Gouveia e Melo, que dizia para lhe trazerem uma corda para se enforcar se alguma vez se fosse candidatar à Presidência da República, candidatou-se ao colo de um conjunto de políticos ressabiados com o seu partido. Encarnava o velho sebastianismo português e, como parece sofrer duma pulsão autoritária, acabou seduzido pela atração do poder e avançou mesmo.
Durante muito tempo, dizia-se que ganharia a eleição e logo à primeira volta. Como se viu, quando começou a ter que falar e expor o seu pensamento percebeu-se que era um vazio de ideias. Sem experiência política fez uma campanha aos ziguezagues e ficou pelo caminho.
Cotrim é o protótipo da vaidade e da autossuficiência. Apesar disso, fez uma campanha muito boa, servindo-se da sua experiência política, mas claudicou. Primeiro devido a um erro infantil relacionado com o que disse sobre a segunda volta, e depois pela suspeita de assédio sexual, uma estória com contornos muito pouco claros e que ainda vai dar que falar.
Marques Mendes – que ainda há poucos meses vencia tudo e todos – surge como o maior derrotado da noite eleitoral, mas está acompanhado por outros derrotados como Cavaco, Montenegro e o Governo, que lhe deram uma ilusão de conforto, em especial desde quando as previsões passaram a augurar reiteradamente o pior dos cenários. Venceu apenas em três concelhos do País, ficando atrás de Seguro, Ventura, Cotrim e Gouveia e Melo.
A única coisa que as pessoas mais adoram além de criar heróis é deitá-los abaixo logo na primeira oportunidade. É assim com qualquer figura pública e ainda mais na política. Se alguns destes só se podem queixar de si próprios, outros foram claramente empurrados e serão descartados rapidamente.
Ventura foi igual a si próprio, um populista da extrema-direita que prega o ódio, mente, manipula como ninguém e em vez de agregar os portugueses divide-os. Não tem o mínimo de condições para o cargo presidencial, e não respeita ninguém, nem mesmo a Constituição ou as instituições democráticas e a separação de poderes.
Seguro venceu esta primeira volta e bem. Fez uma campanha sem erros, muito sólida. Não andou a chafurdar na lama como outros concorrentes e manteve sempre uma postura de Estado. O pecado de que o acusavam, de não se comprometer com nada e dizer generalidades, é na verdade um defeito de análise.
Conhecendo os poderes presidenciais, ele sabe que o Presidente não governa, por isso não tem que estabelecer um programa de governo. O seu papel é outro e ele deixou-o bem claro apontando um conjunto de prioridades que, uma vez chegado a Belém, procurará desenvolver com o governo que estiver em funções.
Bloco, PCP e Livre queriam que Seguro dissesse “coisas de esquerda”, mas ele nunca caiu nessa armadilha, sabendo que existe hoje uma maioria sociológica de direita, por isso apelou mais ao centro. Como resultado, vai fazer o pleno dos votos da esquerda na segunda volta e conquistar parte do centro e centro-direita.
Este é um homem que, depois de ter ganho umas europeias enquanto líder do PS perdeu as diretas para António Costa. Na altura, em vez de ficar no partido a minar a nova liderança, teve a dignidade de deixar a vida política e por lá ficou durante dez anos. Agora, voltou com a legitimidade de quem sabe ganhar e perder – coisa que muitos políticos não sabem – e de quem não tem rabos-de-palha nem pode ser associado a casos de corrupção.
Avançou sem a garantia de contar com apoios partidários, reforçando a independência da sua candidatura, e em vez de fraqueza essa foi a sua força. Na segunda volta, todos sabemos que Ventura é o candidato do Chega, mas Seguro não é o candidato do PS, apesar de contar hoje com o seu apoio, assim como com o endosso de outras formações partidárias na eleição de 8 de fevereiro.
Lamenta-se que Montenegro se tenha ficado pelo exemplo de Pilatos, sem ser capaz de apoiar um democrata na segunda volta contra um populista, e um homem de estado contra um agitador. Isso só demonstra a pequenez política do nosso primeiro-ministro. Lamentável.
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