1. Virgens Suicidas, Culturgest
O espaço aberto, sem divisões, uma alcatifa espessa e um pódio de metal resumem os anseios de Virgens Suicidas de John Romão. A peça, inspirada no texto homónimo de Jeffrey Eugenides e na novela Mine-Haha de Frank Wedekind, conta a história de um grupo de raparigas adolescentes educadas num espaço isolado do mundo, aparentemente idílico.
Luísa Cruz, Vera Mantero e Mariana Tengner Barros são três professoras que, num ambiente controlado de forma quase doentia, guiam um grupo de nove jovens ginastas na interpretação física e emocional do desejo de ser a melhor ou, pelo menos, ser capaz de preencher o espaço vazio de um futuro desconhecido. “Interessava-me muito explorar a dimensão atlética e a força competitiva feminina, mas também o aperfeiçoamento constante para um fim que não se sabe ao certo qual é”, conta John Romão. Numa reflexão sobre a ordem e o caos, sobre o que se vê e o que realmente é, o encenador cria um ambiente inquietante em que cada movimento, cada dor, cada medo são objetificados e analisados como se de uma experiência de laboratório se tratasse.
A educação física das raparigas esculpe-lhes a alma através do corpo, desenhando na alcatifa os percursos de vida dominados pelo terror da culpa, do desejo de serem olhadas, sacrificadas como obras de arte. A procura de validação e amor é um combate constante contra as inseguranças que abalam a existência de cada uma, impedindo-as de viver, de fazer coisas belas. As alunas correm desenfreadamente para os braços da perfeição. Mas nada do que está vivo é perfeito, o incompleto é uma condição inerente à vida. As raparigas experimentam, assim, um desejo de autodestruição inconsciente. Nas palavras de Romão, “o escape para a liberdade é sempre um gesto de transgressão”. M.A.N. Culturgest > R. Arco do Cego 77, Lisboa > T. 21 790 5155 > até 18 jan, qui-sex 21h, sáb 19h > €14

2. “Sem Flores Nem Coroas”, São Luiz Teatro Municipal
Os brahmins, ou brâmanes, são a cabeça do deus hindu da criação, Brahma, e os dalits nem os pés são. Hão de ser a terra que Brahma pisa. Os brâmanes são a casta de estatuto mais elevado e privilegiado da Índia, os dalits varrem as ruas e fazem a limpeza manual de excrementos de casas de banho públicas e privadas. Dos dalits não reza esta história, só dos brahmins. No caso, uma família brâmane goesa e católica, a viver numa Goa sob o jugo português, momentos antes da invasão das tropas da União Indiana, em 1961. A perda de Goa, num processo que durou apenas 36 horas, marca o início do fim do império português. Escrita em 1967 por Orlando da Costa (pai do primeiro-ministro António Costa) e publicada em 1971, Sem Flores Nem Coroas nasce de uma coprodução entre a companhia Escola de Mulheres (que cumpre, em 2020, 25 anos de vida) e o São Luiz Teatro Municipal, com encenação de Fernanda Lapa.
“Estas personagens são muito interessantes”, diz a encenadora. “Por um lado, são realistas, humanas, cheias de contradições; por outro, são simbólicas – do colonialismo, da exploração dos outros, dos proveitos e privilégios.” Os interlúdios da ação são feitos ao som do piano: Poemas em Prosa, da autoria de Fernando Lopes-Graça, interpretados por Nuno Vieira da Almeida, sobre poemas do indiano Rabindranath Tagore, de quem Orlando da Costa era grande fã. São Luiz Teatro Municipal > R. António Maria Cardoso, 38, Lisboa > T. 21 325 7640 > até 19 jan, qua, sex-sáb 21h, qui 20h, dom 17h30 > €12-€15

3. “Canto da Europa”, Teatro Nacional D. Maria II
Há uma série de sentimentos que nos são veiculados em catadupa, sob a forma de problemas do primeiro mas também do terceiro mundo, sob a forma de histórias de pessoas cruzadas com as da História – que têm como centro a Europa, personificada num coro.
Doze atores, vestidos de preto-e-branco, fazem coexistir dois mundos no palco, assim como na vida: o de cima e o de baixo, o das pessoas visíveis e oficiais e o das anónimas e clandestinas. Ambas fazem o mundo avançar quando tem de avançar e retroceder quando tem de retroceder, no que esse desequilíbrio de privilégios tem de profundamente injusto. O texto e a encenação são de Jacinto Lucas Pires. Perto do final, ouve-se que “a Europa está à beira do precipício”, e, de novo, alguém se apercebe de que há qualquer coisa no lixo, entre sacos e caixotes: uma ideia, uma ideia de flor. Teatro Nacional D. Maria II > Pç. D. Pedro IV, Lisboa > T. 21 325 0800 > até 26 jan, qua, sáb 19h30, qui, sex 21h30, dom 16h30 > €11
4. “Habrás de Ir a la Guerra que Empieza Hoy”, Teatro do Bairro Alto
Por falar em tempo de mudança: o galego Pablo Fidalgo, que na semana passada professava a necessidade de libertação das amarras do corpo em Anarquismos (Pelo meio do quarto corre um rio mais claro), apresenta nesta semana, também no Teatro do Bairro Alto, uma peça sobre os imponderáveis da guerra. É um texto em formato de dedicatória ao tio-bisavô do autor e encenador: Giordano Lareo foi prisioneiro na Guerra Civil espanhola, escapou à execução e partiu para o exílio. Foi professor, tradutor, representante da Nestlé na Patagónia, inventor de um sofá-cama e autor do primeiro manual de origâmi, publicado na Argentina. “O exílio é melhor vivê-lo como um pássaro”, diz, a certa altura, o intérprete Cláudio da Silva. No chão, escuro, um cemitério de pássaros feitos com a técnica japonesa do origâmi, em papel branco, meticulosamente alinhados em fileiras. “Sinto que vivi algo real.” Nós colocamo–nos de fora, num lugar outro, no exílio, para pensarmos a guerra – para nos pensarmos a nós mesmos. Teatro do Bairro Alto > R. Tenente Raul Cascais, 1A, Lisboa > T. 21 875 8000 > até 18 jan, qui 19h, sex-sáb 21h30 > €12