Não sei em que lugar vai ficar “bolha” naquelas listas que se fazem no fim do ano com as palavras que se utilizaram mais, mas cheira-me que não ficará nada mal classificada.
Os políticos vivem numa bolha e por isso não percebem os problemas das pessoas, os jornalistas vivem numa bolha e depois não contam o que realmente se passa no País, os comentadores vivem numa bolha e depois ficam surpreendidos com os resultados eleitorais, os do litoral vivem numa, os do Sul noutra, e por aí fora.
O facto é que sempre vivemos em bolhas. Ao longo dos tempos fomo-nos agregando em grupos em função da nossa religião, origem geográfica ou pertença social, entre milhares de outras razões. A grande questão sempre foi e continua a ser a forma como coexistiam. E para coexistirem pacificamente (ou não), tem obrigatoriamente de haver um fenómeno: encontrarem-se.
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Dá ideia de que é um erro de formulação, já que a coexistência parece exigir encontro, mas não é verdade. Podemos coexistir num espaço e não nos encontrarmos. Aliás, essa é exatamente aquela que penso poder ser a nova definição de bolha: num espaço predefinido, várias bolhas coexistem sem se encontrarem.
As redes sociais têm sido acusadas de muitas maldades e na maior parte das vezes justamente. Aquilo que pensamos poder servir para aumentar a liberdade, para apoiar movimentos pró-democracia, para unir pessoas, para melhorar o sentido de comunidade, teve exatamente o resultado oposto, e em todos estes aspetos.
Fiquemos pelo fator agregador, o tal unir as pessoas. Realmente, conseguiu construir grupos de pessoas em redor de causas. O problema é que a forma como se constroem é quase sempre contra qualquer coisa e utiliza-se uma linguagem e uma atitude que tornam impossível o diálogo com quem defende outra perspetiva.
Aliás, o discurso das novas forças antidemocráticas é uma réplica quase perfeita do das redes sociais. Os novos ditadores perceberam que seria muito mais eficaz atrair e agregar pelo insulto, pela ofensa, pela difamação, do que falar dos problemas das pessoas ou propor soluções. Basta ouvir um desses personagens e comparar a sua linguagem com a das redes sociais.
Mais, as redes sociais são ótimas para criar grupos que, no fundo, não o são. Esses grupos são de pessoas que não se encontram nem nunca se encontrariam porque o seu contacto com o mundo exterior praticamente se resume ao mundo virtual. A falta de contacto físico potencia o agregador de ressentimentos: cada um tem o seu e isso une, apesar de poderem ser díspares e algumas vezes antagónicos. Os sentimentos e a forma de os expressar fazem essa espécie de união.
A falta de contacto físico, da conversa cara a cara, propaga todos os ressentimentos, toda a intolerância e inflama qualquer discussão. A minha cara leitora ou o meu caro leitor já com certeza teve discussões através do WhatsApp que jamais teria cara a cara e não diria as coisas que disse se tivesse de as dizer em frente duma ou de várias pessoas. É tão fácil ser terrorista de teclado.
O trabalho, que é central na nossa vida, está também a contribuir para nos isolar. O trabalho remoto vai ter a curto prazo péssimas consequências na produtividade (ao contrário do que se esperava) porque destrói a consciência de equipa e a troca de experiências profissionais, mas contribuiu ainda mais para o isolamento geral.
Não nos encontramos no trabalho, nos cafés, nem nas associações recreativas, nem nos poucos jardins e até na rua, circulamos como ilhas com auriculares nos ouvidos ou como autómatos de olhos pregados no ecrã do telemóvel.
No entanto, as redes sociais estão longe de ser o único fenómeno a isolar-nos individualmente e aos grupos a que pertencemos. Esse isolamento vem de trás. Os grupos deixaram de se cruzar, a arte deixou de falar dos problemas do dia a dia, as histórias que jornalistas e escritores contam não são as do homem comum.
Lembro-me muitas vezes duma crónica do Pacheco Pereira, no tempo do bloqueio da Ponte 25 de Abril, onde ele descrevia a vida dum cidadão que vivia na zona de Almada e que trabalhava em Lisboa. Textos, livros ou peças de teatro em que se abordem as dificuldades das pessoas comuns em Portugal são pouquíssimos – e isso é particularmente notável depois de termos passado pela crise da Troika e pela pandemia. Há uma falta de empatia que deriva do isolamento e que tem um terrível potencial desagregador da comunidade. E sim, essa falta faz aumentar a revolta e o ressentimento.
Se a isso somarmos este novo mundo neoliberal em que quem é rico é porque merece e quem é pobre ou ganha pouco não passa dum falhado, temos uma bomba nuclear pronta a explodir nas nossas comunidades.
Estávamos nas bolhas. As tais que não se ligam, chocam umas com as outras e se repelem. Os problemas da escola pública e da privatização acelerada da saúde são outros dos dois blindadores das ditas.
A divisão entre ricos e remediados na saúde privada e pobres na saúde pública (os ricos só lá vão quando o perigo é grande) faz crescer a sensação de nós e eles, e, lá está, isola-nos em alturas em que mais parecidos estamos com o nosso semelhante: nas doenças que não escolhem destinatário.
Entre o tipo que é tratado a uma gripe em meia hora e o que tem de estar seis horas numa urgência, cava-se um fosso de revolta.
Quando eu andava na escola, havia gente de todas as origens sociais e económicas, de todas as cores. Não eram só amizades que se formavam, era também a consciencialização da diferença e das dificuldades das vidas das outras pessoas e famílias.
Hoje temos os mais pobres e os mais carenciados social e culturalmente na escola pública, enquanto as famílias que podem põem os filhos em escolas privadas. Isso cava um fosso social e de empatia desde a mais tenra idade.
Não vou agora refletir sobre o que levou a escola pública a este estado, sei apenas que as consequências da fuga das famílias para o privado estão muito para lá do ensino, têm profundas implicações no tecido social e na forma como nos relacionamos como comunidade.
Que fique claro, continuo a pensar que o crescimento da adesão a movimentos antidemocráticos, racistas, xenófobos e que só exploram os ressentimentos e descontentamentos está longe de ter duas ou três explicações. Pior, estou convicto de que mensagens como o ódio aos imigrantes e o racismo têm muitos recetores em Portugal e sempre tiveram. Não tinham era protagonista.
Mas o mundo atual está votado em isolar-nos e, pior, em pôr-nos uns contra os outros. Esses movimentos aproveitam isso e apostam em dividir-nos cada vez mais. Não sei qual é a solução para travar quem quer destruir a democracia e concentrar ainda mais a riqueza nos mais ricos. Sei, porém, que quanto mais vivermos longe uns dos outros, quanto mais nos isolarmos nas redes sociais e em casa, quanto mais formos intolerantes, quanto mais deixarmos de investir na escola e na saúde públicas, quanto mais deixarmos crescer as bolhas, mais perto estamos de dar a vitória a esses novos ditadores.
A frase “I can’t believe I still have to protest this shit” (Eu não acredito que ainda tenho de protestar contra esta m…) vê-se amiúde nas manifestações de mulheres, é título de livro e produto de merchandising, de pins a t-shirts. Resume perfeitamente o limite da paciência a que se chegou neste primeiro quarto do século XXI quando, por toda a parte no mundo ocidental, se levantam as forças que querem empurrar-nos de volta aos tempos passados. E, no entanto, ainda “ontem” as mulheres eram consideradas inaptas para votar, quanto mais para ter autonomia sobre o seu corpo para decidir ter ou não um filho.
Adriana Smith, uma enfermeira de 30 anos, está em morte cerebral desde fevereiro, no estado norte-americano da Georgia. A situação é irreversível, mas no momento da morte Adriana estava grávida de oito semanas e a família não foi tida nem achada na decisão de a manter ligada às máquinas, como incubadora do feto. A lei proíbe o aborto a partir do momento em que se deteta atividade cardíaca no feto – pelos vistos, mesmo em caso de morte da mãe.
Por cá, tem dado que falar um anúncio antiaborto patrocinado pelo dono da Prozis, Miguel Milhão, uma marca de suplementos alimentares. Intitulado “Obrigado, Mãe”, o vídeo tem imagens inenarráveis de mulheres a tirarem senhas, como se estivessem no talho, para fazer um aborto, além de apresentar a figura do Estado como um carrasco. O anúncio já motivou diversas queixas.
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Mas talvez o maior sinal dos tempos no que diz respeito aos direitos das mulheres, especificamente em Portugal, tenha sido dado esta semana pelo Conselho da Europa. Diz um relatório divulgado na segunda-feira por um grupo de peritos independentes que os nossos juízes precisam de formação obrigatória de modo a combater “as sanções brandas e desproporcionadas” nos crimes de violência doméstica e sexual.
Diz ainda que, apesar dos “progressos significativos”, o poder judicial enferma de “atitudes patriarcais ainda presentes em alguns membros do sistema judicial, que privilegiam a proteção da unidade familiar em detrimento dos direitos das vítimas”.
Não faltam sentenças neste país a dar razão aos peritos do Conselho da Europa. Do juiz que invocou a Bíblia para justificar a violência física do marido porque a mulher era adúltera (caso que até motivou uma manifestação, em 2017, frente ao Conselho Superior de Magistratura) ao Tribunal de Viseu que absolveu um arguido porque a mulher era autónoma e não dependia financeiramente do homem, portanto os juízes não entendiam como ela aguentou tanto tempo sem fazer queixa.
