A energia está no ar e a contagem decrescente já começou. O Palco Super Bock Sessions aterrou na cidade do Porto com um momento único, cheio de alma, música e grandes novidades e o entusiasmo só aumenta à medida que nos aproximamos de um dos maiores festivais do mundo.
Foi num ambiente intimista e vibrante que o M.Ou.Co. recebeu, na passada quinta-feira, a segunda edição deste encontro especial, que juntou música ao vivo, histórias inéditas e um anúncio que deixou todos em êxtase. O destaque da noite? Um unplugged envolvente dos Napa, que trouxe emoção e proximidade ao público presente, criando uma ligação autêntica entre artistas e espectadores.
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Mas as surpresas não ficaram por aqui. Num momento carregado de simbolismo e orgulho portuense, foi anunciado que os Dealema, um dos coletivos mais icónicos do hip hop nacional, vão atuar no Rock in Rio Lisboa, no dia 21 de junho. A celebrar 30 anos de carreira, o grupo sobe ao palco Music Valley para apresentar, em estreia absoluta em festival, o seu mais recente trabalho: “96 ao Infinito”. Um marco que promete ser histórico e imperdível.
Este encontro contou ainda com a presença de Roberta Medina e com a gravação de mais um episódio do videocast “RFM Apresenta Untold Stories”, uma série que antecipa o festival através de conversas únicas e convidados especiais, revelando os bastidores e as histórias que dão vida ao Rock in Rio.
E porque a festa está cada vez mais próxima, já se sabe: o Rock in Rio Lisboa regressa à Cidade do Rock nos dias 20, 21, 27 e 28 de junho de 2026. Quatro dias de música, emoção e experiências inesquecíveis que prometem marcar o verão.
Os bilhetes já estão disponíveis — e tudo indica que vão voar.
Porto vibrou, Lisboa prepara-se… e o Rock in Rio já se faz sentir.
A célebre metáfora de Animal Farm mantém-se inquietantemente atual. Tal como na obra de George Orwell, assistimos hoje, em diferentes contextos, à ascensão de dinâmicas de poder que distorcem ideais, manipulam narrativas e substituem o mérito pela conveniência. E, tal como na ficção, os porcos não tomam o poder de rompante — conquistam-no pouco a pouco, moldando a linguagem, manipulando perceções e explorando o cansaço coletivo. O que começa como promessa de renovação termina em distorção. E é precisamente nessa zona cinzenta que hoje nos movemos.
Na cena internacional, o exemplo mais paradigmático é o de Donald Trump.
A sua trajetória política foi e continua a ser acompanhada por múltiplas polémicas — investigações judiciais, suspeitas de interferência eleitoral, processos relacionados com finanças e conduta pessoal aliada a escândalos sexuais.
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Ainda assim, longe de o fragilizar definitivamente, tudo isto é reinterpretado como prova de perseguição por parte de um “sistema”.
Parte desse sucesso assenta numa aliança sólida e estratégica entre setores conservadores, grupos evangélicos e segmentos da direita radical.
Esta convergência está longe de ser inocente. Trata-se de uma instrumentalização mútua, na qual valores religiosos são usados como ferramenta de mobilização política, enquanto agendas radicais ganham legitimidade através de um verniz moral. Fica criada, assim, a tempestade ideal: a retórica moral legitima agendas políticas duras, enquanto o discurso político reforça identidades religiosas e culturais. Enquanto isso, retira-se importância à verdade dos factos, que passa a um plano secundário face à narrativa mobilizadora, assente na emoção.
Olhando para outras paragens, verificamos que Trump não é (infelizmente!) um caso isolado. Benjamin Netanyahu atravessou anos politicamente frágeis, com acusações de corrupção a pairar sobre o seu governo.
Ora, quando a sobrevivência política — e, em certos casos, até pessoal — entra em risco, líderes como Trump e Netanyahu recorrem a uma manobra tão antiga quanto eficaz: criar ou intensificar conflitos externos para desviar as atenções. De repente, o foco deixa de estar nos problemas internos e passa para uma ameaça maior, unindo a opinião pública em torno do medo, abafando perguntas incómodas e legitimando por consenso as ações político-militares de duvidosa legalidade.
Tal como na quinta de Orwell, os princípios iniciais são progressivamente reescritos até já não serem reconhecíveis. A manipulação da linguagem e da perceção torna-se, assim, uma arma central no exercício do poder.
Em Portugal, a degradação não passa por conflitos armados ou crises institucionais agudas, mas por algo mais subtil — e talvez mais perigoso: a banalização do debate.
A democracia exige um escrutínio rigoroso, constante e exigente. Mas o que se tem assistido, na grande maioria das vezes, é a uma deriva para o detalhe irrelevante e para o sensacionalismo.
As recentes notícias sobre despesas em refeições por autarcas de Matosinhos e Oeiras são um exemplo quase caricatural. Episódios amplificados, descontextualizados e transformados em escândalo mediático, apesar de envolverem responsáveis amplamente reconhecidos pela sua competência e impacto positivo na gestão autárquica. Em vez de se discutir políticas públicas, resultados ou visão estratégica (que, aliás, em ambos os casos são exemplares, cada um à sua maneira) discute-se o preço de um almoço.
Ninguém se dá ao trabalho de verificar o que significam os números, à primeira vista exorbitantes, quando divididos pelos anos a que correspondem. A época do imediatismo não é compatível com a verificação cuidada dos factos.
Este tipo de abordagem não eleva o debate — empobrece-o. E, mais grave, contribui para afastar da vida pública quem tem provas dadas.
Neste ambiente de desgaste e superficialidade, forças políticas como o Chega têm encontrado espaço para crescer.
O partido tem sido associado, constantemente, a vários episódios polémicos envolvendo militantes e dirigentes — desde declarações controversas a casos criminais, alguns caricatos outros francamente imperdoáveis ( malas furtadas fazem rir, mas pedofilia ou prostituição infantil já não ) reportados pela justiça e pela comunicação social.
Ora numa democracia, todos os partidos devem ser escrutinados de forma justa e proporcional. Mas quando a sucessão de polémicas se torna padrão, e quando o discurso político aposta sistematicamente na provocação e na simplificação, o risco é claro — a banalização da gravidade dum determinado setor da vida política.
O ruído constante impede a distinção entre o que é estrutural e o que é acessório, o que verdadeiramente importa e o que é espuma dos dias, o qu é grave do que o não é.
É neste cenário que prosperam os discursos mais simples, mais emotivos, menos responsáveis, mais imediatos baseados em sound bites e menos sujeitos a escrutínio.
Neste plano da vida internacional e internacional, o “triunfo dos porcos” ascende, não através de uma rutura abrupta, mas por desgaste progressivo.
Quando a política se torna um espaço de ataque permanente, quando o escrutínio descamba em perseguição e quando o debate é substituído por escândalo, os melhores afastam-se.
Ficam os mais resistentes ao ruído — nem sempre os mais competentes, nem sempre os mais preparados.
Quase sem darmos por isso, vamos substituindo a exigência pela tolerância à mediocridade.
O paralelismo com Orwell não é um exercício literário — é um aviso.
A maior parte das democracias não colapsa apenas por golpes ou ruturas institucionais mas sim por uma degradação lenta, corroídas por dentro, quando a verdade perde valor, quando o debate se esvazia e quando o espaço público se transforma num palco de distrações.
A pergunta que fica é simples e incómoda: estamos atentos ao que realmente importa, ou já nos habituámos ao barulho, mesmo o das bombas e dos gritos dos mais fracos?
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Mais do que eleições legislativas, os húngaros referendaram três estratégias fundamentais da sua democracia: maior ou menor ligação à UE, proximidade com Putin e uma aliança desalmada com Trump. Com um recorde de votação pouco vista na Europa, a Hungria percebeu o que estava em causa e os cidadãos foram, de forma maciça, dizer o que querem para o seu país.
Orbán teve 16 anos de governação, e o tempo foi mostrando que se tornara um «peso» inaceitável para a União Europeia e, de alguma forma, também para a NATO, além de ser uma ponta de lança incansável a dar cobertura ao espalhafatoso Trump e ao perigoso Putin. Se continuasse como primeiro-ministro, então mais valeria à Hungria abandonar as atuais alianças políticas, económicas e militares.
Como estava, não poderia continuar. Um primeiro-ministro que se comprometeu com a ajuda europeia de 90 mil milhões de euros à Ucrânia, mas que, no momento decisivo, votou contra, é um parceiro instável e pouco fiável, numa altura em que a Europa enfrenta — por interposta Ucrânia — uma guerra com a Rússia. O primeiro-ministro húngaro escolheu o caminho errado há muito tempo, e isso paga-se caro. Não era esse o caminho que os húngaros queriam percorrer.
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Voltar ao abraço apertado de Putin seria regressar aos tempos do duro controlo de Moscovo, e os cidadãos da Hungria não esquecem o que lhes aconteceu quando, em 1956, tentaram uma primavera política. Foram massacrados, detidos e humilhados. Voltar a Putin seria voltar atrás, aos piores momentos da URSS.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Pedro Passos Coelho estava sem gravata, mas quase todos os jovens do sexo masculino que foram ao jantar de fato não dispensaram o acessório. Elas, muito menos, também iam com roupa escura e conservadora. E na mesa onde Passos Coelho jantou, Rita Matias teve lugar à cabeceira. Mas o mais impressionante para quem esteve no evento do Senado – um grupo de jovens de direita fundado em 2013 para organizar debates políticos – foi a forma entusiástica com que foi recebida a ideia de Passos segundo a qual o Governo de Luís Montenegro não é mais reformista do que o de António Costa nem se distingue muito dele, limitando-se a gerir as crises e as expectativas dos eleitorados. “Arrancou um enorme aplauso”, conta uma testemunha, que justifica o entusiasmo com a forma como o antigo primeiro-ministro “traz convicções, propostas e projetos e não traz o que é óbvio, traz o que é difícil”.
O jantar foi no dia 20 de março e encaixou na agenda de Passos Coelho, que acelerou no final de fevereiro, quando se soube que o até aí diretor da Polícia Judiciária, Luís Neves, era a escolha de Luís Montenegro para ministro da Administração Interna. “Tenho a certeza de que a escolha do primeiro-ministro se baseou na melhor das intenções. Mas o precedente é grave. Não se pode passar. Não é um bom sinal que se dá”, disse Passos Coelho, que logo depois disso subia a tal ponto o tom das críticas à falta de reformismo do Governo que a troca de palavras com Montenegro acabou com Passos a garantir que não é “candidato a coisíssima nenhuma”.
