A ministra dos Povos Indígenas do Brasil, Sonia Guajajara, criticou o treinador de futebol Abel Ferreira, que dirige o clube brasileiro Palmeiras, por ter declarado que não comanda uma “equipa de índios”, convidando-o a conhecer a história dos indígenas e da colonização de Portugal. A governante aproveitou para recordar o recente mea culpa de Marcelo Rebelo de Sousa, para sublinhar que essa posição é um ponto de partida para “ações concretas de reparação”.

Na quinta-feira, após a vitória sobre o Atlético Goianense, por 3-1, a contar para o campeonato brasileiro, o técnico português valorizou a entrada em campo do médio argentino Aníbal Moreno, que veio devolver a estabilidade habitual ao jogo do Palmeiras, “porque esta não é uma equipa de índios”, referiu. “Temos organização e princípios de jogo, e um deles é o equilíbrio. O Aníbal é um desses pêndulos”, acrescentou, para explicar o efeito dessa sua opção tática no decorrer da partida.

Através da rede social X, Sonia Guajajara insurgiu-se ontem, sexta-feira, contra a expressão utilizada pelo treinador, já depois de este ter apresentado um pedido de desculpa na sua conta de Instagram. “O técnico do Palmeiras errou, e muito, na sua declaração. Gostaria de convidá-lo a conhecer a história dos povos indígenas do Brasil. E também conhecer a história de colonização de Portugal, seu país de origem, em relação ao Brasil e como estamos trabalhando para rever isso”, escreveu a ministra, numa primeira publicação, fazendo depois alusão às recentes palavras de Marcelo. “O próprio presidente de Portugal, recentemente, admitiu que o país foi responsável por uma série de crimes contra escravos e indígenas no Brasil. Uma declaração muito importante porque o reconhecimento de tais crimes é o 1º passo para ações concretas de reparação.”

E continuou, sem se deter: “Seu posicionamento, naquele momento, trouxe para o debate público a relevância inadiável de avançarmos numa agenda de igualdade étnico racial como premissa para a cidadania, com o resgate, a preservação e a valorização da história e dos saberes da cultura afro-indígena do Brasil.”

Mais: “Em junho, inclusive, o governo federal, em visita da ministra Anielle Franco a Portugal, assinou um Memorando de Entendimento com o Observatório do Racismo e Xenofobia do país, que desenvolve ações para sensibilizar e educar a sociedade sobre a importância da igualdade racial.”

Por fim: “Essas ações são importantíssimas e passam também pelo combate a estereótipos em relação a esses povos, que levam a falas inadmissíveis como essa de Abel Ferreira.”

A reação da ministra surgiu depois da retractação de Abel Ferreira. “Repudio toda e qualquer forma de preconceito e discriminação. Infelizmente, há expressões que continuamos a perpetuar sem que nos debrucemos sobre o seu conteúdo. Errei ao usar uma dessas expressões na conferência de imprensa. Reconheço que palavras têm poder e impacto, independentemente da intenção. Todos devemos questionar, pensar e melhorar todos os dias. Peço desculpa a todos, em especial às comunidades indígenas”, escreveu o treinador, bicampeão nacional brasileiro e bicampeão da Taça Libertadores ao serviço do Palmeiras.

Abel Ferreira chegou ao Palmeiras em 2020 Foto: Daniel Castelo Branco/Eurasia Sport Images/Getty Images

As vendas de carros elétricos têm vindo a sofrer algum arrefecimento desde o final do ano passado e a situação poderá agravar-se ainda mais com as novas tarifas alfandegárias criadas pela União Europeia para taxar os veículos elétricos importados da China.

Devido ao preço mais reduzido, os veículos elétricos produzidos na China depressa conquistaram a Europa, passando de 17 mil unidades vendidas, em 2017, para 437 mil, no final do ano passado.

Segundo a Comissão Europeia, este grande crescimento das vendas só é conseguido com os “subsídios desleais” que permitem que os carros elétricos fabricados naquele país cheguem ao nosso mercado a preços muito mais baixos do que os praticados pelos fabricantes europeus.

