Após a década de oitenta, em que João Paulo II, Papa de origem polaca, se notabilizou como uma das peças importantes no fim da chamada Guerra Fria, o final desse pontificado e o seguinte, com Bento XVI, foi uma longa fase de significativa irrelevância do Vaticano no mundo da geopolítica, apenas terminada com Francisco, quando este voltou a colocar o papado como central em muitas das questões internacionais.
Este é, podemos afirmar, o maior perigo da herança de Francisco, claramente reconhecida com uma imensa visibilidade mediática e um lugar muito forte na criação de opiniões. Isento, liberto, dos ónus de um normal Estado, Francisco conseguiu ser uma voz ouvida e tida em conta no palco internacional. Não seria qualquer pessoa a dizer a Trump, em 2016, ainda ele era candidato ao primeiro mandato, “uma pessoa que quer construir muros e não pontes não é cristã”.
Com estas e outras frases, Donald Trump compreendeu o peso da função papal na construção de consciências e de opinião, tendo o Papa Francisco dado corpo a muitas posições que colidiam com as políticas, sejam as migratórias, sejam as morais e familiares.
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Alavancado pela tradicional posição conservadora do catolicismo norte-americano, Trump encontrou nesse eleitorado um importante complemento à sua base social, e religiosa, de apoio, juntando os católicos conservadores aos evangélicos pentecostais.
Chegados ao segundo mandato de Trump, e com Francisco em franca debilidade física, o Presidente dos EUA nomeou em dezembro último Brian Burch, presidente e cofundador da CatholicVote, uma plataforma de arregimentação de votos em Donald Trump, como Embaixador dos EUA no Vaticano. Aliás, importa notar que Brian Burch tem sido, ao longo do pontificado de Francisco, uma das vozes mais sonantes nos EUA contra as posições de Francisco, especialmente no que respeita aos divorciados, aos homossexuais e à comunidade LGBTQIA+ e, em especial, às suas posições migratórias.
Mais do que um reconhecimento pelo voto católico, a nomeação de Brian Burch foi uma preparação para o final do pontificado de Francisco e, sobretudo, para o dia seguinte em que, notemos, não é de estranhar que Trump, apesar de ter sido acusado por Francisco de não ser cristão, tenha sido o primeiro Chefe de Estado a confirmar a sua presença nas cerimónias fúnebres de Francisco, como se fosse para ele uma figura marcante. E é-o, mas ao nível da comunicação. Trump precisa de agarrar o lugar de Francisco para deixar de ter uma voz dissonante que lhe faça escapar o eleitorado católico.
Para Trump, o candidato natural a futuro Papa é Raymond Burke, cardeal que fez a sua carreira colado a Bento XVI, nomeado por este para prefeito do principal tribunal do Vaticano, o Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, em 2008, tendo sido feito cardeal em 2010. Burke, que por várias vezes desvalorizou os escândalos sexuais no seio da Igreja Católica, entrou em clara perda com Francisco, quando foi retirado do Dicastério para os Bispos, logo em 2013, e da presidência do tribunal, no ano seguinte. Aliás, foi Burke que, sobre a encíclica Amoris Laetitia, afirmou que poderia haver a necessidade de “corrigir formalmente” o Papa Francisco.
Neste quadro, não é de estranhar o investimento de Trump na sua deslocação a Roma. Burke está, em quase todas as “casas de apostas”, como um dos mais bem posicionados cardeais para ascender ao trono de Pedro. Com o cardeal norte-americano no lugar cimeiro do Vaticano, Trump contaria com um apoio forte, tal como o próprio Burke o apoiara nas anteriores eleições.
A corrida está ao rubro, e Trump tem uma aposta forte.
O Jornal foi, além de tudo o mais, a concretização de uma espécie de sonho só realizável pela anterior concretização de um outro sonho ainda muito maior: o 25 de Abril e com ele a conquista da liberdade. Os jornalistas dignos desse nome foram vítimas diretas da instituição que, com a polícia política, constituiu o principal suporte da tirania: a censura à Imprensa. Abolida esta e todas as limitações à liberdade, embora surgindo problemas decorrentes de uma demagógica conceção de intervenção direta nos conteúdos jornalísticos dos trabalhadores não jornalistas das respetivas empresas, num clima propício a ousar a realização do antes impossível ou mesmo utópico, era chegado o momento: fazer um jornal que fosse propriedade dos próprios jornalistas. O que pressupunha constituir uma empresa que lhes pertencesse, forma de garantir a sua total autonomia e independência de qualquer poder. Foi isto que se visou, e conseguiu, com a constituição da Projornal para editar O Jornal – e logo se veria que mais
O texto antecedente, de Luís Almeida Martins (LAM), conta, factualmente, como foi. A opção por uma sociedade por quotas, e não uma cooperativa, deveu-se só a razões de operacionalidade. Houve quem comparasse o que se fez ao então mais avançado exemplo para garantir os direitos dos jornalistas: a “sociedade de redatores” do Le Monde. Mas pertencer a empresa aos seus jornalistas representou ir muito mais longe, foi único – e não só em Portugal…
Essa liberdade inteira de tentar fazer um jornalismo criativo, inovador, independente, num jornal concebido e dirigido, em todas as vertentes, só por nós, terá sido o que mais nos uniu. Sendo um posicionamento cívico democrático, inequivocamente comprometido com a Revolução de Abril um natural pressuposto (e havendo notória diversidade de posições políticas dos fundadores, nenhum tinha filiação partidária).
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Adiante, O Jornal está na rua. E é um êxito. Começando com um grafismo muito austero, vai evoluindo para manchetes com grandes títulos que em plena agitação revolucionária dão muito que falar. Com especial talento para os fazer, o Manuel Beça Múrias, um excelente jornalista e repórter. Como o Joaquim Letria, que logo no n.º 3 nos dá uma bela reportagem em Moçambique e uma entrevista com o alto-comissário, almirante Vítor Crespo. Este nº 3 de O Jornal é, aliás, exemplo de qualidade, diversidade e pluralismo: na página 2 temos uma entrevista com Otelo Saraiva de Carvalho e um texto de João de Freitas Branco sobre cultura; na página 3 uma crónica de José Gomes Ferreira sobre o Congresso de Escritores, e um artigo de Marcelo Rebelo de Sousa sobre a Constituinte; e ainda a coluna, os Cadernos, de Fernando Namora. À frente, além do mais, um texto meu a defender “a unidade do essencial” no interior do MFA e das forças políticas progressistas – defesa que foi uma constante d’O Jornal, inclusive nas tais manchetes de capa –, e o cartoon do João Abel Manta.
João Abel era, com os seus extraordinários desenhos, uma das nossas marcas distintivas. Fazia-os para o Diário de Notícias quando eu estava na sua direção – e para a chefia de redação levei o Beça e o Silva Pinto, importantes primeiros impulsionadores do projeto d’O Jornal, e o Silva Costa, que nele entraria mais tarde. Pedi ao João Abel, e nem era preciso pedir, mudou-se connosco, como o Namora, o Zé Gomes e outros, a que viriam juntar-se o Abelaira, os Eduardos, Lourenço e Prado Coelho, e muitos mais: a qualidade e a diversidade de colunistas e cronistas sempre caracterizou O Jornal, como mais tarde a VISÃO.
A informação e a opinião do “jornal de jornalistas”, aberto e atento a todos os partidos, mas considerado mais próximo do MFA, desde o início foi influente e teve um generalizado reconhecimento. Também desde logo nos distinguimos por, de par com o semanário, ou como sua extensão, publicarmos uma série de Cadernos O Jornal, em formato e papel de revista, por exemplo, com entrevistas aos principais dirigentes do MFA e dos partidos. E alguns Guias, como o sobre as eleições legislativas de 1976.