Rita Matias com Passos Num encontro com jovens conservadores, o ex-primeiro-ministro do PSD contou com a atenção da dirigente e deputada do Chega
A questão é que, não sendo candidato, Pedro Passos Coelho é uma sombra que paira sobre um Luís Montenegro que, dois anos depois de ter começado a governar o País, não consegue apresentar resultados nas crises da habitação e da saúde e começa a ter hostes sociais-democratas impacientes com um estilo de governação que não falta quem (sem dar a cara) compare ao de Costa (de tão má memória para quem votou na AD). “Há, de facto, a ideia de que faltam reformas, de que falta apresentar propostas e levar os outros a ir a jogo. Sendo ou não sendo aprovadas”, comenta um dirigente distrital, que garante não estar articulado com os ditos passistas, mas que embarca no mesmo tipo de críticas.
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Ainda que a vitória de António José Seguro nas presidenciais tenha representado uma derrota para Luís Montenegro (que nem na segunda volta o apoiou), a forma como o novo Presidente deixou claro desde o primeiro minuto que não seria por si que a legislatura seria interrompida devia significar um período de acalmia política favorável a Luís Montenegro. Mas a turbulência (quase toda em surdina) que se sente no PSD desmente essa ideia. A perceção de que o Governo terá sucesso é agora mais comedida. “O sentimento no grupo parlamentar é de alguma apreensão por as coisas não estarem a correr como esperavam”, nota o líder de uma concelhia, que diz que a pressão do aumento do preço dos combustíveis e a inflação gerada pela guerra no Irão e pelos efeitos das tempestades no centro do País torna as perspetivas sombrias. “Não estou a ver capacidade de dar a volta ao texto. Se não apresentaram resultados quando as coisas estavam de feição, como o farão agora que a economia começa a apertar?”, questiona-se.
Alertas Álvaro Beleza, da ala moderada do PS, subscreveu uma moção com alguns alertas. Ventura enfrenta problemas por causa da CML
Com eleições diretas para a liderança marcadas para 30 de maio e congresso a 20 e 21 de junho, não há qualquer sinal de que haja adversários a porem-se no caminho de um primeiro-ministro que ainda tem (em tese) muita legislatura pela frente. Mas há no partido quem avise que uma vitória esmagadora de Luís Montenegro – que quase de certeza será candidato único – não pode ser lida como um seguro de vida. “Até pode ter 96% e ser um líder frágil”, nota um dirigente social-democrata desalinhado do montenegrismo. “As pessoas estão descontentes, mas acham que têm de aguentar. Não querem perder os lugares”, acrescenta um ex-dirigente social-democrata, que também alinha na ideia de que Montenegro é mais parecido com Costa do que os sociais-democratas gostariam. “Gonçalo Matias [ministro da Reforma do Estado] acha que está a fazer reformas, mas as reformas não são boas notícias. E este Governo só quer dar boas notícias. São como o Costa”, critica a mesma fonte.
No Governo há desconforto com a ideia de que nenhum dos principais comentadores defende verdadeiramente Luís Montenegro e as suas políticas, a começar por Miguel Relvas, na CNN, e Miguel Morgado, na SIC Notícias, que muitas vezes são críticos das opções de governação e são, claro, ambos conotados com a ala passista do PSD, algo que faz com que o fantasma de Passos paire, mesmo quando o próprio não aparece. Mas, se não for antes, Passos Coelho tem aparição marcada com estrondo para dezembro: altura em que vai apresentar o estudo sobre a reforma do Estado que tem andado a cozinhar com Sérgio Sousa Pinto e Óscar Afonso, encomendado pela Associação Comercial do Porto, que encaixará que nem uma luva no descontentamento de alguma direita pela falta de “ímpeto reformista” de Montenegro.
Mas há outra coisa que não convence alguns dos críticos internos no PSD: a forma como Luís Montenegro tem gerido o Chega. Há quem ache que Montenegro corre o risco de perder ainda mais terreno para o partido de André Ventura. Entre os passistas, claro, acredita-se que só Passos poderia federar as direitas e até roubar votos ao Chega. Mas essas teses carecem de comprovação. E está por medir a capacidade eleitoral atual de Passos Coelho.
Dúvidas Camaradas de José Luís Carneiro reconhecem-lhe a paciência e a capacidade de trabalho. Mas falta o resto…
Na gestão interna do partido, Luís Montenegro também tem tido falhas: uma delas foi o envolvimento na campanha pela concelhia de Espinho – onde a sua mulher chegou a fazer campanha – que acabou com a vitória do candidato que lhe fez frente na escolha para as autárquicas, Ricardo Sousa Bastos. Em Braga, acabou por ser surpreendente a vitória de Carlos Eduardo Reis, que foi afastado do Parlamento pela direção do partido pelo envolvimento na Operação Tutti-Frutti, mas que ganhou ao candidato apoiado por Montenegro e com um resultado esmagador na concelhia de Vila Verde, controlada pelo ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes. Não são sinais do fim do montenegrismo, mas mostram fissuras numa máquina partidária que Hugo Soares tinha sabido manter oleada até aqui sem erros visíveis de fora.
Se a tudo isto se somarem os resultados das sondagens, percebe-se que Luís Montenegro não pode dormir na forma e terá de tirar qualquer coelho da cartola se quer agarrar o eleitorado. Há três semanas, sondagens do Expresso e do Diário de Notícias mostravam na prática um empate técnico entre AD, Chega e PS, sendo que a coligação entre PSD e CDS via a sua vantagem encurtar. Entretanto, Portugal foi o país da Zona Euro em que os preços mais subiram em março e os preços da habitação mantiveram a tendência ascendente pelo quinto mês consecutivo, mas o Governo – ao contrário do que acontece em Espanha – tem resistido à ideia de apresentar pacotes de medidas de combate à inflação que não passem pelos descontos nos combustíveis, mas mesmo assim os portugueses continuam a pagar até mais 50 cêntimos por litro do que os espanhóis. Resta saber até que ponto esta conjuntura económica acabará ou não por fazer mossa ao Governo.
Um tiro no pé e um tiro de pólvora seca
Dentro de mais ou menos duas semanas, José Luís Carneiro vai estar de malas feitas para partir para Barcelona, para onde o líder do PSOE, Pedro Sánchez, convocou líderes progressistas de todo o mundo para debater forma de combater “a onda ultradireitista crescente” no mundo. O Presidente do Brasil, Lula da Silva, e o Presidente da Colômbia, Gustavo Petro, estão entre os convidados de uma reunião onde estará também António Costa, enquanto presidente do Conselho Europeu. “O objetivo dessa iniciativa é criarmos uma aliança progressista global que valorize uma mensagem positiva sobre os direitos, liberdades e garantias no mundo pós-guerra, que seja capaz de enfrentar os desafios do populismo, da demagogia e da desinformação que hoje ameaçam as democracias”, diz Carneiro à VISÃO.
O problema é que em Portugal os socialistas se mostram desanimados face à perspetiva de mais de três anos na oposição sem que haja descolagem nas sondagens. Essa falta de entusiasmo foi visível no Congresso de Viseu, que teve quase sempre a sala a meio gás e é descrito por quem lá esteve como “chocho”. José Luís Carneiro foi eleito com 96,9% dos votos, mas não entusiasma. “Há um misto de impaciência com falta de carisma do líder. Estar na oposição é sempre difícil”, descreve uma fonte da direção socialista, que lhe reconhece qualidades (“é trabalhador e paciente”), mas teme que a postura demasiado institucional e a forma de fazer oposição, oferecendo-se sistematicamente para fazer acordos com o Governo, não seja percetível para o eleitorado.
E as reformas? Passos e Cavaco fizeram alertas a Montenegro,por causa das necessárias “reformas”. Na comemoração de dois anos de poder, com membros dos seus dois governos, o primeiro-ministro elencou algumas. Será que convenceu?
No PS, são muitos os que apostam que José Luís Carneiro tem no máximo dois anos até aparecer alguém a tentar a sorte na liderança antes das legislativas. Duarte Cordeiro é, dentre todos os nomes de que se fala, a hipótese mais forte. Ao contrário de Fernando Medina, tem implantação na máquina do partido e, ao contrário de Mariana Vieira da Silva, tem ambição política.
Carneiro não desconhece essas ambições nem essas movimentações e tratou de trazer todos os putativos futuros adversários para o seio da sua direção. Duarte Cordeiro, Fernando Medina e Alexandra Leitão irão para a sua comissão política. O gesto pode conter calculismo, mas faz parte do estilo de Carneiro, que gosta de manter todas as fações por perto. “É o estilo dele. Às vezes, até é ecuménico demais”, comenta uma fonte socialista.
Apesar de todas as cautelas, José Luís Carneiro já cometeu erros: um deles foi a ida à Venezuela, que lhe valeu duras críticas de Marta Temido, que viu a viagem – organizada sem consultar Francisco Assis, secretário nacional do PS para as Relações Internacionais – como um potencial “tiro no pé”. Sem dar a cara, há quem no PS admita que talvez Carneiro ainda não tenha despido o fato de secretário de Estado das Comunidades e precise de começar a perceber que tanta aposta nesses círculos pode ser desfasada “mesmo que esses votos tenham sido essenciais para dar ao Chega o estatuto de segundo partido”.
Outro problema foi a gestão da negociação dos nomes para o Tribunal Constitucional com a AD, que fez Mariana Vieira da Silva avançar com uma ameaça de chumbo ao Orçamento do Estado que Carneiro tratou de pôr na gaveta, ficando as ameaças socialistas como um tiro de pólvora seca. “O congresso foi contaminado com isso. O partido teve dificuldade em falar para fora”, admite uma fonte próxima de Carneiro, que diz que é urgente o PS entrar numa nova fase e começar a ser visto com uma alternativa de esperança. “O PS precisa de renovar o programa e de ter pessoas novas.” Para isso, Carneiro lançou as Oficinas do Futuro. Mas não chega. “O Governo dá sinais de desgaste, mas as dificuldades têm de ser mais bem aproveitadas por nós”, admite a mesma fonte, que reconhece a falta de carisma de Carneiro, mas sublinha que todos os estudos feitos pelo Largo do Rato mostram que a maioria dos portugueses vê o líder do PS como “alguém confiável” e esse é um ativo importante.
Para já, há duas coisas que dão uma relativa tranquilidade a José Luís Carneiro: por um lado, o desgaste da governação AD e, por outro, o facto de nenhum dos seus putativos adversários estar disposto a saltar ao caminho numa altura em que o que se perspetiva é uma travessia no deserto da oposição.
O estranho silêncio de Ventura
André Ventura não costuma estar em silêncio. Mas o caso do vereador do Chega em Lisboa, Bruno Mascarenhas, parece queimar. E Ventura tem evitado ficar escaldado, numa altura em que nunca foram tão evidentes as fissuras internas no partido sobre a continuidade daquele que é agora o único eleito do Chega na vereação lisboeta, depois de Ana Simões da Silva ter deixado o partido e feito um acordo com Carlos Moedas que lhe valeu um pelouro.