No ano passado houve um total de 112 homicídios dolosos em Portugal. Em 93,4% dos casos, o agressor conhecia a vítima – um quinto das vítimas foram mulheres no âmbito de violência doméstica.
Parece impossível que em 2025 ainda estejamos a discutir os vieses machistas do sistema judicial. A dizer que os juízes têm de ter formação para que não lhes pese mais o sentimento de posse sobre o corpo das mulheres no prato da balança.
Parece impossível, mas ainda temos de o fazer. Que a falta de paciência não se torne, ela própria, um dos maiores inimigos desta luta interminável.
À hora a que se fechava esta edição, estavam a ser contados os votos da emigração. Dentro dos envelopes está um dado que pode significar uma mudança de paradigma no regime democrático. Confirmando-se, como tudo leva a crer que sim, que o Chega é a bancada da oposição com mais deputados eleitos, o partido de André Ventura entra num novo patamar: o patamar em que passa a fazer parte das grandes decisões de regime. Isso incluiu um peso especial numa revisão constitucional, mas não só. Como líder da oposição, Ventura pode ser chamado a fazer listas com a AD para nomear personalidades para os principais cargos do sistema, vai ter mais presidências de comissões parlamentares e mais um elemento no Conselho de Estado. E Ventura passa, pela Lei das Precedências do Protocolo do Estado Português, a ser a oitava figura do Estado.
Como não há regras escritas sobre o que significa exatamente ser líder da oposição (a não ser as que dizem respeito à representação no Parlamento e no Conselho de Estado), o PS espera, contudo, para perceber o que fará a AD perante um cenário político inusitado. Passará a fazer com o Chega as nomeações e negociações que, até agora, fez sempre com os socialistas? Ou manterá André Ventura fora das questões de regime?
Os argumentos do PS
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Até agora, Luís Montenegro tem optado pelo silêncio. Isto, apesar de, como indicam à VISÃO várias fontes, nos últimos dias ter tido conversas com o presidente do Partido Socialista Carlos César, que no PS são vistas como “um bom sinal”, ainda que não se perceba muito bem que frutos podem dar.
Publicamente, José Luís Carneiro tem feito pressão para que não se desfaça o canal privilegiado entre os dois partidos, mesmo que a aritmética parlamentar tenha mudado. “A AD tem de clarificar quem é o parceiro para negociar e dialogar relativamente às matérias de regime”, disse Carneiro à CNN, na segunda-feira, notando que isso inclui “por exemplo, a designação de representantes para os diferentes órgãos de soberania e para as diferentes funções de soberania” porque “estas matérias foram sempre matérias de acordo entre os dois principais partidos”.
Maioria AD, Chega e IL passam a ter dois terços dos votos. Juntos, podem mudar a Constituição ou ultrapassar chumbos do TC ou do Presidente
O argumento dos “dois principais partidos” cai por terra, caso o Chega tenha mais deputados eleitos. Mas José Luís Carneiro – até agora o único candidato à liderança do PS – tem outro argumento: o de que a AD, não contando com o Chega, precisa dos votos socialistas para chumbar a moção de rejeição ao Programa de Governo anunciada pelo PCP e para viabilizar pelo menos o primeiro Orçamento do Estado.
Para Carneiro, terá de ser a AD a tomar a iniciativa de negociar com o PS. “Aguardamos pelo diálogo e pelo contacto daqueles que hoje têm responsabilidades maioritárias no País”, disse, porém, já depois de anunciar na Comissão Nacional do PS que irá votar contra a moção de rejeição ao Programa do Governo apresentada pelo PCP, como sinal de “boa-fé”, e depois de ter confirmado na CNN que pretende deixar cair a ideia de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) à Spinumviva, a empresa familiar do primeiro-ministro. “A questão está hoje no foro da Justiça, devemos também aguardar pelos desenvolvimentos no foro da Justiça”, afirmou, com a ressalva de que essa posição pode ser revista caso surjam “novos elementos e novos dados”.
A tese da “prática parlamentar”
Enquanto a AD não abre o jogo, no PS fazem-se contas ao que aí vem. O Chega poderá vir a escolher nesta legislatura já três juízes para o Tribunal Constitucional, mas também fazer com a AD as listas para órgãos como a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), o Conselho Superior da Magistratura, o Conselho Económico e Social (CES) ou a entidade que fiscaliza as secretas. Será o Chega a entrar com os dois pés no sistema. Algo que o PS quer travar, mas que parece muito provável que aconteça, se Luís Montenegro usar o mesmo raciocínio que o fez eleger Diogo Pacheco Amorim para a Mesa da Assembleia da República.
Em março de 2022, o PSD, então liderado por Rui Rio, ajudou a chumbar o nome de Pacheco de Amorim. “Foi o resultado natural, repetido duas vezes, porque em consciência os deputados da generalidade dos partidos consideraram que não era adequado que uma força política não democrática pudesse estar representada na Mesa da Assembleia da República”, concluía na altura o líder parlamentar socialista Eurico Brilhante Dias.
Essa “consciência” mudaria em setembro de 2022, já com Luís Montenegro aos comandos do PSD e depois de o seu líder parlamentar, Joaquim Miranda Sarmento, ter enviado uma mensagem com uma indicação de voto favorável à sua bancada. Nesse email, Miranda Sarmento invocava a “prática parlamentar” que atribui o direito a indicar um nome para vice-presidente da Assembleia da República aos quatro partidos mais votados. “Nesse sentido, a direção do grupo parlamentar apela às senhoras e senhores deputados que votem a favor da candidatura apresentada nas eleições que se realizam hoje”, escreveu.
A reação de André Ventura foi festiva. “[O voto a favor] vem no seguimento da normalização das relações que queremos ter com os restantes partidos e fica claro que em 2026 tem de haver esta normalização para uma solução governativa à direita”, vaticinou quando parecia que a maioria absoluta de António Costa ia durar até essa data. Depois disso, não só o partido de André Ventura nunca mais saiu da Mesa da Assembleia mas também Diogo Pacheco de Amorim foi eleito vice-presidente, como o Chega passou a ter aí mais dois representantes, Gabriel Mithá Ribeiro, como secretário, e Filipe Melo, como vice-secretário.
A linha vermelha de Carneiro
No PS, há até quem tema que esta ascensão do Chega a segunda força política possa ter como consequência simbólica a saída do PS do edifício mais nobre do Parlamento. Algo que os socialistas veem como uma possível “humilhação simbólica” e um erro a longo prazo do PSD. “Se estivesse no lugar do PSD, não procuraria humilhar o PS. Não acho que isto seja o fim da linha para o PS”, diz um dirigente socialista, que tem visto “arrogância” na forma como os sociais-democratas estão a tratar os socialistas, sem pensar que nas próximas eleições podem ser “as próximas vítimas” do Chega. “A AD tentará que o PS seja um viabilizador do Governo”, comenta outro dirigente socialista, que acha que Montenegro está “a testar os limites do sistema democrático”, capturando o PS ao mesmo tempo que deixa o Chega de mãos livres para fazer oposição.
Depois de se perceber que salas e lugares ocupará o Chega, será a revisão constitucional a clarificar posições. A AD tem repetido que esta não é uma prioridade, mas basta um partido avançar com uma proposta para se iniciar o processo, restando saber como vota cada uma das forças políticas as alterações propostas. “Se eles forem a jogo, temos de pensar se apresentamos proposta ou não”, nota uma fonte socialista, lembrando que no ano passado chegou a haver um consenso entre PSD e PS sobre alterações relacionadas com a possibilidade de utilização de metadados pelas secretas e sobre restrições de direitos em caso de pandemia. Apesar dessa aproximação, o processo acabou por abortar, tal como aconteceu nas últimas oito vezes em que se iniciou desde 2005.
José Luís Carneiro já traçou uma linha vermelha no seu discurso na Comissão Nacional do PS: “Que fique claro: não seremos parceiros para nenhuma operação de subversão da Constituição.”
Despedimentos à vista
BE enfrenta a sua maior queda. Mariana Mortágua ficará a solo no Parlamento
Austeridade Mariana Mortágua terá de fazer cortes no BE
No próximo mês, os trabalhadores do BE começarão a saber com o que contar. A direção do partido ainda está a fazer contas, pelo que ainda não é claro quantos terão de ser despedidos da estrutura do partido. Mas uma coisa é certa e não há volta a dar: vai ter de haver cortes.
Com a queda eleitoral, a subvenção pública a que os bloquistas têm direito caiu quase para metade. Em vez de receber 930 mil por ano, o partido passa a receber apenas 415 mil euros. Além disso, com apenas uma deputada eleita, desce também o número de assessores parlamentares.
No partido, ninguém quer falar sobre o tema, mas todos assumem que os cortes serão grandes e que, desta vez, os cuidados terão de ser redobrados, porque o escrutínio público vai ser enorme. O escândalo sobre a forma como o BE despediu mulheres que tinham acabado de ser mães deixou marcas. E na cúpula bloquista ninguém quer voltar a cometer erros.
O BE não quer, porém, estar só a olhar para dentro. Mariana Mortágua estabeleceu desde já duas prioridades: fazer pressão para impedir uma revisão constitucional à direita (mesmo que a esquerda não tenha votos suficientes para a travar) e trabalhar em acordos para as autárquicas. “O objetivo do Bloco é reerguer-se, recuperar, criar e ampliar alianças e lutar pelo nosso povo com determinação”, lê-se na resolução da Mesa Nacional que fez o balanço eleitoral.
