Donald Trump foi alvo de uma tentativa de assassínio, durante um comício realizado neste sábado, 13, em Butler, cidade rural no estado da Pensilvânia, do qual saiu praticamente ileso apesar do grande risco que correu. É essa a abordagem que os Serviços Secretos norte-americanos revelaram estar a adotar na investigação ao crime, depois de, numa fase inicial, o porta-voz desta agência federal se ter referido ao caso como um “incidente”.

Pelo menos um dos apoiantes de Trump morreu na sequência dos cerca de dez tiros disparados enquanto o ex-presidente dos Estados Unidos da América, novamente candidato do Partido Republicano à Casa Branca (a convenção para oficializar a nomeação começa já esta segunda-feira, 15), discursava num palco ao ar livre – pelas 23h15 de Lisboa.

Um dos disparos atingiu de raspão a orelha direita do magnata nova-iorquino, confirmou o próprio, numa declaração publicada na sua rede social, três horas após o tiroteio. Isso explica o facto de ter abandonado o palco com sangue no rosto, protegido e retirado por agentes dos Serviços Secretos, depois de alguns segundos de pânico, agachado junto do púlpito a partir do qual se dirigia a cerca de 50 mil apoiantes. Embora ferido, Trump abandonou depois o palco pelo próprio pé, perante a informação de que o atirador tinha sido abatido, e não sem antes cerrar o punho na direção dos apoiantes.

Segundo os Serviços Secretos, os disparados foram realizados a partir do exterior do perímetro de segurança do comício. Vários líderes mundiais, assim como o atual Presidente dos EUA, Joe Biden, depressa vieram a público condenar o atentado e manifestar satisfação por Donald Trump ter escapado apenas com um ferimento superficial, face ao perigo de vida que correu.

Donald Trump terá sido atingido por um projétil de baixo calibre, este sábado, quando iniciava um comício no estado da Pensilvânia. O ex-presidente e candidato a regressar à Casa Branca, nas eleições presidenciais de novembro, foi de imediato retirado do palco pelos Serviços Secretos, com sangue no rosto, mas encontra-se livre de perigo. Ouviram-se vários barulhos consecutivos, provavelmente disparos, e Trump baixou-se para se proteger, abandonando o púlpito pelo próprio pé e não sem antes cerrar o punho na direção dos seus apoiantes, enquanto era rodeado pelos agentes de segurança.

Ainda não existe qualquer confirmação oficial, mas pelas imagens já partilhadas na rede social X é de considerar uma tentativa de atentado contra Donald Trump.

Segundo o porta-voz dos Serviços Secretos norte-americanos, Anthony Guglielmi, foi aberta uma investigação “a um incidente” ocorrido durante um comício de Trump, estando garantida a sua segurança.

Os acontecimentos ocorreram pelas 23h15 de Lisboa, e os cerca de dez supostos tiros ouvidos terão atingido, também, alguns dos apoiantes de Trump. O ex-presidente terá sido atingido de raspão numa orelha.

O local, na cidade rural de Butler, já foi isolado pelas autoridades e está a ser tratado como um cenário de crime.

Jornais como o The New York Times e o The Washington Post avançam que o presumível atirador foi abatido.

Serviços Secretos retiram Trump do palco onde discursava na cidade de Butler, na Pensilvânia Foto: Anna Moneymaker/Getty Images

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A administração do Grupo Volkswagen garantiu aos representantes dos trabalhadores da Autoeuropa que está a considerar trazer o fabrico de um carro elétrico para a Autoeuropa, no decorrer de um encontro do Comité Mundial das Comissões de Trabalhadores deste grupo alemão, que decorreu em Wolfsburgo nos passados dias 27 e 28 de junho.

A informação foi avançada à Agência Lusa por Rogério Nogueira, o coordenador da Comissão de Trabalhadores da unidade de Palmela, que garantiu que a decisão será tomada nos próximos meses.

Desde que a Europa decidiu avançar com uma transição acelerada para a mobilidade elétrica, acabando com a venda de veículos com motor a combustão até 2035, que os funcionários da maior fábrica de automóveis de Portugal, a Autoeuropa, têm manifestado a sua preocupação com o futuro desta unidade fabril.

“Estamos, como é óbvio, bastante agradados com a possibilidade de a Autoeuropa estar em posição de poder receber mais um modelo para a produção, e desta vez elétrico”, disse Rogério Nogueira.