Bruxelas acusa o governo chinês de desvirtuar a concorrência no setor automóvel, criando preços artificiais para que os seus construtores ganhem quota de mercado. Com o objetivo de conhecer a fundo o nível dos subsídios, a Comissão Europeia fez um estudo exaustivo na China, que começou em outubro do ano passado e se prolongou por nove meses. Após as investigações, Bruxelas chegou à conclusão de que os subsídios injetados pelo governo chinês em toda a cadeia de produção dos carros elétricos ‒ desde o setor mineiro até à fábrica, passando pelos transportes marítimos ‒ são “tão distorcidos” que considerou ser necessário criar tarifas adicionais para neutralizar esta concorrência desleal. Uma medida semelhante, mas não tão severa como a que foi imposta, no ano passado, pela administração Biden nos EUA, que criou uma taxa aduaneira de 100% para todos os veículos elétricos importados da China.

A investigação da Comissão Europeia abrangeu 21 grupos automóveis com fábricas na China, aos quais foi solicitado que fornecessem informações financeiras sobre os seus negócios. Dada a dimensão do mercado, o executivo de Bruxelas escolheu três empresas – BYD, Geely e SAIC – como amostras representativas para compreender a extensão dos subsídios.

Alguns fabricantes chineses de automóveis estão a montar frotas marítimas próprias para exportar os carros

A estas foi solicitado que respondessem a um extenso questionário, que abordava vários componentes do negócio, desde a capacidade de produção, faturação, exportações, cadeias de fornecimento e o grau de utilização de subsídios dados pelo governo chinês. Entre janeiro e março, os inspetores europeus visitaram cerca de uma centena de locais de toda a cadeia de produção. E foi com base nestas evidências que criaram as taxas diferenciadas para cada uma das marcas. Quem se recusou a colaborar, como foi o caso da SAIC ‒ dona de marcas como a MG, Maxus, Roewe e Yuejin ‒, levou com uma tarifa mais agravada, de 37,6%. Já a BYD, que se mostrou mais recetiva às investigações, irá pagar uma taxa de 17,4%, enquanto a Geely pagará 19,9%. E estas tarifas não deixarão de fora os construtores que, embora não sejam chineses, têm fábricas na China, como é o caso da Tesla, BMW e Smart.

Estas tarifas serão cumulativas com a taxa de 10% que estes veículos já pagam quando entram em território europeu, ou seja, contas feitas, alguns automóveis elétricos fabricados na China poderão ter um agravamento de preço de quase 50%, assim que desembarcarem na Europa.

“Demos todas as oportunidades às empresas chinesas, e ao governo da China, para que fornecessem os seus próprios dados, de forma a podermos ter uma imagem mais precisa da situação dos subsídios. Mas algumas empresas, bem como o executivo chinês, decidiram não cooperar com as investigações”, disse Valdis Dombrovskis, na altura o vice-presidente da Comissão Europeia e o responsável por todo este processo.

Estas tarifas entraram em vigor no dia 4 deste mês e estendem-se, de forma provisória, até ao dia 4 de novembro, altura em que se tornam definitivas, caso a China não tome medidas para acabar com os significativos subsídios à produção e exportação de carros elétricos. A VISÃO contactou alguns importadores de carros fabricados na China, que garantiram que já foram obrigados, no dia 4 de julho, a prestar garantias bancárias equivalentes ao valor da nova taxa para poderem levantar os veículos na alfândega.

O contra-ataque

A reação de Pequim não se fez esperar. Assim que foram anunciadas as novas tarifas, o ministro do Comércio chinês afirmou que reserva o direito de apresentar queixa na Organização Mundial do Comércio e tomar medidas necessárias para defender os direitos e interesses das empresas do seu país. Além disso, apelou para que a Comissão Europeia volte atrás na sua decisão, sob o risco de uma retaliação chinesa poder criar disrupção na normalidade de funcionamento do mercado.

Os fabricantes europeus temem que a China possa agora dificultar a exportação de componentes que são fundamentais para produzir veículos elétricos na Europa, como é o caso das baterias. Recorde-se que aquele país é responsável por quase dois terços das baterias para automóveis produzidas em todo o mundo.

Além disso, a China controla também o fornecimento das matérias-primas fundamentais para fabricar as baterias. São os maiores produtores mundiais de grafite e de lítio e têm adquirido minas noutros países para conseguirem controlar o comércio de outras matérias-primas, como é o caso das minas de Cobalto do Congo, onde se extrai as maiores quantidades deste mineral em todo o planeta, e estão a investir fortemente na Indonésia, para ter acesso a grandes quantidades de níquel.