Já em 1981 apareceram as Edições O Jornal, em que publicámos dezenas de grandes escritores (ver texto de LAM). Ao fim de 17 anos sem publicar, o José Cardoso Pires tinha um novo romance, achei que era ótimo para começarmos: com A Balada da Praia dos Cães, que venceu, por unanimidade do júri, o regressado Grande Prémio da APE, num ano de excelente produção literária, incluindo Memorial do Convento, de José Saramago. Ao lado da ficção e da poesia criámos outras coleções, de crónicas, reportagens, memórias, autobiografias, documentos, ensaios. Além de abrir três livrarias, duas em Lisboa e uma em Coimbra.
Nesse mesmo ano de 1981 começou a sair o JL, a quem davam seis meses de vida e ainda hoje “resiste”. Antes já lançáramos outras novas publicações – tudo diferente e nosso, isto é, não eram “licença” em Portugal de um título estrangeiro. Com destaque para o Se7e, que chegou a ser recordista de vendas; que aquando do então muito popular Festival da Canção reunia para o comentar um avultado número de conhecidos artista e jornalistas – jurados s também dos prémios que atribuía, os Setes d’Ouro. E a sua primeira “festa” encheu o Campo Pequeno, um assinalável êxito, com atuações do brasileiro Paulinho da Viola e de um novo grupo português que aí se lançou: os Trovante.
Neste domínio das iniciativas destaco, inovadoras e singulares, duas séries de Conferências Democráticas de O Jornal, ambas viradas para o futuro do País: Portugal, Anos 80 – O Quê, e Portugal, Horizonte Anos 2000. Nelas tiveram as intervenções de fundo os presidentes Mário Soares e Jorge Sampaio, e os principais líderes partidários – além de Soares, nas primeiras, Sousa Franco (quando substituiu Sá Carneiro), Álvaro Cunhal e Freitas do Amaral. Realizaram-se nos Teatros Roma e S. Luiz, repletos, inclusive nos corredores, com gente de pé ou sentada no chão – e entre esta, ainda de bigode, vê-se numa foto o então dirigente do PS, hoje secretário-geral da ONU, António Guterres… As Relações Portugal-África foram tema também de um alargado debate que promovemos entre estudiosos e políticos.
Por esta breve memória de parte do que fizemos se perceberá porque a partir de certa altura tivesse passado a falar de um “projeto jornalístico, cívico e cultural”. De facto, além da Projornal/O Jornal ter sido, desde o 25 de Abril até, pelo menos, os primeiros anos da década de 1980 o mais dinâmico e inovador grupo de comunicação social, distinguiu-se por essa tripla dimensão.
Dimensão durante muitos anos bem visível nas páginas do próprio jornal, mormente nos dias “escaldantes” do PREC e na transição dos anos 70 para os 80. Fizemos uma cobertura única de vários importantes acontecimentos – graças também, além dos já referidos, a magníficos jornalistas/repórteres como Cáceres Monteiro, de escrita absolutamente ímpar como Fernando Assis Pacheco, contadores de histórias como Afonso Praça, etc., etc. O Jornal de 1980, o ano das eleições presidenciais Ramalho Eanes-Soares Carneiro, é um exemplo de seriedade, profundidade e isenção informativa, por um lado, sem prejuízo de, por outro, ao nível opinativo – e nesse caso até em editorial: independência não é neutralidade – de considerar melhor para o País um dos candidatos, Eanes. E sem prejuízo de, mesmo ao nível opinativo, se praticar o pluralismo: por exemplo, um artigo de página inteira de apoio a Soares Carneiro, do Adelino Amaro da Costa, nº 2 do CDS e nosso colaborador de sempre.
Decerto não por acaso foi nesse ano que ultrapassámos o Expresso e passámos a ser, segundo a Marktest, o jornal português (semanal ou diário) de maior expansão. A evolução posterior conheceu várias fases e sofreu, designadamente, as consequências de o poder do dinheiro ter voltado a ser cada vez mais determinante/dominante na comunicação social. E nós, grupo de O Jornal, propriedade de jornalistas, tendo êxito e sendo rentável, mas nunca tendo tido uma gestão empresarial especializada, não devíamos nem queríamos dever nada a ninguém, mas não tínhamos “dinheiro” para os investimentos necessários para novos projetos. Entre eles destaco os de um diário “popular”, tabloide, mas não de crimes e escândalos, e um diário de referência, O Mundo, antes da existência de O Público: tivemos registado o título e assegurado o exclusivo de Le Monde.
É certo que bastante longe do apogeu e perante uma “concorrência” mais forte, ainda que não numa perspetiva apenas jornalística, mas, repito, sem dívidas; com metade da TSF-Rádio Jornal, que fundámos com uma cooperativa de profissionais, e mais duas estações de rádio, no Porto e em Lisboa; em segunda posição, após o grupo de Pinto Balsemão, no projeto inicial, uma sociedade em cascata, do que seria a SIC; com sete “instalações”, mais de 2000 m², na Avenida da Liberdade e na paralela Rodrigues Sampaio, o que nesse tempo de “trespasses” representava um avultado valor – decidiu-se procurar um parceiro que tivesse dinheiro, know-how, mormente em gestão e tecnologia, e respeitasse a continuação da nossa autonomia editorial.
Daí para a frente é toda uma outra longa, e por vezes não linear, história. Para o que agora interessa, além do que LAM escreve atrás, recordo que, quando fomos a Lausanne falar com ele, o Pierre Lamunière nos disse que rádio e televisão é coisa que não queriam. Quanto ao que pretendíamos fazer na imprensa, depois veríamos. Acabaram, embora sempre amigos e simpáticos, por arrastar, impedindo que se fizesse alguma coisa – exceto, no final, um diário popular, mas nada correspondente ao projeto que eu apresentara, como diretor de edições (só transitório, forçado, presidente da administração…). Diário que foi o flop que levou à venda do belo edifício da Praça do Marquês de Pombal, o “centro” de Lisboa, e à associação da Edipress com os grupos Impresa e Abril.
Bom, mas quanto a O Jornal houve convergência/concordância entre os suíços e nós para o transformar, ou melhor: substituir, por uma revista. Que mantivesse os valores profissionais, éticos e deontológicos, de O Jornal, mas com uma nítida modernização, renovação de quadros (houve uma espécie de concurso, com 650 candidatos iniciais), grande campanha de lançamento e de assinaturas. O lançamento mostrou o geral reconhecimento do que O Jornal representou e o respeito que por ele se mantinha, e mostrou a esperança/confiança no que a VISÃO seria. De facto, estiveram presentes praticamente todas as principais figuras do Estado, a começar pelo Presidente Mário Soares, e das diversas forças políticas. Além de escritores, artistas, sindicalistas, empresários – por exemplo, Amália Rodrigues e Jorge Amado, o que muito impressionou os nossos amigos suíços.
Um jornal que sabe acabar assim é porque tem visão, como se escreveu. E hoje, quando se assinalam os 50 anos de O Jornal, creio que se pode e deve dizer, com propriedade: felizmente há VISÃO. E espero, desejo, que continue a haver.
Com pompa e circunstância, Sam Altman anunciou, em março passado, que a Open AI tinha desenvolvido um novo modelo de LLM (os sistemas de Inteligência Artificial que permitem o ChatGPT e seus concorrentes) capaz de criar uma obra literária. O conto foi publicado e, de facto, não é mais uma pequena história criada pelo ChatGPT ao estilo de Shakespeare ou de outro autor de renome.
Sam Altman preferiu, no entanto, omitir como tal foi possível. Os bastidores são demasiado controversos, eticamente dúbios e envoltos numa batalha legal, que ofuscaria o brilhantismo tecnológico e nos poria a todos bastante ansiosos com o impacto de mais este avanço tecnológico.
No episódio I dos Ciber Piratas, tentei explicar como as Big Tech enriqueceram com base num modelo de negócio que, vendendo a nossa atenção aos comerciantes, pelo caminho transformou a forma como consumimos notícias, afetou a sustentabilidade do jornalismo, tornou as sociedades polarizadas e menos democráticas.