A VISÃO sabe que já estão muito avançadas as conversas para coligações com o Livre e o PAN em vários concelhos. Mas Lisboa continua a ser uma incógnita: os bloquistas vão voltar em breve à negociação com o PS e gostavam de trazer para a mesa também o PCP, sob a ideia de que o grande objetivo tem de ser derrotar Carlos Moedas. Mas nem os socialistas fecharam ainda nada nem os comunistas parecem dispostos a embarcar numa solução que seja vista como a continuação do projeto de Fernando Medina para a cidade.
Certo é que a discussão sobre a liderança só se fará depois das autárquicas, com a Convenção Nacional marcada para os dias 29 e 30 de novembro, um adiamento de alguns dias em relação à data prevista, para que haja tempo para a entrega de mais candidaturas. Uma data que não convence a oposição interna, encarnada pela Moção E, que defendia a demissão imediata da direção e continua a afirmar que não participará na Convenção, em sinal de protesto. De resto, e tendo em conta o peso das correntes que apoiam Mortágua, é muito improvável que a reunião magna dos bloquistas seja o palco de uma nova liderança.
“A voz das ilhas por Portugal”
JPP entra no Parlamento nacional, sem linhas vermelhas sobre acordos
Caloiro Filipe Sousa traz o JPP pela primeira vez para o Parlamento
“Não tenho linhas vermelhas”, diz à VISÃO Filipe Sousa, que acaba de ser eleito pelo Juntos Pelo Povo (JPP) para a Assembleia da República. O JPP nasceu em Gaula, no concelho de Santa Cruz, em 2008, com o objetivo de conquistar aquela pequena freguesia. Quase 20 anos depois, não só o JPP conquistou na Madeira o estatuto de maior partido da oposição, ultrapassando o PS na Assembleia Regional, como chegou agora ao Parlamento nacional.
Aquilo que parecia ser o pequeno partido de dois irmãos, Filipe e Élvio, dissidentes do PS Madeira, é agora uma força política com representação parlamentar, numa legislatura em que cada voto pode contar. E é por isso que é tão importante a declaração de Filipe Sousa sobre a disponibilidade para negociar com todos os partidos, incluindo a AD, que é na Madeira o seu grande rival político.
O JPP fez campanha sob o lema “A voz das ilhas por Portugal” e explica que a insularidade de que fala é em sentido mais lato do que pode parecer à primeira vista. Essas “ilhas” que quer representar são não só a Madeira e o Porto Santo mas também “os idosos abandonados, os jovens que acabam os seus estudos e estão sem emprego, a classe média empobrecida”. Para o provar, dá o exemplo daquele que foi um dos seus primeiros contactos. “Estive a falar com viticultores do Peso da Régua sobre as suas dificuldades.”
Uma parte do sucesso do JPP na Madeira prende-se com a ideia de proximidade. Filipe e Élvio Sousa, que além de políticos são músicos, passam muitos domingos a tocar junto a igrejas e não têm problemas em puxar por um lado mais popular. As coisas poderão ser muito diferentes na política continental, mas o recém-eleito deputado único do JPP não quer perder essa marca. “Não serei um deputado de gabinete. Aquilo de que mais gosto é do trabalho de campo”, garante. “Espírito de comunidade, proximidade e tolerância”, diz, fazem parte do ADN da força política que representa.
Para já, e ainda sem contar com a votação de emigração, o JPP teve 20 126 votos. Sem surpresa, a eleição foi conseguida pelos 17 115 votos que obteve na Madeira. Mas ainda conseguiu 815 votos em Lisboa e 453 em Setúbal, os distritos do Continente onde conquistou mais eleitores de entre os seis onde houve quem escolhesse votar JPP. Nos Açores, o partido teve 271 votos. Com estes números, o partido de Filipe Sousa terá direito a uma subvenção anual de 70 mil euros.
É do ponto mais alto da propriedade, de onde se avista o castelo, que melhor se tem a perceção deste projeto. Montemor-o-Novo fica a apenas três quilómetros em linha reta, mas neste Alentejo a uma hora de carro de Lisboa podíamos jurar que estamos longe de tudo.
As flores pintam os campos de amarelo, vermelho e roxo, os pássaros cantam à desgarrada. E a ribeira que dá nome ao Gandum Village corre pelo coração da propriedade, criando uma linha de vegetação. “É a nossa Sintra”, diz João Almeida, e não é exagero.
Quando ele e a mulher, a suíça Martina Wiedemar, aqui chegaram, em 2018, parte desta quinta estava coberta de silvas. “Aqui onde estamos tinham quatro metros”, recorda João, “esta casa não se via.” Foi durante as limpezas do terreno que descobriram, com a ajuda de um arqueólogo, que o edifício tinha sido uma alcaçaria, onde há 300 anos se curtiam peles de animais.
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Foto: DR
Hoje, um dos tanques, alimentado por uma nascente, funciona como uma pequena piscina para crianças, outros viraram canteiros, e o edifício branco, com uma ponte em arco, foi transformado em cowork, no primeiro andar, e em sala de reuniões, em baixo. As antigas casas dos trabalhadores deram lugar a dois apartamentos T2 com cozinha e um estúdio T0 e ao restaurante Provenance, aberto a não hóspedes (tal como o cowork).
Regenerar o solo, uma árvore da cada vez
Depois de anos a trabalhar na área da sustentabilidade aplicada à alimentação e na área das alterações climáticas, respetivamente, João e Martina decidiram mudar-se de Lisboa para Montemor-o-Novo com os três filhos e, dizem, “pôr em prática aquilo em que já trabalhávamos”. “No turismo rural, damos 10 a zero a Espanha. Mas em termos de sustentabilidade há muito por fazer”, acreditam.
A quinta tem agora três zonas de agrofloresta, onde se concentram árvores de fruto, legumes, ervas aromáticas e espécies florestais. Foto: DR
Dos atuais 14 hectares do Gandum, dois hectares e meio encontram-se cobertos por agrofloresta, linhas densas onde se concentram árvores de fruto, legumes, ervas aromáticas e espécies florestais autóctones que crescem sem adubos químicos ou pesticidas. “Parece uma confusão mas tudo tem uma razão de ser, as plantas interajudam-se.”
Inaugurados este ano, os Quartos da Terra, como lhe chamam, ficam num edifício projetado de raiz pelo atelier de arquitetura Cru, de Montemor-o-Novo. Na tal zona mais alta da propriedade, o edifício em L, inspirado nos claustros dos conventos, distingue-se por ser feito em taipa, uma técnica ancestral de erguer paredes com terra compactada à mão, tradicional do Alentejo. A exceção são as fundações e a cobertura, em cimento, que garantem estabilidade ao edifício e permitiram instalar os 170 painéis solares que alimentam o hotel.
Um dos quartos do edifício em taipa, inaugurado este ano. Foto: DR
Dois corredores de arcos dão acesso aos 18 quartos duplos, onde a terra alaranjada deixada à vista regula naturalmente a temperatura e a humidade. São espaçosos, têm um pequeno terraço e estão decorados com bom gosto, num estilo mais urbano: mobiliário da Util e da Ghome, tapetes da Gur, têxteis em algodão orgânico e colchões biológicos da Bestbed, todas marcas portuguesas. A linha de amenities é da 8950, produzida em Tavira. Quem ficar aqui a dormir terá acesso, em breve, a uma piscina rodeada por vegetação e de onde se vê o castelo.
Comida sem pressa
João e Martina pensaram no Gandum também como um hotel para famílias. É por isso que por aqui há um parque infantil, mesa de pingue-pongue e matraquilhos, piscina para crianças e outra para adultos, servidas por um bar e bicicletas de todos os tamanhos.
Esta pequena aldeia, como lhe chama o casal, está cheia de recantos para descobrir. Um pátio com um grande canteiro onde cresce erva-cidreira, medronheiros, rosmaninho e arruda, outro onde pretendem fazer festas e sardinhadas…
O melhor cartão de visita para quem não fica hospedado será talvez o terraço com mesas e cadeiras coloridas da portuguesa Adico. Fica em frente ao restaurante, que se abastece do que aqui se produz – ovos de galinha incluídos. “Muitas vezes, chegam ainda quentes à cozinha”, garante Miguel Araújo, o chefe do Provenance, que recentemente também trocou Lisboa por Montemor.
João Almeida e Martina Wiedemar trabalhavam, respetivamente, na área da sustentabilidade e das alterações climáticas. No Provenance, o restaurante do hotel aberto a não hóspedes, grande parte da ementa é vegetariana. Fotos: DR
É a ele que cabe inspirar-se nos ingredientes da época e no receituário alentejano para criar pratos (muitos deles vegetarianos) como a tremoçada à Bulhão Pato, o pica-pau de cogumelos, as croquetas de beterraba com queijo de cabra, o borrego e puré de batata com queijo e acelgas ou o arroz de forno com frango.
Tudo o que não produzem vem de produtores locais: o mel (não utilizam açúcar), o pão, as carnes, as leguminosas, os queijos e os vinhos. O pudim de pão com toffee de caramelo salgado, feito com os croissants e napolitanas do pequeno-almoço, é um bom exemplo do reaproveitamento que se faz.
Na ementa, há um prato que podia resumir o que se escreveu até aqui: chama-se Jardim do Gandum, um esparregado de nabiças com grão-de-bico frito, acelgas e rabanetes. Verdinho, verdinho, que só visto.
