Todos os produtos da Apple, desde iPhone a Mac, passando pelos iPad e Apple Watch, devem ver o sistema operativo ser rebatizado. Os últimos rumores apontam que a Apple pretende largar a convenção atual e passar a nomear os sistemas operativos com base no ano seguinte ao que são lançados. Assim, o próximo iOS deve ser o 26 e não o esperado 19. Em vez de macOS 16, devemos esperar o macOS 26, em vez do iPadOS 19, o iPadOS 26 e, nos Apple Vision Pro, um salto do visionOS 2 para o visionOS 26.

A informação foi avançada pelo jornalista da Bloomberg Mark Gurman, ainda não foi confirmada oficialmente e esperam-se mais explicações da Apple durante a WorldWide Developers Conference, marcada para 9 de junho.

Gurman adianta que os novos sistemas operativos vão ter mais elementos de interface como bolhas circulares para diferentes aplicações e ambientes de trabalho e que a estratégia passa por uniformizar e criar uma experiência de utilização semelhante em diferentes plataformas.

Recorde-se que em 2020 a Samsung tomou uma decisão semelhante e que por isso temos o Galaxy S25 este ano e vamos assistir ao lançamento do Galaxy S26 mais para o final do ano. A decisão de optar sempre pelo ano atual de lançamento mais um é comum, por exemplo, na indústria automóvel. Uma das razões para as tecnológicas também o adaptarem pode passar pela sugestão de que a atualização completa do sistema operativo só chega a todos os utilizadores passados seis meses do lançamento. No caso da Apple que lança sistemas operativos novos tipicamente em setembro, isso significa que a atualização lançada em setembro de 2025 só chega a todos algures no primeiro trimestre de 2026.

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Estamos fartos de saber que o mundo anda perigoso. E, não, não vamos dar aqui mais tempo de antena ao novo e auto-proclamado messias nacional, o tal que promete “mudar a alma dos portugueses”. A ideia é deixar umas breves notas sobre algo bem diferente e sublinhar que hoje, amanhã, para a semana, ou daqui a um mês, podemos assistir ao que Stefan Zweig chamou Momentos Decisivos da HumanidadeQuando Trump diz que Putin o desiludiu imenso e está “completamente louco” e o Presidente russo acusa o seu homólogo americano de viver agora sob uma enorme “sobrecarga emocional” podemos temer o pior? Talvez a resposta seja afirmativa, com o inquilino da Casa Branca a falar agora em sanções a Moscovo e a aconselhar o Kremlin a não brincar com o fogo. Então e a disponibilidade de ambos para se encontrarem pessoalmente, em Istambul, a 2 de junho? A confirmar-se esse eventual frente a frente na antiga Constantinopla, no qual pretende estar presente Volodymyr Zelensky, será possível pôr termo à “operação militar especial”, iniciada a 24 de fevereiro de 2022, que já fez centenas de milhar demortos e feridos na Ucrânia? É difícil. Não se resolve em meia dúzia de horas um conflito que está a redesenhar toda a arquitectura de segurança na Europa, com brutais implicações globais.  
Depois, é ainda importante destacar o papel de outros atores secundários. O londrino Times noticiou anteontem que o Irão celebrou acordos com diversos grupos mafiosos e de narcotraficantes para que estes levem a cabo um programa de assassínios seletivos na Europa, como ficou supostamente demonstrado, em novembro de 2023, em Madrid, com o ataque a Alejo Vidal Quadras, um físico e político catalão que militou no Partido Popular e foi vice-presidente do parlamento Europeu, antes de fundar o Vox com Santiago Abascal. Qual o interesse da República Islâmica? Provocar Israel, como acreditam vários serviços secretos do Velho Continente e o FBI, e avançar com o seu programa de armas atómicas?

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A Iniciativa liberal cresceu um deputado, mas continuou a ser irrelevante para uma maioria de Governo. Vai daí, o seu presidente, do nada – e antecipando-se ao, por uma vez, distraído dr. Ventura, que ainda devia estar a comemorar os resultados eleitorais… – olhou para o lado, viu uma maioria de direita de dois terços e, salivando, qual “cão de Pavlov”, desencantou a ideia de uma revisão constitucional, de que, na campanha, nunca tinha falado. A relevância da IL foi imediata, mesmo que o concorrente dr. Ventura se tenha apropriado, nas horas seguintes, da ideia do vizinho, monopolizando, como é hábito, a atenção de algumas televisões igualmente pavlovianas. Da recuperação da pena de prisão perpétua à redução do número de deputados na AR – redução que a atual Constituição já prevê, senhor jurista André Ventura… –, logo ali quis fazer o teste do algodão ao empenho direitista da AD.

E o que move Rui Rocha e a Iniciativa Liberal? “Retirar o socialismo” da Constituição. Quem diria que um país que entrou de pleno direito no mercado comum da antiga CEE, depois União Europeia, e no euro, e que prosseguiu a sua vida dentro de uma economia de mercado, num sistema de organização capitalista é, afinal, uma espécie de Venezuela? O desatento (ou talvez não) líder liberal parece esquecer – ou faz-se esquecido – que o socialismo foi extirpado da Constituição na revisão de 1989, quando se acabou com a delimitação dos setores, se admitiram as privatizações e se liberalizou a economia. É verdade que, no Preâmbulo, se fala na vontade dos portugueses de “abrir caminho para uma sociedade socialista”. Mas o preâmbulo foi deixado ficar como uma “peça de museu”, em homenagem aos “pais fundadores”, que relata o ambiente em que foi aprovada a Constituição de 1976, em nada vinculando o articulado do texto, em termos jurídicos. Em 1976, aliás, havia vários socialismos, sendo que a maioria dos constituintes, com o PSD (então PPD) incluído, defendiam o “socialismo democrático”, equivalente à social-democracia – e não uma espécie de regime de Nicolás Maduro avant la lettre. Ainda assim, se for essa a questão, pode seguir-se a sugestão do constitucionalista Vital Moreira, que propôs uma nova redação, retirando o anacronismo do Preâmbulo, mas preservando o património histórico: “A Assembleia Constituinte afirmou [em vez de ‘afirma’] a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito democrático e de abrir caminho para [cortar esta parte entre aspas: ‘uma sociedade socialista no respeito da vontade do povo português, com vista a’] um país mais livre, mais justo e mais fraterno.” Mais à frente, em vez de “decreta e aprova a seguinte Constituição” escreva-se, no pretérito, “aprovou e decretou a Constituição”.

