Habitar uma cidade não é só residir nela. É também viver os seus edifícios e infraestruturas, um sistema complexo de camadas de que nem sempre temos consciência, mas que determina o nosso dia a dia.
A ideia de cidade enquanto invenção humana está por detrás da 14ª edição da Open House Lisboa. Serão dois dias que nos convidam a olhar com olhos de ver para edifícios públicos, monumentos, palácios, casas particulares – e a pensar sobre aquilo que faz Lisboa ser Lisboa, desafiam os comissários desta edição, os arquitetos Daniela Sá e João Carmo Simões, convidados pela Trienal de Arquitectura de Lisboa. “A arquitetura não se resume a edifícios excecionais, vistosos”, diz Daniela Sá, “é um sistema que liga tudo e todos, que permite viver em comunidade”.
Sob o mote A Invenção de Lisboa, neste fim de semana, dias 10 e 11, as pistas são lançadas em visitas gratuitas (livres, acompanhadas por voluntários ou comentadas por especialistas ou pelos próprios autores dos projetos).

Entre os 23 edifícios estreantes nesta edição estão o Panteão Nacional, o Palácio Vilalva – Provedoria da Justiça e a Casa Ásia – Coleção Francisco Capelo. O programa inclui ainda quatro percursos urbanos, em novos trajetos temáticos guiados por especialistas, visitas a 21 locais para pessoas com necessidades especiais e um programa de atividades dirigidas a crianças e jovens (visitas, passeios, jogos e oficinas).
Olhando atentamente para Lisboa, uma cidade em permanente desnível, fica evidente que fomos bastante inventivos. Dos grandes planos urbanos – a zona ribeirinha conquistada ao Tejo ou a Baixa pombalina, por exemplo – aos pequenos sinais que se repetem pelas ruas – veja-se a Rua do Alecrim construída sobre arcos. O Aqueduto das Águas Livres é o exemplo da ambição de um rei (D. João V) em modernizar a capital, equiparando-a às demais europeias, enquanto os ascensores do final do século XIX vieram suavizar as colinas.
João Carmo Simões sublinha: “O modo como desenhamos as cidades tem um impacto decisivo na qualidade de vida de quem as habita. Pensar sobre aquilo que constrói Lisboa é pensar como queremos viver em conjunto.”
Open House Lisboa > 10-11 mai, sáb-dom > grátis, sem marcação > programa em trienaldelisboa.com/ohl
Três destaques a não perder
Casa Ásia – Coleção Francisco Capelo

Às portas do Bairro Alto, o Palácio de São Roque – Portugal da Gama foi recuperado e musealizado para expor um importante acervo de arte asiática, do século III a.C. ao início do século XX, reunido pelo colecionador Francisco Capelo ao longo de mais de 20 anos. João Pedro Falcão de Campos, autor do projeto de reabilitação, e Filipe Alarcão, responsável pelo design expositivo, conduzem duas visitas guiadas em dias diferentes. Lg. Trindade Coelho, 22 > sáb-dom 10h-17h > visitas guiadas por João Pedro Falcão de Campos (sáb 11h), equipa do museu (sáb 15h) e Filipe Alarcão (dom 15h)
Percurso A Colina Acessível

O arquiteto João Favila Menezes ajudará a vencer a colina do Castelo, desde a Rua dos Douradores ao Miradouro da Graça, através das ligações de acesso que foram sendo criadas de forma a suavizar o trajeto. A Colina Acessível é um dos quatro percursos desta edição da Open House. O historiador Anísio Franco será o guia do percurso Do Arco ao Rossio, uma Viagem pela Racionalidade Pombalina (11 mai, dom 15h); os arquitetos paisagistas João Gomes da Silva e Inês Norton conduzem o passeio A Ribeira de Lisboa, entre o Mosteiro de São Vicente de Fora e a Ribeira das Naus (10 mai, sáb 14h30); e Mara Fava e Margarida Filipe, da EPAL, levam os curiosos pelo Aqueduto de Lisboa (10 mai, sáb 10h), um percurso de 3,5 km entre o vale de Alcântara e o Miradouro de São Pedro de Alcântara. Ponto de partida: R. dos Douradores, 192 > 11 mai, dom 10h > duração 1h15 > 30 pessoas
Palácio Vilalva – Provedoria da Justiça

A cada edição, a Open House abre a possibilidade de entrar em edifícios que não são visitáveis. Uma das novidades nesta 14.ª edição, o palacete de José Maria Eugénio de Almeida definia os limites de Lisboa no século XVIII. A propriedade incluía o Parque de Santa Gertrudes, um jardim particular com cocheiras e cavalariças, que hoje acolhe a Fundação Calouste Gulbenkian. O Palácio Vilalva, como também era conhecido, desenvolve-se a partir de uma escadaria central que liga os dois pisos onde se concentravam as salas e os salões sociais, decorados com estuques e soalhos de parquet que o grande capitalista de oitocentos tratou pessoalmente de escolher e encomendar em Paris. Entre 1946 e 2006, o Governo Militar de Lisboa estava aqui sediado. Desde 2023, é a morada da Provedoria da Justiça. R. Marquês de Fronteira, 1 > sáb-dom 10h-13h, 14h-17h > visitas guiadas por especialistas sáb-dom 10h e 14h