“O que nos falta é o que chamaria de ‘espanto político’. Aqui, as coisas espantosas deixaram de espantar”. O aqui é o Brasil e o agora o ano de 1967. Mas as coisas mais extraordinárias que são escritas não têm tempo nem lugar. E é, por isso, que ao tropeçar nesta frase de Nelson Rodrigues, ela me parece respirar ao meu lado, acabada de escrever, ainda secando a tinta. O que nos falta é “espanto político”. Diria que nos falta espanto, espanto em geral, espanto do que nos faz parar diante de uma pedra, do que nos paralisa de admiração perante o azul do céu. Mas não é disso que trata esta crónica. E o que aqui vai mesmo bem é esta falta de “espanto político”.
O “espanto político” é o contrário da indignação. A indignação é um chão onde não cresce nada. Uma cinza de ódio queimado. O “espanto político” é o que nos faz olhar para as coisas, olhar e ver e perceber que há ali alguma coisa a fazer. E fazê-la.
A primavera está fria e molhada. Enquanto me aproximo do centro comercial, enrolada na écharpe, segurando com força o chapéu de chuva barato que ameaça quebrar-se, começo a ouvir a música que sai muito alta de uma pequena coluna, escondida atrás da fila das bicicletas das entregas da Uber. “Agora não, que me dói a barriga/ Agora não, dizem que vai chover/ Agora não, que joga o Benfica/ E eu tenho mais que fazer”, canta a Ana Bacalhau.
Eles são poucos, menos de dez, com bandeiras e panfletos. Mas não lhes dói a barriga nem se assustam porque está a chover. E está a chover. São trabalhadores do comércio que distribuem panfletos, contando como o Auchan lhes mudou as folgas para coincidir com o encerramento da loja no domingo de Páscoa e, assim, lhes subtraiu um dia de descanso, para acrescentar uns euros ao seu lucro.
O facto de ali estarem é já uma homenagem ao “espanto político”. E alguma coisa me anima, num mundo que vai aumentando as doses do grotesco até à saturação da indignação e daí à indiferença.
Chego a casa e um áudio num WhatsApp conta-me como estão encurraladas milhares de pessoas em Rafah, Gaza, atacadas, no sítio para onde fugiram. “Uma guerra de extermínio”, diz a Aljazeera, que cita a UNICEF para lembrar que desde 2 de março que não entra qualquer ajuda humanitária num território onde se estima estar um milhão de crianças em sofrimento extremo. A que espanto nos devia levar esta informação?
Abro o Instagram. Um grupo de mulheres esbeltas, em fatos brilhantes azuis colados ao corpo, posa ao lado de um milionário careca de meia-idade que lhes financiou uma ida de muitos milhões e poucos minutos ao espaço. Acabadas de aterrar, beijam o chão e dizem frases desconchavadas de terceira categoria sobre como todos podemos atingir os nossos sonhos ou sobre como aquela subida aos céus foi intensa e emocional.
E talvez isto espante alguns, mas não sei se o suficiente para perceber a que ponto o careca milionário não gastou todos os milhões que a ida aos céus lhe custou, mas antes os investiu na nossa doutrinação. Para que não restem dúvidas de que o dinheiro tudo compra e de que até um careca de meia-idade se torna um Deus, com o número certo de zeros nas contas.
Mas mais importante do que isso: com esta pequena jogada, ele atordoa-nos e afasta-nos de qualquer possibilidade “espanto político”. As atoardas bacocas das mulheres vindas do espaço são a forma que estes todo-poderosos encontraram para nos dominar: acreditem, que todos conseguem, é só a dose certa de esforço.
E o esforço tem de ser celebrado como se fosse divino, mas só o esforço que rende milhões e nunca o suor dos que trabalham, dos que se levantam de madrugada e andam de transportes, dos que passam o dia sentados no escritório ou a ganhar varizes de pé atrás do balcão da loja. Quem alcança todo esse sucesso não merece ser castigado com impostos ou obrigações para com os outros milhões de falhados que não conseguem lá chegar.
Paralisados pelas ideias da autoajuda, limitados pela crença de que só as nossas crenças nos limitam, anestesiados pela indignação amorfa das redes sociais, incapazes de interrogação e “espanto político”, deixamo-nos domar. Estamos domesticados e incapazes de reivindicar. Estamos domesticados e incapazes de imaginar. Porque só “espanto político” nos pode fazer ver o mundo como ele é e ser capazes de exigir que ele seja como imaginamos que devia ser.