Ora, se o socialismo já foi retirado da Constituição, o que pretende, realmente, Rui Rocha, além de tempo de antena à borla? Tornar, agora sim, a Constituição mais ideológica, talvez retirando garantias como a de um serviço de saúde “tendencialmente gratuito”. Neste exemplo, o “tendencialmente” afasta suspeitas de “socialismo”, mas, com efeito, não o recusando, também não garante o liberalismo. Para Rui Rocha, talvez isto seja inaceitável…

Nunca houve, até hoje, uma maioria constitucional à esquerda, nem mesmo em 1976. A Constituição é o mínimo denominador comum em que todos podem rever-se. Ela resulta do consenso entre o centro-esquerda e o centro-direita, pontualmente alargado, nas sucessivas revisões, a um espectro mais amplo. Tem, portanto, as características que permitem a identificação dos portugueses com a sua Lei Fundamental. Uma maioria ideológica de direita pode alterá-la, sim, mas corre o risco de a transformar numa Constituição de facção. E uma Constituição de facção é uma Constituição mais fraca e mais suscetível à dissidência. Se não tínhamos uma questão constitucional em Portugal – por isso é que não foi tema de campanha… –, passaríamos a ter.

Claro que toda esta montanha só pode parir um rato: é que não bastam os dois terços para aprovar a revisão global da Constituição: cada uma das alterações também terá de ser aprovada por essa maioria qualificada. Ou seja, ao final do dia, o cão de Pavlov não terá qualquer osso para enterrar.

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Não sei em que lugar vai ficar “bolha” naquelas listas que se fazem no fim do ano com as palavras que se utilizaram mais, mas cheira-me que não ficará nada mal classificada.

Os políticos vivem numa bolha e por isso não percebem os problemas das pessoas, os jornalistas vivem numa bolha e depois não contam o que realmente se passa no País, os comentadores vivem numa bolha e depois ficam surpreendidos com os resultados eleitorais, os do litoral vivem numa, os do Sul noutra, e por aí fora.

O facto é que sempre vivemos em bolhas. Ao longo dos tempos fomo-nos agregando em grupos em função da nossa religião, origem geográfica ou pertença social, entre milhares de outras razões. A grande questão sempre foi e continua a ser a forma como coexistiam. E para coexistirem pacificamente (ou não), tem obrigatoriamente de haver um fenómeno: encontrarem-se.

Dá ideia de que é um erro de formulação, já que a coexistência parece exigir encontro, mas não é verdade. Podemos coexistir num espaço e não nos encontrarmos. Aliás, essa é exatamente aquela que penso poder ser a nova definição de bolha: num espaço predefinido, várias bolhas coexistem sem se encontrarem.

As redes sociais têm sido acusadas de muitas maldades e na maior parte das vezes justamente. Aquilo que pensamos poder servir para aumentar a liberdade, para apoiar movimentos pró-democracia, para unir pessoas, para melhorar o sentido de comunidade, teve exatamente o resultado oposto, e em todos estes aspetos.

Fiquemos pelo fator agregador, o tal unir as pessoas. Realmente, conseguiu construir grupos de pessoas em redor de causas. O problema é que a forma como se constroem é quase sempre contra qualquer coisa e utiliza-se uma linguagem e uma atitude que tornam impossível o diálogo com quem defende outra perspetiva.

Aliás, o discurso das novas forças antidemocráticas é uma réplica quase perfeita do das redes sociais. Os novos ditadores perceberam que seria muito mais eficaz atrair e agregar pelo insulto, pela ofensa, pela difamação, do que falar dos problemas das pessoas ou propor soluções. Basta ouvir um desses personagens e comparar a sua linguagem com a das redes sociais.

Mais, as redes sociais são ótimas para criar grupos que, no fundo, não o são. Esses grupos são de pessoas que não se encontram nem nunca se encontrariam porque o seu contacto com o mundo exterior praticamente se resume ao mundo virtual. A falta de contacto físico potencia o agregador de ressentimentos: cada um tem o seu e isso une, apesar de poderem ser díspares e algumas vezes antagónicos. Os sentimentos e a forma de os expressar fazem essa espécie de união.

A falta de contacto físico, da conversa cara a cara, propaga todos os ressentimentos, toda a intolerância e inflama qualquer discussão. A minha cara leitora ou o meu caro leitor já com certeza teve discussões através do WhatsApp que jamais teria cara a cara e não diria as coisas que disse se tivesse de as dizer em frente duma ou de várias pessoas. É tão fácil ser terrorista de teclado. 

O trabalho, que é central na nossa vida, está também a contribuir para nos isolar. O trabalho remoto vai ter a curto prazo péssimas consequências na produtividade (ao contrário do que se esperava) porque destrói a consciência de equipa e a troca de experiências profissionais, mas contribuiu ainda mais para o isolamento geral.

