O mundo assiste, quase em silêncio, a uma nova corrida espacial. Mas, ao contrário da aventura épica dos anos 60, em que a chegada à Lua foi apresentada como triunfo científico da humanidade, hoje o cenário é bem diferente. Os protagonistas são os mesmos — Estados Unidos, Rússia e agora também a China — mas a disputa já não é apenas pela glória. Lua e Marte tornaram-se o palco de uma luta pelo poder, recursos e hegemonia tecnológica.

A NASA, apoiada pela Casa Branca e em estreita colaboração com gigantes privados como a SpaceX de Elon Musk e a Blue Origin de Jeff Bezos, desenha um futuro de presença permanente na Lua. O programa Artemis, já em marcha, pretende colocar novamente astronautas no solo lunar, desta vez com ambição de ficar. A peça-chave será a instalação de infraestruturas energéticas sustentáveis, como o anunciado reator de fissão nuclear, inicialmente pensado para 40 kW e agora projetado para 100 kW até 2030. Isto não é detalhe técnico: é um símbolo da mudança de paradigma. Se nos anos 60 bastava plantar uma bandeira, hoje o objetivo é criar condições de vida e de trabalho contínuas no espaço. A energia nuclear, estável e independente do ciclo solar, será essencial para manter bases em funcionamento durante as longas noites lunares de 14 dias.

Do outro lado, a China, em parceria estratégica com a Rússia, trabalha para erguer a Estação Internacional de Investigação Lunar. Oficialmente, trata-se de um projeto científico, aberto à cooperação internacional. Na prática, representa a vontade de Pequim e Moscovo de desafiar a liderança dos EUA no espaço, apresentando uma alternativa “não-ocidental” ao modelo da NASA. A construção de uma base permanente no solo lunar não é apenas uma questão tecnológica; é um ato político de afirmação de poder, um aviso de que o século XXI não terá apenas um pólo dominante.

E no entanto, a Lua é apenas o primeiro passo. Elon Musk, através da SpaceX, sonha em conquistar Marte. A Starship, em desenvolvimento, promete transportar dezenas de toneladas de carga e centenas de pessoas em cada missão. A visão de Musk não se limita à exploração científica: é a promessa de uma humanidade “multiplanetária”, capaz de sobreviver a eventuais catástrofes na Terra. Mas, por detrás do idealismo, há também um gigantesco negócio: criar um mercado privado de transporte e colonização espacial, onde empresas em vez de estados assumem o protagonismo.

A questão que se coloca é: porque tanta pressa? A resposta é multifacetada e inquietante. Por um lado, o espaço encerra recursos de valor incalculável. A Lua possui depósitos de água congelada que podem ser transformados em oxigénio para respirar e em hidrogénio para combustível de foguetões. Possui também minerais raros, fundamentais para a indústria de alta tecnologia. E há ainda o cobiçado Hélio-3, raro na Terra, mas abundante na superfície lunar, apontado como potencial combustível para reatores de fusão nuclear — a energia limpa e quase ilimitada do futuro.

Por outro lado, o domínio do espaço tem uma dimensão militar estratégica. Quem controlar a órbita da Terra, as rotas para a Lua e os pontos de abastecimento interplanetário terá vantagem esmagadora em termos de comunicação, vigilância e até armamento. É por isso que os EUA criaram recentemente a Força Espacial, um novo ramo militar dedicado à proteção dos interesses americanos fora da Terra. A China segue de perto com os seus próprios programas de defesa espacial. Não é exagero dizer que o espaço está a transformar-se na nova fronteira da geopolítica global.

Mas há ainda um terceiro fator: o prestígio político. A conquista espacial é usada como propaganda, como demonstração de poder nacional. Tal como em 1969, quando a chegada americana à Lua simbolizou a vitória dos EUA sobre a União Soviética, também hoje cada avanço tecnológico é apresentado como um troféu. Num mundo onde a influência internacional se mede tanto pela economia como pela imagem, aterrar na Lua ou planear missões a Marte são gestos de soft power com enorme impacto.

E no entanto, pouco se fala das implicações éticas e sociais desta disputa. Quem será dono dos recursos lunares? Que regras impedirão a militarização do espaço? Como garantir que a exploração beneficia a humanidade como um todo e não apenas um punhado de potências e bilionários? O Tratado do Espaço Exterior de 1967, que proíbe a apropriação territorial no espaço, já não responde à realidade atual. O risco é que a Lua se torne numa nova “febre do ouro”, onde os mais poderosos tomam posse dos recursos e estabelecem as regras do jogo, enquanto os restantes assistem de fora.

A verdade é simples e desconfortável: esta disputa espacial não é movida apenas por curiosidade científica ou por sonhos futuristas. É, sobretudo, um jogo de poder, recursos e sobrevivência económica. A Lua é o posto avançado, Marte é a promessa distante, mas o verdadeiro campo de batalha continua a ser a Terra. Quem dominar o espaço, dominará também os destinos do nosso planeta.

A corrida espacial voltou. Mas desta vez, não se corre para chegar primeiro. Corre-se para ficar, controlar e impedir os outros de avançar. Entre a Lua e Marte, a disputa não é pelo futuro da humanidade — é pelo futuro do poder.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Em 1915, Gabrielle Darley matou, em Nova Orleães, nos Estados Unidos da América, o homem que a enganara e prostituía. Foi presa e absolvida. Dez anos depois, quando Gabrielle já tinha refeito a sua vida e usava o apelido do marido, o filme The Red Kimono (Sublime Redenção), elaborado a partir dos registos daquele caso em tribunal, tornou-se um sucesso.

Na era da digitalização, o drama de Gabrielle Darley tornou-se comum.

A expansão dos registos públicos e o seu acesso imediato e ilimitado, em qualquer smartphone, reduziu as nossas vidas a dados. Informação pronta a ser recolhida, conservada, tratada, vendida. Um bem.

Não é um fenómeno novo o registo em arquivo de momentos das nossas vidas. O nascimento, o casamento, a morte, a compra de uma casa, notícias em jornais… Mas o acesso instantâneo a informação disponível online alterou profundamente a forma como os outros e nós próprios nos percecionamos. E, para tal, é irrelevante se isso resulta da informatização de arquivos públicos e privados, de informação que de forma voluntária (através da publicação de posts) ou involuntária disponibilizamos (ainda que indiretamente consentida, via clique em políticas de privacidade, que não lemos).

Hoje, ao conhecer alguém ou na iminência de conhecer, com frequência, googlamos e pesquisamos nas redes sociais para formar um pré-juízo, confirmar ou completar uma intuição. E fazemo-lo, não apenas no contexto pessoal, mas também profissionalmente. Hoje, raramente alguém será entrevistado sem que, antes, a sua “persona virtual” seja escrutinada.

Esta imagem, que resulta dos nossos dados e a todos é acessível, fixa-nos num status e condiciona as nossas futuras relações com os outros.

No passado, a memória era fluida e limitada às testemunhas ou a quem escutou ou leu sobre uma determinada pessoa. Tal encerrava, em si, o direito e a possibilidade de nos reinventarmos. De, continuamente, tentarmos ser a pessoa que almejamos.

Hoje, um arquivo global é também “disciplinador”, pois a internet permite a recolha, ou tem a possibilidade de permitir, a uma miríade de entidades e pessoas, que desconhecemos, para tratar e utilizar/visualizar a “informação” que produzimos.

