“Pelas minhas contas, fumei mais de 400 mil cigarros durante a minha vida.” É assim que Henrique Barros, 67 anos, resume o histórico de consumo de tabaco desde os 12 anos. Além deste hábito, a obesidade e o facto de ter engordado dez quilos – chegou a pesar 115 –, e o sedentarismo durante a pandemia, transformaram-se na oportunidade “perfeita” para o desenvolvimento do cancro. Em termos técnicos, recebeu a notícia de que tinha um carcinoma pavimento celular da língua, nos primeiros meses de 2022.

No outono do ano anterior, teve a sensação de ter mordido a língua e de ter ficado com um pequeno relevo na parte inferior. Deitou um pouco de sangue, voltou a morder a língua passados uns dias, mas desvalorizou. “Certo dia, apercebi-me de que aquela zona estava rígida e pensei que poderia ser algo mais grave.” Marcou consulta e a médica recomendou a realização de uma ressonância magnética.

O processo foi relativamente rápido. Duas semanas depois, estava a fazer o exame. Na primeira consulta com o otorrinolaringologista Hugo Estibeiro, foi realizada de imediato uma biópsia, cujo resultado chegaria dez dias depois – tinha um tumor maligno e, em menos de um mês, dava entrada no bloco operatório. “Se a cirurgia for passível de ser efetuada, garantindo uma resseção com segurança e não mutilando muito o doente, é a primeira arma que temos”, explica o médico.

Henrique Barros foi submetido a uma hemiglossectomia, uma intervenção em que foi extraída metade da língua, e a um esvaziamento ganglionar, para que os gânglios fossem devidamente analisados e também para confirmar se haveria alguma invasão visível apenas ao nível microscópico e que, eventualmente, poderia ter “escapado” aos exames de imagem.

Processo delicado

A partir do momento em que surge este diagnóstico, é preciso acautelar algumas situações e possíveis consequências. “A língua tem imensas funções e, quando temos um doente com um tumor deste tipo, vamos ter de o retirar com uma margem de segurança, podendo surgir vários problemas, desde a dificuldade em mastigar, em iniciar a deglutição e em articular os sons, sobretudo na fase inicial de cicatrização, que pode demorar algumas semanas”, explica o otorrinolaringologista do Hospital CUF Tejo.

Antes da cirurgia, o doente tem de ser informado sobre todos os pormenores, por exemplo, a necessidade de realizar uma traqueostomia (abertura cirúrgica feita na traqueia, que se localiza na parte inferior do pescoço, em que é colocada uma cânula para permitir a entrada de ar), que, no caso de Henrique, foi temporária e permitiu assegurar a respiração. “Em simultâneo, durante três semanas, não poderia comer pela boca, e o doente teria duas hipóteses para se fazer chegar os alimentos ao estômago: colocar uma sonda no nariz ou uma PEG (gastrostomia percutânea endoscópica) no estômago.”

Henrique Barros optou por colocar a PEG, que consiste, segundo a Sociedade Portuguesa de Endoscopia Digestiva, “na introdução de uma sonda na cavidade gástrica através da parede abdominal, com a ajuda da endoscopia digestiva alta”.

Foi também preciso contar com a participação de Diogo Casal, cirurgião plástico, para reconstruir o volume da metade da língua que iria ser extraída. “Como fazemos isto? Temos de ir buscar tecidos (pele e músculo) na vizinhança ou à distância”, explica Hugo Estibeiro. Henrique foi submetido a um retalho livre, no mesmo momento cirúrgico em que foi preciso “retirar músculo e pele ao braço do doente”. No total, a cirurgia demorou cerca de dez horas.

Perante a proposta desta cirurgia longa e com inúmeras complicações, Henrique Barros não hesitou. “Não tinha outra saída, nem tive muito tempo para pensar no assunto. Assumi a responsabilidade de me encontrar nesta situação e sabia que era a única solução.” Foi diminuindo o número de cigarros que fumava (passou de 20 a três por dia) e deixou de fumar definitivamente dois dias antes da cirurgia. Ficou internado durante 11 dias, ao que se seguiu um exigente período de recuperação em casa.

Tratamentos adjuvantes

Qualquer tratamento ao cancro da língua “tem de ser muito agressivo, para não corrermos risco de recidiva”, defende Gonçalo Fernandez, coordenador da Unidade de Radioterapia do Hospital CUF Descobertas. “A decisão do tratamento depende muito do estádio, se o tumor atinge a mobilidade da língua, das margens cirúrgicas alcançadas, entre outros”, destaca.

Este é um tumor muito desafiante de tratar, não só ao nível cirúrgico mas também no que respeita à radioterapia. Esta tem duas funções: tratar os tumores inoperáveis (definitiva) ou reduzir o risco de recidiva depois de uma cirurgia (adjuvante). “Ao fazermos radiação nesta localização, vamos criar muita inflamação em zonas importantes do nosso corpo, como é o caso da boca, da garganta, da própria língua, e isso vai acarretar inúmeros desafios dependendo do grau de tolerância do doente.”

Quando o doente faz quimiorradioterapia concomitante, “o tratamento principal é a radioterapia”, explica Gonçalo Fernandez. Se não tolerar os tratamentos, a equipa tenta “nunca interromper a radioterapia”. Foi o que aconteceu com Henrique, que só conseguiu completar dois dos três ciclos de quimioterapia, tendo terminado as 30 sessões previstas de radioterapia.

Henrique habituou-se a cuidar de si próprio e a gerir o seu problema durante todo o processo. “Esta doença foi uma grande lição, porque temos a ideia errada de que isto só acontece aos outros”, reforça, sugerindo a fumadores que deixem de fumar e defendendo uma atitude positiva, que não se coaduna com pensamentos destrutivos. “Vou às consultas de vigilância e nunca conto com a possibilidade de a doença voltar.”