Não nos encontramos no trabalho, nos cafés, nem nas associações recreativas, nem nos poucos jardins e até na rua, circulamos como ilhas com auriculares nos ouvidos ou como autómatos de olhos pregados no ecrã do telemóvel.

No entanto, as redes sociais estão longe de ser o único fenómeno a isolar-nos individualmente e aos grupos a que pertencemos. Esse isolamento vem de trás. Os grupos deixaram de se cruzar, a arte deixou de falar dos problemas do dia a dia, as histórias que jornalistas e escritores contam não são as do homem comum.

Lembro-me muitas vezes duma crónica do Pacheco Pereira, no tempo do bloqueio da Ponte 25 de Abril, onde ele descrevia a vida dum cidadão que vivia na zona de Almada e que trabalhava em Lisboa. Textos, livros ou peças de teatro em que se abordem as dificuldades das pessoas comuns em Portugal são pouquíssimos – e isso é particularmente notável depois de termos passado pela crise da Troika e pela pandemia. Há uma falta de empatia que deriva do isolamento e que tem um terrível potencial desagregador da comunidade. E sim, essa falta faz aumentar a revolta e o ressentimento.

Se a isso somarmos este novo mundo neoliberal em que quem é rico é porque merece e quem é pobre ou ganha pouco não passa dum falhado, temos uma bomba nuclear pronta a explodir nas nossas comunidades. 

Estávamos nas bolhas. As tais que não se ligam, chocam umas com as outras e se repelem. Os problemas da escola pública e da privatização acelerada da saúde são outros dos dois blindadores das ditas.

A divisão entre ricos e remediados na saúde privada e pobres na saúde pública (os ricos só lá vão quando o perigo é grande) faz crescer a sensação de nós e eles, e, lá está, isola-nos em alturas em que mais parecidos estamos com o nosso semelhante: nas doenças que não escolhem destinatário.

Entre o tipo que é tratado a uma gripe em meia hora e o que tem de estar seis horas numa urgência, cava-se um fosso de revolta. 

Quando eu andava na escola, havia gente de todas as origens sociais e económicas, de todas as cores. Não eram só amizades que se formavam, era também a consciencialização da diferença e das dificuldades das vidas das outras pessoas e famílias.

Hoje temos os mais pobres e os mais carenciados social e culturalmente na escola pública, enquanto as famílias que podem põem os filhos em escolas privadas. Isso cava um fosso social e de empatia desde a mais tenra idade.

Não vou agora refletir sobre o que levou a escola pública a este estado, sei apenas que as consequências da fuga das famílias para o privado estão muito para lá do ensino, têm profundas implicações no tecido social e na forma como nos relacionamos como comunidade. 

Que fique claro, continuo a pensar que o crescimento da adesão a movimentos antidemocráticos, racistas, xenófobos e que só exploram os ressentimentos e descontentamentos está longe de ter duas ou três explicações. Pior, estou convicto de que mensagens como o ódio aos imigrantes e o racismo têm muitos recetores em Portugal e sempre tiveram. Não tinham era protagonista.

Mas o mundo atual está votado em isolar-nos e, pior, em pôr-nos uns contra os outros. Esses movimentos aproveitam isso e apostam em dividir-nos cada vez mais. Não sei qual é a solução para travar quem quer destruir a democracia e concentrar ainda mais a riqueza nos mais ricos. Sei, porém, que quanto mais vivermos longe uns dos outros, quanto mais nos isolarmos nas redes sociais e em casa, quanto mais formos intolerantes, quanto mais deixarmos de investir na escola e na saúde públicas, quanto mais deixarmos crescer as bolhas, mais perto estamos de dar a vitória a esses novos ditadores.

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A frase “I can’t believe I still have to protest this shit” (Eu não acredito que ainda tenho de protestar contra esta m…) vê-se amiúde nas manifestações de mulheres, é título de livro e produto de merchandising, de pins a t-shirts. Resume perfeitamente o limite da paciência a que se chegou neste primeiro quarto do século XXI quando, por toda a parte no mundo ocidental, se levantam as forças que querem empurrar-nos de volta aos tempos passados. E, no entanto, ainda “ontem” as mulheres eram consideradas inaptas para votar, quanto mais para ter autonomia sobre o seu corpo para decidir ter ou não um filho.

Adriana Smith, uma enfermeira de 30 anos, está em morte cerebral desde fevereiro, no estado norte-americano da Georgia. A situação é irreversível, mas no momento da morte Adriana estava grávida de oito semanas e a família não foi tida nem achada na decisão de a manter ligada às máquinas, como incubadora do feto. A lei proíbe o aborto a partir do momento em que se deteta atividade cardíaca no feto – pelos vistos, mesmo em caso de morte da mãe.

Por cá, tem dado que falar um anúncio antiaborto patrocinado pelo dono da Prozis, Miguel Milhão, uma marca de suplementos alimentares. Intitulado “Obrigado, Mãe”, o vídeo tem imagens inenarráveis de mulheres a tirarem senhas, como se estivessem no talho, para fazer um aborto, além de apresentar a figura do Estado como um carrasco. O anúncio já motivou diversas queixas.

Mas talvez o maior sinal dos tempos no que diz respeito aos direitos das mulheres, especificamente em Portugal, tenha sido dado esta semana pelo Conselho da Europa. Diz um relatório divulgado na segunda-feira por um grupo de peritos independentes que os nossos juízes precisam de formação obrigatória de modo a combater “as sanções brandas e desproporcionadas” nos crimes de violência doméstica e sexual.

Diz ainda que, apesar dos “progressos significativos”, o poder judicial enferma de “atitudes patriarcais ainda presentes em alguns membros do sistema judicial, que privilegiam a proteção da unidade familiar em detrimento dos direitos das vítimas”.