Problema Bruno Mascarenhas, vereador do Chega em Lisboa, provoca divisões na direção do partido. Não é removido por uma questão de… lugares
As nomeações feitas por Bruno Mascarenhas para o seu gabinete na câmara (incluindo a de uma prima sem qualquer experiência profissional, a de uma cabeleireira como assessora e a de um empresário com problemas com a Justiça no Brasil) e para empresas municipais foram tão polémicas que fizeram com que o líder da bancada municipal do Chega assumisse não ter sido tido nem achado sobre elas. “A Assembleia Municipal não tem nada a ver com a vereação. Concorremos com listas separadas, com boletins de voto separados. Não nos revemos minimamente no que se passa na vereação do senhor doutor Mascarenhas”, afirmou o líder da bancada do Chega, Luís Pereira Nunes, numa reunião da Assembleia Municipal citado pela Lusa. Mas o caso que mais mossa terá feito dentro e fora do partido foi a nomeação, por Carlos Moedas, da namorada de Bruno Mascarenhas, Mafalda Livermore, para os Serviços Sociais da Câmara Municipal de Lisboa.
Mafalda Livermore acabaria exonerada depois de uma reportagem da RTP ter revelado que não só é alvo de queixas de quem assevera que vendeu serviços de advocacia apesar de não ter ainda passado do primeiro ano de Direito, como é suspeita de arrendar casas insalubres por preços exorbitantes e sem contratos legais a imigrantes. As revelações fizeram Rita Matias pedir a cabeça de Mascarenhas no seu espaço de comentário no canal Now. “Se o Bruno Mascarenhas quiser fazer um favor ao partido Chega, se faz favor demita-se de vereador, saia e passe o lugar − espero que não fique independente −, passe o lugar para ficar alguém que realmente represente o partido Chega e os seus interesses.”
Rita Matias não está sozinha neste desconforto com Mascarenhas. A VISÃO sabe que Pedro Frazão também tem comentado no partido que a demissão seria a melhor saída para o eleito do Chega e a distrital de Lisboa há muito que não o apoia. O problema é que Bruno Mascarenhas poderia seguir as pisadas de Ana Simões da Silva e, com isso, o Chega deixar pura e simplesmente de ter representantes na vereação, com tudo o que isso implica, incluindo no número de cargos que há a distribuir.
Face a isto, Ventura tem evitado o tema. E foi só pela boca de Bruno Mascarenhas que se soube – e ainda não foi desmentido – que o vereador teria o apoio do líder. Entretanto, André Ventura que, até agora, tem lidado com polémicas afastando os envolvidos, tem chutado para canto, alegando que o caso de Mafalda Livermore está a ser analisado internamente pelo conselho de jurisdição e defendendo que não deve tomar posição até haver conclusões naquele órgão.
As ruas e praças do monumental centro histórico de Havana estão cheias de gente. Apesar da grave crise humanitária que Cuba atravessa, há grandes hotéis, bares famosos e restaurantes a funcionar. Com muito poucos turistas, é certo. Mas, aparentemente, tudo está como dantes. Até Eça de Queirós, retratado num painel de azulejos com quatro outros ilustres “vencidos da vida”, continua no café Santo Domingo, casa de que foi assíduo frequentador quando exercia funções diplomáticas em Cuba.
Ao fundo do vetusto estabelecimento, uma imagem do Elevador da Bica, com o Tejo por baixo, cobre toda a parede. Jovens, alguns com os seus computadores ligados, bebem chá e café. Lá fora, há quem peça dinheiro para comer. Tudo muito complexo, contrastante, contraditório.
O lixo acumula-se no chão, em grandes quantidades, nas ruas pobres do vizinho bairro chinês. As majestosas e antigamente luxuosas casas coloniais que nelas se destacavam são hoje ruínas habitadas por gente mesmo assim alegre e por vezes miserável. Com a exceção das reconvertidas ao turismo e de uma ou outra de cubanos ricos, que também os há.
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Havana Não há frenesim, nem confusão. Há muita gente sentada às portas, a conversar – a sobreviver
Os muito pobres são certamente a maioria, mas raramente estão de mão estendida. Muitos deles, no entanto, sobretudo nas zonas frequentadas por estrangeiros, pedem ajuda, imploram, olhos nos olhos, logo que conseguem vencer a barreira que os separa dos mais bafejados pela sorte. Com tal dignidade, que não é possível ignorá-los.
Não se percebe facilmente como tantos sobrevivem com tão pouco, com salários mensais, quando os têm, que mal chegam para oito quilos de batatas, ou dez sabonetes no mercado livre. Podem falar mal do governo e mesmo do regime, mas poucos serão os que sonham com o gringo.
O contraste é chocante entre a realidade das ruas e das pessoas, que a falta de combustíveis e a desumanidade de Donald Trump agravaram de forma extrema, e a riqueza colonial dos palácios, nem sempre degradados, que sobressaem a cada passo. Uns acolhem serviços do Estado e grandes empresas, públicas e privadas, outros albergam hotéis, museus ou casas de espectáculos. Como o fabuloso Gran Teatro Alicia Alonso, que não tem atividade desde a pandemia da Covid-19.
Como em todo o lado, desde que haja dinheiro, não falta comida boa e barata para os estrangeiros e os ricos. Nem comida, nem nada.
O cansaço a honrar os heróis
E, de repente, numa manhã quente, transpirada, húmida e com um sol que não queima, mas abafa, as escadarias da Universidade de Havana, do início do século XX, estão desertas. Uma corda atravessa-as de lado a lado e um pedaço de cartão pendurado avisa: No pasar. Num dos extremos, à sombra, uma funcionária fardada, sentada com uma filha pequena ao lado, explica: “Estamos fechados há duas semanas por causa do petróleo.”
Nas ruas adjacentes, como por toda a cidade, não há frenesim, nem confusão. Há muita gente sentada às portas, a limpar o que se consegue limpar, a conversar, a tentar vender alguma coisa à janela, à porta ou no vão da escada – a sobreviver. Outros a apregoar tudo e mais alguma coisa com um saco às costas, um caixote nas mãos, um cesto na bicicleta.
Ninguém corre, a não ser os miúdos a brincar. Todos parecem cansados. Ainda assim, vistos assim, não se diria que comem pouco, que alguns têm fome, que muitas vezes não têm luz, nem água, nem medicamentos. Que têm tudo para estar desesperados. Mas não estão. Ou, talvez melhor, ainda não estão. Porque o cerco, o garrote, aperta-se cada vez mais, sem alívio à vista.
Numa lateral do campus universitário, à sombra, centenas de crianças e adolescentes, os mais novos com as fardas das escolas, outros com camisetas alusivas aos 100 anos de Fidel, jovens militares e membros de organismos juvenis ligados ao partido único assistem, sem entusiasmo, talvez cansados também, a uma cerimónia evocativa do ato revolucionário em que alguns estudantes foram mortos, em 1957, num ataque frustrado ao palácio de Fulgencio Batista.
À exceção dos que estão mais perto do palanque, os jovens conversam enquanto o apresentador anuncia a entrega do cartão da União dos Estudantes Comunistas a uns poucos deles. Uma jovem militante lê um discurso empolgado, de combate e de apelo à unidade contra o “imperialismo” e os “inimigos de sempre”. Nem uma palavra sobre as carências do povo. Todos as conhecem. Todas as palavras são para a defesa da revolução. Os poucos aplausos vêm das filas da frente, dos menos jovens e dos membros do comité central do Partido Comunista de Cuba que estão presentes, mas não falam. O dia é dos jovens.
Muitas Cubas numa só ilha
Claro que não há uma só Cuba, ou uma só Havana. Uma coisa, pense-se o que se pensar, deprimente e chocante é grande parte da Habana Vieja, o centro histórico, parcialmente arruinado e em muitas zonas sobrepovoado com os mais pobres.
Outra coisa são as áreas menos centrais da capital, onde se respira um ar menos pesado e não se sente tanto a pobreza extrema. Ou bairros ricos como Siboney e Miramar, onde vivem as elites abastadas.
Outra coisa, ainda, será a meca turística de Varadero, a 140 km de distância, quase às moscas desde que a crise energética se agravou com o ataque norte-americano à Venezuela. Ou outras grandes cidades da ilha, onde − assegura quem lá esteve recentemente − os efeitos da crise são muito mais graves.
Caminhar por bairros da capital como El Vedado, Playa ou Plaza de la Revolution é mudar de país e esquecer as ruínas, o lixo nas esquinas, a pobreza e a caça ao estrangeiro presumivelmente endinheirado. A energia também falta, mas muito menos do que nas áreas mais pobres, a água também escasseia, idem, e os transportes públicos também quase se ficam pelos triciclos a pedais, ou com motor, pelos táxis coletivos, por todo o género de carripanas que carregam pessoas, sem horários, sem preço certo.
“Almendrones” Os coloridos Chevrolets, Dodges e outros carrões americanos de antes da revolução continuam a circular, como táxis
Mas há espaços verdes, culturais e desportivos, supermercados, restaurantes, esplanadas com gente normal. E mesmo um encontro de centenas de jovens motoclistas, bem vestidos e produzidos, na envolvente de uma discoteca cheia numa sexta-feira à noite.
No centro histórico, a tarde está a cair, depois de uma bátega de pingos grossos. Arrastando-se pelo aprazível jardim fronteiro ao Palácio dos Governadores Gerais, um velho homem, com uma perna de pau, pede algo para comer aos raros turistas. À porta da Comandância, um bar popular próximo dali, Eusébio conta, entusiasmado, que o local terá sido frequentado por Fidel e o Che e fala dos heroicos feitos de ambos.
São memórias que orgulham e animam este professor do Ensino Primário, mas que não servem para dar de comer aos filhos pequenos que diz ter. Nem para absolver o regime dos erros que, a seu ver, partilha com o bloqueio norte-americano, velho de seis décadas. Servem, sim, para consolidar um patriotismo que vem muito de trás, do século XIX, das lutas pela independência, e que rejeita qualquer ingerência externa.
Novamente no Largo dos Governadores Gerais, um maltrapilho de calções e camisa rasgada reivindica em voz alta, junto de um turista que tem um uma pequena embalagem ao lado: “Dá-me esse rum, que hoje faço anos.” Um homem pobremente vestido vasculha os caixotes de lixo do jardim e miúdos descalços pedem dólares para comer. Pouco depois, é uma mulher que vende sacos de pano com a imagem do Che quem diz que só quer leite para os netos.
A pouco mais de cem metros, frente à belíssima Baía de Havana, casais de namorados passeiam de mãos dadas, pescadores pescam à linha sem pressas, pais e mães empurram carrinhos de bebé. É quase noite e não há turistas, nem mendigos. Do outro lado da baía, no alto da colina, está o Cristo de La Habana. Ao lado dele, estão as muralhas que diariamente, pelas 21h, tremem com o canhonaço, o disparo que assinala o fim do dia. Como há quase 200 anos.
