No sábado, os líderes dos países mais poderosos da Europa – Alemanha, Reino Unido e França –, juntamente com o líder de um dos mais militarmente capazes de estancar a Rússia a Leste – a Polónia –, foram a Kyiv. Desta vez, não se limitaram a proferir palavras vazias. Merz, Starmer, Macron e Tusk uniram-se a Zelensky para fazer um ultimato a Vladimir Putin: ou aceita um cessar-fogo de 30 dias a começar esta segunda-feira ou a Rússia será alvo de um pacote de sanções “massivas” e a Ucrânia receberá uma nova e ininterrupta onda de apoio militar para rechaçar o invasor
Vários outros líderes juntaram-se remotamente, incluindo Giorgia Meloni, a primeira-ministra italiana, Mark Carney, o novo primeiro-ministro canadiano, Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia, e Mark Rutte, o secretário-geral da NATO. 
E Donald Trump. Emmanuel Macron ligou ao presidente dos EUA para o incluir na conversa e assim vinculá-lo ao acordo. “Olá, Donald. Posso ligar-te daqui a dois minutos com o Zelensky?”, perguntou, retoricamente, o presidente da França, ao telefone com Trump, num vídeo que ele próprio partilhou no X (ex-Twitter). 
Com este ultimato, a Europa livre e democrática encostou Putin à parede. 

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O novo Papa, Leão XIV, inaugurou o seu pontificado com um apelo vibrante à paz — na Ucrânia, em Gaza, e onde quer que exista e persista. «Guerra, nunca mais!» — proclamou. E essa invocação, lançada como prece, ecoou em Moscovo e em Kiev, onde, após três anos de conflito, se prepara um encontro direto entre Putin e Zelensky, sob mediação turca. Que assim seja, por fim.

Leão XIV foi escolhido pelos cardeais para guardar as chaves de uma Igreja atribulada, num tempo de provações e interrogações. E, mais uma vez, como sucedera com João Paulo II e com Francisco, confirmou-se a velha máxima: quem entra papabile, sai cardeal.

Surpreendente foi, de facto, esta eleição, mas o Espírito designou um cardeal relativamente jovem (69 anos), oriundo de um vasto país continental, que carece de fiéis e que conhece, muito de perto, os dramas e os dilemas dos católicos espalhados pelo mundo. Não apenas nas Américas, mas também na Ásia, em África, e até nesta velha Europa, onde, contra todas as expectativas, germina um sinal luminoso: cada vez mais jovens se aproximam dos preceitos da fé, ajudam a repensar os caminhos da Igreja, e recusam deixá-la entregue à erosão das gerações anteriores.

Esse sinal — discreto mas firme — começa também a irradiar para outros continentes. E foi a essas gerações novas, portadoras de esperança e continuidade, que Leão XIV dirigiu as suas primeiras palavras. Como João Paulo II, também ele terá de levar a Igreja ao mundo, palmilhar todos os caminhos, sem temor, sem clausura, convocando os ausentes, chamando os distantes, sem se encerrar nos muros do Vaticano.

Temos um novo Papa. Chama-se Leão — e sabe, como poucos, os caminhos que a Igreja tem de trilhar com todos. Todos. Todos.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Por estes dias, Melanie Tavares, 49 anos, anda num virote. E nem a chuva persistente ou a escorregadia calçada portuguesa a impedem de se apresentar impecável, em cima de uns elegantes saltos altos. Ao trabalho de coordenação no Instituto de Apoio à Criança, às consultas que dá na margem sul do Tejo e à sua constante presença televisiva, esta psicóloga, nascida na África do Sul e criada primeiro no Brasil e, mais tarde, em Lagos, acrescenta agora os afazeres relacionados com a publicação De Tanto Sofrer, Esqueci-me de Viver [Planeta, €15,21]. O seu primeiro livro baseia-se numa experiência pessoal para tratar de um assunto tantas vezes esquecido: o trauma.

A escrita sobre o seu episódio traumático foi o ponto final no processo de superação?
Foi um desafio da editora, depois de se tornar público aquilo por que tinha passado. Mas efetivamente, no final do livro, acabei por perceber que estava tudo no sítio certo e que até nem foi doloroso de reviver. Serviu sobretudo para ter a certeza de que tinha corrido bem.

Vou pedir-lhe que repita a história que conta no seu livro. Que trauma foi esse que suscitou tanta coisa na sua vida?
Foi uma amiga que morreu, de repente, ao pé de nós. Éramos todos crianças, estávamos a brincar – nada fazia prever uma situação daquelas. Às tantas, ela parou de brincar, sentou-se e percebemos que não estava bem. Pedimos ajuda a um adulto (foi preciso ali alguma capacidade para pensar, e não fui eu, porque fiquei completamente paralisada, acho que entrei mesmo em choque), levaram-na para o hospital, mas já não houve nada a fazer.

O que lhe aconteceu?
Na altura, não tivemos bem a noção. Terá sido algo como um ataque cardíaco fulminante, um enfarte, um AVC ou qualquer coisa do género. Nunca soube. Acabámos por não ter muito mais contacto com a família, que viveu o luto para dentro. Nem tenho memória nenhuma do que veio a seguir.

Esse acontecimento fez com que percebesse a importância da psicologia, apesar de ter pouco mais de 10 anos?
Foi logo aí. Passado algum tempo, tive muitos episódios de grande ansiedade, medo e ataques de pânico. Tudo era ameaçador, desde um procedimento simples, como ir fazer análises, até ir à praia, apanhar sol.

Que tipo de acompanhamento teve?
Fui sempre acompanhada pelo meu médico de família, que é uma pessoa muito humanista e acolhedora. Deu-me algum suporte, mas depois percebeu que devia procurar a ajuda de um profissional especializado.

Como foi essa experiência?
Correu tão mal… Tive a noção de que estava num desespero enorme, que precisava realmente de alguém que soubesse acolher a minha dor e trabalhá-la.

E o psicólogo não soube fazer isso?
Não conseguiu estabelecer relação comigo, tratou-me como uma adulta, sendo demasiado diretivo nas perguntas e fazendo-me verbalizar e relatar tudo o que tinha acontecido. Não me deu espaço.

Então achou que deveria ser psicóloga?
Foi a partir daí que comecei a desenvolver a ideia de que gostaria de ser psicóloga, pois fui percebendo a importância de ser alguém que pudesse ajudar outras crianças. Ao contrário do que seria o expectável, não foi por me identificar com aquela pessoa.

Depois, encontrou alguém, como procurava, para a ajudar no caminho?
O meu médico continuou a dar-me apoio e fui a um neurologista, mas não voltei a um psicólogo. Só em adulta, já em Lisboa, é que, efetivamente, comecei a ter uma relação terapêutica com um psicólogo, numa fase em que já não tinha que ver com este trauma. Nem quando tive outro episódio traumático – a perda de um primo que era um grande suporte para mim quando já tinha uma vida social mais ou menos normal, limitada por uma educação rígida – consegui um acompanhamento como deve ser.

Como acabou por resolver o seu trauma?
Tinha muitas conversas com o neurologista e com o meu médico e as coisas foram-se organizando. Depois tive um bom suporte da família, porque não fazia aquilo que era expectável numa criança: brincar, ir à praia, fazer amigos. Limitei-me muito.

Foi curioso ter conseguido cumprir esse desejo de ser psicóloga.
Não foi fácil, porque no Algarve não havia o curso de Psicologia e eu estava para vir embora na altura em que perco o meu primo. Fiquei muito fragilizada e comecei a questionar se era capaz de deixar o Algarve. Voltei a ter em mim todos os medos, todas as angústias. E sair de Lagos quando tinha 18 anos, em 1994, não era bem como sair agora. Felizmente, tive o suporte de um casal de primos que vivia em Lisboa – ajudou-me muito a dar a volta e a organizar-me.

Também não se desiludiu com a profissão.
Era exatamente isto que queria. Tive experiências de voluntariado e de estágios muito enriquecedoras. Cruzei-me com pessoas que ainda hoje me acompanham e são uma referência para mim. Fizeram-me acreditar que havia profissionais muito diferentes daqueles que conheci com 10 anos.

Ainda existe preconceito na procura de ajuda psicológica?
Há um grande estigma social em relação à saúde mental, porque achamos que as pessoas que pedem ajuda são fracas, frágeis. No geral, associa-se a depressão, a falta de energia, a uma pessoa preguiçosa que não quer fazer nada. Desde a pandemia que há uma maior aceitação de que efetivamente pedir ajuda é um ato de coragem e não de cobardia. Existem momentos da nossa vida em que precisamos de nos rodear de quem sabe, para aprender técnicas, ganhar ferramentas, para refletirmos, questionarmos, encontrarmos o nosso caminho e voltarmos a viver sem ser apenas focados na dor.

A pandemia foi um marco na saúde mental geral global?
Foi um trauma coletivo, pois ninguém estava preparado para uma adversidade daquelas, durante tanto tempo. Teve consequências graves e ainda vamos estar a vivê-las durante muitos anos, sobretudo os miúdos que não puderam ter alguns rituais de passagem, como o baile de finalistas ou a integração no primeiro ano da escolaridade. Depois, houve pessoas que tiveram de adiar projetos de vida, como um casamento. Já para não falar dos rituais como o funeral, importantíssimo para integrar um luto.

Já passaram cinco anos, mas a memória continua muito presente.
Trata-se de uma herança emocional: quem viveu vai transmitir aos mais novos. Há que pensar ainda nas questões relacionadas com o contacto das famílias, das pessoas que eram figuras de referência, como os avós, em que houve o corte na relação de proximidade, dos cheiros, das rotinas. E depois a angústia que foi a possibilidade de se perder algum ente querido. Houve muita gente que sofreu calada, sobretudo nos casos de violência doméstica ou maus-tratos das crianças.

Nem toda a gente tem dinheiro para fazer terapia, o Serviço Nacional de Saúde não tem capacidade de resposta e os seguros não comparticipam. Como se resolvem essas questões pendentes? Tomam-se comprimidos?
Normalmente, é o que acontece. Começa tudo pelos comprimidinhos no médico de família. A medicação efetivamente alivia o sintoma – às vezes é importantíssima. Quando uma pessoa está num sofrimento profundo, nem conseguimos conversar com ela. Só que a intervenção deveria ser interdisciplinar. Se não trabalharmos as causas, é como irmos ao dentista e pormos ali um compósito no dente, sem se limpar até à raiz – mais cedo ou mais tarde vai doer. Fico angustiada quando vejo pessoas a chegarem no limite à minha consulta.

