Cajado na mão direita, terço na mão esquerda, xaile de lã sobre as costas. Uma coluna de homens emerge do nevoeiro denso que engole a estrada, as árvores e o próprio céu, esbatendo os contornos da paisagem.
Os cabelos encharcados estão colados às cabeças e estas, por sua vez, inclinadas para baixo, colam o olhar ao chão. Quase conseguimos ouvir o silêncio pastoso onde ressoam as orações que saem das bocas entreabertas, e o ritmo compassado dos pés, que se arrastam sob o peso da sacola que os homens trazem às costas.
A imagem misteriosa, capturada na ilha de São Miguel, nos Açores, em 2014, por Jorge Barros, é a primeira do mais recente livro do fotógrafo. Lançado oficialmente a 3 de dezembro, no Teatro Micaelense, Romeiros da Fraternidade (com os textos em português e inglês) apresenta o resultado de quase quatro décadas de trabalho entregues à documentação dos diversos ranchos de Romeiros da ilha de São Miguel.

Todos os anos, durante a Quaresma, ao longo de oito dias, estes grupos de homens trocam os confortos do dia-a-dia, o calor da sua casa e a companhia da família, por um percurso pedestre em redor da ilha que, mais do que de quase 300 km de trilhos, caminhos e estradas, é feito de penitência, oração e conversão.
A obra é assinada por JB e pelo filho Pedro, responsável, em 2023, por fotografar alguns momentos específicos da romaria, que o pai considerava ainda não estarem retratados como desejava. “Demorei muitos anos neste projeto, porque, quando o fotografava, achava que faltava qualquer coisa”, conta JB, revelando que sempre sentiu “um pudor muito grande”, por tratar-se de uma manifestação extremamente misteriosa e enigmática.
“Ainda hoje tenho dificuldade em perceber muitas coisas desta romaria, mas com as fotografias que o Pedro tirou, senti que o livro já teria pernas para andar”.
Ainda hoje tenho dificuldade em perceber muitas coisas desta romaria, mas com as fotografias que o Pedro tirou, senti que o livro já teria pernas para andar
jorge barros – fotógrafo
O livro e quem se aventurar através das suas páginas. Já que a obra transporta o leitor para uma semana de caminhada. Encontra-se organizada em oito “capítulos”, tantos quantos os dias necessários para que um Rancho de Romeiros dê a volta à ilha a pé.
Através de fotografias tiradas entre 1994 e 2023, em diversos locais e em momentos tão variados quanto os de caminhada, oração, paragens para almoçar, descansar ou rezar dentro das igrejas, cada capítulo recria um dia de jorna, desde as três da manhã, hora em que os Romeiros começam a andar, até cerca das dez da noite, quando se vão deitar.
A preto e branco, as únicas cores, segundo JB, capazes de reproduzir o dramatismo desta manifestação religiosa, surgem imagens pungentes, onde conseguimos intuir a força do vento, nos cabelos encrespados de uma criança, o frio da noite, nas costas curvadas de um velho, a humidade do nevoeiro, num céu que engole o mar, o calor de uma casa, nas mãos de alguém que lava os pés a outra pessoa, a solenidade de uma igreja, nas pálpebras cerradas de um jovem.
Nos homens que rezam, caminham, descansam, lavam feridas, sorriem, abraçam-se ou esboçam um esgar de dor, página após página, o mistério divino convive com uma fragilidade profundamente humana.
Aqueles que escolheram fazer-se à estrada, e que nos últimos 37 anos têm sido imortalizados pela lente de JB, possuem todos o mesmo olhar, inundado de uma determinação incendiária capaz de pegar fogo mesmo aos corações mais céticos.
Uma caminhada com 500 anos
A tradição da Romaria de Nª Sª do Rosário remonta ao século XVI, quando os sobreviventes de um grande tremor de terra construíram uma ermida à Virgem e começaram a fazer procissões semanais noturnas, que viriam a transformar-se na Romaria à volta da ilha.
Cinco séculos mais tarde, os Romeiros caminham em ranchos de 17 ou mais elementos, ao longo de oito dias e centenas de quilómetros, no sentido dos ponteiros do relógio, parando em todas as igrejas do caminho.
No início de cada semana da Quaresma, cerca de 16 ranchos saem de diferentes localidades da ilha de São Miguel e, seja através de orações, cânticos ou momentos de meditação, não há passo que deem que não seja a rezar.