Para descontrair, e porque é um apaixonado por motas, faz muitas viagens sozinho – a mais recente levou-o a vários cantos de Portugal, onde conseguiu usufruir da liberdade de que foi privado há ano e meio.

Sinais de alerta

Existem tumores da língua que passam mais despercebidos do que outros, dependendo da localização, mas há sinais. O otorrinolaringologista Hugo Estibeiro define os principais

► Surgimento de tumefação [inchaço], zonas de enduração, uma ferida que até pode ser indolor, mas que não desaparece e se torna progressivamente maior

► Muitas vezes, quando o tumor já está muito avançado, a língua não consegue fazer todos os movimentos, gerando dificuldade na mastigação/ articulação

► Caroço / Massa no pescoço

► Impressão na garganta, que leva a pessoa a pigarrear

Fatores de risco

► Todas as formas de tabaco (cigarros, cachimbo, charuto, tabaco aquecido)

► Álcool: quanto maior a quantidade e a potência do álcool, pior

► Má higiene bucal (dentes fraturados, arestas cortantes, infeções das gengivas)

► HPV (vírus do papiloma humano)

Artigo publicado na VISÃO Saúde nº 33

Palavras-chave:

Ainda não estamos livres do caos, mas há sinais de que algo pode estar a mudar e para melhor. Aos poucos, confrontado com a dura realidade e a queda vertiginosa da sua popularidade, Donald Trump parece ter iniciado uma manobra de marcha-atrás na saraivada de tarifas que anunciou impor ao mundo, a 2 de abril, um dia que ele próprio batizou como o da “Libertação” – aquele que, nas suas palavras, seria visto como “um dos dias mais importantes na História dos EUA”, pois era o dia da “declaração da independência económica”.

Agora, cinco semanas depois, Trump já dá o dito por não dito nessa tática de guerra – embora continue a dizer que está a fazer as “melhores negociações” alguma vez vistas no planeta
A verdade é que depois de ter anunciado um acordo mais suave com o Reino Unido, Trump acabou por dar ontem o aval a um acordo com o país que sempre apontou como adversário principal: a China.  
Após negociações ao mais alto nível em Genebra, na Suíça, representantes dos EUA e da China concordaram em começar a entender-se sobre o assunto e, por isso, decidiram suspender durante 90 dias as “tarifas recíprocas” com que se queriam castigar mutuamente e, num efeito de dominó, arrastar o resto do mundo para uma possível recessão económica. O anúncio, naturalmente, foi celebrado com o “fogo-de-artíficio” habitual destes momentos: uma subida nos mercados de ações, com uma euforia como não se via há vários meses. 

Nas horas seguintes, Wall Street fechou o dia em grande, com os melhores resultados desde o final de fevereiro. O dólar subiu e, como reflexo de tudo isto, o preço do ouro, sempre visto como um porto seguro, caiu. 
Ainda não se sabe quanto tempo poderá durar esta trégua numa guerra comercial que Trump iniciou como se fosse a maior batalha da sua presidência. O pior cenário está, para já, congelado. 

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Putin tem a sua própria ideia de cessar-fogo. E é tudo menos séria. Disparou cem drones sobre a Ucrânia. Outros tantos estão a caminho. Isto não é cessar, é provocar.

Fala-se em negociações. Com Zelensky. Na Turquia. Talvez com Trump pelo meio. Mas Putin hesita. Porque falar com Zelensky é reconhecer que ele é o presidente legítimo da Ucrânia. E isso, para o Kremlin, ainda custa.

Putin vive uma ilusão. Acha-se imperador de um império que já não existe. Acreditava ter um exército poderoso, com tecnologia de topo. Três anos depois, tem milhares de mortos às costas. E nenhuma vitória.

Está encurralado. Não tem saída. Nem honra. A “operação especial” foi um erro histórico. Mas a sua obsessão não o deixa recuar. Nem avançar. Fala, depois cala-se. Ataca, depois recua. Cessa, depois volta a disparar.

Se Trump entrar em cena esta semana, tudo muda. As cartas voltam à mesa. E o baralho vira-se do avesso.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

A 15 de abril de 2025 entrou em vigor o acordo entre as associações empresariais e o Governo para um processo mais célere de regulamentação de cidadãos estrangeiros, vulgo a apelidada via verde para a contratação de imigrantes.

Este acordo baseia-se na existência de cinco pressupostos que assentam numa imigração responsável, sustentável e humanista para que o visto possa ser emitido desde o país de origem. São estes a existência de um contrato de trabalho válido, seguro de viagem e saúde, alojamento adequado e um plano de formação profissional, tal como o ensino de língua portuguesa assegurados pelas empresas contratantes.

Para poderem beneficiar deste acordo, as entidades empregadoras deverão preencher os seguintes requisitos cumulativos: ter volume de negócios igual ou superior a 20 milhões de euros, emprego direto de 150 ou mais colaboradores e ausência de dívidas à Autoridade tributária ou Segurança Social.

Estarão as entidades públicas preparadas para tão grande desafio como este de verificarem centenas de processos no tempo recorde de vinte dias enquanto, atualmente, lutam para conseguirem dar vazão aos processos que têm em mãos, sem conseguir cumprir os prazos atuais?

O processo de obtenção de visto por esta via “fast track” envolve a coordenação entre as entidades empresariais que remetem os pedidos de visto para a DGACCP que tem dois dias úteis para remeter os processos para os postos consulares correspondentes. Uma vez entregue o processo no posto consular, o mesmo segue para a AIMA e ECFE/SSI para a emissão de pareceres, uma vez emitido o parecer por estas entidades o processo regressa ao consulado para que o visto possa ser emitido dentro de 20 dias a contar do dia do agendamento do requerente de visto de trabalho. Ora, estas 5 entidades diferentes, que terão funções distintas ao longo do processo de emissão de visto, terão de ter uma máquina muito bem oleada para que os processos possam ser concluídos dentro dos prazos estabelecidos.

