Adoramos uma boa vingança. Ver a noiva, aka Beatrix Kiddo, acordar de um coma de quatro anos para ir no encalço do bando que tentou matá-la, um a um, cada luta um deleite, cada morte um gozo quase inexplicável, sempre a torcer para que aquela mulher, interpretada pela atriz Uma Thurman, exerça com triunfo a ira do Senhor. Parte da nossa satisfação está no humor com que Quentin Tarantino mistura anime, western spaguetti e samurais, mas o verdadeiro gozo… é a vingança que no-lo dá. Kill Bill, um filme de culto do início deste século.

Hamlet, O Conde de Monte Cristo, a Bíblia. Coisas terríveis acontecem a quem pratica o mal. A vingança, traduzida num sentimento de justiça, de reparação, carma que vem ensinar a lição, deixa-nos com uma satisfação, dá-nos uma boa noite de sono. Mais difíceis de entender são obras como Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, ou o filme Táxi Driver, de Martin Scorsese. Sim, falam de vinganças, mas quantas camadas ali, quantos pontos de vista, quantas sombras! Como a vida não é um filme comercial norte-americano em que o bem é o bem e o mal é o mal, vida a cores em que nada é pão, pão, queijo, queijo, partimos numa viagem pelo labirinto da vingança, esse sentimento fortíssimo e universal a que nem o Deus todo-poderoso conseguiu escapar, como bem nos mostra o Antigo Testamento.

“É a motivação principal por trás das principais formas de agressão e violência humanas, incluindo violência doméstica, violência juvenil e bullying, violência de rua e entre gangues, tiroteios em massa, motins, brutalidade policial, fogo posto, extremismo violento, terrorismo, genocídio e guerra. A vingança destrói indivíduos, famílias, relações amorosas, fortunas, comunidades, nações e impérios”, escreve James Kimmel Jr., professor de Psiquiatria na Universidade de Yale e autor do livro A Ciência da Vingança, editado em Portugal pela Saída de Emergência.

Depois de os ataques de Israel – usando informações dos serviços secretos norte-americanos – terem matado o líder religioso Ali Khamenei, a 28 de fevereiro, o Presidente do Irão, Masoud Pezeshkian, proclamou: “A República Islâmica do Irão considera que é seu dever legítimo e de direito vingar-se dos perpetradores e mentores deste crime histórico.” E quem não entende este sentimento, ainda que não defenda o regime iraniano?

Na última batalha de D. Afonso Henriques, o Cerco de Badajoz, em 1169, o primeiro rei de Portugal sofreu um acidente e partiu o fémur, tendo sido apanhado e feito prisioneiro por conta disso. E logo as crónicas trataram de criar uma lenda que relacionava o episódio a uma praga lançada pela sua mãe. “Afonso Henriques, meu filho, prendeste-me e puseste-me a ferros. Tiraste-me a terra que me deixou o meu pai e separaste-me do meu marido. Rogo a Deus que venhas a ser preso assim como eu fui. E porque puseste ferros nos meus pés, quebradas sejam as tuas pernas com ferros. Mande Deus que isto assim seja”, teria dito D. Teresa. É apenas um mito, mas, ao menos na imaginação, o carma é mesmo tramado.

O que acontece no cérebro

“Quem semeia ventos colhe tempestades”, “quem com ferros mata com ferros morre”, “a cama que farás, nela te deitarás”, “cá se fazem, cá se pagam”, “a vingança é um prato que se serve frio”… A sabedoria popular é prolífera em garantir um carma à altura. E, no entanto…

A vingança não serve de nada, é um sentimento completamente inútil. Para o Irão, o que está em causa não é uma vingança por ter sido atacado ou por lhe terem assassinado o líder supremo, mas sim uma luta pela sobrevivência do regime, sabendo-se que os seus inimigos são tão externos como internos. Talvez por isso, os seus líderes usem tanto a palavra “vingança” – aconteceu o mesmo depois do bombardeamento de uma escola primária, que matou mais de 100 crianças –, sentimento unificador para um povo que já estava dividido antes da guerra com os EUA e Israel.

A nível pessoal, a vingança não nos enche, não nos traz qualquer plenitude, prejudica-nos – além de nos colocar em risco, porque podemos sofrer retaliações, mergulha-nos na raiva, consome-nos no ressentimento e na ruminação. Num instante, o gozo obtido esvai-se e ficamos a querer mais e mais, aquele sofrimento infligido não nos chega, não remata o caso, não repara o nosso mal-estar. Parecemos um drogado em plena ressaca, a procurar a próxima dose.

“Concluiu-se que o nosso cérebro, quando se vinga, se parece com o cérebro sob o efeito de drogas. Os ressentimentos estimulam o cérebro a desejar a vingança, assim como o stresse, a ansiedade ou a visão de objetos e locais associados ao consumo de drogas estimulam o cérebro dos viciados a desejar narcóticos. Os cientistas da adição descrevem esta aprendizagem dependente de estímulos como parte do sistema de autorregulação do cérebro, baseado no processo oponente, que procura manter o equilíbrio entre prazer (bem-estar) e dor (stresse), mediado, em parte, pela libertação do neurotransmissor dopamina”, continua James Kimmel Jr.

Parece que fazemos tudo pela dopamina, o novo petróleo da vida moderna. “Ser prejudicado ou tratado injustamente, ou sentir raiva, repugnância, culpa ou vergonha é doloroso e ativa a ‘rede de dor’ neural do cérebro – especificamente, uma estrutura cerebral chamada ínsula anterior. Conseguir uma vingança, ou mesmo fantasiar com ela, é recompensador, liberta dopamina e ativa os circuitos de prazer e recompensa do cérebro que, essencialmente, compreendem o núcleo accumbens, o estriado dorsal e a área tegmental ventral. Isto produz sensações de prazer que dissimulam temporariamente a dor, restaurando o equilíbrio. Por algum tempo”, nota o psiquiatra.

Trata-se de um efeito temporário e, tal como sucede com o álcool e as drogas, “os efeitos dissipam-se rapidamente e quase sempre levam a mais dor e sofrimento”. No entanto, o nosso cérebro só quer saber da “gratificação imediata”. Seja como for, uma coisa que não deixa de ser muito nossa, muito humana, é uma pessoa deleitar-se com a ideia de ver sofrer quem nos fez sofrer; outra coisa é passar da emoção aos atos e agir movido por esse sentimento.

O ódio e o antídoto

“O que nos trava para agir é a lei. Mas, sobretudo, a perda do amor do outro e a ameaça de culpa. Agir é sair da cena imaginária e entrar no real das consequências: prisão, exclusão, queda narcísica, retorno do ódio contra si. A fantasia preserva o gozo sem pagar o preço”, afirma Gustavo Faria, psicanalista brasileiro e professor de Literatura (ver entrevista), alertando: “A vingança, quando ruminada, vira um circuito fechado de excitação e culpa. Ela sequestra o tempo psíquico, estreita o mundo, empobrece o desejo. A mente passa a girar em torno de uma única cena: a ofensa. Isso adoece porque fixa o sujeito no lugar de objeto do trauma.”

A ruminação constante sobre algo que nos deu e para o qual esperamos a intervenção cármica, seja apenas na imaginação ou mesmo agindo em forma de vingança, mostra algo difícil de engolir: “Que ainda se está preso ao outro. Vingar-se é declarar: ‘Você ainda tem poder sobre mim.’ A verdadeira indiferença é mais rara e mais difícil do que o ódio”, conclui o psicanalista.

A indiferença, diz-se muitas vezes, é a melhor vingança. Significa que quem nos magoou já não tem absolutamente nenhum poder sobre nós – mas chegar a esse estado de superação e quase redenção requer um esforço e uma maturidade emocional que não é para todos. “Enquanto nos alimentamos do ódio e da raiva, continuamos dependentes do outro. Por isso se diz que o oposto do amor não é o ódio, é a indiferença no sentido de seguirmos em frente para o outro amor. Enquanto odiamos aquela pessoa, continuamos presos a ela”, reforça o psiquiatra Júlio Machado Vaz.