Gandum Village > R. de São Domingos, EM 537, Montemor-o-Novo > T. 266 079 000, 91 557 2888 > quartos desde €130, casas desde €150
Aqui à volta
A uma hora de Lisboa, Montemor-o-Novo é um convite ao passeio
Migas gatas. Foto: DR
Poda O restaurante de João Narigueta, nascido em Montemor-o-Novo, não inventa a roda e segue as receitas tradicionais da região. Migas gatas (com bacalhau, €8), coelho à São Cristóvão (€8,50), cação frito com migas da época (€16) e ensopado de borrego (€18) são algumas das sugestões da ementa, que vai rodando consoante o que os produtores locais têm à disposição. Para rematar, há enxovalhada, mousse de chocolate feita com chocolate da Melgão, também em Montemor-o-Novo, encharcada e sericaia. R. Sacadura Cabral, 25 > T. 96 830 7694 > qua-dom 12h30-15h, 19h30-22h
Castelo Não raras vezes, faz vento no castelo. Não é, pois, de admirar que as gentes de Montemor-o-Novo tenham abandonado a vila entre muros no século XIV para se estabelecerem lá em baixo, onde havia fontes de água e estavam mais próximas das principais vias comerciais. Ainda restam vestígios da judiaria, do Paço dos Alcaides e de outras construções erguidas ao longo dos séculos. A Igreja de Santa Maria do Bispo é o melhor local para ver o pôr do sol na planície alentejana sem fim. Grátis
Roteiro Literário Levantado do Chão Lavre, povoação do concelho, serviu de inspiração a José Saramago, que, em 1976, foi viver uma temporada para aí. Um roteiro evoca os lugares e as personagens do livro Levantado do Chão, assinalados num percurso que se faz a pé pela vila. O município de Montemor, em colaboração com a Fundação José Saramago, faz também visitas guiadas em datas fixas (com partida e regresso a Lisboa; a próxima realiza-se no dia 25 de outubro) ou por marcação. T. 96 928 9483, 266 689 102 > €25 (com refeição)
Ser o líder da oposição é entrar num novo patamar. André Ventura passa, segundo Lei das Precedências do Protocolo do Estado Português, a ser a oitava figura do Estado e, quando voltar a haver legislativas, o último debate será entre o líder do Chega e o primeiro-ministro. Mas essas são quase questões simbólicas, a mudança é maior e traz o Chega bem para dentro do sistema.
Uma das primeiras consequências é que passará a ser o Chega e não o PS a ter dois representantes no Conselho de Estado. Mas há muitas nomeações que, até agora, têm sido feitas sempre entre PSD e PS que podem passar a ser feitas com o Chega.
O Chega poderá vir a escolher nesta legislatura já três juízes para o Tribunal Constitucional, mas também fazer com a AD as listas para órgãos como a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), o Conselho Superior da Magistratura, o Conselho Económico e Social (CES) ou a entidade que fiscaliza as secretas.
Não há propriamente regras escritas sobre o que quer dizer ser líder da oposição e a AD pode escolher manter o PS como parceiro para a realização destas listas conjuntas. Essa tem sido, aliás, a pressão que os socialistas estão a fazer.
Montenegro já usou argumento da “prática parlamentar”
Essa decisão da AD iria, contudo, contra o que tem sido a “prática parlamentar”. Algo que Montenegro invocou em 2022 para dar aos deputados da bancada do PSD indicação para votar a favor de Pacheco de Amorim para a Mesa da Assembleia da República, rompendo o entendimento que tinha vigorado no tempo de Rui Rio, que ajudou a manter o Chega fora desse órgão até essa data.
Apesar de toda a pressão e de todas a conversas de bastidores (a VISÃO sabe que Montenegro tem falado com Carlos César), o líder da AD tem-se mantido em silêncio, com dirigentes do PSD como Paulo Rangel ou Hugo Soares a deixarem as mensagens que o partido seguirá uma lógica de geometria variável para as questões da governação, mas sem serem claros quanto ao novo estatuto do Chega enquanto líder da oposição.
Na AD há a ideia de que André Ventura não é confiável. E uma hesitação em fazer, por isso, com o Chega os acordos que são necessários para estas nomeações. É que, nesta legislatura que agora termina, foram pelo menos três as vezes em que Ventura rompeu o acordado: na eleição do Presidente da Assembleia da República e nas votações sobre tabelas de IRS e portagens.
De resto, também não é ainda claro se a AD fará com o Chega um acordo para a eleição do próximo Presidente da Assembleia da República e em que moldes.
No documentário Outro País, ouvimos Dominique Issermann dizer: “Para quem tinha sido estudante no Maio de 68, a Revolução dos Cravos era um acontecimento fortíssimo. Sentíamo-nos muito próximos, queríamos ir para Portugal mesmo que não fosse para fotografar ou filmar.” Dominique concretizaria esse desejo através da agência Contact, de Paris – na época, a revista Time estava à procura de fotógrafos na Europa.
Esse documentário de Sérgio Tréfaut, estreado em 1999, foi o resultado de um desejo adiado durante anos: produzir uma grande exposição com as imagens dos fotógrafos estrangeiros que tinham retratado o processo revolucionário português. A ideia, surgida no verão de 1993, incentivada por Margarida Medeiros, então crítica especializada em fotografia no Público, e Ana Soromenho, amiga de Tréfaut, não se concretizaria no ano seguinte, no vigésimo aniversário do 25 de Abril, como tinham planeado.
O desânimo dos paraquedistas, quando se rendem, 26 de novembro de 1975, Tancos. Foto: Alain Mingam / Gamma-Rapho
Muitas das imagens que estarão agora em exposição em Almada, num edifício dos anos 60 pertencente à antiga Lisnave, cedido pela câmara municipal, foram identificadas há mais de 30 anos. À VISÃO, Sérgio Tréfaut recorda: “Em 1993, tinha organizado o Mês da Fotografia em Lisboa, um conjunto de 20 exposições com trabalhos de Sebastião Salgado, fotografias da agência Magnum do Leste da Europa, de Robert Mapplethorpe… Isto permitiu-nos ter um acesso privilegiado aos arquivos de uma série de agências internacionais de fotografia (Magnum, Gamma, Sygma, Sipa…). E passámos 15 dias em Paris a fotocopiar provas de contacto.”
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Tréfaut sublinha uma diferença entre essa exposição não concretizada, por falta de apoios e vontade política, e a que finalmente se inaugura agora. “Baseávamo-nos, então, no livro Portugal 1974-1975: Regards sur une tentative de pouvoir populaire, editado por Guy Le Querrec em colaboração com Jean-Paul Miroglio, que reunia fotografias de muitos fotógrafos franceses e italianos que tinham estado em Portugal naquela época. Todos homens.”
Portugueses chegam da Guiné-Bissau, verão de 1974, Porto de Lisboa. Foto: Alécio de Andrade / ADAGP
Desta vez, os nomes de Dominique Issermann, Paola Agosti e Augusta Conchiglia constam de uma lista de 30 profissionais que compõem Venham Mais Cinco – O Olhar Estrangeiro sobre a Revolução Portuguesa – 1974-1975, viabilizada através de um protocolo entre a Comissão Comemorativa 50 anos 25 de Abril, o Ministério da Cultura e a FAUX, em parceria com a Câmara Municipal de Almada. Um livro/catálogo, editado pela Tinta-da-China, perpetua esta recolha nunca antes vista.
O livro/catálogo “Venham Mais Cinco” (Tinta-da-China, 272 págs., €69,90) será lançado no dia 6 de maio
A exposição permitirá, sobretudo aos mais jovens, ter uma noção do que se passou num ano e meio em que o País era uma espécie de panela de pressão
sérgio tréfaut
A mostra está organizada em quatro núcleos temáticos (A Festa da Liberdade, Novas Formas de Poder, Independências e Um País Dividido) “que permitirá sobretudo aos mais jovens”, afirma Tréfaut, “ter uma noção do que se passou num ano e meio em que o País era uma espécie de panela de pressão.” A explosão da liberdade nas ruas, as manifestações diárias, as novas formas de poder nas fábricas e no campo, a ação política e cívica dos militares, a emergência dos partidos políticos, a chegada dos portugueses das ex-colónias, as tensões no pós-eleições de 75, mas também os processos de independência em África.
Crianças durante uma manifestação de apoio ao MPLA, julho de 1975, Angola. Foto: Sebastião Salgado
A monumentalidade do espaço é impressionante. São mais de 2 mil metros quadrados de área expositiva, pensada pelo arquiteto Pedro Pacheco, que recebem 200 fotografias impressas em grande formato (165 X 110 cm e 110 X 75 cm), da autoria de Jean-Claude Francolon, Jean-Paul Paireault, Fausto Giaccone e Alain Mingam (que virá a Lisboa), de fotógrafos já desaparecidos, como Henri Bureau, Jean-Paul Miroglio e o brasileiro Alécio de Andrade, entre muitos outros, como o brasileiro Sebastião Salgado. Uma viagem no tempo, chama-lhe o cineasta, finalmente concretizada.
Venham Mais Cinco– O Olhar Estrangeiro sobre a Revolução Portuguesa – 1974-1975 > Parque Empresarial da Mutela (em frente à antiga Lisnave) > Av. Aliança Povo M.F.A, Almada > até 24 ago, qui-dom 11h-19h > grátis
Os emigrantes decidem dar o segundo lugar nas eleições legislativas – e com dois deputados em quatro – ao Chega, e estas eleições, que afinal ninguém queria, alteraram o posicionamento partidário da Assembleia da República. A oposição passará a ser liderada pelo partido de André Ventura (salvo melhor entendimento, trata-se apenas de uma figura de retórica).
