Sem explicações dos médicos e a lidar com o coronovírus há muito mais tempo do que a esmagadora maioria dos doentes, estes pacientes de “longo curso”, como eles próprios se apelidam, viram-se para grupos específicos na Internet, incluindo Facebook, Reddit e Slack. “Diagnosticamo-nos uns aos outros”, explica Peggy Goroly, de 56 anos, de Long Island, EUA, um dos 17 casos de pessoas com sintomas há mais de 100 dias contados pelo Business Insider.
Goroly, por exemplo, tem sintomas desde 5 de março. Começou por ter tosse, fadiga e falta de ar. As pálpebras e os lábios adquiriram uma coloração arroxeada. Testou positivo para o SARS-CoV-2 em abril e novamente em maio. No final desse mês veio o primeiro teste negativo, mas, 100 dias depois, a maioria dos sintomas ainda não desapareceu.
Compreensão, Goroly só encontrou no grupo de apoio online. Muitos dos elementos já fizeram várias visitas às urgências. A maioria tem as vidas suspensas, alguns perderam o emprego, outros tiveram de pedir atestados de incapacidade. Entre os sintomas que não se vão embora estão dores no peito, falta de ar, náuseas, palpitações, perda do olfato e do paladar.
Inicialmente, a Organização Mundial de Saúde apontava para que a recuperação de um doente com Covid-19 pudesse demorar até seis semanas para os casos mais graves, mas, mais recentemente, já admitiu a existência de doentes com sintomas a longo prazo, sem mencionar um limite.
No início deste mês, Maria Van Kerkhove, que lidera a resposta técnica da OMS à pandemia, reconheceu, em conferência de imprensa, que há pessoas “com sintomas persistentes”, que podem sentir-se cansadas “durante um tempo”.
No entanto, as histórias recolhidas pelo Businesse Insider mostram a realidade de viver com sintomas durante mais de três meses. Voltemos a Goroly: para esta americana, uma ida às compras implica passar o resto do dia no sofá, com dificuldades para respirar. Passear o cão ou ir ver a caixa do correio são outras tarefas quase sobrehumanas para outros “maratonistas” da Covid.
Cheyenne Beyer tem 27 anos e vive em Austin, no Texas. Desde fevereiro, foi às urgências três vezes. Só testou positivo em abril porque em março ainda não cumpria os critérios para ser testada. Quando o diagnóstico chegou, sofria de taquicardia e tinha os níveis de oxigénio no sangue abaixo do normal. Em maio passou uma noite internada, mas teve alta – as análises e os exames vinham normais. Devia ser ansiedade, ouviu mais do que uma vez.
“Há tantas pessoas infetadas que vai haver umas quantas que reagem de forma diferente”, explica Ramzi Asfour, infecciologista de São Francisco. “Temos de separar os danos da doença. Os sintomas são, provavelmente, de uma reação imunulógica”.
“Temos de olhar um pouco mais profundamente”, acredita o especialista. “Era uma pessoa com stress crónico? Talvez com um negócio de sucesso, mas sempre a correr, cinco a seis horas de sono por noite, o que sabemos que não é suficiente. E apanham Covid e têm estes sintomas crónicos. Isto pode acontecer depois de se ter pneumonia”, explica.
Felecia Jester começou com febre, dores no corpo e arrepios a 11 de março, numa altura em que tinha dois empregos e dormia cerca de três horas por noite. A americana de 38 anos só começou a sentir-se capaz de trabalhar, a partir de casa, algumas horas por dia, em meados de junho. Mas continua a sentir-se “fisicamente exausta.