“É fascinante verificar que há pessoas em cujo equilíbrio psíquico o ódio e a raiva podem ser o motor, o combustível que as mantém verdadeiramente à tona porque têm um objetivo durante anos. Quando esse objetivo é conseguido, algumas dessas pessoas ficam profundamente desiludidas porque a vingança não lhes trouxe a pacificação que pensavam que iam ter, não lhes trouxe a satisfação sádica que eventualmente também fantasiaram. Ficam então numa situação complicada: ‘E agora? Isto tornou-se, de certa forma, o objetivo da minha vida’”, descreve o psiquiatra, que já assistiu a várias situações destas em mais de 50 anos de prática clínica.

Enquanto passamos anos a remoer, não estamos a viver plenamente, a saborear a vida. Ou, como diz uma frase muito citada nas redes sociais, o ressentimento “é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra”.

Existe um antídoto, como nota James Kimmel Jr.: “A pessoa beneficiada pelo perdão somos nós, quem foi magoado, e não quem magoou. Para alcançar os benefícios biológico-cerebrais da redução da dor e do desejo de vingança que advém do perdão, a pessoa que nos magoou é irrelevante. Não precisa de procurar, implorar ou aceitar o nosso perdão – ou sequer de ser informada dele. Os ressentimentos recordados, a dor e o desejo de vingança estão dentro do nosso cérebro. É aí que o remédio do perdão é aplicado, diretamente onde é necessário.”

No livro A Ciência da Vingança, o psiquiatra cita vários estudos com ressonâncias magnéticas, comprovando cientificamente que o perdão reduz a dor emocional, mas não só. “O perdão está também associado a pressão arterial mais baixa, a taxas reduzidas de doenças cardiovasculares, mortalidade e dor física, e a uma melhoria do sono, da resposta cardiovascular ao stresse, do funcionamento do sistema imunitário e até à satisfação com a vida (…) O perdão é grátis, está disponível sem receita médica e pode ser produzido e libertado no cérebro 24 horas por dia.”

Olho por drones

Só que as coisas não são assim tão simples na hora de, conscientemente, escolher o perdão. Isto porque a vingança é um impulso bastante complexo e muito “pintado de arquétipos culturais”, como nota Júlio Machado Vaz.

Na violência doméstica, por exemplo, “a vingança está associada a questões como o sentimento de posse e com sentimentos de inferioridade. É aquela velha frase: ‘Não és minha, mas não és mais ninguém.’ Na cabeça do homem que a levou a cabo, atentaram contra ele em camadas profundas, seja na sua honra, na sua masculinidade, o que fez com que ele se comparasse conscientemente ou inconscientemente com outros homens e se sentisse inferior. A vingança em geral é, mais uma vez, como a própria violência doméstica, uma demonstração de poder”, continua o psiquiatra.

“O carma, Deus, o destino, a sorte, etc., somos sempre nós (e eu digo nós porque, de uma maneira mais explícita ou mais implícita, todos nós o fazemos) a tentar ordenar o mundo. É muito angustiante pensarmos que não há nada verdadeiramente garantido. Ora, nessa nostalgia de pôr ordem no mundo, temos esse mecanismo de defesa que é colocar o que é mau no outro. Isso simplifica a vida e é por isso que os populistas têm o sucesso que têm. De quem é a culpa? Dos outros. Quem é que nós temos de controlar? Os outros. Ao fazer isso, todo o tipo de guerra, de violência, etc., está justificado. O que é preciso é que o outro seja o mau da fita. Ora, nós somos feitos de bem e mal, sempre”, sublinha Júlio Machado Vaz.

“Na escala dos povos, a vingança chama-se ‘honra’, ‘segurança’, ‘retaliação estratégica’. Mudam os nomes, não a lógica pulsional. A civilização tenta substituí-la por direito, tribunais, tratados. Mas quando a lei falha, o gozo arcaico retorna: olho por olho – agora com drones”, aponta Gustavo Faria.

A vingança é o “vício mais mortífero”, escreve James Kimmel Jr. Não é algo que possamos atribuir a psicopatas ou a sádicos incapazes de empatia e que gozam com o sofrimento dos outros – a vingança está em todos nós, é um vício das pessoas comuns, ajam ou não sobre ele. Caim não mata Abel por inveja – mata o irmão porque não podia matar Deus depois de o divino o ter rejeitado. Nesse ato, a vingança tornou-se hereditária, segundo a Bíblia, pois foi passando de geração em geração.

E porque estamos em época pascal, sejamos ou não crentes, atentemos no conselho de Jesus sobre quantas vezes se deve perdoar a quem nos ofendeu. “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.” “É um conselho prático, cientificamente sólido e que pode salvar vidas, visando prevenir a violência, restaurar a paz e ultrapassar o vício em vingança”, reforça James Kimmel Jr.

Que a Ciência nos ajude, então, a ultrapassar a dor.

Gustavo Faria: “A vingança é uma obra do eu civilizado, não do instinto bruto”

O psicanalista brasileiro Gustavo Faria vai direto ao ponto nesta entrevista sobre esse sentimento desassossegado e avisa: “A verdadeira indiferença é mais rara e mais difícil do que o ódio”

Por que razão adoramos histórias de vingança na literatura ou no cinema, por exemplo? Há um gozo na vingança e parece que quanto mais fria mais gozo nos dá assistir…
Porque nelas o desejo não é recalcado: ele age. A vingança encena aquilo que, na vida civilizada, somos obrigados a conter. Assistir a uma vingança “fria” dá gozo porque é o espetáculo de um sujeito que não hesita, que não vacila, que não se culpa. É o sonho de uma soberania impossível: eu sofri, logo tenho o direito de ferir. No cinema, o supereu vira herói.

Do gozo do pensamento de vingança ao ato vai uma grande diferença. O que nos trava?
A lei. Mas, sobretudo, a perda do amor do outro e a ameaça de culpa. Agir é sair da cena imaginária e entrar no real das consequências: prisão, exclusão, queda narcísica, retorno do ódio contra si. A fantasia preserva o gozo sem pagar o preço.

De onde vem essa pulsão de vingança? Seria ingénuo pensar apenas nos “bons” motivos, como ser feita justiça ou esperar o carma. Há aqui uma causa menos nobre, não?
Do narcisismo ferido. Antes de “justiça”, é restituição de imagem: “Você diminuiu-me, agora eu diminuo-te.” É menos sobre moral e mais sobre reparar uma ferida no eu. Há algo de infantil e de cruel aí: fazer o outro sentir o que eu senti.

O que nos provoca a ruminação sobre a vingança? Pensando no livro Crime e Castigo, o que esse sentimento faz na nossa saúde mental?
Raskólnikov não é consumido pelo crime, mas pelo pensamento que não para. A vingança, quando ruminada, vira um circuito fechado de excitação e culpa. Ela sequestra o tempo psíquico, estreita o mundo, empobrece o desejo. A mente passa a girar em torno de uma única cena: a ofensa. Isso adoece porque fixa o sujeito no lugar de objeto do trauma.

A vingança diz o quê sobre quem a põe em prática?
Que ainda está preso ao outro. Vingar-se é declarar: “Você ainda tem poder sobre mim.” A verdadeira indiferença é mais rara e mais difícil do que o ódio.

Ela é inata ou fica refinada com o tempo? Por exemplo, numa criança a vingança seria mais uma retaliação?
Na criança há retaliação: impulso, descarga, ato. A vingança exige tempo, memória, linguagem, elaboração simbólica. Ela é uma obra do eu civilizado, não do instinto bruto. É ódio com projeto.

A vingança é também coletiva (ação de um país, por exemplo). Enquanto civilização, evoluímos alguma coisa para lidar melhor com ela?
Na escala dos povos, ela chama-se “honra”, “segurança”, “retaliação estratégica”. Mudam-se os nomes, não a lógica pulsional. A civilização tenta substituí-la por direito, tribunais, tratados. Mas quando a lei falha, o gozo arcaico retorna: olho por olho – agora com drones.

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A química das emoções

O nome poderá não ser conhecido do grande público, mas a história merece ser amplificada. Anas Hmedi é juiz no Tribunal de Recurso de Monastir e presidente da Associação de Magistrados Tunisinos. Nos últimos anos, tornou-se uma das vozes mais visíveis na defesa da independência judicial na Tunísia. Hoje, porém, essa visibilidade veio cobrar o seu preço: sob a acusação de “obstrução da liberdade de trabalho”, este juiz acaba de ser julgado e condenado num processo que diversas organizações internacionais não hesitam em classificar como infundado e politicamente motivado.

