Dizes-me até amanhã
Que tem de ser que te vais
Só que amanhã sabes bem
É sempre longe demais
A música dos Rádio Macau, Amanhã é Sempre Longe Demais, de 1989, não nos sai da cabeça depois de ouvir várias reações dos comunistas que se reúnem numa enorme sala do Hotel Sana Metropolitan, na Soeiro Pereira Gomes (onde mais poderia ser?) às projeções que lhes reduzem o número de mandatos para metade, caindo dos atuais seis para dois ou três. Às onze da noite, ainda não tinham elegido nenhum. Apurados os resultados, ficaram-se pelos quatro.
“Ainda é cedo” para falar e “amanhã lá estaremos” são as frases mais ouvidas por aqui ao início da noite, de João Ferreira, vereador da Câmara Municipal de Lisboa, a Isabel Camarinha, que recentemente abandonou a liderança da CGTP (“toda uma campanha em torno de duas ou três figuras tem consequências”). E passando por dois estudantes do Instituto Superior Técnico, de 21 anos, que estão vidrados nos resultados nos telemóveis – quando não fazem um intervalo para jogar Tetris – afinam pelo mesmo diapasão. Mas não será amanhã longe demais, mesmo para os camaradas habituados a resistir?
É mesmo com a palavra resistência que Vasco Cardoso, da Comissão Política, começa por se dirigir a quem está na sala. E volta a falar da continuidade do trabalho feito junto dos trabalhadores, jurando que seguirão na defesa do direito à habitação, à saúde, na luta por melhores salários, melhores reformas, “sempre em defesa da democracia e da liberdade”. Sem esquecer de se referir às “forças reacionárias” que deverão ser combatidas com uma CDU forte e interventiva.
“Viva a CDU!” E é então que, quase duas horas depois de as urnas fecharem no Continente, se ouvem vivas na sala. Os punhos direitos fecham-se e grita-se pelo partido. Vasco Cardoso sai, sob uma forte ovação. Depois desta primeira reação oficial, a sala fica mais vazia. É hora do jantar e adivinha-se que alguns militantes prefiram uma comida diferente da que nos é dada em caixinhas de cartão, à base de sandes e sumos. Ainda assim, há quem não descole e esteja nos sofás da antecâmara da sala a fazer uma espécie de piquenique. Outros não soltam o olhar das televisões, que mudas, vão debitando os números da noite, cada vez mais certos.
A primeira machada concreta dá-se às 21h15, quando é certo que, pela primeira vez na História democrática do País, a CDU não elege um deputado por Beja, embora nem tenha perdido muitos votos por lá – na atual legislatura, ficará um para a AD, um para o PS e outro para o Chega.
Já não há lugares no táxi
Pedro Penilo, 60 anos, melena aloirada a cair-lhe pela testa, barba rala, calças de bombazine, camisola grossa e ainda blusão grená, que não desgruda nem tem calor, pelos vistos. Está, desde as primeiras projeções, calado, mãos levemente nos bolsos, encostado à parede, cara de poucos amigos, sem perder pitada do que as televisões mostram. Uma hora e meia depois, cede, e senta-se no chão, exatamente no mesmo ângulo.
“Estou cansado. Foi uma campanha dura”, justifica-se, por estar confortavelmente sentado na alcatifa. “Gosto de acompanhar a evolução dos resultados. E estes são preocupantes. Mas nada que não se esperasse pelo nível de exposição e mediatização do fenómeno Chega”, queixa-se, dando exemplos concretos da cultura, área que lhe granjeia especial carinho. Pedro é artista plástico, do PCP desde que se lembra, ou melhor, desde que experimentou a liberdade – filiou-se em 1983, antes foi da juventude comunista.
“A nossa intervenção, muito dinâmica, vai continuar. Até porque temos uma renovação ativista muito grande. Vamos ultrapassar isto, já estivemos muito pior”, assegura.
Tal como Pedro, os outros militantes da sala não cedem. As cadeiras voltam a encher-se de gente que agora agarra a bandeira da coligação, ainda que sem manifestações massivas ou ruidosas. Mais CDU, Vida Melhor, lê-se no pano azul que serve de cenário a quem vai falar ao microfone – será o secretário-geral Paulo Raimundo, mas só às onze da noite e depois de eleitos dois deputados, ele próprio, por Lisboa, e Paula Santos, por Setúbal. Durante o seu discurso, o Porto trará mais Manuel Rocha Maia para o grupo parlamentar. No final do apuramento, já noite dentro, a CDU conquistou quatro mandatos (o último foi António Gaião Rodrigues, também por Lisboa). Passam a ser oficialmente o “partido do táxi”.
Durante três minutos, batem-se palmas, gritam-se vivas, agitam-se bandeiras. Só depois ele se serve da palavra para agradecer o empenho, alegria e energia dos jovens na campanha, para se queixar da vitória da AD – “um caminho de retrocesso” – e para culpar o PS pelo crescimento do “discurso demagógico”.
Enquanto a massa aplaude, Raimundo aproveita para beber água. “Os trabalhadores e o povo podem contar com a CDU para enfrentar as políticas de direita. Aqui estamos para o que der e vier, com a força que o povo nos deu.”
Os olhares de João Ferreira, Jerónimo de Sousa e Heloísa Apolónia, nas cadeiras da frente, anuem perante o discurso de vitimização do líder, dizendo com todas as letras que “houve uma ofensiva brutal contra o PCP”.
O ponto de partida para esta campanha, reitera, era a de que o partido iria desaparecer. “Só pedimos que nos tratem da mesma maneira que tratam os outros.”
Quanto ao tema quente da guerra na Ucrânia, assume: “A nós ninguém dos arrasta para a guerra!” “Paz sim, guerra não!”, gritam na plateia. Logo após a ovação final, solta-se um “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais.” Os comunistas estão agora de pé, punho erguido, e, gritando, parece que se contentam com os três deputados conseguidos, exatamente metade do que tinham na última legislatura.
Os ecrãs gigantes no topo da escada ainda não se desligaram e continuam a mostrar imagens da campanha. Mesmo sem som, parecem gritar: “Amanhã lá estaremos!” Algo que, curiosamente, o secretário-geral não prometeu, pelo menos com estas palavras.