Para uma primeira experiência numa Jornada Mundial da Juventude (JMJ), Jieun Min chegou a Portugal vinda Coreia do Sul com expetativas de quem trabalha para um órgão de comunicação católico. “Tínhamos como dever passar uma imagem fiel do que vínhamos encontrar. E, posso dizer, que estou a adorar cada minuto. Os portugueses são muito amáveis; todas as pessoas sorriem. E o nível de segurança é enorme”, assume a produtora sul-coreana do canal de televisão CPBC, no Pavilhão Carlos Lopes, onde a organização da JMJ instalou o centro de media deste evento e por onde terão passado, nestes dias, cerca de 4500 profissionais da comunicação, oriundos de uma centena de países.
Tal como Jieun Min, a maioria dos jornalistas acreditados chegou a Portugal muito antes de arrancar a JMJ e isso permitiu-lhes um grau de comparação entre Lisboa e as diversas cidades por onde passaram – principalmente, Porto e Coimbra.
“Como somos quatro, optámos por ficar em apartamentos [alojamento local], desde o dia 25 de julho. E só podemos dizer bem do acolhimento, desde que chegámos ao Porto, uma cidade que, talvez por não estar com toda esta gente, é maravilhosa. O centro de media está muito bem organizado. Acho é que os transportes na cidade [de Lisboa] podiam ter respondido melhor; o metro não tem muita informação em inglês e outras línguas”, admitiu à VISÃO, frisando, ainda antes da abertura de portas da JMJ, no Parque Tejo, que “o tempo tem estado perfeito”, mas que queria perceber como o evento ia reagir com tanta gente rumo à zona oriental da cidade e as temperaturas altas.
E, foi aí, com a abertura das portas do local escolhido para a vigilância e missa de envio, que começaram as notas negativas dadas por alguns, principalmente espanhóis e italianos, que, neste sábado, se aperceberam do esforço que muitos jovens dos seus países sofriam debaixo de um intenso sol, ao terem de caminhar uma dezenas de quilómetros – porque várias estações de comboio à volta do Parque Tejo estavam fechadas -, e com a falta de de pontos de água na zona de Loures, sombras e piso apropriado para passarem a noite.
“Talvez a JMJ do Panamá tenha corrido melhor que a vossa, mas ainda é cedo para um balanço final. Não quero ser crítico com a organização portuguesa, principalmente com aquela área junto ao rio, porque, enfim, é muita gente e talvez não se imaginasse que fosse assim. E depois os transportes… [faz um gesto com a mão de mais ou menos]”, admitiu o polaco Michal Skowron, da Sinai TV, que também chegou ao País no dia 25 (aliás, dormiu no aeroporto nesse dia), num tom acanhado e olhos no chão, de quem receia poder magoar com alguma crítica menos simpática, mas que traduz o facto de muitos terem visto (através das enormes telas de vídeo no Carlos Lopes) muitos conterrâneos seus em luta contra as condições adversas no Parque Tejo. “Pelo menos, temos um shuttle com ar condicionado”, atirou um jornalista espanhol, referindo-se ao serviço de vaivém, disponibilizado aos profissionais de comunicação, para que se possam deslocar entre os vários pontos da cidade onde se realizam iniciativas com o Papa.
“Mas vocês, portugueses, são muito simpáticos; estão sempre a sorrir. E isso é bom. E estes encontros [comunicações diárias] também estão bem organizados”, decidiu acrescentar Michal Skowron, após a VISÃO se aperceber que, naquele grupo de jornalistas polacos, se deveria estar a comentar o preço da comida no centro de media, comercializada pelo Pingo Doce. É que, perante o facto de já cá estarem há vários dias e terem ido às compras àquele supermercado, alguns aperceberam-se de determinados produtos ali estarem ao dobro do preço, sem qualquer razão que o justificasse. Ainda por cima, a entrada no espaço com comida não era permitida. “Dois euros; dois euros”, ironizou, com um pequeno pacote de sumo na mão, o jornalista italiano Matteo Liut, ao falar com um colega do mesmo País.

