Quando, pelas 17 horas daquela segunda-feira, 17 de agosto, António Costa respondia, em direto, às perguntas dos portugueses, no Opinião Pública, mal podia adivinhar o estrago que uma mulher de metro e meio e menos de 50 kg estaria prestes a provocar em toda a estratégia socialista para a recuperação do poder.
Não foram precisos mais de 12 minutos e 48 segundos para a entrevista mudar de rumo. Em rodapé, uma notícia de última hora: “Benfica vai processar Jorge Jesus em 7,5 milhões de euros por quebra unilateral do contrato.” Mas a pivot, Teresa Dimas, destacava outra: “a confirmação de que Maria de Belém se vai candidatar à Presidência da República”.
Em vez de responder às perguntas dos portugueses e distribuir “confiança”, António Costa levava um murro no estômago. Sabia que Maria de Belém se candidataria ela tinha-lho dito nessa mesma manhã mas não sabia quando, nem imaginava que fosse no decorrer daqueles 56 minutos de palco televisivo. Teresa Dimas pediu-lhe logo uma reação. Costa, que só queria falar de legislativas, deu a mesma resposta de sempre: “Só no momento próprio tomaremos uma posição sobre as eleições presidenciais” e tentou seguir com o programa. Mas o caldo estava entornado. O que ficava era o anúncio de Maria a Belém. Nas catacumbas do PS, entre as fações adormecidas, descrentes e resistentes, todo um mundo fervilhava. Depois da crise dos cartazes, esta. Que mais iria acontecer? Os seguristas festejavam. Maria de Belém, a sua presidente, conseguira atrapalhar Costa com alarido. José Lello, socrático de gema, regozijava-se por ter um candidato oriundo do partido.
Manuel Alegre e Vera Jardim apareceriam depois, por amizade, e dando o cariz de esquerda a uma candidatura considerada demasiado à direita. Outros tantos cerravam os dentes. Os ex-presidentes Soares e Sampaio manter-se-iam ao lado de Sampaio da Nóvoa, assim como Carlos César, o novo presidente do partido. Outros aguardavam, cheios de azia, a orientação sobre quem é que o PS deverá apoiar para Belém. Mas isso é outra guerra. Para já, Costa quer é que se mantenha o foco nas legislativas.
Mulher que não se mede aos palmos
Coleciona alcunhas, mas, como José Sócrates, os seus nomes próprios bastam-lhe para as apresentações.
Sim, “Maria de Belém” é nome próprio.
Seguem-se Roseira Martins Coelho Henriques de Pina, um nome longo, entre os três apelidos de solteira e os dois do segundo marido, o engenheiro químico Manuel Pina. Mas, para os portugueses, há 20 anos que o nome próprio basta, apesar de Maria não ser de Belém, não viver em Belém nem nunca ter trabalhado em Belém. A única ligação que alguma vez teve àquela freguesia é ter sido presidente do Conselho Fiscal da Clínica de Santa Maria de Belém, no final dos anos 80 e início dos anos 90.
Nessa altura ainda não tinha saltado para a ribalta. Maria de Ninguém, como lhe chamavam no Contra-Informação (que só apareceria em 1996), só se tornaria conhecida do grande público em 1995, ao aceitar ser ministra, no primeiro governo de António Guterres. Mas já lá vamos. Até lá, há muito por contar. Muito trabalho nas áreas sociais, onde se cruzou com o Padre Vítor Melícias, com Maldonado Gonelha, Maria de Lourdes Pintasilgo ou Maria do Carmo Romão.
Comecemos pelo princípio. Maria de Belém nasceu no Porto, em julho de 1949, numa família tradicional, de mulheres fortes.
A bisavó materna enviuvou cedo e teve de fazer pela vida. A sua avó, de filhas criadas, deixou o marido no Porto e instalou–se numa quinta, em Vila Real, onde todos passariam férias. A mãe, que tocava piano e falava francês mas não se licenciou (ao contrário das irmãs), educou os filhos para a autonomia e independência financeira.