Outro dos riscos que paira no ar é o da China começar a aplicar tarifas semelhantes para os carros europeus que são vendidos no seu país, que hoje é um dos maiores mercados do mundo. Já correu o rumor de que Pequim irá criar uma taxa semelhante para veículos europeus de cilindrada mais elevada, como é o caso dos Mercedes, Porsche ou BMW que ali são vendidos.

Contornar o bloqueio

Para contrariar esta nova medida, muitas empresas chinesas já estão a pensar trazer a sua produção para a Europa, de forma a não serem abrangidos pelas novas taxas, pois se o carro for fabricado dentro da União Europeia, mesmo sendo de uma empresa chinesa, já não é obrigado a pagar as tarifas aduaneiras. A BYD, por exemplo, já está a construir uma fábrica na Hungria, que deverá iniciar a produção de automóveis no próximo ano. Terá uma capacidade inicial de produção de 150 mil carros por ano, mas pode facilmente duplicar este número caso a procura suba.

Quer ainda avançar com uma unidade fabril na Turquia, país que não pertence à União Europeia, mas que tem uma acordo aduaneiro com o espaço comunitário que permite a circulação de bens sem restrições entre as duas regiões.

A Chery, outro construtor chinês que produz a marca Omoda, e que ainda não está presente na Europa, fez uma joint venture com uma empresa espanhola, a EV Motors para poder produzir carros em Barcelona, numa antiga fábrica da Nissan naquela região da Catalunha.

Em declarações à Reuters, o chefe da divisão de operações da Dongfeng, outra marca chinesa, Qian Xie, admitiu que o grupo está em negociações com o governo italiano para construir uma fábrica de automóveis naquele país, e que terá uma capacidade de produção superior a 100 mil veículos.

Uma das soluções mais engenhosas para poder ultrapassar este novo “imposto” foi o negócio que a chinesa Leapmotor fez com a Stellantis, um grupo que controla 13 marcas de automóveis, como a Peugeot, Opel, Fiat e Chrysler, entre outras, e que tem fábricas em quase todas as regiões do globo.

A Stellantis ficou com 21% do capital da Leapmotor e as duas marcas criaram uma empresa (51% Stellantis e 49% Leapmotor) que fica responsável pelas vendas dos veículos fora do mercado chinês.

Com este acordo, a Leapmotor pode produzir os seus carros em qualquer uma das fábricas da Stellantis, desde a Europa à América Latina, passando pelos EUA, e, desta forma, contornar as tarifas que entretanto forem sendo criadas em cada uma das regiões económicas. Além disso, passarão a usar a rede de concessionários da Stellantis, evitando o investimento na distribuição.

A reação generalizada

Ao contrário do que seria de esperar pelas autoridades europeias, as novas tarifas criaram uma onda de contestação por parte dos grandes construtores europeus de automóveis.

Oliver Zipse, CEO da BMW, defende que esta guerra de tarifas entre a UE e a China “irá criar um beco sem saída”. “Não irão fortalecer a competitividade da indústria automóvel europeia, bem pelo contrário. Irá ser prejudicial ao modelo de negócio de empresas que têm atividade global”, justifica o gestor.

Também a Volkswagen, o maior fabricante europeu de automóveis, emitiu um comunicado onde afirma que “os efeitos negativos desta medida ultrapassam claramente os benefícios potenciais que a indústria automóvel europeia possa conseguir”.

Além de rejeitar estas novas taxas alfandegárias, que “a longo prazo não são a melhor política para melhorar a competitividade dos fabricantes europeus”, a Volkswagen reforça que o “timing da decisão da Comissão Europeia será prejudicial” para o mercado de veículos elétricos, que tem tido uma procura fraca.

“O protecionismo não é a resposta para os problemas de hoje. Esperamos sinceramente que as duas partes cheguem a um acordo que não acabe numa guerra comercial”, defendeu Dirk Adelmann, CEO da Smart. Para este gestor, a imposição das tarifas pode levar a um aumento generalizado dos preços dos veículos elétricos na Europa: “Se aceitarmos as tarifas, os europeus ou ‘engolem’ o aumento dos preços ou deixam de comprar carros elétricos, o que seria um desastre para a estratégia europeia.”

Uma das vozes que mais tem contestado a estratégia definida por Bruxelas para a transição para a mobilidade elétrica, o gestor português Carlos Tavares, CEO da Stellantis, também tece duras críticas a estas medidas.

