Chegou o último mês do calendário gregoriano — o mês do Natal.
É a perdição dos mais pequenos, a braços com a árdua contabilidade dos dias em que se portaram bem e comeram a sopa toda, 31 dias de deve e de haver e de estudo intenso, incansável, obsessivo, páginas rabiscadas, cantinhos dobrados, um sonhar acordado debruçados sobre tantos catálogos de brinquedos quantos são possíveis acumular debaixo da almofada, como o mais precioso dos tesouros do mundo do qual não se desvia o olhar um segundo que seja.
Para os ‘crescidos’ (esse termo entre a doçura e o insulto a que os nossos filhos, sobrinhos e afilhados e similares recorrem para a nós se referirem, sempre uma pontinha de desconfiança e algum descrédito e petulância), o advento é sinónimo do mês mais longo do ano, em permanente modo de panela de pressão. São filas de trânsito intermináveis para chegar a todo o lado e mais algum, são orçamentos rebentados em porcarias que não servem para nada apesar do recorrente e inglório esforço de planeamento obsessivo, com listas imprestáveis que acabam por sucumbir ao pânico e ao fervor consumista das luzes, dos laços, do papel de embrulho.
Dezembro é o mês do overbooking por excelência: sucedem-se as festas e apresentações nas escolas, os fins de dia e de semana dedicados aos trabalhos manuais por vezes mais complexos que um caderno de encargos de um concurso público internacional, é o mês da magia: há o Pai Natal, claro, mas vai lá tirá-lo da cartola tendo apenas na mão um rolo de papel higiénico, cápsulas de Nespresso e um tubo de cola UHU. Depois há os jantares de Natal dos vários grupos de amigos, o da empresa e por vezes o dos clientes.
Já ninguém sabe a história do Menino Jesus (lá em casa, o gigantesco e incomensuravelmente kitsch presépio de Barcelos está montado todo o ano — perdemos o Gaspar, que esteve de castigo uns tempos, com o seu incenso de troika) e poucos são os resistentes que ainda dedicam estes 31 dias a ser mais generosos, solidários, grandiosos, esquecendo esses valores como quem abandona muito rapidamente aquela resolução de ano novo, ou a dieta que começa sempre na próxima segunda-feira.
Dezembro é o mês que me põe em ponto de rebuçado. O Natal é sinónimo de natalidade no meu agregado: três dos meus quatro filhos nasceram nas três primeiras semanas de Dezembro e o pai também ficou por ali entalado e esquecido em tanta festa, tanto frenesi.
Sobre viver em Dezembro: é uma bebedeira e uma ressaca a cada dia riscado do calendário, mas há mesmo qualquer coisa no ar, inexplicavelmente bela, cheia de luz (mesmo que as iluminações nas ruas de Lisboa sejam cada vez mais pífias). Andamos a fazer piscinas, cheios de gorros, cachecóis e agasalhos, e nisto o fantasma do Natal passado senta-se à nossa mesa com o do Natal futuro e transborda-nos o peito com a ínfima probabilidade de conseguirmos lançar a semente para um mundo melhor, neste mês absurdo.
Boas festas.