Não faltam sentenças neste país a dar razão aos peritos do Conselho da Europa. Do juiz que invocou a Bíblia para justificar a violência física do marido porque a mulher era adúltera (caso que até motivou uma manifestação, em 2017, frente ao Conselho Superior de Magistratura) ao Tribunal de Viseu que absolveu um arguido porque a mulher era autónoma e não dependia financeiramente do homem, portanto os juízes não entendiam como ela aguentou tanto tempo sem fazer queixa.

No ano passado houve um total de 112 homicídios dolosos em Portugal. Em 93,4% dos casos, o agressor conhecia a vítima – um quinto das vítimas foram mulheres no âmbito de violência doméstica.

Parece impossível que em 2025 ainda estejamos a discutir os vieses machistas do sistema judicial. A dizer que os juízes têm de ter formação para que não lhes pese mais o sentimento de posse sobre o corpo das mulheres no prato da balança.

Parece impossível, mas ainda temos de o fazer. Que a falta de paciência não se torne, ela própria, um dos maiores inimigos desta luta interminável.

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À hora a que se fechava esta edição, estavam a ser contados os votos da emigração. Dentro dos envelopes está um dado que pode significar uma mudança de paradigma no regime democrático. Confirmando-se, como tudo leva a crer que sim, que o Chega é a bancada da oposição com mais deputados eleitos, o partido de André Ventura entra num novo patamar: o patamar em que passa a fazer parte das grandes decisões de regime. Isso incluiu um peso especial numa revisão constitucional, mas não só. Como líder da oposição, Ventura pode ser chamado a fazer listas com a AD para nomear personalidades para os principais cargos do sistema, vai ter mais presidências de comissões parlamentares e mais um elemento no Conselho de Estado. E Ventura passa, pela Lei das Precedências do Protocolo do Estado Português, a ser a oitava figura do Estado.

Como não há regras escritas sobre o que significa exatamente ser líder da oposição (a não ser as que dizem respeito à representação no Parlamento e no Conselho de Estado), o PS espera, contudo, para perceber o que fará a AD perante um cenário político inusitado. Passará a fazer com o Chega as nomeações e negociações que, até agora, fez sempre com os socialistas? Ou manterá André Ventura fora das questões de regime?

Os argumentos do PS

Até agora, Luís Montenegro tem optado pelo silêncio. Isto, apesar de, como indicam à VISÃO várias fontes, nos últimos dias ter tido conversas com o presidente do Partido Socialista Carlos César, que no PS são vistas como “um bom sinal”, ainda que não se perceba muito bem que frutos podem dar.

Publicamente, José Luís Carneiro tem feito pressão para que não se desfaça o canal privilegiado entre os dois partidos, mesmo que a aritmética parlamentar tenha mudado. “A AD tem de clarificar quem é o parceiro para negociar e dialogar relativamente às matérias de regime”, disse Carneiro à CNN, na segunda-feira, notando que isso inclui “por exemplo, a designação de representantes para os diferentes órgãos de soberania e para as diferentes funções de soberania” porque “estas matérias foram sempre matérias de acordo entre os dois principais partidos”.

Maioria AD, Chega e IL passam a ter dois terços dos votos. Juntos, podem mudar a Constituição ou ultrapassar chumbos do TC ou do Presidente

O argumento dos “dois principais partidos” cai por terra, caso o Chega tenha mais deputados eleitos. Mas José Luís Carneiro – até agora o único candidato à liderança do PS – tem outro argumento: o de que a AD, não contando com o Chega, precisa dos votos socialistas para chumbar a moção de rejeição ao Programa de Governo anunciada pelo PCP e para viabilizar pelo menos o primeiro Orçamento do Estado.

Para Carneiro, terá de ser a AD a tomar a iniciativa de negociar com o PS. “Aguardamos pelo diálogo e pelo contacto daqueles que hoje têm responsabilidades maioritárias no País”, disse, porém, já depois de anunciar na Comissão Nacional do PS que irá votar contra a moção de rejeição ao Programa do Governo apresentada pelo PCP, como sinal de “boa-fé”, e depois de ter confirmado na CNN que pretende deixar cair a ideia de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) à Spinumviva, a empresa familiar do primeiro-ministro. “A questão está hoje no foro da Justiça, devemos também aguardar pelos desenvolvimentos no foro da Justiça”, afirmou, com a ressalva de que essa posição pode ser revista caso surjam “novos elementos e novos dados”.

A tese da “prática parlamentar”

Enquanto a AD não abre o jogo, no PS fazem-se contas ao que aí vem. O Chega poderá vir a escolher nesta legislatura já três juízes para o Tribunal Constitucional, mas também fazer com a AD as listas para órgãos como a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), o Conselho Superior da Magistratura, o Conselho Económico e Social (CES) ou a entidade que fiscaliza as secretas. Será o Chega a entrar com os dois pés no sistema. Algo que o PS quer travar, mas que parece muito provável que aconteça, se Luís Montenegro usar o mesmo raciocínio que o fez eleger Diogo Pacheco Amorim para a Mesa da Assembleia da República.

Em março de 2022, o PSD, então liderado por Rui Rio, ajudou a chumbar o nome de Pacheco de Amorim. “Foi o resultado natural, repetido duas vezes, porque em consciência os deputados da generalidade dos partidos consideraram que não era adequado que uma força política não democrática pudesse estar representada na Mesa da Assembleia da República”, concluía na altura o líder parlamentar socialista Eurico Brilhante Dias.

