Longe vão os dias em que Ana Abrunhosa levou um raspanete em público do Presidente da República. Naquele dia de novembro de 2022, a então ministra da Coesão Territorial era o mais destacado membro do governo de António Costa presente numa cerimónia de inauguração dos novos Paços do Concelho da Trofa. Marcelo Rebelo de Sousa escolheu a ocasião para criticar o executivo pela baixa execução dos fundos do PRR. Mesmo não sendo Ana Abrunhosa a ministra com essa tutela, levou por tabela. “Verdadeiramente superinfeliz para si será o dia em que eu descubra que a taxa de execução dos fundos europeus não é aquela que eu acho que deve ser. Nesse caso não lhe perdoo. Espero que esse dia não chegue, mas estarei atento para o caso de chegar”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, em público e perante toda a comunicação social, lembrando ainda a governante de que “quando aceitamos funções políticas, sabemos que é para o bom e para o mal”. Palavras duras e uma humilhação pública que muito provavelmente terão passado pela cabeça da atual presidente da Câmara Municipal de Coimbra quando, na última quarta-feira, 11, “obrigou” o Presidente da República, o primeiro-ministro e uma vasta comitiva de responsáveis políticos e institucionais acompanhados de dezenas de jornalistas a deslocarem-se à sua cidade para verem, com os próprios olhos, a situação de calamidade iminente que ali as cheias do rio Mondego estavam a provocar.
Sem alarmismos, convocando e apelando à cooperação de todas as entidades públicas, Ana Abrunhosa anunciara, na véspera, a decisão sempre difícil de tirar de casa cerca de três mil pessoas que habitam nas povoações ribeirinhas da margem esquerda do Mondego. Alertando para a possibilidade de colapso dos diques que, há quase cinco décadas, tentam cumprir a difícil tarefa de disciplinar e manter o “bazófias” dentro das margens, a edil conimbricense usou palavras graves, dizendo que tal possibilidade representaria “uma bomba” para a região. E veio a provar-se que tinha toda a razão, quando, ao fim da tarde desse mesmo dia, o dique cedeu. O que parecia inevitável aconteceu mesmo, felizmente para as populações, num troço da margem direita menos ocupada por povoações, mas no exato ponto em que a principal autoestrada do País cruza o estuário do Mondego. Em poucas horas, parte do viaduto da A1 cedeu, cortando parcialmente o País ao meio. As comitivas presidencial e governamental já estavam de regresso à capital, tiveram de fazer meia volta para se juntarem de novo à autarca e reforçarem os seus apelos para que, até que as águas do rio regressem às margens e o perigo para as populações desapareça, ninguém se aventure a desafiar o apelo à evacuação. Mais do que isso, para que todos ali se comprometessem com a necessidade de, passado o temporal, juntar esforços e meios para reconstruir o território devastado e devolver a vida a quem a viu abalada.