticação do povo soviético. Entre 1995 e 2018, a Federação Internacional de Xadrez (FIDE) foi dirigida pelo excêntrico oligarca russo Kirsan Ilyumzhinov, também presidente da República da Calmúquia da Federação Russa, de 1993 a 2010. O mundo do xadrez lembra-se dele principalmente pelos seus laços de amizade com líderes duvidosos como Saddam Hussein, Muammar Gaddafi e Bashar al-Assad, pela sua afirmação de ter sido raptado por extraterrestres, e pelo alegado envolvimento da sua administração no assassinato de um jornalista em 1998, embora não haja provas disso.

Arkady Dvorkovich, antigo vice-primeiro-ministro e antigo assessor do Presidente da Federação Russa, sucedeu a Ilyumzhinov em 2018. Aos olhos das federações de xadrez ocidentais, especialmente, a presidência de Dvorkovich tornou-se problemática quando a Rússia invadiu a Ucrânia em fevereiro de 2022. Dvorkovich, porém, foi reeleito em agosto de 2022 para um segundo mandato. Em dezembro de 2023, a FIDE votou pela abolição do limite de dois mandatos na presidência, uma medida de “boas práticas” introduzida pelo próprio Dvorkovich depois de a anunciar durante a sua campanha de 2018. Depois desta notável reviravolta de 180 graus, não se espera que a forte influência russa (do Kremlin?) no mundo do xadrez esteja perto de acabar.

O XADREZ E O DESPORTO

Num vídeo promocional produzido pela Puma em dezembro de 2023, Magnus Carlsen e o treinador de futebol Pep Guardiola conversaram sobre as semelhanças entre o xadrez e o futebol. Carlsen observou que os jogos são comparáveis, dizendo: “Tanto no xadrez como no futebol, o importante é controlar o meio-campo, aí está, portanto, uma coisa. Quem controla o meio-campo controla o terreno de jogo ou o tabuleiro. Outra coisa é que no xadrez muitas vezes atacamos num lado, forçamos o adversário a sobrecarregar esse lado e depois mudamos de lado e temos vantagem sobre o adversário em termos de espaço. É notavelmente parecido.”

Guardiola partilha o interesse pelo xadrez com os seus colegas treinadores Quique Setién e Felix Magath e jogadores do passado e do presente que incluem Edgar Davids, Harry Kane, Christian Pulisic, Mo Salah e Dani Olmo. Fãs do xadrez noutros desportos incluem Steve Davis (bilhar), Boris Becker, Daniil Medvedev, Andrey Rublev, Carlos Alcaraz (ténis), Kareem Abdul-Jabbar, Klay Thompson, Jaylen Brown, Victor Wembanyama (basquetebol), Charles Leclerc, Carlos Sainz, Mick Schumacher (Fórmula 1), John Urschel, Chidobe Awuzie (futebol americano) e Ravichandran Ashwin (cricket). Talvez não seja coincidência que o desporto que se diz ser mais parecido com o xadrez seja aquele em que possivelmente haja o maior número destes entusiastas: o pugilismo.

Lennox Lewis, três vezes campeão de pesos pesados, é fã do xadrez e ensinou a sua equipa de canto a jogar. Os irmãos ucranianos Vitali e Wladimir Klitschko, que acumulam 40 combates vitoriosos na luta pelo título mundial de pesos pesados, também gostam muito de jogar xadrez, o que é também o caso de Manny Pacquiao, Anthony Joshua e os lutadores de MMA Conor McGregor e Aljamain Sterling. Como os seus colegas, Lewis disse que usava o xadrez para se “manter mentalmente aguçado” quando, por exemplo, estava a treinar para a “Batalha de Titãs” de 2003 contra Vitali Klitschko, que comentou antes do combate: “Primeiro venço Lewis no tabuleiro de xadrez e depois encontramo-nos no ringue.” No fim, foi Lewis quem ganhou por KO técnico.

Casablanca e 2001, Odisseia no Espaço Dois clássicos da história do cinema com protagonistas que não dispensam o tabuleiro de xadrez – no caso do filme de ficção científica, antecipando os atuais iPads

Já agora, a propósito, sabiam que existe o chessboxing? Já tem havido pessoas a jogar xadrez penduradas num paraquedas ou enquanto tomam banho num lago de água gélida; portanto, pôr um tabuleiro e peças num ringue de boxe talvez não seja uma grande maluqueira. No fim de contas, estamos a lidar com outra confrontação entre duas pessoas em que é peça-chave a antecipação dos movimentos do opositor. Funciona como segue: os dois competidores, razoavelmente treinados em ambas as disciplinas, jogam alternadamente rondas de boxe e de xadrez até alguém ganhar por KO ou xeque-mate (ou se o tempo do adversário se esgotar).

Estive presente, por acaso, na primeira competição oficial da modalidade, em 14 de novembro de 2003, montada pela Organização Mundial de Chess Boxing (WCBO) em Paradiso, Amesterdão, entre Luis, o Advogado (Jean-Louis Veenstra) e Iepe, o Joker (Iepe Rubingh). Este último ganhou quando o seu opositor perdeu em tempo tendo uma posição ganhadora. Rubingh, o principal organizador do evento principal, era um artista conceptual holandês que infelizmente morreu em 2020, com 45 anos de idade. A história do chessboxing remonta até ainda mais longe: surgiu em 1979, no filme de kung-fu Mystery of Chess Boxing, de Joseph Kuo (em que se joga o xadrez chinês, xiangqi) a que a banda Wu-Tang Clan se referia na sua canção de 1993 Da Mystery of Chessboxin.

