A promessa era ambiciosa. Fazer futurologia, de base científica, e responder à pergunta: Como será o mundo daqui a 100 anos. Na Fundação Champalimaud, durante dois dias, juntaram-se vários laureados com o prémio Nobel – da Paz, da Medicina e da Biologia – o inventor da world wide web, ex-presidentes da república. Uma misturada de pensadores que no edifício cinematográfico, praticamente em cima do Tejo, transportou a plateia até ao mundo dos nossos bisnetos. Um tempo em que a investigação fundamental será a principal aposta, o paciente será visto como um cliente e em que as decisões políticas serão orientadas pela ciência de qualidade, onde será possível curar o cancro, mas as doenças infecciosas continuarão a existir. A terapia genética irá oferecer tratamentos verdadeiramente personalizados e curativos para doenças como a infeção por HIV. Um tempo em que a gestão e tratamento de dados será um dos maiores desafios – “daqui a 100 anos, precisaremos de 12 planetas Júpiter para armazenar toda a informação produzida” – avançou Atul Butte, da Universidade da Califórnia, o investigador com um perfil raro, combinando o conhecimento da medicina com as ciências da comunicação. Mas é precisamente desta missão impossível, de organizar e gerir yottabytes (24 zeros) de dados que sairá a cura do cancro ou a descoberta de vida extraterrestre. Dados que devem ser partilhados livremente, defende o investigador. “Com o acesso livre, vão surgir empresas de biotecnologia em garagens”, brincou, numa alusão ao aparecimento de empresas de tecnologia, como a Microsoft ou o Facebook. O que o Butte quer dizer com esta brincadeira é que bastará combinar o conhecimento já recolhido para encontrar as soluções para as principais questões da humanidade. “A democratização dos dados irá democratizar a inovação biomédica. Teremos menos privacidade, é certo. O mundo inteiro estará a ser estudado continuamente. Mas também teremos menos preocupações relativamente a isso,” antecipou. Medicamentos para compensar a poluição atmosférica e a esperança de vida a aumentar continuamente. Mantendo-se no entanto o fosso entre ricos e pobres. “O status socioeconómico ainda é determinante.”
Com uma bela cabeleira branca e o irrepreensível sotaque britânico, Gerry Gilmore, professor de filosofia experimental na Universidade de Cambridge, deixou a plateia colada à cadeira, provando que é possível deixar centenas de pessoas, com interesses muito diversos, a vibrar com um assunto que envolve energia negra, partículas invisíveis e muitas questões por resolver. Numa viagem de 15 minutos, explicou a origem e previu o fim do nosso Universo (porque haverá outros, muitos mais, assegura), numa narrativa fluida e ilustrada com belíssimas imagens do espaço profundo. Uma história com final não muito feliz: uma única partícula, numa “solidão extrema.” Dizer que a assistência ficou eletrizada será pouco para descrever o estado de excitação de quem o ouviu.
Depois de dormir sobre o assunto, pus-me a avaliar friamente aquele evento de uma opulência rara, em conferências abertas ao público. Que impacto teria verdadeiramente na ciência que se faz em Portugal? Que validade terão as previsões apresentadas naquele auditório futurista, quando a História já nos mostrou que, apesar dos tiros certeiros de Júlio Verne ou George Orwell, a realidade, mesmo a científica, é errática? Num país em crise, com falta de dinheiro para tudo, incluindo a Ciência, não faria mais sentido pegar nos milhares gastos a trazer a Portugal a crème de la crème dos conferencistas e apoiar mais uns projetos de investigação?
Dúvidas descabidas. Afinal, o sonho não tem preço.