Para mim, que trabalho diariamente nesta área e sinto, quer as dores dos imigrantes que veem os seus processos de regularização protelados no tempo, bem como as dores das entidades empregadoras que “lutam” contra a falta de recursos para poderem exercer as suas atividades ou contra uma burocracia que lhes parece interminável, esta solução, afigura-se, na teoria como positiva e cheia de boas intenções.

No entanto, como diz o velho ditado: “de boas intenções está o inferno cheio” e prevejo alguns desafios com esta medida, que, reitero, na teoria é boa, mas que na prática poderá ser desafiante e difícil de concretizar.

Tenho muitas dúvidas e algumas questões que aguardam resposta:

Terão as empresas portuguesas que carregam já um fardo fiscal e social tão grande, capacidade para se responsabilizarem pelo alojamento e adaptação cultural dos trabalhadores? Isso não poderá desacelerar o seu crescimento?

As empresas que ficam fora dos critérios da “via verde” para a imigração não ficarão em enorme desvantagem perante as outras, no que diz respeito à contratação de estrangeiros, tendo de seguir o percurso tradicional da obtenção de visto de trabalho que, dependendo da jurisdição do consulado, poderá demorar entre dois e quatro meses?

Não estaremos nós perante o “estrangulamento” do crescimento destas empresas mais pequenas e start-ups que necessitarão de recorrer a mão-de-obra fora de território da União Europeia?

Estarão as entidades públicas preparadas para tão grande desafio como este de verificarem centenas de processos no tempo recorde de vinte dias enquanto, atualmente, lutam para conseguirem dar vazão aos processos que têm em mãos, sem conseguir cumprir os prazos atuais?

Deixo esta reflexão na esperança de que a maioria destas dúvidas sejam infundadas e o pior não se torne realidade.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

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Diz a lei que o Ministério Público encerra o inquérito, arquivando ou deduzindo acusação, no prazo de seis meses, se tiver arguidos presos, e de oito meses se não tiver arguidos presos.

Os prazos de 6 meses e 8 meses podem ser elevados para, respetivamente, 8, 10 ou 12 meses, e 14, 16, 18 meses, em função do tipo de crime ou da complexidade do processo.

Nos inquéritos em que há arguidos presos, os prazos são, como não poderia deixar de ser, escrupulosamente cumpridos. Na verdade, tais processos assumem natureza urgente e são tramitados com primazia sobre os demais.

Quer isto dizer que, por exemplo, quando é necessário lançar-se mão de um meio de prova mais complexo, imaginemos uma perícia informática ou financeira, esta assume total prioridade, sendo efetuada de imediato, “à frente” dos demais inquéritos, que “aguardarão a sua vez”.

A questão do não cumprimento dos prazos de duração do inquérito coloca-se, pois, nos processos sem arguidos presos.

Importa, desde logo, referir que os prazos previstos na lei estão completamente desajustados em relação ao tempo que é realmente necessário para investigar os fenómenos criminais atuais, especialmente a criminalidade económico-financeira e cometida por meio informático.

Acresce que o legislador evidencia não conhecer a realidade dos nossos tribunais, dos departamentos de investigação e ação penal e dos órgãos de polícia criminal, olvidando que, sem meios materiais e humanos, não se podem cumprir prazos.

Pasme-se: por vezes, lamentavelmente, o prazo previsto na lei é o tempo que demora até o inquérito ser apresentado ao magistrado para primeiro despacho ou até a iniciar-se, de facto, a investigação, para efetiva recolha de prova.

Isto é assim não porque o desejemos ou porque não trabalhamos o suficiente, mas porque estamos assoberbados de trabalho, a dar prioridade a processos mais antigos, fazendo com que os mais novos passem eles também a inquéritos antigos. É uma frustração.

Temos de repetir: faltam magistrados do Ministério Público para cumprir o mínimo das suas funções.

A prestação do serviço em acumulação de funções passou a ser uma prática comum pelos magistrados do Ministério Público, sem que sejam ressarcidos, ou atempadamente ressarcidos, pelo seu trabalho.

É muito pouco digno (para não dizer humilhante) que a magistratura que defende os direitos dos trabalhadores seja ela também vítima de, arriscamos dizer, “exploração laboral”.

Os magistrados do Ministério Público estão exaustos e, ainda assim, é-lhes exigido mais. Mais qualidade, mais quantidade, mais rapidez!

Não são raras as situações em que há magistrados titulares de mais de mil inquéritos e, depois, se algum se ausenta por baixa médica, os restantes passam a acumular mais um bocadinho, porque “não há gente”.

Relembremos que o estudo de 2023 do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, ao qual aludimos no nosso artigo de 08.07.20241, concluiu que os magistrados do Ministério Público Portugueses trabalham em média cerca de 46 horas semanais, num ritmo bastante elevado, sendo muito frequente o trabalho à noite e aos fins-de-semana.

Parece-nos evidente que não se pode falar em cumprimento de prazos para a conclusão dos inquéritos sem reforçar o número de magistrados do Ministério Público!

1 https://visao.pt/opiniao/bolsa-de-especialistas/2024-07-08-magistrados-do-ministerio-publico-em-risco-de-burnout/

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A Klein Vision revela que fez mais de 500 voos experimentais com o protótipo do AirCar, um supercarro voador que está na quarta geração e que demorou mais de 30 anos a ser desenvolvido. Agora, em 2026, será a quinta geração do protótipo que verá a luz do dia e começará a chegar às mãos dos clientes. O co-fundador Anton Zajac estima que até setembro este novo desenho terá as aprovações necessárias das autoridades europeias e dos EUA e, com isso, começará a produção em massa para as entregas arrancarem em 2026.