É inevitável sermos condicionados no nosso comportamento online, pois, progressivamente, já nos tornamos conscientes do risco de terceiros usarem os nossos “dados” contra nós. Seja no sentido literal do termo, para nos influenciar, controlar ou, quiçá, nos negar um emprego ou um seguro de vida, seja para nos vender mais um produto ou serviço.

A lei reconhece os efeitos perversos que o arquivo global – que é a internet – pode encerrar, agora que a memória é cristalizada e omnipresente. E, embora não garanta a eliminação de todos os registos, nem nos proteja da utilização massificada dos dados, procura assegurar, num grau razoável, que, junto de estranhos, não seremos pré-julgados por algo que postamos ou fizemos, apenas e tão-só, em resultado de uma pesquisa online….

A lei (o Regulamento Geral de Proteção de Dados – RGPD) configura o “o direito a ser esquecido”, na perspetiva de controlo de dados pelo seu titular. Mas este direito é mais do que isso. É um bem comum, necessário ao florescimento do ser humano. Saber que podemos invocar o direito ao esquecimento é um direito a um futuro em aberto.

Na China, os principais líderes políticos raramente são vistos em público e mesmo as cerimónias oficiais em que surgem são escassas. As suas aparições obedecem sempre a coreografias planeadas e a cuidadosas encenações, destinadas a criar, na população, uma perceção de força e de confiança. E servem também para desfazer os rumores que surgem sempre que deixam de ser vistos por demasiado tempo, o que costuma alimentar teorias conspirativas sobre o estado de saúde do líder ou possíveis purgas no interior do partido.

De forma eloquente, e seguindo os princípios coreográficos de Pequim, os rumores acerca do estado de saúde do Presidente e líder supremo chinês Xi Jinping, há meses ausente do espaço público, foram desfeitos, na semana passada, com a sua participação nas cerimónias que assinalam os 60 anos da anexação do Tibete na República Popular da China. “A visita de Xi a Lhasa, a 3 656 metros de altitude, deve acabar com quaisquer rumores que existiam, pois seria arriscado para um homem de 72 anos com sérios problemas de saúde passar uns dias naquela altitude”, sentenciou Bill Bishop, autor do Sinocism, o site mais bem informado sobre a realidade chinesa.

O show de Xi Jiping no Tibete, onde apareceu sempre sorridente e fisicamente vigoroso, é uma espécie de “aquecimento” para a grande ofensiva diplomática, mas também mediática, que a China prepara para os próximos dias. Uma ofensiva em que pretende aproveitar a guerra de tarifas decretada por Donald Trump para demonstrar que pode ser um parceiro mais justo e confiável para os países atingidos pelas taxas americanas, mesmo aqueles que poderiam ser seus rivais.

Índia deixa de ser rival?

Uma das consequências mais visíveis das tarifas impostas por Donald Trump foi a reaproximação que acabou por provocar entre a Índia e a China, após um relacionamento conturbado, nos últimos anos, que chegou a envolver até um confronto militar numa zona fronteiriça dos Himalaias.

Agora, perante a ameaça de as exportações indianas para os EUA passarem a ter uma taxa de 50%, os dois países – que disputam historicamente a hegemonia naquela área do globo – concordaram em restabelecer e até aumentar as suas relações comerciais.

A entrada em vigor das tarifas americanas, no final do mês, pode significar um duro golpe para o comércio mundial, mas também para muitas empresas, nomeadamente dos EUA, que já transferiram ou estão a transferir a sua produção da China para a Índia, na esperança de contornar as tensões comerciais entre Pequim e Washington. Agora, perante a mudança das regras do jogo, podem escolher outro lado.

Os passos para a aproximação entre os dois países mais populosos do mundo foram dados, na semana passada, através do ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, que manteve encontros ao mais alto nível na Índia, incluindo com o primeiro-ministro Narendra Modi. Os encontros destinaram-se a abrir caminho para a primeira visita, em sete anos, de Modi à China no final do mês. Para já, os dois países concordaram em aliviar a presença militar nas suas fronteiras comuns, restabeleceram os voos diretos e redigiram uma série de acordos diplomáticos que permitirão um intercâmbio mais fluido, tanto a nível económico como de circulação de pessoas.

Preparados para tudo O desfile militar em Pequim vai exibir as novas e sofisticadas armas desenvolvidas pela China

Nova Deli e Pequim também concordaram em eliminar certas restrições de vistos para turistas, empresários e jornalistas, bem como aprofundar as suas conversações sobre a gestão da água dos rios – um dossier “quente” tendo em conta a barragem colossal que a China vai construir no Tibete e que tem preocupado algumas regiões indianas, com medo de ficarem sem acesso a água.

“Laços estáveis, previsíveis e construtivos entre a Índia e a China contribuirão significativamente para a paz e a prosperidade regionais e globais”, declarou Narendra Modi, após o seu encontro com Wang, o que indicia um clima frutuoso para a sua visita a Pequim.

Este avanço diplomático entre os dois gigantes proporcionou ainda uma novidade: pela primeira vez, o embaixador chinês na Índia desferiu, publicamente, um ataque violento à política americana de imposição de tarifas e prometeu que Pequim “apoiará firmemente” Nova Deli para defender os princípios da Organização Mundial do Comércio, frente a Washington.

“Os Estados Unidos da América beneficiam há muito tempo do comércio livre, mas agora estão a usar as tarifas como moeda de troca para exigir preços exorbitantes de vários países”, denunciou o embaixador Xu Feihong, num encontro sobre as relações entre os dois países.

Referindo-se à ameaça de Trump de impor tarifas de 50% sobre os produtos indianos, o embaixador disse que a China “se opõe firmemente” à medida.

“Diante de tais atos, o silêncio ou o compromisso apenas encoraja o agressor. A China apoiará firmemente a Índia na defesa do sistema multilateral de comércio, tendo a Organização Mundial do Comércio como seu núcleo”, sublinhou.

Estes comentários por parte de um diplomata na Índia acerca de um terceiro país são considerados incomuns. E podem indicar um endurecimento das posições de Pequim face aos EUA, que poderão ser visíveis já na próxima cimeira da Organização de Cooperação de Xangai (OCS), que se inicia a 1 de setembro na cidade chinesa de Tianjin.

Reunir os vizinhos

A cimeira da OCS vai permitir, para já, a reunião dos líderes dos três maiores países asiáticos: Xi Jinping, da China, Narendra Modi, da Índia, Vladimir Putin, da Rússia. Isto num encontro que contará também com a presença dos dirigentes do Paquistão, do Irão, do Cazaquistão, do Quirguistão, do Tajiquistão, do Uzbequistão e da Bielorrússia, além de países registados como observadores e parceiros de diálogo, como a Mongólia, a Turquia e a Arábia Saudita. Líderes importantes do Sudeste Asiático, incluindo o Presidente indonésio, Prabowo Subianto, e o primeiro-ministro malaio, Anwar Ibrahim, também já confirmaram a sua presença. No total, segundo as fontes oficiais de Pequim, a cimeira deverá reunir 20 chefes de Estado ou de governo, além dos líderes de uma dezena de organizações internacionais, incluindo o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.