Segundo Matteo Liut, que trabalha há 20 anos, no jornal diário Avvenire, de inspiração católica, “mais importante do que saber se tudo correu bem, e entende-se que os portugueses queiram saber se fizeram ou não um bom trabalho, é saber que Lisboa acolheu esta Jornada num momento muito importante para a Igreja, não só a Igreja mundial, por diversas questões, como a portuguesa, por causa da questão dos abusos”.
Com diversas jornadas no currículo, enquanto profissional, Liut evitou dar uma nota à de Lisboa: “Bem, vejamos; estive na do Panamá, na de Cracóvia, na do Rio de Janeiro, Madrid, Sidney e Colónia [2005]; já para não falar de outros eventos, como o encontro da juventude de Santiago de Compostela. Por isso….”. Por muito que a VISÃO insistisse numa avaliação a estes dias, o jornalista italiano optava por falar “no contexto importante em que decorreu esta visita papal”. “Mas, posso dizer que os portugueses são muito simpáticos, recebem bem e falam muito bem inglês; quer dizer, vocês falam muito, porque sinto-os, a vocês, muito americanos. Não sei se é do oceano e de olharem para a América, mas estar em Lisboa dá uma sensação, com a exceção da história da cidade, de estarmos numa cidade dos Estados Unidos; não sei porquê. E este centro está muito bem organizado”, disse Liut, que antes de vir para Lisboa estivera uns dias em Fátima e Coimbra.

Para o padre José Patrício, diretor de comunicação do centro de media instalado no Pavilhão Carlos, “vivemos numa Europa que está muito fragmentada pela tristeza, pela tensões, a todos os níveis; e os sorrisos dos portugueses faz a diferença”.
“O Papa Francisco uma vez disse isso: o sorriso é a porta da alma. Temos uma alma acolhedora, porque somos um cruzamento de civilizações. Mas mais do que o sorriso, a melhor marca dos portugueses é a forma como recebem”, disse, aquele que, até ao final do mês de agosto o reitor do Pontifício Colégio Português, em Roma.
“Obviamente, não posso falar da organização do evento, apenas desta área da comunicação. Uma boa parte da equipa que está comigo está a preparar as jornadas há muito tempo – algumas dessas pessoas há quatro anos já. No dia 1 de agosto, aquando do cântico de entrada da celebração eucarística, presidida pelo senhor cardeal patriarca de Lisboa, a equipa que estava comigo começou toda a chorar, porque vimos ali, diante dos nossos olhos, a materialização do esforço enorme de preparação para que tudo corresse bem”, admitiu, indo ao encontro da avaliação feita pela porta-voz das comunicações diárias, Rosa Pedroso Lima. “Nós somos capazes de nos ultrapassarmos, quando estamos perante grandes desafios – assim foi na Expo’98, no Euro2004, no Eurofestival. E, claro, conta muito para que as coisas corram bem a nossa indesmentível afabilidade”, apontou, pouco antes de Jieun Min ter vindo ter com a VISÃO, na última sexta-feira.
“Não sei se te disse, mas acho que era ótimo a Coreia [do Sul] pode vencer a organização da JMJ. Era importante para nós, muito mesmo, porque, como te disse, a Igreja Católica cresceu lá, mas ainda é pequena – cerca de 11% dos coreanos são católicos e a grande maioria dos coreanos tem um sentimento favorável pelos católicos e pelo Papa Francisco. Como anfitriã da próxima Jornada Mundial da Juventude, a Coreia convidará os jovens católicos de todo o mundo”, salientou a jornalista sul-coreana, que tem agora motivos para sorrir, uma das características que mais notou aos portugueses.
- Atualizado a 11 de agosto de 2023, com declarações de Jieun Min, sobre a percentagem de coreanos que são católicos, com o relato sobre a imagem que os coreanos têm sobre a Igreja e ainda com a importância para o País em receber a Jornada Mundial da Juventude, em 2027.