Este modelo destaca-se por ser dos poucos do género com quatro rodas (a escolha de três rodas é a mais popular por se enquadrar como um motociclo e não como automóvel). Ao New Atlas, Zajac conta que, para mudar de carro para avião, o utilizador “alinha o carro na pista e carrega num botão no volante. Isso transforma o volante num manípulo estilo yoke para controlar os ailerons. Ao mesmo tempo, podem puxar ou empurrar para controlar os elevadores. Há dois pedais adicionais que servem como controladores”.

Com as asas desdobradas, este veículo tem uma envergadura de 8,2 metros e estender a cauda para otimizar o posicionamento demora apenas 80 segundos. Na transformação, o motor automóvel desconecta-se das rodas e liga-se ao arrancador por trás da cabine.

“O objetivo de construir este veículo de modo dual é construir um carro desportivo que se comporte como um carro desportivo, que parece e se conduz como um carro desportivo. E em modo avião, que se comporta como uma aeronave, sem qualquer compromisso”, continua Zajac.

A versão que vai chegar ao mercado tem motores V6 de 120 graus e de 3,2 litros, com variantes de 280 a 340 cavalos. No ar, é possível atingir velocidades de 135 nós (249 km/h) e, em estrada, é fácil chegar aos 200 km/h. Sem tanques de oxigénio, a altitude máxima que se pode voar é de dez mil pés. Os três reservatórios têm capacidade para 160 litros de gasolina, o que concede uma autonomia de mil quilómetros de voo ou 800 quilómetros na estrada.

No que toca a preços, estamos a olhar para um veículo que se enquadra mais nos aviões do que nos automóveis, com os valores a rondar os 800 mil e os 1,2 milhões de dólares, dependendo da escolha do motor e do luxo a bordo do cockpit.

Este vídeo mostra o AirCar em voo e o processo de transição de automóvel para avião.

Apesar de a Igreja Católica não ser reconhecida pelas suas políticas avançadas, o novo Papa quer que seja prestada mais atenção à Inteligência Artificial e deu conta disso mesmo na sua primeira reunião formal com os cardeais. “Nos nossos dias, a Igreja oferece a todos o tesouro dos ensinamenos sociais em resposta a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos no campo da Inteligência Artificial que constituem novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho”, afirmou Leão XIV.

O novo Papa revela que escolheu o nome Leão como sinal da intenção de seguir os passos do antecessor do nome, Leão XIII, que endereçou a “questão social no contexto da primeira grande Revolução Industrial”. Este Papa liderou a Igreja entre 1878 e 1903 e tornou-se célebre pelo texto sobre Direitos e Deveres do Capital e do Trabalho, lembra o ArsTechnica.

Também o imediato antecessor de Leão XIV, o Papa Francisco, identificara a Inteligência Artificial como um risco potencial para a Humanidade se não fosse desenvolvida e disponibilizada de uma forma ética e centrada nos humanos. Francisco escreveu que os desenvolvimentos na Inteligência Artificial “devem servir a dignidade humana e não lhe causar dano” e chegou a discursar na reunião do G7 em 2024 sobre o tema, alertando par ao risco de se provocarem grandes injustiças entre as nações em desenvolvimento e as avançadas ou entre as classes dominantes e as oprimidas.

Sobre o posicionamento concreto de Leão XIV sobre o tema, ainda não são conhecidos quaisquer detalhes.

Antarte integra mais um projeto de dimensão internacional. A marca portuguesa materializou mais de quatro dezenas de peças de mobiliário para o Pavilhão de Portugal na Expo Mundial de Osaka, desenhadas pelo conceituado arquiteto japonês Kengo Kuma, que também é o autor do projeto de arquitetura do pavilhão português.

As várias tipologias de peças fabricadas pela Antarte, traduziram-se em bancos, bancos altos e mesas para o restaurante e cafetaria, assim como sofás e a mesa onde será colocado o Livro de Honra, no VIP lounge. Os materiais foram selecionados tendo em consideração a sustentabilidade, como é o caso da madeira de freixo nacional, do algodão e linho para o revestimento dos sofás, ou do aglomerado de cortiça nacional, torneado manualmente. As técnicas de produção utilizadas pela Antarte respeitaram o saber ancestral da marcenaria portuguesa.

A Antarte materializou mais de 40 peças de mobiliário para o Pavilhão de Portugal na Expo Osaka

A peça de maior destaque é a mesa onde está colocado o livro de honra do Pavilhão de Portugal. É uma verdadeira escultura composta por 177 peças de madeira de freixo nacional, de diferentes diâmetros e comprimentos. Cada uma foi torneada manualmente, num processo que implicou mais de 200 horas de trabalho manual.

A mesa onde está colocado o livro de honra do Pavilhão de Portugal é composta por 177 peças

Mário Rocha, fundador e CEO da Antarte, considera que “participar num projeto emblemático como o Pavilhão de Portugal na Expo 2025 Osaka, materializando peças desenhadas por um dos maiores vultos da arquitetura mundial como Kengo Kuma, reafirma a Antarte como um embaixador da marcenaria portuguesa em todo o mundo.”

Exemplares destas peças podem ser observados no Antarte Museum, o único museu na Europa sobre a história da marcenaria, integrado no Antarte Center, pólo industrial da marca em Rebordosa – Paredes.

Conversámos com António Trindade após o seu almoço no restaurante Aviator 6, no lounge do PortoBay Liberdade, em Lisboa, o boutique hotel de cinco estrelas perto da Avenida da Liberdade. Anfitrião nato, recebeu-nos num dia de muita chuva e anunciada tempestade, já depois de concluída a BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa. Em cinco minutos, mudou de roupa, trocando o pullover por uma camisa e um blazer. No bolso guardava pequenos cartões, mas como exímio palestrante que é, nem os consultou para dar início à nossa conversa. Uma intervenção inicial que nos deixou rendidos às suas explicações e aos seus raciocínios sobre turismo e a importância de antecipar a procura e criar boas experiências.