Nesta cimeira de dois dias, as atenções estarão voltadas para a forma como a China pretende exercer a sua influência diplomática e posicionar-se como uma potência mundial, numa estratégia oposta à que tem sido seguida por Donald Trump: privilegiar a diplomacia e o diálogo, em vez da ameaça, através das taxas aduaneiras.

A ofensiva diplomática de Xi Jinping inscreve-se numa estratégia de longo prazo de Pequim para se afirmar como um ator fundamental “na construção da paz global”, em oposição a Trump

“Quanto mais complexa e turbulenta se torna a situação internacional, mais os países precisam de fortalecer a solidariedade e a cooperação entre eles”, declarou o vice-ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Liu Bin, para assinalar as diferenças em relação à política atualmente seguida por Washington.

O mesmo governante declarou que Xi Jinping deverá anunciar, durante a cimeira, um conjunto de novas medidas para promover a cooperação entre os Estados-membros da OCS, uma organização criada em 2001, como um bloco de segurança euroasiático, mas que evoluiu depois para o setor económico, e que engloba atualmente 26 países. Segundo Liu, o objetivo de Xi Jinping será o de, numa série de discursos e na aprovação de diversos documentos, “salvaguardar construtivamente a ordem internacional do pós-guerra e melhorar o sistema de governança global”. E, em diálogo com os outros líderes, fortalecer a cooperação em matérias de segurança, economia e cultura.

Segundo muitos observadores, esta ofensiva diplomática de Xi Jinping inscreve-se numa estratégia de longo prazo de Pequim para se afirmar como um ator fundamental “na construção da paz global”. Uma estratégia acompanhada de outro objetivo, também a longo prazo, que é o de alcançar a liderança tecnológica em setores decisivos para o futuro da Humanidade – o que já foi atingido em áreas como a mobilidade elétrica e a energia solar.

Com os olhos postos no Prémio Nobel da Paz, já no final deste ano, o horizonte temporal da diplomacia de Donald Trump é, por isso, muito mais imprevisível e, porventura, também efémero. Ao misturar a defesa dos interesses económicos dos EUA com a sua obstinação em ser reconhecido como o homem que faz parar guerras, Trump não se preocupa em consolidar laços com os aliados e amigos da América. Nem em distinguir, claramente, entre amigos e adversários. O que abre caminho a Pequim para se consolidar, aos olhos especialmente do chamado Sul Global, como a grande potência que mais se preocupa com as organizações internacionais e o diálogo entre nações.

Demonstração de força militar

Embora Xi Jinping vá passar os próximos dias a afirmar-se como um defensor da paz e do diálogo, a verdade é que também vai mostrar ao mundo que, se for preciso, a China também já está preparada para a guerra.

E aproveitando a presença de tantos líderes mundiais na cimeira da OCS, Xi Jinping vai convidá-los para, a 3 de setembro, subirem todos à tribuna de honra em Pequim para assistir àquele que será o maior desfile militar da História do país.

Para assinalar os 80 anos do fim da II Guerra Mundial, após a rendição do Japão – na China, o conflito continua a ser denominado Guerra de Resistência contra a Agressão Japonesa –, o desfile vai mobilizar dezenas de milhares de militares e, segundo fontes oficiais, exibirá “armas nunca antes vistas” – todas elas de fabrico chinês.

“As armas e os equipamentos demonstrarão plenamente a capacidade robusta de os nossos militares se adaptarem aos avanços tecnológicos, à evolução dos padrões de guerra e de vencer guerras futuras”, disse Wu Zeke, um dos responsáveis pelo desfile.

Esta demonstração de poder das Forças Armadas chinesas tem vindo a ser preparada ao pormenor. Vários ensaios têm sido realizados, de forma a que nada falhe. “O núcleo central do desfile militar serão os novos equipamentos de quarta geração, incluindo tanques avançados, caças de combate, veículos navais, organizados em módulos operacionais para demonstrar a capacidade de combate do Exército chinês”, noticiou o Global Times, jornal oficial em língua inglesa.

O desfile, coreografado e ensaiado ao pormenor, revelará ainda equipamentos de ponta, como sistemas de defesa antimísseis e armas hipersónicas – resultado de uma longa campanha de modernização do Exército de Libertação Popular, que ultimamente tem sido assolado por escândalos de corrupção.

Segundo a Reuters, a maioria dos embaixadores da União Europeia não comparecerá ao desfile, até porque isso significaria partilhar a tribuna de honra com Vladimir Putin. Mas todos os olhares estarão concentrados no nível de armamento que a China poderá apresentar. Até para perceber qual pode ser a alternativa de Pequim, num confronto futuro, se a diplomacia falhar. Nessa altura, a coreografia poderá ser outra

É curioso como uma irritante trincadela da bochecha, na parte interna, não faz mossa apesar da dor, enquanto um pequeno corte ou um arranhão feito no joelho durante a infância pode deixar marca para sempre. “A cicatrização é um processo que foi selecionado ao longo da nossa história evolutiva como uma forma de curar eficazmente uma lesão, mas tem consequências. Após uma cicatriz, o tecido fica diferente do que era antes e nem sempre funciona tão bem, mesmo que o objetivo da cicatrização seja alcançado”, disse à revista The Scientist Ophir Klein, biólogo do desenvolvimento do Centro Médico Cedars-Sinai em Los Angeles, nos EUA, estudioso da regeneração da mucosa oral.

Descobertas científicas recentes ajudam a compreender melhor como algumas partes do corpo humano conseguem cicatrizar sem deixar vestígios. É o caso do endométrio uterino (revestimento da parede do útero, um tecido cuja espessura varia mensalmente nas mulheres em idade reprodutiva, consoante as fases do ciclo menstrual) e da mucosa oral (revestimento húmido protetor que cobre o interior da cavidade bucal, incluindo a gengiva, o céu-da-boca e a língua), que regeneram sem deixar marcas, e com celeridade.

No entanto, os mecanismos moleculares que regulam a regeneração rápida desses tecidos têm sido relativamente pouco explorados até à investigação de Ophir Klein, a quem se juntou Michael Longaker, cirurgião plástico da Universidade de Stanford, na Califórnia, EUA, que estuda a reparação de feridas e cicatrizes cutâneas, cujas conclusões foram recém-publicadas num artigo na revista Science Translational Medicine.

O poder das células

Usando abordagens de bioinformática, a equipa liderada por Ophir Klein comparou a cicatrização de feridas no interior da boca e na pele facial, uma vez que ambos os tecidos têm a mesma origem embrionária.

Removeram pequenos pedaços circulares de tecido dos dois locais em ratinhos de laboratório e monitorizaram as lesões durante os sete dias seguintes. Enquanto as feridas orais estavam regeneradas sem marcas ao quarto dia, recuperando a mucosa o seu aspeto original, as feridas faciais sararam ao sétimo dia, deixando uma cicatriz. As propriedades mecânicas flexíveis da mucosa oral, semelhantes à pele fetal sem cicatrizes, contrastam com a pele facial, que tem mais tensão.

A equipa aprofundou a análise dos vários tipos de células que migravam para as feridas, como neutrófilos, fibroblastos e células vasculares. A maioria das células na mucosa oral era anti-inflamatória, o que acreditam ser um fator-chave na redução da formação de cicatrizes. Em contrapartida, as feridas faciais continham principalmente células inflamatórias e fibroblastos enriquecidos, que ativam vias pró-fibróticas, associadas a uma proteína chamada quinase de adesão focal (FAK), que responde ao stresse mecânico do tecido.