A patear na escuridão
A madrugada, em noite de apagão geral, é fantasmagórica em Havana, como provavelmente será em qualquer lado. Mas aqui é diferente: há ilhas de luz, raras, os semáforos funcionam e quase tudo parece normal. No entanto, nos bairros mais centrais, cruzados por ruas quilométricas, por vezes parcialmente obstruídas com montes de lixo, a escuridão é total. Caminha-se a patear, cautelosamente, e aproveita-se o vago brilho que a ténue claridade do céu encoberto deixa no alcatrão molhado pela chuva miudinha que caiu. De quando em vez, quando se tem, liga-se o telemóvel para evitar algum buraco.
O silêncio é absoluto, mesmo quando se passa por alguma sombra em movimento. Há janelas abertas, atrás de grades. Uma vez por outra, o silêncio é perturbado pelo ronco sonoro dos que ainda dormem. A meio da larga Avenida Simón Bolívar, já com uma ligeira claridade, há quem caminhe com lanternas, com os faróis de um ou outro automóvel a ajudar.
Subitamente, surge um edifício bem iluminado. Paredes de vidro, uma velha senhora sentada no interior, junto à estátua de alguém importante, grandes quadros pendurados nas paredes e um símbolo conhecido, com um triângulo e um compasso, gravado no vidro da porta de entrada. Por cima, a inscrição Gran Templo Nacional Masónico.
Mais adiante, começam a encontrar-se ajuntamentos de pessoas à espera dos primeiros transportes coletivos, quase todos privados, desde triciclos a pedais a táxis coletivos, entre os quais os famosos almendrones − os coloridos Chevrolets, Dodges e outros carrões americanos de antes da revolução.
Pelas 7h, já perto do Terminal de Omnibus, passa o primeiro autocarro público, ainda quase vazio. Não há combustíveis nem energia elétrica, mas há transportes e alguma luz.
Contrastes O lixo acumula-se no chão nas ruas pobres. As majestosas e dantes luxuosas casas coloniais são hoje ruínas habitadas por gente mesmo assim alegre e por vezes miserável
Nesse início de manhã de apagão, lê-se no jornais portugueses, no telemóvel, que dez milhões de cubanos estão às escuras, que há protestos com panelas (caçaroladas) em vários pontos de Havana, também protestos de estudantes, e até que foi incendiada a sede do Partido Comunista. Por aqui, calcorreando a cidade de manhã à noite, à razão de 15 a 20 quilómetros por dia, não se dá por nada disso. E a sede do Partido Comunista das notícias é apenas a sede local do partido em Morón, uma pequena cidade do centro da ilha, onde dezenas de jovens se manifestaram e fizeram fogueiras em frente às instalações.
Entretanto, o cómodo autocarro que assegura a ligação a Matanzas, a uma centena de quilómetros da capital, aguarda a hora da partida com o ar condicionado no máximo. O custo da viagem, neste caso reservada a quem a paga em divisas, é de nove euros. Um euro rende um pouco mais de 500 pesos nos hotéis e no mercado informal, mas apenas uns 27 no câmbio oficial. O salário mensal de muitos professores não passa dos 4500 pesos.
A transportadora é a Via Azul, empresa pública que faz as agora raras ligações entre capitais de província para quem tem divisas. Quem as não tem, recorre à Omnibus Nacionales, uma companhia igualmente estatal, teoricamente reservada a passageiros cubanos, que cobra cerca de 100 pesos (20 cêntimos de euro no mercado informal) em veículos menos cómodos, apinhados e igualmente raros devido à escassez de combustíveis.
O autocarro da Via Azul leva só sete passageiros, as divisas não chegam a todos. Durante a viagem, junto a Playa Jibacoa, perto de Santa Cruz del Norte, a meio caminho de Varadero, faz-se uma paragem numa área de descanso que tem três cafetarias. Não há um único cliente, uma dezena de empregados circulam de um lado para outro e três velhos músicos estão sentados frente à bateria e aos saxofones mudos.
Não há café, nem bebidas frescas. Não há eletricidade. Mas há um intenso cheiro a gás no ar.
Um empregado explica que é mesmo gás e aponta, ao longe, uma velha unidade industrial. Era dali que em tempos saía petróleo − extraído de poços iguais a muitos outros que se veem abandonados nesta área do litoral. Atualmente só sai gás.
O custo da extração do petróleo parece que seria muito elevado. E o gás? “Queimam-no!”, responde secamente − sem saber se a utilização daquele recurso também ficaria demasiado cara −, enquanto indica uma chaminé, a umas centenas de metros, de onde se eleva uma enorme chama amarela. Perante o meu espanto, exclama com um sorriso irónico: “És Cuba!”
Apagões e cataclismos
E em Cuba tudo é diferente. Até um apagão geral. Nada a ver com o “cataclismo” que parecia ter-se abatido sobre Portugal e Espanha em abril do ano passado, nem com aquilo que, sobre a falta de eletricidade em Cuba, escreveu a imprensa estrangeira. Nem nas conversas de rua o caso passa de um fait divers. Os cortes de energia elétrica − em grande parte motivados pela escassez de combustíveis imposta pelos EUA − acontecem com frequência, várias horas por dia. Causam transtornos de toda a ordem, obrigam a encerrar escolas, espaços culturais, serviços e atividades produtivas. Até a restringir drasticamente a prestação de cuidados de saúde. Mas no dia a dia toda a gente encontra soluções de recurso − ou já se habituou a passar sem elas.
Pilhas, baterias, velas raramente, lanternas de todos os géneros, geradores, painéis solares, caixas isotérmicas, tudo serve para assegurar o indispensável. E se os transportes escasseiam, desencantam-se bicicletas e triciclos a pedal e a motor; arranja-se lugar para mais um no táxi coletivo; andam-se mais quilómetros a pé; reduzem-se as deslocações ao estritamente necessário e possível. Nas cidades mais pequenas até se voltam a ver carroças com bancos corridos, puxadas por mulas e cavalos.
E se não há eletricidade nem gás para cozinhar, usa-se carvão, que se vende agora por todo o lado. Não basta que falte a corrente e que os combustíveis custem uma fortuna para que o país pare − apenas se adapta a um ritmo que não será alheio à natureza da sua gente. A capacidade de improvisação, a criatividade e a paciência parecem fazer também parte dessa natureza.
Do nada faz-se aqui quase tudo e não é por dá cá aquela palha que a casa vai abaixo. Em dia de apagão geral, que mesmo durante a noite foi furado por muitas ilhas de luz, foi possível comprar pão nas padarias logo pela manhã, almoçar em restaurantes (2200 pesos em Matanzas), beber mojitos e cerveja fria, usar a internet e fazer filas para comprar aquilo para que chegam os magros rendimentos da grande maioria.
Pelas seis da tarde de terça-feira, 17 de março, pelo menos em Havana, pouco mais de 24 horas passadas sobre o início do apagão, até já havia mais eletricidade do que de costume.
“No pasa nada”
É seguramente como encontrar uma agulha num palheiro. Mas também aparece quem diga, face ao que está a passar, que preferia ver os americanos tomarem conta da ilha. Rafael é um deles. Tem 51 anos, diz que o pai, já falecido, desceu da Sierra Maestra com Fidel.
Enverga um colete vermelho com a inscrição “se beber não conduza” nas costas, e tem um boné, igualmente vermelho, onde se lê “parqueador”. Ganha a vida a arrumar carros e motos em frente a uma padaria do centro de Havana e, segundo afirma, recebe do Estado 4000 pesos (perto de oito euros mensais).
Na prática, vive das propinas dos clientes. Como a rapariga bem vestida que sai da padaria e lhe entrega 50 pesos, enquanto se encaminha para uma moto de três rodas ali estacionada.
Rafael exprime-se mal e parece abusar do rum, como muitos dos mais vulneráveis. Garante que em Cuba há muita gente com fome, que não há água nem luz, que há muita corrupção e jura pela mãe que todas as noites há caçaroladas de protesto dentro das casas e às janelas − coisa que suscita grandes dúvidas a quem passou as dez noites anteriores naquela zona.
Apagão Os cortes de energia elétrica − em grande parte motivados pela escassez de combustíveis imposta pelos EUA − acontecem com frequência
Não se manifestam na rua, acrescenta, porque têm medo e porque quem protesta vai preso. Apesar de tudo, fala com orgulho de Fidel e do Che. Mas, como quase toda a gente, garante que desde a pandemia e, sobretudo desde há um ano, com a chegada de Trump, a vida piora todos os dias.
Nas bodegas, as sombrias lojas em que alguns bens essenciais são distribuídos a preços muito baixos, mediante a apresentação da libreta (caderneta de racionamento), as prateleiras estão praticamente vazias. E quando chega alguma coisa, logo se esgota.
No mercado livre, porém, há de tudo. Só que os preços são de tal ordem que só as propinas, as remessas de familiares emigrados ou esquemas a que só alguns têm acesso podem pagá-los.
Mesmo assim, a vida continua. No Jardim Botânico da cidade, a meio da semana, tropeça-se com uma animada cerimónia de casamento, com os noivos e duas dezenas de convidados trajados a rigor.
Já no Passeo José Martí, no coração do centro histórico, Augusto, um homem mestiço, a caminhar para velho, suplica − a palavra é dele − 200 pesos para uma pizza e diz que tem fome. Afirma que é professor de Inglês, que tem 61 anos e que ganha 2400 pesos por mês, quase metade do que Rafael, se falar verdade, recebe a arrumar carros.
Não quer falar de política, mas nega a existência de caçaroladas na área em que vive. “Isso é só no oriente da ilha, em Guantánamo. Aqui não há nada porque há muitos polícias.” Sendo certo que se veem muito poucos nas ruas, tem uma explicação simples: “Há muitos, mas andam à paisana.”
Augusto também gostava muito de Fidel. “Foi um herói e dava-nos de comer todos os meses com a libreta. Com este senhor [o atual Presidente, de quem não diz o nome], não dão nada. A libreta não serve para nada, só para uma libra [meio quilo] de arroz quando há.”
Muito perto dali, as intermináveis ruas implantadas em quadrícula pelos espanhóis estão cheias de gente que faz sala da via pública. Há quem jogue dominó, os miúdos correm ou jogam à bola, um ou outro vendedor ambulante tenta a sorte.
O dia está a acabar, a música está por todo o lado, bem alta, os adultos estão à porta, por vezes sentados, ou conversam junto às lojas do comércio informal e às bancas de frutas e legumes. Os triciclos, a pedais e a motor, serpenteiam pela rua para fugir aos buracos e às poças de água estagnada, por vezes malcheirosa. Os condutores assobiam de uma forma característica para que os deixem passar. No pasa nada.