Apesar da grande aceitação internacional do modelo que ali é produzido, o T-Roc, o terceiro modelo mais vendido em toda a Europa em 2023, o aproximar do final dos carros a combustão na Europa poderia pôr em causa a viabilidade desta unidade fabril. “Como é do conhecimento de todos, está a ser feito um grande investimento para o futuro, preparando a fábrica para estar em condições de produzir também carros elétricos. A Comissão de Trabalhadores continuará a fazer pressão ao seu nível para que essa possibilidade se torne uma certeza”, acrescentou.

Continental A empresa que fabrica pneus em Lousado, Famalicão, é a quarta maior exportadora nacional

Mas esta não é apenas uma boa notícia para os trabalhadores da Autoeuropa.

Esta informação surge na mesma semana em que a fábrica da Stellantis de Mangualde apresentou os primeiros veículos elétricos produzidos no País. Tratam-se de furgões ligeiros, comerciais e de passageiros, das quatro marcas fabricadas naquela unidade fabril: Peugeot, Citroën, Opel e Fiat.

Para iniciar esta alteração, Mangualde investiu um total de 30 milhões de euros na construção de uma nova linha de montagem que pudesse acomodar as baterias.

O anúncio da vinda de um veículo elétrico para a Autoeuropa e o início de produção de veículos elétricos em Mangualde trazem também um novo alento para a indústria de componentes para automóveis, um dos setores que mais têm contribuído para o crescimento económico do País.

Um cluster em alta

Atualmente, existem cerca de 350 empresas deste setor, que gera um volume de negócios de 15 mil milhões de euros, o equivalente a 5,7% do PIB. Garante postos de trabalho a 63 mil pessoas e, no ano passado, atingiu um total de 12,8 mil milhões de euros de exportações, sendo responsável por 16,5% das vendas ao exterior de bens transacionáveis.

Segundo a AFIA, a Associação dos Fornecedores da Indústria Automóvel, 95% dos carros que circulam em toda a Europa têm pelo menos uma das suas peças “made in Portugal”.

No ano passado, produziram-se 318 321 veículos nas fábricas instaladas no nosso país, o terceiro melhor ano de sempre, apenas superado por 2018 e 2022. E esta quebra deu-se devido à paralisação forçada da Autoeuropa em setembro, por falta de peças de um fornecedor esloveno, o que se traduziu numa quebra de 15 mil viaturas na produção anual.

O T-Roc, produzido na Autoeuropa, foi o terceiro modelo mais vendido na Europa no ano passado. Mas
as vendas continuam em alta e voltou a conquistar os
europeus. Em maio deste ano, ascendeu ao primeiro lugar, acima do seu “irmão”
VW Golf

Da totalidade dos carros produzidos em Portugal, 97,8% destas viaturas foram canalizadas para o mercado externo, sendo a Alemanha o principal cliente, seguindo-se a França, Itália e Espanha.

Basta olhar para a lista dos maiores exportadores de 2023 para encontrarmos sete empresas do setor automóvel entre as dez primeiras: Autoeuropa, Continental Mabor, Bosch Car Multimedia, Aptivport Services, Visteon Electronics Corporation, Faurécia e Purem Tondela.

A Espanha é o nosso maior cliente, recebendo 27,9% das exportações nacionais, seguindo-se a Alemanha, para onde vão 22,5% dos componentes para automóveis produzidos em Portugal. Juntos, estes dois países absorvem 50,4% das nossas exportações deste setor.

Nos últimos anos, Portugal tem também atraído empresas da área das novas tecnologias automóveis, como os sistemas de informação e gestão de energia. Um dos casos mais emblemáticos é o da Critical TechWorks, uma parceria entre a BMW e a portuguesa Critical Software, que produz soluções informáticas para os veículos da marca bávara. É uma das que mais têm crescido, tendo faturado cerca de 165 milhões de euros em 2023, um aumento de 30% face ao ano anterior, e prevê que o volume de negócios mantenha este ritmo de crescimento em 2024.

A empresa já tem três escritórios no País – Lisboa, Porto e Braga ‒, emprega 2 400 pessoas e quer chegar ao fim deste ano com cerca de três mil funcionários.