Ao final do dia, são acolhidos nas aldeias de outros ranchos, no chamado ritual da pernoita. Pedro, que se focou particularmente em fotografar este momento, explica que é o Mestre do Rancho quem faz a distribuição das pessoas pelas diversas casas, consoante aquilo que acha que precisam. “Tem um grande conhecimento da comunidade, percebe como é que cada pessoa está a reagir durante o dia e conhece as dificuldades que cada um teve durante o ano”.

Poder-se-ia talvez afirmar que a pernoita é aquilo que, na última página do livro, Tolentino de Mendonça define como “a consciência de que precisamos todos uns dos outros, que ninguém se pode salvar sozinho, e que o nosso mais precioso recurso é a fraternidade”.
Ano após ano, centenas de homens, enrolados em xailes de lã, ainda que talvez nunca tenham lido estas palavras, meditam sobre elas. Rezam-nas uma a uma, do primeiro ao último dia do “infinito silêncio circular” que se dispõem a percorrer.
“Esta é uma viagem de reflexão”
Jorge Barros fala da sua experiência junto dos Romeiros, da fraternidade testemunhada e das formas que encontrou para mostrar tudo isto num livro
A caminhada dos Romeiros é algo de muito íntimo. Como conseguiu que lhe abrissem as portas?
Ao princípio, quando ainda não existiam televisões privadas nem RTP Açores, havia de facto um circuito muito fechado entre eles. De maneira que eu, quando entrei, não foi fácil. Quem me facilitou o acesso foi o Emanuel, um tipo característico de Rabo de Peixe que conheci numa igreja, na primeira noite que fui fotografar. Além de já ter sido Romeiro, é um homem de grande carinho e grande afeto, muito conhecido. Ele é que me aproximou das pessoas, se não fosse aquele contacto teria tido muita dificuldade, porque era um intruso.
Mas, depois, em certos anos, acabou até por dormir nas aldeias onde os Romeiros pernoitam. É uma experiência especial?
A pernoita é a situação mais interessante, mais fraterna, que eu encontrei. Os habitantes das aldeias recebem os irmãos em suas casas, dão-lhes as melhores camas, os melhores quartos e fazem um jantar especial. À relação de Fé e religiosidade existente, soma-se aqui uma relação de grande fraternidade e solidariedade entre as pessoas. Quem recebe tem orgulho em receber os outros. É uma coisa extraordinária e, por isso, dão o melhor que têm.
Alguma vez lhe disseram o que os motiva a fazerem-se à estrada?
Das motivações sei pouco. Não pergunto. Ia sabendo que A, B ou C estava com uma promessa, mas esta manifestação não são só as promessas, é também um tempo de reflexão. Não tem nada a ver com Fátima, em que as pessoas viajam e, muitas vezes, estão à espera que Deus lhes dê alguma coisa em troca. Aqui não é bem assim. Esta é uma viagem de reflexão, de meditação, de solidariedade entre as pessoas. Há com certeza promessas, agora quais, não sei. Nunca perguntei.
Por que decidiu retratar esta viagem de reflexão a preto e branco?
A escolha justifica-se pelo dramatismo. Há um sentido dramático em tudo. Naquela peregrinação e na paisagem açoriana, feita de brumas, chuva e vento, que trazem uma certa carga ao semblante das pessoas, à qual o preto e branco dá outra força.
Em muitas páginas do livro surgem ainda versos de poemas. A poesia foi uma fonte de inspiração neste projeto?
A poesia anda sempre comigo. Os poetas têm um sentido de imaginação extraordinário, que é muito fotográfico. É importante porque cria-me imagens de aproximação com o Mundo e com as pessoas. Em muitas situações, os poemas ajudam-me bastante a viver e a tirar partido dessas imagens escritas para as imagens visuais que faço.
Como foi o processo de seleção dos poemas?
Foram noites de trabalho com os livros todos espalhados pela sala para encontrar as melhores citações para cada imagem. Deu-me muito gozo procurar, na obra de poetas portugueses, citações que se dessem com as imagens que eu andava a fazer ou com o sentido dessa imagens.