Azona Centro do País, em especial o distrito de Leiria, e a própria bela e próspera cidade capital de distrito, é uma zona de guerra. O que a tempestade Kristin provocou foi um verdadeiro bombardeamento, que não poupou ruas, estradas, casas, escolas, prédios, fábricas e até uma base aérea (Monte Real), que ficou inoperacional. A devastação é total e o pinhal de Leiria parece ter sido varrido por uma motosserra gigante. Nos dias seguintes à catástrofe, era ver homens e mulheres, em cima de telhados, a tentar atamancar, portões e vedações destruídas, telhados e coberturas pelos ares, água, energia e telecomunicações cortadas por tempo indefinido, supermercados – os poucos abertos – em racionamento rigoroso, filas gigantescas para abastecimento de combustível. Idosos em aldeias isoladas sem ajuda, energia, telemóvel nem medicamentos, famílias sem abrigo, expostas à intempérie. Centenas de voluntários abriram pontos de abastecimento, bombeiros trabalharam dia e noite, sob a coordenação deficiente de uma proteção civil cujo comando, mais uma vez, deu sinal de ineficácia. De um momento para o outro, as telhas, as simples telhas de barro, passaram a ser um bem raro e procurado. Mais do que as telhas, alguém que soubesse montá-las. Em telhados escorregadios, pelo menos duas pessoas perderam a vida, depois de quedas de dez e mais metros, e centenas de outras, feridas, foram assistidas em hospitais. O eixo da cintura industrial de Leiria, Cruz da Légua, Porto de Mós, Martingança, é a capital nacional das cerâmicas, com dezenas de fábricas a produzir tijolos e todos os tipos de telhas. Dir-se-ia, portanto, que, a acontecer, a tempestade aconteceu no sítio certo. Puro engano: os cortes de energia e a destruição de instalações paralisaram as fábricas. De repente, nas redes sociais, multiplicaram-se as ofertas de particulares e de empresas, em todo o País, com milhares de telhas disponíveis para oferecer. Era preciso que alguém fosse buscá-las.
Este exemplo comezinho é o primeiro que ilustra a falta de competência e de imaginação do poder central. Alguém devia monitorizar, ao instante, todas estas ofertas e mobilizar os camiões do Exército para a recolha de telhas em todo o País. E o Estado, tão lesto a decretar estados de exceção desnecessários, durante a pandemia, não pensou que, agora sim, se justificava um estado de exceção que permitisse a requisição civil de todos os transportes de mercadorias disponíveis, além das empresas de construção civil, para esta missão urgente. Bem como a montagem, não de hospitais de campanha, mas de acampamentos para albergar e alimentar os operários mobilizados, ao abrigo desse estado de exceção, em todo o País, para a tarefa.
E esta foi a falha no socorro. A outra falha foi a da prevenção. O IPMA acertou em cheio na sua previsão. Naquela noite, viriam ventos com rajadas próximas dos 200 quilómetros por hora. Este aviso foi obviamente negligenciado pelas autoridades, a começar pelo Governo. Ventos destas dimensões provocam um desastre absoluto em edificações e vias de comunicação. É verdade que ninguém, a não ser as populações da área atingida, percebeu a dimensão da tragédia, logo à primeira. Não havia comunicações nem imagens. Só pouco a pouco o País se apercebeu de que o fenómeno não se reduziu, como é hábito, à mera queda de árvores. Mas o Governo tinha de estar lá… de véspera! A postos. Munido de um plano. Não esteve.
Estes dois momentos, o da prevenção e o do socorro, definem um padrão: um Estado lento, um Governo adormecido e confiante nos brandos elementos (além da alegada brandura dos costumes…) que abençoam este País. Muitas vezes, as previsões não se confirmam, em todo o seu pessimismo. As tempestades costumam abrandar antes de atingir terra firme. Talvez não fosse nada.
O terceiro momento é o das medidas. Na sequência do Conselho de Ministros de domingo passado, Luís Montenegro procura retomar a iniciativa. Entre as 15 medidas, há algumas verdadeiramente interessantes: um cheque de dois mil euros para reconstrução de habitação (normalmente, as coberturas) mediante o simples preenchimento de um formulário e o dinheiro na mão no espaço de uma semana. Pouco mais de mil euros de ajuda para cada agregado familiar que, temporariamente, tenha ficado sem emprego. Desburocratização da ajuda, mediante dispensa de licenciamentos vários para a construção, nas zonas atingidas. Moratórias fiscais e bancárias. Layoff simplificado, como na pandemia. Uma linha de crédito especial, que pode ir até um milhão de euros por empresa, para a recuperação da laboração.
O pacote é minucioso, mas está dependente da sua execução e da respetiva rapidez. A juzante, o ministro da Coesão anuncia a articulação com as seguradoras – em muitos casos dispensam-se as peritagens… – e com as principais empresas de construção civil do País. A ideia do candidato presidencial António José Seguro, que sugere um prolongamento dos prazos do PRR para libertar as construtoras adjudicadas a projetos contemplados no programa, pode ser aplicado de outra maneira, caso Bruxelas não prolongue esses prazos: os contratos de execução podem ser assinados, mas a respetiva execução, no terreno, pode ser adiada.
Sob crítica dos partidos da oposição e a fustigação constante de um líder partidário no terreno, André Ventura, o Governo de Luís Montenegro depende, agora, da sua própria eficácia. Na verdade, este é um teste que definirá o futuro político de um primeiro-ministro. As feridas abertas pela Kristin não passam, como as dos incêndios em zonas rurais, com a mudança dos ciclos e das estações do ano. A catástrofe atingiu zonas urbanas altamente densificadas. Isto é um desastre humanitário.
É por isso que, sejamos francos, o Governo pode ainda não ter percebido o que aconteceu no País. Estas 15 medidas são, apenas, um bom começo de conversa. Mas nada mais do que isso. Vamos precisar de muito mais dinheiro e, sobretudo, de materiais, pessoas e serviços onde o dinheiro possa ser gasto. Não chegámos ainda ao ponto da distribuição de cheques “por helicóptero”, mas podemos ter de lá chegar. A esta hora, Luís Montenegro já devia ter trazido a Leiria os comissários europeus que podem ajudar e tomar decisões. Devia estar entre São Bento e Bruxelas, todos os dias. Devia ter um “gabinete de guerra” 24 sobre 24 horas, a trabalhar num quartel-general montado, algures, no terreno. E devia atribuir a quem sabe a gigantesca operação logística necessária: sim, às Forças Armadas. No limite, se não sabem fazer, entreguem isto a um almirante Gouveia e Melo qualquer.
PS – A alma gémea de Ventura.
Na semana passada, titulei este espaço com a frase “José Sócrates, a alma gémea de André Ventura”. Recebi diversos feedbacks, de vários leitores, bastante perplexos, não com o conteúdo do texto, mas, mais precisamente, com o título que escolhi. Na verdade, a frase era hiperbólica, uma caricatura, e pretendia confrontar André Ventura com as suas contradições. De facto, é bastante curioso que um político que baseia boa parte da sua mensagem na denúncia da figura de José Sócrates tenha traços de carácter tão parecidos com os do ex-primeiro-ministro. O artigo debruçava-se, exclusivamente, sobre a forma epidérmica como um e outro lidam com os jornalistas e como interpretam o papel da comunicação social. O título podia ser, talvez mais rigorosamente, “Sócrates e Ventura, a mesma luta”. “Almas gémeas” talvez seja esticar demais. Por enquanto.