Os influencers são vistos, tal como o conceito indica, como personalidades que influenciam pessoas a tomarem decisões, sejam elas adquirirem serviços ou produtos. No caso concreto do fitness, os influencers tendem a partilhar conteúdo relacionado com a prática de exercício físico, nutrição, estilos de vida saudáveis e abordam inclusive temas relacionados com a medicina. Neste sentido, assume-se que eles têm um papel importante na promoção de comportamentos saudáveis. Porém, não é isso que os dados indicam.
Considerando o crescimento em número de influencers e de temas abordados associados à saúde, investigadores de diversos países interessaram-se por compreender o papel que os influencers têm na promoção de comportamentos saudáveis e ativos. Investigadores do Brasil, em 2021, quiseram analisar se as informações sobre exercício e saúde publicadas por influenciadores populares brasileiros no Instagram eram precisas do ponto de vista técnico-científico. Ao todo, eles analisaram 33 perfis de fitness influencers com uma média superior a um milhão de seguidores, que totalizavam um alcance médio de 30 milhões de contas. Avaliaram as 15 publicações mais recentes de cada fitness influencer, tendo por base tópicos como medicina, nutrição, exercício físico, fitness e bem-estar, num total de 495 publicações no Instagram. Os resultados mostraram que sensivelmente 25% dos fitness influencers não possui habilitação profissional para abordar os temas que são partilhados pelos mesmos. Igualmente, os investigadores descobriram que nem sequer 3% do conteúdo partilhado é suportado por evidências científicas, sendo o restante opiniões, experiências ou estratégias de marketing de venda de produtos ou serviços. Das 495 publicações feitas no Instagram pelos fitness influencers, apenas 13 continham referências científicas que suportavam as afirmações dos influencers. Ao contrário, 400 publicações não as tinham e 82 tinham citações que não corroboravam a informação partilhada. Um dos resultados finais destacados foi que “a desinformação divulgada pelos influenciadores sobre exercício e saúde pode impactar negativamente a qualidade de vida de muitas pessoas, levando a comportamentos prejudiciais”.
Em 2020, investigadores britânicos tiveram como objetivo de estudo analisar a credibilidade dos fitness influencers do Reino Unido que abordam a gestão de peso. O estudo utilizou uma amostra de nove influenciadores das redes sociais com verificação de “blue-tick” em pelo menos duas e que mantinham um blogue ativo sobre gestão de peso. Foram analisadas as dez receitas de refeições mais recentes de cada blogue, comparando-as com as metas de calorias do serviço nacional da Inglaterra e o esquema de rotulagem alimentar do Reino Unido para avaliar a qualidade nutricional. Os resultados do estudo mostraram que as percentagens de credibilidade dos blogues dos influenciadores variavam entre 23% e 85%, com o maior percentual a pertencer a um nutricionista registado. Além disso, a análise revelou que, em geral, o conteúdo partilhado por estes influenciadores pode não ser fidedigno para recursos de gestão de peso. Os resultados mostraram que a maioria das receitas apresentadas pelos influenciadores não atendia adequadamente a essas diretrizes nutricionais. Especificamente, as receitas frequentemente apresentaram um número elevado de “luzes vermelhas” em relação ao teor de gordura ou gordura saturada, indicando que muitas excediam as recomendações para esse nutriente. Apenas um influencer forneceu informações nutricionais detalhadas, o que sugere que a exibição de informações sobre calorias e nutrientes nas redes sociais, em matéria de gestão de peso, pode ser inadequada.
Um terceiro estudo realizado por investigadores franceses, em 2021 teve como objetivo investigar a relação entre o consumo de vídeos de fitness no YouTube e as intenções de exercício dos espectadores. A amostra era composta por 275 participantes, em que mais da metade afirmou que realiza algum tipo de exercício físico, enquanto os restantes não se exercitam. Os resultados indicaram que os espectadores que não praticavam exercício físico estavam motivados a assistir a vídeos de fitness pelo entretenimento. As intenções de assistir a vídeos relacionados com a prática de exercício físico apenas tinham impacto nos seguidores que já praticavam exercício. Ou seja, quem não fazia exercício físico, não ficava motivado para o fazer ao ver vídeos dos fitness influencers.
Os resultados destes estudos são interessantes e ao mesmo tempo preocupantes. Embora os fitness influencers tenham um alcance significativo e o potencial para promover hábitos saudáveis, a qualidade da informação que partilham é frequentemente inadequada. A ausência de rigor científico, a falta de qualificação profissional em muitos casos e o foco em entretenimento ou estratégias de marketing limitam a capacidade desses influenciadores de impactar positivamente o comportamento do público. Além disso, o conteúdo por eles divulgado tende a reforçar comportamentos já existentes, em vez de motivar mudanças significativas, especialmente entre aqueles que não praticam atividade física. Assim, destaca-se a necessidade de um consumo crítico de informações vindas de influencers. Da próxima vez que vir algo relacionado com o fitness, questione-se: será que a pessoa que está a falar sabe do que está a falar?
Referências:
Marocolo, M., Meireles, A., de Souza, H. L. R., Mota, G. R., Oranchuk, D. J., Arriel, R. A., & Leite, L. H. R. (2021). Is Social Media Spreading Misinformation on Exercise and Health in Brazil? International journal of environmental research and public health, 18(22), 11914. https://doi.org/10.3390/ijerph182211914
Sokolova, K., & Perez, C. (2021). You follow fitness influencers on YouTube. But do you actually exercise? How parasocial relationships, and watching fitness influencers, relate to intentions to exercise. Journal of retailing and consumer services, 58, 102276. https://doi.org/10.1016/j.jretconser.2020.102276
Sabbagh, C., Boyland, E., Hankey, C., & Parrett, A. (2020). Analyzing Credibility of UK Social Media Influencers’ Weight-Management Blogs: A Pilot Study. International journal of environmental research and public health, 17(23), 9022. https://doi.org/10.3390/ijerph17239022
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