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Na sequela desta saga, onde os protagonistas são os mesmos, os ganhos… e as perdas são ainda mais elevados.
As Big Tech estão a treinar os LLM com obras intelectuais – livros, artigos – sem pagarem qualquer quantia pelo uso dos mesmos. Para tal utilizam bibliotecas online ilegais, com livros e artigos pirateados. Nos Estados Unidos da América já por duas vezes a Library Genesis (LibGen) foi condenada em milhões de dólares e o seu encerramento ordenado. No entanto, não só não é possível identificar quem são os proprietários do site (e por isso as multas permanecem por pagar), como rapidamente abrem noutro endereço. Muitos continuam a utilizá-la, indiferentes ou inconscientes de serem cúmplices num crime.
Não apenas obras escritas são utilizadas ilegalmente, mas também outras criações artísticas, como música, obras de arte gráficas e plásticas.
Embora o prazo de proteção do direito de autor varie de país para país (regra geral, entre os 50 e os 100 anos após a morte do autor), a legislação foi pensada em termos de direito de reprodução – no caso da obra escrita e de música – ou de partilha da valorização económica da obra, no caso das artes plásticas, onde o preço inicial não reflete a posterior valorização, fruto do reconhecimento público do génio artístico.
Uma primeira ação judicial contra a Meta, a OpenAI, a Microsoft, a Anthropic (e outros) foi interposta pela Authors Guild, nos Estados Unidos da América. Dos documentos apresentados em tribunal já é evidente que a Meta utilizou a LibGen.
Mas não se trata apenas de uma remuneração pelo trabalho/génio artístico, a questão é mais vasta. A corrida para os LLM atingirem a inteligência genérica, como se de um humano se tratasse, está em marcha. Tal permitirá substituir grande parte do trabalho intelectual e criativo. O assalto não é apenas ao nosso passado coletivo, é ao nosso futuro como sociedade.
Importa, por isso, que a decisão de utilizar e de como utilizar a inteligência genérica não seja exclusivamente tomada pelos donos das Big Tech, mas sim por nós, através dos nossos representantes eleitos.
Ao contrário do que nos repetem incessantemente, dispor de uma tecnologia não nos obriga a utilizá-la, quando o consideramos eticamente condenável ou tememos o impacto na sociedade. É hoje tecnicamente possível clonar seres humanos, mas a legislação proíbe tal prática. Estamos à beira de clonar a inteligência humana, pelo que se impõe discutir se tal é eticamente legítimo e deve ou não ser permitido pela legislação. Impõe-se uma discussão alargada dos riscos envolvidos e medidas de mitigação, sobretudo em termos de impacto no mundo do trabalho. Urge tornar este tema dominante na agenda política, nacional e europeia. Só tal permitirá uma reação atempada das instituições democráticas, guiada pelo bem comum.
O senhor Muhammad, da mercearia da esquina, estava a vender fiado e corri para lá para me safar na fruta e na comida para o cão. A minha amiga Ainhoa abriu as portas de casa para outros pais e mães que, no seu fogão a gás, conseguiram fazer o jantar dos filhos. O meu vizinho Vinícius recuperou um antigo rádio a pilhas, que pôs na varanda para todos podermos ouvir as notícias. Outra vizinha, a Maria João, desceu um andar e foi fazer companhia, ao serão, à senhora idosa que estava sozinha e aflita com os seus medos da escuridão.
Imigrantes, portugueses, filhos aqui do bairro histórico no centro de Lisboa ou vindos do Interior do País para ganhar a vida na capital, não importa, todos de carne e osso com coração a bater, num sentido de comunidade que não se perde, dando informações e instruções aos turistas finalmente libertos dos tuk-tuks.
Durou umas horas até voltarmos todos a carregar as baterias dos telemóveis, a ligar as televisões e as playstations, mas não vamos falar aqui da beleza deste revivalismo comunitário e de outra época, com as crianças a brincar nos jardins e os vizinhos à conversa no vão de escada dos prédios – são saudosismos inconsequentes. Logo esquecidos, como se viu no pós-pandemia Covid-19.
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Mas há situações que não deviam ficar esquecidas. Se na grande distribuição, vulgo hipermercados, houve portas abertas, com produtos como velas, água, leite ou enlatados a voarem das prateleiras (não fosse acontecer o apocalipse), com sistemas de pagamento por multibanco a funcionar, os supermercados de bairro, pertencentes às mesmas grandes cadeias de distribuição, fecharam as portas, mesmo para pagamentos a dinheiro, sem qualquer responsabilidade social para com as populações. É caso para perguntar: o que fizeram aos frescos?
Ainda numa dimensão social, a romantização dessa vida desconectada – que só tem lugar porque dura umas horas – ignora aqueles que vivem meses e meses sem luz ou água, nas barracas ou noutro tipo de alojamento, os que se debatem para pagar as contas, os que se aquecem no inverno com camadas de mantas porque o aquecimento das casas se torna uma impossibilidade aos preços atuais. Não há nada de romântico aqui, exceto na versão “brincar aos pobrezinhos” enquanto não se reinstala a normalidade, com posts no Facebook, palmas, foguetes e gritos de emoção, depois de umas poucas horas de desorientação.
Não são só as correntes comunitárias e de vizinhança que importam na hora da aflição. Importa também saber o que andaram a fazer os nossos eleitos numa área que não se revela apenas importante, mas sem a qual já não sabemos viver. Podemos contar com o Estado?
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, diz que sim, garantindo que, “apesar de todas as adversidades resultantes de uma crise inédita, os serviços essenciais mantiveram-se em funcionamento e o Estado revelou capacidade de resposta”, adiantando que “sabemos que foi o aumento dessa tensão [na rede elétrica espanhola] que terá feito disparar os mecanismos de segurança que levaram a este apagão”.
Sem qualquer resquício de nacionalismo bafiento, antes como um país integrado numa União Europeia, convém perguntar: Porque dependemos tanto da rede elétrica espanhola? Vimos o antigo ministro da Indústria e da Energia, Luís Mira Amaral, proferir críticas contundentes à nossa produção energética, mais por inação do que por incapacidade.
“Deixemo-nos de conversas de que somos os maiores do mundo na transição energética. Temos de facto condições espetaculares, mas depois, do ponto de vista técnico, falhamos rotundamente”, apontou. Os nossos geradores estão parados e é mais confortável – e vantajoso – importar energia de Espanha, acrescentou, na SIC Notícias. Até ao dia em que um apagão nos mostra as mazelas da dependência.
A resiliência das redes nacionais de comunicações, de emergência médica e de segurança foi posta em causa pelo apagão da rede elétrica ocorrido às 11h33 de segunda-feira, 28. O corte no fornecimento de energia paralisou transportes, hospitais, escolas e outros serviços durante quase 11 horas. Só ao início da noite é que a Grande Lisboa e o Grande Porto voltaram à normalidade.
No momento do apagão, Portugal estava a importar de Espanha cerca de um terço da eletricidade consumida no País, estimada em cerca de 8 GW, algo que acontece frequentemente quando se torna mais barato recorrer à produção do país vizinho. De acordo com a REN, a empresa gestora das redes energéticas, os quase 0,6 GW que permaneceram ligados após o apagão, que afetou cerca de 93% do território, estavam a ser fornecidos por centrais a gás, de biomassa e hídricas.
As oscilações de tensão na rede espanhola, causadas pelo “desaparecimento” inesperado de 15 GW de energia num espaço de apenas cinco segundos, provocaram de forma quase automática a paragem de várias centrais em Portugal. As causas não estavam totalmente esclarecidas no momento do fecho desta edição, mas os indícios apontavam para a existência de perdas na geração de energia de origem solar. Há muito que os peritos avisam que o aumento da produção de renováveis coloca pressão ao nível da segurança do abastecimento, exigindo maior investimento na modernização das redes às empresas gestoras, como a REN portuguesa e a Red Eléctrica espanhola.