Volta e meia, sobretudo nas esquinas, as montanhas de lixo e detritos de todo o tipo, incluindo de demolições, ocupam mais de metade das ruas. Algumas, raras, ardem em lume brando. Os poucos contentores que se veem estão semidestruídos, junto às montureiras, e não se vislumbra qualquer modalidade de recolha regular, devido à falta de combustíveis.
Dali, tudo o que não sejam latas, metais, tijolos, madeiras, plásticos ou cartões − que são recuperados a toda a hora por catadores andrajosos − só sai na pá dos bulldozers que carregam camiões de caixa aberta.
Contrariamente ao que seria de esperar, o cheiro não é nauseabundo. Os mosquitos e as ratazanas, valha-nos isso, parece que não se interessam por este tipo de materiais. Não se veem como em muitas cidades europeias. Só as moscas, gordas e lustrosas, pintam de negro, esvoaçando aos milhares, o lixo dos homens. Por sorte, gostam tanto do que ali têm que nem ligam a quem passa.
“Esto és Cuba”
No Museu Ferroviário da antiga estação, Cristina, a guia, reformada, diz que a maior parte dos cubanos não trabalha porque não quer. Ela está reformada, mas trabalha porque precisa. Mostra com orgulho a automotora elétrica que foi inaugurada pelo Comandante em 1975.
Pesarosa, comenta que as pessoas têm terra e não a cultivam, que os jovens não se interessam por nada e que “esto és Cuba”, o chavão com que todos explicam o inexplicável.
Também diz que o Comandante estaria muito triste se cá estivesse. Que o bloqueio é terrível, mas que tem de haver mudanças. Não sabe é como.
Frente à antiga estação, no recém-restaurado Mercado de los Quatro Caminos − um edifício de dois pisos, do princípio do século passado, que ocupa todo um quarteirão − vendem-se eletrodomésticos, colchões, equipamentos de ar condicionado e outras mercadorias importadas. Tudo em naves amplas, limpas e bem iluminadas. Só aceitam dólares e euros. Não se lobriga um único cliente.
Em espaços mais acanhados, umas poucas lojas só aceitam moeda nacional. À espera que uma delas reabra após o almoço, está uma mulata magra, com aspeto pobre, que entabula conversa. Tem um filho de 26 anos e vem comprar uma peça para uma torneira.
Também acha que tem de haver câmbio. “Já não se aguenta!” Ainda assim nem quer ouvir falar em Trump, nem na hipótese de os americanos voltarem para Cuba. “A mudança tem de ser feita com outro país. A China, a Turquia ou outros…” Nem sequer subtilmente pede dinheiro. A loja abre e ela despede-se carinhosamente: “Adiós, amor!” Isto também é Cuba.
Dia de mercado em Havana
Manhã de sábado e de sol no Bairro Chinês, vizinho do centro histórico. Varredores municipais e alguns moradores fazem o que podem para dar um ar apresentável às ruas. Respira-se a tranquilidade e a preguiça de um prazeroso fim de semana.
O comércio de janela, porta de casa ou vão de escada ainda não mexe. Ninguém pede dinheiro e até os rapazes dos triciclos/táxis a pedais estão a dar descanso às pernas.
No entanto, o bulício, alguma confusão mesmo, aparece subitamente. Num largo não muito grande, meio campo de futebol, delimitado em relação às ruas adjacentes por fitas amarelas da PNR (Polícia Nacional Revolucionária), movimentam-se centenas de pessoas.
Nas quatro ruas que lhe dão forma, sucedem-se as bancas de madeira, ou simples lonas no chão, cobertas de fruta e legumes e uma ou outra banca de peixe e carne. Neste caso com porcos desmanchados ao ar livre e cortados ali mesmo, em cima de cepos, com a ajuda de catanas e cutelos. No meio do largo e à sombra das árvores, algumas tendas têm roupa usada pendurada em cabides.
Só para a carne é que há filas, não muito extensas, e sobretudo para comprar aquilo que parece ser carne picada e congelada, em grandes blocos retangulares, igualmente divididos à catanada, na quantidade pedida pelo freguês.
Os preços estão afixados em cartazes e não há regateio. Nem pregões, ao contrário do que acontece quando os vendedores ambulantes, que circulam a pé ou de bicicleta, por vezes com apitos ou altifalantes para se fazerem anunciar, percorrem as ruas dos bairros populares.
Não muito longe, no bairro El Vedado – uma zona da cidade com muitos hotéis, entre eles o célebre e luxuoso Hotel Nacional, que antes da revolução albergava casinos e mafiosos −, há uma festa muito concorrida e ruidosa. Famílias inteiras, crianças e adolescentes sobem a escadaria que conduz a um amplo parque de diversões.
Funciona aos fins de semana, está a abarrotar e é explorado por uma associação que gere uma dezena e meia de locais idênticos, espalhados pela capital. Chama-se Centro Cultural Artex, mas é sobretudo uma feira popular, com música ao vivo, comida de rua e variadíssimas diversões, incluindo jogos de computador e play stations.
A entrada custa 100 pesos, menos de metade de uma cerveja, e todas as atividades são pagas a preços baixos. No entanto, está muito longe de ser acessível a todas as bolsas.
“Viva Cuba Socialista!”
Uns quarteirões acima, o Hotel Nacional – com preços a partir de cem euros por noite – destaca-se num dos pontos mais altos da cidade, com o Malecón, a famosa marginal de Havana, mesmo por baixo e uma vista soberba sobre o Atlântico. Nos vastos jardins que o envolvem, Fidel Castro e Che Guevara instalaram nos anos 60 do século passado − durante a crise dos mísseis, que quase precipitou um confronto nuclear − baterias de defesa antiaérea, uma das quais ainda lá se encontra, e infraestruturas militares subterrâneas para fazer face a um eventual ataque americano.
Por estes dias, muitos dos participantes na iniciativa Comboio Nuestra América, vindos de todo o mundo com toneladas de alimentos, medicamentos e outros bens destinados a ajudar a mitigar a crise humanitária, estão ali alojados. A solidariedade internacional é cada vez mais imperiosa, face ao aperto do garrote com que o “grande satã” está a estrangular o povo cubano, mas não é em El Vedado que mais se sente a sua falta.
E as autoridades preferem certamente que os amigos de Cuba não sejam confrontados com a pobreza e as desigualdades que a revolução, por muitas razões que possa haver, não conseguiu vencer.
Disso fala Diego, estudante universitário, ali bem perto. Quase sempre em inglês e de costas para uma câmara de videovigilância instalada em frente a uma torre de 15 ou 20 andares − onde, segundo ele, habitam cubanos endinheirados e estudantes estrangeiros −, responsabiliza “o comunismo” por quase todos os males do país.
O tema, porém, não lhe interessa. Só de passagem fala em falta de liberdade, enriquecimento de quem tem o poder, pessoas presas por protestarem na rua, culpa do Estado na escassez da produção de bens alimentares, e por aí fora.
O que lhe interessa verdadeiramente, e a isso reconduz sempre a conversa, é a mãe, doente oncológica cujos gritos ecoam na rua em que mora e que nem a morfina abafa. Mesmo assim acalma.
O problema, afirma, é que só se consegue comprar morfina com divisas. A história, a maneira como a conta, as lágrimas que lhe vêm aos olhos, pode muito bem ser verdadeira. E as divisas só as consegue com propinas dos turistas.
É por isso que estuda para ser guia turístico e é por isso que vai falando da mãe a quem pode mitigar-lhe as dores. Discretamente, porque se é apanhado a pedir ajuda, garante, é expulso da universidade.
Para a mãe, por enquanto, a solução é a morfina. Para Cuba, diz que não sabe. Mas acha que não é Donald Trump, nem “o comunismo”. No fim, pede que se reze pela mãe. Para agradecer, entrega um distintivo de prender na lapela. Tem a bandeira do país e a inscrição “Viva Cuba Socialista!”.
Durante décadas, a extrema-direita europeia ocupou um lugar relativamente marginal no sistema político. Os seus temas existiam, os seus eleitores também, mas havia um limite social claro: certas posições eram consideradas politicamente inaceitáveis. Esse limite − mais cultural do que institucional − funcionava como uma barreira simbólica à normalização dessas ideias.
É precisamente essa barreira que, segundo o cientista político Vicente Valentim, tem vindo a desaparecer. No seu livro O Fim da Vergonha (Gradiva, 2024), Valentim defende que o crescimento recente da direita radical na Europa não resulta apenas de crises económicas, da imigração ou do descontentamento social. Resulta sobretudo de uma transformação nas normas sociais que regulam o que é aceitável dizer e defender no espaço público. Quando a vergonha desaparece, certas ideias deixam de exigir justificação.
Esta mudança tem implicações profundas para a política democrática. Mas talvez em nenhum domínio elas sejam tão visíveis − e tão estratégicas − como na educação.
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A escola é sempre um campo privilegiado de disputa cultural e política. Não apenas porque forma cidadãos, mas porque define narrativas coletivas: sobre a História, a identidade nacional, os valores sociais e o lugar do indivíduo na comunidade. Quem governa a educação intervém, inevitavelmente, na forma como uma sociedade se pensa a si própria.
Nos países onde forças da direita radical chegaram ao poder ou ganharam forte influência política − da Hungria à Polónia, de Itália aos países nórdicos −, observa-se um padrão relativamente consistente de intervenção educativa. Não se trata de um modelo único, mas de uma gramática política reconhecível.
Um primeiro eixo consiste na renacionalização do currículo. A História nacional, os símbolos patrióticos e a ideia de continuidade cultural passam a ocupar um lugar central nos programas escolares. O objetivo não é apenas reforçar o conhecimento histórico, mas reconfigurar a narrativa nacional em torno de uma identidade mais homogénea e menos aberta ao pluralismo cultural.
Um segundo eixo incide sobre a contestação da educação para a cidadania crítica. Temas como igualdade de género, diversidade cultural ou direitos das minorias são frequentemente apresentados como expressão de uma suposta “ideologia” imposta pela escola. Sob o argumento da neutralidade educativa, procura-se limitar precisamente as áreas onde a escola tradicionalmente promove reflexão crítica sobre a sociedade.
Um terceiro eixo traduz-se em formas diversas de controlo cultural da instituição escolar. A família, a religião e a tradição são mobilizadas como referências normativas que devem orientar a ação educativa. Em alguns casos, isso traduz-se em reformas curriculares; noutros, em campanhas políticas contra professores, manuais escolares ou programas educativos considerados desviantes.
Importa sublinhar que estas políticas raramente se apresentam como antidemocráticas. Pelo contrário, são frequentemente justificadas em nome da liberdade, da soberania nacional ou da defesa da maioria silenciosa. O que está em causa não é a rejeição aberta da democracia, mas a redefinição das suas fronteiras culturais.