Aceitação dos elétricos

Portugal é também um dos países da Europa do Sul com maior penetração de carros elétricos. Segundo os dados da ACAP, no primeiro semestre deste ano, 16,5% dos veículos vendidos no País eram movidos exclusivamente a eletricidade. Mas, se analisarmos apenas as vendas de junho, esta percentagem sobe para os 18,9%, ou seja, cada um em cinco carros vendidos no País é 100% elétrico. Uma tendência que contraria um pouco o que está a acontecer na Europa, cujo mercado tem sentido algum arrefecimento das vendas de veículos elétricos.

No total, foram vendidos em Portugal 137 mil novos veículos ligeiros de passageiros no primeiro semestre do ano, o que corresponde a um aumento de 7,8% face ao mesmo período do ano passado.

Os ligeiros de passageiros alimentados a energias alternativas já representam mais de metade das vendas no País (51,7%), enquanto os que utilizam apenas gasolina são responsáveis por 39,5% das novas matrículas registadas no período em análise. Os carros a gasóleo, que há uns anos dominavam o mercado, resumem-se agora a 8,8% das vendas totais de carros no País.

Os números são claramente positivos para o cluster automóvel nacional e o início da produção de carros elétricos em Mangualde e o anúncio agora da Volkswagen de estar a ponderar trazer um carro elétrico para a Autoeuropa podem ser um catalisador suplementar para dar um novo boost a esta indústria.

A ministra dos Povos Indígenas do Brasil, Sonia Guajajara, criticou o treinador de futebol Abel Ferreira, que dirige o clube brasileiro Palmeiras, por ter declarado que não comanda uma “equipa de índios”, convidando-o a conhecer a história dos indígenas e da colonização de Portugal. A governante aproveitou para recordar o recente mea culpa de Marcelo Rebelo de Sousa, para sublinhar que essa posição é um ponto de partida para “ações concretas de reparação”.

Na quinta-feira, após a vitória sobre o Atlético Goianense, por 3-1, a contar para o campeonato brasileiro, o técnico português valorizou a entrada em campo do médio argentino Aníbal Moreno, que veio devolver a estabilidade habitual ao jogo do Palmeiras, “porque esta não é uma equipa de índios”, referiu. “Temos organização e princípios de jogo, e um deles é o equilíbrio. O Aníbal é um desses pêndulos”, acrescentou, para explicar o efeito dessa sua opção tática no decorrer da partida.

Através da rede social X, Sonia Guajajara insurgiu-se ontem, sexta-feira, contra a expressão utilizada pelo treinador, já depois de este ter apresentado um pedido de desculpa na sua conta de Instagram. “O técnico do Palmeiras errou, e muito, na sua declaração. Gostaria de convidá-lo a conhecer a história dos povos indígenas do Brasil. E também conhecer a história de colonização de Portugal, seu país de origem, em relação ao Brasil e como estamos trabalhando para rever isso”, escreveu a ministra, numa primeira publicação, fazendo depois alusão às recentes palavras de Marcelo. “O próprio presidente de Portugal, recentemente, admitiu que o país foi responsável por uma série de crimes contra escravos e indígenas no Brasil. Uma declaração muito importante porque o reconhecimento de tais crimes é o 1º passo para ações concretas de reparação.”

E continuou, sem se deter: “Seu posicionamento, naquele momento, trouxe para o debate público a relevância inadiável de avançarmos numa agenda de igualdade étnico racial como premissa para a cidadania, com o resgate, a preservação e a valorização da história e dos saberes da cultura afro-indígena do Brasil.”

Mais: “Em junho, inclusive, o governo federal, em visita da ministra Anielle Franco a Portugal, assinou um Memorando de Entendimento com o Observatório do Racismo e Xenofobia do país, que desenvolve ações para sensibilizar e educar a sociedade sobre a importância da igualdade racial.”

Por fim: “Essas ações são importantíssimas e passam também pelo combate a estereótipos em relação a esses povos, que levam a falas inadmissíveis como essa de Abel Ferreira.”

A reação da ministra surgiu depois da retractação de Abel Ferreira. “Repudio toda e qualquer forma de preconceito e discriminação. Infelizmente, há expressões que continuamos a perpetuar sem que nos debrucemos sobre o seu conteúdo. Errei ao usar uma dessas expressões na conferência de imprensa. Reconheço que palavras têm poder e impacto, independentemente da intenção. Todos devemos questionar, pensar e melhorar todos os dias. Peço desculpa a todos, em especial às comunidades indígenas”, escreveu o treinador, bicampeão nacional brasileiro e bicampeão da Taça Libertadores ao serviço do Palmeiras.