O PS desce ao Inferno e deverá demorar anos a recompor-se, tal como aconteceu com o PSD nos últimos 20 anos. Há duas coisas, contudo, que o Governo da AD e o seu grupo parlamentar não podem ignorar: o Chega é, de facto, uma hipótese real de atingir o patamar da liderança de um Governo – como tem acontecido noutros países – e os seus votos têm origem na AD, na Iniciativa Liberal, no PS e, particularmente, na abstenção.
Estas eleições confirmaram esse fenómeno: menor abstenção e mais votos no Chega. Mais de um milhão de eleitores quer, e exige, uma mudança no estado da Nação. A exclusão do Chega de todas as matérias políticas e económicas revelou-se um desastre. O partido de Ventura tem de ser abertamente incluído na vida política nacional, e essa inclusão poderá ajudar a moderar o Chega e a diluir algumas das suas linhas estratégicas mais extremadas.
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Mas há mais: André Ventura ainda não confirmou se será candidato nas presidenciais ou se, eventualmente, apoiará Gouveia e Melo já na primeira volta. De uma forma ou de outra, poderá garantir a vitória ao almirante. A concretizar-se, o Chega tornar-se-á o novo pólo político nacional, o que resultará numa agitação permanente. Mas quem decide são os eleitores, e isso merece todo o respeito. Não há partidos bons nem maus. O que há são partidos com ideias diferentes para Portugal. É o que é!
Para o primeiro mês do verão climatológico, os mapas do modelo de referência da Meteored indicam um padrão meteorológico marcado por vários dias consecutivos de calor intenso. É expectável, no entanto, a existência de aguaceiros, granizo, trovoada e outros fenómenos meteorológicos adversos.
Alfredo Graça, geógrafo e especialista da Meteored Portugal, detalha que a previsão aposta para temperaturas persistentemente acima da média climatológica de referência do mês de junho e fala mesmo em “temperaturas abrasadoras”, embora, nalguns locais, “as noites ainda sejam frescas ou frias, principalmente devido aos ventos do quadrante Norte (Nortada) que sopram do Atlântico”.
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A primeira quinzena de junho deverá registar as anomalias térmicas positivas mais acentuadas (tempo bastante mais quente do que o normal) nalgumas regiões do país, nomeadamente, nos distritos de Vila Real, Bragança, Viseu, Guarda, Castelo Branco, Portalegre, Évora e Beja. Para os referidos distritos preveem-se temperaturas entre 3 e 6 ºC acima do normal.
“Para os Açores e Madeira vislumbram-se anomalias térmicas positivas mais moderadas, provavelmente devido à sua insularidade e às brisas marítimas. Para as duas Regiões Autónomas portuguesas preveem-se temperaturas até 1 ºC acima da média climatológica de referência”, lê-se no comunicado.
Apesar do predomínio do tempo seco e soalheiro em Portugal, “a volatilidade dinâmica da corrente de jato polar” pode gerar uma gota fria ou um aquecimento diurno das superfícies de tal forma intenso que dê origem às chamadas nuvens de desenvolvimento vertical (cumulonimbus, as nuvens de trovoada).
A guerra regressou à Europa, os países rearmam-se, os orçamentos de Defesa crescem, as trombetas tocam e o candidato presidencial português com maiores possibilidades de ser eleito é um militar. O primeiro dia do resto da vida de Henrique Eduardo Passalágua de Gouveia e Melo, 64 anos, acontece nesta quinta-feira, 29, data escolhida para a apresentação oficial da sua candidatura, 99 anos e um dia depois do pronunciamento que instituiu a ditadura militar, precursora do Estado Novo. Cercado pelo sistema partidário, que o vê como um OVNI político, Gouveia e Melo é, segundo os críticos, suspeito de reserva mental e acusado de não ter experiência política. Submarinista de créditos firmados no quadro da NATO, ex-Chefe do Estado-Maior da Armada, função da qual transitou diretamente para a reserva – descartando a hipótese de ser reconduzido… – e para umas “férias ativas” recheadas de aparições públicas em homenagens, artigos de jornal, conferências e entrevistas, Gouveia e Melo fez o seu caminho, apalpando o terreno das sondagens que, em qualquer caso, contra qualquer adversário e em qualquer cenário de segunda volta lhe dão uma vitória mais do que confortável. A ser eleito, o almirante da Marinha de Guerra portuguesa será o quarto Chefe de Estado oriundo daquele ramo das Forças Armadas, o que, embora ainda deixe a Marinha atrás do Exército, que já forneceu cinco presidentes, permite desempatar com a arma de Cavalaria, que colocou três em Belém. Dos 23 chefes de Estado da História da República Portuguesa, 11 foram militares, mas apenas um deles foi escolhido por sufrágio direto e universal: António Ramalho Eanes, em 1976 e em 1980. Num breve período da Ditadura Militar, entre 1926 e 1928, o cargo era o de Presidente do Ministério (considerando-se Presidente da República ex officio).
Sidónio Pais O condutor de massas O protótipo do “homem a cavalo” que chegou para, supostamente, pôr o País na ordem. Com consciência da importância da imagem e da propaganda, foi um dos mais populares de sempre, tendo sido o único PR em funções assassinado. O martírio ajudou a construir o mito do herói e o sidonismo foi uma nova forma de sebastianismo.
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Tensão com partidos, uma velha tradição
Gouveia e Melo ressuscita a velha tradição da tensão congénita entre militares e políticos, registada ao longo de mais de 100 anos de golpes, revoluções e conspirações, como veremos nas próximas páginas. Um problema que o salazarismo aplacou e a democracia parecia ter resolvido. Luís Marques Mendes, do PSD, o primeiro candidato a posicionar-se no terreno, tem nesta mesma quinta-feira o apoio oficial do PSD, que assim espera perturbar o anúncio do almirante. Logo que, nas vésperas das legislativas, a 15 de maio, Gouveia e Melo declarou, em entrevista à Rádio Renascença, que iria mesmo avançar, os partidos reagiram bastante mal. O PS, através das críticas de Augusto Santos Silva, ex-presidente da Assembleia da República e ele próprio tido como conservando ambições de vir a ser candidato, destacou o “ataque à Constituição”, por Gouveia e Melo ter confundido os timings e desrespeitado o Parlamento e o princípio da separação de poderes. Em bom rigor, nada na Constituição impede que alguém se declare candidato presidencial, independentemente dos timings, que a Lei Fundamental não especifica, nem inibe. No entanto, o mote estava dado: Gouveia e Melo enfrentará a animosidade unânime do sistema partidário, uma guerra que o próprio candidato aceitou, ao recusar apoios formais ou explícitos dos partidos políticos. Aliás, essa postura acima dos partidos faz com que muitos observadores desconfiem de algum projeto “bonapartista”, fundado a partir de uma maioria presidencial. Mas disso foi também acusado Ramalho Eanes, quando, em 1985, patrocinou a fundação do PRD.
Embora a campanha que se avizinha possa revelar traços de personalidade e coincidências de projeto político entre Gouveia e Melo e o último Presidente militar, Ramalho Eanes (que chegou a Belém com 41 anos), as circunstâncias que poderão alcandorar o almirante à Presidência são muito diferentes das que consagraram Eanes. A primeira é a de que, num tempo em que as indicações dos partidos arrastavam o eleitorado, Eanes nunca teria sido eleito sem eles. Hoje, um candidato que se declara à margem dos partidos (ou vagamente em oposição a eles) tem vantagem.
Em 1976, o general natural de Alcains era relativamente desconhecido dos portugueses, embora lhes tenha sido explicado que ele fora o comandante operacional da vitória da ala militar moderada, no 25 de Novembro de 1975. Nessa altura, pelas razões do aparato operacional e do estrelato político, respetivamente Jaime Neves, comandante dos Comandos da Amadora, e Melo Antunes, ideólogo do 25 de Abril e do Documento dos Nove, que cortou com os projetos totalitários da esquerda mais radical, eram bastante mais populares. Para não falar, do ponto de vista de um outro eleitorado, de Otelo Saraiva de Carvalho, o também militar que conseguiria, com muito poucos apoios partidários e só na extrema-esquerda, um belíssimo 2º lugar, com 16,46% dos votos. Ou de Pinheiro de Azevedo, o popularíssimo primeiro-ministro, também almirante, que se apresentou a sufrágio sem apoios partidários e terá sido prejudicado pela crise cardíaca que, em plena campanha, o levou para o hospital. Estes militares “alternativos” a Eanes representavam a quota de populismo avant la lettre e antipartidos que Gouveia e Melo agora parece incorporar.
João do Canto e Castro O pacificador Substituiu Sidónio Pais e tornou-se o segundo dos dois únicos presidentes militares da I República. Monárquico por convicção, conseguiu colocar-se no seu papel de representante máximo da República e honrou sempre esse compromisso.
Mas hoje Gouveia e Melo tem uma notoriedade que Eanes não tinha. O País entregou-lhe uma missão que parecia impossível, a da vacinação de todos os portugueses, em tempo recorde, contra a Covid-19. Fez, com isso, o que gerações de políticos parecem não ter feito: apresentou resultados concretos, num curto espaço de tempo, e que mudaram a vida das pessoas – neste caso, contribuindo para lhes devolver a normalidade pré-pandémica.