É neste ambiente que cresce Maria de Belém, a mais nova (e por isso muito mimada, confessou em 2010 ao Jornal de Negócios) de cinco irmãos.
O seu pai era um homem discreto. Também nunca se licenciou e fez carreira na Função Pública, onde chegou a ser denunciado, por um colega, como comunista.
Ninguém estava imune ao que se passava no País. “Na minha família houve gente perseguida. Um primo meu foi para Argel.
Outro foi exilado em Paris. A minha irmã ia às manifestações do Humberto Delgado “, contou à VISÃO, em agosto de 2006.
Mas, garantia, a sua não era uma família de ativistas. Em casa, não se falava de política.
Maria foi crescendo lendo literatura do pós-guerra. Página atrás de página, tropeçaria na miséria e na dor humanas. Foi-se convencendo de que as coisas se mudavam com a intervenção política e percebendo que queria fazer parte dessa engrenagem.
Teria uns 15 anos quando pôs de lado a Medicina e escolheu fazer vida no Direito, esse “construtor da justiça”.
Passagem discreta por Coimbra
Aos 17, saiu de casa. Foi para Coimbra, para a cidade que tinha sido “o foyer da ditadura “, porque tanto Salazar como o cardeal Cerejeira (entre muitos outros nomes do regime) lá tinham estudado, mas que era, na altura, o “foyer da resistência à ditadura “, recorda o então presidente da Associação Académica, Alberto Martins. Hoje, é visto como um colega de bancada de Maria de Belém ou simplesmente camarada de partido. Passaram juntos pelo guterrismo, pela era de Ferro, a socrática, acompanha- ram de perto do fim da liderança de Seguro (ele como líder parlamentar, ela como presidente do Partido) e iniciaram, do mesmo lado, os primeiros meses de António Costa à frente do PS. Até podem ser amigos. Mas, no final dos anos 60, era difícil partilharem grande intimidade.
Alberto Martins, quatro anos mais velho, era o dirigente máximo de uma luta estudantil sem tréguas, que o levou à cadeia e a muita provação. Maria de Belém não passava de uma jovem caloira, de ar doce e aprumado, sem grande apetite pelo ativismo. Vivia num lar, onde, apesar do livre-trânsito do pai, não tinha autorização para fazer (quase) nada.
Só mais tarde conseguiria dividir um apartamento com três ou quatro colegas e acordar para a vida: fez greve e participou nas assembleias-gerais, garante que viveu a crise académica mas manteve o distanciamento da luta estudantil. Tinha noção, justificou ao Negócios, “que as multidões são manobradas ” e tinha receio que esse “enfeudamento ” lhe retirasse liberdade.
Com mais ou menos dor, Coimbra obrigou-a a cortar o cordão umbilical e assumir a sua própria personalidade. Na altura, recorda, pensava: “Filha minha que chegue aos 17 tem de ir para fora de casa para conseguir afirmar-se.” Mas o seu desejo não vingou. Aos 17, a filha Helena (hoje com 29) não quis sair de casa. Andou em arquitetura, mudou-se para design de moda e tirou uma pós-graduação em gestão de marketing.
Saiu antes de acabar toda esta formação, mas só depois dos 20. E instalou-se, primeiro em Madrid, depois em Londres, onde vive atualmente.
Sob a influência de Pintasilgo
Terminado o curso de Direito, deixa Coimbra e regressa ao Porto, onde começa o estágio. Mas queria casar e o estágio não era remunerado. Educada a ser autónoma e a garantir o seu sustento, Maria de Belém aproveitou a abertura do Estado a quadros qualificados da Primavera Marcelista e entrou na Função Pública. Foi colocada no Ministério do Trabalho, na Direção-Geral da Previdência. Corria o ano de 1973.
Ficou sob a alçada da histórica socialista Maria do Carmo Romão, que era, então, diretora de serviços. Correu bem, porque quando Romão foi trabalhar com Maria de Lourdes Pintasilgo, na secretaria de Estado da Segurança Social, já depois do 25 de abril, levou consigo a jovem jurista.
