Adoramos uma boa vingança. Ver a noiva, aka Beatrix Kiddo, acordar de um coma de quatro anos para ir no encalço do bando que tentou matá-la, um a um, cada luta um deleite, cada morte um gozo quase inexplicável, sempre a torcer para que aquela mulher, interpretada pela atriz Uma Thurman, exerça com triunfo a ira do Senhor. Parte da nossa satisfação está no humor com que Quentin Tarantino mistura anime, western spaguetti e samurais, mas o verdadeiro gozo… é a vingança que no-lo dá. Kill Bill, um filme de culto do início deste século.
Hamlet, O Conde de Monte Cristo, a Bíblia. Coisas terríveis acontecem a quem pratica o mal. A vingança, traduzida num sentimento de justiça, de reparação, carma que vem ensinar a lição, deixa-nos com uma satisfação, dá-nos uma boa noite de sono. Mais difíceis de entender são obras como Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, ou o filme Táxi Driver, de Martin Scorsese. Sim, falam de vinganças, mas quantas camadas ali, quantos pontos de vista, quantas sombras! Como a vida não é um filme comercial norte-americano em que o bem é o bem e o mal é o mal, vida a cores em que nada é pão, pão, queijo, queijo, partimos numa viagem pelo labirinto da vingança, esse sentimento fortíssimo e universal a que nem o Deus todo-poderoso conseguiu escapar, como bem nos mostra o Antigo Testamento.
“É a motivação principal por trás das principais formas de agressão e violência humanas, incluindo violência doméstica, violência juvenil e bullying, violência de rua e entre gangues, tiroteios em massa, motins, brutalidade policial, fogo posto, extremismo violento, terrorismo, genocídio e guerra. A vingança destrói indivíduos, famílias, relações amorosas, fortunas, comunidades, nações e impérios”, escreve James Kimmel Jr., professor de Psiquiatria na Universidade de Yale e autor do livro A Ciência da Vingança, editado em Portugal pela Saída de Emergência.
Depois de os ataques de Israel – usando informações dos serviços secretos norte-americanos – terem matado o líder religioso Ali Khamenei, a 28 de fevereiro, o Presidente do Irão, Masoud Pezeshkian, proclamou: “A República Islâmica do Irão considera que é seu dever legítimo e de direito vingar-se dos perpetradores e mentores deste crime histórico.” E quem não entende este sentimento, ainda que não defenda o regime iraniano?
Na última batalha de D. Afonso Henriques, o Cerco de Badajoz, em 1169, o primeiro rei de Portugal sofreu um acidente e partiu o fémur, tendo sido apanhado e feito prisioneiro por conta disso. E logo as crónicas trataram de criar uma lenda que relacionava o episódio a uma praga lançada pela sua mãe. “Afonso Henriques, meu filho, prendeste-me e puseste-me a ferros. Tiraste-me a terra que me deixou o meu pai e separaste-me do meu marido. Rogo a Deus que venhas a ser preso assim como eu fui. E porque puseste ferros nos meus pés, quebradas sejam as tuas pernas com ferros. Mande Deus que isto assim seja”, teria dito D. Teresa. É apenas um mito, mas, ao menos na imaginação, o carma é mesmo tramado.

O que acontece no cérebro
“Quem semeia ventos colhe tempestades”, “quem com ferros mata com ferros morre”, “a cama que farás, nela te deitarás”, “cá se fazem, cá se pagam”, “a vingança é um prato que se serve frio”… A sabedoria popular é prolífera em garantir um carma à altura. E, no entanto…
A vingança não serve de nada, é um sentimento completamente inútil. Para o Irão, o que está em causa não é uma vingança por ter sido atacado ou por lhe terem assassinado o líder supremo, mas sim uma luta pela sobrevivência do regime, sabendo-se que os seus inimigos são tão externos como internos. Talvez por isso, os seus líderes usem tanto a palavra “vingança” – aconteceu o mesmo depois do bombardeamento de uma escola primária, que matou mais de 100 crianças –, sentimento unificador para um povo que já estava dividido antes da guerra com os EUA e Israel.