Como é que todos esses diferentes tipos de células comunicam entre si para impulsionar a reparação dos tecidos? Foi preciso fazer uma análise CellChat, uma ferramenta computacional que prevê interações celulares com base nos recetores e moléculas presentes nas suas superfícies, para o descobrir. Embora algumas das ligações previstas fossem semelhantes entre feridas orais e faciais, três tipos de fibroblastos comunicavam mais entre si na mucosa do que na pele.

Usando uma sequenciação de RNA de célula única, identificaram o enriquecimento de várias vias moleculares nas lesões orais, mas uma, a AXL-GAS6, destacou-se por estar altamente expressa nesses três tipos de fibroblastos. Quando os cientistas reduziram geneticamente os níveis de FAK na pele, as feridas sararam de forma semelhante às da mucosa oral, com menos cicatrizes.

Agora, a equipa quer explorar mais candidatos moleculares e vias diferentes entre os tecidos e como a sua interrupção afeta outros aspetos da cicatrização de feridas.

Maior proteção humana

Nas trincheiras de uma ferida aberta, de um lado estão micróbios patogénicos a tentar tudo para se infiltrarem nas camadas da pele; do outro, à defesa, estão as células do sistema imunitário e do tecido conjuntivo, a darem o seu melhor para neutralizar os invasores e sarar a pele o mais rápido possível.

Falar de cicatrização obriga a falar da pele. Desde o nascimento que o maior órgão do corpo humano e a maior área de superfície que temos de contacto com o exterior tem, entre as suas várias funções, a missão de proteger contra traumatismos, lesões abertas.

A pele, que pode pesar quatro a seis quilos, funciona como uma barreira entre os órgãos internos e o ambiente externo minado de bactérias e vírus, que podem resultar numa infeção. Sobretudo, se existir uma entrada facilitada para as suas três camadas. A epiderme é a mais superficial, a derme a que está em baixo e a hipoderme ou subcutânea a mais profunda.

Unindo a pele Quanto melhor a circulação sanguínea, melhor o processo de cicatrização

Na epiderme, estão vários tipos de células: os queratinócitos (são a maioria, cerca de 90%), que produzem a queratina, o tecido que dá coesão e impermeabiliza a derme; os melanócitos, que sintetizam a melanina; as células de Langerhans, que nos dão a defesa imunológica; e as células de Merkel, as sensoriais.

A derme, a camada do meio, tem várias funções e estruturas: células inflamatórias, a primeira barreira de defesa imunológica; terminais nervosos, que estabelecem a comunicação da pele com o restante organismo; vasos capilares, que regulam a temperatura do corpo; e glândulas sudoríparas e sebáceas. O chamado tecido conjuntivo, que dá elasticidade à pele, também está na derme.

Em apenas um centímetro de pele, existem dezenas de milhões de células, assim como 70 recetores de calor e 15 de frio.

A terceira camada, em profundidade, é a hipoderme. É essencialmente constituída pela gordura subcutânea, tendo também a função de sustentação.

O processo de cicatrização é uma autorreparação, em que o corpo produz uma quantidade maior de colagénio e doutras fibras para voltar a unir o tecido da pele danificado. Mas antes, quanto melhor a circulação sanguínea, melhor o processo de cicatrização.

Nem tudo o que arde cura

As feridas devem desinfetar-se com água oxigenada ou com álcool?

Quem não teve uma mãe ou uma avó a soprar uma ferida e a passar água oxigenada em cima do dói-dói? Memórias de infância que a ciência desmistifica.

O peróxido de hidrogénio, a que todos chamamos água oxigenada, é um composto químico formado por dois átomos de hidrogénio e dois de oxigénio. Ao libertar oxigénio ativo, oxida e destrói estruturas celulares de bactérias, fungos, vírus e células.

Este poderoso desinfetante é capaz de matar as novas células da pele e assim atrasar o início do processo de cicatrização. Por ser agressivo para os tecidos, tal como o álcool, a limpeza de uma ferida deve começar por ser feita com soro fisiológico – uma solução de água estéril e cloreto de sódio (tipo de sal), muito semelhante à composição das lágrimas e do suor.

No caso de existirem sinais de infeção, é recomendada a limpeza com uma solução cutânea iodada (como o Betadine) numa gaze, pois o algodão pode deixar filamentos na ferida.

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Vivemos num mundo onde o pior insulto que se pode ser é ser pobre. Mais do que a cor da pele, a religião, o sotaque ou a nacionalidade, o que verdadeiramente incomoda, o que assusta e o que repele, é a pobreza. O medo e o desprezo pelos pobres, pelos despossuídos, pelos que nos lembram o que o sistema nos pode fazer se sairmos da linha.

Aporofobia existe, muitos a têm, poucos a reconhecem.

A aporofobia não é nova. É uma herança suja do colonialismo europeu e foi aperfeiçoada pelo capitalismo neoliberal. No fundo, é o que sustenta o próprio edifício da desigualdade: “tu lá em baixo, eu cá em cima”. Tudo o que desafie essa divisão, tudo o que a ponha em causa, seja um pobre que ocupa, um imigrante que exige direitos, uma população oprimida que resiste, é automaticamente rotulado de ameaça, de selvagem, de terrorista.

É por isso que os nómadas digitais não são vistos como imigrantes. Esses não incomodam. Não enchem bairros periféricos, não são apanhados em fiscalizações. Têm passaporte europeu, pagam Airbnbs com rendas exorbitantes, e os seus privilégios blindam-nos.

O mesmo se aplica aos investidores estrangeiros, que compram prédios inteiros para especular com o mercado da habitação, têm benefícios fiscais excelentes, e ainda são aplaudidos como motores da economia. Não precisam de aprender a falar a nossa língua, não são classificados como  imigrantes, são estrangeiros a viver em Portugal.

Já os que chegam com fome, com os filhos pela mão, chegam para trabalhar, à procura de uma vida melhor, são olhados como intrusos. A xenofobia, muitas vezes disfarçada de “controlo de fronteiras”, é apenas a aporofobia com outro nome.

Esses mesmos nómadas digitais e os investidores estrangeiros instalam-se nas cidades com rendimentos vindos de fora, e com isso tornam possível pagar rendas que são inacessíveis à maioria da população local. Os bairros populares tornam-se territórios de luxo. A classe média é empurrada para fora dos centros urbanos. E, no fim, ainda nos dizem que é “desenvolvimento”.

A caridadezinha, a esmola, algumas formas de  voluntariado, tudo isso serve apenas para manter a distância segura entre o “nós” e o “eles”. Não se trata de inclusão, mas de manutenção da ordem: que fiquem onde estão, mas que saibam que somos “bons”. E quando um pobre se revolta, quando um miserável diz “basta”, a narrativa muda: vira selvagem, vira ameaça à paz, vira alvo a abater.

É o que vemos todos os dias na Palestina, onde a resistência dos oprimidos é tratada como terrorismo, e o genocídio colonial é pintado como “autodefesa”.

Reflete-se em tudo.  Nas cidades que constroem muros e condomínios fechados, para separar quem pode de quem incomoda. Nas praias privatizadas ou quase, onde estender uma toalha na areia livre é “coisa de pobre” mas alugar uma cadeira com guarda-sol dá direito a um pedaço de costa. Nas escolas privadas, onde se formam elites isoladas, e nas escolas públicas, que durante décadas segmentaram e separaram os “bons meninos” dos “restantes”, como se a educação fosse um prémio e não um direito universal.