Essa “consciência” mudaria em setembro de 2022, já com Luís Montenegro aos comandos do PSD e depois de o seu líder parlamentar, Joaquim Miranda Sarmento, ter enviado uma mensagem com uma indicação de voto favorável à sua bancada. Nesse email, Miranda Sarmento invocava a “prática parlamentar” que atribui o direito a indicar um nome para vice-presidente da Assembleia da República aos quatro partidos mais votados. “Nesse sentido, a direção do grupo parlamentar apela às senhoras e senhores deputados que votem a favor da candidatura apresentada nas eleições que se realizam hoje”, escreveu.

A reação de André Ventura foi festiva. “[O voto a favor] vem no seguimento da normalização das relações que queremos ter com os restantes partidos e fica claro que em 2026 tem de haver esta normalização para uma solução governativa à direita”, vaticinou quando parecia que a maioria absoluta de António Costa ia durar até essa data. Depois disso, não só o partido de André Ventura nunca mais saiu da Mesa da Assembleia mas também Diogo Pacheco de Amorim foi eleito vice-presidente, como o Chega passou a ter aí mais dois representantes, Gabriel Mithá Ribeiro, como secretário, e Filipe Melo, como vice-secretário.

A linha vermelha de Carneiro

No PS, há até quem tema que esta ascensão do Chega a segunda força política possa ter como consequência simbólica a saída do PS do edifício mais nobre do Parlamento. Algo que os socialistas veem como uma possível “humilhação simbólica” e um erro a longo prazo do PSD. “Se estivesse no lugar do PSD, não procuraria humilhar o PS. Não acho que isto seja o fim da linha para o PS”, diz um dirigente socialista, que tem visto “arrogância” na forma como os sociais-democratas estão a tratar os socialistas, sem pensar que nas próximas eleições podem ser “as próximas vítimas” do Chega. “A AD tentará que o PS seja um viabilizador do Governo”, comenta outro dirigente socialista, que acha que Montenegro está “a testar os limites do sistema democrático”, capturando o PS ao mesmo tempo que deixa o Chega de mãos livres para fazer oposição.

Depois de se perceber que salas e lugares ocupará o Chega, será a revisão constitucional a clarificar posições. A AD tem repetido que esta não é uma prioridade, mas basta um partido avançar com uma proposta para se iniciar o processo, restando saber como vota cada uma das forças políticas as alterações propostas. “Se eles forem a jogo, temos de pensar se apresentamos proposta ou não”, nota uma fonte socialista, lembrando que no ano passado chegou a haver um consenso entre PSD e PS sobre alterações relacionadas com a possibilidade de utilização de metadados pelas secretas e sobre restrições de direitos em caso de pandemia. Apesar dessa aproximação, o processo acabou por abortar, tal como aconteceu nas últimas oito vezes em que se iniciou desde 2005.

José Luís Carneiro já traçou uma linha vermelha no seu discurso na Comissão Nacional do PS: “Que fique claro: não seremos parceiros para nenhuma operação de subversão da Constituição.”

Despedimentos à vista

BE enfrenta a sua maior queda. Mariana Mortágua ficará a solo no Parlamento

Austeridade Mariana Mortágua terá de fazer cortes no BE

No próximo mês, os trabalhadores do BE começarão a saber com o que contar. A direção do partido ainda está a fazer contas, pelo que ainda não é claro quantos terão de ser despedidos da estrutura do partido. Mas uma coisa é certa e não há volta a dar: vai ter de haver cortes.

Com a queda eleitoral, a subvenção pública a que os bloquistas têm direito caiu quase para metade. Em vez de receber 930 mil por ano, o partido passa a receber apenas 415 mil euros. Além disso, com apenas uma deputada eleita, desce também o número de assessores parlamentares.

No partido, ninguém quer falar sobre o tema, mas todos assumem que os cortes serão grandes e que, desta vez, os cuidados terão de ser redobrados, porque o escrutínio público vai ser enorme. O escândalo sobre a forma como o BE despediu mulheres que tinham acabado de ser mães deixou marcas. E na cúpula bloquista ninguém quer voltar a cometer erros.

O BE não quer, porém, estar só a olhar para dentro. Mariana Mortágua estabeleceu desde já duas prioridades: fazer pressão para impedir uma revisão constitucional à direita (mesmo que a esquerda não tenha votos suficientes para a travar) e trabalhar em acordos para as autárquicas. “O objetivo do Bloco é reerguer-se, recuperar, criar e ampliar alianças e lutar pelo nosso povo com determinação”, lê-se na resolução da Mesa Nacional que fez o balanço eleitoral.

A VISÃO sabe que já estão muito avançadas as conversas para coligações com o Livre e o PAN em vários concelhos. Mas Lisboa continua a ser uma incógnita: os bloquistas vão voltar em breve à negociação com o PS e gostavam de trazer para a mesa também o PCP, sob a ideia de que o grande objetivo tem de ser derrotar Carlos Moedas. Mas nem os socialistas fecharam ainda nada nem os comunistas parecem dispostos a embarcar numa solução que seja vista como a continuação do projeto de Fernando Medina para a cidade.

Certo é que a discussão sobre a liderança só se fará depois das autárquicas, com a Convenção Nacional marcada para os dias 29 e 30 de novembro, um adiamento de alguns dias em relação à data prevista, para que haja tempo para a entrega de mais candidaturas. Uma data que não convence a oposição interna, encarnada pela Moção E, que defendia a demissão imediata da direção e continua a afirmar que não participará na Convenção, em sinal de protesto. De resto, e tendo em conta o peso das correntes que apoiam Mortágua, é muito improvável que a reunião magna dos bloquistas seja o palco de uma nova liderança.