O período era de grandes transformações, sobretudo nas áreas sociais. Era a oportunidade de Maria de Belém fazer parte da engrenagem, como aspirava desde a adolescência.
Tudo batia certo. Maria de Belém sentia-se em casa junto a uma mulher forte, como as que a haviam feito crescer. E o caminho que Pintasilgo propunha, de maior justiça e igualdade, condizia com o que tinha presenciado em Coimbra: de que não havia justiça numa sociedade onde muito poucos tinham acesso ao ensino superior. Ter sentido na pele que, com um curso exatamente igual ao dos seus colegas homens, muitos caminhos (a Magistratura, o Ministério Público, a Diplomacia) lhe eram vedados, também serviu para a aproximar dos ideais defendidos pela governante.
Tanto se aproximou que chegou, quase 30 anos depois, à liderança de um ministério que, apesar de não ter durado mais do que 11 meses, não deixou de existir: o Ministério para a Igualdade.
Mas isso foi depois. O feminismo de Maria de Belém não terá sido inato. Teve de o aprender, apreender, incorporar e deixar crescer. Caso contrário, sinalizaram à VISÃO, não teria resistido a integrar As Mulheres Socialistas logo que se filiou, em 1976. Convite não lhe faltou, garante a mesma fonte, que conclui: “Andava noutras coisas.”
Lisboa-Macau-Lisboa
Nesse início de carreira já se notava que Maria de Belém era uma jovem “interessada e inteligente”, “tão promissora quanto é possível a uma pessoa com ambição”.
Então, como agora, sofria de um certo vício pelo trabalho. Apesar de recém-casada, perdia-se nas horas em serviço. Foi assim nos gabinetes ministeriais por onde passou.
E também quando foi chefe de gabinete de Maldonado Gonelha (ministro da Saúde do governo de Bloco Central). Claro que não era chegando a ministra que haveria de afrouxar o ritmo. Começou sempre cedo (deixava a filha na escola e seguia para o escritório), almoçava no gabinete e saía a horas de jantar em família.
A dedicação, no tempo de Maldonado Gonelha, valeu-lhe o convite para dirigir uma direção-geral à escolha. Recusou.
“Disse-lhe que não aceitava nomeações políticas”, revelou, em 2006, à VISÃO.
E rumou para Macau, onde passou um ano, com a filha pequena. Assumiria o cargo de administradora da Teledifusão de Macau (TDM) pouco antes da sua privatização e do início de uma novela complicada, que levou à detenção de António Ribeiro e Leonel Miranda (então presidente e administrador da TDM, indiciados por peculato) e à exoneração do então diretor do Gabinete dos Assuntos de Justiça, Alberto Costa, futuro ministro socialista da Justiça e, também, da Administração Interna.
Maria de Belém, que esteve em Macau entre 1986 e 1987, só terá acompanhado o caso de longe, porque em 1988 já mergulhava fundo nas causas sociais. A convite da então ministra da Saúde (de Cavaco Silva) Leonor Beleza, aceitava ser vice-provedora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), onde trabalharia quatro anos, com o Padre Vítor Melícias. Voltaria a ser convidada para a SCML, muitos anos mais tarde. Guterres queria-a provedora. Para substituir Maria do Carmo Romão (sua primeira chefe, na Direção-Geral da Previdência, lembra-se?). Mas Maria de Belém recusou. Porque não aceitava nomeações políticas… oriundas do seu partido.
Mas não percamos o fio à meada. Estávamos com Maria de Belém vice-provedora da Misericórdia, em 1988. Em 1992, foi para administradora-delegada do Instituto Português de Oncologia (IPO), a convite de outro ministro da Saúde de Cavaco Silva: Arlindo de Carvalho. Foram anos de grande intensidade, que puseram Maria de Belém em contacto agora de verdade com a miséria e a dor que se podem abater sobre a vida humana.