Não se nasce com nada. Por isso é tão importante a vinculação que estabelecemos com os cuidadores. A forma como investem na criança e como lidam com as suas frustrações e expetativas

Não têm de facto alternativa…
E acabam por tomar essa medicação para serem mais funcionais, para que a rotina não seja comprometida. Com o passar do tempo, o impacto financeiro nos cofres do Estado é maior porque temos imensas baixas médicas por questões de saúde mental, a produtividade baixa, os apoios sociais têm de ser acionados, quando devíamos era investir na prevenção.

As escolas vão passar a ter um psicólogo por 500 alunos, a partir do próximo ano letivo. É suficiente?
O trabalho nas escolas é mais de despiste do que propriamente de tratamento. Mas é importante haver psicólogos a trabalhar as áreas da prevenção primária, nomeadamente de gestão de agressividade, violência, frustração, valores, formas de estar e de ser. E para fazer uma triagem atempada de situações que requeiram acompanhamento psicoterapêutico.

É o tipo de trabalho que faz no Instituto de Apoio à Criança, enquanto coordenadora de mediação escolar?
Essa mediação operacionaliza-se nas escolas através dos Gabinetes de Apoio ao Aluno e à Família. Existem equipas multidisciplinares que fazem acompanhamento aos alunos, em contexto de recreio e em sala de aula, com intervenções de sensibilização para temas que tenham que ver com as necessidades daquelas crianças. Também acompanhamos as famílias, tentando ser um suporte para responsabilizar os pais nas suas funções parentais. De vez em quando, temos alguns que se demitem.

Isso é pedido pela escola?
Sim. Fazemos muitas ações em escolas, quer com pais, professores ou alunos. No ano passado, acompanhámos quase sete mil meninos, de 47 agrupamentos escolares de norte a sul do País. Os problemas que diagnosticámos resolveram-se em 70% dos casos.

A série Adolescência trouxe para a ribalta a questão do cyberbullying. Em que sentido este modo de agredir veio modificar o processo?
Dantes sofria-se de bullying na escola. Saímos de lá, nas férias e fins de semana, e sentíamo-nos seguros. Evitávamos o medo, a humilhação, o confronto com o agressor. Neste momento, as vítimas estão a ser alvo de bullying 24 sobre 24 horas. E enquanto que na escola identificávamos quem nos fazia mal, agora, muitas das vezes, esses bullies não têm rosto, porque, cobardes que são, acabam por arranjar perfis falsos ou até anónimos para ameaçar as vítimas. Além disso, há uma exposição que também transcende a escola. Agora, é mais difícil de identificar, mais difícil de resolver e mais difícil de recuperar a vítima. Eles têm a noção de que uma vez na internet, toda a vida na internet.

Foi preciso uma série para os pais perceberem o que se passa com os filhos?
Andamos há uns 15 anos, pelo menos, a avisar que o perigo está no bolso dos miúdos. No início, dizíamos para supervisionar, para o computador estar na sala. Depois agravou-se, com a internet em qualquer sítio, a qualquer hora.

Tornou-se mais difícil de os pais supervisionarem?
Criticamos os miúdos porque vivem agarrados aos tablets, aos telemóveis, mas os pais têm exatamente o mesmo comportamento. Cada um fica no seu mundo, mesmo que estejam ao lado uns dos outros, no mesmo espaço físico. Acaba-se com a relação, a comunicação e os momentos de estar em família, que implica a partilha de atividades, conversas, angústias, conquistas, sonhos, alegrias, tristezas. E zangas, que também fazem parte de uma família – é mais fácil não se zangarem continuando cada um a viver as suas coisas.

Como atuar em relação àquilo que eles têm no bolso com o mundo inteiro lá dentro?
Começa, como já disse, pelos próprios pais também usarem menos o telemóvel – são os modelos das crianças, que replicam aquilo que veem. Os miúdos organizam-se pela rotina. O que os desorganiza é a falta de limites e de regras.

Há sempre os mais desafiadores…
Para esses, há que ter cuidado redobrado. E, apesar de achar que temos que respeitar a intimidade dos miúdos, em tudo aquilo que ponha em causa ou risco a integridade física ou mental dos filhos, os pais têm de intervir. Se existir algum tipo de suspeita, devemos promover muito diálogo e deixar abertura para que eles também partilhem. Não criticar à primeira, tentar passar uma mensagem que seja pedagógica, estar atento a determinadas alterações de comportamento, como maior isolamento ou maior irritabilidade – tudo o que seja uma alteração àquilo que os nossos filhos são habitualmente. Se acharem que não estão a ser capazes sozinhos, procurem ajuda técnica.

Quais são os principais mitos em relação ao trauma?
Que tudo passa com o tempo. Qual tempo? O tempo de quem? O tempo é o de cada um e pode ser muito mais penoso e duradouro se a pessoa decidir fazer esse percurso sozinha. Também há aquele mito do “é da tua cabeça”. Pois é, mas temos de respeitar o sofrimento do outro, sob o risco de estarmos a afundar a pessoa, a pô-la ainda mais para baixo. O que interessa é como determinado acontecimento impactou em cada um e isso tem muito que ver com a estrutura de personalidade, a educação, o contexto onde se vive, as pessoas que se tem à volta, os amigos que se foram criando ao longo da vida. Ninguém está assim porque quer. Agora, às vezes, é preciso querer muito para sair. Há sempre outra forma de ver a realidade, sobretudo se soubermos ir buscar ajuda, nem que seja de um amigo. 

O seu filho de 22 anos tem necessidades especiais. Foi outro acontecimento traumático para si?
Não acho que tenha sido um trauma. Se calhar consideraria como uma ferida, porque fui desacreditada naquilo que era a minha angústia, a minha premonição, o meu pressentimento. Desvalorizaram-me sempre, porque era psicóloga, porque era ansiosa. Depois tive de projetar a angústia de não ser eterna, o que obriga a uma preparação do futuro. Passado pouco tempo do diagnóstico, engravidei de novo, consciente de que se se confirmasse o mesmo problema genético, teria de fazer uma interrupção, o que veio a acontecer. Foi tudo angustiante e, nessa altura, sim, tive apoio psicológico fundamental.

A autoestima é algo com que se nasce ou trabalha-se?
Não se nasce com nada. Por isso é tão importante a vinculação que estabelecemos com os cuidadores, não necessariamente a mãe ou o pai. Falo da forma como investem na criança e, depois, conforme vai crescendo, a forma como lidam com as suas frustrações e expetativas.

Confunde-se o amor próprio com egocentrismo?
Gostarmos de nós não é vivermos centrados no nosso umbigo, é posicionarmo-nos no mundo como seres únicos e especiais, mas não exclusivos. Quando somos egocêntricos, o mundo gira à nossa volta, não temos a capacidade de empatia, de nos colocarmos no lugar do outro ou percebermos os seus sentimentos. Quando temos autoestima, estamos a cuidar de nós próprios, mas não achamos que somos a última Coca-Cola do deserto, que só nós existimos e que os outros giram à nossa volta.

Palavras-chave:

A grande competitividade entre os concorrentes voltou a ser imagem de marca da mais recente prova, o Gaia Eco Rally, do campeonato exclusivamente dedicado a veículos 100% elétricos. Após 11 provas especiais de classificação, os dois primeiros estavam separados por apenas seis décimas de segundo. Mais impressionante ainda: foi preciso descer até ao 13.º lugar da geral para encontrar uma média de erro superior a um segundo por ponto de controlo. Os 12 primeiros classificados demonstraram uma regularidade notável, com desvios médios inferiores a um segundo nos mais de 120 pontos cronometrados ao longo do percurso.

“O melhor campeonato do mundo”

No pódio final, celebrado no emblemático Cais de Gaia, subiram Emilien Le Borgne e Alexandre Stricher (Dacia Spring), seguidos por Eduardo Carpinteiro Albino e José Carlos Figueiredo (Kia EV3), e por Filipe Maia e Tiago Caio (Polestar 4). A dupla francesa, habitual participante no campeonato português, não poupou elogios: “É o melhor campeonato do mundo”, afirmou Le Borgne à Exame Informática, com Stricher a reforçar: “e o mais competitivo”. Esta foi a sua primeira vitória em provas de regularidade em solo nacional, apesar de já contarem com larga experiência internacional. “Competimos em Espanha, França, República Checa… e nenhuma outra prova tem a qualidade e o nível competitivo do campeonato português”, garantiu o piloto francês.

A prova surpreendeu muitos dos participantes pela variedade de ritmos e exigência técnica do percurso. Por momentos, a regularidade pareceu dar lugar a um verdadeiro rali de velocidade, colocando à prova a destreza de pilotos, a precisão dos navegadores e a capacidade de resposta das máquinas elétricas.

O Eco Rally de Gaia terminou da melhor forma, com uma Power Stage no Circuito Internacional de Lousada, troféu vencido pela dupla Pedro Morais e Silvia Coutinho em Hyundai Ionic 5.

edro Morais e Silvia Coutinho em Hyundai Ionic 5. Foto: Bernardo Lúcio

Equipa PRIO – Exame Informática no top 5

João Paulo Martinho e Nuno Costa, em Peugeot e-208, alcançaram um excelente quinto lugar, depois de uma recuperação notável. Para Nuno Costa, estreante neste campeonato mas já bicampeão nacional de Regularidade Histórica (2023 e 2024), foi uma prova desafiante: “A aceleração dos elétricos, com o binário imediato, apanhou-me de surpresa”, confessou.

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Foto: AIFA

Já o segundo carro da equipa, um Peugeot e-3008 pilotado por Sérgio Magno e navegado por Ana Joaquim, foi penalizado por dois erros decisivos que os relegaram para a 13.ª posição final.

Próxima paragem: E-Rally Alentejo Central

O Campeonato de Portugal de Novas Energias – PRIO prossegue com o E-Rally Alentejo Central, agendado para os dias 21 e 22 de junho. Uma nova oportunidade para confirmar o elevado nível competitivo que já se tornou marca registada deste campeonato eletrizante.