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Por cá, o que se passou a seguir é conhecido. O recurso à central hídrica de Castelo de Bode e à central a gás da Tapada do Outeiro (centrais de black start, com capacidade de reiniciarem a partir do zero a geração e a distribuição de energia após um apagão) garantiu a “eficácia” do restabelecimento da rede elétrica, mas não a “rapidez” do procedimento, o que levou o Governo a anunciar a extensão dessa função na Tapada do Outeiro até 2030, assim como a inserção no sistema de mais duas centrais hídricas, do Alqueva e do Baixo Sabor.
Contudo, é no reforço das interligações com o resto da Europa que assentam os conselhos dos especialistas, de forma a reduzir a dependência do país vizinho. Mais linhas criam mais redundâncias, evitando as sobrecargas do sistema que podem levar aos cortes, ao mesmo tempo que permitem vias alternativas de importação de eletricidade.
Outros cortes
Apesar do corte de energia nas antenas de comunicações, as três grandes operadoras móveis – Meo, Nos e Vodafone – mantiveram as redes em funcionamento durante o apagão, embora com fortes constrangimentos sentidos pelos clientes que foram afetados pelas limitações em serviços como os dados móveis de 5G.
A rede de emergência médica também acusou falhas, registando um pico de uma centena de chamadas desligadas por volta das 14h de segunda-feira. O acionamento dos veículos de emergência registou atrasos, em “consequência das falhas registadas nas infraestruturas de comunicação nacionais”. A normalização do serviço, com o restabelecimento gradual do acesso às comunicações móveis, à internet e à rede SIRESP, só foi possível às 23h20.
Com ou sem apagão, as falhas na rede de emergência e segurança SIRESP não são uma novidade. “Andamos há décadas a falar do SIRESP e o SIRESP teve falhas”, admitiu o ministro das Infraestruturas, Pinto Luz, sublinhando a urgência de “pensar na resiliência das infraestruturas” em Portugal.
Nada teria sido diferente se as centrais de carvão estivessem em funcionamento, não só devido aos preços muito mais baixos da eletricidade verde no mercado grossista, no momento do apagão, como pelo tempo que demoraria a fazer arrancar as termoelétricas, garante Pedro Amaral Jorge. O presidente da APREN sublinha ainda que a interligação do sistema elétrico europeu é precisamente o que lhe dá resiliência e lembra a importância de apostar em renováveis para assegurar a soberania energética, num mundo cada vez mais imprevisível. E garante também que a discussão sobre ter um sistema energético público ou privado é estéril. “Qual é o interesse dos privados em não ter um bom funcionamento do sistema elétrico? Receber reclamações do regulador, pagar penalidades por não cumprir os níveis de qualidade de serviço?”
O apagão teve alguma coisa que ver com as renováveis? Não, nada. A única coisa que se sabe é que há uma queda abrupta da frequência que faz com que se desligue um conjunto de centros geradores, mas não há qualquer nexo de causalidade direto. Dizer que o apagão tem qualquer responsabilidade por parte das renováveis é falso.
O jornal El Mundo dizia que o apagão se deveu a um desencontro entre a produção e o consumo, na sequência de uma perda de geração superior à que era possível compensar… Sim, não está é definida qual a origem da perda de geração. Já ouvi dizer que foi uma central de carvão em Málaga… Neste momento, toda a gente está a puxar das suas bandeiras para tentar alocar responsabilidades. O facto é este: há uma queda de frequência no sistema elétrico. Isso normalmente indica que há uma quebra de geração, e isso é Física, não há nada a fazer. Onde é que essa geração foi quebrada? Que central é que o provocou? Isso não está identificado ainda.
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Uma das acusações que têm sido feitas por deputados, nomeadamente do Chega… Aquela declaração do Pedro Frazão ontem [segunda-feira, dia do apagão] na Assembleia da República não tem qualquer razão de ser. Aquilo é populismo e oportunismo.
Então o encerramento das centrais de carvão não contribuiu para o problema, como tem sido dito por alguns políticos? Não aumenta o risco de uma coisa destas acontecer? Não. Vamos só pensar no que disseram se nós não tivéssemos descomissionado as centrais. As centrais de carvão, para estarem a operar no mercado ibérico, têm de ter preço para vender eletricidade. Ora, se olharmos para o preço do carvão e para as licenças do CO2, no momento em que este incidente aconteceu, o mercado elétrico grossista teria impedido qualquer central de carvão em Portugal de operar, porque ninguém estava a dar-lhe preço para isso.
Ou seja, estaria muito mais caro. Sim, e não poderíamos nunca recorrer a uma central de carvão, porque precisávamos, no mínimo, de 12 horas para a pôr a funcionar, e isto aconteceu em dois segundos.
As críticas ao facto de termos um mercado elétrico comum com Espanha fazem sentido? Não. Um dos grandes elementos da competitividade da União Europeia é precisamente termos um sistema elétrico interligado no espaço da UE e em todas as zonas síncronas. Isso torna a UE muito mais resiliente. O número de apagões na UE face aos Estados Unidos é para aí de um para dez ou de um para 50. É raríssimo uma situação destas acontecer no espaço europeu, porque há um rigor elevadíssimo na gestão do sistema elétrico. Estamos isentos de ter uma falha? Não, não estamos. E esta é uma representação desse problema. Não podemos esquecer-nos de que hoje temos consumos muito mais variáveis, e permanentemente, na rede elétrica. Eu ligo um carro elétrico, desligo um carro elétrico, tenho equipamentos informáticos… O perfil da carga elétrica ou do consumo que temos na rede é completamente diferente do que era há 15 ou 20 anos, quando tínhamos as centrais convencionais, unidimensionais em geração. Pensar no carvão para resolver o problema é como pensar no martelo para fazer uma cirurgia.
As interligações com França podem minimizar o risco? O aumento das interligações da Península Ibérica com França representam o aumento da estabilidade do sistema elétrico. Mas, como sabemos, a Península Ibérica tem, em grande parte dos dias do ano, preços de eletricidade mais baratos do que França. Portanto, França não tem nenhum interesse em aumentar as interligações, porque estaríamos também a escoar eletricidade a preços mais competitivos. O aumento da união elétrica é um dos desígnios do novo programa da Comissão Europeia, o Clean Industrial Deal e o Plano de Ação para Energia a Preços Acessíveis. Dos três desígnios principais desses dois documentos energéticos, um é o aumento da interligação entre o sistema elétrico europeu, para aumentar a resiliência do seu sistema energético.
E há a questão da soberania energética… Nos últimos três meses, desde que a Administração Trump tomou posse, temos estado a assistir a uma esquizofrenia geopolítica. Agora temos tarifas, agora não, agora aumentamos os preços, agora anexamos a Gronelândia, afinal não… Nós vamos ficar com um problema bélico nas mãos – na guerra com a Rússia, teremos a Europa a interceder pela Ucrânia sem o apoio dos Estados Unidos – e agora achamos que a solução para o nosso problema, em termos de soberania energética, é continuarmos a comprar gás natural aos EUA ou aos Estados autocráticos, que não nos dão nenhuma segurança de abastecimento?! Não, a única solução no espaço europeu, para controlarmos a competitividade da nossa economia, é termos soberania energética, e ter soberania energética só é possível com renováveis em espaço europeu. E, se calhar, nuclear daqui a 30 anos, mas no momento não é solução…
Dizer que antigamente é que era bom e com as renováveis é mau, no fundo, são desabafos, uma tentativade confundir a opinião pública
O autoconsumo pode ajudar a resolver estes problemas? As pessoas com painéis e baterias solares puderam continuar a fazer a sua vida normal? O autoconsumo ajuda-me a abastecer a energia elétrica de que preciso em casa. Ou seja, vou continuar a lavar roupa, a ter o frigorífico a funcionar… Mas não tenho internet, não tenho água, não tenho saneamento, nada disso existe, porque esses serviços não estão condicionados a eu ter autoconsumo ou não. O autoconsumo ajuda e é bem-vindo, porque ajuda a equilibrar o sistema elétrico, mas não resolve outros acessos.