A partir daqui, a história de Maria de Belém começa a ser (mais) conhecida.
Razão e Coração, sem muita saúde
Caberia a António Guterres, seu amigo pessoal, ir buscá-la ao IPO. Depois de muito clamar por mais Razão e Coração na política portuguesa, Guterres daria início a seis anos de governação socialista. Nos primeiros quatro, Maria de Belém seria a sua ministra da Saúde. Não era uma área prio- ritária (as prioridades eram a Educação e a luta contra a pobreza), mas a ministra foi criticada por não se ter conseguido impor e ter engrossado o orçamento da Saúde.
Resultado? “Foi um desastre financeiro”, “gastou mais do que devia” e foi alvo das maiores críticas por parte da sua sucessora, Manuela Arcanjo, refere fonte que acompanhou o processo.
Ainda conviveriam no Conselho de Ministros (Manuela com a pasta da Saúde, Belém com a da Igualdade), mas a relação não conseguiu alcançar o ano de vida. Em setembro de 2000, Roseira bateria com a porta do único ministério sem placa identificativa nem controlos de segurança.
O único ministério que, tendo existido, não consta do arquivo histórico do portal do Governo. Com a sua saída do Palácio Foz, o ministério seria extinto.
Na Igualdade não teve tempo de deixar marca, mas na Saúde, além da negociação e conciliação, será recordada como aquela que criou as Unidades Locais de Saúde.
E não perderá o epíteto de governante mais popular da era guterrista.
Depois do governo, Maria de Belém estreou-se no Parlamento. Liderou a comissão de inquérito ao BPN e aos Estaleiros de Viana do Castelo. Foi também presidente da Comissão de Saúde, cargo que acumulava com atividade de consultoria à Espírito Santo Saúde e que lhe valeu um rol de críticas. Hoje, faz parte do Conselho Consultivo da Luz Saúde. Mas o currículo é tão extenso que é só mais um cargo: foi fundadora da APAV, da Liga de Amigos do Hospital de S. Francisco Xavier, da Associação Reintegrar e da de Psicogerontologia.
É membro do Conselho Geral da Fundação do Gil e da Fundação Portuguesa do Pulmão e de muitas outras entidades comissões, associações, institutos e fundações.
É igualmente ex-muita coisa.
Maria foi com quem?
Filiada no PS desde 1976, já foi guterrista, ferrista e segurista, o que tem sido lido como um sinal de independência em relação aos pequenos poderes partidários. Foi, de facto, o seu amigo pessoal, António Guterres, quem a puxou para a ribalta política, oferecendo-lhe a Saúde. No final do guterrismo, acompanhou Ferro Rodrigues (seu vizinho, em Sintra), assumindo um lugar no órgão mais restrito do PS: o Secretariado.
No Congresso de 2004, apoiou Manuel Alegre, contra José Sócrates e João Soares, mas, nas Presidenciais de 2006, colocou-se ao lado de Soares, o candidato do partido, contra Alegre. Como se não bastasse este hoje-estou-contigo-mas-amanhã-já-não, cinco anos depois seria mandatária da candidatura do poeta às Presidenciais.
Em 2011, apoia António José Seguro, que a convida para presidente do PS. Seria a primeira mulher a ocupar o lugar.
Sinal de que o seu metro e meio e peso pluma nada são contra o poder do olho vivo e o sorriso farto. O que lhe valerão estes, agora que quererá convencer o PS e os portugueses de que é a melhor candidata a ocupar o palácio justamente de Belém?
Maria de Belém Roseira Martins Coelho Henriques de Pina
Nasceu no Porto, a 28 de julho de 1949
Licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra, em 1972
É casada, em segundas núpcias, com o engenheiro químico Manuel Pina, de quem tem uma filha, Helena, de 29 anos
Filiada no PS desde 1976, chegou ao guterrismo com a militância suspensa
Foi ministra da Saúde e da Igualdade e a primeira mulher a ocupar a presidência do PS