“A voz das ilhas por Portugal”

JPP entra no Parlamento nacional, sem linhas vermelhas sobre acordos

Caloiro Filipe Sousa traz o JPP pela primeira vez para o Parlamento

“Não tenho linhas vermelhas”, diz à VISÃO Filipe Sousa, que acaba de ser eleito pelo Juntos Pelo Povo (JPP) para a Assembleia da República. O JPP nasceu em Gaula, no concelho de Santa Cruz, em 2008, com o objetivo de conquistar aquela pequena freguesia. Quase 20 anos depois, não só o JPP conquistou na Madeira o estatuto de maior partido da oposição, ultrapassando o PS na Assembleia Regional, como chegou agora ao Parlamento nacional.

Aquilo que parecia ser o pequeno partido de dois irmãos, Filipe e Élvio, dissidentes do PS Madeira, é agora uma força política com representação parlamentar, numa legislatura em que cada voto pode contar. E é por isso que é tão importante a declaração de Filipe Sousa sobre a disponibilidade para negociar com todos os partidos, incluindo a AD, que é na Madeira o seu grande rival político.

O JPP fez campanha sob o lema “A voz das ilhas por Portugal” e explica que a insularidade de que fala é em sentido mais lato do que pode parecer à primeira vista. Essas “ilhas” que quer representar são não só a Madeira e o Porto Santo mas também “os idosos abandonados, os jovens que acabam os seus estudos e estão sem emprego, a classe média empobrecida”. Para o provar, dá o exemplo daquele que foi um dos seus primeiros contactos. “Estive a falar com viticultores do Peso da Régua sobre as suas dificuldades.”

Uma parte do sucesso do JPP na Madeira prende-se com a ideia de proximidade. Filipe e Élvio Sousa, que além de políticos são músicos, passam muitos domingos a tocar junto a igrejas e não têm problemas em puxar por um lado mais popular. As coisas poderão ser muito diferentes na política continental, mas o recém-eleito deputado único do JPP não quer perder essa marca. “Não serei um deputado de gabinete. Aquilo de que mais gosto é do trabalho de campo”, garante. “Espírito de comunidade, proximidade e tolerância”, diz, fazem parte do ADN da força política que representa.

Para já, e ainda sem contar com a votação de emigração, o JPP teve 20 126 votos. Sem surpresa, a eleição foi conseguida pelos 17 115 votos que obteve na Madeira. Mas ainda conseguiu 815 votos em Lisboa e 453 em Setúbal, os distritos do Continente onde conquistou mais eleitores de entre os seis onde houve quem escolhesse votar JPP. Nos Açores, o partido teve 271 votos. Com estes números, o partido de Filipe Sousa terá direito a uma subvenção anual de 70 mil euros.

É do ponto mais alto da propriedade, de onde se avista o castelo, que melhor se tem a perceção deste projeto. Montemor-o-Novo fica a apenas três quilómetros em linha reta, mas neste Alentejo a uma hora de carro de Lisboa podíamos jurar que estamos longe de tudo.

As flores pintam os campos de amarelo, vermelho e roxo, os pássaros cantam à desgarrada. E a ribeira que dá nome ao Gandum Village corre pelo coração da propriedade, criando uma linha de vegetação. “É a nossa Sintra”, diz João Almeida, e não é exagero.

Quando ele e a mulher, a suíça Martina Wiedemar, aqui chegaram, em 2018, parte desta quinta estava coberta de silvas. “Aqui onde estamos tinham quatro metros”, recorda João, “esta casa não se via.” Foi durante as limpezas do terreno que descobriram, com a ajuda de um arqueólogo, que o edifício tinha sido uma alcaçaria, onde há 300 anos se curtiam peles de animais.

Foto: DR

Hoje, um dos tanques, alimentado por uma nascente, funciona como uma pequena piscina para crianças, outros viraram canteiros, e o edifício branco, com uma ponte em arco, foi transformado em cowork, no primeiro andar, e em sala de reuniões, em baixo. As antigas casas dos trabalhadores deram lugar a dois apartamentos T2 com cozinha e um estúdio T0 e ao restaurante Provenance, aberto a não hóspedes (tal como o cowork).

Regenerar o solo, uma árvore da cada vez

Depois de anos a trabalhar na área da sustentabilidade aplicada à alimentação e na área das alterações climáticas, respetivamente, João e Martina decidiram mudar-se de Lisboa para Montemor-o-Novo com os três filhos e, dizem, “pôr em prática aquilo em que já trabalhávamos”. “No turismo rural, damos 10 a zero a Espanha. Mas em termos de sustentabilidade há muito por fazer”, acreditam.

Dos atuais 14 hectares do Gandum, dois hectares e meio encontram-se cobertos por agrofloresta, linhas densas onde se concentram árvores de fruto, legumes, ervas aromáticas e espécies florestais autóctones que crescem sem adubos químicos ou pesticidas. “Parece uma confusão mas tudo tem uma razão de ser, as plantas interajudam-se.”

Inaugurados este ano, os Quartos da Terra, como lhe chamam, ficam num edifício projetado de raiz pelo atelier de arquitetura Cru, de Montemor-o-Novo. Na tal zona mais alta da propriedade, o edifício em L, inspirado nos claustros dos conventos, distingue-se por ser feito em taipa, uma técnica ancestral de erguer paredes com terra compactada à mão, tradicional do Alentejo. A exceção são as fundações e a cobertura, em cimento, que garantem estabilidade ao edifício e permitiram instalar os 170 painéis solares que alimentam o hotel.

Um dos quartos do edifício em taipa, inaugurado este ano. Foto: DR

Dois corredores de arcos dão acesso aos 18 quartos duplos, onde a terra alaranjada deixada à vista regula naturalmente a temperatura e a humidade. São espaçosos, têm um pequeno terraço e estão decorados com bom gosto, num estilo mais urbano: mobiliário da Util e da Ghome, tapetes da Gur, têxteis em algodão orgânico e colchões biológicos da Bestbed, todas marcas portuguesas. A linha de amenities é da 8950, produzida em Tavira. Quem ficar aqui a dormir terá acesso, em breve, a uma piscina rodeada por vegetação e de onde se vê o castelo.