De todos os géneros literários, o diário é certamente o mais difícil de definir, o mais híbrido. E considerá-lo um género literário é já em si assumir que se escreve para ser lido, mesmo no caso de um escritor, como Vergílio Ferreira, que nunca se cansava de dizer que não escrevia para os outros, apenas para si próprio, como necessidade, modo de ser e de estar. Mas é esse diário monumental, que o ocupou de 1969 a 1992, que agora regressa às livrarias portuguesas, numa nova edição da Quetzal.

O primeiro volume, que recolhe os três tomos iniciais, foi lançado no passado mês de abril, na casa do escritor, em Melo (ver caixa nas páginas seguintes), o segundo será lançado no próximo dia 22. Em novembro encerra-se este enorme empreendimento editorial, só possível com o apoio da Câmara Municipal de Gouveia, que na sequência das comemorações do centenário do autor de Aparição, em 2016, continua empenhada na divulgação da obra do escritor mais relevante do seu concelho e aquele que melhor transportou, para os seus livros, aquela região.

“Lutar contra o esquecimento”

Ao seu diário, Vergílio Ferreira chamou Conta-Corrente, expressão do mundo da economia que sublinhava a omnipresença da escrita. Talvez também estivesse na cabeça do escritor a vontade de distanciar estas entradas regulares, logo a partir do título, de uma literatura mais séria – o que, como muitos leitores e críticos apontaram, muitas vezes se concretizou, noutras se contrariou. Apesar de ter iniciado a prática diarista em 1969, o primeiro tomo só viria a ser publicado em 1980. A sua publicação foi um acontecimento editorial; tal como esta reedição, que o faz regressar às livrarias portuguesas depois de muitos anos inacessível, também o é.

Vergílio Ferreira era, à data, um dos autores mais prestigiados do país. Fora um autor de referência durante o Estado Novo, com obras que marcaram o panorama literário português, como Manhã Submersa (1954) e Aparição (1959), mas também pelos ensaios, sempre de pendor existencialista, como Carta ao Futuro ou Interrogação ao Destino, André Malraux. A década de 80 marcou a sua consagração, com sucessivos galardões, incluindo o Prémio Camões, em 1992.

lançamento da reedição de Conta-Corrente, em Melo. Ao lado, o Presidente da República Mário Soares condecora Vergílio Ferreira, em 1989, sob o olhar do primeiro-ministro Cavaco Silva

Além disso, se é certo que havia uma tradição diarística em Portugal, ela nunca fora muito expressiva. Quando Vergílio Ferreira começou a escrever o seu diário, havia o de Miguel Torga, iniciado em 1941 e também com enorme repercussão, fundada na relevância literária do seu autor e sobretudo na diversidade de textos aí recolhida; e o de Ruben A., a partir de 1949. Refira-se, ainda, para acrescentar mais exemplos, o de Sebastião da Gama, publicado postumamente, em 1958, o de Manuel Laranjeira, dado à estampa seis anos antes, e o de José Gomes Ferreira, que na década de 60 já tinha começado a sua aproximação ao diário, que viria a continuar, em sucessivos volumes, anos mais tarde.

Mas para se avaliar o impacto que Conta-Corrente teve, mais importante do que a genealogia em que Vergílio Ferreira se inseriu, é preciso atender à natureza do próprio diário, numa abordagem que fez escola, nomeadamente nos Cadernos de Lanzarote que José Saramago iniciou em 1994. Estas são páginas íntimas e de autointerpretação, para recorrer a uma expressão de Fernando Pessoa, mas também dos dias comuns, do quotidiano do escritor, das suas alegrias, sempre breves, e das suas irritações, nunca omitidas. É também o retrato de uma época em constante mudança, com os últimos anos da ditadura do Estado Novo, a efervescência da Revolução de 1974 e a democratização do país. Nesse sentido, é um documento único, uma cartografia de modas, tendências, novidades, recorrências e acontecimentos interpretados por um autor já formado, com sólidas bases na filosofia e no pensamento, e que usa a escrita para se compreender e compreender o outro, para se interrogar e para interpelar o mundo. “Este é o diário mais importante da literatura portuguesa”, defende Francisco José Viegas, escritor e editor da Quetzal, leitor obsessivo de Vergílio Ferreira, sobre quem escreveu por diversas vezes, incluindo nas páginas da VISÃO. “Voltar a publicá-lo é lutar contra o esquecimento, esse exército terrível e invisível.”

Desabalada e de torneira aberta

Vergílio Ferreira acabava de fazer 53 anos. Influenciado pelos autores que lera e admirara, vivia, nessa idade, o tempo da confissão, da coragem com que concretizava apelos antigos; ou, pelo menos, o tempo de deixar de se render ao pudor. E sabia as implicações e o significado de um diário de um escritor já muito lido, sobretudo quando escrito com ideia de vir um dia a publicá-lo. “Admiro os que o conseguiram, desde a juventude. Um romance é um biombo: a gente despe-se por detrás. Isto não. Mesmo que não falemos de nós (é-me difícil falar de mim). Aliás, como os outros, desconheço-me”, confessa logo na primeira entrada, a 1 de fevereiro de 1969, ele que celebrara o seu aniversário a 28 de janeiro. “Serei agora capaz? Tento. Seguro-me ao argumento de que me dá prazer ler os registos dos outros. Leem-se sempre com curiosidade. Um motivo para insistir – satisfazer a curiosidade dos outros. Mas terei eu ‘outros’?”

Melo, Gouveia Na Casa Vergílio Ferreira – Para Sempre vários artistas recriam obras do escritor. É o caso de Ana Biscaia, na instalação Escrever

O antecedente mais direto de Conta-Corrente na obra de Vergílio Ferreira, segundo Fernanda Irene Fonseca, professor Catedrática aposentada da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que tem dedicado vários estudos ao escritor, é Invocação do Meu Corpo. Este “ensaio poético-filosófico” foi publicado em 1969 e abriu a porta para a “escrita do eu” e, não menos importante, um registo alternativo ao romance. O próprio Vergílio Ferreira viria a reconhecer e até a detalhar, com humor, a especificidade de Invocação do Meu Corpo e de Conta-Corrente. Ao contrário da ficção e da narrativa longa esta era uma escrita mais rápida, embora não menos refletida, com outro tom e toada, num encontro entre racionalidade e emoção. É, nas palavras do escritor, uma escrita “excessiva”, “desabalada”, “de torneira aberta”. Uma escrita, ao fim e ao cabo, heterodoxa, como o seu autor.

“O escritor noturno levou a sua febre de escrever, a sua euforia/agonia da escrita para o dia, para o diário”, sublinha Fernanda Irene Fonseca, no ensaio Vergílio Ferreira: A Celebração da Palavra. “Em Conta-Corrente vai expandir-se esse ‘modo pessoal e vivido’ de atravessar as grandes questões do seu tempo. Mas não só: de atravessar também as pequenas questões do seu quotidiano, os pormenores fortuitos em que é possível surpreender uma instantânea revelação.”

“Conta-Corrente”

Até ao fim do ano, estará nas livrarias a totalidade dos diários de Vergílio Ferreira, editados em três volumes. Este primeiro (Quetzal, 1 168 págs., €27,70), já lançado, engloba textos escritos entre 1969 e 1981

Uma outra escrita que não poucas vezes saturou o escritor, da mesma forma que o seduziu. Depois de cinco tomos, publicados entre 1980 e 1987, Vergílio Ferreira anunciava o fim de Conta-Corrente, publicando, pouco depois, o ensaio Pensar. Mas seria pausa de pouca dura, pois em 1993/94 lançou uma nova série do diário, com mais quatro tomos. Em excesso ou em contenção, Vergílio Ferreira ambicionava sempre o mesmo, como confessava no próprio diário: “Que bom poder escrever e ser feliz na escrita.”

Contra a morte

Para os leitores que atacam os livros com um lápis bem afiado, Conta-Corrente é uma obra tentadora. Além do domínio do aforismo, a escrita de Vergílio Ferreira é reflexiva e preenchida, como pedia Camões, com o saber de experiência feito. Experiência essa que também vinha da própria leitura e da escrita, do conhecimento e das potencialidades que o texto encerra. “Toda a obra de arte é um combate contra o tempo, contra a morte, a decadência de nós, a estupidez e a opacidade do mundo”, afirma em Conta-Corrente, como que reforçando o sentido e o significado do seu gesto literário e artístico. “A realidade imediata é pesada como a estupidez. E como ela é tirânica. Se a arte fosse um ‘refúgio’, a vida seria bem ligeira. Mas para chegar até à arte há que ultrapassar várias camadas sobrepostas de matéria grossa e espessa.”

Conta-Corrente dá-nos um extraordinário retrato do escritor – “A literatura é a minha razão de ser. Tudo o mais me ésecundário” – e revela-nos as suas opiniões fortes sobre a vida, o País, a literatura e os seus autores. Algumas passagens conseguiram pôr Vergílio Ferreira de mal com todos, incluindo no espectro político. Mas disso o escritor nunca se queixou. São vários os exemplos que podem ser citados, algum certeiros, outros cómicos (“Há três grupos de escritores: o dos bons ou muito bons, o dos razoáveis e o dos maus. Alguns não fazem parte de nenhum destes grupos.”), muitos bem atuais. E é essa a força de uma escrita que, de tão corrente, se fez contínua, abarcando a vida toda.

Escrever com Vergílio

Um programa de residências literárias convida escritores e outros artistas a inspirarem-se na mesma paisagem que moldou a obra do autor de Manhã Submersa

Um criador a inspirar outros criadores. Foi com esta filosofia que a Casa Vergílio Ferreira – Para Sempre, na aldeia de Melo, em Gouveia, lançou um programa de residências literárias, com curadoria de Adélia Carvalho e de Valter Hugo Mãe. Os candidatos podem escolher a duração da residência (até um mês) e beneficiar das condições únicas da casa: no sótão têm à sua disposição dois quartos e um escritório, assim como uma cozinha e uma casa de banho. Pela janela, a presença da montanha, a mesma que tanta influência teve na personalidade e na obra de Vergílio Ferreira. “A Casa abre-se para todos os lados, entra por ela à vontade todo do ar quente da tarde, os rumores longínquos da terra”, escreveu em Para Sempre, levando para a ficção a realidade concreta que tão bem conhecia. Passeando por estas divisões, os escritores aqui instalados talvez venham a sentir as mesmas sensações do protagonista desse romance de 1983: “Sozinho na velha casa, é um casarão, estou aqui. Há um grande silêncio comprimido sobre o mundo, atento escuto uma voz que não vem (…). O Silêncio em toda a casa. O silêncio dentro de mim.”