O julgamento — cujo início estava previsto para o final de março — surge na sequência direta de posições públicas assumidas por Hmedi enquanto dirigente associativo. Segundo a Amnistia Internacional, trata-se de um caso paradigmático de represálias, em que o juiz é processado não por atos judiciais, mas por declarações feitas em defesa da autonomia dos tribunais e contra a interferência do poder executivo.

Mas a história começa bem antes de 2026 e ajuda a perceber por que razão um juiz se tornou problema de Estado. Em 2021, iniciou-se uma profunda alteração do sistema político tunisino que resultou numa tendência de concentração de poderes no seu presidente. Nessa sequência, no ano seguinte, foi dissolvido o Conselho Superior da Magistratura e demitidas dezenas de juízes, tendo tais decisões assentado em alegações decorrupção não concretizadas. Ora, a esta situação respondeu, de forma imediata, a Associação de Magistrados Tunisinos, liderada por Hmedi, que organizou uma greve nacional inédita, transformando a defesa da independência judicial numa causa pública.

É nesse momento que o nome de Hmedi ganha dimensão política. Não por vontade própria, mas por necessidade institucional. Como presidente da associação, passou a denunciar aquilo que considerava ser uma captura progressiva da justiça pelo poder executivo. E foi precisamente essa exposição que desencadeou a sucessão de processos que agoraculminaram no seu julgamento e condenação a um ano de prisão.

O primeiro capítulo judicial, aliás, remonta já a 2022, quando Hmedi foi interrogado várias vezes após uma greve de magistrados. Pouco depois, surgiu a acusação que agora chegou a tribunal: a de ter incitado outros juízes a aderirem à paralisação, o que as autoridades enquadraram como “obstrução da liberdade de trabalho”. Uma figura jurídica frequentemente utilizada, segundo organizações de direitos humanos, para punir protestos e greves. 

Mas o caso não ficou por aí. Em dezembro de 2025, um novo processo foi aberto contra o juiz, desta vez relacionado com declarações críticas sobre decisões judiciais e sobre a atuação do Ministério da Justiça. A Comissão Internacional de Juristas não hesitou na leitura: tratava-se de “uma tentativa nua” de o silenciar e, mais amplamente, de travar o trabalho da associação que lidera. 

A escalada levou o caso ao plano internacional. Em janeiro de 2026, um grupo de relatores das Nações Unidas, incluindo a responsável pela independência de juízes e advogados, Margaret Satterthwaite, manifestou preocupação com a “criminalização” das atividades de Hmedi. O princípio em causa foi enunciado de forma simples: os juízes devem poder participar no debate público sobre o funcionamento da justiça sem receio de represálias. 

Também a União Internacional de Magistrados (UIM) reagiu, sublinhando que os magistrados — e em particular os representantes associativos — têm o direito e o dever de se pronunciar sobre questões que afetam a independência judicial. Aliás, a organização alertou para o efeito dissuasor destes processos, visto que não é apenas um juiz que está a ser julgado, mas toda uma magistratura que passa a medir as suas palavras.

É neste contexto que se inscreve o mais recente episódio: a tentativa de fragilização da própria Associação de Magistrados Tunisinos. Em vésperas do seu congresso de 2026, a associação foi alvo de notificações administrativas atípicas e de ameaças de suspensão. Ainda assim, os juízes avançaram com a reunião e reconduziram Hmedi na liderança, num gesto que foi simultaneamente eleitoral e político.

A cronologia revela, por isso, um padrão difícil de ignorar. Primeiro, a reforma institucional que retira independência ao sistema judicial. Depois, a contestação organizada por uma associação profissional. Seguem-se medidas disciplinares, processos judiciais e, finalmente, tentativas de neutralização da própria estrutura associativa. Não se trata, como é bom de ver, de episódios isolados, mas de etapas de um mesmo processo.

De resto, este padrão não é exclusivo da Tunísia, mas ali assume uma forma particularmente visível. Se o mais recente relatório da Liberties sobre o estado de direito na Europa chama a atenção para a utilização de mecanismos legais como instrumentos de pressão sobre juízes e instituições independentes, a diferença tunisina está na velocidade e na frontalidade com que esse processo se está a desenrolar.

O caso de Anas Hmedi é, por isso, mais do que um litígio penal. É um teste à capacidade de resistência de uma instituição, visto que estamos perante um juiz acusado, julgado e condenado por incentivar uma greve que contestava a demissão de colegas. Dito de outro modo, não se trata de um caso que versa apenas sobre a legalidade da ação em si, mas sobre a própria definição dos limites da ação coletiva dentro do sistema judicial. Aliás, quando a associação que o representa é, também ela própria, alvo de ameaças de dissolução, a questão torna-se ainda mais grave. Sem estruturas coletivas, os juízes deixam de ter voz organizada e sem voz, tornam-se mais vulneráveis, sendo que essa vulnerabilidade é campo aberto para uma justiça menos independente e mais permeável ao poder político.

No fim de contas, a imagem que fica é a de um juiz que não procurou protagonismo, mas que acabou por o assumir quando a função o exigiu e que, por isso mesmo, se tornou incómodo. O seu julgamento e o desfecho a que o mesmo chegou, já não é apenas sobre si, mas antes sobre a linha que separa a crítica legítima da punição política. É sobre o direito dos juízes a falarem da justiça sem serem julgados por isso. E é, sobretudo, sobre o risco de um país onde essa linha começa a desaparecer.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Ontem, no Intercidades — esse comboio admirável que não só nos leva ao destino, como também a outro tempo — entrou uma senhora sem bilhete. O episódio foi mínimo, como são quase sempre as revelações. — “Então não sabe que aqui é preciso reserva de lugar?”, perguntou o revisor. A senhora explicou-se. Vinha de Vizela, de um tratamento termal; tinham-lhe dito não ser necessária a reserva, desde que saísse no Porto; insistia e tudo soava mal. Toda a gente na carruagem percebeu o problema. Mas, por uma dessas branduras que ainda resistem, o revisor resolveu ser benigno. Caso contrário, teria de lhe exigir, ali mesmo, 125 euros. A notícia abateu-se sobre a senhora como um tecto. Ficou consternada. E então o revisor, sorridente, rematou: teve sorte em não ter apanhado o Sr. Gouveia.

A senhora lá saiu em Campanhã. Nós continuámos para Santa Apolónia. A viagem prosseguiu, mas o Sr. Gouveia ficou.

O Sr. Gouveia não era apenas um revisor mais severo. Não era só um funcionário mais exacto, mais fiel ao regulamento. Chamá-lo zelota seria, no fundo, absolver-lhe a mesquinhez. No zelota há uma fé absoluta. E a fé, quanto mais desvairada, mais magnífica. O Sr. Gouveia pertence à estirpe dos que precisam de ver a regra cair sobre alguém, retirando daí um prazer obscuro. É, no fundo, um pequeno Robespierre, apaixonado mais pelo mecanismo da guilhotina do que pela justiça. A regra, quando não fere, parece-lhe incompleta.

Fiquei a pensar no Sr. Gouveia. Quer dizer, não no homem propriamente dito. Não o conheço (e talvez seja, quem sabe, um excelente pai de família, bom vizinho, benfiquista, cumpridor). Foi antes no impulso que o seu nome baptizou. É que há espíritos assim. E, pior, há uma escrita assim.

Chamo-lhe uma escrita de Sr. Gouveia.

É um tipo de escrita que não quer compreender, nem discernir, nem sequer chegar a uma conclusão. Procura detectar a falta alheia, puxá-la para a luz e retirar daí a sua gratificação. Participa, por isso, do mecanismo pornográfico da exposição: tudo tem de ser posto à vista, tudo tem de comparecer. Em certo sentido, nem chega a ser escrita. Seja feita por uma pessoa, seja produzida por uma máquina, é artificial em ambas as hipóteses. Parece movida pelo desejo de melhorar o mundo, mas aquilo que a anima é o instante em que alguém é posto em sentido diante dos outros: em vez de pensar, sopra no apito.