Foi já no fim do encontro que António Trindade recordou o seu passado e o percurso profissional. Vem de uma família madeirense de hoteleiros, do lado paterno, mas não tinha como objetivo ser um deles. No entanto, foi graças a um pedido excecional, precisamente do seu pai, Aníbal Trindade, que começou a trabalhar no ramo um ano antes do 25 de Abril de 1974 e se tornou um visionário do setor turístico. Atualmente, o turismo representa 29% do PIB da Região Autónoma da Madeira, empregando 17% da população ativa do arquipélago.

Licenciado em Direito, na Universidade de Lisboa, exerceu a prática forense durante dois anos antes de se comprometer a aguentar o barco do grupo familiar Dorisol, após a saída de vários diretores em simultâneo. O tempo passou e em 1986, quando Portugal também entrava na CEE – Comunidade Económica Europeia, o empresário foi à procura de sócios para criar a sua marca e ter a verdadeira primeira experiência hoteleira. Aliou-se a David Caldeira, engenheiro químico que trabalhou na banca como economista, e notável da ilha, e juntos associaram-se a hotéis que ou tinham relação familiar com eles ou decidiram juntar-se ao projeto. Em 1988 abriam o Eden Mar, o primeiro hotel do grupo, um quatro estrelas com 146 quartos, inaugurando o conceito de quartos espaçosos e suítes equipadas com kitchenette.

Filho de pai português e de mãe belga, conta-nos como as viagens ao país de origem da mãe levavam horas infindáveis, ora de barco até à Bélgica, ora no regresso de comboio no Sud Express de Paris para Lisboa. Aos 77 anos, é presidente e CEO do grupo PortoBay, mas António Trindade já partilhou a vontade de se manter como chairman do grupo, entrando um novo diretor-executivo ainda este ano. Em breve, haverá novidades no grupo hoteleiro português mais premiado internacionalmente. 

Correu bem a BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa? Este ano, bateu recordes com 82 mil visitantes…

Nós não temos uma grande dependência do mercado nacional. Mas foi interessante, não só porque veio muita gente de fora, mas porque os nossos habituais clientes também por lá passaram, e não estava à espera. A BTL é a última do ciclo anual das grandes feiras de turismo, depois das três grandes de referência: a World Travel Market, em Londres, em novembro, a Fitur, em Madrid, em fevereiro, e a ITB, em Berlim, logo em princípios de março.

Como pode hoje um hoteleiro ser visionário?

O grande paradoxo que se coloca atualmente na sociedade – em que temos um aumento exponencial da esperança de vida, mas os ciclos de vida dos produtos e das experiências são cada vez mais curtos – é ter de prever o que pode acontecer num espaço de tempo que ultrapasse os cinco anos. A informação que vamos recebendo é tão grande e tão maior do que era há dez ou há 15 anos, que faz com que o ciclo de vida e o ciclo de inovação sejam muito mais rápidos.

Luís Barra

Costumo comparar o meu setor com o setor da moda. Temos o exemplo típico da Inditex, dona da Zara, que quando lança uma coleção, coloca-a em lojas estratégicas durante quatro semanas, fazendo assim o teste de estímulo à procura. Depois retira-a, faz as suas contas e tem dois meses para lançar o seu produto, marcado pela imposição da procura. Quando faço um hotel, entre o início da aprovação de um projeto e abrir as portas aos meus clientes, posso facilmente demorar cinco anos. Ou seja, tenho de me adaptar numa perspetiva temporal muito maior. O grande desafio é que a evolução dos cinco anos é muito longa e faz com que tenha de me adaptar às várias vicissitudes e aos diversos ciclos de vida e de inovação.

Sou inovador quando, como detentor da oferta, estimulo a procura, e não quando reajo à procura. Porque quando estou a reagir à procura, corro o risco de perder o ritmo. Vejamos os exemplos da restauração: um restaurante passa de moda com uma facilidade incomparavelmente maior do que passava nas minhas meninice e juventude, em que era algo relativamente perene.

A burocracia também não ajuda?

Infelizmente, vivemos num país onde o setor público não é suficientemente reativo às necessidades de um setor privado ou às necessidades de uma procura. Aí corro o risco de ter os meus projetos ultrapassados no tempo, já não por uma ausência da minha capacidade de visão ou de ser visionário, mas sim por causa da grande burocracia. E isto leva-nos a ter de adaptar as tendências de oferta, correndo sempre um grande risco: quando perco algo no tempo, deixo de ser o visionário que quer estimular a procura, mas entro na fase em que estou a reagir à procura. O facto de haver instituições de regulação tão desfasadas da realidade do turismo faz com que muitas vezes estes ciclos percam o sentido.

Que boas práticas aconselha aos novos hoteleiros?

A política dos “três pês” que o grupo PortoBay defende. A grande diferenciação faz-se conjugando o melhor produto, a melhor promoção, no sentido da melhor distribuição, com as melhores pessoas. Temos uma cultura de ouvir o cliente, de beber do cliente tudo aquilo que ele possa trazer de inovação. Sou mais inovador quando estimulo a procura do que quando reajo à procura. Este é um setor feito para o cliente, de relações humanas.

A oferta customizada, feita à medida do cliente, faz cada vez mais sentido?

Sem dúvida. Há um fator na vida do turismo que é a substituição dos termos boa cama e boa mesa por boa experiência. Por isso, a qualificação das pessoas é também muito importante. Apostámos sempre mais na formação de base sobre a formação académica específica.

É dos poucos grupos hoteleiros a apostar em restaurantes com Estrela Michelin [este ano manteve as duas Estrelas no Il Gallo d’Oro, no The Cliff Bay, que também recebeu a Estrela Verde, emais três restaurantes com recomendação no Guia Michelin].

Reflete o nosso cuidado no preenchimento da experiência. Queremos ter a garantia de que a sustentabilidade da marca se faz pelas boas relações, pelos bons produtos e pelas boas experiências. Consideramos que a gastronomia é uma experiência de eleição durante a estada de um hóspede.