Vivemos num sistema que sabe distinguir um pobre de um rico. Mas não sabe distinguir liberdade de pobreza. Pior: nem quer. Porque a liberdade, num mundo onde a pobreza é normalizada, é um luxo para poucos. É importante ressalvar que a miséria e a pobreza não são a mesma coisa. Há muita gente pobre que não é miserável, que vive com dignidade, solidariedade e coragem. E há muitos ricos mergulhados numa miséria moral profunda. A miséria não é uma questão de rendimentos: é uma escolha social e política.

Há muitos miseráveis ricos, gente com dinheiro e poder, mas vazia de empatia, escrava do status e do lucro. Mas o verdadeiro escândalo, o que a moral dominante não tolera, é um pobre digno, um pobre consciente, um pobre que recusa ser invisível e resiste à opressão e luta pelos seus direitos.

O reconhecimento social de uma vida bem-sucedida é quase sempre lido e fomentado pela mostra de bens materiais, e não pelo seu contributo digno à sociedade.

A aporofobia é a raiz do racismo, da xenofobia, do elitismo, da divisão de classes. É o ódio à pobreza mascarado de civilização. É o nojo disfarçado de mérito. É o desprezo por quem ousa existir sem pertencer ao clube dos eleitos.

Enquanto não enfrentarmos este mal com coragem e frontalidade, enquanto não nos dispusermos a desconstruir os preconceitos que o sustentam, continuaremos a construir muros, a expulsar pessoas, a negar humanidade e a alimentar o monstro da miséria moral que o capitalismo tão bem sabe nutrir.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

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Há pouco mais de uma década, as voltas do Movimento Judicial levaram-me a exercer funções no Tribunal de Oleiros, na Comarca de Castelo Branco. Aos primeiros julgamentos, sempre que precisava de questionar testemunhas sobre a data de factos mais longínquos, invariavelmente a resposta batia num marco temporal muito específico. “- Isso, senhor Juiz, ainda foi antes dos grandes incêndios”. A cada resposta similar, a evidência tornava-se mais cristalina. Os “grandes incêndios” deixaram uma marca indelével e perene no ideário coletivo daquela Vila, outrora pertencente à extinta sub-região do Pinhal Interior Sul.

Os violentos incêndios de 2003 consumiram 70% da floresta de Oleiros, reduzindo-a praticamente a cinzas, num total de 500 quilómetros quadrados em chamas. Morreram pessoas e ficaram destruídas várias dezenas de habitações. Foram dias de tragédia que afetaram também concelhos vizinhos como Proença-a-Nova, Pampilhosa da Serra e Fundão. Esses dias, para além do horror imediato, trouxeram também marcas importantes para a população de Oleiros, tanto a nível económico, como social. A devastação acarretou o desalojamento de várias famílias, sendo que a violência foi ao ponto de ter provocado a queda do altar-mor da Igreja Matriz. Durante cerca de um ano ali não se celebrou missa. Organizaram-se donativos e a tarefa hercúlea que estas populações tiveram pela frente foi desde a recuperação das habitações, passando pela rede viária e terminando com a reflorestação. Psicologicamente a marca ficou. Como ouvi de alguns: “parecia obra do diabo”. Infelizmente, e usando da mesma expressão, o diabo foi voltando, com maior ou menor força, ano após ano, marcando na nossa memória coletiva tragédias como a de Pedrógão Grande em 2017.

Volvido este tempo, 2025 foi um ano em que sobretudo o Interior foi novamente fustigado por incêndios devastadores, queimando hectares de floresta, consumindo casas, serrando vidas e deixando comunidades inteiras marcadas por cicatrizes físicas e emocionais. Por isso, e por ser de elementar justiça, impõe-se dirigir a todos os diretamente afetados, àqueles que perderam entes queridos, àqueles que perderam casas, memórias e meios de subsistência, uma palavra de profunda solidariedade, que igualmente se estende a todos os que vêm dedicando os seus dias e noites a combater as chamas: bombeiros, forças de proteção civil, forças de segurança, voluntários e moradores. São inúmeras as pessoas anónimas que têm arriscado as suas vidas para salvar os outros e o seu esforço mostra o melhor de nós enquanto sociedade, importando que os seus direitos fundamentais sejam protegidos e que se reconheça o seu inestimável sacrifício, com o apoio emocional e material de que carecem.

Nesta sequência, foi publicado, no passado dia 24 de agosto de 2025, o Decreto-Lei n.º 98-A/2025, de 24 de agosto, que veio estabelecer um conjunto de medidas de apoio e mitigação do impacto de incêndios rurais. Pese embora ali não se estabeleça qualquer alteração em matéria penal, ressalta do respetivo preâmbulo que o Governo tem como prioridade de ação a repressão deste flagelo.

Sendo a aplicação das penas matéria da competência exclusiva dos tribunais, parece resultar daquele texto legal uma aparente intenção de alteração da legislação penal em matéria de incêndios que vá de encontro às prioridades de repressão enunciadas pelo Governo. Sendo absolutamente louvável que, sem depender de declarações formais de calamidade, se criem mecanismos de apoio rápido, flexível e transparente, não se pode ignorar a colocação da tónica também no discurso punitivo que, não raro, nestes momentos, pugna pela agravação das molduras penais.

Vale a pena perder um minuto a olhar para a lei que nos diz: que o incêndio florestal dolosamente provocado é punido com pena de 1 a 8 anos de prisão; que se o incêndio florestal criar perigo para a vida ou integridade física de outrem ou para bens de elevado valor, se deixar a vítima em situação económica difícil ou se se tratar de atuação motivada pela intenção de obter benefício económico, é punido com pena de 3 a 12 anos de prisão; que se alguém impedir o combate aos incêndios é punido com pena de 1 a 8 anos de prisão; que se o agente do crime já tiver sido condenado em prisão efetiva anterior por crime idêntico, pode ser punido com uma pena relativamente indeterminada; e que se destes crimes resultar a morte ou a ofensa à integridade física grave de outra pessoa, as penas são agravadas de um terço nos seus limites mínimos e máximo, podendo assim chegar aos 16 anos de prisão.

Já o dissemos em artigo anterior (em “Violência doméstica: o desafio é agora” de 30.05.2025), que não nos parece que para o autor do crime o agravamento da pena seja decisivo. Se perante as penas já previstas a dissuasão não é suficiente, tal circunstância não decorre da sua aparente brandura, mas antes da sua não aplicação efetiva. Dados de há uma semana atrás diziam-nos que, durante este ano, foram detidas 99 pessoas por incêndio florestal, encontrando-se 39 a aguardar julgamento em prisão preventiva. Se a perceção pública aponta para um número muito maior de incendiários e se esse alarme social merece ser aplacado, cremos que o que mais urge é privilegiar a prevenção e dotar a vigilância e a investigação de meios que permitam trazer à justiça mais responsáveis. É fundamental dotar as polícias de meios técnicos, humanos e operacionais direcionados para esta problemática, investindo nas perícias forenses, com recolhas de provas em contexto florestal, com rastreios de cenários de ignição e com equipas especializadas e de pronta intervenção, quer para o apuramento das causas, quer para a identificação dos agentes e compreensão do respetivo contexto.