E prospera. Sobretudo entre os que se imaginam lúcidos. Fala-se de justiça, dignidade, consciência, reparação. Contudo, bastam duas ou três linhas para que o leitor medianamente desperto sinta o cheiro a azedo. O adversário não entra como adversário. Entra já reduzido a caricatura. Não lhe são concedidas razões, mas sintomas. Não se procura entendê-lo. A argumentação cede lugar ao retrato-robô. E o leitor é convidado a entrar para uma claque.

Eis um dos traços mais fatigantes de certa prosa contemporânea: está toda ela armada para produzir aplauso entre os convertidos. (Disse prosa, mas podia ter dito teatro, cinema, música, seja o que for.) Falta-lhe curiosidade pelo mundo. Falta-lhe vagar diante da ambiguidade. Falta-lhe aquele módico de caridade sem o qual até a crítica mais justa se degrada em brutalidade. Dêem-lhe o nome que quiserem — vigilância, consciência cívica, pedagogia social —, e ainda assim a coisa não muda de natureza. É a velha pulsão policial do homem, a inclinação imemorial para vigiar o próximo e achar nisso uma forma de elevação pessoal.

O Sr. Gouveia anda pelas carruagens do mundo à espera de quem se esqueceu da reserva. Está convencido de que é isso que os outros esperam dele; e há sempre centenas: de carruagens, de pessoas que se esquecem de coisas, de Senhores Gouveias. Reduzir uma pessoa inteira à escala da sua falta é fácil. Basta quase nada. Muito mais fácil do que arriscar entrar nesse território perigoso, contraditório e fascinante que é a natureza humana. E ter, por exemplo, de ouvir histórias de mal-entendidos e tratamentos termais.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

A decisão do Governo português de se afastar, quer no discurso, quer na ação, dos parceiros europeus para seguir o Presidente dos EUA numa guerra ilegal, estúpida, injusta e contra os seus interesses, vai ficar para a História como o exemplo perfeito de uma decisão de seguidismo irracional e medroso. Além das questões de segurança num mundo cada vez mais de poder multipolar, toda a nossa ausência por um lado e conivência por outro deixará Portugal numa posição bem distante daquele que tinha vindo a ser o propósito bem-sucedido nos últimos anos de uma maior influência no seio da União Europeia.

É importante fazer notar que a União Europeia não vai acordar um dia em 2028 ou 2030 para decretar que é a partir daí que se declara estrategicamente autónoma dos EUA. Tal como os investimentos europeus na defesa, isso trabalha-se e é gradual.

Depois das tarifas, da defesa intransigente dos interesses russos na guerra na Ucrânia, do documento de segurança que declara a União Europeia democrática e liberal como principal inimiga, à mercê de toda e qualquer tentativa declarada de interferência para que os seus congéneres extremistas europeus ganhem terreno e eleições, do achincalhamento constante dos antigos aliados europeus, do respaldo sem freio a um governo terrorista de Netanyahu, veio a guerra imbecil do trumpismo com consequências prejudiciais para grande parte do mundo e sem que os aliados europeus e da NATO tivessem sido consultados.

Pensemos por um momento se a partir daqui, e ao contrário daquilo que acaba a unir tanto um Pedro Sánchez em Espanha como uma Meloni em Itália, a resposta da maioria dos Estados-membros da Europa tem sido igual à portuguesa? Se não existisse uma voz e ações consequentes que fazem com que grande parte do espaço aéreo europeu esteja há largos dias fechado aos americanos para esta guerra contra o Irão? De França, Reino Unido e por aí fora, imaginemos do que se falaria e como estaria decretado, aí sim, o fim de qualquer ideia de uma União Europeia ou Europa soberana, pragmática e que tivesse agido contra as suas próprias opiniões públicas, contra a dos próprios EUA e contra o seu interesse noutros pontos do globo, entrando sem palavra nesta guerra? 

Em nome da imbecilidade ignorante do pior e mais perigoso Presidente da História dos EUA, Portugal demonstra que até o seu nacionalismo é de pacotilha e só vale para tudo aquilo que é verdadeiramente pequenino e que serve para destruir o País. O nosso partido de extrema-direita que é lesto a martelar narrativas falsas sobre os imigrantes, a exponenciar o racismo, a insultar chefes de Estado de países de língua portuguesa e a evocar supostos valores patrióticos quando dentro de portas é o que mais ofende o País, nem consegue servir para emitir uma crítica a este seguidismo irracional do Governo. Que grandes nacionalistas estes nossos filhos do trumpismo!

Por fim, um Partido Socialista moribundo e refém do reflexo e do decreto apatetado de muitos em estar mais à esquerda ou ao centro, mostra-se incapaz de criticar e marcar a diferença de um Governo desequilibrado que largou o centro há muito. Tudo isto numa nova geopolítica que também exige capacidade para perceber a realpolitik e o quanto a política externa mudou. De pouco ou nada serve atestar isso vezes sem conta e julgar depois que ganhamos alguma coisa em não saber dizer que “não” como a maioria dos outros países ao inenarrável da Casa Branca quando está a sete meses de eleições intercalares que provavelmente e a acontecerem (?) deverão servir para começar a mudar alguma coisa.

Será que o ministro dos Negócios Estrangeiros português e este Governo acreditam mesmo que um país europeu que se posiciona como parceiro do trumpismo será visto, por outros, como um aliado dos EUA amanhã? É não os ouvirem com atenção e não perceberem a maior polarização nos EUA nos últimos 50 anos. Mas tudo é possível em Portugal: da ausência de europeísmo, quando este é mais exigido, aos nacionalistas de pacotilha, até à possibilidade de o dr. Montenegro e o dr. Rangel estarem convertidos ou se sentirem reforçados como trumpistas quando menos se esperava e aconselhava.

Para mais do que provável regozijo até de uma Giorgia Meloni, em Portugal chega-se a falar numa frente antiamericana com foco nos líderes europeus mais ativos contra Trump e esta guerra.

Não, a Europa não pode contar com este Governo português para a autonomia e para a sua afirmação. Servimos para criticar muito a falta disso mesmo, mas nas horas da verdade somos e mostramos o pior da União Europeia.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

A declaração da direção nacional da UGT, por unanimidade, de rejeição da proposta de reforma laboral, em que o Governo tem insistido como absoluta prioridade para a resolução de problemas basicamente inexistentes, culmina uma quinzena horribilis do Governo. Exatamente quando, num exercício de autoelogio, se prepara para um fim de semana de celebração de dois anos no poder, com a solução política mais minoritária e menos convincente de meio século de democracia.

A culpa é também do anterior Presidente da República que deu posse a um primeiro-ministro só com dois deputados a mais do que o segundo partido, sem se assegurar minimamente da existência de condições de viabilidade governativa assente num apoio parlamentar estável.

Desde então tudo piorou e o segundo Governo de Montenegro, falhado o golpe de vitimização política de maio passado, assumiu uma agenda que o isola dos problemas reais dos portugueses e o faz cair quase sempre nos braços do Chega, apesar de André Ventura e sobretudo o seu estilo arruaceiro serem detestados pela esmagadora maioria da base eleitoral do PSD como se viu nas recentes eleições presidenciais.

A 1 de abril, iniciando uma cruzada de entendimentos sobre falsos problemas, o PSD aliou-se ao Chega para uma segunda aprovação da Lei da Nacionalidade, eivada de inconstitucionalidades mal resolvidas. Esta lei faz com que crianças nascidas em Portugal possam não ser portuguesas, que mesmo cidadãos lusófonos tenham de esperar pelo menos cerca de 10 anos para aceder à nacionalidade portuguesa e sujeita os demais estrangeiros que desejem uma maior integração na comunidade nacional a um exame de valores patrióticos, que seria de resultados duvidosos para muitos dos deputados que aprovaram a malfadada Lei.

A 2 de abril, tivemos uma deliberada provocação aos deputados constituintes, feita por André Ventura, na celebração dos 50 anos da Constituição que é o “chão comum” da democracia. Tudo isto perante o silêncio do Primeiro-Ministro, sempre tão lesto a comentar falsos problemas, mas sem qualquer solidariedade para com os deputados do PSD que foram autores materiais e contribuíram para a aprovação da Constituição de abril de 1976.