Silêncio semelhante terá sentido Rafael Gallo, escritor brasileiro, vencedor do Prémio José Saramago 2022, que aí terminou a sua residência no final do mês de abril, ainda a tempo de passar em Melo o longo apagão do passado dia 28. Tirando esse dia, aproveitou o vagar do tempo para pensar e adiantar o seu novo romance e para conhecer um autor que, inexplicavelmente, garante, é pouco divulgado no Brasil. Talvez agora se torne o seu embaixador do outro lado do Atlântico.

Como os anteriores escritores que passaram por esta residência (Gonçalo M. Tavares, Isabel Rio Novo ou Francisco Mota Saraiva) e a que a ocupará em julho (Cláudia Lucas Chéu), Rafael Gallo deixou livros seus na biblioteca da casa e escreverá um texto que será disponibilizado no festival literário de Gouveia Em Nome da Terra, que terá a sua 4.ª edição em outubro. E cumprindo o desejo dos promotores da residência, deixou uma frase no candeeiro que ilumina a grande mesa do escritório, num incentivo pessoal à criação. Eis a sua: “Escrever pelos mesmos motivos que um cão ladra.”

Voltar sempre

Ao contrário de muitas casas de escritores, a de Vergílio Ferreira não está cheia de objetos e curiosidades pessoais. É antes uma celebração da obra do autor, com recriações artísticas dos seus principais romances e temas, com destaque para a presença da montanha e a ideia de regresso

É logo na praça que se anuncia ao visitante e futuro leitor que se está perante uma obra maior, composta por várias etapas de um mesmo fluxo literário e de pensamento. Em frente à Casa Vergílio Ferreira – Para Sempre, em Melo, no concelho de Gouveia, abre-se um enorme largo. E a delimitar o seu contorno, pequenas lajes definem a cronologia dos livros do escritor, desde a sua estreia, em 1943, com O Caminho Fica Longe, até Cartas a Sandra, publicado em 1996, no ano da sua morte, primeira de várias edições póstumas. A enumeração, apenas o título e a data, é o primeiro convite a mergulhar num universo literário singular, que não poucas vezes se inspirou neste lugar, nesta paisagem, em vivências e memórias de infância ali passadas e reacendidas a cada regresso nas férias de verão.

Vergílio Ferreira não nasceu nesta moradia amarela, nem aqui viveu muitos anos. Em 1916, os pais moravam noutra casa (só habitariam esta muito mais tarde), a algumas ruas de distância do centro de Melo. E como três anos depois emigraram para os EUA, o futuro escritor cresceu, até ingressar aos 12 anos no seminário no Fundão, com a avó e as tias maternas. Ainda assim, esta casa, de dois pisos, imponente e de um traço elegante, tem uma simbologia especial, pois ressurge muitas vezes quer em romances do escritor, quer no seu diário, agora reeditado. Por isso, em 2016, ao encerrar as comemorações do centenário de nascimento de Vergílio Ferreira, a Câmara Municipal de Gouveia anunciou a compra da casa de família, na altura propriedade de uma sobrinha do escritor, projetando uma intervenção museológica e a abertura ao público, que se concretizou em 2024.

Feito o convite na praça principal, passa-se o portão, empurra-se a porta de entrada e descobre-se a força de uma obra que desafia novos leitores. Ao contrário de muitas casas de escritores, um conceito criado no século XVIII para celebrar grandes nomes da literatura mundial, a Casa Vergílio Ferreira – Para Sempre é tudo menos convencional. Não segue o modelo habitual que procura, com maior ou menor fidelidade, reproduzir o quotidiano do escritor, às vezes com os objetos originais. Aqui não há máquinas de escrever prontas a serem usadas, nem tinteiros cheios ao lado de uma folha de papel em branco, nem uma vasta recolha de manuscritos. É, antes, uma recriação do universo do autor de Aparição, que destaca as suas obras mais emblemáticas e alguns dos conceitos-chave que percorrem romances, ensaios e outros escritos.

Essa recriação é sobretudo visual, com vários artistas a ocuparem cada uma das divisões do primeiro andar, já que no piso térreo o escritor é apresentado numa breve cronologia que esclarece as datas e os locais da sua formação, os seminários que frequentou (também o da Guarda), a sua formação na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em Filologia Clássica, e os liceus em que foi professor, primeiro em Faro, mais tarde em Bragança, Évora e Lisboa. Na primeira divisão, António Ramalho, bisneto da ceramista Rosa Ramalho e continuador da sua arte, apresenta, em pequenas esculturas, a “Família Literária” do escritor. “Quem me ensinou a escrever foi Eça de Queirós e quem me ensinou a refletir foi André Malraux”, costumava dizer Vergílio Ferreira. E ali estão eles, em cerâmica, ao lado de mais quatro autores (escolhidos entre muitos outros) que marcaram a sua formação: Raul Brandão, Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre e Albert Camus.

Segue-se a sala dedicada à obra Escrever, publicada só em 2001, a partir dos manuscritos encontrados no espólio, que mostra como a escrita era um modo de ser, mas também de estar – na vida, na existência e no pensamento. É uma vida feita de papel e de palavras que a designer gráfica e ilustradora Ana Biscaia interpreta, evocando uma mão que remexe a terra, como quem lança a semente para depois colher. Numa outra sala recorda-se a relação do Vergílio Ferreira com o cinema, em particular a adaptação que Lauro António fez de Manhã Submersa. O filho do realizador, Frederico Corado, assina a curta-metragem que aí se projeta, feita a partir de fotografias tiradas durante a rodagem daquele filme e de outro material inédito. Ao lado, Paulo Neves evoca, numa escultura em madeira, a presença da montanha na obra vergiliana, montanha essa que é tanto um lugar natural, quanto metafísico. Duas outras obras são interpretadas em salas próprias: Para Sempre (o romance em que esta casa é mais evocada), por Evelina Oliveira, e Cartas ao Futuro, por Luís Silveirinha.

A Casa Vergílio Ferreira – Para Sempre encerra o Roteiro Literário Vergiliano que também foi lançado nas comemorações do centenário do seu nascimento. Na aldeia de Melo, passa por 19 pontos, desde a casa onde o escritor efetivamente nasceu até esta casa amarela, passando por capelas, lojas, tabernas e várias ruas. Com a ajuda do guia “Melo e a aldeia eterna de Vergílio Ferreira” é possível ler passagens em que estes edifícios e lugares foram transportados para a ficção, em descrições muitas vezes fieis e precisas. Noutro percurso integrado no Roteiro Literário Vergiliano propõe-se uma volta maior, de nove quilómetros, pela envolvente da aldeia, onde a Natureza mais se impõe. A mesma que moldou a obra de um escritor que dizia escrever “para tornar visível o mistério das coisas”.

Paixões e irritações

Nos diários Conta-Corrente, Vergílio Ferreira revela-se sem filtros

“O português é extremamente ridículo no seu receio de ser ridículo”

“Temos 800 anos, mas somos ainda infantis. Ou somos  tão coriáceos, que nada nos penetrou”

“Não te diminuas diante dos outros. Aqueles que te admiram podem sentir-se vexados”

“O ensaísta português é um sabichão. Ou um homem aterrorizado, que se esconde atrás de uma barricada de nomes e de números”

“Uma boa frase é como uma boa anedota: dá brilho a quem a inventa e sobra ainda para quem a repete”

“O presente é dos fortes, o passado é dos fracos e o futuroé dos imaginativos ou ambiciosos”

“Porque é que queres ser feliz, se não queres ser medíocre?Tens de escolher”

Palavras-chave:

Um azul-esverdeado mais saturado do que qualquer cor que se possa ter visto no mundo real. “Ficámos de queixo caído.” Eis a simples descrição dos investigadores que realizaram um estudo, em que o uso de feixes de laser apontados para a pupila de um olho lhes permitiu superar os limites naturais da visão. Três dos cinco participantes eram coautores do estudo e a estes juntaram-se mais dois colegas da Universidade de Washington, que desconheciam o propósito da pesquisa.

Mas, atenção, os humanos não irão começar a percecionar novas matizes. Não vem aí um novo mundo de cores. “Este não é propriamente um aparelho destinado ao consumidor. Trata-se de ciência visual básica e um projeto de neurociência”, alerta Ren Ng, professor de Engenharia Elétrica e Ciência Informática da Universidade da Califórnia, Berkeley. E acrescenta: “Previmos desde o início que se pareceria com um sinal de cor sem precedentes, mas não sabíamos o que o cérebro faria com ele.”

As únicas cinco pessoas no mundo que conseguiram ver a nova cor entraram num laboratório escuro e permaneceram sentadas. Havia lasers, espelhos, espelhos deformadores, moduladores e detetores de luz. Cada participante teve de trincar uma barra para garantir que a cabeça e os olhos estavam imóveis enquanto o laser era disparado para a retina e viam um pequeno quadrado de luz, do tamanho de uma unha do polegar localizado a um braço de distância.

Nesse quadrado da cor azul-esverdeada (a Cidade das Esmeraldas de O Feiticeiro de Oz, de L. Frank Baum, onde tudo parece o verde mais deslumbrante que já se viu), que foi batizada de Olo, o mais próximo que existe e que se consegue ver é o verde-azulado, representado pelo código hexadecimal #00ffcc.

Esta investigação, publicada em abril na Science Advances, revelou-se útil para lidar com questões científicas básicas sobre como o cérebro cria perceções visuais do mundo. No entanto, poderá também a vir a ter outras aplicações. Através da estimulação personalizada de células na retina, os especialistas podem aprender mais sobre daltonismo (incapacidade ou dificuldade em distinguir as diferenças de cor) ou sobre doenças que afetam a visão, como a retinite pigmentosa, patologia degenerativa da retina que causa perda de visão progressiva, podendo conduzir à cegueira.