Ramalho Eanes, ao contrário de Gouveia e Melo, conseguiu o apoio explícito e a colaboração das máquinas partidárias dos partidos dominantes do sistema, PS, PSD e CDS, a que se juntou a flor na lapela revolucionária de um ainda influente PCTP/MRPP (mas este só por pirraça contra os “social-fascistas”, ou seja, os comunistas do PCP). Com uma vitória esmagadora de 61,54%, Eanes ganhou, em campanha, uma gravitas política própria, surpreendendo pelo desassombro do discurso e, até, pela coragem física, quando enfrentou, em Évora, um tumulto orquestrado pelos comunistas e que incluiu tiros para o ar. Ficou bem viva a imagem de um Eanes, vestido à civil, de calças beges e camisa às riscas, de mãos na anca, de pé, em cima do tejadilho da viatura de campanha…
Também fica bem viva na memória a forma como Gouveia e Melo enfrentou, na rua, manifestações hostis de negacionistas antivacinação que lhe chamavam “assassino”. “Assassino é o vírus”, ripostou o almirante, numa tirada repentista que lhe deu espessura política imediata.
Mendes Cabeçadas O efémero Presidente do Ministério (e da República ex officio) após o golpe do 28 de Maio. Preconizava a marcação de eleições, mas foi derrubado pelos seus pares.
Em Belém, a gravitas própria de Eanes desenvolveu-se, quase sempre, no confronto com os partidos que o tinham feito eleger. O primeiro a zangar-se foi Mário Soares, despedido sem dó nem piedade, depois do fracasso do seu segundo governo, em acordo parlamentar com o CDS de Freitas do Amaral e depois da retirada do apoio deste. Eanes, num discurso crescentemente antipartidos, ao mesmo tempo que civilizava o regime, promovendo, no Conselho da Revolução – órgão que, por inerência, presidia – o regresso dos militares aos quartéis, já projetaria um futuro partido político que saísse da sua maioria presidencial. Neste particular, o primeiro a denunciá-lo, numa altura muito precoce, foi Sá Carneiro.
Para preparar terreno, Eanes, demitido o governo eleito, em 1978, trabalhou com três executivos de iniciativa presidencial. Finalmente, rendeu-se à evidência da instabilidade inerente e convocou eleições intercalares – ainda não havia a figura das eleições antecipadas – para dezembro de 1979.
Às turras com Sá Carneiro
O líder da primeira AD, Sá Carneiro, que chegou a primeiro-ministro na sequência dessas eleições, identificou no Presidente a sua principal força de bloqueio. E se as relações com os governos de Mário Soares tinham sido más, o convívio com o novo primeiro-ministro revelou-se péssimo. Sá Carneiro acusou o Presidente de querer mandar no País “à peruana” e tratou de preparar um candidato mais dócil para as presidenciais de 1980. O líder do PSD e da AD começou a falar em “um governo, uma maioria, um Presidente”. O ungido foi uma apagada figura de nome António Soares Carneiro (que perdeu para Eanes). Obviamente, de novo, um militar. Por essa altura, o próprio Mário Soares queria romper com o statu quo de mais de 50 anos de presidentes castrenses, sendo ele próprio o candidato a apoiar pelos socialistas, mas o seu partido persuadiu-o de que os portugueses ainda não estavam preparados para essa solução que, sendo hoje natural, parecia, então, disruptiva.
Um problema para Ventura
Em Belém, Eanes inquietava-se com a revisão constitucional de 1982, que iria acabar com o Conselho da Revolução e, pior, reduzir os poderes presidenciais. (Por exemplo, jamais voltaria a ser possível a constituição de governos de iniciativa presidencial, nos moldes em que tinham sido engendrados, em 1978/79). E é então que Eanes se decide: se os partidos impediam que cumprisse o seu programa, mudando as regras a meio do mandato, fundaria um partido e jogaria no campo deles, talvez candidatando-se a primeiro-ministro, depois de sair de Belém. E é assim, com um discurso antipartidos, que surge o embrião do PRD (Partido Renovador Democrático), com o seu líder provisório, o eanista Hermínio Martinho e a colaboração ativa da primeira-dama, Manuela Eanes.
Em 2026, com os partidos tradicionais cada vez mais inseguros, muitos temem que Gouveia e Melo esteja a planear algo de parecido. Ele surge como o homem providencial, capaz de curar as chagas do regime, crescentemente ameaçado pelas propostas populistas (com grande sucesso nas legislativas de 2025) da direita radical, cujo apoio, aliás, o almirante recusou expressamente. Neste contexto, Gouveia e Melo é adversário dos partidos tradicionais, mas, também, concorrente direto do Chega (e no campo moderado!), o que coloca o maior dos problemas a André Ventura e à sua afirmação pessoal.
Gomes da Costa O herói de guerra Distinguiu-se na I Guerra Mundial e, quase dez anos depois, marchou de Braga a Lisboa, no pronunciamento que espoletou a Revolução Nacional. Foi o segundo militar do 28 de Maio a assumir a chefia do Estado, mas esteve apenas cinco meses em funções, antes de ser derrubado. Obteria, ainda assim, o bastão de marechal.
Em 1985, o PRD, com a sua mensagem moralizadora, anticorrupção e antissistémica – onde é que já ouvimos isto?… – surge como um furacão, arrebatando, nas legislativas antecipadas de 1985, 17,92% dos votos, reduzindo o PS (então liderado por Almeida Santos, com Soares já a preparar a candidatura presidencial de 1986) a uns meros 20,77%. Mas, ao contrário do que sucede atualmente, também em número de deputados o PS continuava a ser a segunda força política. Cavaco Silva, na sua estreia, levava o PSD aos 29,87%.
Tudo o resto aconteceu muito depressa: Eanes acabou o segundo mandato, mas já não assumiu o PRD. Portugal entrava na CEE, o dinheiro europeu chegava em jorros, Cavaco distribuía e fazia e, quando PS e PRD deitaram abaixo o governo, aprovando a moção de censura do segundo, o já eleito Mário Soares, em vez de aceitar a alternativa de governo de esquerda, corporizada por PS e PRD e apoiada pelo PCP, que o novo líder do PS, Vítor Constâncio, lhe oferecia, preferiu interpretar o sentimento popular e convocar eleições antecipadas. Era a primeira maioria absoluta de Cavaco e o varrer definitivo dos militares da política ativa. Mas estas condições, que então desfavoreceram Eanes, são, no eventual mandato de Gouveia e Melo, simplesmente irrepetíveis.
O fenómeno Sidónio
Ora, se os militares tinham sido sempre decisivos para as mudanças de regime em Portugal, desde a I República, o modus operandi, sempre muito parecido, constituía, a bem dizer, uma originalidade portuguesa: os militares fazem o pronunciamento, o golpe ou a revolução, mas, depois, ao contrário do que acontece noutras latitudes, acabam por entregar o poder aos civis. Aconteceu em 1910/1911 e em 1974/1976 com extensão até 1982. Mas também aconteceu em 1926/1933, com a ressalva de que a chefia do Estado permaneceria, pelo menos, formalmente, entregue a um militar.
Óscar Carmona O protetor de Salazar Nada fez durante o pronunciamento do 28 de Maio, preferindo resguardar-se, prudentemente. Os seus pares foram buscá-lo depois do afastamento dos dois protagonistas da revolução, Gomes da Costa e Mendes Cabeçadas, por ser uma figura neutra e consensual. Com faro político, repescou Salazar para as Finanças, por intuir que o professor de Coimbra teria a capacidade de salvar o novo regime. Mais tarde, entregar-lhe-ia o poder absoluto e Salazar deixá–lo-ia ficar no cargo até morrer.
A eventual dissonância surgira a meio do período da I República, quando, na madrugada de 8 de maio de 1918, fora exonerado o Governo da União Sagrada, liderado por Afonso Costa, transferindo-se o poder para a Junta Revolucionária presidida pelo major Sidónio Pais. Bernardino Machado é destituído de PR e Sidónio assume as rédeas do poder, num levantamento que conta com o beneplácito de certas franjas das classes trabalhadoras. Sidónio, que fora embaixador em Berlim, matemático, germanófilo, é uma espécie de precursor dos modernos fascismos europeus. Populista, ciente do poder do marketing político – muito antes de o conceito ser conhecido –, exímio condutor das massas, cultor de uma imagem romântica e marcial, tem sucesso imediato junto das mulheres e o reconhecimento viril dos homens. A imagem elegante de jovem chefe de Estado (46 anos) é, literalmente, a de “um homem a cavalo”. O carisma permite-lhe impor-se como um conductore, revogando vários preceitos constitucionais que acautelavam liberdades e garantias. Nos poucos meses de poder, Sidónio constrói uma mitologia sebastiânica, o sidonismo, que perdurará gerações. Assassinado a tiro na Estação do Rossio, em Lisboa, no mês de dezembro seguinte, dele se reproduziram umas alegadas últimas palavras que ajudam a compor o mito: “Morro bem, salvem a Pátria!” Parece que a única coisa que conseguiu balbuciar, afinal, enquanto se esvaía em sangue e procuravam socorrê-lo, terá sido: “Não me apertem, rapazes…”
Uma e outra vez, o sidonismo foi recuperado pelos grandes chefes militares que se lhe seguiram e a própria figura esguia, marcial e patriótica de Gouveia e Melo, como, antes, a de Eanes, recuperam o boneco, pelo menos, na forma, o que assusta sempre os que receiam que se lhe siga o conteúdo.
