A vida de uma redação está moldada por dois tipos de ritmo: os do planeamento, essenciais para a produção de uma revista semanal como a VISÃO, e os inesperados – aqueles que exigem mudar os planos e, da forma mais criativa possível, procurar responder ao impulso da atualidade. Nos tempos em que vivemos, em que a informação é, tantas vezes, vertiginosa e pouco criteriosa relativamente à importância de cada assunto, a dificuldade tem aumentado e exige, dos editores, uma responsabilidade acrescida em relação à forma como apresentam o seu “produto” aos leitores.
Tudo isto vem a propósito desta edição que agora lhe chega às mãos e que foi feita num daqueles momentos em que percebemos a justeza de uma velha frase atribuída a Lenine: “Há décadas em que nada acontece e há semanas em que décadas acontecem.” E o que é que se faz nesses momentos?
Esta edição estava planeada há mais de um mês – o período de tempo necessário para poder pedir e receber os contributos das dezenas de personalidades que convidámos para, em conjunto, responderem a um desafio relevante: quais são os assuntos e os temas a que não devemos fechar os olhos, nestes tempos em que, tantas vezes, as polémicas irrelevantes ocupam a quase totalidade do espaço mediático e, depois, não resta tempo para discutir aquilo que é realmente importante e decisivo para o nosso futuro?
Queríamos, igualmente, que este convite a “não fechem os olhos” tivesse uma outra dimensão: demonstrar como é importante continuar a ter a VISÃO viva, com o seu jornalismo e a sua forma de olhar para o mundo, apesar das condições difíceis com que, todos sabem, a revista tem sido feita ao longo dos últimos meses.
Esta era, portanto, uma edição pensada para deixar uma marca, mas também para lançar um apelo mais vasto: o da necessidade de proteger a imprensa livre e independente, de raciocinarmos sobre o que é realmente importante e de não nos deixarmos sucumbir perante a ditadura dos algoritmos, que dominam a chamada economia da atenção em que vivemos. Este é um apelo simples e direto – tão simples e direto que até conseguimos resumi-lo na hashtag #NãoFechemOsOlhos, que está presente nesta edição, mas que pretendemos espalhar, com a ajuda de muitos, por outras formas de comunicação.
Não fechem os olhos é, assim, um apelo, mas também uma convocatória – urgente e mais necessária do que nunca. E, por isso, ao longo deste ano, vamos utilizar esse lema em muitos momentos, como os nossos leitores perceberão.
Para já, está presente nesta edição, como um tema de reflexão e um grito de alerta. E é disso, precisamente, o longo dossier que faz a capa da revista, com os contributos de mais de três dezenas de personalidades que, em diversos setores, nos ajudam a pensar sobre aquilo a que não devemos fechar os olhos atualmente, os sinais a que precisamos de estar atentos e os temas que urgem estar na ordem do dia.
A recente intervenção militar dos EUA na Venezuela, decidida por Donald Trump, tornou este dossier ainda mais atual – mesmo no caso dos textos que já se referiam a essa hipótese, mas que, naturalmente, foram escritos antes de ela se desencadear. Até porque fica demonstrado, por antecipação, que esse é mesmo um dos assuntos a que não devemos fechar os olhos. Por tudo o que ele implica: o início de uma nova ordem mundial, o atropelo às regras do direito internacional que tinham moldado as nossas vidas nas últimas oito décadas, a utilização do medo como arma política, a importância dos valores e de uma informação livre, rigorosa e independente, capaz de nos proporcionar uma visão mais próxima da realidade dos factos – e que nos ajude a pensar, em liberdade. #NãoFechemOsOlhos!