A nível pessoal, a vingança não nos enche, não nos traz qualquer plenitude, prejudica-nos – além de nos colocar em risco, porque podemos sofrer retaliações, mergulha-nos na raiva, consome-nos no ressentimento e na ruminação. Num instante, o gozo obtido esvai-se e ficamos a querer mais e mais, aquele sofrimento infligido não nos chega, não remata o caso, não repara o nosso mal-estar. Parecemos um drogado em plena ressaca, a procurar a próxima dose.
“Concluiu-se que o nosso cérebro, quando se vinga, se parece com o cérebro sob o efeito de drogas. Os ressentimentos estimulam o cérebro a desejar a vingança, assim como o stresse, a ansiedade ou a visão de objetos e locais associados ao consumo de drogas estimulam o cérebro dos viciados a desejar narcóticos. Os cientistas da adição descrevem esta aprendizagem dependente de estímulos como parte do sistema de autorregulação do cérebro, baseado no processo oponente, que procura manter o equilíbrio entre prazer (bem-estar) e dor (stresse), mediado, em parte, pela libertação do neurotransmissor dopamina”, continua James Kimmel Jr.
Parece que fazemos tudo pela dopamina, o novo petróleo da vida moderna. “Ser prejudicado ou tratado injustamente, ou sentir raiva, repugnância, culpa ou vergonha é doloroso e ativa a ‘rede de dor’ neural do cérebro – especificamente, uma estrutura cerebral chamada ínsula anterior. Conseguir uma vingança, ou mesmo fantasiar com ela, é recompensador, liberta dopamina e ativa os circuitos de prazer e recompensa do cérebro que, essencialmente, compreendem o núcleo accumbens, o estriado dorsal e a área tegmental ventral. Isto produz sensações de prazer que dissimulam temporariamente a dor, restaurando o equilíbrio. Por algum tempo”, nota o psiquiatra.
Trata-se de um efeito temporário e, tal como sucede com o álcool e as drogas, “os efeitos dissipam-se rapidamente e quase sempre levam a mais dor e sofrimento”. No entanto, o nosso cérebro só quer saber da “gratificação imediata”. Seja como for, uma coisa que não deixa de ser muito nossa, muito humana, é uma pessoa deleitar-se com a ideia de ver sofrer quem nos fez sofrer; outra coisa é passar da emoção aos atos e agir movido por esse sentimento.

O ódio e o antídoto
“O que nos trava para agir é a lei. Mas, sobretudo, a perda do amor do outro e a ameaça de culpa. Agir é sair da cena imaginária e entrar no real das consequências: prisão, exclusão, queda narcísica, retorno do ódio contra si. A fantasia preserva o gozo sem pagar o preço”, afirma Gustavo Faria, psicanalista brasileiro e professor de Literatura (ver entrevista), alertando: “A vingança, quando ruminada, vira um circuito fechado de excitação e culpa. Ela sequestra o tempo psíquico, estreita o mundo, empobrece o desejo. A mente passa a girar em torno de uma única cena: a ofensa. Isso adoece porque fixa o sujeito no lugar de objeto do trauma.”
A ruminação constante sobre algo que nos deu e para o qual esperamos a intervenção cármica, seja apenas na imaginação ou mesmo agindo em forma de vingança, mostra algo difícil de engolir: “Que ainda se está preso ao outro. Vingar-se é declarar: ‘Você ainda tem poder sobre mim.’ A verdadeira indiferença é mais rara e mais difícil do que o ódio”, conclui o psicanalista.
A indiferença, diz-se muitas vezes, é a melhor vingança. Significa que quem nos magoou já não tem absolutamente nenhum poder sobre nós – mas chegar a esse estado de superação e quase redenção requer um esforço e uma maturidade emocional que não é para todos. “Enquanto nos alimentamos do ódio e da raiva, continuamos dependentes do outro. Por isso se diz que o oposto do amor não é o ódio, é a indiferença no sentido de seguirmos em frente para o outro amor. Enquanto odiamos aquela pessoa, continuamos presos a ela”, reforça o psiquiatra Júlio Machado Vaz.