Abel Ferreira chegou ao Palmeiras em 2020 Foto: Daniel Castelo Branco/Eurasia Sport Images/Getty Images

As vendas de carros elétricos têm vindo a sofrer algum arrefecimento desde o final do ano passado e a situação poderá agravar-se ainda mais com as novas tarifas alfandegárias criadas pela União Europeia para taxar os veículos elétricos importados da China.

Devido ao preço mais reduzido, os veículos elétricos produzidos na China depressa conquistaram a Europa, passando de 17 mil unidades vendidas, em 2017, para 437 mil, no final do ano passado.

Segundo a Comissão Europeia, este grande crescimento das vendas só é conseguido com os “subsídios desleais” que permitem que os carros elétricos fabricados naquele país cheguem ao nosso mercado a preços muito mais baixos do que os praticados pelos fabricantes europeus.

Bruxelas acusa o governo chinês de desvirtuar a concorrência no setor automóvel, criando preços artificiais para que os seus construtores ganhem quota de mercado. Com o objetivo de conhecer a fundo o nível dos subsídios, a Comissão Europeia fez um estudo exaustivo na China, que começou em outubro do ano passado e se prolongou por nove meses. Após as investigações, Bruxelas chegou à conclusão de que os subsídios injetados pelo governo chinês em toda a cadeia de produção dos carros elétricos ‒ desde o setor mineiro até à fábrica, passando pelos transportes marítimos ‒ são “tão distorcidos” que considerou ser necessário criar tarifas adicionais para neutralizar esta concorrência desleal. Uma medida semelhante, mas não tão severa como a que foi imposta, no ano passado, pela administração Biden nos EUA, que criou uma taxa aduaneira de 100% para todos os veículos elétricos importados da China.

A investigação da Comissão Europeia abrangeu 21 grupos automóveis com fábricas na China, aos quais foi solicitado que fornecessem informações financeiras sobre os seus negócios. Dada a dimensão do mercado, o executivo de Bruxelas escolheu três empresas – BYD, Geely e SAIC – como amostras representativas para compreender a extensão dos subsídios.

Alguns fabricantes chineses de automóveis estão a montar frotas marítimas próprias para exportar os carros

A estas foi solicitado que respondessem a um extenso questionário, que abordava vários componentes do negócio, desde a capacidade de produção, faturação, exportações, cadeias de fornecimento e o grau de utilização de subsídios dados pelo governo chinês. Entre janeiro e março, os inspetores europeus visitaram cerca de uma centena de locais de toda a cadeia de produção. E foi com base nestas evidências que criaram as taxas diferenciadas para cada uma das marcas. Quem se recusou a colaborar, como foi o caso da SAIC ‒ dona de marcas como a MG, Maxus, Roewe e Yuejin ‒, levou com uma tarifa mais agravada, de 37,6%. Já a BYD, que se mostrou mais recetiva às investigações, irá pagar uma taxa de 17,4%, enquanto a Geely pagará 19,9%. E estas tarifas não deixarão de fora os construtores que, embora não sejam chineses, têm fábricas na China, como é o caso da Tesla, BMW e Smart.

Estas tarifas serão cumulativas com a taxa de 10% que estes veículos já pagam quando entram em território europeu, ou seja, contas feitas, alguns automóveis elétricos fabricados na China poderão ter um agravamento de preço de quase 50%, assim que desembarcarem na Europa.

“Demos todas as oportunidades às empresas chinesas, e ao governo da China, para que fornecessem os seus próprios dados, de forma a podermos ter uma imagem mais precisa da situação dos subsídios. Mas algumas empresas, bem como o executivo chinês, decidiram não cooperar com as investigações”, disse Valdis Dombrovskis, na altura o vice-presidente da Comissão Europeia e o responsável por todo este processo.

Estas tarifas entraram em vigor no dia 4 deste mês e estendem-se, de forma provisória, até ao dia 4 de novembro, altura em que se tornam definitivas, caso a China não tome medidas para acabar com os significativos subsídios à produção e exportação de carros elétricos. A VISÃO contactou alguns importadores de carros fabricados na China, que garantiram que já foram obrigados, no dia 4 de julho, a prestar garantias bancárias equivalentes ao valor da nova taxa para poderem levantar os veículos na alfândega.

