Os palcos não se medem aos palmos”, diz Alberto Índio, enquanto recorda alguns bons momentos do Hotfive.
Assim de cabeça, o proprietário do clube de jazz cita as presenças de Jacinta, Carlos Bica, Vozes da Rádio, David Binney ou Charlie Musselwhite. Este último, uma lenda do blues, apareceu sem se fazer anunciar e, pouco depois, contagiado pela energia dos músicos que actuavam naquela noite, juntou-se a eles com a sua harmónica. São momentos como este, de improviso puro e duro, que contribuem para a mística do espaço. “As pessoas vêm para ouvir boa música, independentemente da banda que está a tocar.” Quando abriu, há cerca de três anos, não havia nada que se aproximasse no centro do Porto. “Não fiz qualquer estudo de mercado, só queria o meu cantinho da música”, conta Alberto, também ele profissional da área.
Como grande apreciador de jazz, o conceito de clube “tinha tudo a ver comigo e com este lugar”. Falamos do Largo Actor Dias, bem ao lado da Sé do Porto e da muralha Fernandina.
A localização estratégica garante-lhe visitas frequentes de turistas, normalmente atraídos por este género musical. O som, apesar de tudo, não é fundamentalista e admite fugas para vertentes como blues, soul ou funk.
Aberto de quarta a domingo, o Hotfive propõe noites com algumas variações. Quarta-feira é dia de tertúlia entre os músicos, com a jam session, aberta a quem quiser participar. À quinta, dá-se oportunidade a jovens bandas de apresentar os seus projectos. Sextas e sábados são preenchidos com nomes consagrados ou presenças assíduas do clube, como os Budda Power Blues ou a Minneman Blues Band, que acabam por funcionar como bandas residentes e garantem sempre casa cheia. O domingo ganha um ambiente mais familiar, com os sons acústicos a dominar.
Nem sempre tem sido fácil manter uma casa aberta, com música ao vivo, cinco dias por semana.
“Mas tem-me dado algum gozo conseguir andar para a frente.”
ATRÁS DA MOVIDA
Desde a inauguração do Plano B, em Dezembro de 2006, os sócios sempre quiseram apostar em concertos regulares. “Já tivemos bandas e sabíamos da dificuldade, no Porto, de encontrar sítios para tocar”, diz Filipe Teixeira, o responsável pela programação musical. Na altura, a Baixa ainda não vivia o momento frenético actual, o Plano B ainda não era uma das casas da moda e músicos e promotores não faziam fila para mostrar o seu trabalho. Hoje, muita coisa mudou. “Às vezes a dificuldade está em tomar decisões e seleccionar bandas”, conta.
Na caixa negra iluminada por uma imensa bola de espelhos, os ritmos tanto podem passar pela electrónica experimental, como avançar para outro extremo, do jazz ao rockabilly. “Gostamos de ter alguma diversidade, desde que sejam projectos coerentes e interessantes, consagrados ou ainda por conhecer.” Os maiores elogios dos músicos apontam para o ambiente intimista, de maior proximidade com o público. No caso de Paulo Furtado, dos Wray Gun, a sala de concertos ganhou o dobro do tamanho, com o vocalista a subir para o balcão do bar. Muitos momentos marcantes se seguiram, com nomes nacionais e estrangeiros, como Rita Redshoes, Power Solo, Clash City Rockers ou Legendary Tiger Man.
Existem actuações quase todos os fins-de-semana, normalmente à sexta e ao sábado, com as escolhas a ter em conta a programação alinhada para os restantes espaços do Plano B, seja um dj set ou uma performance. “Procuramos que haja alguma identificação entre as diferentes propostas.” Ao contrário do que se poderia pensar, a movida das ruas acaba por não ajudar a promover os concertos. “À hora a que começam, as pessoas preferem ficar lá fora. O nosso público, normalmente, já sabe ao que vem.”
PERÍODO DE REFLEXÃO
O Maus Hábitos acaba de festejar oito anos de vida e é quase um clássico deste formato intimista de concertos, precursor de um modelo de intervenção cultural seguido por outras casas. Na verdade, quando iniciaram actividade, outras artes estavam em destaque. “Os concertos surgiram de forma natural”, recorda Daniel Pires. Graças às generosas dimensões do espaço e à criatividade dos seus programadores, novas propostas nasciam em cada sala. “Até agora já fizemos cerca de 700 concertos.” E serviram de trampolim para muitos artistas, como as bandas Vicious Five e Rose Blanket.
Também aqui a agenda prima pela diversidade.
“Gosto de música. Ponto. Quando os programadores fazem sempre a mesma coisa, quebram a possibilidade de criação de novos públicos.” Daniel Pires assume estar a viver-se no Maus Hábitos um período de reflexão e de mudança.
“O modelo esgotou-se e queremos reformulá-lo.