A 6 de abril, foi sabido que as eleições dos membros do Conselho de Estado, a eleger por voto proporcional, irão contar com uma lista de candidatos apresentada pelo PS e outra lista conjunta PSD/Chega que, para desapontamento geral e vergonha dos próprios, inclui respeitáveis figuras com provas dadas de convicções democráticas e progressivas, como Leonor Beleza e Pedro Duarte, ao lado do líder do Chega e do ideólogo protofascista Pacheco Amorim.

A decência democrática ainda vai a tempo de separar as águas nos boletins de voto. Sabe-se igualmente que está feito o caminho para enxamear os órgãos consultivos das magistraturas, das áreas de segurança ou de tutela dos direitos, com vários deputados trogloditas, assessores conhecidos pelo terrorismo verbal nas redes sociais e inefáveis membros do “Governo-sombra” de Ventura, tudo com a suave bonomia do PSD e, espera-se, o voto dissonante dos deputados do PS.

Já na segunda-feira decorrera na Praça de Londres, para legitimar a possibilidade de excluir a CGTP da convocatória que seria obrigatória em reunião formal da Concertação Social, uma última encenação de diálogo sobre a reforma da legislação laboral, sem quaisquer resultados conhecidos, depois de o Governo ter aparentemente regredido relativamente a algumas propostas que fizera em reuniões anteriores.

A teimosa insistência numa reforma que aparentemente só a CIP e o Governo desejam ativamente é cada vez mais absurda, à medida que se conjugam os impactos da crise energética provocada pela guerra com as carências de trabalhadores que tornam uma missão impossível a rápida reconstrução das regiões afetadas pelas tempestades deste inverno.

Sem nenhuma argumentação substantiva que evidencie um verdadeiro esforço negocial do Governo, Luís Montenegro continua a insistir num cocktail indigesto de apelos ocos a consensos com ameaças chantagistas sobre a UGT, que pretende sempre associar ao PS.

Sobre as questões centrais de nove meses de intransigência de um Governo isolado, mas que se acha predestinado para perdurar, nada é clarificado, deixando para o Presidente da CIP o papel de porta-voz da ministra do Trabalho, sempre enfadada com as agruras da negociação democrática, ao ponto de ter achado razoável discutir a reforma laboral exclusivamente com as confederações patronais.

Aparentemente, este bailado das últimas semanas foi apenas destinado a tentar apaziguar as reservas profundas do novo Presidente da República acerca do enviesamento ideológico das leis laborais propostas.

À pressão e tentativa de divisão, a UGT respondeu com a decisão unânime, incluindo dos sindicalistas próximos do PSD, de manter abertas as portas do diálogo, mas rejeitando claramente a versão atual da reforma laboral.

Novamente pela sua arrogância e convencimento de possuir um direito natural a exercer o poder, o Governo entrega-se em mais esta matéria nas mãos da extrema-direita.

Ao não perceber que a incapacidade de travar hoje a extrema-direita tornará o PSD num apêndice do bloco de direita de amanhã, como sucedeu à direita tradicional em Itália e em França, e está a caminho de acontecer aos conservadores britânicos, Montenegro está a escrever um destino triste.

Por ser o rosto da CIP no Governo e da dependência da extrema-direita em matéria de legislação laboral, o prémio Laranja Amarga deste desgraçado abril para o PSD vai para Rosário Palma Ramalho.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

O sistema chama-se SDR e está há muito anunciado para começar a 10 de abril. As máquinas, por todo o país, vão receber garrafas de plástico e metal de uso único, até três litros, e imprimir o respetivo reembolso.

No entanto, os responsáveis pelo sistema alertam que pode haver garrafas e latas que as máquinas não aceitam, porque não têm ainda o símbolo, uma seta em forma de ferradura e a palavra Volta. Nesse caso o consumidor deve colocá-las no ecoponto respetivo.

O Sistema de Depósito e Reembolso (SDR), que em Portugal se chama Volta, já estava previsto desde 2017 e uma lei de 2018 instituía que estivesse a funcionar a 1 de janeiro de 2022, mas só agora vai começar, num investimento de 150 milhões de euros e que deve criar 1.500 postos de trabalho.

De acordo com experiências noutros países a SDR Portugal, a entidade gestora do Volta, diz que o sistema vai permitir recolher muitas mais embalagens de bebidas de uso único, apontando para taxas de 90% até 2029.

Requisitos

Desde que tenham o símbolo Volta, estejam inteiras, sem líquidos, com tampa e com o código de barras, são aceites em qualquer uma das 2.500 máquinas espalhadas pelo País, mais de 8.000 pontos de recolha manual e 48 quiosques para entregas de grandes quantidades. Estarão, por exemplo, junto de supermercados. A máquina esmaga a embalagem e o consumidor recebe um vale ou recibo equivalente ao valor acumulado para usar na loja, após a devolução das embalagens.

A maior recuperação esperada, reforçando a economia circular e aumentando as taxas de reciclagem, deve-se ao incentivo do reembolso dos 10 cêntimos por embalagem (independentemente do tamanho).

Tudo isso faz do SDR aquele que é “talvez um dos maiores projetos ambientais que Portugal está a implementar”, como disse no mês passado, numa apresentação do sistema, a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho.

Até 10 de agosto, fase de transição, poderão estar à venda os mesmos produtos, mas alguns sem o logótipo e por isso não são aceites pelas máquinas. Mas, na compra, o consumidor também não pagou os 10 cêntimos de caução.

Uma mulher fala à porta de um prédio. Está com um casaco de penas azul-escuro. É negra. Conta-nos que por baixo do casaco está só de pijama. A polícia chegou e obrigou-a a sair de casa à pressa. “Fui surpreendida por um despejo sem aviso… Estava deitada. Entraram mais de 20 polícias em casa. Seguraram-me a mão na parede. Tiraram-me o telemóvel”, conta ela no vídeo publicado no Instagram do movimento Vida Justa. “Estão a despejar-te porque abrigaste alguém?”, pergunta a voz do homem que filma a cena. “Sim, o meu sobrinho. Abriguei-o porque foi despejado com o pai. O pai está num quarto de solteiro (…) Para o miúdo não ficar na rua, abriguei-o.” Desorientada, sem saber o que fazer, a mulher ainda conta que um dos polícias a mandou para a sua terra.

A cena parece inverosímil para quem não sabe que há regulamentos municipais que consideram motivo de despejo a “hospedagem ilegal”. E o que é a “hospedagem ilegal”? Pode ser receber em casa um sobrinho para que ele não vá dormir para a rua ou uma mãe que vem de fora do País para fazer quimioterapia. Quem não está na ficha da casa municipal não pode estar no imóvel, mesmo que os inquilinos paguem todas as rendas e tenham a casa em boas condições. E só isso mostra como as regras que exigimos aos pobres são tão diferentes das que se aplicam a qualquer outra pessoa. Os pobres têm de ser perfeitos, imaculados, agradecidos, de olhos baixos, trabalhadores, esforçados, de preferência invisíveis. E isto é quando toleramos que existam.

Claro que ninguém pensa em como precisa dos pobres. Pelo menos, até precisar de alguém para lhe limpar a casa ou cuidar dos pais ou dos filhos ou cozinhar no restaurante ou lhe construir uma casa. Aí, rapidamente aparece a indignação porque “ninguém quer trabalhar”. Claro, os pobres são sempre suspeitos de serem preguiçosos ou ladrões ou ambos. Os mesmos que os mandam para a terra deles (ainda que esta seja e sempre tenha sido a sua terra) ficam depois aflitos porque com o que pagam não encontram quem lhes faça as tarefas que na pandemia se convencionou serem “essenciais” mas que entretanto voltámos todos a tratar como descartáveis.

Precisamos dos pobres. Mas onde podem eles viver? Não nos centros das cidades, onde trabalham, porque aí manda o mercado e, claro, nem todos podemos viver nas zonas boas, com transportes, serviços e jardins. Poderão então morar nas periferias? Não, porque para aí mudaram-se os trabalhadores que acham que são da classe média porque até têm os filhos no colégio e carros elétricos, mas depois esmifram-se a trabalhar e claro que não podem morar nas zonas chiques onde estão os nómadas digitais, os reformados americanos e toda a sorte de ricos a quem ninguém se lembra de mandar para a terra deles.