O contra-ataque

A reação de Pequim não se fez esperar. Assim que foram anunciadas as novas tarifas, o ministro do Comércio chinês afirmou que reserva o direito de apresentar queixa na Organização Mundial do Comércio e tomar medidas necessárias para defender os direitos e interesses das empresas do seu país. Além disso, apelou para que a Comissão Europeia volte atrás na sua decisão, sob o risco de uma retaliação chinesa poder criar disrupção na normalidade de funcionamento do mercado.

Os fabricantes europeus temem que a China possa agora dificultar a exportação de componentes que são fundamentais para produzir veículos elétricos na Europa, como é o caso das baterias. Recorde-se que aquele país é responsável por quase dois terços das baterias para automóveis produzidas em todo o mundo.

Além disso, a China controla também o fornecimento das matérias-primas fundamentais para fabricar as baterias. São os maiores produtores mundiais de grafite e de lítio e têm adquirido minas noutros países para conseguirem controlar o comércio de outras matérias-primas, como é o caso das minas de Cobalto do Congo, onde se extrai as maiores quantidades deste mineral em todo o planeta, e estão a investir fortemente na Indonésia, para ter acesso a grandes quantidades de níquel.

Outro dos riscos que paira no ar é o da China começar a aplicar tarifas semelhantes para os carros europeus que são vendidos no seu país, que hoje é um dos maiores mercados do mundo. Já correu o rumor de que Pequim irá criar uma taxa semelhante para veículos europeus de cilindrada mais elevada, como é o caso dos Mercedes, Porsche ou BMW que ali são vendidos.

Contornar o bloqueio

Para contrariar esta nova medida, muitas empresas chinesas já estão a pensar trazer a sua produção para a Europa, de forma a não serem abrangidos pelas novas taxas, pois se o carro for fabricado dentro da União Europeia, mesmo sendo de uma empresa chinesa, já não é obrigado a pagar as tarifas aduaneiras. A BYD, por exemplo, já está a construir uma fábrica na Hungria, que deverá iniciar a produção de automóveis no próximo ano. Terá uma capacidade inicial de produção de 150 mil carros por ano, mas pode facilmente duplicar este número caso a procura suba.

Quer ainda avançar com uma unidade fabril na Turquia, país que não pertence à União Europeia, mas que tem uma acordo aduaneiro com o espaço comunitário que permite a circulação de bens sem restrições entre as duas regiões.

A Chery, outro construtor chinês que produz a marca Omoda, e que ainda não está presente na Europa, fez uma joint venture com uma empresa espanhola, a EV Motors para poder produzir carros em Barcelona, numa antiga fábrica da Nissan naquela região da Catalunha.

Em declarações à Reuters, o chefe da divisão de operações da Dongfeng, outra marca chinesa, Qian Xie, admitiu que o grupo está em negociações com o governo italiano para construir uma fábrica de automóveis naquele país, e que terá uma capacidade de produção superior a 100 mil veículos.

Uma das soluções mais engenhosas para poder ultrapassar este novo “imposto” foi o negócio que a chinesa Leapmotor fez com a Stellantis, um grupo que controla 13 marcas de automóveis, como a Peugeot, Opel, Fiat e Chrysler, entre outras, e que tem fábricas em quase todas as regiões do globo.

A Stellantis ficou com 21% do capital da Leapmotor e as duas marcas criaram uma empresa (51% Stellantis e 49% Leapmotor) que fica responsável pelas vendas dos veículos fora do mercado chinês.

Com este acordo, a Leapmotor pode produzir os seus carros em qualquer uma das fábricas da Stellantis, desde a Europa à América Latina, passando pelos EUA, e, desta forma, contornar as tarifas que entretanto forem sendo criadas em cada uma das regiões económicas. Além disso, passarão a usar a rede de concessionários da Stellantis, evitando o investimento na distribuição.

A reação generalizada

Ao contrário do que seria de esperar pelas autoridades europeias, as novas tarifas criaram uma onda de contestação por parte dos grandes construtores europeus de automóveis.

Oliver Zipse, CEO da BMW, defende que esta guerra de tarifas entre a UE e a China “irá criar um beco sem saída”. “Não irão fortalecer a competitividade da indústria automóvel europeia, bem pelo contrário. Irá ser prejudicial ao modelo de negócio de empresas que têm atividade global”, justifica o gestor.

Também a Volkswagen, o maior fabricante europeu de automóveis, emitiu um comunicado onde afirma que “os efeitos negativos desta medida ultrapassam claramente os benefícios potenciais que a indústria automóvel europeia possa conseguir”.