O poder dos verdes

“Não há forma de transmitir essa cor num artigo ou num monitor. Essa não é a cor que vemos, simplesmente não é. A cor que vemos é uma versão dela, mas que empalidece completamente em comparação com a experiência do Olo”, descreve Austin Roorda, professor e investigador de Ciências Visuais da equipa.

Os cinco de Berkeley conseguiram superar uma limitação, usando lasers para aplicar com precisão pequenas doses de luz para selecionar células cone no olho humano. Existem três tipos de cones que são sensíveis a comprimentos de onda de luz longos (L), médios (M) e curtos (S), para os tons vermelhos, verdes e azuis, respetivamente.

Estima-se que o olho humano consiga ver dez milhões de variações de cores, mas há todo um mundo de tonalidades que não vemos?

Assim, começaram por mapear uma pequena parte da retina de uma pessoa para identificar as posições das células cone M, sensíveis a diferentes comprimentos de onda verdes. Após o ajuste para o movimento do olho, o laser dispara um pequeno feixe de luz para estimular a célula, antes de passar para o próximo cone. Surge uma mancha de cor no campo de visão com cerca de duas vezes o tamanho de uma lua cheia. Uma cor que está para lá da faixa natural a olho nu porque os cones M são estimulados quase exclusivamente. O nome Olo vem do binário 010, indicando que, dos cones L, M e S, apenas os cones M são ativados.

Os três tipos de cone lidam com faixas de luz sobrepostas: a luz que ativa os cones M também ativará os cones S ou L. “Não há luz no mundo que possa ativar somente as células do cone M porque, se estão a ser ativadas, com certeza um ou ambos os outros tipos também são ativados”, explica Ren Ng.

Para John Barbur, professor de Ótica e Ciências Visuais e diretor da City St. George’s, Universidade de Londres, este estudo tem um “valor limitado”, pois “não é uma cor nova”. “É um verde mais saturado que só pode ser produzido numa pessoa com mecanismo cromático vermelho-verde normal quando a única informação vem dos cones M.”

Em contraponto, para Manuel Spitschan, que estuda os efeitos da luz no comportamento humano no Instituto Max Planck de Cibernética Biológica da Universidade Técnica de Munique, na Alemanha, e não fez parte da nova investigação-experiência, “é um estudo fascinante, um avanço verdadeiramente inovador na capacidade de compreender os mecanismos fotorrecetores subjacentes à visão de cores. As pesquisas técnicas necessárias para alcançar isso são enormes. Uma questão em aberto é como esse avanço pode ser usado.”

Comoo cérebro interpreta a luz

A visão consegue confundir a informação que recebe

O olho humano comum, de acordo com as estimativas científicas, é capaz de percecionar um número um pouco abaixo de dez milhões de variações de cores. É quando a luz incide sobre as células sensíveis à cor na retina, os três cones sensíveis a comprimentos de onda de luz longos (L), médios (M) e curtos (S), vermelhos, verdes e azuis, respetivamente, que se abre uma infinita paleta de cores. A retina (camada de tecido sensível à luz localizada na parte posterior do olho) recebe e processa as informações visuais, convertendo a luz em sinais elétricos, transmitidos ao cérebro pelo nervo ótico, permitindo-nos ver.

Lembra-se do desafio que se tornou viral nas redes sociais, em 2015, a tentativa de descobrir se um vestido era dourado e branco ou azul e preto? Na altura, a marca garantiu que era azul e preto. O que confundia os internautas era a luz que surgia na imagem, levando os cérebros a ler a parte azul como branca e a preta como dourada.

É a quantidade de luz que atinge a nossa retina que leva o cérebro a percecionar de determinada forma a matiz. Quem via o vestido azul e preto tem os cones da retina a funcionar melhor; ver o branco e o dourado é sinónimo de não reagir bem à luz fraca.

Se fosse na ilha Pingelap, no Pacífico, seria a preto-e-branco ou em tons de cinzento, devido à acromatopsia, doença genética que afeta um em cada 12 habitantes daquele território.

1947 – Quem fica com a Caxemira?
Após a independência, o destino da Caxemira ficou incerto, embora tanto a Índia como o Paquistão reivindicassem o território. O marajá local ainda tentou obter a independência, mas acabou por aceitar que a região integrasse a Índia, em troca de ajuda militar para evitar a continuada invasão de milícias muçulmanas. Resultado: a Guerra Indo-Paquistanesa de 1947-48, que terminou com o Acordo de Karachi de 1949, que estabeleceu uma linha provisória de cessar-fogo, supervisionada pela ONU. Nos termos desse acordo, a Índia passava a ocupar dois terços daquele território, com o outro terço a pertencer ao Paquistão.

1965 – Guerra curta mas sangrenta
Após o Paquistão conduzir uma ofensiva secreta na linha de cessar-fogo, os combates entre as forças fronteiriças depressa descambaram numa guerra total – que durou três semanas, mas provocou milhares de baixas em ambos os lados, além das maiores batalhas de veículos blindados desde a II Guerra Mundial. Em janeiro de 1966, os dois países assinaram um novo acordo, para resolver futuras disputas por meios pacíficos.

1972 – Divisão oficial
Após uma breve guerra entre os dois, por causa do Paquistão Oriental, que resultou no atual Bangladesh, a Índia e o Paquistão inauguraram uma nova era de relações bilaterais com o Acordo de Simla, em 1972, que dividiu a Caxemira em duas regiões administrativas. A linha de cessar-fogo temporária de 1949 tornou-se, assim, uma “linha de controlo” oficial.

1974 – Nova era nuclear
A Índia realiza o seu primeiro ensaio de uma arma nuclear, desencadeando uma corrida armamentista no Paquistão – que atingiu o mesmo marco duas décadas depois.

1987 – Início da insurgência
Aproveitando um período de turbulência política, vários grupos de insurgentes, apoiados pelo Paquistão, iniciam diversos ataques, com bombas, tiroteios e sequestros, contra a administração indiana, que minam e agravam as relações entre os dois países.

1999  – Combates na montanha
Guerra de Kargil, numa zona de alta montanha, com centenas de vítimas dos dois lados. Inicia-se depois um novo período de cessar-fogo que é muitas vezes interrompido por trocas de tiros por militares dos dois países. Desde então, a Caxemira tornou-se uma das zonas mais militarizadas do mundo.

2008 – Atentado em Mumbai
O risco de novo confronto aumenta na sequência do ataque terrorista em Mumbai, em que morreram mais de 160 reféns, incluindo alguns estrangeiros. Tanto a Índia como os EUA culparam um grupo sediado no Paquistão, afirmando que era apoiado pelos serviços secretos do país.

2016 – Ataques constantes
Após um breve período de relações cordiais entre os dois países, iniciado com o convite do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, ao seu homólogo paquistanês, Nawaz Sharif, para a sua tomada de posse, a situação agravou-se, em 2014, quando um alto funcionário do Paquistão se reuniu com líderes separatistas da Caxemira. Depois, em 2016, uma base indiana foi atacada por milícias separatistas, com Nova Deli a ripostar com ataques a “acampamentos terroristas” dentro da Caxemira administrada pelo Paquistão. Nos anos seguintes, ocorreram milhares de confrontos.

2019 – Ocupação indiana
Após um bombardeamento ter provocado a morte de quatro dezenas de soldados indianos, o governo de Narendra Modi decidiu enviar dezenas de milhares de militares para o território e retirar à região o estatuto privilegiado de autonomia de que gozava desde a independência. Para abafar quaisquer protestos, foi instituído o estado de sítio, as conexões de internet foram cortadas durante mais de um ano e a Caxemira passou a ser administrada diretamente desde Nova Deli, registando-se a prisão de milhares de opositores.

2025 – À beira da guerra
A 22 de abril de 2025, as tensões aumentaram após um ataque terrorista contra turistas indianos na Caxemira – o pior, em território indiano, desde os ataques de Mumbai em 2008. Após o ataque, medidas de retaliação da Índia e do Paquistão levaram as relações bilaterais ao seu ponto mais baixo dos últimos anos.

A Caxemira, apesar de ser o principal foco de conflito entre a Índia e o Paquistão desde a sua independência do império britânico, transformou-se, nos últimos anos, numa das maiores provas de afirmação do governo nacionalista que está há 12 anos no poder em Nova Deli. Essa mudança iniciou-se em agosto de 2019, quando, em resposta a mais um ataque das forças separatistas, alegadamente ao serviço dos paquistaneses, o primeiro-ministro Narendra Modi optou por uma manifestação de força: enviou dezenas de milhares de soldados para a região, revogou a sua autonomia especial, decretou o estado de sítio e, durante cerca de um ano, cortou todas as comunicações com o exterior, reprimiu os órgãos de informação locais independentes e enviou para a prisão milhares de opositores. O mundo olhou estupefacto para essa ação de Modi, mas depressa esqueceu as atrocidades e os atropelos aos direitos humanos, quando mergulhou, poucos meses depois, na pandemia e na rotina dos confinamentos.

Do ponto de vista do governo indiano, os fins justificaram todos os meios. De tal modo que, após essa ação musculada, a Caxemira começou a mudar a sua imagem e a ser exibida até como um cartaz turístico apetecível para milhões de indianos, em busca de uma região repleta de montanhas e vales deslumbrantes, conhecida também pela sua produção têxtil e agrícola. Segundo uma publicação da organização Council on Foreign Relations (CFR), nesses anos, o governo de Modi aproveitou ainda para integrar a Caxemira na sua doutrina de “nacionalismo hindu” e redesenhou o mapa eleitoral para privilegiar as áreas de maioria hindu. Noutra prova de força, Modi realizou, em 2023, quando ocupava a presidência do G20, uma reunião do grupo de trabalho sobre turismo daquela organização em Srinagar, a capital de verão do território administrado pelo governo de Nova Deli – a que, significativamente, a China optou por não comparecer, alegando a sua firme oposição “à realização de qualquer tipo de reunião do G20 num território disputado”.