Sucedeu a Sidónio outro militar, o apaziguador comandante João do Canto e Castro, numa altura em que apenas um homem da tropa podia fornecer as necessárias garantias para acalmar o País. Canto e Castro, 56 anos, foi eleito de acordo com as regras da Constituição de 1911, repostas após o abalo sidonista. Tido como monárquico, reforçou a sua imagem de institucionalista, ao defender os valores republicanos de que agora era símbolo máximo, o que lhe valeu a inimizade súbita dos seus antigos companheiros realistas.
Um jovem professor de Coimbra…
O pronunciamento do 28 de Maio de 1926 replica, de uma certa forma, mas em versão castrense, a Marcha sobre Roma de Benito Mussolini, em 1922. A partir de Braga, um conductore, herói de guerra (da I Guerra Mundial), o general de infantaria Manuel Gomes da Costa, marcha sobre a capital, arrastando no caminho as unidades militares de meio País. Estes militares vêm para afastar os políticos corruptos, o parlamentarismo estéril e clientelar e a balbúrdia republicana, bem como para impedir a bancarrota… Em Lisboa, há implicados na conjura, com destaque para o comandante José Mendes Cabeçadas que, por acordo dos revoltosos, após conferenciar com Gomes da Costa, em Coimbra, toma a chefia do Estado que passa a designar-se por “presidência do Ministério”, como um Presidente ex officio. Mendes Cabeçadas tem na ideia a estabilização do País e uma ida posterior a eleições e, sendo da Marinha, representa a esquerda militar. Uma sucessão de golpes palacianos afasta-o da ribalta, tendo sido substituído pelo carismático chefe da primeira hora, Gomes da Costa.
Com efeito, o Diário de Lisboa de 2 de junho proclama: “O Exército e a Marinha acham-se à testa do País, dispostos a corrigir a política dos partidos, em benefício da política nacional.” Por essa altura já os homens mais próximos de Gomes da Costa conspiram para renegar o acordo de Coimbra. Panfletos são distribuídos em Lisboa largados por um avião: “O Exército, legítimo mandatário do sentimento nacional, que há longos anos aspira a uma libertação das clientelas políticas e à pronta solução dos seus mais vitais problemas (…) tomou o Poder das mãos dos empresários políticos e não o deixará enquanto não puser em obra o seu grande pensamento de reconstrução nacional.”
Craveiro Lopes O rebelde Com a morte de Carmona, o Estado Novo precisava de encontrar um novo militar, para manter o compromisso entre o poder civil, exercido por Salazar, e as Forças Armadas, que protegiam o regime. Mas este novo PR tinha ideias próprias e chegou a manter contactos com figuras da oposição. Previsivelmente, não foi reconduzido no cargo.
O JN trazia, entretanto, uma entrevista com um dos braços direitos de Gomes da Costa, tenente Pinto Correia: “O general Gomes da Costa está em desacordo com o comandante Cabeçadas. Em desacordo completo. Os dois polarizam princípios antagónicos da Revolução.” E mais à frente: “Enganaram o general. Mentiram ao general. O general foi vítima dos artifícios dos políticos. São a pior canalha que infeta o País.” Mais tarde, é o próprio Gomes da Costa que proclama, em O Século: “Desminta tudo, desminta tudo! Nada se resolveu em Coimbra!”
A 4 de junho, Gomes da Costa, que suspendera a marcha no Entroncamento, muda o seu quartel-general para o Grupo de Esquadrilhas de Aviação da Amadora. Está às portas de Lisboa.
A 16 de junho, um jovem professor de Coimbra, Oliveira Salazar, chamado para as Finanças, tenta explicar ao Conselho a grave crise económico-financeira que o País atravessa. Só aguentara o cargo durante aqueles últimos 13 dias. O tema principal da reunião é, afinal, a acesa discussão entre Cabeçadas e Gomes da Costa e Salazar retira-se para Coimbra, horrorizado.
Américo Tomás O corta-fitas De apagado ministro da Marinha a PR: depois de Craveiro Lopes, Salazar preveniu-se com um yes man em Belém. Conhecido pelo seu gosto por inaugurações (guardando no bolso algumas das tesouras de ouro com que cortava as fitas) e pelos seus discursos patéticos, revelou-se mais fino quando tratou de garantir que o regime sobrevivia ao ditador.
A 29 de junho, Cabeçadas não aguenta a pressão militar e é substituído pelo próprio Gomes da Costa, que, embrulhado num conjunto de decisões erráticas e megalómanas, que o incompatibilizam com toda a gente, permanece na chefia do Estado até 29 de outubro, quando um novo golpe o apeia do comando e lhe dá ordem de marcha para o desterro, nos Açores. Um outro nome forte da ditadura militar, Sinel de Cordes, emergira, entretanto, como possível concorrente direto de Gomes da Costa. Mas prefere a sombra e quem aparece, no governo, é uma figura obscura, apagada e que se mantivera quase escondida “debaixo da cama”, durante o 28 de Maio. Mas este oficial neutro é, agora, o mínimo denominador comum: o general Óscar Fragoso Carmona assume a liderança do governo (com Sinel de Cordes na pasta das Finanças) e a pasta da Guerra. A 29 de novembro de 1926, o mesmo Carmona é cooptado como Chefe de Estado, permanecendo presidente do Ministério e Presidente da República ex officio, até à recuperação do cargo de Presidente da República, em abril de 1928, função que, naturalmente, assume. Ele próprio dirá que nada fez para o sucesso do golpe do 28 de Maio e que o poder lhe caiu no colo por acaso. Duas semanas depois, Carmona desembaraça-se de Sinel de Cordes e recoloca Salazar nas Finanças. O futuro ditador sabe muito bem o que quer e para onde vai.
Os presidentes de Salazar
Numa sessão da União Nacional, partido único do Estado Novo, o propagandista do regime, António Ferro, desencanta uma espécie de ovo de Colombo político, ao explicar porque é que, existindo um Presidente da República, Salazar é que é o “chefe da Nação”. “Por assim dizer”, elucubra Ferro, “o senhor professor doutor Salazar é o ditador… E o senhor marechal Carmona é a ditadura!”
Salazar percebe o essencial: os militares, que, nos últimos 20 anos, já fizeram duas revoluções e um incontável número de golpes e contragolpes, palacianos e explícitos, são a sua única hipótese de se manter no poder. Constrói a sua aura de indispensável, na pasta das Finanças, salvando a ditadura militar de mais um fiasco, e obtém o reconhecimento castrense. Escolhe, para o secundar, um oficial do Exército, o fiel salazarista capitão Santos Costa, que fará a ponte com os quartéis. Mantém em Belém, e adula convenientemente, o vaidoso marechal Carmona – que nem sabe bem como ali foi parar e que agradece que o mantenham. Ter os militares na mão é um exercício difícil que encontra alguns escolhos pelo caminho, com a situação mais grave a ser protagonizada, já em 1961, com o Golpe Botelho Moniz. Mas a parceria entre o professor de Coimbra, que nunca foi à tropa, e os militares do 28 de Maio, e seus sucessores, prossegue o seu caminho de sucesso, como uma troca de favores e um negócio de dupla soma: no acordo tácito, ganham todos. A tropa assegura-se de que Salazar se mantém no poder. E Salazar satisfaz as ambições da tropa – a primeira das quais é manter, na Presidência da República, símbolo máximo do prestígio nacional, um dos seus. Esta é a principal razão pela qual o ditador de Santa Comba nunca recuperará a instituição monárquica.
Humberto Delgado O general sem medo Nunca exerceu o cargo, mas figura nesta galeria por ser provável que a sua eleição, em 1958, tenha sido roubada, depois de uma fraude maciça. Dissidente do salazarismo, foi o candidato de toda a oposição e fez uma campanha empolgante e popular. Continuou as suas atividades de opositor no exílio e foi assassinado pela PIDE em 1965.
A morte de Carmona, em 1951, coloca um novo desafio ao chefe da Nação: onde arranjar um militar tão dócil como o anterior?
A escolha recai no general da Força Aérea Francisco Craveiro Lopes, um insuspeito homem da situação, que já tinha sido deputado da União Nacional à Assembleia e que se cotava como um dos mais brilhantes militares da sua geração. Salazar aquiesceu, depois de ouvir as recomendações de agentes civis e militares da sua órbita, e esperou que Craveiro Lopes desempenhasse a sua função… “habitualmente”. Mas Craveiro Lopes manteve sempre muito frias as relações com o ditador, convencido de que o cargo era para ser usado. Aproximou-se, inclusivamente, de círculos oposicionistas, o que ficou registado na mente vingativa de Salazar. Em 1958, o primeiro-ministro informou-o, cinicamente – como se não fosse ele a decidir tudo… – de que o seu nome não tinha sido proposto pela União Nacional para a recondução e, friamente, agradeceu-lhe os serviços prestados.
António de Spínola O combatente Construiu a sua aura de soldado puro e duro, de perfil prussiano, entre as matas e os pântanos da Guiné, onde inovou, com o seu conceito de “guerra psicológica”e sedução das populações. Escreveu o livro Portugal e o Futuro, no qual cometeu a heresia de defender uma solução política para a Guerra Colonial. Foi o primeiro PR da democracia, nomeado pela Junta de Salvação Nacional.