Poderão morar nos bairros municipais? Não, porque para aí têm de ir os trabalhadores que também acham que são da classe média, apesar de terem sempre um mês maior do que o salário e de já não conseguirem há anos fazer duas semanas de férias fora de casa e que também já não conseguem morar nas periferias para onde foram os outros expulsos dos centros, apesar de se acharem portugueses de bem.

Poderão morar em bairros autoconstruídos? Não, porque ninguém quer que haja barracas, a macular as paisagens e a ocupar os terrenos por que anseiam os mercados na sua fome insaciável. Dirão, então, que as construções abarracadas são insalubres, inseguras. Já se sabe que os pobres são porcos, sem noção de estética e mal-agradecidos. E é por isso que devem viver em sítios onde não há recolha do lixo nem parques infantis nem centros de saúde e bons transportes, porque estragam tudo, não sabem usar nada. E são perigosos. Os pobres são perigosos e é por isso que vivem em “bairros problemáticos”. E, de qualquer forma, só podem ocupar esses espaços até alguém descobrir que, afinal, aquela zona era ótima para mais uns condomínios, porque até tem uma vista em que nunca ninguém tinha reparado.

Poderão, finalmente, morar nas ruas? Ficar debaixo de arcadas? Deitar-se no chão ou nos bancos de jardim? Claro que não. Ninguém quer andar a tropeçar em gente andrajosa. Isso dá cabo do turismo e incomoda os milionários que vieram do Dubai à procura de luxo e sossego. E é por isso que se cercam as arcadas com grades, se fecham jardins e miradouros, se plantam espigões de ferro nos sítios que poderiam servir para abrigar alguém e se colocam nas ruas bancos públicos que afinal não são bem bancos, são só sítios onde alguém consegue encostar-se por uns minutos, mas nunca deitar-se para dormir algumas horas.

Onde poderão, então, viver os pobres? Viver talvez seja um verbo excessivo. Um luxo mesmo. E já se sabe que os pobres não podem ter acesso a luxos, sob pena de ficarem mal-habituados e descontrolados. É preciso tê-los domesticados, controlados. Como as pragas dos ratos e das baratas, que eles trazem atrás de si.

Este pensamento sobre a possibilidade da existência dos pobres segue o raciocínio de quem sonha erguer resorts de luxo sobre as ruínas e os mortos de Gaza. A conceção utilitária da vida desemboca numa ideia de genocídio. Exterminam-se os pobres e os vulneráveis porque eles não nos interessam, não têm valor. São tolerados apenas quando são necessários como força de trabalho barata, mas estão totalmente ausentes das preocupações de humanidade e dignidade que deviam ser básicas. Os mesmos que se incomodam com a morte de fetos são completamente indiferentes ao sofrimento de crianças a viver em condições precárias de habitação, passando fome ou sob a ameaça de serem retiradas aos pais por serem… pobres. Há poucos crimes mais perseguidos do que a pobreza.

Caso não pretendam matar os pobres, fiquem a saber que eles já são muitos e que a tendência é para aumentarem. A crise da habitação é uma máquina de produzir pobres. Se não for já por nos sabermos todos humanos, que seja por percebermos que a pobreza pode estar mais perto do que se imagina, à distância de um divórcio, do desemprego inesperado ou de uma reforma que não chegará para pagar tudo. Lembrem-se também que há poucas coisas mais fortes do que sermos muitos. Talvez um dia os pobres percebam que são muitos. Rosseau escreveu: “Quando o povo não tiver mais o que comer, comerá os ricos.” E nós só estamos a aumentar-lhes a fome.

Sentado numa das esplanadas com vista para a baía da Praia da Vitória, “José” (nome fictício por opção) deixa o olhar perder-se no horizonte e acompanhar a aproximação de mais um Boeing KC-46, o novo modelo de avião de reabastecimento da Força Aérea dos Estados Unidos da América (USAF).

Não evita um suspiro, entre a recordação dos tempos passados ao serviço da USAF e a nova era, que desmobilizou norte-americanos e desempregou portugueses, no seguimento da política de racionalização de recursos e estruturas dos EUA no estrangeiro. “Agora, só se lembram de nós quando atacam alguém”, desabafa José, num misto de nostalgia e realismo.

No último mês, a presença dos gigantes reabastecedores tem sido uma constante na placa leste de estacionamento das Lajes, a Base Aérea nº 4 da Força Aérea Portuguesa, e que serve, igualmente, como aeroporto civil da ilha Terceira.

Os locais, habituados à dupla função do seu “porta-aviões” a meio do Atlântico, não sabem bem como reagir às múltiplas escalas dos militares do outro lado do oceano. Se entendem o aproveitamento estratégico de uma localização única, a meio caminho entre a América do Norte e a Europa, como seguimento natural de um acordo celebrado há décadas e reforçado em 1995, também sublinham o sinal de conveniência dado pelas autoridades norte-americanas.

“José” até desabafa que “quando convém, somos amigos, mas há uns anos fomos carta fora do baralho, e não se importaram com as pessoas que lá trabalhavam”.

Os “drones assassinos”

É este sentimento duplo (e dúbio…) que marca a idiossincrasia terceirense em relação à atual presença norte-americana. Multiplicam-se voos, enfileiram-se aviões na pista, perdem-se olhares à procura de novos visitantes dos ares. Como os MQ-9 Reaper, autónomos por 27 horas e tripulados à distância, no National Military Command Center, por pilotos certificados e especializados na aeronave mais letal da Força Aérea dos EUA. Os “drones assassinos”, transportando até oito mísseis de longo alcance, começaram na semana passada a escalar a base portuguesa, após ter sido concedida uma autorização especial por parte do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Já depois de Paulo Rangel ter declarado, no Parlamento, o “cumprimento do acordo” bilateral, com base em missões “de defesa”, a reação açoriana divide-se em dois patamares. Se o terceirense, nativo e cioso dos seus bens (ainda que “geoestratégicos”), questiona o sentido de oportunidade (muitas vezes traduzido por “oportunismo”) da Administração norte-americana no que concerne ao aproveitamento deste recurso em território de um aliado NATO, o presidente do Governo dos Açores aproveita timidamente a chance para reivindicar um maior retorno para o arquipélago de uma tão significativa presença estrangeira na antiga “Ilha de Jesus Cristo”. José Manuel Bolieiro sugere uma eventual renegociação do acordo, mas logo atalha, em cumprimento de um “bem maior”, a necessidade de cumprir o que está escrito e, portanto, em permitir o movimento reforçado na pista de 3310 metros do aeroporto da ilha Terceira.

Lajes Lotação quase esgotada na pista de 3310 metros do aeroporto da ilha Terceira Foto: LUSA

E se é verdade que os Estados Unidos, ao desmantelarem, nos últimos dez anos, uma grande parte da sua estrutura física nas Lajes (que envolvia, em permanência, alguns milhares de militares e respetivas famílias, e uma verdadeira cidade, com supermercados, ginásios, piscinas, campos de basebol, cinemas e segurança própria), deram um sinal claro de desinvestimento e, no limite, relativizaram a importância geopolítica das Lajes no seu conceito de política externa e de defesa avançada, não é menos certo que o recrudescimento de zonas de conflito longínquas e a necessidade de suporte de retaguarda aos militares nos teatros de operações do golfo obrigaram à ativação de um recurso essencial, com um evidente desconforto de população e autoridades locais, ainda que sob o manto de uma amizade duradoira e muito antiga, e de um tratado de cooperação atlântica celebrado quando a NATO falava a uma só voz.

O exemplo de Espanha

Os tempos são agora outros. Espanha fecha por completo o seu espaço aéreo ao tráfego militar de algum modo envolvido na guerra com o Irão, enquanto outros países do sul da Europa limitam também a passagem de aeronaves (tripuladas ou não), que se dirijam ao Médio Oriente, numa espécie de “bloqueio” em surdina aos interesses dos Estados Unidos.

Também à boca pequena, “José” e outros amigos que, ao longo de muitos anos, trabalharam para os EUA nas Lajes questionam a atitude portuguesa de continuar a abrir portas aéreas, concedendo um espaço que, do ponto de vista logístico, é fundamental para o reforço das competências da USAF no âmbito dos sistemáticos ataques a território iraniano.