Sem esses passos verdadeiramente fulcrais, a mera austeridade plasmada na letra da lei apenas servirá para alimentar retórica punitiva, mas não para evitar novos incêndios nem para ajudar verdadeiramente as comunidades que estão cansadas de ver o tema sair da agenda ao primeiro sopro de outono.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Palavras-chave:

Há detalhes que não sabem morrer. Teimam em habitar-nos os dias e acompanham fielmente a passagem das horas, resistindo à efemeridade do tempo e vestindo a nossa história de espanto e beleza. E não será isso o que mais importa? E vem-me à memória não uma frase batida, mas um silêncio singular, como se, muitas vezes, a música nunca revelasse o seu último segredo. Refiro-me a uma singela pausa de dois segundos no tema A Noite Passada, interpretado ao vivo apenas a voz e guitarra por Sérgio Godinho, mais concretamente após o trecho cantado “cheguei-me a ti, disse baixinho ‘olá’…” (aos 02:49), isto na versão integrada no icónico disco Noites Passadas (1995), trabalho que resulta de gravações ao vivo no Teatro São Luiz e no Coliseu de Lisboa, nos dois anos anteriores. A pulsação e a densidade emocionais desse entre palavras nunca mais me abandonariam e penso nesse interstício comunicante como aquele espaço vazio, discretamente sublime, para onde o olhar se dirige de imediato, entre as magníficas árvores (Rilke), cuja reverberação poética continua a ecoar dentro de nós. 

Desconheço – um dia a sul, há vários anos, perguntei a Sérgio e confesso que não me recordo da resposta (e, porventura, ainda bem) – se essa nuance interpretativa terá sido planeada ou fruto daquela espontaneidade, da liberdade, do imediatismo e da vibração irrepetíveis que derivam da comunhão e do diálogo ao vivo com o público, in praesentia, que ele tanto aprecia. Não me interessa desvendar o mistério (até porque “há segredos sagrados / pelo sim, pelo não”, lembram-se?) nem isso seria o mais importante. O que fica é uma espécie de epifania, é o efeito que planta em nós, e essa coisa é que é linda, como diria o seu amigo e cúmplice musical José Mário Branco. Não se trata de uma mera ausência de som, mas de um significante silêncio dramático que nos revela, pela sua profundamente simples carga expressiva, o quanto a arte pode ser também sinónimo de suspensão, expectativa, surpresa e reencontro. E com este singelo pormenor, mais uma vez, Sérgio Godinho soube tocar, como poucos, as cordas do nosso lado esquerdo, aquelas que fazem parar o tempo por breves instantes para logo a seguir nos abraçar (fazendo-nos, metaforicamente, regressar a casa) com uma poeticidade, plena de visualismo, que deixa o lastro maior: “… toquei-te no ombro e a marca ficou lá.”

Ativação irrequieta de novos sentidos

A obra do compositor nascido no Porto em 1945 tem esse indesmentível élan que deixa a sua impressão digital em nós, pois as suas histórias e os seus frescos, retratos e outras digressões contam também as nossas próprias vidas, como se estivéssemos a rever um filme muito “antigo” e familiar que nunca nos cansa e no qual encontramos sempre renovados motivos de descoberta e deleite. Mas em Godinho não se trata de uma banda sonora estática a rodar confortável e passivamente em loop como grande caixa de ressonância do mundo. Um dos traços que mais individualizam o seu percurso é precisamente essa ativação irrequieta e constante de novos sentidos e leituras para uma plêiade de canções rente à vida e ao real, numa elasticidade continuamente estimulada e revigorada feita de múltiplos movimentos e variações. Para o músico que celebra este ano 80 voltas ao Sol, fazer essa revisão crítica da matéria dada é energia motriz, casa de partida e estação de chegada, causa e consequência, necessidade vital e prazer estético. 

O desafio, o risco, o questionamento e a superação estão inscritos há muito no vocabulário de Sérgio Godinho e não se resumem à dimensão musical nem, bem assim, à aglutinação de inúmeras colaborações de diferentes gerações de criadores e intérpretes em processos partilhados de inventividade. As suas diversas – por vezes menos conhecidas – incursões no cinema, no teatro, na televisão ou na literatura (obras para os mais novos, crónicas, poesia, contos, romances) são um reflexo dessa matricial sede de ter mundo, de uma fremente atitude interrogativa perante a vida e suas dimensões ora mais simples ora mais veladas e insondáveis.

Deambulação criativa incessante

No plano musical, a ebulição criativa de Godinho não é dissociável da espacialidade do palco. É nesse contexto privilegiado, no calor do momento, que acontece o ritual-mor, a iniciação à viagem coletiva do corpo e do espírito, a partilha instantânea (e não diferida como nos álbuns de estúdio) e “sem rede”, a escuta da respiração e da vibração do outro, o “mútuo consentimento”. Onde o músico pode desvelar as diversas cores da sua ampla paleta, (re)criando outras camadas para o sentir e o expressar, sem acessos bloqueados. O brilho, a emoção e a energia dessa fusão feita de dar e receber, de entrega e reciprocidade, são a fonte primordial onde a sua verve musical vai beber novas e renovadas vidas. Não fosse, aliás, na comunicação com o público que a canção cumpre a sua função máxima. 

Falar do repertório do “homem dos sete instrumentos” não é, porém, sinónimo de o limitar à galeria canónica dos valorosos nomes nacionais cultores da canção social e politicamente engagé. A sua transversalidade literária estende-se, desde sempre, às temáticas do foro filosófico ou existencial, às canções de percurso (com suas lições, ruturas e permanências), às “cartas” amorosas, mas também ao desamor, aos quadros/paisagens do quotidiano comum, aos retratos de personagens intemporais, às pequenas (in)significâncias. Sérgio Godinho nunca quis que a sua música se deixasse aprisionar pelas tentadoras amarras dos “presentes” em que teceu essas obras (poucas vezes fez canções sobre o momento) ou se esgotasse em circunstâncias específicas captadas em modo de reportagem, ou revelasse uma postura evangelizadora.  

E aí está uma das marcas mais incisivas da sua mundividência: uma deambulação criativa incessante, plena de curiosidade, lucidez e abertura de horizontes, sem dogmas nem fórmulas preestabelecidas (muitas das suas canções não contam uma história e, acima de tudo, não têm um enredo com princípio, meio e fim). Falo de uma postura que não se fossilizou ideologicamente, não se fechou em si mesma, não perdeu a capacidade de não se levar demasiado a sério, não se divorciou (dos defeitos) da vida real, não se cristalizou num desencanto e num pessimismo crónicos perante o mundo (mesmo podendo ter razões para tal) nem numa atmosfera sonora/musical de cariz passadista ou monolítica. É esse o “elixir da [sua] eterna juventude”.

Ao mesmo tempo, não obstante essa admirável porosidade feita de múltiplas janelas, passaportes e “irmãos do meio”, observamos na sua obra uma unidade e uma coerência globais que dispensam rótulos (que só pecariam por redutores e superficiais). A argamassa godinhiana vive muito desse cruzamento entre uma marcada individualidade, discreta mas assertiva no seu modo crítico e independente de estar e pensar o mundo, e, do outro lado, uma fértil e produtiva pluralidade de vozes que enformam uma cartografia repleta de estações e apeadeiros. Se as canções em Sérgio Godinho são visivelmente permeáveis à reinvenção, a sua filtragem do real nunca descura três traços fundamentais que lhe estão colados à pele e que perpassam toda a sua produção ao longo dos anos como fio de Ariadne: argúcia (analítica), distanciamento (crítico) e subtileza (criativa).