Essa ilusão de uma Caxemira pacificada e com potencial turístico foi destruída, subitamente, a 22 de abril. De forma trágica: com um dos ataques terroristas mais mortais da História recente da Índia, quando um grupo de homens armados atacou multidões de turistas. E tudo indica que foi uma ação planeada e executada com frieza: primeiro atiraram indiscriminadamente e, em seguida, segundo diversos relatos, terão executado os homens que não sabiam recitar determinadas passagens do Corão. Pelo menos, 26 pessoas foram mortas.

De imediato, Nova Deli acusou o Paquistão de ter patrocinado o massacre. Islamabad negou qualquer envolvimento. E a tensão começou a escalar na região de maioria muçulmana, dividida entre a Índia e o Paquistão, mas que ambos reivindicam integralmente.

Em nome da vingança

Na Índia foram muitos a clamar vingança. E rapidamente, após uma reunião com os altos comandos militares, foi divulgada uma declaração atribuída a Narendra Modi em que este afirmava que as Forças Armadas têm “total liberdade operacional para decidir sobre o modo, os alvos e o momento da resposta”. Deixando um aviso claro: “É nossa determinação nacional dar um golpe esmagador no terrorismo.”

Modi enviou ainda uma mensagem dura ao Paquistão, afirmando que “a Índia irá identificar, rastrear e punir todos os terroristas e os seus apoiantes”, prometendo até “persegui-los até aos confins da Terra”.

Esta retórica de guerra e as promessas de retaliação constituem a maior preocupação em relação ao evoluir da situação. Depois de tudo o que foi dito, o governo nacionalista de Modi não pode arriscar perder a face e optar por não fazer nada. Mas se a Índia for a primeira a disparar, é certo que o Paquistão irá retaliar, também por pressão popular, já que milhões de paquistaneses estão furiosos por a Índia estar a responsabilizá-los por um atentado horrível no qual recusam qualquer responsabilidade.

Vingança Manifestantes indianos clamam retaliação contra o Paquistão, após o ataque terrorista contra turistas na Caxemira Foto: Harish Thyagi/LUSA

Desde há alguns dias, os dois países vizinhos estão completamente desligados um do outro. De uma assentada, o governo de Nova Deli impôs a proibição total das importações do Paquistão e suspendeu todos os serviços postais transfronteiriços. Modi ordenou ainda que nenhum navio paquistanês possa entrar nos portos indianos e impediu, igualmente, que qualquer navio indiano entre em portos paquistaneses. Todas estas medidas foram anunciadas em nome da “segurança nacional”.

Em resposta, o Paquistão decidiu fechar o seu espaço aéreo para voos indianos, expulsou uns quantos diplomatas e lançou um aviso sonoro de que qualquer interferência nos fluxos de água que correm entre os dois países seria vista como um ato de guerra. E o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, prometeu uma “resposta contundente a qualquer aventura indiana”.

Depois das ameaças e da retórica belicista, os dois governos vão subindo patamares de tensão, de forma a procurar dar resposta aos clamores populares que, alimentados por décadas de conflito, exigem vingança e respostas firmes.

Mostrar a força

Como nenhum dos dois lados pode passar imagem de fraqueza, tanto Nova Deli como Islamabad optaram, nos últimos dias, por elevar a retórica de guerra para o nível de “demonstração de força”. Assim, navios de guerra indianos realizaram exercícios de fogo real, enquanto a Força Aérea deslocou esquadrões de caça para bases no Punjab e no Rajastão, após o anúncio de compra de 26 novos caças Rafale a França, no valor de 7,4 mil milhões de dólares. O governo indiano também deu ordem, no início desta semana, para que os estados mais próximos da fronteira começassem a testar os seus mecanismos de proteção civil, como forma de se prepararem para um ataque. Segundo revela o jornal Indian Express, foi transmitido às autoridades locais que operacionalizassem as sirenes de alerta de ataque aéreo, revissem os planos de segurança e iniciassem o treino de civis, particularmente nas escolas, sobre os protocolos de fuga e proteção, em caso de perigo.

Islamabad respondeu com o lançamento, amplamente divulgado, de um novo míssil balístico terra-terra do sistema de armas Abdali, com um alcance de 450 quilómetros. Ou seja: capaz de atingir bases avançadas indianas, embora suficientemente pequeno para ser considerado um recurso tático em vez de estratégico. Todas estas movimentações têm um objetivo claro: demonstrar que os dois lados estão prontos para a guerra.

Escalada nuclear?

O massacre em Pahalgam reabriu a ferida antiga que, há décadas, opõe os dois países, sempre envoltos em episódios de guerra e muitas escaramuças. A situação é particularmente perigosa agora porque tanto a Índia como o Paquistão possuem armas nucleares – embora, na atual escalada, nenhum dos responsáveis políticos dos dois lados as tenham usado como ameaça. Até porque não precisam: ambos sabem o grau de destruição que podem causar e as consequências que isso poderia ter para as gerações futuras.

Nas últimas décadas, desde que o Paquistão atingiu o estatuto de potência nuclear em 1998, os dois países sempre conseguiram manter as situações de conflito dentro de limites que ambos consideravam aceitáveis. Em 2016, uma força de comandos indiana entrou no território da Caxemira controlado pelo Paquistão para realizar uma série de “ataques cirúrgicos” contra bases terroristas, mas Islamabad não retaliou. Em 2019, após outros atentados, a tensão voltou a aumentar, mas o máximo a que se chegou foi a uma batalha aérea, em que o Paquistão conseguiu abater um Mig indiano e capturar o piloto – que seria entregue a Nova Deli poucos dias depois.

Agora, apesar da retórica de guerra, ainda nenhum dos países avançou com a mobilização de reservistas nem se observam grandes movimentações de carros blindados nas zonas de fronteira.

Modi enviou uma mensagem dura ao Paquistão, afirmando que “a Índia irá identificar, rastrear e punir todos os terroristas e os seus apoiantes”, prometendo “persegui-los até aos confins da Terra”

No entanto, como refere Sajjad Ahamed na revista The Diplomata, especialista nas questões da Ásia-Pacífico, a “pressão interna” popular pode impulsionar a escalada. “Com as eleições regionais a aproximarem-se, o Partido Bharatiya Janata da Índia pode sentir-se compelido a realizar uma ação de represália limitada – ataques de forças especiais ou um ataque aéreo ao estilo de Balakot, em 2019 – com o objetivo de apaziguar a revolta dos eleitores, mantendo-se abaixo do limiar nuclear do Paquistão”, escreve. Só que, no contexto atual, um golpe mesmo que “cirúrgico” fará elevar o nível de tensão para um patamar superior ao que se viveu nos últimos anos. E precipitar uma retaliação por parte do Paquistão.

Na sua análise, Sajjad Ahamed recorda também que o mundo vive hoje tempos diferentes. “A histeria nas redes sociais, as imagens de escaramuças feitas por drones e os debates televisivos empolgados comprimem os tempos de decisão”, sublinha. “Imagine-se o que acontecerá se, por exemplo, uma bala de artilharia perdida mata civis ou um ataque de drone é erroneamente identificado como o de uma incursão tripulada”, questiona. “Um líder em pânico pode subir degraus depressa demais. E o mesmo feed de rede social que amplifica mensagens dissuasivas também pode amplificar rumores, transformando um tiroteio local numa prova de traição nacional”, responde.

Antes de nova escala, uma certeza existe: o sonho de uma Caxemira turística, idealizada por Modi, está outra vez mais longe. Segundo a Reuters, os alojamentos turísticos na região estão todos agora a preço de saldo, com descontos superiores a 70%. E, naturalmente, vazios.

A coligação da ILDA

As sondagens mais recentes, mostram que este é um cenário muito provável. Não sendo a “maioria maior” com que sonha Luís Montenegro, que, até agora, ainda não falou em voz alta em “maioria absoluta”, é pelo menos uma hipótese com possibilidades reais de dar estabilidade ao País.

“O foco é ter mais um voto do que o PS.” É assim que um dos principais dirigentes da AD reage à VISÃO sobre a possibilidade de acordos pós-eleitorais. Há duas coisas que a cúpula da AD tem como certas: uma é que Luís Montenegro só governará se a AD for a força política mais votada e a outra é que “nada está decidido”. Na caravana “laranja” ninguém quer dar demasiada importância às sondagens, mesmo que elas mostrem que Montenegro ganha cada vez mais terreno, porque há o risco de o excesso de confiança contribuir para a abstenção ou para deixar escapar o voto útil. É dentro dessa lógica que na AD se evita ao máximo especular sobre possíveis negociações futuras com a IL.

Na IL, para já, também não há nenhuma vontade de tornar público um caderno de encargos para um entendimento. “Este momento de campanha é um momento para apresentar propostas. Nós não estamos aqui a decidir coligações, estamos a decidir a representação dos partidos na Assembleia da República e, portanto, cada coisa tem o seu tempo. Estaria a fazer um mau serviço ao País se estivesse neste momento a falar só de cenários”, dizia Rui Rocha à agência Lusa, pouco depois de ter saído do debate nas rádios, no qual voltou a admitir que teria de haver “uma conversa” sobre a Spinumviva antes de qualquer acordo com Luís Montenegro, mas sem dar pormenores sobre o que seria essa “conversa” e que exigências poderiam ser feitas sobre esse tema.

Apostado em fazer passar a agenda liberal, Rui Rocha tem posto grande ênfase na necessidade de cortar no Estado – até admite criar um departamento com essa função – e em fazer voltar a regra (do tempo de Passos Coelho e da Troika) que só deixa a Administração Pública contratar um funcionário por cada dois que saem. Não é difícil imaginar que essa seja uma das reivindicações a levar para cima da mesa de um acordo. No podcast do Expresso, Comissão Política, Rocha deixou isso implícito ao falar nas pastas que poderiam ser mais cobiçadas pelos liberais numa coligação. “A Modernização Administrativa parece-me uma pasta fundamental, onde teria grande vantagem para o País; a Economia é uma pasta também interessante e alinhada com o perfil da IL, mas não vou fazer uma candidatura”, afirmou.