É aqui que a tese de Valentim se torna particularmente esclarecedora. Quando determinadas posições deixam de ser socialmente estigmatizadas, tornam-se politicamente mobilizáveis. A transformação das normas sociais precede e legitima a transformação das políticas públicas.
A educação torna-se então um espaço central dessa disputa. Ao reformular currículos, redefinir prioridades educativas ou questionar certos saberes, as políticas educativas contribuem para consolidar novas normas culturais. O que antes era considerado inaceitável torna-se progressivamente banal.
A História europeia mostra que a escola sempre foi um instrumento de construção nacional. Mas nas democracias contemporâneas essa função foi progressivamente equilibrada por outras dimensões: pluralismo cultural, autonomia científica, liberdade pedagógica e debate público. O risco das atuais derivações políticas não reside na valorização da identidade nacional em si mesma, mas na sua transformação em critério exclusivo de legitimidade educativa.
Há, portanto, um paradoxo importante. Políticas que se apresentam como defesa da identidade ou da liberdade podem, na prática, conduzir a uma redução do pluralismo educativo. Ao restringirem o espaço de debate sobre temas controversos, acabam por empobrecer precisamente a dimensão democrática da educação.
A questão central não é saber se a escola deve transmitir valores. Todas as escolas o fazem. A questão é saber quais valores e através de que processos. Numa sociedade democrática, esses valores não podem resultar de imposição política unilateral, mas de debate público, conhecimento científico e participação dos atores educativos.
A reflexão de Vicente Valentim ajuda-nos assim a compreender um fenómeno mais amplo: a transformação das normas sociais que estruturam o espaço político europeu. Quando a vergonha desaparece, certas ideias tornam-se politicamente disponíveis. E quando isso acontece, a escola − inevitavelmente − torna-se um dos primeiros territórios onde essa mudança se inscreve.
É por isso que as políticas educativas merecem ser observadas com particular atenção. Porque nelas se decide não apenas o que os alunos aprendem, mas também que tipo de democracia uma sociedade está disposta a ensinar às gerações futuras.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Durante muito tempo, consolidou-se uma ideia que ainda hoje condiciona a forma como muitas pessoas lidam com o crédito: a de que rever condições é algo que só faz sentido quando existe dificuldade. Como se analisar e renegociar fosse uma resposta a um problema — e não uma prática normal de gestão das finanças pessoais e familiares.
É uma perceção errada. E, em muitos casos, financeiramente penalizadora, com consequências no curto, médio e longo prazo.
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Esta ideia conduz à inação precisamente nos momentos em que existe maior margem para decidir com tranquilidade. Mantêm-se condições que poderiam ser melhoradas, não por falta de alternativas, mas por uma associação automática entre “rever” e “estar em dificuldade”. Quando, na verdade, quanto maior a estabilidade, maior a capacidade — e até a força negocial — para escolher melhor.
Se olharmos para outras decisões do dia a dia, o contraste é evidente. Ninguém estranha que se mude de fornecedor de energia, que se renegocie um contrato de telecomunicações ou que se procure um seguro mais competitivo. Pelo contrário, esse comportamento é visto como responsável. Mas, quando se trata de crédito — sobretudo crédito à habitação — instala-se frequentemente um bloqueio silencioso, sustentado por ideias como “é complicado”, “não vale a pena mexer” ou “se está tudo a correr bem, mais vale deixar estar”.
É precisamente neste “deixar estar” que começa o custo.
A ausência de dificuldade não significa ausência de oportunidade. Pelo contrário, é nos períodos de estabilidade — quando os pagamentos estão em dia e existe previsibilidade — que estão reunidas as melhores condições para analisar, comparar e melhorar. Esperar por dificuldades reduz a margem de negociação e transforma uma decisão estratégica numa reação forçada.
Na prática, rever um crédito não exige uma razão excecional. Exige contexto — e esse contexto surge com mais frequência do que se imagina. Por exemplo:
Quando já passaram vários anos desde a contratação
Quando houve alterações no rendimento ou na estabilidade profissional
Quando a estrutura familiar mudou
Quando existem vários créditos em simultâneo
Quando o contexto de taxas de juro é diferente do inicial
Situações comuns, com impacto real. Por exemplo:
Um casal que contratou crédito há alguns anos pode estar hoje a pagar mais do que o necessário, simplesmente porque nunca voltou a comparar
Alguém com crédito à habitação e crédito pessoal pode beneficiar de uma reorganização que reduza o esforço mensal
Uma família com maior estabilidade financeira pode, em alguns casos, conseguir melhores condições — mas apenas se houver iniciativa para rever
Outro dos equívocos frequentes é assumir que rever um crédito é um processo complexo ou com pouca margem de intervenção. Na realidade, existem vários elementos que podem ser analisados e ajustados:
Spread
Prazo do empréstimo
Seguros associados
Transferência de instituição
Consolidação de créditos
Naturalmente, nem tudo é negociável em todas as situações. Mas só é possível perceber o que pode ser melhorado quando se faz essa análise.
Ficar na dúvida — ou assumir que “não vale a pena” — é, na prática, uma decisão: a de continuar como está.
E é aqui que se estabelece uma diferença importante. Ter um crédito é assumir um compromisso num determinado momento. Gerir um crédito é acompanhar esse compromisso ao longo do tempo, garantindo que continua alinhado com a realidade. Quem gere questiona, compara e ajusta. Quem não gere mantém, adia e, muitas vezes, paga mais do que seria necessário.
Ter finanças com cabeça não significa esperar por sinais de dificuldade para agir. Significa reconhecer que rever faz parte de uma gestão financeira consciente e contínua — e, mais do que isso, necessária.
Significa perceber que a estabilidade não é um motivo para inação — é uma oportunidade para decidir melhor. Significa agir com margem, e não sob pressão. Significa, acima de tudo, não confundir conforto com falta de atenção.
Porque, na prática, não rever não é neutro. É uma decisão com custo — um custo que se acumula todos os meses em que nada muda.
No próximo artigo, vamos alargar esta reflexão aos serviços essenciais. Porque, muitas vezes, o maior desperdício financeiro não está nas grandes decisões, mas nas pequenas despesas que se repetem todos os meses sem serem questionadas.
E é aí que importa perceber quanto custa, afinal, não rever contratos de energia, telecomunicações e seguros — e quando é que o conforto deixa de ser conveniência para passar a ser desperdício.
Fale connosco Dúvidas, comentários ou sugestões de temas para a rubrica Finanças com cabeça podem ser enviados para nuno.godinho@rede.doutorfinancas.pt
Há guerras que terminam no campo de batalha e outras que começam precisamente aí. O conflito em torno do Irão pertence à segunda categoria. Porque mais do que uma disputa militar, aquilo que está em causa é uma reconfiguração silenciosa, mas profunda, do equilíbrio de poder no Médio Oriente.
Durante décadas, a estratégia ocidental assentou numa premissa relativamente simples: pressão económica, isolamento diplomático e, em último recurso, superioridade militar tecnológica seriam suficientes para conter Teerão. Essa premissa começa agora a revelar as suas limitações. Não por falta de capacidade de destruição, mas por ausência de capacidade de transformação. O poder e o domínio militar não mais conseguem impor o domínio político.
Os EUA e Israel demonstraram, uma vez mais, que conseguem atingir infraestruturas críticas, degradar capacidades militares e impor custos elevados ao regime iraniano. Mas isso não é o mesmo que alterar o regime. E essa distinção, que muitas vezes se perde no ruído mediático, é hoje central.
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Sem presença no terreno, sem controlo territorial, sem uma estratégia de reconstrução política, qualquer intervenção externa fica condenada a um paradoxo: pode enfraquecer o adversário militarmente, mas tende a fortalecê-lo politicamente. O Irão conhece bem essa lógica. Sobreviveu a sanções devastadoras, a isolamento internacional e a ciclos sucessivos de confrontação. E, em cada um desses momentos, conseguiu transformar pressão externa em coesão interna.
Há um elemento estrutural que explica essa resiliência: o regime iraniano não é apenas um regime político, é uma arquitetura de poder profundamente enraizada na sociedade, com múltiplos centros de influência, desde os Guardas da Revolução até às redes económicas paralelas. Destruir uma base aérea é possível. Desmontar esse sistema é outra coisa.
É neste contexto que o cenário mais incómodo para o Ocidente ganha forma. Um Irão que, apesar dos danos sofridos, emerge desta crise não derrotado, mas reafirmado. Não necessariamente mais forte em termos militares convencionais, mas mais relevante enquanto ator estratégico.
O estreito de Ormuz é a peça central desta equação. Cerca de um quinto do petróleo mundial passa por aquele corredor. A simples capacidade de o ameaçar, mesmo sem o fechar, é suficiente para influenciar mercados, pressionar economias e condicionar decisões políticas em Washington, Bruxelas ou Pequim. O Irão não precisa de vencer uma guerra para exercer poder. Basta-lhe manter a capacidade de perturbação e de resistência.
A guerra, para o Irão, nunca foi de choque, mas de resistência, uma lógica moldada por 47 anos de regime.
Ao mesmo tempo, a guerra reforça a utilidade geopolítica de Teerão para outros atores. A China vê no Irão um parceiro energético e um elemento de estabilidade relativa na sua estratégia de acesso a recursos, mas também esta guerra transformou a importância da China na região. A China sairá mais forte. A Rússia encontra ali um aliado tático num momento de confronto aberto com o Ocidente. Mesmo alguns países do golfo, apesar da rivalidade histórica, são obrigados a recalibrar a sua posição perante um regime que não desaparece.
O resultado é uma inversão subtil, mas significativa. Aquilo que começou como uma tentativa de contenção e domínio pode acabar por legitimar o Irão como potência indispensável no equilíbrio regional. Não porque seja invencível, mas porque é incontornável.
Há também uma dimensão interna que não deve ser ignorada. O regime enfrenta tensões sociais, económicas e geracionais profundas. Mas a História mostra que regimes sob ataque externo tendem a consolidar-se, não a fragmentar-se. A narrativa da resistência continua a ser um instrumento poderoso de mobilização.
E a ideia, algo peregrina, de apresentar Reza Pahlavi como o grande salvador da pátria também não reúne, até ao momento, o apoio interno necessário para sustentar uma verdadeira transformação política e social.
Tudo isto coloca o Ocidente perante um dilema estratégico clássico, mas raramente assumido: é mais fácil destruir do que substituir. E, no caso iraniano, a ausência de uma alternativa credível torna qualquer vitória militar uma espécie de vitória incompleta.
Talvez por isso a verdadeira questão não seja se o Irão sai desta guerra mais forte ou mais fraco. A questão é outra: sai mais necessário.
