São uma espécie de novas catacumbas -com temperaturas climatizadas, ares condicionados, e luzes sempre ligadas. Tudo é neutral, branco e inquietantemente alheio. Pontos intermédios, zonas de transição, onde nada está, tudo transita. São os não-lugares da Europa, ante-câmaras continentais, sítios de passagem, o exacto local onde as fronteiras se interceptam nos interiores dos aeroportos. Foi nestes corredores lívidos de incomunicação, vácuos de identidade, que Sérgio Tréfaut resolveu situar a história da sua primeira longa-metragem de ficção. Trans-Europa passa-se quase integralmente aqui, na claustrofobia da dúvida e da incomunicação, entre paredes albinas, gabinetes incaracterísticos, portas que se fecham, secretárias que separam a inquietação de uns e a inquirição oficial de outros.
Pensando bem, é mais uma vez o realizador a explorar este sentimento de não pertença, a sensação de falta de solo debaixo dos pés, tal como acontecia no seu multi-premiado documentário Lisboetas (2004). Nesse sentido Trans-Europa é como que uma prequela do documentário. Lisboetas mostrava as vidas, tantas vezes desalentadas, dos estrangeiros em Lisboa. Trans-Europa fala destas outras plataformas estanques, feitas de espera, de não vida, de suspensão, por onde muitos tiveram de passar para chegar até aqui.
Inspirou-se, conta, na história da sua professora de russo, que um dia pôs toda a turma a chorar- inclusive ele. Ucraniana russófona, preparava-se para vir passar o Natal com o marido senagalês, médico como ela, mas a trabalhar nas obras, em Portugal. Corria o ano de 1998, o país euforizava-se com a Expo, e assomava como terra de oportunidades para muitos imigrantes de Leste. Ao fim de muitos imbróglios, interrogatórios sucessivos, conversas de surdos e trapalhadas, a professora ficou retida no Serviço de Estrangeiros e Fronteiros do Aeroporto. Ela não falava uma palavra de português, ninguém a entendia, ninguém fez qualquer esforço para a entender, e recambiaram-na de volta, 36 horas depois, num avião para um país que nem sequer era o dela, para a Rússia, obrigando-a a pagar um bilhete de Business Class, já que o voo de turística estava completo.
Foi o absurdo da situação, o indiferentismo, a facilidade com que os destinos alheios se jogam ali, naqueles espaços fora do mundo, por funcionários diligentes que só pretendem abreviar o expediente, que levou Sérgio Tréfaut a escrever este guião. Talvez ele tenha uma sensibilidade especial para o tema, concede. Talvez a ambivalência da sua própria identidade – filho de pai português e mãe francesa passou parte da infância no Brasil e adolescência em Portugal – lhe tenha incutido este interesse por histórias de “despertença”.
Com a actriz Maria de Medeiros, protagonista do filme, no papel de ucraniana desentendida, deu-se um reencontro. Em 77, Sérgio chegou a Portugal e encontrou Maria, mesmo ao seu lado, como companheira de carteira, no Liceu Francês. São amigos de infância e para Maria, depois de ter trabalhado com Phillip Kaufman (Henry and June), com Quentin Tarantino (Pulp Fiction), com Bigas Luna (Huevos de Oro), com imensos realizadores italianos e brasileiros, foi muito bom, comenta, que o seu “regresso” aos plateaux nacionais, ao fim de tantos anos de ausência, aconteça “entre amigos”. Isabel Ruth já foi uma escolha que tinha a ver com outros afectos, com admirações e afinidades cinéfilas, também de longa data, – ela “tinha” de ser a inspectora no seu filme, salienta o realizador. A Makena Diop, o actor senegalês, Sérgio Tréfaut encontra-lhe “uma aura muito especial, uma luminosidade”, sobretudo depois de o ter visto, enquanto protagonista de O Herói, o filme de Zezé Gambôa que conquistou o prémio de Melhor Filme Internacional em Sundance.
Corpos “SulEstes”
São 11 horas da manhã, na Biblioteca Abade Correira da Serra, em pleno centro de Serpa. Cá fora o apelo da primavera em cada pedaço de jardim. Lá dentro, toda uma equipa de costas voltadas para a natureza e para o Sol, convoca o Silêncio!, antes da Acção!. Não é difícil exigir silêncio numa biblioteca alentejana, semi-despovoada, a meio da manhã. Não foi preciso desactivá-la, nem encerrá-la ao público durante as semanas de filmagens. De quando em quando, entrará um utente distraído, desinteressado dos monitores e dos cabos que atravessam os corredores e se intrometem nos gabinetes daquelas instalações recém-inauguradas. A neutralidade do espaço interessou Sérgio, sobretudo os corredores que não necessitaram de nenhuma cosmética nem de remodelações de monta para passarem pelos bastidores iluminados de um qualquer aeroporto internacional. Isso e o facto da Câmara de Serpa ter dado uma série de facilidades logísticas (de alojamento, catering, transporte) a esta equipa de uma vintena de profissionais. É uma cidade que já tem história no apoio ao cinema. É aqui que se realiza anualmente o Doc’s Kingdom, Seminário internacional de Cinema Documental, a que Tréfaut está ligado.