“Nós preferimos que não haja proteções, porque essas só nos irão adormecer neste combate renhido que estamos a travar com a indústria chinesa. Temos tecnologia e estamos a trabalhar duramente na redução de custos para podermos oferecer às classes médias veículos elétricos com um nível de preço que eles possam pagar. Só dessa forma poderemos combater os chineses”, afirmou Carlos Tavares.

Para o gestor, Bruxelas está a corrigir um problema criando outro problema. “A Europa cometeu um erro quando decidiu fazer a transição para a mobilidade elétrica e agora está a tentar corrigir esse erro com taxas. Mas estas vão ter efeitos secundários que não estão a ser avaliados. Irão criar uma bolha na Europa que, posso garantir, irá gerar mais inflação. E para combater essa inflação serão criados mais subsídios. E para financiar esses subsídios serão criados impostos. E isto nunca mais acaba. Esta falta de visão estratégica está a tornar-se um problema para todos os europeus”, esclarece Carlos Tavares.

O gestor afirma que a Europa tem tecnologia “fantástica”, mas tem um grave problema, que é o custo elevado do fabrico dos carros elétricos, nomeadamente das baterias.

Para baixar estes custos, e também para reduzir o risco de estar dependente das baterias chinesas, a Stellantis criou, com a Total Energy, uma gigafábrica de baterias em França, a ACC. Um negócio que interessou à Mercedes, que decidiu também investir. Atualmente, a Stellantis detém 45% do capital, a Mercedes 35% e a Total Energy 20%. 

As vendas de carros
chineses na Europa
passaram de
17 mil unidades,
em 2017, para
437 mil, no ano passado

Segundo Carlos Tavares, o preço de uma bateria tem três grandes componentes: matérias-primas, energia e mão de obra. “Nesta última, é difícil competir com os chineses, mas conseguimos no preço da energia e, para assegurar as matérias-primas, estamos a comprar minas na América do Sul e também na Europa para garantir o fornecimento. Se há cinco anos um fabricante de automóveis dissesse que ia investir em empresas mineiras chamavam-lhe louco”, justifica.

Após terem construído a fábrica de baterias em França, estão agora a pensar abrir mais duas unidades, uma na Alemanha e outra em Itália, mas a decisão ainda está dependente da evolução da procura de carros elétricos no mercado europeu, que tem vindo a sofrer algum arrefecimento ao longo dos últimos meses.

Um fenómeno que é bem visível nos principais portos marítimos da União Europeia, que se estão a transformar em autênticos parques de estacionamento de automóveis, sobretudo oriundos da China. Segundo o jornal francês Le Monde, os portos belgas de Antuérpia e Zeebrugge, que conseguem albergar 130 mil veículos, já têm o espaço totalmente lotado. O Financial Times refere que este acumular de veículos nos portos está também relacionado com o facto de muitas destas marcas chinesas ainda não terem uma rede de distribuição na Europa. Quando as vendas estavam em constante subida, os carros eram levantados do porto no imediato, pois já estavam vendidos quando chegavam à Europa. Agora, têm de esperar até que a venda seja feita.

A transição para a mobilidade elétrica continua a sua marcha, mas estas medidas agora impostas poderão criar um novo travão nas vendas de carros que funcionam apenas com eletricidade. E se estes já são caros para o comum dos cidadãos, podem agora ficar ainda mais inacessíveis.

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O ato de adiar – ou programar – o despertador de manhã para poder ficar “só mais um bocadinho” na cama tem sido alvo de várias pesquisas científicas ao longo dos anos. Segundo especialistas do sono, esta prática, apesar de possuir alguns benefícios, apresenta também vários efeitos negativos para a saúde e bem-estar. “É satisfatório no momento em que se carrega e se atrasa a saída da cama no início do dia, mas na verdade fragmenta e prejudica a qualidade do sono”, explicou Brandon Peters, neurologista da clínica Virginia Mason Franciscan Health, em entrevista à CNN.

Segundo diversas investigações científicas, o chamado botão “snooze” – como ficou popularizado na língua inglesa – é uma forma de disrupção do sono, uma vez que permite que a pessoa volte a “cair” num novo ciclo de sono, levando depois a um segundo despertar com a sensação de não ter tido descanso suficiente. Ademais, reiniciar o sono após cada alarme possui também efeitos nocivos para a área do cérebro responsável pela memória e o pensamento criativo uma vez que este decorre, geralmente, nas últimas horas de sono antes de se acordar, durante a fase do ciclo conhecida como REM – sono com movimento rápido dos olhos – responsável por essas funções cerebrais.

