Com uma voz mais suave e um tom menos agressivo do que JD Vance há um ano, Marc Rubio, o secretário de Estado norte–americano em Munique, vestindo o fato de lobo em pele de cordeiro, destapou mais uma vez toda a intenção e propósito do trumpismo para o mundo. Em vez de reformas e ajustes de políticas públicas, avisou os líderes europeus para se preparem para a destruição de tudo aquilo que julgavam ou tinham como definidor de qualquer progresso nas últimas décadas.
Estranho os aplausos que dizem ter vindo da maioria, mas é possível que tenha sido mesmo pelo tom mais cândido em detrimento do conteúdo do que ali foi proferido. Isto por si só é também bastante definidor dos dirigentes deste lado, diga-se. O discurso foi, no essencial, uma espécie de ode aos tempos do colonialismo europeu e Ocidental, aos impérios, à escravidão dos povos, salpicado sempre com um desprezo maximalista pela liberdade. Nem a ideia já recorrente de que o trumpismo vem para colonizar os países europeus através de partidos satélite como o Chega ficou de fora. O mais espantoso desta administração Trump versão 2.0 continua a ser que mês sim, mês não, tal como desde a campanha e até antes disso, diz de forma inequívoca e em qualquer palco do mundo, ao que vem.
Para ser bem-sucedida entre nós, parece que julgam bastar duas coisas essenciais na base: contar com alguma da mediocridade ignorante e reinante e que os tais partidos satélites através da Tino Chrupalla, Meloni, do Ventura, Orbán Abascal, Bardella, entre outros, repliquem de formaconstante o discurso anti-imigração e das elites contra o povo. Seja lá o que isso for num país como Portugal. Isto também acaba por mascarar o essencial de que existe um novo alinhamento entre a Rússia e os EUA através desta administração, com a pretensa de destruir a antiga ordem mundial. Diz-se em surdina que a União Europeia parece já ter começado a procurar tirar o pé e as mãos dos americanos das estruturas da NATO, preparando-se para a mobilização industrial e criando uma Europa de defesa unificada, de forma a funcionar como dissuasor numa eventual nova guerra à escala global. Essencialmente,porque ninguém sabe se voltarão a existir eleições livres e democráticas no país do tio Sam.
Estas realidades, as supostas novas movimentações e as fissuras gigantes na aliança transatlântica à vista de todos, são algo que não só é debatido de forma constante noutros países europeus, como vive da tomada de posição de grande parte dos governos. Seja num sentido ou noutro. Por mais ínvios que possam parecer e ser os caminhos para a União Europeia no apoio ou na neutralidade relativa a Donald Trump. Em Portugal, nada disto acontece no debate público e o nosso governo parece apostado emcontinuar a acreditar que o lugar mais seguro é aquele que nos mantém a meio da ponte. Estranho lugar este nos tempos que correm.
Será que ainda hesitariam entre Kamala Harris ou Trump?