1. Nunca, durante estes 50 anos de eleições livres, houve uma opção importante tão nítida e clara como a que os portugueses vão fazer no próximo dia 8 de fevereiro. Porque há apenas dois candidatos em confronto para ocupar o mais alto cargo da nação, e é radicalmente diferente a forma de cada um deles pensar e agir, o perfil humano e o percurso cívico, a posição perante a anterior implacável ditadura e o 25 de Abril que a derrubou e instaurou a democracia em Portugal.
Não são comparáveis a 2.ª volta de agora com a única anterior, a das presidenciais de 1986, entre Mário Soares e Freitas do Amaral. Porque se António José Seguro se situa na linha de Mário Soares, quanto ao posicionamento político e, o que é o essencial, quanto ao indesmentível respeito pela democracia, pela defesa dos valores do 25 de Abril e dos Direitos Humanos, André Ventura não tem absolutamente nada a ver com Diogo Freitas do Amaral – em vários aspetos é mesmo o rigoroso oposto dele…
2. Com efeito, Freitas do Amaral era um democrata. E o partido que fez com Adelino Amaro da Costa, o CDS, com eles sem margem para dúvidas se afirmou de centro. “Rigorosamente ao centro”, proclamavam esses meus amigos, que sempre tiveram a justa acolhida em O Jornal, de que o primeiro foi colaborador permanente, enquanto Diogo foi colunista aqui da Visão.
Não esqueço, claro, as circunstâncias do tempo, em que o agora tão invocado à direita, amiúde abusivamente, Sá Carneiro, e o seu PPD, tinham um programa de inquestionável esquerda, que hoje seria até acusada de “radical”… Mas, para lá dessas circunstâncias, Diogo era mesmo de centro/centro-direita, um conservador à inglesa; e o Adelino um liberal – ambos convictos católicos, defensores da doutrina social da Igreja, democratas.
Concretizando mais, para realçar as diferenças em relação a Ventura e o facto da opção ser agora nítida e clara como nunca: Freitas do Amaral era um político sério, educado, muito institucional; respeitava os adversários, não os insultava: não mentia sistematicamente; procurava fazer, de acordo com a sua ideologia e à sua maneira, pedagogia cívica, nunca disse que o país precisava de um Salazar (“três” Salazares, aliás…); nunca pôs em causa, antes elogiava, o 25 de Abril; sempre se caracterizou por posições ponderadas e tendencialmente agregadoras, nunca por um discurso fomentador do ódio, mormente racista e xenófobo…
3. Reconhecendo-o, já centenas de figuras, incluindo destacadas personalidades políticas não socialistas ou mesmo assumidamente de direita, que na 1.ª volta apoiaram outros candidatos, vieram manifestar o seu apoio a António José Seguro. Como é natural: face ao crescente ascenso de Ventura/Chega e do que representam, como já aqui escrevi neste momento a primeira e fundamental clivagem em Portugal não é entre esquerda e direita, entre partidos que se reclamam de diferentes ideologias, mas entre quem respeita e defende o regime democrático e quem viola as suas regras, o ameaça e põe em perigo. E nessa defesa têm especial responsabilidade os dois principais partidos nacionais, PSD e PS, com tal objetivo devendo entenderem-se e quando indispensável conjugarem a sua ação.
A esta luz, e não só, é política, democrática e eticamente incompreensível, lamentável, a posição do presidente do PSD, Luís Montenegro, na própria noite da 1.ª volta das eleições, ao declarar que ele e o partido não apoiariam nem Seguro nem Ventura na 2.ª, porque nenhum deles era do seu “espaço político”. Claro que tal posição só se compreende, mas não se justifica, do ponto de vista estrita e estreitamente político ou politiqueiro, e de curto prazo: o interesse do Governo na possível aprovação pelo Chega no Parlamento de propostas suas – como aconteceu até agora, mas com propostas que até satisfazem a sua agenda, como aconteceu com as relativas à imigração e à nacionalidade.