E, no Médio Oriente, ser necessário é muitas vezes a forma mais eficaz de poder.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Adoramos uma boa vingança. Ver a noiva, aka Beatrix Kiddo, acordar de um coma de quatro anos para ir no encalço do bando que tentou matá-la, um a um, cada luta um deleite, cada morte um gozo quase inexplicável, sempre a torcer para que aquela mulher, interpretada pela atriz Uma Thurman, exerça com triunfo a ira do Senhor. Parte da nossa satisfação está no humor com que Quentin Tarantino mistura anime, western spaguetti e samurais, mas o verdadeiro gozo… é a vingança que no-lo dá. Kill Bill, um filme de culto do início deste século.
Hamlet, O Conde de Monte Cristo, a Bíblia. Coisas terríveis acontecem a quem pratica o mal. A vingança, traduzida num sentimento de justiça, de reparação, carma que vem ensinar a lição, deixa-nos com uma satisfação, dá-nos uma boa noite de sono. Mais difíceis de entender são obras como Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, ou o filme Táxi Driver, de Martin Scorsese. Sim, falam de vinganças, mas quantas camadas ali, quantos pontos de vista, quantas sombras! Como a vida não é um filme comercial norte-americano em que o bem é o bem e o mal é o mal, vida a cores em que nada é pão, pão, queijo, queijo, partimos numa viagem pelo labirinto da vingança, esse sentimento fortíssimo e universal a que nem o Deus todo-poderoso conseguiu escapar, como bem nos mostra o Antigo Testamento.
“É a motivação principal por trás das principais formas de agressão e violência humanas, incluindo violência doméstica, violência juvenil e bullying, violência de rua e entre gangues, tiroteios em massa, motins, brutalidade policial, fogo posto, extremismo violento, terrorismo, genocídio e guerra. A vingança destrói indivíduos, famílias, relações amorosas, fortunas, comunidades, nações e impérios”, escreve James Kimmel Jr., professor de Psiquiatria na Universidade de Yale e autor do livro A Ciência da Vingança, editado em Portugal pela Saída de Emergência.
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Depois de os ataques de Israel – usando informações dos serviços secretos norte-americanos – terem matado o líder religioso Ali Khamenei, a 28 de fevereiro, o Presidente do Irão, Masoud Pezeshkian, proclamou: “A República Islâmica do Irão considera que é seu dever legítimo e de direito vingar-se dos perpetradores e mentores deste crime histórico.” E quem não entende este sentimento, ainda que não defenda o regime iraniano?
Na última batalha de D. Afonso Henriques, o Cerco de Badajoz, em 1169, o primeiro rei de Portugal sofreu um acidente e partiu o fémur, tendo sido apanhado e feito prisioneiro por conta disso. E logo as crónicas trataram de criar uma lenda que relacionava o episódio a uma praga lançada pela sua mãe. “Afonso Henriques, meu filho, prendeste-me e puseste-me a ferros. Tiraste-me a terra que me deixou o meu pai e separaste-me do meu marido. Rogo a Deus que venhas a ser preso assim como eu fui. E porque puseste ferros nos meus pés, quebradas sejam as tuas pernas com ferros. Mande Deus que isto assim seja”, teria dito D. Teresa. É apenas um mito, mas, ao menos na imaginação, o carma é mesmo tramado.
O que acontece no cérebro
“Quem semeia ventos colhe tempestades”, “quem com ferros mata com ferros morre”, “a cama que farás, nela te deitarás”, “cá se fazem, cá se pagam”, “a vingança é um prato que se serve frio”… A sabedoria popular é prolífera em garantir um carma à altura. E, no entanto…
A vingança não serve de nada, é um sentimento completamente inútil. Para o Irão, o que está em causa não é uma vingança por ter sido atacado ou por lhe terem assassinado o líder supremo, mas sim uma luta pela sobrevivência do regime, sabendo-se que os seus inimigos são tão externos como internos. Talvez por isso, os seus líderes usem tanto a palavra “vingança” – aconteceu o mesmo depois do bombardeamento de uma escola primária, que matou mais de 100 crianças –, sentimento unificador para um povo que já estava dividido antes da guerra com os EUA e Israel.
A nível pessoal, a vingança não nos enche, não nos traz qualquer plenitude, prejudica-nos – além de nos colocar em risco, porque podemos sofrer retaliações, mergulha-nos na raiva, consome-nos no ressentimento e na ruminação. Num instante, o gozo obtido esvai-se e ficamos a querer mais e mais, aquele sofrimento infligido não nos chega, não remata o caso, não repara o nosso mal-estar. Parecemos um drogado em plena ressaca, a procurar a próxima dose.
“Concluiu-se que o nosso cérebro, quando se vinga, se parece com o cérebro sob o efeito de drogas. Os ressentimentos estimulam o cérebro a desejar a vingança, assim como o stresse, a ansiedade ou a visão de objetos e locais associados ao consumo de drogas estimulam o cérebro dos viciados a desejar narcóticos. Os cientistas da adição descrevem esta aprendizagem dependente de estímulos como parte do sistema de autorregulação do cérebro, baseado no processo oponente, que procura manter o equilíbrio entre prazer (bem-estar) e dor (stresse), mediado, em parte, pela libertação do neurotransmissor dopamina”, continua James Kimmel Jr.
Parece que fazemos tudo pela dopamina, o novo petróleo da vida moderna. “Ser prejudicado ou tratado injustamente, ou sentir raiva, repugnância, culpa ou vergonha é doloroso e ativa a ‘rede de dor’ neural do cérebro – especificamente, uma estrutura cerebral chamada ínsula anterior. Conseguir uma vingança, ou mesmo fantasiar com ela, é recompensador, liberta dopamina e ativa os circuitos de prazer e recompensa do cérebro que, essencialmente, compreendem o núcleo accumbens, o estriado dorsal e a área tegmental ventral. Isto produz sensações de prazer que dissimulam temporariamente a dor, restaurando o equilíbrio. Por algum tempo”, nota o psiquiatra.
Trata-se de um efeito temporário e, tal como sucede com o álcool e as drogas, “os efeitos dissipam-se rapidamente e quase sempre levam a mais dor e sofrimento”. No entanto, o nosso cérebro só quer saber da “gratificação imediata”. Seja como for, uma coisa que não deixa de ser muito nossa, muito humana, é uma pessoa deleitar-se com a ideia de ver sofrer quem nos fez sofrer; outra coisa é passar da emoção aos atos e agir movido por esse sentimento.
O ódio e o antídoto
“O que nos trava para agir é a lei. Mas, sobretudo, a perda do amor do outro e a ameaça de culpa. Agir é sair da cena imaginária e entrar no real das consequências: prisão, exclusão, queda narcísica, retorno do ódio contra si. A fantasia preserva o gozo sem pagar o preço”, afirma Gustavo Faria, psicanalista brasileiro e professor de Literatura (ver entrevista), alertando: “A vingança, quando ruminada, vira um circuito fechado de excitação e culpa. Ela sequestra o tempo psíquico, estreita o mundo, empobrece o desejo. A mente passa a girar em torno de uma única cena: a ofensa. Isso adoece porque fixa o sujeito no lugar de objeto do trauma.”
A ruminação constante sobre algo que nos deu e para o qual esperamos a intervenção cármica, seja apenas na imaginação ou mesmo agindo em forma de vingança, mostra algo difícil de engolir: “Que ainda se está preso ao outro. Vingar-se é declarar: ‘Você ainda tem poder sobre mim.’ A verdadeira indiferença é mais rara e mais difícil do que o ódio”, conclui o psicanalista.
A indiferença, diz-se muitas vezes, é a melhor vingança. Significa que quem nos magoou já não tem absolutamente nenhum poder sobre nós – mas chegar a esse estado de superação e quase redenção requer um esforço e uma maturidade emocional que não é para todos. “Enquanto nos alimentamos do ódio e da raiva, continuamos dependentes do outro. Por isso se diz que o oposto do amor não é o ódio, é a indiferença no sentido de seguirmos em frente para o outro amor. Enquanto odiamos aquela pessoa, continuamos presos a ela”, reforça o psiquiatra Júlio Machado Vaz.
“É fascinante verificar que há pessoas em cujo equilíbrio psíquico o ódio e a raiva podem ser o motor, o combustível que as mantém verdadeiramente à tona porque têm um objetivo durante anos. Quando esse objetivo é conseguido, algumas dessas pessoas ficam profundamente desiludidas porque a vingança não lhes trouxe a pacificação que pensavam que iam ter, não lhes trouxe a satisfação sádica que eventualmente também fantasiaram. Ficam então numa situação complicada: ‘E agora? Isto tornou-se, de certa forma, o objetivo da minha vida’”, descreve o psiquiatra, que já assistiu a várias situações destas em mais de 50 anos de prática clínica.
Enquanto passamos anos a remoer, não estamos a viver plenamente, a saborear a vida. Ou, como diz uma frase muito citada nas redes sociais, o ressentimento “é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra”.
Existe um antídoto, como nota James Kimmel Jr.: “A pessoa beneficiada pelo perdão somos nós, quem foi magoado, e não quem magoou. Para alcançar os benefícios biológico-cerebrais da redução da dor e do desejo de vingança que advém do perdão, a pessoa que nos magoou é irrelevante. Não precisa de procurar, implorar ou aceitar o nosso perdão – ou sequer de ser informada dele. Os ressentimentos recordados, a dor e o desejo de vingança estão dentro do nosso cérebro. É aí que o remédio do perdão é aplicado, diretamente onde é necessário.”
No livro A Ciência da Vingança, o psiquiatra cita vários estudos com ressonâncias magnéticas, comprovando cientificamente que o perdão reduz a dor emocional, mas não só. “O perdão está também associado a pressão arterial mais baixa, a taxas reduzidas de doenças cardiovasculares, mortalidade e dor física, e a uma melhoria do sono, da resposta cardiovascular ao stresse, do funcionamento do sistema imunitário e até à satisfação com a vida (…) O perdão é grátis, está disponível sem receita médica e pode ser produzido e libertado no cérebro 24 horas por dia.”
Olho por drones
Só que as coisas não são assim tão simples na hora de, conscientemente, escolher o perdão. Isto porque a vingança é um impulso bastante complexo e muito “pintado de arquétipos culturais”, como nota Júlio Machado Vaz.
Na violência doméstica, por exemplo, “a vingança está associada a questões como o sentimento de posse e com sentimentos de inferioridade. É aquela velha frase: ‘Não és minha, mas não és mais ninguém.’ Na cabeça do homem que a levou a cabo, atentaram contra ele em camadas profundas, seja na sua honra, na sua masculinidade, o que fez com que ele se comparasse conscientemente ou inconscientemente com outros homens e se sentisse inferior. A vingança em geral é, mais uma vez, como a própria violência doméstica, uma demonstração de poder”, continua o psiquiatra.
