“O homem nunca deve se pôr em posição de perder o que não pode se dar ao luxo de perder”
Ernest Hemingway
A obra que dá origem a estas linhas retrata uma designada geração perdida, errante e errática, melancólica no pós-guerra, através da qual Hemingway nos conduz por Paris e Espanha.
O título que escolheu e eu aqui reproduzido é, portanto, um anacronismo face ao que ali se narra, entre o vazio existencial e touradas de morte, com muito álcool à mistura. Naquelas páginas, o Sol vai nascendo mas, por mais diversão que se procure, os dias correm devagar, como nos relógios moles de Dali, sem nada que os distinga verdadeiramente uns dos outros.
Já nestas linhas, o mesmo título é a expressão do desejo de que, no pós-tempestades, no rasto de destruição deixado, todos juntos – mas obviamente as suas vítimas em especial – consigamos encarar cada raio de sol com a esperança de que tudo, excepto a humanidade e a dignidade, se reconstroem, com maior ou menor facilidade. Apenas essas, uma vez perdidas, se revelam praticamente irreparáveis.
Quanto ao demais, com mais ou menos ajuda de um Estado que tarda em servir os seus reais propósitos e que mais não são do que assegurar a componente social, os portugueses conseguirão reconstruir aquilo que a fúria da natureza destruiu.
Já agora, fica uma palavra para outras vítimas desta tragédia em relação aos quais pouco ou ou nada se tem dito: os animais. Diga-se claramente: as principais e mais inocentes vítimas foram mesmo os animais que, uma vez mais, permaneceram presos e deixados para trás sem qualquer hipótese de se salvarem. Esta é, de facto, uma questão que, mais dia, menos dia terá que ser seriamente discutida. A forma como se normaliza deixarmos para trás animais ao menor sinal de perigo, sem sequer lhes darmos hipóteses de lutarem pela sobrevivência, revela muito sobre a falta de humanidade que nos assola.
A outra prende-se com o papel dos privados em momentos de crise e com a (falta) velocidade com que a e-redes está a conseguir ir repondo a eletricidade. Rápida na cobrança de contas, a E-redes não tem, pura e simplesmente, sabido acompanhar os esforços dos demais e, ao fim destes dias, existem locais que se mantêm sem luz sem que nos seja dada uma explicação cabal e credível do que se passa, aliás tal como ocorre com outro sistema, o SIRESP.
A bem da verdade, e por outro lado, sempre se terá que dizer que, à semelhança do que já sucedeu no passado, não se pode esperar em demasia dos apoios anunciados. Se as moratórias aparentemente oferecidas pelos bancos acabam por ter uma fatura escondida, cobrando mais tarde e mais caro o que agora afirmam oferecer, as medidas anunciadas pelo Estado deixam escapar muitos dos seus putativos alvos, ao se aplicarem apenas aos que não têm qualquer dívida.
Por outro lado, apesar da aparente simplificação dos processos comunicada e que, a concretizar-se, traria a ajuda no momento certo, não podemos ignorar que, por exemplo, existem vítimas doutras catástrofes, ocorridas há anos, que ainda hoje aguardam o apoio prometido.
Acreditar num Estado que nos falha a todo o transe é como cometer um pecado e acreditar que ele nos é perdoado apenas porque rezamos uma Avé Maria ou um Pai Nosso. As coisas não funcionam, como aliás, nunca funcionaram assim.
Contudo, as boas notícias, porque, lá está, o Sol – e tudo o que isso significa – nasce sempre, é que sempre fomos um país de gente resiliente, capaz do muito mau mas, também, do melhor e iremos reerguer-nos como sempre fizemos. Muito graças às forças de segurança e aos bombeiros mas também a gente anónima, que saiu do conforto do seu lar e deitou as mãos ao trabalho não apenas de limpar mas também de trazer o consolo a quem perdeu quase tudo, incluindo memórias de uma vida.
Penso que ninguém consegue imaginar o desespero de alguém que vê a natureza tirar-lhe tudo, mas tenho a certeza que o essencial ao ser humano é, mesmo, invisível aos olhos e é a sua integridade. Não há nada mais triste, quando não aos olhos do próprio, pelos menos aos dos terceiros, assistir ao desmascarar de um traste ou ter que viver com alguém sem caráter.
O Sol nasce sempre. Não tem que ser sempre uma festa, principalmente como as descritas no livro que dá o título, mas garante-nos que a dias piores se seguem manhãs soalheiras. Por mais que num momento de desespero possamos não acreditar, a um momento difícil segue-se sempre um melhor.
E, ainda que assim não fosse ( e é…) há uma outra realidade inultrapassável e que é o facto de muitas das pessoas que perderam quase tudo, manterem incólumes o que de maior valor carregam: a sua humanidade e a sua dignidade. E não há nada que pague isso, ainda que os apoios possam deixar de chegar e que toda a ajuda, desde que desinteressada e útil, seja bem-vinda.
Mais não se exige. Menos não se aceita.
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