“O que é mais importante? Continuar a ceder as Lajes depois de eles nos virarem as costas ou sermos mais humanos e racionais, e fazer o que os espanhóis fizeram?”…

Não é uma pergunta retórica, é uma dúvida metódica. Porque não se torna fácil explicar aos 55 mil habitantes da Terceira que, após uma saída brusca e quase radical, o “amigo americano” tenha voltado, como acontecera, aliás, durante a Guerra do Iraque, na Administração de George W. Bush, a aproveitar a posição única da quarta base da Força Aérea Portuguesa.

E a NATO, cujas fronteiras e estruturas já oscilaram com o eclodir do conflito entre Rússia e Ucrânia, tem agora um desafio diplomático ainda mais poderoso e, talvez, determinante: estabelecer limites e clarificar posições. É que dos Estados Unidos chega uma voz aparentemente dominadora, enquanto do lado da Aliança Atlântica as respostas têm sido difusas e a vários tons. Também neste aspeto, os próximos tempos suscitarão perguntas, para respostas que deverão (ou não) clarificar posições.

Herança traumática

Os traumas do “abandono” das Lajes pelos EUA foram grandes e múltiplos. Muitas famílias portuguesas viviam engajadas na estrutura norte-americana, pelo que o despedimento simples (ainda que com direito a indemnizações proporcionais ao tempo de serviço) motivou, durante anos, um desequilíbrio social na ilha e abanou a sua estrutura financeira.

Por outro lado, a contaminação ambiental ainda não foi solucionada. Os impactos diretos no solo e na água estão, em rigor, por inventariar. Sabe-se que os metais pesados, como o arsénio e o cádmio, libertados pela operação norte-americana, ao longo de décadas, motivaram um plano de descontaminação que, diz-nos “José”, caiu “na conta dos esquecidos”. A sensação com que ficamos é a de que, com o passar do tempo, se instala a descrença na capacidade efetiva de resolução de problemas que, a médio ou longo prazo, acabarão por ter impactos negativos na saúde pública e na qualidade de vida dos terceirenses.

“O que é mais importante? Continuar a ceder as Lajes depois de eles nos virarem as costas ou sermos mais humanos e racionais, e fazer o que os espanhóis fizeram?”, perguntam alguns açorianos

Se juntarmos todos os argumentos, rapidamente concluímos que o olhar perdido na baía da Praia da Vitória (sede de concelho a apenas quatro quilómetros da vila e base das Lajes), vai muito mais além do horizonte percetível. Enquadra a leitura dos últimos largos anos de uma ilha cuja economia girou, incontornavelmente, entre Portugal e os Estados Unidos, tão forte foi a ligação entre os dois países neste ponto estratégico a meio do Atlântico Norte. A História, cíclica como sempre, afogou as mágoas após a debandada, mas traz agora de volta os norte-americanos como “senhores da guerra”, numa lógica de aproveitamento puro que contradiz os laços de outrora.

Quando partimos das Lajes, os quase quatro quilómetros de pista estão acompanhados pelos KC-46, a aguardar indicações para nova missão de reabastecimento nos ares da Europa pelos quais consigam legalmente voar. E os “ceifeiros” continuam a chegar, a reabastecer e a partir, num vaivém semelhante a um enxame de abelhas que, no entanto, tem alvos longínquos. O MQ-9 Reaper, que a Força Aérea dos Estados Unidos utiliza desde 2007 nas suas operações mais delicadas, e que ainda terá, pelo menos, mais dez anos de vida útil, é apenas o último elemento identificado de uma cadeia de tráfego de guerra que voltou a sulcar os céus açorianos no último mês.

Para quem vive na ilha Terceira, esta não é a vez primeira. É um déjà-vu que não aporta boas recordações. Inquieto na esplanada, “José” é o espelho fiel da sua ilha: “Se gostassem de nós, não nos tinham deixado; assim, parecemos descartáveis…”

Palavras-chave:

Vali Nasr acabou o seu último livro bem antes de Donald Trump ameaçar levar o Irão de volta à “Idade da Pedra”, mas Irão A Grande Estratégia – Uma História Política (edição Contexto) é uma ferramenta preciosa para enquadrar o conflito. Nas suas páginas, o analista recua à definição do atual território iraniano para ilustrar como a mentalidade do país onde nasceu se definiu a partir da ideia de isolamento e da necessidade de garantir a preservação face à ameaça externa e ao domínio das potências estrangeiras.

Para Nasr, os EUA, e o Ocidente em geral, olham para a República Islâmica como um fenómeno radical sem compreenderem que o seu funcionamento obedece a uma estratégia coerente. Um exemplo revelador é a fatwa (decreto de condenação à morte) do aiatola Khomeini contra Salman Rushdie por causa da obra Os Versículos Satânicos, em 1989: vista como a decisão de um fanático, foi fruto de puro pragmatismo, visando assegurar que a sua liderança e o espírito de militância suscitado pela guerra Irão-Iraque (1980-88) sobreviveriam à paz, defende.

Manifestação “Se Khamenei tivesse morrido pacificamente, talvez o sistema tivesse escolhido um líder supremo diferente, capaz de dar resposta à ira popular”

Depois da contestação e da repressão extrema de janeiro, havia um consenso de que seria impossível regressar ao statu quo. A guerra alterou essa equação?
Sim, o regime estava muito enfraquecido, embora talvez os EUA tenham sobrestimado essa fragilidade. Mas acredito que, se não tivesse havido guerra, a dimensão dos protestos e a forma sangrenta como o governo os reprimiu teriam criado uma situação em que a República Islâmica enfrentaria grandes dificuldades para governar. E se Khamenei tivesse morrido pacificamente, talvez o sistema tivesse escolhido um líder supremo diferente, capaz de dar resposta à ira popular. A República Islâmica encontrava-se numa situação muito difícil, a economia estava em mau estado e a população extremamente indignada. E o regime estava muito isolado. A guerra alterou isso, porque se trata de uma guerra de grande envergadura.

As pessoas continuam indignadas com o que aconteceu em janeiro, mas a frente unida que existia a nível político ficou complicada com a guerra. As pessoas não se organizam politicamente nem se rebelam debaixo de bombas. Após o cessar-fogo, podemos assistir a um regresso dos protestos políticos. Mas a expectativa de que haveria uma revolta política massiva durante a guerra não se concretizou por estas razões.

A grande estratégia
Um livro que ajuda a perceber como o poder contemporâneo, em Teerão, se guia por uma estratégia destinada a garantir a sua segurança interna e a afirmar o seu papel na região e no mundo (ed. Contexto).

Mas compreende de onde veio essa expectativa? Era uma ilusão?
A expectativa não estava errada. Houve uma revolta política em grande escala. Mas penso que, por vezes, no Ocidente continuamos a olhar para uma imagem do passado e não nos apercebemos de como as coisas mudaram. Além disso, por vezes, existe um preconceito que nos leva a querermos centrar-nos na questão que nos interessa, em vez de nos concentrarmos naquilo que realmente se passa no terreno. Sim, a população iraniana está traumatizada, mas, neste momento, a oposição política, por mais séria que seja, não será tão importante quanto sobreviver aos bombardeamentos.

Um trauma em cima de outro trauma.
Exatamente. E isso torna tudo muito complicado. Não sabemos em que estado as pessoas sairão desta guerra. Estão a lidar com a dor e a tragédia dos que foram mortos em janeiro. Estão a lidar com a dor e a tragédia das pessoas que estão a ser mortas hoje. Cá fora, para a diáspora iraniana, é fácil separar estas coisas. Mas para as pessoas lá dentro, são camadas e camadas de catástrofe que precisam de enfrentar.

Entendo o conceito de resistência que usa no livro para decifrar o regime, mas há algo que não consigo compreender: numa altura em que tantos iranianos colocam as críticas ao regime de lado, porque é que continuam a ser atacados pelo regime? Há perseguições…
Alguns ainda são perseguidos, sim.

Execuções…
As execuções continuam, sim, parte disso está a acontecer.

