“Choveu durante quatro anos, onze meses e dois dias. Houve épocas de chuvisco, em que toda a gente pôs a sua roupa de domingo e compôs uma cara de convalescente para festejar a estiagem, mas logo se acostumaram a interpretar as pausas como anúncios de recrudescimento. O céu desmoronou-se em tempestades descomunais e o norte mandava furacões que destelhavam as casas, derrubavam as paredes e arrancavam pela raiz os últimos talos das plantações.”
Assim começa um dos últimos capítulos do imortal romance de Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão, onde se descreve o dilúvio bíblico que se abateu sobre Macondo, a cidade imaginária onde se centra a trama. “O mal era que a chuva atrapalhava tudo e, nas máquinas mais áridas, brotavam flores por entre as engrenagens se não fossem lubrificadas de três em três dias, enferrujavam-se os fios dos brocados e nasciam algas de açafrão na roupa molhada. A atmosfera estava tão húmida que os peixes poderiam entrar pelas portas e sair pelas janelas, navegando no ar dos aposentos.” O realismo mágico de Gabriel García Márquez, Prémio Nobel da Literatura em 1982, surpreende pela ousadia, pela imaginação e pela hipérbole irresistível, e dele muito me lembrei nas últimas semanas de comboios de tempestades e de rios atmosféricos que nos infernizaram a vida.
Não me lembrei apenas deste trecho da sua obra-prima mais celebrada, mas do comentário que, a propósito do título que escolheu para o seu romance, o escritor deixou para a posteridade, numa das suas entrevistas. Oiçamo-lo a bater no ponto que mais interessa: “De Cem Anos de Solidão, escreveram-se toneladas e toneladas de papel, disseram-se coisas absurdas, coisas importantes, coisas transcendentes, mas ninguém tocou o ponto que a mim mais me interessava, ao escrever o livro, e que é a ideia de que a solidão é o contrário da solidariedade. Creio que é essa a essência do livro e creio que, aqui, existe um conceito político: a solidão considerada como a negação da solidariedade é um conceito político. E é um conceito político importante.”
O abandono de regiões deprimidas, ou mesmo não tão deprimidas assim, primeiro vítimas de incêndios, depois de vendavais, finalmente, de inundações, é uma falha política que não compromete apenas este Governo, mas vários governos em décadas de incúria e esquecimento. Em 2001, o repórter Luís Ribeiro, então jornalista da VISÃO, fazia, no Mondego, uma impressiva reportagem em que se apontava o dedo a todas as falhas que, se fossem corrigidas, podiam mitigar futuras catástrofes. Passaram 25 anos. Um quarto de século. Nada foi feito.
Essa solidão tem sido, por estes dias, combatida com o seu oposto: a solidariedade entre populações, o esforço de bombeiros e autoridades e a abnegação de autarcas foram fatores a dar força ao argumento de Márquez: há um conceito político em tudo isto.
E o Governo? O comportamento do Governo teve várias fases, entre a tempestade Kristin, que arrasou, como um furacão,grande parte do centro litoral do País, atingindo, em força, o distrito de Leiria e lambendo, com rastos de destruição, os distritos de Santarém, Coimbra e Castelo Branco, e as sequelas das tempestades Leonardo e Marta, com as inundações generalizadas, com epicentro em Coimbra. Pelo meio, o primeiro-ministro viu-se a braços com a inopinada demissão da ministra da Administração Interna que, bem vistas as coisas, terá recebido com alívio. Aliás, ao assumir ele próprio a pasta, dá um sinal de liderança e de autoridade de que bem precisada está uma Proteção Civil balcanizada e entregue a várias tutelas e inúmeras capelinhas. Após uma primeira atitude de inação total, na madrugada de impacto da Kristin, o Governo, estremunhado, despertou da sua sonolência, para acudir, com um pacote de 15 medidas de apoio às vítimas, empresas e particulares, que se espalhavam por uma vasta região e já não só por zonas deprimidas. O cataclismo tinha atingido importantes zonas de grande densidade urbana e dinamismo económico, afetando mais de um milhão de… eleitores.
É verdade que, do mal o menos, surgirá uma espécie de “economia de guerra”, com grande dinamismo no setor das obras públicas e da construção civil, a puxar o País para a frente, mas nada, nestas atividades, corresponde a “bens transacionáveis”
Quando começam as inundações, o Executivo já não é apanhado desprevenido. Primeiro-ministro e alguns ministros, destacando-se, com assinalável dinamismo, o ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, demandaram a região, cancelando a presença em compromissos internacionais – um retiro de primeiros-ministros europeus – e nacionais (um debate quinzenal duas vezes adiado), para estarem a tempo inteiro no terreno e junto das populações. Longe ia o tempo da luzidia comitiva de carros de topo de gama a atravessar a zona devastada de Leiria… Passando a trabalhar lado a lado com a autarca Ana Abrunhosa, que tem experiência governativa e conhece, como poucos políticos, as realidades do País fora de Lisboa e do Porto, o Governo deu sinal de estar, finalmente, no comando das operações, tendo, ao mesmo tempo, a humildade de delegar as decisões mais importantes à autarquia, sempre munida de competentes planos de contingência. A solidariedade sobrepunha-se à solidão.
Mas agora, há várias ilações a tirar. Em primeiro lugar, as 15 medidas para as vítimas da Kristin são, apenas, um começo de conversa. O chefe do Governo já fala de um PRR interno, ou um “plano Marshall”, como sugeriu o almirante Gouveia e Melo, para a recuperação e a reconstrução do País. Do País, e não apenas do terço do País mais devastado pelas calamidades: basta circular pelas nossas estradas e por ruas das nossas cidades, vilas e aldeias, a começar na capital e a acabar na martirizada zona do Oeste, para se perceber a dimensão de estragos menos mediáticos e, portanto, menos no centro das atenções das televisões: estradas esburacadas ou esventradas, infraestruturas caídas, campos de cultivo irrecuperáveis para as campanhas deste ano.
Os eventos meteorológicos terão efeitos imediatos no PIB e nas exportações, a começar nos produtos agrícolas e nos manufaturados em pequenas e médias empresas, no turismo e na restauração. É verdade que, do mal o menos, surgirá uma espécie de “economia de guerra”, com grande dinamismo no setor das obras públicas e da construção civil, a puxar o País para a frente, mas nada nestas atividades corresponde aos famosos “bens transacionáveis” que poderiam dar-nos competitividade externa. A dimensão dos gastos em investimento público, independentemente dos apoios europeus, pode afetar as metas do défice. E as consequências do clima podem representar, em contexto de incerteza internacional, perante a urgência em executar os projetos do PRR europeu, face às exigências do maior investimento na Defesa e tendo em conta as leis da imigração – ou a pressão da necessidade de mais imigrantes e os correspondentes choques sociais e populistas –, uma total reconfiguração do País e do seu modelo de desenvolvimento, partindo do princípio de que existe um.
Esta é a hora de unir esforços e de repensar Portugal. Para que o País não seja votado a mais “cem anos de solidão”.