Porque é que tem tanta dificuldade em levantar-se de manhã?

Segundo vários estudos, a necessidade de colocar vários alarmes pode surgir com o desenvolvimento de certos distúrbios do sono, que podem estar a fazer com que uma pessoa tenha dificuldade em acordar de manhã com apenas um alarme. Contudo, uma das grandes explicações por detrás do fenómeno “snooze” poderá estar na privação de sono e padrões de sono irregulares. Geralmente, um humano adulto necessita de dormir entre sete e nove horas por noite – sendo que este número de horas pode variar de pessoa para pessoa – que, se não cumpridas, podem resultar em dificuldades acrescidas ao despertar e anormal funcionamento do organismo de manhã.

De forma a evitar uma “inércia do sono” prolongada – também conhecida por embriaguez do sono – que refere à sensação de desorientação, sonolência e raciocínio lento que se sente de manhã, deve procurar conhecer-se as necessidades do organismo relativamente ao tempo de repouso que precisa. “Número um: está realmente a dormir o que precisa? Não a quantidade de sono que acha que deve ter ou que quer ter, mas a quantidade de sono de que realmente precisa. E será que o está a fazer todas as noites?”, questiona Goldstein, professor de neurologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Michigan, também à CNN.

Por outro lado, a predisposição de cada um em ser uma pessoa mais diária ou noturna, também pode influenciar o facto de precisar de “só” mais uns minutos de sono. Por esse motivo, definir horários de sono diários podem auxiliar a controlar as horas de sono bem como garantir que dorme as horas que o organismo necessita para funcionar normalmente. De acordo com Goldstein, “Se for alguém que dorme muito bem das 3 da manhã ao meio-dia, e é assim que dorme aos fins-de-semana, mas na segunda-feira de manhã tem de acordar às 6 da manhã para se deslocar”, essa rotina poderá provar-se difícil.

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Sou uma pessoa de pessoas. Digo muitas vezes aos meus clientes: “O que vou mostrar-lhe não é nada que não descobrisse sozinho.” Mas não em duas ou três horas. E se me contarem os interesses deles, personalizo ainda mais o passeio. Trata-se de uma experiência imersiva. Comigo, experimentam cheiros – levo-os à livraria Bertrand para cheirarem o papel ou à Brasileira do Chiado para cheirarem o café. Comigo, descobrem os sabores – levo-os ao Afonso das Bifanas, na Rua da Madalena, para comerem pataniscas. Faço uma reportagem fotográfica e no final envio-lhes pelo WhatsApp, junto com um link de uma playlist de fado.

Há dez anos, quando comecei a conduzir a Piaggio tuk-tuk era maravilhoso, pensava nisto como o melhor antidepressivo, depois de 18 anos a trabalhar no mundo corporativo de uma grande multinacional. Para mostrar o centro histórico da cidade, há sítios aos quais não posso fugir, tenho de ir à Baixa, a Alfama, à Graça… É um privilégio ter um escritório destes. Hoje, com 58 anos, estou quase semirreformada, pois já só aceito marcações.

Os meus locais preferidos vão dos Restauradores passando pelo Rossio, toda a subida até ao Chiado, assim como a zona de Belém, junto ao Padrão dos Descobrimentos e à Torre de Belém.

No Miradouro da Senhora do Monte já vi outros condutores a apontarem para a Costa da Caparica e a dizerem que é Sintra ou que “lá para cima é a Nazaré”, das big waves. Também continuo a ouvir chamar Champ d’Ourique ao bairro de Campo de Ourique. É surreal, assustador. Eu falo português, inglês e francês fluente, o que é um fator diferenciador

A Associação Nacional de Condutores de Animação Turística e Animadores Turísticos tem tentado, junto do Turismo de Portugal, que seja criado um curso de certificação para os animadores antes da inscrição no registo nacional, que continua a ser uma licença dada às cegas. É por isso que ninguém consegue dizer quantos tuk-tuks há em Lisboa. Defendemos que tenha de se passar por uma formação, para saber, no mínimo, a História de Lisboa e o mapa de Portugal. A verdade é que somos embaixadores da cidade, criamos a impressão com que os turistas ficam dela. 