“É fascinante verificar que há pessoas em cujo equilíbrio psíquico o ódio e a raiva podem ser o motor, o combustível que as mantém verdadeiramente à tona porque têm um objetivo durante anos. Quando esse objetivo é conseguido, algumas dessas pessoas ficam profundamente desiludidas porque a vingança não lhes trouxe a pacificação que pensavam que iam ter, não lhes trouxe a satisfação sádica que eventualmente também fantasiaram. Ficam então numa situação complicada: ‘E agora? Isto tornou-se, de certa forma, o objetivo da minha vida’”, descreve o psiquiatra, que já assistiu a várias situações destas em mais de 50 anos de prática clínica.
Enquanto passamos anos a remoer, não estamos a viver plenamente, a saborear a vida. Ou, como diz uma frase muito citada nas redes sociais, o ressentimento “é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra”.
Existe um antídoto, como nota James Kimmel Jr.: “A pessoa beneficiada pelo perdão somos nós, quem foi magoado, e não quem magoou. Para alcançar os benefícios biológico-cerebrais da redução da dor e do desejo de vingança que advém do perdão, a pessoa que nos magoou é irrelevante. Não precisa de procurar, implorar ou aceitar o nosso perdão – ou sequer de ser informada dele. Os ressentimentos recordados, a dor e o desejo de vingança estão dentro do nosso cérebro. É aí que o remédio do perdão é aplicado, diretamente onde é necessário.”
No livro A Ciência da Vingança, o psiquiatra cita vários estudos com ressonâncias magnéticas, comprovando cientificamente que o perdão reduz a dor emocional, mas não só. “O perdão está também associado a pressão arterial mais baixa, a taxas reduzidas de doenças cardiovasculares, mortalidade e dor física, e a uma melhoria do sono, da resposta cardiovascular ao stresse, do funcionamento do sistema imunitário e até à satisfação com a vida (…) O perdão é grátis, está disponível sem receita médica e pode ser produzido e libertado no cérebro 24 horas por dia.”

Olho por drones
Só que as coisas não são assim tão simples na hora de, conscientemente, escolher o perdão. Isto porque a vingança é um impulso bastante complexo e muito “pintado de arquétipos culturais”, como nota Júlio Machado Vaz.
Na violência doméstica, por exemplo, “a vingança está associada a questões como o sentimento de posse e com sentimentos de inferioridade. É aquela velha frase: ‘Não és minha, mas não és mais ninguém.’ Na cabeça do homem que a levou a cabo, atentaram contra ele em camadas profundas, seja na sua honra, na sua masculinidade, o que fez com que ele se comparasse conscientemente ou inconscientemente com outros homens e se sentisse inferior. A vingança em geral é, mais uma vez, como a própria violência doméstica, uma demonstração de poder”, continua o psiquiatra.
“O carma, Deus, o destino, a sorte, etc., somos sempre nós (e eu digo nós porque, de uma maneira mais explícita ou mais implícita, todos nós o fazemos) a tentar ordenar o mundo. É muito angustiante pensarmos que não há nada verdadeiramente garantido. Ora, nessa nostalgia de pôr ordem no mundo, temos esse mecanismo de defesa que é colocar o que é mau no outro. Isso simplifica a vida e é por isso que os populistas têm o sucesso que têm. De quem é a culpa? Dos outros. Quem é que nós temos de controlar? Os outros. Ao fazer isso, todo o tipo de guerra, de violência, etc., está justificado. O que é preciso é que o outro seja o mau da fita. Ora, nós somos feitos de bem e mal, sempre”, sublinha Júlio Machado Vaz.
“Na escala dos povos, a vingança chama-se ‘honra’, ‘segurança’, ‘retaliação estratégica’. Mudam os nomes, não a lógica pulsional. A civilização tenta substituí-la por direito, tribunais, tratados. Mas quando a lei falha, o gozo arcaico retorna: olho por olho – agora com drones”, aponta Gustavo Faria.