A descida do IRS e do IRC – duas grandes promessas da AD – e a ideia de alívio no IVA da construção ou o controlo da imigração são pontos em que Montenegro não vai tão longe como Rocha gostaria, mas há aproximações. A AD também ainda não chega tão longe como a IL gostaria na ideia de abrir o SNS aos privados (os liberais querem revolucionar o sistema, com uma espécie de seguro de saúde público obrigatório), mas também nessa área pode haver aproximações. A AD também tem recusado qualquer privatização da Segurança Social na próxima legislatura, mas a IL irá carregar nas vantagens do plafonamento. Uma ideia que o estudo encomendado pelo Governo de Montenegro a um grupo liderado pelo economista Jorge Bravo (forte defensor dessa medida) pode vir a dar gás.

O irritante numa possível coligação entre a AD e a IL poderia ser o CDS. É que os liberais não podem aceitar ter menos pastas ou pastas menos relevantes do que o partido de Nuno Melo, quando a sua expressão eleitoral é já muito superior. “Essa discussão tem de refletir o peso eleitoral do partido, isso parece-me óbvio. É uma questão de bom senso para esta eleição e para qualquer outra”, avisou Rui Rocha ao Expresso, frase que pode ser lida como uma alusão às listas para a Câmara Municipal de Lisboa, nas quais liberais e centristas também terão de negociar lugares com o PSD numa possível coligação de apoio a Carlos Moedas. Essa pode ser uma negociação difícil, mas o peso crescente da IL terá de ser levado em conta pelo PSD, podendo deixar descontente o CDS.

Caso a coligação descole, as nuvens negras podem estar no cenário macroeconómico. No último trimestre, a economia contraiu 0,5% (em Espanha cresceu 0,6%) e vários analistas acreditam que o fulgor dos últimos meses pode ter sido arrastado pelas benesses dadas pelo Governo (entre elas, a descida da retenção na fonte de IRS e o aumento extraordinário aos pensionistas) que animaram o consumo interno. Se em agosto o cenário não melhorar, o País poderá entrar em recessão técnica, algo que tornaria muito difícil cumprir as baixas de impostos anunciadas, numa altura em que aumenta a pressão europeia para subir os gastos com a Defesa. Seria difícil para os liberais um recuo na ideia do alívio fiscal.

Apesar de não querer entrar em cenários, Rui Rocha já deixou claro que só poderá fazer parte de uma solução de governo com a AD. Apoiar governos que tenham o PS ou o Chega, assegura o líder liberal, está fora de questão.

Coligação “Não é Não”

Luís Montenegro demorou muito tempo a dizer “não é não” ao Chega, mas desde que o fez garante que não vai ceder um milímetro. É isso que reafirma à VISÃO um dos elementos mais próximos do líder do PSD. “Não faremos em nenhum cenário uma coligação com o Chega.” Mesmo que os votos do partido de André Ventura (que continua a dar sinais de que não sofreu nada com os sucessivos escândalos dos últimos meses) pudessem, na verdade, dar a mais sólida maioria parlamentar de todos os cenários possíveis tendo em conta as sondagens.

Luís Montenegro explicou a decisão no frente a frente com Ventura, alegando que o Chega “não tem fiabilidade de pensamento, comporta-se politicamente como um cata-vento e isso não é adequado a funções governativas”, “não tem maturidade nem decência” e “está apenas virado para destruir”. Montenegro tem-se aproximado do discurso do partido de extrema-direita, fazendo anúncios sobre notificações de imigrantes deportados, publicitando operações policiais ou usando os dias da Mulher e do Trabalhador para falar da importância da “família” ou da “cultura portuguesa”. Mas esse é um piscar de olho ao eleitorado de André Ventura e não ao líder do Chega.

A estratégia da AD é precisamente a de fazer algumas concessões às ideias do Chega, deixando-o fora das soluções governativas para tentar demonstrar que esse é um voto inútil e, assim, ir ganhar aqueles que nas últimas legislativas puseram a cruz no partido de Ventura.

Há um ano, Ventura fez tudo para entrar no Governo. E quis deixar claro que só não estava a dar uma maioria de apoio estável à AD por culpa de Luís Montenegro. Falou mesmo em “humilhação” para descrever a forma como os seus apelos a uma negociação no momento de formar governo caíram em saco roto. Durante o último ano, houve conversas (confirmadas por Hugo Soares) sobre a eleição do presidente da Assembleia da República e sobre a descida de IRS nas quais o Chega roeu a corda ao PSD, dando o dito por não dito. Mais tarde, Ventura disse ter tido reuniões com Montenegro sobre o Orçamento do Estado, mas o PSD desmentiu sempre a existência de qualquer negociação com o Chega.

Durante esta campanha, Ventura tem estado a hostilizar abertamente Luís Montenegro, comparando-o com José Sócrates à boleia dos casos da Spinumviva e de Espinho, e sendo particularmente duro nas críticas à gestão política do apagão ou ao caos que se vive na Saúde. “Montenegro quer muletas no Parlamento e quero dizer cara a cara: não contará connosco”, atirou-lhe durante o debate em que estiveram ambos frente a frente.

“Eu preciso de todos, porque nós estamos a um passo histórico de conseguir vencer”, repetia Ventura esta semana nas ruas de Santarém, durante uma arruada. No Chega, acredita-se que o partido pode mesmo passar o marco histórico dos 20%. E quem anda nas caravanas dos outros partidos admite que essa não é uma possibilidade assim tão remota, à medida que, passando por feiras e festas populares, são cada vez mais aqueles que mostram simpatia pelo Chega e cansaço em relação a PSD e PS.

A ideia de que o Chega não conta para nada pode ser um argumento importante para agregar os votos em torno da AD, mas tem sido usada também pelo Chega como uma forma de se pôr à margem do sistema e de se apresentar como a única alternativa a sociais-democratas e socialistas. Mesmo que muitos dos que estão agora nas fileiras do Chega venham precisamente do PSD (como André Ventura) ou do CDS (e nalguns casos até do BE), a ideia que o partido quer dar é a de que será uma grande novidade e fará o que nunca foi feito. É por isso que um dos cartazes do Chega tem André Ventura a pedir diretamente “uma oportunidade”. No que depender de Luís Montenegro, parece que a “oportunidade” não chegará já.

Coligação “Para a Constituição”

O Chega pode representar um milhão de eleitores à direita, mas é o partido com que o resto da direita não quer entender-se. Com os votos de André Ventura, uma geringonça de direita seria o suficiente para deixar a esquerda sem qualquer hipótese sequer de gerar turbulência política. Pelo menos em termos aritméticos, a estabilidade governativa estaria garantida. Mas nem Luís Montenegro nem Rui Rocha querem fazer essa conta de somar. André Ventura é considerado demasiado imprevisível e pouco confiável por ambos.

“Nunca, jamais, em tempo algum, a IL viabilizará um governo que integre o Chega”, declarou Rui Rocha no debate frente a André Ventura, depois de o líder do Chega lhe pôr esse cenário em cima da mesa. “Há três partidos acima dos 20%. Se a direita tiver uma maioria, e estou a incluir a IL, só não governamos se não quisermos”, tinha dito Ventura, antes de esbarrar com a nega do liberal. “No que diz respeito ao Chega, temos de fazer avaliação do comportamento do Chega nesta legislatura. Há um conjunto de coisas que demonstram que o Chega tem uma visão socialista e isso não melhorou”, defendeu o líder da IL.

Se Luís Montenegro e Rui Rocha fecham a porta a um acordo com o Chega, a verdade é que podem virar o jogo ao contrário e assumir um governo, pondo implicitamente o ónus de fazer cair um executivo de direita nas costas de André Ventura. Essa é uma possibilidade, porém, que Montenegro nunca se mostrou disponível para explorar e nada indica que o fará agora: a estratégia, caso ganhe sem uma maioria sólida, deverá ser a de continuar a pôr pressão sobre o PS para, no essencial, viabilizar a governação.

Isso não significa, porém, que – mesmo sem um acordo – as bancadas mais à direita não possam votar todas em bloco, como, aliás, já aconteceu várias vezes na última legislatura, sobretudo para travar propostas da esquerda. Tendo em conta a vontade de AD, IL e Chega de mudar a Constituição, esta maioria não selada por um acordo poderia ser a chave para o fazer, porque facilmente se chega desse lado do hemiciclo aos dois terços de deputados.

“A direita pode estar a quatro lugares apenas – fazendo a transposição dos resultados para deputados – não de uma maioria de governo, mas de uma maioria constitucional”, alertou o porta-voz do Livre, Rui Tavares, no debate que juntou nas rádios os cabeças de lista dos partidos com assento parlamentar. Tavares recordou que “Luís Montenegro foi líder parlamentar de um governo que estava sequioso por mudar a Constituição” e que “André Ventura tem sempre que possível apresentado propostas de alterar a Constituição, até no que diz respeito a direitos fundamentais”, sendo que “Rui Rocha também gostaria muito de mudar a Constituição”.

“Ou a esquerda tem clareza e mobiliza os votos progressistas e democráticos, ou podemos estar em face de uma situação que é constitucionalmente perigosa para o País, e este alerta tinha de ser lançado”, dramatizou Rui Tavares, chamando a atenção para uma coligação que, não sendo de governo, pode representar uma viragem política constitucional sem precedentes. “Não vale a pena, ninguém tem medo”, comentou Rui Rocha, sobre a possibilidade de agitar “papões” acerca do “perigo constitucional”. Rocha acabaria, porém, por confirmar no dia seguinte que o seu partido pretende uma revisão constitucional para “acabar com o socialismo”, sem dar mais detalhes sobre o que isso significa.

Uma coisa parece ser certa: não será pela mão da IL e do Chega que um governo da AD morrerá à nascença. “O doutor Luís Montenegro terá de levar ao Parlamento esse programa [de governo] e esse programa será viabilizado ou não”, disse André Ventura, no mesmo debate, não excluindo a viabilização, embora a lei não preveja a votação do programa de governo, mas sim a de moções de confiança ou de rejeição. Rui Rocha também tem repetido que a IL “estará sempre à altura das circunstâncias”, garantindo que os liberais serão “absolutamente responsáveis”. 