Também por lá anda Nina Guerra, a famosa tradutora que, com o marido, transpôs uma série de obras literárias para português, directamente do russo. Está ali como conselheira linguística, a ajudar Maria de Medeiros a pronunciar correctamente as frases: “Ela tem uma boca muito flexível”. E o director de fotografia brasileiro Edgar Moura, preocupado com os contrastes, já que todo o filme será rodado a preto e branco. Também lá anda um dos arquitectos responsáveis pela reconstituição da aldeia da Luz que fará de funcionário da alfândega. Um figurante polícia que chegou da Vidigueira e um casal de indianos, à espera da sua vez de entrar em cena. Também está Bárbara, a maquilhadora, que há 24 anos acompanha a actriz e amiga Maria de Medeiros, que fez de vendedora de cravos em Capitães de Abril (a primeira das duas longas da realizadora/actriz). Maquilhar para um filme a preto e branco é completamente diferente, explica. As olheiras acentua-se, o olhar e a boca tornam-se especialmente visíveis. “Porque no cinema nós não olhamos com os olhos, são os nossos neurónios que fazem todo o trabalho”, garante. Já fez caracterização por toda a Europa, para grandes séries de época da BBC, “que não são como as de cá, que parecem um Carnaval de Veneza”. Mas do que gosta especialmente é trabalhar o rosto de Maria: “Ela é Modigliani”.
Todo o clima de áudio daquela biblioteca parece remeter-nos, de facto, para um ambiente de aeroporto. Escutam-se palavras em todas as línguas. Fala-se português, francês, inglês, russo e hindu. Há o brasileiro aportuguesado de Sérgio, Maria de Medeiros fala em português com as duas filhas, que entretanto aparecem para o almoço, e estas respondem-lhe em francês, o marido pergunta-lhe qualquer coisa em castelhano, Nina corrige a pronúncia russa da actriz, e uma indiana goesa tenta traduzir as indicações de Sérgio para o seu companheiro de filme, que apenas balbucia umas poucas palavras em português e parece bastante perdido entre todos aqueles linguajares. A custo, e muitos takes depois, lá consegue dizer a frase do guião numa lógica balbuciante, do estilo “mim Tarzan, tu Jane”, que encanta Sérgio pela sua genuinidade. Por isso, esta grande miscelânia de “grandes monstros sagrados do cinema como Maria de Medeiros ou Isabel Ruth” e não actores, alguns deles emigrantes recém-chegados a Portugal, outros repescados do documentário Lisboetas. Com o avançar da tarde, há-de perceber-se que o indiano em apuros com o português nem indiano é, vem do Bangladesh, Sérgio podia ter comunicado com ele em inglês, desde o início. “Afinal”, ri-se, “todo o filme é sobre isto: a incomunicabilidade”.
No leste alentejano
As razões da opção pelo minimalismo e pelo preto e branco repousa ali, junto à mesa do assistente de realização. O livro do famoso fotógrafo americano Richard Avedon, In The American West. O realizador quer o mesmo despojamento, a ausência de elementos cénicos que dispersem o espectador ou que lhe confiram algum: referencial espacial ou temporal. “Esta história podia passar-se em qualquer aeroporto do mundo, em qualquer altura”. Só as palavras impedem que o silêncio fale, e as personagens que o branco invada todo o plano: “Como se os actores flutuassem no espaço”. Por isso, todas as cenas têm aquele ar de bloco operatório, de lugar de espera e não de vida, de onde só se extraiem as emoções e a “violência contida”. Maria de Medeiros está sintonizada nessa estética puramente conceptual. Apesar do filme ser confinado a interiores, está convencida de que “a brancura do Alentejo influencia a atmosfera das filmagens, a noção de espaço, a austeridade, a pureza”. Ela compreende que às vezes o branco pode ser mais opressivo. Ainda noutro dia foi com as filhas passear até à Ovibeja e viram um touro enorme e branco. “Pensei na Moby Dick e como o branco pode inspirar terror ao homem”, comenta.
A actriz quando foi viver para França, Portugal ainda não fazia parte da CEE, e ainda se lembra do terror dos interrogatórios do aeroporto e da primeira autorização de trabalho. “O nosso destino pode ser decidido por um funcionário e isso tem uma dimensão trágica”. Só uma coisa Maria de Medeiros não partilha com a personagem, fala seis línguas. O português com que nasceu, o alemão com que cresceu na Áustria, o francês com que estudou… Casou com um espanhol, fez muitos filmes em italiano. Mas pela primeira vez, contracena numa língua que não domina. Resolveu não se limitar a reproduzir os sons, e aprender os rudimentos da língua. “Foi uma das grandes bagagens que os meus pais me transmitiram. Vínhamos de carro da Áustria e a minha mãe, que é um génio em idiomas, ia mudando de língua a cada fronteira que atravessávamos”.