Fronteiras abertas e as ideias libertas

No seu itinerário, a criação musical (momento que não deixa de ser sempre de solidão) e a performance em palco (a casa coletiva) são como que duas faces da mesma moeda, sem as quais Sérgio não se completa nem cumpre, e às quais se juntaria, mais tarde, a escrita de maior fôlego com a dimensão romancística, a qual lhe permite uma útil e estimulante continuidade de trabalho (o laborar diário por contraponto ao ofício mais fracionado e intermitente da escrita de canções) e a preservação de uma rotina criativa como “salvação” dos dias.

A frescura da sua música, no plano sobretudo dos arranjos e andamentos, o ludismo dos jogos de palavras (“fizemos o quatro e pintámos o sete”, com aquele brilhozinho nos olhos) ou a apropriação de expressões do dia a dia (“cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas”, entre muitas outras que nos inscreveu criativamente na memória) são alguns dos ingredientes que se tornaram familiares para nós quando ouvimos o seu nome. Porque há algo de universalista, que transcende a esfera pessoal, nas suas canções, mas também porque estas interpelam cada indivíduo como se fosse um diálogo íntimo a dois. O mistério é-nos revelado em voz alta, mas é como se mantivéssemos aquela ilusão cativante de que, subtilmente, a mensagem se dirige, baixinho, em segredo, a cada um de nós em particular.

A insatisfação, a curiosidade e o ímpeto inventivo acompanham Sérgio desde tenra idade, como ele próprio confessa, não fosse de pequenino que se começa a torcer o destino e não tivesse ele próprio um forte instinto de sobrevivência plasmado em mais de meio século de percurso artístico. Daí também o seu profundo e declarado horror à etiqueta ou à fixação obsessiva num dado registo. E aqui o músico portuense, ao invés de permanecer numa zona de conforto em que já é reconhecido – que, de resto, seria legítimo –, tem feito da versatilidade o “primeiro gomo da tangerina”, num claro elogio à necessidade vital de risco (“era esse risco que nos estava a fazer falta”, dizia numa entrevista recente a propósito dos desafios que a pandemia também veio colocar como reverso positivo) e de exploração de outros territórios e linguagens. Pois na sua obra as fronteiras estão abertas e as ideias libertas – atitude, aliás, que ele preconiza, em jeito de apelo coletivo, para o próprio País no refrão da canção Nação Valente, do último disco de estúdio, editado em 2018.

Desconstruir evidências e aparências

A história de Sérgio Godinho é, no fundo, a de uma maturidade congénita (bastaria recordar, desde logo, o teor e o alcance das letras do seu primeiro disco, em 1971) que nunca deixou, contudo, de ir tecendo essa aprendizagem maior só ao alcance daqueles espíritos que teimam em não ficar demasiado quietinhos, sossegadinhos e caladinhos, dos que perseguem aquela insubstituível “liberdade de mudar e decidir”: tatear o escuro, ousar o desconhecido, incorporar o novo. Sempre com o intuito interrogativo de não captar a realidade de uma mesma e imutável perspetiva, divorciando-se de uma visão redutora, óbvia, monocromática ou simplesmente a preto e branco.

Ancorando o seu imaginário nas danças e contradanças do quotidiano, nas suas epifanias e nos seus pequenos mistérios, nas coisas mais “banais”, em mares de dúvidas e certezas, há sempre, depois, em Sérgio um twist poético que lhe confere aquela densidade superlativa que nos seduz e convida a entrar. A visão realista não fica pela superfície dos temas, mesmo quando as letras são mais diretamente inspiradas no linguajar popular, pois, acima de tudo, é preciso torcer o visível e subvertê-lo, desconstruindo evidências e aparências. Daí que o resto da sua (e da nossa) vida seja amiúde povoado de novos “primeiros dias”, pois a imersão na dimensão secreta e íntima das coisas é um jogo sempre em aberto para Sérgio Godinho. É desse modo que o reconhecido compositor continua a deixar-nos o print da sua passagem, inclusive para ele próprio. 

Imagino facilmente Sérgio sentado numa esplanada de café – lugar que é esponja da história dos outros e também contribuinte para narrativas alheias –, ao fim da tarde, a dar à manivela da imaginação, deambulando o seu olhar pelos frequentadores do espaço e pelos transeuntes, perscrutando em zoom pequenos gestos, rituais quotidianos e outros rastos, em rios que vão correndo nos intervalos de um simples gole, cigarro, palavra, silêncio, olhar. Nesse autêntico laboratório sociológico, o letrista dá asas à sua natural propensão observadora, osmótica, e a um radar intuitivo que lê o coletivo pela construção dos puzzles das experiências solitárias, como as daqueles que “apenas” almejam “um espaço menos ferido para pousar as feridas à procura de si próprio[s]” (como reza certo poema de João Luís Barreto Guimarães). 

E quando questionamos até que ponto um músico ainda pode surpreender-nos ao 18º álbum de originais, Sérgio traz-nos um disco valente cuja faixa inaugural, Grão da Mesma Mó, é, porventura, uma das canções mais icónicas, pela complexidade e pela beleza, da sua lavra nos últimos anos. Não se trata meramente – como, de resto, nunca o é na sua discografia – de um tema que nos soa bem e entra facilmente no ouvido nem apenas de uma incursão filosófica pelo tema da passagem do tempo. Mais uma vez, e porque é preciso espalhar a notícia, Godinho vem solavancar-nos o espírito com um repositório atualíssimo de avisos e interrogações, exercitando a sua mestria antiga na urdidura de canções. O tema inicial de Nação Valente é um claro manifesto poético em defesa (da urgência) de uma identidade e de uma proatividade individuais não dissociáveis de princípios e valores solidários e empáticos.

É tempo de escrever o espaço em branco e abrir asa, o que equivale, nesta incisiva e singular letra-mote de Sérgio Godinho, a dizer duas coisas: não deixarmos que alguém habite e desenhe o tempo por nós ou que nos rasurem da equação dos dias, afirmando a nossa individualidade aqui e agora; e, na porção da nossa vida, não hipotecar o futuro por causa de erros, vícios e maus exemplos do presente, mas incorporando criticamente as lições positivas e menos luminosas do momento atual na construção desse amanhã. Pois “melhor é transfigurar o amanhã com todo o hoje”. Só através desse movimento de implicação do indivíduo com “o calor da vida vivida”, bem como da reciclagem dos excessos, ausências e desvios (do muito frio e do muito quente), poderemos aspirar, individual e coletivamente, a não ser mais do mesmo – a não ser grão da mesma mó –, a ser aquela “luz que se acende do nada”, como diz a certeira e inspiradora canção.