Face ao aproveitamento político de quem aponta o dedo à “agenda verde”, teme que este apagão possa emperrar a transição energética? O aproveitamento destes agentes políticos serve para pôr em cima da mesa uma agenda que não é nova em Portugal e que nada tem que ver com a realidade e com a agenda da Comissão Europeia. Dizer que antigamente é que era bom e com as renováveis é mau, no fundo, são desabafos, uma tentativa de confundir a opinião pública. Na realidade, toda a resiliência do sistema energético europeu e toda a independência e a segurança energéticas em termos geopolíticos assentam nas renováveis. Até mesmo na implementação do Readiness 2030: vamos fazer este programa de rearmamento da UE com recurso a quê? Energia nuclear comprada à Rússia? Gás natural comprado aos EUA? Demonstra ignorância relativamente à análise do quadro geopolítico, não é? Obviamente que vai haver aproveitamento, sim, mas o aproveitamento é, no fundo, só para desacreditar os dois partidos políticos que sempre defenderam que o caminho da transição energética é irreversível. E para Portugal é irreversível, a menos que o País saia da União Europeia.
Do outro lado do sistema político, nomeadamente do PCP, o apagão também tem sido usado para atacar a privatização do sistema energético… O facto de ser público ou privado não implica que tenha melhor ou pior gestão. Há entidades públicas com funcionamento excecional e entidades privadas com funcionamento péssimo, e há entidades privadas com funcionamento excecional e entidades públicas com funcionamento péssimo. Não é o ser público ou privado que determina a qualidade do funcionamento. Essa especulação de que nós temos um problema porque privatizámos… Quem determinou o unbundling [desagregação] do sistema elétrico foi a Comissão Europeia e a União Europeia. Nós tínhamos um sistema verticalizado integrado e tivemos de o desacoplar, ou seja, ter geração, transmissão, distribuição e comercialização separadas em quatro atividades económicas. Não vejo onde é que o facto de ser privatizado… Quer dizer, qual é o interesse dos privados em não ter um bom funcionamento do sistema elétrico? Só se for público é que interessa ter um bom funcionamento do sistema elétrico? Os privados querem o quê, receber reclamações do regulador, pagar penalidades por não cumprir os níveis de qualidade de serviço? Isso não faz sentido nenhum…
Luís Montenegro estava na residência oficial, em São Bento, quando a luz falhou, às 11h33. Meia hora depois, o ministro da Presidência, António Leitão Amaro, fazia a primeira comunicação oficial, já tentando desvalorizar a possibilidade colocada, minutos antes, pelo ministro Castro Almeida de que o apagão tivesse sido provocado por um ciberataque. A ordem de Montenegro era para que todos os ministros se reunissem em São Bento, onde foi montado um gabinete de crise. “Estamos a trabalhar, juntos, para responder atempadamente à falha elétrica que ainda está a afetar o País”, escreveu Montenegro num post partilhado no Instagram, ilustrado com imagens da sala onde os ministros iam tentando comunicar com as áreas da sua tutela. Foi a única comunicação que o primeiro-ministro fez nas suas redes sociais durante as horas do apagão. Nem o Instagram nem a rede social X foram usados para dar informações ou instruções à população.
Com o responsável pela coordenação da comunicação no Governo, Pedro Esteves, totalmente dedicado à campanha eleitoral (é o diretor de campanha da AD), a fragilidade na comunicação ficou evidente. Várias horas sem informações atualizadas, redes sociais oficiais para comunicar que o Governo estava a trabalhar, mas sem orientações específicas e até um atropelo entre Leitão Amaro e Castro Almeida que Montenegro trataria de desvalorizar no dia seguinte.
Tudo parado Prateleiras vazias nos supermercados, postos de combustível encerrados, caixas multibanco desligadas por causa do apagão elétrico na Península Ibérica
Pedro Nuno Santos foi mais rápido. “Perante a complexidade do que acaba de acontecer em termos energéticos, deve ser convocado o Gabinete Coordenador de Segurança (…) É urgente determinar as causas e os efeitos imediatos e estabelecer planos de ação para proteger as infraestruturas críticas essenciais à vida coletiva”, escreveu o secretário-geral do PS no X ainda antes de o primeiro-ministro falar ao País e numa altura em que, pelas redes sociais, circulavam já notícias falsas sobre um alegado ataque russo que teria estado na origem do problema. Mais tarde, Pedro Nuno voltaria à carga na mesma rede social. “Em função da situação que se vive no País deve ser feita uma comunicação aos portugueses o quanto antes, usando os meios disponíveis neste momento, para dar todas as informações que permitam tranquilizar as populações, apelando a que se evitem corridas desnecessárias aos supermercados, bombas de gasolina e multibancos.”
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Com o País sem saber por quanto tempo estaria sem energia elétrica, Pedro Nuno Santos tomou a iniciativa de enviar uma mensagem a Luís Montenegro a sugerir adiar o debate que estava marcado para essa noite às 20h30. Eram 14h20 quando fez esse contacto. Montenegro ligou de volta, concordando com a ideia. Em São Bento, a responsável pela comunicação recebeu instruções para dar essa informação aos jornalistas que já se tinham deslocado ali para ouvir o primeiro-ministro.
O SMS que chegou tarde
Eram 15h quando Luís Montenegro fez a primeira comunicação ao País. A informação era escassa e só quem tinha ainda acesso à internet ou a um rádio a pilhas conseguiu ouvi-lo. Segundo uma cronologia feita pelo próprio gabinete do primeiro-ministro a que a VISÃO teve acesso, foi por essa hora que a Autoridade Nacional de Proteção Civil, Serviço de Segurança Interna e forças de segurança emitiram um aviso à população. Mas foi só às 17h15 que a Proteção Civil enviou um SMS que, na esmagadora maioria dos casos, só foi recebido já depois de reposta a rede elétrica. A mensagem não continha qualquer orientação especial, apenas a informação de que a “ligação de energia está a ser gradual” e um apelo à “serenidade de todos”.
Pedro Nuno Santos tomou a iniciativa de enviar uma mensagem a Luís Montenegro a sugerir adiar o debate que estava marcado para essa noite às 20h30. Eram 14h20 quando fez esse contacto. Montenegro ligou de volta, concordando com a ideia
Até às 18h, momento em que João Faria Conceição, administrador da REN, falou aos jornalistas, não houve mais nenhuma informação oficial. “Do ponto de vista da comunicação, optámos por ter o ministro da Presidência a aproveitar os órgãos de comunicação social com difusão mais operacional, as rádios”, explicaria no dia seguinte Montenegro numa longa declaração ao País, feita para dar conta do regresso da normalidade e minimizar os erros de comunicação da véspera, mas sem conseguir explicar a demora no envio de mensagens da Proteção Civil e o facto de as redes sociais do Governo só no dia seguinte terem sido usadas para passar informação ao País.
No gabinete de crise montado em São Bento, os vários ministros foram falando com os organismos que tutelam. Miguel Pinto Luz decidiu, por exemplo, dar instruções à Transtejo e à Soflusa para fazerem as ligações entre Lisboa e a Margem Sul de forma gratuita “enquanto existirem passageiros para transportar”. À noite, quando ainda faltava a água em várias zonas da Grande Lisboa e do Porto, o seu gabinete não tinha, contudo, informações sobre essas falhas nem sobre quando a situação – motivada pela falha de energia nos sistemas que bombeiam e filtram a água – poderia ser resolvida.