A vingança é o “vício mais mortífero”, escreve James Kimmel Jr. Não é algo que possamos atribuir a psicopatas ou a sádicos incapazes de empatia e que gozam com o sofrimento dos outros – a vingança está em todos nós, é um vício das pessoas comuns, ajam ou não sobre ele. Caim não mata Abel por inveja – mata o irmão porque não podia matar Deus depois de o divino o ter rejeitado. Nesse ato, a vingança tornou-se hereditária, segundo a Bíblia, pois foi passando de geração em geração.
E porque estamos em época pascal, sejamos ou não crentes, atentemos no conselho de Jesus sobre quantas vezes se deve perdoar a quem nos ofendeu. “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.” “É um conselho prático, cientificamente sólido e que pode salvar vidas, visando prevenir a violência, restaurar a paz e ultrapassar o vício em vingança”, reforça James Kimmel Jr.
Que a Ciência nos ajude, então, a ultrapassar a dor.
Gustavo Faria: “A vingança é uma obra do eu civilizado, não do instinto bruto”
O psicanalista brasileiro Gustavo Faria vai direto ao ponto nesta entrevista sobre esse sentimento desassossegado e avisa: “A verdadeira indiferença é mais rara e mais difícil do que o ódio”

Por que razão adoramos histórias de vingança na literatura ou no cinema, por exemplo? Há um gozo na vingança e parece que quanto mais fria mais gozo nos dá assistir…
Porque nelas o desejo não é recalcado: ele age. A vingança encena aquilo que, na vida civilizada, somos obrigados a conter. Assistir a uma vingança “fria” dá gozo porque é o espetáculo de um sujeito que não hesita, que não vacila, que não se culpa. É o sonho de uma soberania impossível: eu sofri, logo tenho o direito de ferir. No cinema, o supereu vira herói.
Do gozo do pensamento de vingança ao ato vai uma grande diferença. O que nos trava?
A lei. Mas, sobretudo, a perda do amor do outro e a ameaça de culpa. Agir é sair da cena imaginária e entrar no real das consequências: prisão, exclusão, queda narcísica, retorno do ódio contra si. A fantasia preserva o gozo sem pagar o preço.
De onde vem essa pulsão de vingança? Seria ingénuo pensar apenas nos “bons” motivos, como ser feita justiça ou esperar o carma. Há aqui uma causa menos nobre, não?
Do narcisismo ferido. Antes de “justiça”, é restituição de imagem: “Você diminuiu-me, agora eu diminuo-te.” É menos sobre moral e mais sobre reparar uma ferida no eu. Há algo de infantil e de cruel aí: fazer o outro sentir o que eu senti.
O que nos provoca a ruminação sobre a vingança? Pensando no livro Crime e Castigo, o que esse sentimento faz na nossa saúde mental?
Raskólnikov não é consumido pelo crime, mas pelo pensamento que não para. A vingança, quando ruminada, vira um circuito fechado de excitação e culpa. Ela sequestra o tempo psíquico, estreita o mundo, empobrece o desejo. A mente passa a girar em torno de uma única cena: a ofensa. Isso adoece porque fixa o sujeito no lugar de objeto do trauma.
A vingança diz o quê sobre quem a põe em prática?
Que ainda está preso ao outro. Vingar-se é declarar: “Você ainda tem poder sobre mim.” A verdadeira indiferença é mais rara e mais difícil do que o ódio.
Ela é inata ou fica refinada com o tempo? Por exemplo, numa criança a vingança seria mais uma retaliação?
Na criança há retaliação: impulso, descarga, ato. A vingança exige tempo, memória, linguagem, elaboração simbólica. Ela é uma obra do eu civilizado, não do instinto bruto. É ódio com projeto.
A vingança é também coletiva (ação de um país, por exemplo). Enquanto civilização, evoluímos alguma coisa para lidar melhor com ela?
Na escala dos povos, ela chama-se “honra”, “segurança”, “retaliação estratégica”. Mudam-se os nomes, não a lógica pulsional. A civilização tenta substituí-la por direito, tribunais, tratados. Mas quando a lei falha, o gozo arcaico retorna: olho por olho – agora com drones.
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