Talvez privilegiar as práticas artísticas mais do que a actividade nocturna.” Certo é que, durante estes anos, a indústria musical do Porto cresceu e floresceu. “Hoje é muito mais fácil para uma banda apresentar-se ao vivo, há uma imensidão de espaços.” A vantagem destes concertos prevalece: a grande partilha entre os músicos e o público. “Quando as coisas correm bem, as pessoas ficam visivelmente agradadas, é quase como terem um espectáculo na sala de visitas.” Quando correm mal, como foi o caso do concerto dos Mécanosphére, podem acabar com Adolfo Luxúria Canibal a partir as cadeiras todas. “Fiquei furioso”, recorda Daniel.
CALDEIRÃO CULTURAL
Seguro do seu modelo está Rui Pina, um dos sócios do Breyner 85, um verdadeiro caldeirão musical com academia, salas de ensaio, produção áudio e vídeo. “Uma das pedras basilares do projecto é a apresentação ao público, como um fechar do ciclo.” À imagem dos clubes londrinos, estão abertos diariamente e três vezes por semana, pelo menos, têm animação ao vivo. Com poucos meses de vida, mas muita experiência acumulada na área, conseguiram afirmar-se na noite de Porto. “Lançamos desafios permanentes às bandas e há um grande esforço técnico e financeiro.” Inovaram ao praticarem uma política de cachet fixo, conscientes da dificuldade em acompanharem os preços de Lisboa. Em troca, garantem boas condições para os artistas apresentarem o seu trabalho, com toda a dignidade.
Independentemente do tamanho do palco. “Se, há alguns anos, a oferta se concentrava nas zonas industriais, que funcionavam como armazéns de pessoas, hoje parece estar a assistir-se ao nascimento de uma coisa muito bonita, com o centro histórico a fervilhar de animação e uma distribuição democrática do público.” A agenda pretende ser abrangente: às quartas-feiras, o palco está aberto aos novos talentos; às sextas e sábados, a programação tem a chancela artística dos sócios e tanto vai do jazz, uma preferência da casa, ao reggae; as primeiras terças-feiras de cada mês estão reservadas a estilos musicais especiais, como o fado; e os domingos são preenchidos com jam session, para deixar rolar a empatia entre os músicos. Segundo Rui Pina, “o Porto é uma cidade muito dinâmica e tem das melhores escolas de música do País. Não faltam propostas em cima da mesa”.
ROTEIRO DE BARES COM MÚSICA AO VIVO
Altar Café Concerto Altar para todos os géneros musicais, do rock ao reggae. R. de Cedofeita, 516 T. 91 116 7778 www.myspace.com/altarcafeconcerto
Armazém do Chá Ao fim-de-semana, os concertos são habituais num palco multifuncional. R. José Falcão, 180 T. 22 244 4223 www.armazemdocha.com Breyner 85 R. do Breyner, 85, Porto T. 22 201 3172/93 644 0865 www.breyner85.com www.myspace.com/breyner85
Casa do Livro As quintas-feiras são noites de concertos jazz, em ambiente de sala de estar. R. Galeria de Paris, 85 T. 22 202 5101 www.casadolivro.pt
Clube Literário do Porto Fim-de-semana com muita música clássica, mas também jazz ou bossa nova, com vista para o Douro. Rua Nova da Alfândega, 22 T. 22 208 92 28 www.clubeliterariodoporto.co.pt
Hotfive Largo Actor Dias, 51 T. 91 901 5374 www.hotfive.eu Maus Hábitos R. Passos Manuel, 178, 4.º andar T. 22 208 7268 www.maushabitos.com
O Meu Mercedes é Maior que o Teu Os projectos independentes, de bandas novas e consagradas, destacam-se na programação. Há que estar atento à página, porque nem todas as semanas existem concertos. R. da Lada, Ribeira, T. 22 208 2151 www.omeumercedes.com
Plano B R. Cândido dos Reis, 30 www.planobporto.com
Pin-Up Bar O rock tem dominado a programação, embora se admitam intrusões de outros géneros, com os concertos normalmente agendados para a sexta e sábado. R. Sá da Bandeira, 800 T. 22 017 5246 www.myspace.com/pinupbar
Super Bock Club B Flat Clube de jazz com longa história, agora instalado no porto de Leixões, com concertos de quarta a sábado. Estação Passageiros Porto de Leixões, Av. Dr. Antunes Guimarães, Matosinhos, T. 91 196 8834 http://www.superbock.pt/SuperBrand/ superbockclub/
Tertúlia Castelense Na cave deste espaço emblemático, o palco está aberto a novos e consagrados artistas. A programação é ecléctica, como se pode constatar pela agenda de Abril: fado, tunas, música brasileira, projectos independentes, punk-rock, jazz, rock. Os concertos costumam concentrar-se entre quarta e sábado. Castelo da Maia, R. Augusto Nogueira da Silva, 779, Maia T. 22 982 9425 www.tertuliacastelense.com