Foi uma estratégia pensada a longo prazo?

Não foi um acaso, nem foi um plano fortemente estruturado e trabalhado. Foi ser suficientemente versátil ao trabalhar o conceito de qualidade, ao ser capaz de diversificar a oferta que levasse o cliente a ocupar os seus tempos livres. Ganhar a Estrela Michelin não era um objetivo. O objetivo tem de ser fazer um produto suficientemente bom que seja reconhecido por qualquer guia.

Portugal tem sabido divulgar a sua gastronomia e os seus vinhos, como os espanhóis fizeram há 20 anos?

Temos de ter a consciência da dimensão de um e de outro país. A evolução da qualidade da gastronomia portuguesa é enorme. Ainda há relativamente poucos anos, um bom prato era aquele que vinha bem cheio e isso agora já não se passa. O consumidor agora tem mais mundo, é mais exigente, mas os chefes também têm mais mundo e estão mais bem preparados.

Qual é a melhor definição de turismo?

Turismo é trazer gente a consumir cá dentro, turismo é exportar cá dentro. Em vez de exportar algo ao preço do produtor, estou a trazer o consumidor cá dentro para pagar a produção, a distribuição, o fator trabalho e, muito importante, o IVA, que é a tributação. Isto tem impacto positivo em todos os setores. Neste momento, em que os Estados Unidos da América vão tributar fortemente as importações, eu digo: vamos ver se temos mais clientes norte-americanos a virem cá consumir porque nessa altura tenho a possibilidade de lhes vender mais e melhor.

O turismo em Portugal não é um só, pois não? Há vários “Portugais”?

O produto que crio está profundamente ligado às características do território. Por isso, quando se fala em pensar no turismo em Portugal, é pensar nas diferentes experiências de Portugal. Cada uma das regiões do País tem as suas características, o que me obriga como empresário a ter de me adaptar a essas mais-valias e perceber qual poderá ser o meu contributo no local. Entendo sempre que o turismo é um fenómeno, é uma indústria de base regional e inamovível. A única exceção têm sido os cruzeiros e mesmo assim têm a sua ligação ao território no interior do navio.

A que se deve o sucesso turístico da Madeira?

A Madeira era o único porto de águas profundas nas ligações marítimas entre a Europa e a África do Sul e a Europa e a América do Sul. Os navios ingleses, alemães e portugueses paravam na Madeira porque não havia a mesma capacidade frigorífica de hoje. Nos anos 20 e 30 do século XX, debandavam do porto do Funchal 20 a 30 barcos por dia. Além disso, a cidade tinha o chamariz de cinco casinos. Os ingleses quando vinham da África do Sul, de regresso a casa, ficavam uma semana para se aclimatarem àquilo que já não era África, mas que ainda não era Europa. A expressão “já chegámos à Madeira” refletia o sítio da mudança de hábitos.

Eu sabia que o empregado que me servia à mesa da Cidade do Cabo até à Madeira, vestia roupa africana em cor caqui; a partir da Madeira já era dinner jacket. A Madeira não era propriamente o destino de sol e praia, mas a ilha subtropical, onde havia um compromisso não só com as realidades tropicais, mas também uma vivência europeia.

Ainda faz sentido falar em época alta do turismo na Madeira?

Já não. Dentro da época alta, existem uns períodos mais baixos do que outros. A Madeira é um caso relativamente excecional porque, por força de várias circunstâncias, faz com que a procura se mantenha a um nível muito elevado durante todo o ano. O grupo PortoBay tem ocupações que ultrapassam os 90% da ocupação ao ano.

E, convenhamos, o Algarve também tem sabido fazer crescer o seu prazo ou os seus períodos de ocupação. E à medida que se vão aumentando as operações, agora situadas entre o final de março e o final de outubro, a pequena restauração e o pequeno comércio têm de perceber que têm de abrir o ano todo.

Com a diminuição do poder de compra, viajar voltou a ser menos democrático?

Essa é uma situação relativamente conjuntural e diz muito respeito a Lisboa. O Porto, no momento presente, tem oferta muito mais aliciante do que Lisboa, porque a capacidade de reação da oferta sobre a procura é efetivamente diferente. Lisboa tem as acessibilidades esgotadas, mas é ainda muito aliciante o preço de uma visita a Lisboa ou de uma saída de Lisboa.

O alojamento local veio redefinir o território?

O contributo do alojamento local para a requalificação urbana é indiscutível. Não era minimamente interessante requalificar imóveis para o arrendamento normal, devido à ausência de liquidez do próprio investimento. Mas tem instrumentos de regulação completamente diferentes dos da hoteleira. As facilidades que se colocam, quer em termos de projeto, quer do próprio funcionamento, não têm rigorosamente nada a ver com a hotelaria. A regulação deve ser tão próxima quanto possível, não só ao aliviar alguns constrangimentos que se colocam em termos hoteleiros, como também nalgumas exigências adicionais que se colocam ao alojamento local.

É um defensor da taxa municipal turística?

A taxa deve ser sempre considerada como uma taxa e não como um imposto. Por isso, é fundamental que seja vista como uma necessidade de contributo do turista para minimizar os impactos negativos que possa causar. Estas taxas devem ter uma abrangência que supera o próprio município e beneficia a região.

Estranharia se na Madeira houvesse manifestações contra o turismo de massa, como aconteceu nas ilhas espanholas?

O madeirense não age dessa forma porque sente que a mais-valia trazida pelo turismo compensa francamente os inconvenientes que eventualmente surjam. Há uma propensão inflacionista, em termos de habitação e dos preços de mercado, mas o que o madeirense sente é que o contributo destas 60 mil camas (metade hoteleiras e metade em alojamento local), para uma população de 250 mil habitantes, quer em termos de emprego, quer em termos de geração de riqueza, são suficientemente compensatórias no que diz respeito a ter este aumento de consumo. Repito: turismo é trazer mais gente a consumir cá dentro. O contributo do turismo é tanto maior quanto o mesmo consumidor estrangeiro possa gerar muito mais riqueza aos outros setores do que o autóctone.

