Talvez, pelo menos em parte. E, também em parte, porque a família real é, ao mesmo tempo, uma família como qualquer outra e a representação teatral de uma família diferente de todas as outras. Permitindo simultaneamente identificação e distanciamento, intimidade e reverência.
Não me lembro quem disse, em defesa da monarquia, que um parto é mais barato do que eleições. Sem dúvida, mas um parto realengo é uma consequência barata dos gastos maiores que são necessários para sustentar uma monarquia.
E, tudo somado, é possível que as despesas não sejam muito maiores do que as necessárias para manter uma presidência periodicamente eleita, porque o que fica mais caro não é a pessoa que ocupa o cargo real ou presidencial mas todos os acessórios adicionados ao exercício das suas funções.
Portanto, obviamente, o que mais importa não é justificar custos mas garantir legitimidades. E devo, desde já, declarar que sou impenitentemente a favor de que haja um ou uma Presidente de escolha eleitoral em vez de uma rainha ou um rei de biologia hereditária. Direi mesmo que isso é, para mim, uma herança biológica. Está-me na massa do sangue. Tive um avô que há mais de um século andava pelo Rossio a dar esclarecedoras bengaladas republicanas aos relutantes monárquicos.
Bom, gracinhas à parte: a legitimidade. Ser eleito é um bom princípio de legitimidade. É uma boa prática democrática.
Mas ser legitimamente eleito não chega. Uma eleição é uma aposta democrática na legitimidade potencial de um candidato, mas não lhe garante legitimidade. Esta só poder ser confirmada – ou, talvez mesmo, adquirida – no exercício das funções para as quais foi eleito. Dou um exemplo português: considero que o mais incontestavelmente “legítimo” dos presidentes que tivemos até agora foi Mário Soares. No entanto (lembram-se?) foi eleito à tangente para o seu primeiro mandato porque quase metade do eleitorado não o queria para Presidente.
Passado pouco tempo (esqueceram-se?) a sua legitimidade foi consensualmente reconhecida por (quase) toda a população. E, em sentido oposto, dou outro exemplo também português: a legitimidade do atual Presidente da República tem-se tornado cada vez mais duvidosa em consequência do modo como tem exercido as funções para que foi eleito. Ou seja, a legitimidade só existe quando é reconhecida através do seu exercício.
Talvez já tenha contado (peço desculpa se estou a repetir-me) que perguntaram em tempos a um grande ator inglês, que já foi rei em todas as peças de Shakespeare, como é que ele fazia no palco para se perceber logo que era o Rei. Andava com a coroa na cabeça? Punha-se mais direito? Falava com voz grossa? Respondeu que nada disso, que perceberem quem era o Rei não dependia dele mas dos outros atores, do modo como os outros atores o tratavam no palco.
Ele podia passear-se de pijamas, pôr-se de cócoras, falar numa voz esganiçada, mas se os outros atores o tratassem como Rei, via-se logo que o Rei era ele. E, se deixassem de o tratar como Rei, acontecia o que aconteceu ao infeliz Ricardo II ou ao desgraçado Lear. Creio que a mesma coisa acontece fora do palco, no teatro institucional tanto das monarquias hereditárias quanto das presidências eleitas.
A despeito de alguns períodos difíceis, a legitimidade da Rainha da Inglaterra é reconhecida pela vasta maioria da população britânica. Se o mesmo vai acontecer quando a senhora morrer e o príncipe Carlos subir ao trono, logo se vê. A diferença evidente entre uma monarquia e uma república é que um mau Presidente pode não ser reeleito (exceto quando é…) e que um mau Rei ou Rainha, a menos que abdique, está lá até ao fim da vida. Pois é, mas pode abdicar, como a Rainha da Holanda abdicou por estar farta, e o Rei de Espanha por ter percebido que a legitimidade que havia adquirido em defesa da democracia se tinha desgastado.
Ainda assim, que sucessões hereditárias são antidemocráticas, é claro que são. Mas o facto é que eleições também podem produzir resultados equivalentes aos da hereditariedade. Na Inglaterra, com poucas exceções, os governantes do Partido Conservador que têm alternado o poder com os trabalhistas, não serão filhos uns dos outros mas são primos dos primos. E, na mais poderosa democracia ocidental, os EUA, já houve os Roosevelts e agora há os Bushes e os Clintons a formarem dinastias presidenciais hereditárias.
A grande e admirável exceção foi, obviamente, o presidente Obama, que chegou lá sem as habituais consanguinidades oligárquicas e a despeito delas. Mas também por isso, e também a despeito das suas boas intenções e da sua inegável legitimidade eleitoral, pouco tem conseguido do muito que teria desejado realizar, por ter sido sistematicamente neutralizado pelas autoperpetuadoras oligarquias políticas e económicas que, de facto, detêm o poder. Se calhar o meu avozinho tinha alguma razão quando ia dar pedagógicas bengaladas democráticas aos talassas relutantes.