Em 11 de dezembro de 2022, o chessboxing encontrou-se outra vez debaixo dos holofotes quando o popular youtuber Ludwig Ahgren organizou o Campeonato Mogul de Chessboxing. Doze dos maiores criadores de conteúdos no YouTube e no Twitch, todos com um interesse no xadrez, subiram para o ringue perante dez mil fãs no Galen Centre de Los Angeles e 558 mil espectadores online, que tiveram direito aos comentários de Levy Rozman, do campeão mundial de chessboxing Matt Thomas, e do próprio Ludwig. O grande mestre Aman Hambleton ganhou o embate entre os especialistas em xadrez batendo o mestre internacional Lawrence Trent com um KO técnico.

(…) O filósofo e documentarista britânico David Edmonds descreve assim este desporto no BBC News Magazine: “Associar xadrez e boxe parece uma coisa muito estranha, mas eles têm algo em comum. Um é um duelo muitas vezes caracterizado pela sua crueldade, impiedade e violência. E o boxe é muito parecido.”

O XADREZ E O GRANDE ECRÃ

(…) A cena de xadrez do filme de Stanley Kubrick 2001: Odisseia no Espaço, de 1968, é altamente simbólica. Neste que é um dos maiores e mais influentes filmes de ficção científica alguma vez feitos, vemos o Dr. Frank Poole, um dos pilotos da nave espacial Discovery One rumo a Júpiter, a jogar xadrez com o computador de bordo HAL 9000. Frank joga num tabuleiro com as peças em duas dimensões num ecrã que se assemelha a um iPad. Não tem qualquer hipótese contra este computador do futuro. Depois de Frank se resignar ao inevitável e deitar a toalha ao chão, HAL diz: “Obrigado por um jogo muito agradável.” Irritantemente, o computador não só é imbatível, mostrando que é capaz da mais pura forma de intelecto humano, mas também se parece a um ser humano. Examinaremos mais de perto o xadrez e a Inteligência Artificial na segunda parte deste livro.

Que Kubrick usasse o xadrez neste filme não foi surpreendente: era um amante do xadrez desde sempre. Em adolescente, era fácil vê-lo a jogar a dinheiro no Central Park ou na Washington Square de Nova Iorque, ou até nos torneios do Clube de Xadrez Marshall, em Greenwich Village. Kubrick também incluiu cenas de xadrez no seu filme de 1956 Roubo no Hipódromo, e até em Lolita (1962), embora essas cenas não fizessem parte do livro de Nabokov, outro amante do xadrez.

Kubrick também era conhecido por jogar xadrez, às vezes, nos intervalos das filmagens. Como Adam Feinstein escreveu na revista New in Chess, durante a rodagem de 2001, Kubrick jogou muitas partidas com o físico americano Jeremy Bernstein no Hotel Dorchester de Londres. Bernstein lembra-se de Kubrick como um verdadeiro trapaceiro: “Chegámos, finalmente, ao 25º jogo e ficou combinado que seria esse a decidir a questão. Bem entrado o jogo, ele teve um lance que eu tive a certeza que o faria perder. Até se agarrou à barriga para mostrar como aquilo o incomodava. Mas era uma armadilha e fui prontamente arrasado. ‘O que você não sabia é que eu também sou capaz de representar’, observou ele.”

Entre os muitos atores de Hollywood amantes do xadrez (como Marlon Brando, Jane Fonda, Laurence Fishburne, Robin Williams, Susan Sarandon, Arnold Schwarzenegger, Ben Affleck, Matt Damon, Rami Malek e Viola Davis, para referir apenas alguns deles), o mais fanático e talvez melhor jogador era Humphrey Bogart. Antes da sua carreira de ator (e assim como Kubrick), Bogart convencia adversários a jogar com ele por pequenas somas nos parques de Nova Iorque e em Coney Island. Bogart tinha sido diretor de torneios, teve papel ativo na Associação de Xadrez do Estado da Califórnia e visitava com frequência o clube de xadrez de Hollywood. Chegou mesmo, em 1952, a levar a um empate o grande mestre de classe internacional Samuel Reshevsky, numa exibição coletiva em Beverly Hills.

Não é por acaso que vemos Bogart defronte de um tabuleiro de xadrez em Casablanca (1942), muito embora não fizesse parte do guião original. O filme húngaro de 2018, Curtiz, baseado na feitura de Casablanca, pelo realizador Michael Curtiz, forneceu uma explicação interessante: Bogart não sabia o que fazer às mãos nas cenas em que estava sentado e a falar, de modo que sugeriu que usassem um tabuleiro de xadrez. Colocou ele as peças na posição de um jogo por correspondência que estava a jogar. Dado que Curtiz concordou, encontramos o xadrez a fazer parte de um dos mais famosos filmes de sempre.

O LIVRO

A Revolução no Xadrez – O Poder de um Jogo Antigo na Era Digital, de Peter Doggers (Dom Quixote, 456 págs., €22,90), mostra como o xadrez, inventado há mais de 1 500 anos, conhece hoje uma popularidade e uma relevância crescentes. A internet, que possibilita partidas entre jogadores de todo o mundo a cada instante, teve uma grande responsabilidade nesse sucesso

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