“O carma, Deus, o destino, a sorte, etc., somos sempre nós (e eu digo nós porque, de uma maneira mais explícita ou mais implícita, todos nós o fazemos) a tentar ordenar o mundo. É muito angustiante pensarmos que não há nada verdadeiramente garantido. Ora, nessa nostalgia de pôr ordem no mundo, temos esse mecanismo de defesa que é colocar o que é mau no outro. Isso simplifica a vida e é por isso que os populistas têm o sucesso que têm. De quem é a culpa? Dos outros. Quem é que nós temos de controlar? Os outros. Ao fazer isso, todo o tipo de guerra, de violência, etc., está justificado. O que é preciso é que o outro seja o mau da fita. Ora, nós somos feitos de bem e mal, sempre”, sublinha Júlio Machado Vaz.
“Na escala dos povos, a vingança chama-se ‘honra’, ‘segurança’, ‘retaliação estratégica’. Mudam os nomes, não a lógica pulsional. A civilização tenta substituí-la por direito, tribunais, tratados. Mas quando a lei falha, o gozo arcaico retorna: olho por olho – agora com drones”, aponta Gustavo Faria.
A vingança é o “vício mais mortífero”, escreve James Kimmel Jr. Não é algo que possamos atribuir a psicopatas ou a sádicos incapazes de empatia e que gozam com o sofrimento dos outros – a vingança está em todos nós, é um vício das pessoas comuns, ajam ou não sobre ele. Caim não mata Abel por inveja – mata o irmão porque não podia matar Deus depois de o divino o ter rejeitado. Nesse ato, a vingança tornou-se hereditária, segundo a Bíblia, pois foi passando de geração em geração.
E porque estamos em época pascal, sejamos ou não crentes, atentemos no conselho de Jesus sobre quantas vezes se deve perdoar a quem nos ofendeu. “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.” “É um conselho prático, cientificamente sólido e que pode salvar vidas, visando prevenir a violência, restaurar a paz e ultrapassar o vício em vingança”, reforça James Kimmel Jr.
Que a Ciência nos ajude, então, a ultrapassar a dor.
Gustavo Faria: “A vingança é uma obra do eu civilizado, não do instinto bruto”
O psicanalista brasileiro Gustavo Faria vai direto ao ponto nesta entrevista sobre esse sentimento desassossegado e avisa: “A verdadeira indiferença é mais rara e mais difícil do que o ódio”
Por que razão adoramos histórias de vingança na literatura ou no cinema, por exemplo? Há um gozo na vingança e parece que quanto mais fria mais gozo nos dá assistir… Porque nelas o desejo não é recalcado: ele age. A vingança encena aquilo que, na vida civilizada, somos obrigados a conter. Assistir a uma vingança “fria” dá gozo porque é o espetáculo de um sujeito que não hesita, que não vacila, que não se culpa. É o sonho de uma soberania impossível: eu sofri, logo tenho o direito de ferir. No cinema, o supereu vira herói.
Do gozo do pensamento de vingança ao ato vai uma grande diferença. O que nos trava? A lei. Mas, sobretudo, a perda do amor do outro e a ameaça de culpa. Agir é sair da cena imaginária e entrar no real das consequências: prisão, exclusão, queda narcísica, retorno do ódio contra si. A fantasia preserva o gozo sem pagar o preço.
De onde vem essa pulsão de vingança? Seria ingénuo pensar apenas nos “bons” motivos, como ser feita justiça ou esperar o carma. Há aqui uma causa menos nobre, não? Do narcisismo ferido. Antes de “justiça”, é restituição de imagem: “Você diminuiu-me, agora eu diminuo-te.” É menos sobre moral e mais sobre reparar uma ferida no eu. Há algo de infantil e de cruel aí: fazer o outro sentir o que eu senti.
O que nos provoca a ruminação sobre a vingança? Pensando no livro Crime e Castigo, o que esse sentimento faz na nossa saúde mental? Raskólnikov não é consumido pelo crime, mas pelo pensamento que não para. A vingança, quando ruminada, vira um circuito fechado de excitação e culpa. Ela sequestra o tempo psíquico, estreita o mundo, empobrece o desejo. A mente passa a girar em torno de uma única cena: a ofensa. Isso adoece porque fixa o sujeito no lugar de objeto do trauma.
A vingança diz o quê sobre quem a põe em prática? Que ainda está preso ao outro. Vingar-se é declarar: “Você ainda tem poder sobre mim.” A verdadeira indiferença é mais rara e mais difícil do que o ódio.
Ela é inata ou fica refinada com o tempo? Por exemplo, numa criança a vingança seria mais uma retaliação? Na criança há retaliação: impulso, descarga, ato. A vingança exige tempo, memória, linguagem, elaboração simbólica. Ela é uma obra do eu civilizado, não do instinto bruto. É ódio com projeto.
A vingança é também coletiva (ação de um país, por exemplo). Enquanto civilização, evoluímos alguma coisa para lidar melhor com ela? Na escala dos povos, ela chama-se “honra”, “segurança”, “retaliação estratégica”. Mudam-se os nomes, não a lógica pulsional. A civilização tenta substituí-la por direito, tribunais, tratados. Mas quando a lei falha, o gozo arcaico retorna: olho por olho – agora com drones.
O nome poderá não ser conhecido do grande público, mas a história merece ser amplificada. Anas Hmedi é juiz no Tribunal de Recurso de Monastir e presidente da Associação de Magistrados Tunisinos. Nos últimos anos, tornou-se uma das vozes mais visíveis na defesa da independência judicial na Tunísia. Hoje, porém, essa visibilidade veio cobrar o seu preço: sob a acusação de “obstrução da liberdade de trabalho”, este juiz acaba de ser julgado e condenado num processo que diversas organizações internacionais não hesitam em classificar como infundado e politicamente motivado.
O julgamento — cujo início estava previsto para o final de março — surge na sequência direta de posições públicas assumidas por Hmedi enquanto dirigente associativo. Segundo a Amnistia Internacional, trata-se de um caso paradigmático de represálias, em que o juiz é processado não por atos judiciais, mas por declarações feitas em defesa da autonomia dos tribunais e contra a interferência do poder executivo.
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Mas a história começa bem antes de 2026 e ajuda a perceber por que razão um juiz se tornou problema de Estado. Em 2021, iniciou-se uma profunda alteração do sistema político tunisino que resultou numa tendência de concentração de poderes no seu presidente. Nessa sequência, no ano seguinte, foi dissolvido o Conselho Superior da Magistratura e demitidas dezenas de juízes, tendo tais decisões assentado em alegações decorrupção não concretizadas. Ora, a esta situação respondeu, de forma imediata, a Associação de Magistrados Tunisinos, liderada por Hmedi, que organizou uma greve nacional inédita, transformando a defesa da independência judicial numa causa pública.
É nesse momento que o nome de Hmedi ganha dimensão política. Não por vontade própria, mas por necessidade institucional. Como presidente da associação, passou a denunciar aquilo que considerava ser uma captura progressiva da justiça pelo poder executivo. E foi precisamente essa exposição que desencadeou a sucessão de processos que agoraculminaram no seu julgamento e condenação a um ano de prisão.
O primeiro capítulo judicial, aliás, remonta já a 2022, quando Hmedi foi interrogado várias vezes após uma greve de magistrados. Pouco depois, surgiu a acusação que agora chegou a tribunal: a de ter incitado outros juízes a aderirem à paralisação, o que as autoridades enquadraram como “obstrução da liberdade de trabalho”. Uma figura jurídica frequentemente utilizada, segundo organizações de direitos humanos, para punir protestos e greves.
Mas o caso não ficou por aí. Em dezembro de 2025, um novo processo foi aberto contra o juiz, desta vez relacionado com declarações críticas sobre decisões judiciais e sobre a atuação do Ministério da Justiça. A Comissão Internacional de Juristas não hesitou na leitura: tratava-se de “uma tentativa nua” de o silenciar e, mais amplamente, de travar o trabalho da associação que lidera.
A escalada levou o caso ao plano internacional. Em janeiro de 2026, um grupo de relatores das Nações Unidas, incluindo a responsável pela independência de juízes e advogados, Margaret Satterthwaite, manifestou preocupação com a “criminalização” das atividades de Hmedi. O princípio em causa foi enunciado de forma simples: os juízes devem poder participar no debate público sobre o funcionamento da justiça sem receio de represálias.
Também a União Internacional de Magistrados (UIM) reagiu, sublinhando que os magistrados — e em particular os representantes associativos — têm o direito e o dever de se pronunciar sobre questões que afetam a independência judicial. Aliás, a organização alertou para o efeito dissuasor destes processos, visto que não é apenas um juiz que está a ser julgado, mas toda uma magistratura que passa a medir as suas palavras.
É neste contexto que se inscreve o mais recente episódio: a tentativa de fragilização da própria Associação de Magistrados Tunisinos. Em vésperas do seu congresso de 2026, a associação foi alvo de notificações administrativas atípicas e de ameaças de suspensão. Ainda assim, os juízes avançaram com a reunião e reconduziram Hmedi na liderança, num gesto que foi simultaneamente eleitoral e político.
A cronologia revela, por isso, um padrão difícil de ignorar. Primeiro, a reforma institucional que retira independência ao sistema judicial. Depois, a contestação organizada por uma associação profissional. Seguem-se medidas disciplinares, processos judiciais e, finalmente, tentativas de neutralização da própria estrutura associativa. Não se trata, como é bom de ver, de episódios isolados, mas de etapas de um mesmo processo.
De resto, este padrão não é exclusivo da Tunísia, mas ali assume uma forma particularmente visível. Se o mais recente relatório da Liberties sobre o estado de direito na Europa chama a atenção para a utilização de mecanismos legais como instrumentos de pressão sobre juízes e instituições independentes, a diferença tunisina está na velocidade e na frontalidade com que esse processo se está a desenrolar.
O caso de Anas Hmedi é, por isso, mais do que um litígio penal. É um teste à capacidade de resistência de uma instituição, visto que estamos perante um juiz acusado, julgado e condenado por incentivar uma greve que contestava a demissão de colegas. Dito de outro modo, não se trata de um caso que versa apenas sobre a legalidade da ação em si, mas sobre a própria definição dos limites da ação coletiva dentro do sistema judicial. Aliás, quando a associação que o representa é, também ela própria, alvo de ameaças de dissolução, a questão torna-se ainda mais grave. Sem estruturas coletivas, os juízes deixam de ter voz organizada e sem voz, tornam-se mais vulneráveis, sendo que essa vulnerabilidade é campo aberto para uma justiça menos independente e mais permeável ao poder político.
No fim de contas, a imagem que fica é a de um juiz que não procurou protagonismo, mas que acabou por o assumir quando a função o exigiu e que, por isso mesmo, se tornou incómodo. O seu julgamento e o desfecho a que o mesmo chegou, já não é apenas sobre si, mas antes sobre a linha que separa a crítica legítima da punição política. É sobre o direito dos juízes a falarem da justiça sem serem julgados por isso. E é, sobretudo, sobre o risco de um país onde essa linha começa a desaparecer.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.