Comida sem pressa

João e Martina pensaram no Gandum também como um hotel para famílias. É por isso que por aqui há um parque infantil, mesa de pingue-pongue e matraquilhos, piscina para crianças e outra para adultos, servidas por um bar e bicicletas de todos os tamanhos.

Esta pequena aldeia, como lhe chama o casal, está cheia de recantos para descobrir. Um pátio com um grande canteiro onde cresce erva-cidreira, medronheiros, rosmaninho e arruda, outro onde pretendem fazer festas e sardinhadas…

O melhor cartão de visita para quem não fica hospedado será talvez o terraço com mesas e cadeiras coloridas da portuguesa Adico. Fica em frente ao restaurante, que se abastece do que aqui se produz – ovos de galinha incluídos. “Muitas vezes, chegam ainda quentes à cozinha”, garante Miguel Araújo, o chefe do Provenance, que recentemente também trocou Lisboa por Montemor.

É a ele que cabe inspirar-se nos ingredientes da época e no receituário alentejano para criar pratos (muitos deles vegetarianos) como a tremoçada à Bulhão Pato, o pica-pau de cogumelos, as croquetas de beterraba com queijo de cabra, o borrego e puré de batata com queijo e acelgas ou o arroz de forno com frango.

Tudo o que não produzem vem de produtores locais: o mel (não utilizam açúcar), o pão, as carnes, as leguminosas, os queijos e os vinhos. O pudim de pão com toffee de caramelo salgado, feito com os croissants e napolitanas do pequeno-almoço, é um bom exemplo do reaproveitamento que se faz. 

Na ementa, há um prato que podia resumir o que se escreveu até aqui: chama-se Jardim do Gandum, um esparregado de nabiças com grão-de-bico frito, acelgas e rabanetes. Verdinho, verdinho, que só visto.

Gandum Village > R. de São Domingos, EM 537, Montemor-o-Novo > T. 266 079 000, 91 557 2888 > quartos desde €130, casas desde €150

Aqui à volta

A uma hora de Lisboa, Montemor-o-Novo é um convite ao passeio

Migas gatas. Foto: DR

Poda O restaurante de João Narigueta, nascido em Montemor-o-Novo, não inventa a roda e segue as receitas tradicionais da região. Migas gatas (com bacalhau, €8), coelho à São Cristóvão (€8,50), cação frito com migas da época (€16) e ensopado de borrego (€18) são algumas das sugestões da ementa, que vai rodando consoante o que os produtores locais têm à disposição. Para rematar, há enxovalhada, mousse de chocolate feita com chocolate da Melgão, também em Montemor-o-Novo, encharcada e sericaia. R. Sacadura Cabral, 25 > T. 96 830 7694 > qua-dom 12h30-15h, 19h30-22h

Castelo Não raras vezes, faz vento no castelo. Não é, pois, de admirar que as gentes de Montemor-o-Novo tenham abandonado a vila entre muros no século XIV para se estabelecerem lá em baixo, onde havia fontes de água e estavam mais próximas das principais vias comerciais. Ainda restam vestígios da judiaria, do Paço dos Alcaides e de outras construções erguidas ao longo dos séculos. A Igreja de Santa Maria do Bispo é o melhor local para ver o pôr do sol na planície alentejana sem fim. Grátis

Roteiro Literário Levantado do Chão Lavre, povoação do concelho, serviu de inspiração a José Saramago, que, em 1976, foi viver uma temporada para aí. Um roteiro evoca os lugares e as personagens do livro Levantado do Chão, assinalados num percurso que se faz a pé pela vila. O município de Montemor, em colaboração com a Fundação José Saramago, faz também visitas guiadas em datas fixas (com partida e regresso a Lisboa; a próxima realiza-se no dia 25 de outubro) ou por marcação. T. 96 928 9483, 266 689 102 > €25 (com refeição)

Ser o líder da oposição é entrar num novo patamar. André Ventura passa, segundo Lei das Precedências do Protocolo do Estado Português, a ser a oitava figura do Estado e, quando voltar a haver legislativas, o último debate será entre o líder do Chega e o primeiro-ministro. Mas essas são quase questões simbólicas, a mudança é maior e traz o Chega bem para dentro do sistema.

Uma das primeiras consequências é que passará a ser o Chega e não o PS a ter dois representantes no Conselho de Estado. Mas há muitas nomeações que, até agora, têm sido feitas sempre entre PSD e PS que podem passar a ser feitas com o Chega.

O Chega poderá vir a escolher nesta legislatura já três juízes para o Tribunal Constitucional, mas também fazer com a AD as listas para órgãos como a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), o Conselho Superior da Magistratura, o Conselho Económico e Social (CES) ou a entidade que fiscaliza as secretas.

Não há propriamente regras escritas sobre o que quer dizer ser líder da oposição e a AD pode escolher manter o PS como parceiro para a realização destas listas conjuntas. Essa tem sido, aliás, a pressão que os socialistas estão a fazer.

Montenegro já usou argumento da “prática parlamentar”

Essa decisão da AD iria, contudo, contra o que tem sido a “prática parlamentar”. Algo que Montenegro invocou em 2022 para dar aos deputados da bancada do PSD indicação para votar a favor de Pacheco de Amorim para a Mesa da Assembleia da República, rompendo o entendimento que tinha vigorado no tempo de Rui Rio, que ajudou a manter o Chega fora desse órgão até essa data.