E o blackout, no meio de uma guerra, parece uma loucura.
Bem, a questão da internet é diferente, não se deve aos protestos políticos. O governo está convencido de que Israel e os EUA a utilizaram para os atacar, e não só para localizar alvos. O regime interroga-se sobre estas estações de televisão no estrangeiro, como a Iran International, com orçamentos milionários, e vê a questão de impedir o acesso da população como parte do planeamento da guerra. Claro que, de certa forma, o regime é agora muito mais severo. Porque as pessoas que Israel matou foram substituídas por pessoas ainda mais belicistas. Mas, embora a repressão política continue, controlar a população não é um grande problema para o regime neste momento. Embora continuem a enviar o seu pessoal para as ruas, todas as noites, com esse objetivo.

Controlar a população, persegui-la.
Sim, mas a essas pessoas juntam-se também muitos iranianos comuns. Conheço pessoas que estavam nas ruas em janeiro e que agora também vão para as ruas. E estão a ocupar as ruas de tal forma que os manifestantes não conseguem chegar lá. Tenho a certeza de que, quando houver um cessar-fogo, a política interna do Irão voltará a ser um tema importante.

Recuando um pouco, 7 de outubro de 2023 [dia do ataque brutal lançado pelo Hamas contra Israel] foi um momento fundamental para chegarmos aqui. Na altura, falou numa vitória estratégica para o Irão.
Encaixou-se na narrativa da resistência pós-1979, mas não foi uma vitória estratégica. Uma coisa é atacar continuamente Israel a uma escala reduzida, mas o que aconteceu a 7 de outubro mudou Israel de uma forma fundamental e a República Islâmica não estava preparada para isso.

O Irão tinha investido no Hezbollah, na Síria e no Hamas como forma de dissuadir Israel. A força do Hezbollah residia no facto de possuir mísseis suficientes para que Israel não invadisse o Líbano nem atacasse o Irão. De certa forma, o Hezbollah era um sistema de defesa aérea para o Irão. Mas o Hamas ou o Hezbollah nunca foram concebidos como armas ofensivas e, quando a situação se transformou numa guerra total, não conseguiram aguentar-se. Assim que Israel decidiu que iria acabar com o Hamas, foi isso que fez – e de uma forma extremamente brutal.

Teerão “No seu cerne, as Forças Armadas do Irão sempre foram um exército de guerrilha”

Talvez o Irão e esses grupos antecipassem que Israel pagaria um preço por essa brutalidade, pela guerra em Gaza.
Deixando de lado a brutalidade e a questão humanitária, a nível puramente estratégico, o Hamas nunca teria sido capaz de se defender contra Israel. Assim que Israel decidiu desmantelar o Hezbollah – embora parte do planeamento já tivesse começado muito antes –, o Hezbollah basicamente deixou de existir enquanto exército. De certa forma, no primeiro ano após o dia 7 de outubro, não era óbvio que o Hamas tivesse colocado o Irão numa situação insustentável. Mas então todas as peças da sua posição no Levante começaram a desmoronar-se. O Hamas, depois o Hezbollah, a Síria. E o Irão foi forçado a defender-se nas suas fronteiras. De certa forma, acabou por ser uma perda estratégica enorme para o Irão.

Como viu a forma como o Irão geriu a situação?
Bem, recuando até abril de 2024, quando Israel atacou a Embaixada do Irão na Síria mostrou que estava disposto a ultrapassar limites que nunca tinha atravessado. E, nessa altura, o Irão tinha percebido que os seus representantes [proxies] não iriam ser úteis. Por isso, não retaliou através do Hezbollah, mas com mísseis lançados a partir do seu território. Estávamos a entrar no confronto direto. E a suposição provável de Israel, tanto em junho como nesta guerra, era de que poderia derrubar o Irão.

O que não se verificou.
Sim, Israel constatou que pode causar muitos danos, mas não derrubar a República Islâmica. E o Irão também chegou à conclusão de que os seus proxies já não têm valor em termos de defesa. A única coisa que defendeu o Irão nas duas guerras foram os mísseis, e agora é o estreito de Ormuz. Portanto, dir-se-ia que, desde 7 de outubro, com o Irão sob pressão numa guerra, a sua doutrina estratégica mudou drasticamente.

Quando o Irão surpreendeu ao resistir, começámos a falar sobre esta ideia da invencibilidade dos Guardas da Revolução (IRCG). É um mito? E que relação existe entre Mojtaba (filho de Khamenei, novo líder supremo) e o IRCG, este Estado dentro do Estado?
É um pouco como olhar para o Egito, o Paquistão ou a Birmânia, quando as Forças Armadas ficam tão grandes que se tornam o próprio Estado. A única diferença, do ponto de vista revolucionário, entre o IRGC e essas forças ou as  Forças Armadas latino-americanas, é que estas últimas geralmente ficam à margem do governo civil e, na verdade, têm desdém pelo governo e pela Constituição, enquanto o IRGC é, na verdade, a própria Constituição iraniana.

Isso parece estar a ser uma surpresa para os EUA.
Sim, o facto de, após terem matado tantos membros do IRGC, os militares não terem dito qualquer coisa ao estilo da Venezuela: “Estamos prontos para um acordo, vamos ser o vosso braço dentro do Irão.” Subestimámos uma força que, basicamente, está em guerra há 45 anos, e que se tem organizado de uma forma muito diferente das Forças Armadas construídas em torno de sistemas de armamento norte-americanos ou russos. No seu cerne, este sempre foi um exército de guerrilha.

Frente à superpotência mais importante do mundo e à força militar mais poderosa do Médio Oriente, a única forma de o IRGC gerir a guerra era devorar o Estado. Depois, o IRGC encontrou um modo eficaz de resistência – os EUA podem ter domínio do ar e continuar a bombardeá-los, mas não conseguem destruir o Estado. O IRGC é capaz de travar uma guerra no golfo Pérsico e há muito pouco que os EUA possam fazer, a não ser ameaçar invadir o Irão. Com a guerra, o IRGC tornou-se mais poderoso e mais resiliente. Não sabemos onde vamos estar daqui a uma semana, mas, por agora, a estratégia de construir resiliência, criar um Estado que é uma máquina militar e que não é destruída pela decapitação, continua a funcionar.

A escolha de Khamenei ao dar poder ao IRGC pode acabar por garantir a sobrevivência da República Islâmica.
Certo, e como defendo no meu livro, Khamenei nunca se viu tanto como um aiatola, mas sim como o comandante-chefe do IRGC. O Ocidente, sempre focado na questão da teocracia, perdeu a visão mais ampla. Acredito que Khamenei era da opinião de que a ideia de resistência, e um Estado de resistência, sobreviveria não por causa dos clérigos – isto é, a República Islâmica como entidade religiosa –, mas se o seu poderio militar fosse fortalecido. Penso que estava mais empenhado na resistência do que na teocracia.

Fala num reavivar da questão política depois da guerra. Esta aliança contranatura da oposição, um pouco como em 1979, em que republicanos se aliam a pró-monárquicos, por exemplo, vai sobreviver ou desfazer-se?
Tudo depende de como esta guerra terminar. Se o regime conseguir resolver alguns dos seus problemas económicos, pelo menos uma parte da população estará menos inclinada politicamente a sair às ruas. A minha dificuldade em prever o futuro é porque penso que esta guerra é tão importante para o Irão que está destinada a mudar tanto o regime como o povo iraniano, de uma forma muito profunda. Devido à internet, e não só, temos muita dificuldade em obter uma imagem clara. Ainda estamos em guerra e nem mesmo o povo internalizou totalmente esta realidade.

Mas a oposição interna pode desvanecer-se?
É difícil perceber como é que um regime como este poderia ser popular. Os iranianos querem um futuro muito diferente, isso é óbvio. Mas as formulações políticas do passado podem não ser aplicáveis. Duvido que algumas das lideranças e dos argumentos da diáspora acabem por ser relevantes. Foram concebidos numa era diferente. Alguns apoiaram a guerra, como o filho do Xá, agradecendo constantemente a Trump. Essa pode não ser uma posição viável após a guerra.

Talvez eu esteja errado, mas penso que a própria guerra vai mudar as pessoas, de tal forma que até as mesmas queixas e as mesmas exigências de mudança poderão ter de se manifestar de forma muito diferente. E toda a liderança do Irão desapareceu: os novos líderes são militares muito duros, mas não sabemos como vão governar. Neste momento, tudo o que vemos da parte deles é guerra.