Ainda é possível construir mais na Madeira?

Vou às Baleares ou vou às Canárias e o rácio entre o número de camas e o número de habitantes é em muito ultrapassado. Diria que a Madeira pode ter zonas que já estão superlotadas, sem capacidade de crescimento – a zona de expansão natural do Funchal, que tem os melhores acessos ao mar, os melhores passeios e os melhores restaurantes –, mas há um fenómeno que se passa nas diferentes regiões nacionais, que não é propriamente o alojamento local, é a compra de imobiliário por estrangeiros. A verdade é que posso voar da Madeira para 72 origens, quer dizer que as mesmas 72 origens podem ir à Madeira e ficar para sempre.

A última expansão da pista do aeroporto do Funchal aconteceu há 25 anos. Como se resolve uma nova ampliação?

A pista tem dimensão suficiente. A Madeira é uma ilha com muitas montanhas, tem uma orografia difícil e não foi fácil encontrar a melhor localização. O grande problema do aeroporto não é a sua dimensão, são os seus ventos. Tem havido um atraso enorme na dotação de equipamento para minimizar os efeitos do vento, como também em encontrar alternativas que possam servir a região. O aeroporto da ilha vizinha do Porto Santo tem servido muitas vezes para receber os aviões em momentos de dificuldade e impossibilidade. O que é importante é criar a mobilidade suficiente nas ligações interilhas.

O para-arranca nas obras de melhoria do Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, está a prejudicar o turismo?

O Aeroporto de Lisboa não serve só a capital, é um grande hub de abastecimento doméstico nacional, para o Algarve, para o Porto, para a Madeira, para os Açores. Servir preferencialmente os destinos portugueses como fator de atratividade adicional, como fator de alimentação de noites nos outros destinos, é algo que tem de ser assumido como responsabilidade da transportadora nacional. Não só é preciso aumentar as estadas, mas também só deslocando alguns hubs para outros aeroportos nacionais, como Porto ou Faro, fará com que haja mais disponibilidade em Lisboa. Por exemplo, nos voos intercontinentais ou mesmo nos voos europeus, um passageiro fazer Frankfurt-Lisboa-Funchal ou Frankfurt-Porto-Funchal será exatamente o mesmo. Agora a realidade é esta: se se alimentar mais aeroportos alternativos a Lisboa, isso libertará mais lugares para servirem efetivamente a capital.

Fazer o novo aeroporto em Alcochete foi a melhor escolha?

Não sou técnico de aeronáutica, não quero discutir a localização. Alcochete deve ser considerado o grande aeroporto do futuro. Por isso, é fundamental, em primeiro lugar, que se otimize o Aeroporto Humberto Delgado. Um cliente que fique sete noites no hotel vale tanto como sete clientes que fiquem uma noite, a unidade que conta é essa. Perante constrangimentos como o de ter um aeroporto sem capacidade de crescimento, como é que posso responder em termos de oferta a solicitações crescentes da procura? Já que não tenho a possibilidade de ter clientes a mais, então tenho de trabalhar para os ter mais tempo. Este é um fator fortemente diferenciador porque ao passar de duas para três noites, só por isso tenho um aumento de 50%.

Com mais uma crise política e novas eleições legislativas, a venda da TAP volta a ficar suspensa. Como é que este dossier poderá ter seguimento?

Isto é particularmente importante e tem a ver com as opções nacionais na escolha do próximo comprador da TAP. Sou um forte defensor de que a TAP consiga preferencialmente integrar o IAG – International Airlines Group, grupo que controla companhias como a British Airways e a Iberia. Em termos nacionais, é fundamental que percebamos que a nossa capacidade de intervenção à escala europeia precisa de uma dimensão mínima nacional. O mesmo não aconteceria se assumíssemos em conjunto com Espanha uma dimensão ibérica. O caso da Escandinávia, de três pequenos países [Dinamarca, Suécia e Noruega] que souberam integrar-se numa estratégia conjunta, o próprio Benelux [união económica e aduaneira formada pela Bélgica, Holanda e Luxemburgo] e a ligação da Holanda à Alemanha, para ganhar em muitas áreas dimensões mínimas, são três exemplos que devem fazer-nos pensar a sério sobre como definir uma estratégia ibérica de afirmação.

Luís Barra

O que ganharíamos em trabalhar em conjunto com Espanha?

Nós somos um país fortemente unitário, com duas regiões insulares. As grandes decisões são sempre assumidas numa base de país unitário, mas muito dependentes da centralidade de Lisboa. E, por isso, outras regiões que não têm peso político, como o Porto ou o Algarve, por exemplo, têm sempre dificuldade em se afirmar, e isto não se passa com Espanha. A assunção do poder regional e do conceito de regionalismo em Espanha tem feito com que haja uma necessidade conjunta a todos os níveis, quer das acessibilidades, quer da afirmação do desenvolvimento económico. Todas as cidades espanholas se cruzam por ligações aéreas e ferroviárias. É esta perceção de uma visão em estrela no desenvolvimento que é preciso ter.

O aumento da oferta hoteleira tem de ser acompanhado pelo transporte aéreo, mas os limites da capacidade aeroportuária são um travão ao turismo. É um círculo vicioso.

Infelizmente. Os hotéis que estão a ser construídos agora foram pensados há cinco ou dez anos. Este ciclo de vida que é maior na oferta e totalmente desfasado do ciclo de procura é um dos grandes problemas desta adaptação em termos de turismo nacional. Aquilo a que se assiste agora no crescimento da oferta em Lisboa eventualmente não aconteceria se houvesse uma informação atual que dissesse que o próximo aeroporto só daqui a dez anos é que vai estar pronto. É fundamental que todos os stakeholders na área da mobilidade, por exemplo, tenham a mesma visão, para que a procura centrada mais em número de noites do que em número de clientes acompanhe o crescimento da oferta.