Além de rejeitar estas novas taxas alfandegárias, que “a longo prazo não são a melhor política para melhorar a competitividade dos fabricantes europeus”, a Volkswagen reforça que o “timing da decisão da Comissão Europeia será prejudicial” para o mercado de veículos elétricos, que tem tido uma procura fraca.

“O protecionismo não é a resposta para os problemas de hoje. Esperamos sinceramente que as duas partes cheguem a um acordo que não acabe numa guerra comercial”, defendeu Dirk Adelmann, CEO da Smart. Para este gestor, a imposição das tarifas pode levar a um aumento generalizado dos preços dos veículos elétricos na Europa: “Se aceitarmos as tarifas, os europeus ou ‘engolem’ o aumento dos preços ou deixam de comprar carros elétricos, o que seria um desastre para a estratégia europeia.”

Uma das vozes que mais tem contestado a estratégia definida por Bruxelas para a transição para a mobilidade elétrica, o gestor português Carlos Tavares, CEO da Stellantis, também tece duras críticas a estas medidas.

“Nós preferimos que não haja proteções, porque essas só nos irão adormecer neste combate renhido que estamos a travar com a indústria chinesa. Temos tecnologia e estamos a trabalhar duramente na redução de custos para podermos oferecer às classes médias veículos elétricos com um nível de preço que eles possam pagar. Só dessa forma poderemos combater os chineses”, afirmou Carlos Tavares.

Para o gestor, Bruxelas está a corrigir um problema criando outro problema. “A Europa cometeu um erro quando decidiu fazer a transição para a mobilidade elétrica e agora está a tentar corrigir esse erro com taxas. Mas estas vão ter efeitos secundários que não estão a ser avaliados. Irão criar uma bolha na Europa que, posso garantir, irá gerar mais inflação. E para combater essa inflação serão criados mais subsídios. E para financiar esses subsídios serão criados impostos. E isto nunca mais acaba. Esta falta de visão estratégica está a tornar-se um problema para todos os europeus”, esclarece Carlos Tavares.

O gestor afirma que a Europa tem tecnologia “fantástica”, mas tem um grave problema, que é o custo elevado do fabrico dos carros elétricos, nomeadamente das baterias.

Para baixar estes custos, e também para reduzir o risco de estar dependente das baterias chinesas, a Stellantis criou, com a Total Energy, uma gigafábrica de baterias em França, a ACC. Um negócio que interessou à Mercedes, que decidiu também investir. Atualmente, a Stellantis detém 45% do capital, a Mercedes 35% e a Total Energy 20%. 

As vendas de carros
chineses na Europa
passaram de
17 mil unidades,
em 2017, para
437 mil, no ano passado

Segundo Carlos Tavares, o preço de uma bateria tem três grandes componentes: matérias-primas, energia e mão de obra. “Nesta última, é difícil competir com os chineses, mas conseguimos no preço da energia e, para assegurar as matérias-primas, estamos a comprar minas na América do Sul e também na Europa para garantir o fornecimento. Se há cinco anos um fabricante de automóveis dissesse que ia investir em empresas mineiras chamavam-lhe louco”, justifica.

Após terem construído a fábrica de baterias em França, estão agora a pensar abrir mais duas unidades, uma na Alemanha e outra em Itália, mas a decisão ainda está dependente da evolução da procura de carros elétricos no mercado europeu, que tem vindo a sofrer algum arrefecimento ao longo dos últimos meses.

Um fenómeno que é bem visível nos principais portos marítimos da União Europeia, que se estão a transformar em autênticos parques de estacionamento de automóveis, sobretudo oriundos da China. Segundo o jornal francês Le Monde, os portos belgas de Antuérpia e Zeebrugge, que conseguem albergar 130 mil veículos, já têm o espaço totalmente lotado. O Financial Times refere que este acumular de veículos nos portos está também relacionado com o facto de muitas destas marcas chinesas ainda não terem uma rede de distribuição na Europa. Quando as vendas estavam em constante subida, os carros eram levantados do porto no imediato, pois já estavam vendidos quando chegavam à Europa. Agora, têm de esperar até que a venda seja feita.

A transição para a mobilidade elétrica continua a sua marcha, mas estas medidas agora impostas poderão criar um novo travão nas vendas de carros que funcionam apenas com eletricidade. E se estes já são caros para o comum dos cidadãos, podem agora ficar ainda mais inacessíveis.

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