Autarcas e hospitais organizaram-se por si
Luísa Salgueiro, presidente da Associação Nacional de Municípios (ANMP) e presidente da Câmara Municipal de Matosinhos, eleita pelo PS, diz que ao longo de todo o apagão não recebeu nenhum tipo de contacto da administração central, apesar de dispor de um rádio da Proteção Civil acionado para poder manter as comunicações com os hospitais e os bombeiros. “Não houve qualquer comunicação”, declara à VISÃO, explicando que a queixa de falta de informações e instruções tem sido repetida “nos grupos de WhatsApp” de autarcas, apesar de a ANMP não dispor ainda de um levantamento nacional para ter uma ideia melhor do que se passou. “Aqui [em Matosinhos] houve coordenação local.”
Nos hospitais, vários responsáveis contactados pela VISÃO relatam uma situação idêntica: não houve coordenação central nem orientação da Direção Executiva do SNS, mas também não era essencial que houvesse. Cada hospital tem planos de contingência que são acionados em caso de emergência e foi isso que aconteceu de norte a sul do País. Os geradores foram ativados para garantir o funcionamento dos serviços considerados críticos e para manter em boas condições de armazenamento medicamentos e vacinas.
Portugueses suaves Apesar dos constrangimentos nos transportes e em muitos serviços essenciais, não se registaram incidentes graves
Joana Bordalo e Sá, da FNAM (Federação Nacional dos Médicos), critica, porém, um SNS cada vez mais dependente das triagens telefónicas. “O que falhou foram as comunicações. Esta situação expôs um SNS dependente de linhas telefónicas de triagem, quando as pessoas estavam sem conseguir comunicar”, critica a sindicalista que diz que “as coisas só não foram piores graças ao profissionalismo de todos os profissionais” do serviço público que asseguraram, por exemplo, a manutenção das consultas abertas nos centros de saúde. De resto, Joana Bordalo e Sá não poupa críticas à “grande operação de propaganda e marketing” que foi a visita de Luís Montenegro, já de noite e depois de reposta a energia em grande parte do País, à Maternidade Alfredo da Costa, que se manteve em funcionamento graças ao seu plano de contingência e com o abastecimento de gasóleo feito pela Câmara Municipal de Lisboa em coordenação com as forças de segurança.
Bombeiros sem informações
Foi só na manhã de terça-feira que o ministro Miguel Pinto Luz veio falar, admitindo problemas no funcionamento do SIRESP. Horas antes, a VISÃO tinha tentado obter esclarecimentos com o MAI, o ministério que tutela este sistema de informações de emergência, sem conseguir obter informações em tempo útil para o fecho desta edição.
Luísa Salgueiro, presidente da Associação Nacional de Municípios (ANMP) e da Câmara Municipal de Matosinhos, eleita pelo PS, diz que ao longo de todo o apagão não recebeu qualquer tipo de contacto da administração central
Foi, contudo, o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, António Nunes, quem denunciou, em declarações ao jornal Eco a forma como os bombeiros estiveram até às 20h de segunda-feira sem indicações de atuação em caso de crise. A indicação de alerta laranja só terá chegado por volta dessa hora, cerca de 80 minutos antes de o primeiro-ministro informar o País dessa situação. “O alerta para a crise energética apareceu às 20h. Tudo o que se passou até às 20h foi quase rotina normal”, disse António Nunes ao Eco, apontando falhas ao SIRESP. “Não é uma rede tão resiliente quanto a que gostaríamos de ter.”
Sem semáforos a funcionar, os polícias sinaleiros voltaram, sendo mobilizados elementos da PSP ou das polícias municipais para o efeito. Mas esses agentes não chegaram a todos os pontos. No Largo do Rato ao final da tarde, um dos principais nós viários do centro da cidade de Lisboa, não havia um único polícia a gerir o tráfego, apesar de aí haver uma esquadra da PSP. E o jornal Expresso chegou a partilhar um vídeo no qual se via um transeunte a tomar a iniciativa de fazer as vezes de sinaleiro numa rua de Lisboa.
Um PR quase desaparecido
“Se me pergunta: as coisas podiam ter funcionado melhor? Pois, estamos sempre a tempo para melhorar procedimentos”, dizia Luís Montenegro, na declaração feita ao País na terça-feira, com direito a várias perguntas, a elogios à importância do jornalismo e a promessa de que está disponível para debater todas as questões, até a da soberania energética, admitindo que a privatização da REN foi a que, na altura, lhe suscitou mais dúvidas, mas sem ser muito claro quanto a ilações a tirar sobre isso. “Ontem foi talvez o primeiro dia na História de Portugal em que a desinformação e a manipulação tiveram a dimensão dos tempos modernos”, comentou Montenegro.
Governo No gabinete de crise montado em São Bento, os vários ministros foram falando com os organismos que tutelam
Minutos depois dessa comunicação, era a vez de Pedro Nuno Santos falar para apontar o dedo a um “primeiro-ministro que tem incapacidade de lidar com as crises”. Os especialistas em comunicação tendem a achar que quem está no Governo beneficia com as crises e a ideia de que foi uma voz de comando, mas em plena campanha eleitoral o líder do PS veio defender que a AD “não tem de beneficiar de uma crise que geriu mal”.
Enquanto Luís Montenegro não entrou muito em questões técnicas para explicar a dependência energética face a Espanha, Pedro Nuno Santos veio dar alguns esclarecimentos (fazendo eco do que o administrador da REN tinha dito na véspera). O socialista defendeu que a interdependência com Espanha se deve à existência de um mercado ibérico, que faz com que em cada momento a rede seja alimentada pela energia que está a ser produzida e é mais barata, e garantiu que a reativação da Central do Pego (desativada por António Costa por ser a carvão) ou a nacionalização da REN não teriam impedido o apagão desta semana. “O mais grave é que também tivemos apagão no Governo central”, insistiu Pedro Nuno, para quem “faltou uma voz de comando e de serenidade”.
Os apagões da campanha
Páscoa, morte do Papa, 25 de Abril, apagão e futebol. Tudo serve para distrair da campanha eleitoral
Não está fácil manter as atenções mediáticas concentradas na campanha. “É mais um apagão na campanha. Páscoa, 25 de Abril, 1.º de Maio, óbito do Papa, eleição do Papa, final do campeonato de futebol e agora o apagão. Isto destrói a possibilidade de aplicar a ‘lei dos três cês’ da campanha eleitoral: coerente, contínua e crescente. Contínua não pode ser e fica difícil ser crescente não sendo contínua”, diz à VISÃO o especialista em comunicação política Luís Paixão Martins.
“Trava as dinâmicas. É uma campanha sempre com interrupções”, comenta quem está na caravana na AD, onde, apesar de tudo, se mantém o entusiasmo, muito à conta da boa receção que Luís Montenegro vai tendo por onde anda. Até agora, garante quem o acompanha, “não houve uma boca”.
Na caravana socialista também se percebe o impacto destas adaptações, mas há uma confiança que contraria as sondagens e que nasce de estudos internos, que mostram uma trajetória positiva na imagem pública de Pedro Nuno Santos.
Ainda assim, o consultor de comunicação Rui Calafate acha que o apagão pode ter ajudado Montenegro. “Em situações de crise, quem lidera sai sempre beneficiado”, diz Calafate, que acha que a resposta do Governo “foi dentro do que era possível”.
De vez em quando, ouve-se um apito, sinal de que a fábrica está em laboração. As caldeiras, fermentadores e tanques de serviço metálicos da Browers Beato estão à vista de todos, mas o mundo da cerveja artesanal ainda é desconhecido para a maioria dos portugueses.
“Convidamos os amigos para beber uma cervejinha, ao passo que somos capazes de lhes oferecer um branco do Douro ou um tinto do Alentejo”, constata Tiago Brandão, diretor-geral desta empresa-satélite do grupo Super Bock. A ambição, diz o engenheiro bioquímico, é fomentar a cultura da cerveja, criar um hábito, e é por isso que esta microcervejeira é uma fábrica aberta. “Existem mais de 130 estilos de cerveja, um manancial de experiências enorme”, sustenta.