Ou seja: Montenegro abdicou de, ou violou, princípios essenciais em favor de hipotéticos benefícios imediatos; contribuiu para a normalização e eventual crescimento do Chega – em prejuízo do PSD e de si próprio, pois quanto maior for a votação de Ventura mais este se arroga ser o líder da direita/extrema-direita; faltou à verdade ou pelo menos não foi rigoroso quanto ao “espaço político” (que não é a mesma coisa que “partido”): o de Seguro é o da social-democracia, exatamente o de que o PSD se reclama, enquanto o de Ventura é a extrema-direita.
4. Ao antes dito, muito se pode acrescentar. Por exemplo: a) ao tomar aquela posição logo a seguir a serem conhecidos os resultados, e por isso sem ouvir a direção do partido, dá uma ideia de pouca democraticidade interna e b) de incompetência política, pois o que deveria dizer era que o partido tomaria posição se e quando o entendesse, não ali no “quente” da noite eleitoral; c) colocou Marques Mendes em má posição, pois terá sido por isso que ele declarou então o mesmo que Montenegro – mas tendo já, entretanto, manifestado o apoio a Seguro; d) terá assim forçado os membros do seu Governo a tomarem posição idêntica à sua (só assim compreendo, ou não terá sido por isso?, um ministro como Castro Almeida a tomá-la…).
Mais: como primeiro-ministro, mesmo para lá do posicionamento político, é para Montenegro igual ter como Presidente Seguro ou Ventura? Será que nem se lembra que o Chega nas últimas legislativas espalhou por todo o País cartazes em que na prática o acusava de corrupção – cartazes, em meu juízo gravemente difamatórios, com a palavra “corrupção” em destaque, tendo Ventura em cima, a apontar para as fotos de Montenegro e Sócrates em baixo…
Felizmente, para bem da credibilidade e dignidade do nosso regime democrático, e do próprio PSD, já muitas das suas figuras mais destacadas vieram tomar posição, apoiando Seguro. Logo a começar por Pedro Duarte e Poiares Maduro, a que se seguiram muitos outros, como Carlos Moedas, e entre os quais, por todas as razões, se deve salientar Cavaco Silva. Enquanto no CDS (que hoje não tem nada a ver com o de Freitas e Amaro da Costa), cuja direção tomou uma posição igual à de Montenegro, o que eventualmente resta da “honra do convento” foi salva pelas declarações dos seus antigos presidentes Ribeiro e Castro, Assunção Cristas, Francisco Rodrigues dos Santos e Paulo Portas.
5. Tenho a convicção de que Gouveia e Melo, que até agora (2.ª feira, 26) não tomou posição, acabará por vir publicamente apoiar Seguro, como se lhe impõe em coerência com o que defendeu durante a campanha e se quiser continuar uma intervenção política.
E termino com um “caso” diferente, muito particular: o de Cotrim Figueiredo e da IL. A Cotrim, cujos atributos já aqui referi, não sei – e ele próprio disse não saber… – o que “lhe passou pela cabeça”, no final da campanha, ao não afastar a possibilidade de numa 2.ª volta apoiar Ventura. Mas na noite eleitoral também não a afastou e só mais tarde, numa declaração ambígua, veio dizer que não votaria nele: poderá abster-se ou votar em branco?… Isto enquanto os principais dirigentes da IL vieram afirmar que votariam Seguro.
Conhecidos os resultados do sufrágio, Cotrim declarou que assumia pessoalmente a “derrota”, de facto uma forma de assumir pessoalmente a “vitória”, que sem dúvida teve… E ele, militante e deputado europeu da IL, de que foi primeiro presidente e deixou de ser sem se perceber bem porquê (pode ser que agora se venha a perceber) anunciou a criação de um “movimento cívico-político apartidário” chamado “Movimento 2031”. O que é bastante insólito, para não dizer outra coisa, e que pelo “2031”, ano das presidenciais seguintes, parece indiciar que tal movimento se destinará a começar a preparar desde já, a cinco anos de distância a sua candidatura! Que sentido faz tudo isto?