Bloco Central improvável

A 25 de Abril de 1983, o PS ganhou por pouco, depois de o CDS perder mais de 160 mil votos. A solução foi aquilo que ficou conhecido como “Bloco Central”, uma coligação formada por PS e PSD. Mas o filme não se deve repetir. Na altura, o CDS ficou como a “oposição construtiva”. Hoje, o Chega ajuda a baralhar as contas e é improvável que a AD queira deixar André Ventura e Rui Rocha à solta para fazer oposição à direita, sobretudo havendo uma maioria sociológica nesse lado do campo ideológico.

“Não vejo razão nenhuma para haver um Bloco Central. Coisa diferente é permitir que haja estabilidade”, diz à VISÃO um alto dirigente do PSD. Dito de outra forma, a AD gostaria de repetir o cenário no qual o PS lhe viabilizou um Orçamento do Estado e lhe travou várias moções de censura, mas uma coligação é para esquecer. Em troca de quê poderia o PS continuar a viabilizar a governação de Luís Montenegro? Na AD garante-se que “se há demonstração de capacidade de diálogo e abertura, ela foi feita pelo primeiro-ministro durante esta legislatura”, mas recusa-se entrar em cenários sobre o que poderia ser acordado. De resto, na AD rejeita-se a ideia de que o Partido Socialista tenha sido um fator de estabilidade. “A ideia de que o PS contribuiu para a estabilidade da governação é uma ideia absurda. A governação não tem 11 meses. Se a AD ganhar, dar estabilidade é deixar a AD governar quatro anos.” E caso seja o PS a ganhar? “Nenhum cenário eleitoral mostra que o PS possa ganhar” é a única resposta.

No PS é que nem se quer ouvir falar dessa hipótese de acordo de governação com a AD. “Não me parece que haja qualquer hipótese. Não há ninguém na direção do PS que defenda um Bloco Central”, diz um alto dirigente socialista. “Foi uma solução excecional, com protagonistas excecionais”, comentaram ao jornal Nascer do Sol os filhos dos dois protagonistas do Bloco Central original, Paulo Mota Pinto e João Soares, admitindo que hoje é um cenário improvável. Na altura, os dois partidos chegaram a ponderar uma ida às urnas em conjunto, mas Mário Soares e Mota Pinto optaram por medir forças separadamente. Depois, quem ganhasse assumiria o cargo de primeiro-ministro, enquanto o líder do partido que ficasse em segundo lugar ficaria como vice-primeiro-ministro. Foi um governo em que se verificou uma onda de “secretários de Estado-adjuntos” em todos os ministérios: com um ministro do PS, estaria um secretário de Estado-adjunto do PSD, e vice-versa. Boa parte do PSD nunca digeriu bem esta coligação e Mota Pinto chegou a demitir-se da liderança, abrindo uma crise no governo, mas preparando-se para recuperar o lugar no congresso da Figueira da Foz, marcado para 20 de maio de 1985, que consagraria, afinal, Cavaco Silva. É que, a 7 de maio, o malogrado professor de Coimbra faleceu, repentinamente, aos 48 anos.

Quando há um ano o PS perdeu, Pedro Nuno Santos foi muito claro a afastar a ideia de um Bloco Central. Há muito tempo, aliás, que Pedro Nuno defende que o PS deve evitar confundir-se com o PSD para garantir que há uma alternativa. Mesmo na ala mais à direita do seu partido, figuras como Álvaro Beleza defenderam em 2024 a ideia de pactos de regime, mas não de um acordo de governação entre socialistas e sociais-democratas (só Adalberto Campos Fernandes, que não é militante do PS, embora tenha sido ministro socialista, parecia mais entusiasmado com a ideia). E, no PSD, Miguel Morgado tem explicado que uma aproximação entre o seu partido e o PS poderá, a médio ou longo prazo, escancarar as portas de São Bento ao Chega.

A hipótese de juntar PS e PSD também não entusiasma muitos portugueses. Numa sondagem da Pitagórica para a CNN, esse cenário reuniu a preferência de 17% dos inquiridos. Mas o socialista Eduardo Ferro Rodrigues chegou a avançar essa possibilidade numa entrevista ao Público, embora muito no condicional. “Estas coisas não se constroem do pé para a mão, mas não estranharia que houvesse essa necessidade (…) podemos caminhar para uma situação-limite, porque há todos os ingredientes negativos do ponto de vista internacional”, disse Ferro, que acha que “às vezes, as circunstâncias obrigam os políticos a terem de se vergar a essas circunstâncias para defenderem o interesse nacional e para defenderem o interesse da democracia e do Estado de direito”.

O que poderia acontecer – e que parece estar na cabeça da cúpula da AD – é um Bloco Central de facto, não assumido. Um governo da AD viabilizado pelo PS, mas sem qualquer acordo de governação. Essa tese contraria aquela que tem sido a posição política de Pedro Nuno Santos (embora não tanto a sua prática nestes 11 meses de Governo de Montenegro). Mas, em caso de derrota (dependendo do tamanho da derrota), o mais certo é que se abra uma corrida à sucessão na liderança socialista depois das eleições autárquicas.

A difícil Geringonça 2.0

É o cenário mais improvável de todos, tendo em conta o que vão dizendo as sondagens, que mostram uma esquerda incapaz de somar mais votos do que a direita toda junta. Ainda assim, é um cenário que está na cabeça de alguns, sobretudo dos que, como Rui Tavares, acreditam que se pode tirar o Chega da equação.

A tese do porta-voz do Livre faz-se com recurso à citação de um texto do Expresso, publicado a 20 de março, no qual se explica que Marcelo Rebelo de Sousa recusará qualquer solução governativa que não tenha garantias de ter programa de governo viabilizado no Parlamento. Isso significa que, segundo esse texto, Marcelo não seguirá os passos de Cavaco Silva, dando posse ao líder do partido mais votado, para o deixar cair em seguida e procurar outra solução. Porquê? Porque o Presidente estará já em final de mandato, limitado nos seus poderes (fica sem poder dissolver o Parlamento seis meses antes das eleições de janeiro de 2026) e a situação de indefinição pode arrastar-se até o seu sucessor chegar a Belém, coisa que pode acontecer só lá para março do ano que vem.

É apostando nessa ideia que Rui Tavares apresenta a possibilidade de uma geringonça de esquerda, quando à direita a divisão é grande, mesmo que haja uma maioria aritmética. “Porque esta direita só existe para, enfim, a seguir à primeira oportunidade, entrar em canibalismo profundo, uns partidos com os outros, como, aliás, vimos pela maneira como Chega e AD se comportaram durante esta curtíssima legislatura”, argumenta.

No barómetro ESS (European Social Survey), “que avalia em 31 países, incluindo Portugal, a satisfação dos cidadãos com várias instituições, entre as quais os governos”, os anos de 2016 e 2017 foram aqueles em que os portugueses se mostraram mais satisfeitos com a governação. Ou seja, a Geringonça foi uma solução popular. Mas não é tão fácil de repetir como pode parecer (e não é só por causa das sondagens).

Pedro Nuno Santos, que foi um dos homens mais importantes para garantir que os acordos à esquerda funcionavam, é um adepto desta solução. Rui Tavares, o primeiro a defender um governo das esquerdas, também. O problema estará no PCP – que foi decisivo para a primeira Geringonça, dando a António Costa a garantia de que só não seria governo “se não quisesse” – e no BE, apesar de na altura Catarina Martins ter tomado a iniciativa de publicitar o caderno de encargos para um entendimento, num debate com Costa. É que comunistas e bloquistas ficaram escaldados com esta solução governativa.

Muitas das medidas que se tornaram bastante populares (como as creches e os manuais escolares gratuitos ou a descida dos passes sociais) vieram do PCP, mas os comunistas nunca conseguiram capitalizar esses louros. E no BE ainda não se digeriu bem a ideia de ser colado a políticas mais à direita. “Há uma dissonância entre aquilo que o PS diz que fez e o que fez”, disse a líder bloquista, Mariana Mortágua, numa entrevista ao Público, que lhe valeu uma chuva de críticas nas redes sociais socialistas por ter dito que “os socialistas deram mau nome à esquerda em muitos casos”.

A haver qualquer acordo de governação, desta vez a negociação seria muito mais exigente do que foi no passado. Nem PCP nem BE estão disponíveis para ficar conotados com políticas que não rompam com o que tem sido feito pela direita. E isso, a avaliar pelas críticas que Paulo Raimundo e Mariana Mortágua têm feito na campanha às propostas do PS, não parece ser muito fácil. Raimundo não afasta “nenhuma convergência”, mas já disse que o programa do PS “é poucochinho” e que uma solução com os comunistas depende da força do PCP. “Os votos na CDU valem sempre por dois, para enfrentar a direita e a extrema-direita, sem brincadeiras, e servem para forçar as soluções da vida das pessoas. O PS, está mais do que demonstrado, quer com o seu programa, quer com as suas opções, quer com as afirmações que tem feito, a única forma que tem de fazer alguma coisa para responder à vida das pessoas é a CDU ter mais força, mais votos e mais deputados”, disse em entrevista ao Público.

Eduardo Carpinteiro Albino e José Carlos Figueiredo, em Kia EV4, terminaram o primeiro dia do Gaia Eco Rally na liderança. Como tem sido apanágio deste campeonato, a competitividade está em alta. Como ficou demonstrado pelas muitas trocas de posições ao longo do dia, incluindo nos lugares cimeiros. Ao fim das primeiras especiais de classificação, na modalidade de regularidade, os dois primeiros terminaram separados por menos de dois segundos. E o segundo e terceiro, respetivamente a dupla Carlos Silva/Sancho Ramalho (BMW i3), atuais campeões nacionais da modalidade, e Emilien Le Borgne/Alexandre Stricher (Dacia Spring) estão exatamente com a mesma pontuação.

Amanhã a prova volta a arrancar do Cais de Gaia pelas 9h00. O segundo e último dia da prova contará com cinco especiais de classificação e uma Power Stage no recentemente renovado Eurocircuito de Lousada, com início às 12h00.

A Exame Informática segue esta prova por dentro, integrada na equipa PRIO – Exame Informática – PEUGEOT. Esta equipa é constituída por duas duplas: João Paulo Martinho/Nuno Costa em Peugeot e-208, que terminaram o dia na sétima posição, e Sérgio Magno/Ana Joaquim, em Peugeot e-3008, em 11º lugar.

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