Foto: José Carlos Carvalho
Os arquitetos Eduardo Souto de Moura e Nuno Graça Moura mantiveram o ar industrial do pavilhão de 700 metros quadrados onde antes se produzia a energia que alimentava o complexo da Manutenção Militar. Hoje, o conjunto de edifícios está transformado em Beato Innovation District, um centro de inovação na zona oriental de Lisboa.
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Maridagens
O projeto da Browers Beato desenvolve-se a partir de uma peça central: um longuíssimo balcão, de 32 metros, que Souto de Moura traçou como uma linha que divide a fábrica da zona de restauração, com 110 lugares sentados.
Trinta metros de balcão. Eduardo Souto de Moura, autor do projeto, traçou uma linha que divide a microfábrica da zona de restauração. Foto: José Carlos Carvalho
Ao chefe Luís Gaspar (dos restaurantes Sala de Corte e Pica-Pau, do grupo Plateform, parceiro do projeto) coube pensar a ementa que casa com as cervejas artesanais – são sete, de diferentes estilos, servidas em copo (€2-€6). Aliás, no menu (em forma de individual, em papel) é dada a indicação dessa maridagem.
O pão de Mafra, manteiga dos Açores e azeitonas marinadas abrem o desfile de alguns clássicos de uma cervejaria portuguesa: o casco de sapateira (€12) vai bem com a brown ale, de cor âmbar, inspirada na tradição britânica; a gamba da costa (€9) com a Beato lager, a “loirinha” da Browers, de sabor suave e refrescante, enquanto a saladinha de polvo (€12) e a açorda de gambas (€16) combinam melhor com a blanche, uma cerveja de malte de trigo ao estilo belga, ligeiramente turva e de espuma cremosa, cujo sabor a sementes de coentros e casca de laranja corta a acidez e o amargor.
O casco de sapateira, clássico de uma cervejaria portuguesa. Foto: José Carlos Carvalho
Nas carnes, para os croquetes de novilho (€4) sugerem uma IPA (India Pale Ale) de sabor amargo, para o pica-pau do lombo (€18) a kellerbier, uma lager equilibrada. E se alguém disser que a cerveja não é uma bebida para acompanhar uma sobremesa, provavelmente vai mudar de opinião quando provar umas natas do céu (€4) com uma nitro stout, de cor preta e espuma cremosa, com pouco gás (utiliza-se nitrogénio em vez de dióxido de carbono para carbonatar a cerveja) e notas de café torrado e chocolate.
A ementa foi pensada para casar com as cervejas artesanais. No menu é dada a indicação dessa maridagem. Foto: José Carlos Carvalho
Os adeptos do balcão vão gostar de saber que os petiscos frios e quentes são servidos a qualquer hora, a partir do meio-dia. Já os pratos de peixe e carne servem-se dentro dos horários de almoço e jantar, e apenas nas mesas.
Nos planos da equipa da Browers Beato está a possibilidade de pedir um tabuleiro de prova com quatro cervejas (nas 12 torneiras, há também lugar para edições limitadas da Browers). Na antiga central de controlo transformada em palco querem ter uma programação regular com concertos e workshops, e estão ansiosos para abrirem a esplanada, assim a chuva dê tréguas de vez.
Será também ao ar livre que querem voltar a organizar o Beer Ato, festival que junta comidinhas, concertos, DJ sets e muita, muita, cerveja da casa e de umas quantas marcas convidadas.
Browers Beato > Beato Innovation District > Tv. do Grilo, 1, Lisboa > dom-qua 12h-23h, qui-sáb 12h-24h
A Browers Beato vai ganhar em breve um esplanada ao ar livre. Um convite para beber umas cervejas e provar uns petiscos na zona oriental de Lisboa. Foto: José Carlos Carvalho
A partir de hoje, 1 de maio, estão em vigor novas regras que vão ter impacto direto na fatura de eletricidade. O ponto principal é que os dispositivos eletrónicos, como televisões ou routers, não poderão consumir mais do que 0,5 watts quando em modo suspenso. Para equipamentos com visor de informações, o limite será um pouco maior – 0,8 watts.
Esta redução no consumo de energia pode chegar a representar uma poupança anual de 100 euros por família na fatura da eletricidade, segundo as contas do site polaco Warszawa w Pigułce, já que se estima que o modo “standby” seja responsável por até 10% da fatura de energia de uma casa.
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A nova regulamentação aplica-se apenas aos novos produtos fabricados.
Não sabemos de que manhãs de gelo ou de sol se lembraram. As últimas palavras dos quatro enforcados foram caladas a meio. E conta-se que – mesmo antes do fim – os quatro cantaram A Marselhesa, o hino do movimento revolucionário. Poderia ser uma boa cena de filme – mas terá acontecido assim, com mais ou menos pinceladas expectáveis em qualquer cena mítica.
Quatro dos chamados “mártires de Chicago” foram executados por enforcamento, um ano depois do atentado na Praça Haymarket, na metrópole do Midewest. Um dos condenados só não foi levado à forca porque já se tinha suicidado na véspera, dentro da cela, com uma bomba disfarçada de cachimbo.
Tudo começara com outra bomba. Aliás, tudo mudara com a bomba arremessada contra a polícia na Praça Haymarket, em Chicago, na noite de 4 de maio de 1886. Interrompendo o último discurso, a força policial tentou dispersar a multidão no final de uma manifestação de protesto contra a violência policial do dia anterior. E a resposta foi uma bomba artesanal atirada por alguém contra a polícia, matando logo ali um dos agentes. No tiroteio que se seguiu, terão morrido pelo menos mais sete polícias – possivelmente alvejados por outros polícias, no meio da confusão. Entre os manifestantes, os mortos terão sido quatro. Os feridos contaram-se por dezenas.
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Nos dias a seguir houve centenas de detenções – incluindo de oito militantes anarquistas que viriam a ser condenados à morte, num processo muito mediático e que terá sido mais baseado em política do que em provas apresentadas em tribunal. Entre eles estavam Albert Parsons, August Spies e Samuel Fielden, figuras do movimento. Quatro dos condenados acabaram mesmo por ser enforcados.
As oito horas
Mas vamos ao contexto. Acabada a Guerra Civil americana, vivia-se um crescimento rápido em Chicago – um centro industrial importante, com muitos operários não qualificados e muita imigração. Com a mão-de-obra importada chegaram ideais políticos, sobretudo da Alemanha.
O dia de trabalho de oito horas era a grande reivindicação laboral já desde 1840. E muitos anos antes de a revolução bolchevique de 1917 ter virado as atenções para a Rússia, os EUA eram um dos centros mundiais das lutas laborais.
Em 1869 foi fundado o sindicato Knights of Labour, que começou por ser uma organização secreta, ligada a rituais maçónicos. Sendo operários qualificados, os Knights of Labour eram hostis aos operários não qualificados – muitos deles imigrantes – que aceitavam salários mais baixos. Mas em junho de 1877 houve uma greve de ferroviários que terminou com a morte de dezenas de trabalhadores, às mãos da polícia. A violência sofrida acabou por ajudar à união de trabalhadores qualificados com trabalhadores não qualificados, nascendo em 1881 a Federation of Organised Trades and Labour Unions. O objetivo comum imediato era o dia de trabalho de oito horas. E por todo o país foram nascendo as chamadas “ligas das oito horas”, que reuniam os trabalhadores à volta dessa reivindicação.