Os destinos dos voos da TAP condicionam os vossos planos de localização de um hotel?

Preferencialmente, sim. O exemplo do investimento do grupo PortoBay no Brasil [a abertura do primeiro hotel no país, no Rio de Janeiro, em 2007] foi inclusivamente uma segunda opção de investimento. Não fomos para o México, como defendia a nossa empresa parceira Thomas Cook na altura, um dos maiores operadores turísticos europeus, e o Brasil constituía um mercado particularmente importante. São 200 milhões de habitantes, mas só 10%, 20 milhões de brasileiros, viajam. Porque não ter hotéis nos sítios que são grandes geradores de tráfego turístico? Por isso, fomos para o Rio de Janeiro e para São Paulo, em 2009, com uma pequena exceção de Búzios, em 2007, uma unidade só com 20 quartos.

Em que zonas privilegia abrir novos hotéis?

A prioridade a curto prazo é consolidar a operação algarvia. Temos oito unidades hoteleiras na Madeira, tínhamos só uma no Algarve, em ambiente de cessão de exploração, o PortoBay Falésia, em Albufeira, e achámos que era o momento exato para aumentar a nossa capacidade, não só numa lógica de exploração, mas também numa lógica de investimento.

Está a falar da parceria que fez com o grupo da família Humbria Brazão?

Perguntei-lhes se havia interesse em venderem o hotel Blue Ocean, vizinho do lado do PortoBay Falésia, e são eles que nos dizem: “Queremos que sejam nossos sócios nas duas propriedades.” Passámos de 310 para 660 quartos e temos mais projetos que vão suportar o nosso plano de investimentos futuros: mais um hotel no Algarve, na zona velha de Lagos, e um outro na zona velha do Funchal. Queremos consolidar a nossa oferta, ganhar uma dimensão acrescida em termos nacionais, não sem que estejamos francamente abertos a olhar para Espanha.

Esta joint venture é uma forma de fintar os grandes fundos de investimento, responsáveis pelo aumento dos preços do imobiliário turístico?

O aparecimento dos fundos de investimento imobiliário determinou alguma mudança. A visão que tinha como investidor, alguma tolerância sobre os prazos de payback do investimento – se não conseguisse em sete ou oito anos, não perdia a hipótese de melhorar o meu produto, mesmo que o payback fosse aumentado –, fez com que começasse a olhar para o investimento de forma reativa, porque estávamos a ser ultrapassados.

As guerras obrigaram as pessoas a repensar os destinos de férias. A localização geográfica de Portugal tem-nos beneficiado? Mas até quando estaremos salvaguardados?

Enquanto as situações de guerra mais ligadas ao Leste do Mediterrâneo se mantiverem de base regional, seremos ganhadores porque há um princípio de vasos comunicantes no Mediterrâneo, sempre. A oferta turística é superior à procura turística numa base relativamente estável da Europa. Os contributos que tem havido de mercados intercontinentais, nomeadamente do dos Estados Unidos para a Europa, têm sido importantes. Estão criadas as condições para que haja uma diferenciação da nossa oferta turística. Evidentemente, há fatores que alteram esta concórdia. Em primeiro lugar, são os investimentos feitos na bacia Leste do Mediterrâneo em termos turísticos e diria com particular ênfase na Turquia, um grande concorrente da bacia ibérica.

Não podemos esquecer-nos de que a Turquia tem uma Turkish Airlines com 300 e tal aviões com uma ligação intercontinental muito grande, mas serve-se da lira turca. O turismo tem uma importância suficientemente grande para fazer com que a moeda se altere em função da evolução do tráfego para o país. Depois tem muitos exemplos de investimentos verticais, ligados ao transporte, à operação turística e ao hotel.

Alguma vez sentiu a desvantagem da insularidade?

Para um madeirense, o mar é um fator de ligação ao mundo, de libertação e de mudança. Durante muitos anos, até quase meados do século XX, a Madeira era uma região particularmente pobre e vivia das remessas de emigrantes que os barcos levavam para a Venezuela, a África do Sul e o Brasil. Não podemos esquecer-nos de que uma terra de 250 mil habitantes atualmente tem mais de um milhão de madeirenses, de primeira e segunda gerações fora da região.

B.I.

> Nome
António Jorge Mammerickx da Trindade

> Vida
Nasceu a 10 de fevereiro de 1948. É licenciado em Direito, pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, mas só exerceu advocacia durante dois anos. Toca piano e fez parte do conjunto musical Sweet Lovers, em que tocava viola baixo

> Carreira
Além da atividade hoteleira, tem um passado na política. Foi vereador da Câmara Municipal do Funchal, durante três mandatos, e foi deputado do Partido Socialista duas vezes na Assembleia Legislativa Regional e outras duas na Assembleia da República

Números do Grupo PortoBay

89% ocupação
Taxa de ocupação média anual, em 2023 e 2024

€129 milhões
Receitas em 2024, um crescimento de 11% face ao ano anterior: 116 milhões de euros em Portugal e 86 milhões de reais (14 milhões de euros) no Brasil

4 050 camas
No total dos 1 689 quartos espalhados por 17 hotéis de quatro e cinco estrelas em Portugal (Madeira, Algarve, Lisboa e Porto) e no Brasil (Rio de Janeiro, Búzios e São Paulo)

5 distinções
No Guia Michelin 2024: renovação das duas Estrelas Michelin e a Estrela Verde para o restaurante Il Gallo d’Oro, mais três recomendações para o Avista, o Horta e o Avista Ásia

Artigo publicado originalmente na Exame nº 489