Apesar de toda a pressão e de todas a conversas de bastidores (a VISÃO sabe que Montenegro tem falado com Carlos César), o líder da AD tem-se mantido em silêncio, com dirigentes do PSD como Paulo Rangel ou Hugo Soares a deixarem as mensagens que o partido seguirá uma lógica de geometria variável para as questões da governação, mas sem serem claros quanto ao novo estatuto do Chega enquanto líder da oposição.

Na AD há a ideia de que André Ventura não é confiável. E uma hesitação em fazer, por isso, com o Chega os acordos que são necessários para estas nomeações. É que, nesta legislatura que agora termina, foram pelo menos três as vezes em que Ventura rompeu o acordado: na eleição do Presidente da Assembleia da República e nas votações sobre tabelas de IRS e portagens.

De resto, também não é ainda claro se a AD fará com o Chega um acordo para a eleição do próximo Presidente da Assembleia da República e em que moldes.

No documentário Outro País, ouvimos Dominique Issermann dizer: “Para quem tinha sido estudante no Maio de 68, a Revolução dos Cravos era um acontecimento fortíssimo. Sentíamo-nos muito próximos, queríamos ir para Portugal mesmo que não fosse para fotografar ou filmar.” Dominique concretizaria esse desejo através da agência Contact, de Paris – na época, a revista Time estava à procura de fotógrafos na Europa.

Esse documentário de Sérgio Tréfaut, estreado em 1999, foi o resultado de um desejo adiado durante anos: produzir uma grande exposição com as imagens dos fotógrafos estrangeiros que tinham retratado o processo revolucionário português. A ideia, surgida no verão de 1993, incentivada por Margarida Medeiros, então crítica especializada em fotografia no Público, e Ana Soromenho, amiga de Tréfaut, não se concretizaria no ano seguinte, no vigésimo aniversário do 25 de Abril, como tinham planeado.

O desânimo dos paraquedistas, quando se rendem, 26 de novembro de 1975, Tancos. Foto: Alain Mingam / Gamma-Rapho

Muitas das imagens que estarão agora em exposição em Almada, num edifício dos anos 60 pertencente à antiga Lisnave, cedido pela câmara municipal, foram identificadas há mais de 30 anos. À VISÃO, Sérgio Tréfaut recorda: “Em 1993, tinha organizado o Mês da Fotografia em Lisboa, um conjunto de 20 exposições com trabalhos de Sebastião Salgado, fotografias da agência Magnum do Leste da Europa, de Robert Mapplethorpe… Isto permitiu-nos ter um acesso privilegiado aos arquivos de uma série de agências internacionais de fotografia (Magnum, Gamma, Sygma, Sipa…). E passámos 15 dias em Paris a fotocopiar provas de contacto.”

Tréfaut sublinha uma diferença entre essa exposição não concretizada, por falta de apoios e vontade política, e a que finalmente se inaugura agora. “Baseávamo-nos, então, no livro Portugal 1974-1975: Regards sur une tentative de pouvoir populaire, editado por Guy Le Querrec em colaboração com Jean-Paul Miroglio, que reunia fotografias de muitos fotógrafos franceses e italianos que tinham estado em Portugal naquela época. Todos homens.”

Portugueses chegam da Guiné-Bissau, verão de 1974, Porto de Lisboa. Foto: Alécio de Andrade / ADAGP

Desta vez, os nomes de Dominique Issermann, Paola Agosti e Augusta Conchiglia constam de uma lista de 30 profissionais que compõem Venham Mais Cinco – O Olhar Estrangeiro sobre a Revolução Portuguesa – 1974-1975, viabilizada através de um protocolo entre a Comissão Comemorativa 50 anos 25 de Abril, o Ministério da Cultura e a FAUX, em parceria com a Câmara Municipal de Almada. Um livro/catálogo, editado pela Tinta-da-China, perpetua esta recolha nunca antes vista.

O livro/catálogo “Venham Mais Cinco” (Tinta-da-China, 272 págs., €69,90) será lançado no dia 6 de maio

A exposição permitirá, sobretudo aos mais jovens, ter uma noção do que se passou num ano e meio em que o País era uma espécie de panela de pressão

sérgio tréfaut

A mostra está organizada em quatro núcleos temáticos (A Festa da Liberdade, Novas Formas de Poder, Independências e Um País Dividido) “que permitirá sobretudo aos mais jovens”, afirma Tréfaut, “ter uma noção do que se passou num ano e meio em que o País era uma espécie de panela de pressão.” A explosão da liberdade nas ruas, as manifestações diárias, as novas formas de poder nas fábricas e no campo, a ação política e cívica dos militares, a emergência dos partidos políticos, a chegada dos portugueses das ex-colónias, as tensões no pós-eleições de 75, mas também os processos de independência em África.

Crianças durante uma manifestação de apoio ao MPLA, julho de 1975, Angola. Foto: Sebastião Salgado

A monumentalidade do espaço é impressionante. São mais de 2 mil metros quadrados de área expositiva, pensada pelo arquiteto Pedro Pacheco, que recebem 200 fotografias impressas em grande formato (165 X 110 cm e 110 X 75 cm), da autoria de Jean-Claude Francolon, Jean-Paul Paireault, Fausto Giaccone e Alain Mingam (que virá a Lisboa), de fotógrafos já desaparecidos, como Henri Bureau, Jean-Paul Miroglio e o brasileiro Alécio de Andrade, entre muitos outros, como o brasileiro Sebastião Salgado. Uma viagem no tempo, chama-lhe o cineasta, finalmente concretizada.

Venham Mais Cinco – O Olhar Estrangeiro sobre a Revolução Portuguesa – 1974-1975 > Parque Empresarial da Mutela (em frente à antiga Lisnave) > Av. Aliança Povo M.F.A, Almada > até 24 ago, qui-dom 11h-19h > grátis