Em Chicago, a liga das oito horas era presidida por Albert Parsons, militante político e sindical, responsável local de organizações socialistas e dos Knights of Labor – conta o professor de Ciência Política Pap Ndiaye, na revista L’Histoire nº 404, de outubro de 2014. “Essa reivindicação [pelas oito horas de trabalho] satisfazia todos os operários, qualificados e não qualificados: os mais moderados achavam que um tempo de descanso mais longo poderia apaziguar a raiva e a frustração dos trabalhadores, permitindo-lhes americanizarem-se graças a uma vida familiar mais satisfatória; os radicais viam nas oito horas uma forma de haver mais tempo disponível para a educação das massas e para as reuniões políticas.” A mobilização era grande. Só os Knights of Labor teriam já mais de 700 mil membros em 1886. É fácil perceber a força destes trabalhadores organizados, nesses dias de 1886. E as reivindicações dos operários estavam já a dar lugar a algumas tedências, sobretudo graças ao poder argumentativo da greve.
Ficou marcado um grande dia de mobilização – o dia combinado era 1 de maio e nesse sábado houve manifestações mais pequenas em Nova Iorque e Detroit e uma grande manifestação em Chicago, encabeçada por Albert Parsons e pela mulher, a ativista afro-americana Lucy Parsons.
A ideia era então mobilizar os trabalhadores do país para a luta pelas oito horas de trabalho, nesse dia e nos dias seguintes. Mas além de fazerem greve e de se manifestarem, os grevistas andavam de fábrica em fábrica a incitar os trabalhadores a aderirem à greve. E a 3 de maio – em frente à fábrica de máquinas agrícolas McCormick, em Chicago – a polícia disparou sobre os manifestantes, matando dois operários.
Datas importantes
1840 Começa a luta pelas oito horas de trabalho diário
1869 É fundado, nos EUA, o sindicato Knights of Labour
1870 Uma greve de ferroviários nos EUA leva à morte de dezenas de trabalhadores pela polícia
1886 O massacre de Chicago origina a comemoração da data do 1.º de Maio pelos trabalhadores
1890 O 1.º de Maio é assinalado pela primeira vez em Portugal, por meio de comícios realizados em Lisboa e no Porto
1974 O 1.º de Maio é comemorado em Portugal pela primeira vez em liberdade ao fim de 48 anos
No dia seguinte, 4 de maio, houve uma manifestação contra a violência policial que só terminou à noite em Haymarket, com a bomba atirada sobre a polícia – a tal bomba que veio mudar tudo. Seguiu-se mais violência policial, as prisões, o julgamento, as execuções.
Nada seria igual, a partir daí. “Nos Estados Unidos da América, os anarquistas conseguiram estabelecer uma base importante entre os imigrantes em Chicago, no final do século XIX”, escreve o especialista em História do Trabalho Ralph Darlington no livro Syndicalism and the Transition to Communism: An International Comparative Analysis, de 2008. Mas a bomba lançada em Haymarket e a repressão que se seguiu reduziu muito a influência anarquista, segundo Darlington.
A própria repressão – e em particular a morte dos “mártires de Chicago”, como passaram a ser conhecidos – foi matéria para muita propaganda política. Acabou por oferecer à luta dos trabalhadores em geral (e não apenas ao anarquismo em particular) símbolos poderosos de coragem e de injustiça, justificando a revolta e reforçando a importância da reivindicação pelas oito horas de trabalho.
Logo em 1889, no Congresso da II Internacional, em Paris, o 1º de Maio foi declarado um dia de manifestação internacional pelas oito horas diárias de trabalho. “A partir de 1890, a manifestação do 1º de Maio tornou-se um acontecimento anual, associado às reivindicações do mundo do trabalho e em homenagem aos que tinham morrido por elas”. Já o anarcossindicalismo alemão de Chicago, tão vivo até aí, tinha sido destruído, escreve Pap Ndiaye na revista L’Histoire. Mas a força dos trabalhadores organizados não desapareceu com aquela noite de sangue em Haymarket, nem com a repressão que se seguiu. Até à revolução bolchevique de 1917, os EUA continuaram a ser “uma das chamas acesas do anarquismo socialista e da contestação ao capitalismo”.
A partir de 1890, a data foi adotada como dia de luta internacional, também em Portugal. O País conta-se entre os que celebram o 1º de Maio desde 1890, “não obstante o clima adverso criado pela crise político-financeira já patente no princípio do ano”, escreve Carlos da Fonseca em O 1º de Maio em Portugal – 1890-1990 – Crónica de um Século, Antígona, 1990. “Desta vez, a classe operária portuguesa entrava sem atraso num movimento de caráter internacionalista.”
A História das palavras
Patrão
A palavra “patrão”, que no campo semântico do mundo laboral significa “empregador”, deriva do latim pater (pai). A forma mais erudita, “patrono”», usada no âmbito religioso, designa um santo intercessor (o patrono de uma profissão, por exemplo). No mundo laico, pode utilizar-se para nomear um mecenas ou o autor de determinada iniciativa. Sem dúvida, transmite sempre uma ideia de poder.
Apesar de ter começado sem atrasos em relação a outros países, desde o início houve disputas em Lisboa sobre quem organizaria o 1º de Maio, sobre quem discursaria, sobre onde seriam os comícios ou as manifestações.
Em Lisboa, o comício deste 1º de Maio inaugural estava previsto para o Príncipe Real. Mas “seria sorrateiramente transferido para a Rua Nova da Piedade, na intenção de afastar a presença de elementos menos dóceis”, escreve Carlos da Fonseca. A Rua Nova da Piedade é estreita, fazendo sentido apenas para um comício com pouca afluência.
Ao contrário do fiasco lisboeta, no Porto o 1º de Maio de 1890 foi um dia importante da vida da cidade e da indústria. Terão participado entre 20 e 30 mil pessoas no comício do Monte Aventino. “Grande número de fábricas e oficinas fecharam as suas portas por falta de operários. A Companhia Aurifícia, a Real e Imperial Chapelaria a vapor e outros estabelecimentos importantes, concederam voluntariamente a folga aos seus trabalhadores”, escreve Carlos da Fonseca.
Mas não seria a primeira nem a última greve em Portugal. Por exemplo em 1849, a greve dos serralheiros em Lisboa teve uma participação assinalável. “No dia 10 a questão das horas de trabalho declarou-se nas fábricas da Boa Vista. Começou pelos ferreiros, aos quais se ligaram os serralheiros e torneiros. (…) No dia 10, ao cerrar da noite, uns 30 homens, saídos da fábrica Vulcano, se dirigiram para a fábrica Phenix, da qual os operários estavam saindo (…) Depois o grupo, aumentado, caminhou para a fábrica do Sr. Collares, e daí saíram também os operários”, relata a Revista Universal Lisbonense em artigo de 20 de setembro de 1849, citada por Fernando António Almeida no livro Operários de Lisboa – na Vida e no Teatro (1845-1870). Nesse artigo da revista é defendido que será pior – tanto para os operários como para os proprietários das fábricas – se não chegarem a acordo em relação às horas de trabalho. Porque no fim de contas todos sairão rejudicados, incluindo a economia do País. Mas apesar de o artigo ser assumidamente contra a greve, é fácil identificar algum fascínio pela forma como foi organizada. “No dia 11 compareceram em algumas oficinas, mas na fábrica Phenix, ao acender as luzes para o serão, todos saíram sem proferir palavra, e como se fossem um só homem. Em todos esses factos é para admirar não só o segredo que anteriormente houve a seu respeito, mas também a união com que se efetuaram. Em quase todas as serralharias de Lisboa se praticou o mesmo.”
Chegado o 1º de Maio inaugural de 1890 em Lisboa e no Porto, as reivindicações operárias faziam então já parte da vida política portuguesa. E continuariam a gerar reações, quer fossem de apoio ou de crítica. Mas não indiferença. Os chamados “mártires de Chicago” foram ficando cada vez mais para trás na História – sem que ficassem esquecidos – passando a data a ser conhecida como o Dia Internacional do Trabalhador. As últimas palavras dos enforcados foram caladas a meio, o eco continuou.
Artigo publicado originalmente na VISÃO História n° 34