“Vivemos num tempo de visível transição,… um tempo de inquietude e dúvida.” Facilmente poderíamos associar estas palavras a um discurso sobre a pós-modernidade. Contudo, elas foram escritas há cerca de…150 anos pelo político e escritor inglês Bulwer-Lytton. Já antes dele, em 1831, John Stuart Mill proclamara: “Vivemos numa época de transição”. Thomas Carlyle corroborara o diagnóstico, introduzindo, porém, um novo tópico, a ansiedade face à mudança e ao mistério envolvendo o Paradigma emergente: “O Velho já passou, mas, infelizmente, o Novo não surgiu ainda em seu lugar…”
Como evidenciou Walter E. Houghton (The Victorian Frame of Mind, 1830-1870), o vitorianismo viu consolidar-se um império e pressentiu os sintomas do seu declínio; assistiu à consagração de discursos políticos – o cartismo, protagonizado por William Lovett, o socialismo utópico, o(s) anarquismos(s), o marxismo e os movimentos sindicais – que questionaram radicalmente o capitalismo emergente; confrontou-se com a pulverização de seitas religiosas que perturbaram o predomínio da Igreja oficial Anglicana; viu alterar a paisagem devido às grandes concentrações industriais e à própria mudança do perfil urbano, como intensamente descreveu Charles Dickens em Hard Times; testemunhou a publicação de um livro que pôs em causa uma tradição milenar judaico-cristã a nível do conhecimento, e contribuiu definitivamente para o inaugurar da modernidade: A Origem das Espécies, de Charles Darwin.
O romance inglês desvendou muitas destas tensões, nomeadamente através da revisão de uma sensibilidade estética setecentista ancorada no imaginário medieval: o gótico. Com os escritores oitocentistas, o gótico radicará obviamente no discurso do inconsciente.
Alguns exemplos: Mary Shelley (Frankenstein, or the Modern Prometheus) retoma aquela tradição ao mesmo tempo que penetra no âmago do inconsciente feminino – foi num sonho ocorrido durante a gravidez que a autora se inspirou para esta obra; Stevenson (The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde) estrutura a sua narrativa em torno da demanda de um cientista que o conduz ao encontro da sua faceta denegada; Oscar Wilde (The Picture of Dorian Gray) eleva este desdobramento de personae à dimensão alegórica.
Em todos eles é o discurso de um reprimido inconsciente vitoriano que funciona como contraponto fantasmático da civilidade. É esse inconsciente vitoriano que Lewis Carroll percorre, concebendo, todavia, um discurso que se afasta em definitivo da disforia gótica.
Gilles Deleuze (Critique et clinique) considera que “tudo começa em Lewis Carroll por um combate horrível… o combate das profundidades…”. E prossegue: “Tudo é horrível em profundidade, tudo é nonsens. Alice no País das Maravilhas deveria intitular-se inicialmente As Aventuras Subterrâneas de Alice. Mas porque é que Carroll não conserva este título? Porque Alice conquista progressivamente as superfícies. Ela sobe ou volta a subir à superfície.”
Contrariamente às narrativas que mergulham no gótico e nele persistem assumindo as suas convenções, Carroll concebe um solo de flutuação semântica, de constante oscilação entre a profundidade e a superfície, que sistematicamente decepciona ao sabotar o sentido e a convenção.
Enquanto o gótico desvenda um lado negro vitoriano, Alice questiona a solenidade do seu tempo naquele que é o seu espaço mais assertivo, o discurso, pois é através dele que se enuncia um ethos.
Daí que se deva entender Carroll no âmbito da velha tradição da inteligência e do humor críticos conhecida por wit. Daí a sua afinidade com o outro grande cultor do nonsense vitoriano, Edward Lear.
É inegável, porém, a filiação natural e imediata de Alice no espaço da literatura infantil, decorrente, aliás, da forma como Carroll/Dodgson explora este imaginário: a amizade com a família de Alice Liddell; a companhia das crianças às quais narrava estas e outras histórias (veja-se o imaginário nas suas cartas às meninas); o humor com o seu próprio apelido (Dodo ecoa o gaguejar do autor: Do-Do-Dodgson) e com o do seu amigo Robinson Duckworth (Duck), ou com os nomes das irmãs de Alice: Lorina é Lory, e Edith, Eaglet. Anos mais tarde, no final de Through Looking Glass, o nome de Alice surge dissimulado através de um acróstico; ainda o wit e o jogo com a linguagem.
Com o século XX as leituras psicanalíticas vincularam a obra às convenções do inconsciente: do conceito de reflexo (Winnicott) impulsionador da narrativa, à cartografia freudiana – a dominadora Rainha identificada com o superego (que através de Lacan assume uma dimensão narcísica), versus o Rei, frágil ego.
Será através destas lentes que nós, hoje em dia, inevitavelmente lemos Alice. Perdida está a inocência da sua filiação original. Persiste o wit e o desmontar da tal solenidade vitoriana.
Curioso é o facto de, nestes tempos de ansiedade ontológica, após ter percorrido as idiossincrasias góticas vitorianas, Burton tenha explorado agora esse outro diálogo com o inconsciente que a Carroll se deve.