Se tivermos tempo para observar conscientemente aquilo que nos rodeia, talvez reparemos que o mundo está, literalmente, a perder a cor. Os carros e até os eletrodomésticos e telemóveis parecem ter deixado para trás as cores mais vivas. Os edifícios, incluindo as nossas casas, adotaram linhas direitas e tons neutros. As lojas tornaram-se mais minimalistas. Tudo parece mais simples e “limpo” e, por isso mesmo, tudo parece mais com tudo.
A geometria, a funcionalidade e a simplicidade ganharam espaço na forma como pensamos os objetos e os lugares que ocupamos. O preto, o branco, o cinzento e o bege tornaram-se escolhas quase religiosas. Ganhámos praticidade, facilidade e uma certa sensação de ordem. Mas, perante estas dinâmicas que “gritam tendência” e que a sociedade vai aceitando como bonitas, dou por mim a perguntar: será que, ao simplificarmos aquilo que nos rodeia, também fomos deixando de reparar nos pequenos detalhes? Será que, antigamente, éramos mais felizes ou simplesmente aprendemos a desejar coisas diferentes?
Quero acreditar que o passado não foi necessariamente melhor. Talvez apenas nos tenhamos habituado a um certo excesso de estímulos, de opções, de escolhas, de expectativas e até de exigências. Estamos rodeados de mais possibilidades e habituámo-nos a ter cada vez mais coisas ao nosso alcance. Mas será que a facilidade com que acedemos a tudo também influencia a forma como vivemos e valorizamos cada experiência? Talvez seja precisamente por isso que algumas das memórias mais felizes que as pessoas guardam não estejam associadas a grandes acontecimentos da sua vida, mas a vivências simples.
No meu caso, uma memória que mantenho muito viva é a de ir ao McDonald’s. Era um dia especial, quase raro. Talvez porque não estivéssemos tão habituados às refeições rápidas, mas também porque era um momento em que a minha família me proporcionava algo diferente. E eu era feliz, com tudo e sem nada. Lembro-me também da comida da minha avó, dos pratos que fazia porque se sabia que gostávamos deles, da confeção demorada e das receitas escritas à mão. As duas experiências eram de algum modo diferentes, mas guardo-lhes um igual carinho. Em comum, havia algo que ia além da comida: o tempo, a atenção e a presença.
E é aqui que a Economia entra mais uma vez (na minha vida) e que ajuda a compreender melhor as nossas escolhas. Aprendemos que a escassez resulta da existência de recursos limitados perante necessidades e desejos que procuramos satisfazer de uma forma contínua e ilimitada. A escassez não influencia apenas aquilo que escolhemos, mas a forma como atribuímos valor às coisas. Talvez fosse precisamente por não acontecer muitas vezes que ir ao McDonald’s era tão especial. E talvez algumas das experiências que hoje recordamos com mais carinho não tenham sido extraordinárias por aquilo que eram, mas pelas circunstâncias em que aconteceram.
O valor que atribuímos às coisas nem sempre corresponde ao seu valor material, pois depende também das experiências que vivemos, das pessoas com quem as partilhamos e das memórias que construímos. Por isso, quando penso na felicidade e na forma como o bem-estar individual se reflete no coletivo, não consigo deixar de questionar aquilo a que damos valor e o que, enquanto sociedade, escolhemos valorizar.
Hoje é relativamente mais fácil comprar quase tudo. Podemos encomendar comida sem sair de casa e resolver em poucos minutos coisas que antes exigiam algum planeamento. Ganhámos conveniência, e por isso mesmo também nos tenhamos habituado a que tudo esteja disponível, ao ponto de algumas experiências perderem parte da sua cor.
Os padrões de consumo também mudaram. Hoje, para muitas crianças, o McDonald’s faz parte da normalidade do dia a dia e não necessariamente de uma ocasião especial. Para muitas famílias, representa uma solução prática num contexto de horários exigentes e de cada vez menos tempo disponível. Não se trata necessariamente de dizer que vivemos melhor ou pior do que as gerações anteriores. Trata-se, acima de tudo, de uma forma diferente de viver. Ao longo do tempo, fomos alterando aquilo que valorizamos e aquilo que entendemos por uma vida melhor. A conveniência, a rapidez e a possibilidade de escolher entre inúmeras opções tornaram-se parte dessa perceção. Possivelmente, a verdadeira escassez dos nossos dias já não seja o acesso aos bens e/ou aos serviços, mas o tempo para os viver/consumir plenamente.
Afinal, habituamos-nos à velha expressão “tempo é dinheiro”. Procuramos rentabilizá-lo como se o seu valor estivesse naquilo que conseguimos fazer com ele. Mas a realidade é que o tempo não volta. Os lugares mudam, as pessoas mudam e até as coisas mais simples deixam de fazer parte dos nossos dias. Talvez seja por isso que certas memórias nos pareçam tão cheias de cor pois guardam não só aquilo que vivemos, mas também uma parte de quem éramos. A sua cor está naquilo que não se repete. É essa, afinal, a verdadeira cor da escassez.
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