Densidade do silêncio

Uma preocupação ética não apenas retórica e efetivamente comprometida com a vida quotidiana, como essencialidade maior a agregar (pois estamos sempre em perda), é o leitmotiv desta enorme canção-gatilho que vagueia entre a dimensão cantada e o ambiente da spoken word, pois continua a ser pertinente pensar o mundo, fazer pela própria vida, ter brio próprio, não facilitar, enfrentar esse fio invisível chamado “medo”. E estabelecer linhas de água nas nossas convicções. Para não cair naquele automatismo acrítico e inconsequente que nos imobiliza: “Fazes que fazes ou pões sementes a crescer?”

Godinho sabe bem que a sociedade nunca foi nem será perfeita. Mas, esperançosamente, persiste em dançar no (teatro do) mundo, retornando simbolicamente ao fundamento, à raiz, pois é preciso fertilizar, semear e regar para depois colher possibilidades de futuro e para moer outras utopias. A metáfora campestre (grão, mó, semente) ilustra exemplarmente essa perseverança, esse empenhamento e essa positividade na reconstrução do mundo que falam mais alto na pena do letrista. Mas para que o resiliente “moinho” da vida continue a laborar em modo não puramente mecânico ou padronizado, Sérgio nunca deixa à porta a lucidez, o equilíbrio, o aguçado espírito crítico, a independência de pensamento, convocando-os para os trabalhos dos dias. E é nesse movimento bem temperado, tricotando janelas (imagem singular de uma canção intemporal sua) em busca de dias úteis e de dias raros, que a sua estrada se cumpre e vitaliza. 

Aprendemos com a sua música que a felicidade maior, a que nos ateia um brilhozinho nos olhos, não se explica, implica. Uma empatia que advém daquela aparente antinomia que tem o condão de simultaneamente aclarar sem desnudar tudo: “hoje soube-me a pouco”, “hoje soube-me a tanto”. Gosto de pensar que não haveria versos mais exatos para descrever o efeito dessa intimidade prazerosa com a obra godinhiana, pois há palavras que parecem acertar com o centro das coisas. E aqui acredito, com o poeta Nuno Júdice, que quando encontramos os nomes das coisas é como se estas saíssem de dentro deles e pudéssemos vê-las nos seus lugares. 

Regresso ao incipit e ao detalhe inicial deste texto, e invoco uma inspiradora ideia de Eduardo Lourenço: a grandiosidade de uma obra mede-se pela densidade de silêncio que nos impõe. E, mesmo que rendidos àquela mudez inexplicável que nos conecta à arte maior e cativos, por vontade, desse encantamento (“está-se bem no silêncio”), ainda assim apetece perguntar a Sérgio Godinho: Que força é essa, amigo?

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Nos primeiros seis meses de 2025, Polícia de Segurança Pública e Guarda Nacional Republicana registaram mais de 18 mil queixas por violência doméstica, que motivaram mais de mil detenções. Os dados ainda provisórios foram revelados esta sexta-feira por ambas as forças de segurança.

No caso da PSP, desde o início do ano até ao dia 30 de junho, foram recebidas 11 445 denúncias. Quase 80% dos suspeitos identificados são homens e um total de 306 agressores acabaram detidos, com 54 a permanecerem em prisão preventiva, como medida de coação decretada pelos juízes.

A maioria das vítimas nas queixas recebidas pela PSP são filhos ou enteados dos agressores (3734), cônjuges ou companheiros (3521) ou ainda ex-cônjuges ou ex-companheiros (1699).

Já no caso da GNR, as denúncias não atingem números tão expressivos, uma vez que se cifram nos 6951, no entanto, daqui resulta uma maior quantidade de detenções, num total de 767. Acrescentando as detenções a cargo da PSP, chega-se a um acumulado de 1073 detenções em seis meses, o que dá uma média de quase seis detenções por dia como consequência de violência doméstica, um crime público que qualquer pessoa pode denunciar.

Nos dados da GNR, as vítimas mulheres baixam ligeiramente para os 72%, na comparação com as vítimas identificadas pela PSP. Entre os detidos, 692 são do sexo masculino e 75 do feminino.

As denúncias podem ser realizadas presencialmente, nas esquadras da PSP e postos da GNR, através do e-mail violenciadomestica@psp.pt ou do número de emergências 112 e no endereço eletrónico queixaselectronicas.mai.gov.pt.

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A Polícia Judiciária anunciou esta sexta-feira a detenção do “presumível autor de, pelo menos, 17 crimes de incêndio florestal” no concelho de Ponte da Barca, entre 15 de junho de 2024 e 10 de julho de 2025.

O homem de 42 anos, habitante na freguesia de Lavradas, “onde foram deflagrados os incêndios”, conhecia “muito bem” o terreno, “dominando os pontos de entrada e fuga do mesmo”, o que lhe permitia passar despercebido. Nos últimos dois verões, “de uma forma sistemática e em dias e horários alternados, ocorreram diversas ignições que colocaram em perigo toda a uma extensa mancha florestal, com diversas edificações próximas, as quais originaram vários incêndios que foram prontamente extintos por ação dos bombeiros e de meios aéreos, para ali alocados”, informa a PJ, em comunicado.

A investigação esteve a cargo do Departamento de Investigação Criminal de Braga, que realizou várias diligências até conseguir “finalmente identificar o suspeito, igualmente referenciado pelo excessivo de álcool”, tendo ainda apurado que “os fogos eram ateados por via de chama direta”, durante o dia, quase sempre ao final da tarde. Uma vez que o suspeito procurava zonas com “acentuado declive”, com muitas árvores, existia um “elevadíssimo perigo concreto para as pessoas, para os seus bens patrimoniais e para o ambiente”.

O arguido será agora presente a juiz para definição das medidas de coação.

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Se não foi a pedido, pareceu. José Mourinho deixou esta sexta-feira o comando técnico do Fenerbahçe, na sequência da eliminação da Liga dos Campeões, perante o Benfica, mas terão sido as suas declarações a sentenciar a sétima demissão na sua carreira. O técnico português foi bastante jocoso para com o ataque ao mercado por parte do clube, desmanchou-se em elogios à equipa da Luz e ainda disse que não conhecia um dos vice-presidentes do Fenerbahçe, tendo optado por nem sequer contestar o afastamento do clube turco, mostrando-se totalmente resignado. Hoje, a sua saída foi oficializada, com a imprensa turca a avançar que Mourinho terá direito a uma indemnização de 15 milhões de euros, correspondente ao resto desta época que ainda tinha de contrato.

Com mais um avultado cheque, o treinador de 62 anos ultrapassa assim a fasquia dos €100 milhões recebidos só em rescisões por iniciativa dos clubes. É a sétima vez que tal sucede, e as contas fazem-se assim: €20,9 milhões do Chelsea, €19,7 milhões do Real Madrid, €9,6 milhões do Chelsea, €22 milhões do Manchester United, €17,4 milhões do Tottenham, €3,5 milhões da Roma. Com os €15 milhões do Fenerbahçe, o total acumulado ascende agora aos 108,1 milhões de euros.

Durante a eliminatória com o Benfica, Mourinho deixou várias pistas sobre uma possível insatisfação com o clube. Desde dizer que o Fenerbahçe não tinha equipa para disputar a Liga dos Campeões, que o Benfica era melhor, que não acreditava que o clube fosse contratar mais jogadores – “Honestamente, acho que não há qualquer lista” de reforços, atirou -, que a eliminação tinha sido o resultado esperado e ainda que não conhecia um dos vice-presidentes do Fenerbahçe, depois de este ter sido que iria ser fácil ganhar ao Benfica.