Craveiro Lopes, que manteve uma dignidade assinalável para os tempos que corriam, viria a recusar quaisquer prebendas que não resultassem da lei e fez saber que só aceitaria o bastão de marechal se ele fosse pedido pelas Forças Armadas – nunca por promoção política. E foi o ministro Botelho Moniz, também militar, que convenceu o ditador a deixar que os generais o “promovessem”. Mais tarde, Craveiro Lopes participaria no chamado Golpe (palaciano e frustrado) de Botelho Moniz, que preconizava o afastamento do ditador e o seu exílio na Suíça. Nesse transe, Craveiro Lopes, retirado do serviço ativo, mantinha numa mala, sempre à mão, a sua farda de marechal, para reassumir o poder…
Em 1958, Salazar não arriscou e designou o seu fidelíssimo ministro da Marinha, o inócuo almirante Américo Tomás, 64 anos (idade atual de Gouveia e Melo…), para candidato da situação à Presidência da República. Esperava-se uma eleição sem grandes perturbações, devidamente controlada pela fraude massiva do regime. Mas a perturbação daquela campanha foi tal que, doravante, o Presidente da República seria eleito por um colégio eleitoral – e não em eleição aberta, pelo povo. E, naquele ano, a fraude seria, mais do que nunca, necessária…
Furacão Delgado
Ao mesmo tempo que Américo Tomás se prestava ao papel, um general do 28 de Maio, que tinha sido salazarista e germanófilo antes de virar para o alinhamento com os Aliados, na II Guerra Mundial, assumia a sua dissidência. Ressentido com o ditador, em boa parte por não lhe ser reconhecido o estatuto que julgava merecer, noutra parte por ter despertado para o “arejamento” das ideias democráticas em sucessivas missões no Canadá e nos EUA, onde viveu, o general de Artilharia, e depois aviador, Humberto Delgado, foi sugerido à oposição democrática pelo capitão dissidente, preso em Caxias, Henrique Galvão. Olhado com desconfiança pelos oposicionistas e rebaixado pelo PCP, que lhe chamou, nas páginas do clandestino Avante!, “general Coca-Cola”, Delgado soube ganhar a confiança dos antissalazaristas: ele era o melhor que eles podiam arranjar para enfrentar a ditadura. General no ativo, andava armado e tinha autoridade sobre as polícias do regime, incluindo a PIDE, cujos agentes humilhava publicamente.
Costa Gomes O diplomata Com currículo oposicionista – implicado no Golpe Botelho Moniz, em 1961 –, era o preferido dos Capitães de Abril para exercer o cargo presidencial. Sucedeu a Spínola no final de setembro de 1974, mantendo o equilíbrio necessáriopara evitar a guerra civil, na sequência do processo revolucionário. Mas, pelo seu pacifismo, foi acusado de fazero jogo da URSS…
Numa reunião, em sua casa, com algumas sumidades da oposição democrática, na véspera da histórica conferência de imprensa do Café Chave de Ouro, na Baixa lisboeta, Delgado foi alertado para a pergunta que podia surgir, por parte dos jornalistas: se ganhasse, o que faria ele com Salazar? Sobretudo, era importante não entrar a matar. “Se a questão surgir, o que o senhor general deve dizer é o seguinte: ‘Sua Ex.ª, o presidente do Conselho, compreenderá, certamente, que as circunstâncias políticas, em Portugal, terão mudado…” À saída da reunião, e enquanto conduzia os convidados ao elevador, Delgado repetia, entre risadas, fingindo decorar o guião: “Então, como é? ‘Sua Ex.ª o Presidente do Conselho…’” No dia seguinte, assim que a pergunta surgiu, a resposta que realmente deu abalou o País: “Obviamente, demito-o!” Pouco depois, no que viria a ser conhecido como “o pacto de Cacilhas”, o próprio PCP dava a mão à palmatória, desistindo do seu candidato civil, o advogado Arlindo Vicente, para apoiar – sempre na clandestinidade, bem entendido – o ex-general Coca-Cola… Humberto Delgado seria, em 40 anos de poder, o militar que mais dores de cabeça deu a Salazar. Valeu ao ditador tratar-se de um general sem tropas e com muitas invejas na instituição castrense, um homem só, sem apoios nem amigos.
Em 1968, depois da doença que incapacitou Salazar, o amorfo Américo Tomás sairia da sua letargia, aceitando de mau grado indigitar Marcelo Caetano para o cargo de presidente do Conselho – primeiro-ministro – na condição de que as chamadas “províncias ultramarinas”, vulgo colónias, eram sagradas e que a guerra tinha de continuar, no Ultramar. Marcelo ainda foi aconselhado, em 1972, a substituir, ele próprio, Tomás na Presidência, mas o professor de Direito tinha a consciência de que o Estado Novo ruiria imediatamente, se os militares fossem afastados de Belém.
Outros militares, mais jovens, haveriam de fazer o serviço…
O general do monóculo
Com o Golpe dos Capitães, a 25 de Abril de 1974, Marcelo Caetano, cercado no Largo do Carmo, no interior das instalações do quartel da GNR, solicitou a presença de um general, para transferir o poder, para que este “não caísse na rua”. Mais uma vez, era o reconhecimento de que o poder máximo só podia ser exercido por militares, sobretudo quando um golpe militar mudava, mais uma vez, um regime. António de Spínola, oficial de cavalaria, 64 anos – de novo, a mesma idade que tem hoje Gouveia e Melo –, um operacional com créditos firmados na Guiné, tinha publicado um livro, Portugal e o Futuro, em que quebrava o tabu da Guerra Colonial, defendendo que não só a guerra não podia ser vencida como a solução tinha de ser política. Subchefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, teve o beneplácito do CEMGFA, seu chefe direto, Francisco da Costa Gomes. Convocados os generais para São Bento, para uma sessão de prestação de fidelidade ao governo e à sua política ultramarina, poucas semanas antes do 25 de Abril, os dois oficiais recusaram comparecer – e foram exonerados. Não admira que, dado o maior reconhecimento público de Spínola, devido ao livro, Marcelo Caetano o tenha chamado, para lhe entregar o poder. Presidente da Junta de Salvação Nacional, com a presença de oficiais de todos os ramos das Forças Armadas, Spínola foi naturalmente cooptado como Presidente da República. Não era o preferido dos capitães, que teriam escolhido Costa Gomes. E os atritos, quer com os líderes políticos, quer com os próprios capitães do MFA, não tardaram. Spínola tinha uma clara visão bonapartista da sua função de chefe militar e civil e procurou influenciar o governo para reforço dos seus poderes, logo em junho de 1974, através do chamado “golpe Palma Carlos” (nome do primeiro chefe de governo do pós-revolução). Palma Carlos apresentou, sem êxito, ao Conselho de Estado, um projeto de lei constitucional que reforçava o poder do Presidente e atirava eleições para uma Assembleia Constituinte para 1977. Entretanto, Spínola travaria os processos de independência das colónias, impondo referendos locais. Evidentemente que o general do monóculo já tinha sido ultrapassado no terreno, onde os militares portugueses confraternizavam com os antigos inimigos dos movimentos de libertação, e estavam desejosos de regressar a casa.
Ramalho Eanes O civilista Sem a sua ação persistente, talvez os militares não voltassem tão depressa aos quartéis. Primeiro PR eleito por sufrágio universal, teve divergências com governos eleitos de duas forças políticas diferentes e patrocinou a formação de um novo partido. Retirar-se-ia da política, doutorando-se numa universidade espanhola e intervindo, no espaço público, na qualidade de “senador” da República.
A 28 de setembro, frustrado o que parecia ser uma intentona a favor do reforço do poder spinolista, o Presidente renuncia e dá o lugar a Costa Gomes, de 60 anos. Este inicia o mandato atravessando os momentos de maior brasa do PREC. Sempre em equilíbrio instável, acusado, à direita, de fazer o jogo dos comunistas e, à esquerda, de não facilitar o avanço da Revolução, consegue evitar uma guerra civil, a sua única prioridade. Alcunhado, pelos críticos, de “Chico Cortiça”, por saber manter-se sempre à tona em qualquer tempestade, deu a sensação de esperar pelo movimento dos que fossem considerados mais fortes – a facção radical ou a facção moderada do MFA – antes de tomar uma decisão final, sobre para que lado penderia. Fosse este julgamento justo ou injusto, o certo é que o seu perfil institucional prevaleceu e, a 25 de novembro de 1975, manobrou, a partir de Belém, para que a vitória moderada chegasse a bom porto, sem derramamento de sangue. Vinha aí a institucionalização do regime democrático e a aprovação da Constituição de 1976. A mesma que restabeleceu a eleição do Presidente, por sufrágio direto e universal. A ser eleito, Gouveia e Melo será, dos 11 militares anteriores (descontando a provável eleição roubada de Delgado), o segundo a não resultar de um golpe militar ou imposto de cima. Não é pequeno elogio, para um regime que vive a vitalidade dos seus 51 anos.
Perfis-tipo
Presidentes militares vieram dos três ramos das Forças Armadas. De perfis diferentes, há características e estilos que são comuns entre alguns deles
Os Autoritários
Sidónio Pais Artilharia/Exército
Humberto Delgado* Artilharia/Força Aérea
Os Operacionais
Gomes da Costa Infantaria/Exército
António de Spínola Cavalaria/Exército
Os Interventivos
Craveiro Lopes Força Aérea
Ramalho Eanes Infantaria/Exército
Os Institucionais
João Canto e Castro Marinha
Mendes Cabeçadas Marinha
Costa Gomes Cavalaria/Exército
Os Decorativos
Óscar Carmona Cavalaria/Exército
Américo Tomás Marinha
*A sua eleição não foi reconhecida devido a provável fraude eleitoral