“Sustos que me valeram lições de vida”

Quando comecei, demorava entre uma e três horas, no máximo, numa tour. Tive dias em que ia duas vezes ao Cristo Rei, em Almada. Hoje, posso demorar quatro ou cinco horas, ando com tranquilidade. Se sairmos todos à rua, não há lugares de estacionamento. E, a somar a isto tudo, temos uma cidade permanentemente em obras.

Já fui senhoria em Alfama, onde tive uma casa em regime de alojamento local, e compreendo todas as reclamações dos moradores das zonas históricas. Também trabalhei na Rua dos Remédios e ia ficando louca, eram mais de 30 tuk-tuks de manhã à noite. É óbvio que incomoda. Percebo perfeitamente as queixas das pessoas que moram junto à Senhora do Monte – quando chegam 60 coreanos, são seis tuk-tuks de uma vez só e contam-se duas e três excursões dessas por dia.

Ao longo da última década, não sinto mais insegurança, mas conheço os perigos. A partir de 2017, 2018, a cidade começou a ser invadida por carteiristas. Especialmente depois da pandemia, a situação tornou-se muito mais agressiva e mais explícita. São pessoas bastante reconhecíveis porque normalmente andam de cachecol no verão.

Entretanto, foi criado um grupo no WhatsApp, que reúne alguns condutores de tuk-tuk, para identificá-los e para partilhar os vídeos que os mostram juntos ou a atuar. Não nos inibimos de gritar pickpocket para avisar os turistas. Os carteiristas consideram-nos um perigo para a sua atividade e já tivemos alguns a ameaçar-nos com facadas e com pedras. 

No miradouro da Senhora do Monte já vi outros condutores a apontarem para a Costa da Caparica e a dizerem que é Sintra ou que “lá para cima é a Nazaré”, das big waves. Também continuo a ouvir chamar Champ d’Ourique ao bairro de Campo de Ourique. É surreal, assustador. Eu falo português, inglês e francês fluente, o que é um fator diferenciador

Em contraponto, os motoristas de táxi perceberam que os condutores de tuk-tuk não são um inimigo, porque um cliente que anda connosco também vai andar de táxi e vice-versa. Já os motoristas de TVDE passaram a transportar os clientes que vão de Belém para a Baixa de Lisboa, que os chamam em vez de esperarem pelo elétrico.

Já apanhei alguns sustos, que me valeram lições de vida e fizeram com que mudasse radicalmente a maneira de me movimentar no trânsito. Uma vez, em Alfama, quando transportava um casal com um filho, um fulano à minha frente parou de repente o carro, apitei-lhe e pedi que encostasse para eu passar. Ele passou-se da cabeça, pegou numa arma, apontou-a e, de seguida, deu um pontapé na frente do tuk-tuk. Depois de deixar os turistas, que estavam completamente em pânico, tive uma crise de choro enorme. A lição que tirei é a de que nunca se sabe quem temos pela frente.

Mas isso são exceções. Também já fiz algumas amizades. Lembro-me bem do caso de dois americanos, um realizador de cinema, que faz filmes de publicidade, e outro que fabrica fatos de motocrosse, que depois de um problema com o voo acabaram por ficar mais dois dias em Lisboa. Apanharam-me perto do restaurante Solar dos Presuntos, no Largo da Anunciada, fizemos uma tour divertidíssima para a Trafaria, passando pelo Cristo Rei e acabando na Cova do Vapor. Foi muito genuíno, de pé na areia, e eles perceberam logo que estavam a ter a verdadeira perspetiva local. Passado algum tempo, fui aos Estados Unidos e visitei-os. Uma das coisas maravilhosas desta profissão é poder ir aos sítios de que gosto.

Outra turista americana deixou-me em lágrimas quando, depois de dois dias a passear por Lisboa e Sintra, me disse que, tirando o dia em que o filho nasceu, aqueles tinham sido os mais felizes da vida dela. Há uma grande riqueza no ato de dar e receber. Tuk-tuks há em todo o mundo, mas a tocar fado só podem existir em Lisboa.

Depoimento recolhido por Sónia Calheiros

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São 31 os filmes de Ingmar Bergman que a Leopardo Filmes leva às salas portuguesas durante este verão. O pretexto certo para ver ou rever uma parte significativa da obra de um dos ícones sagrados do cinema europeu.

A Máscara. Foto: DR

Diga-se que esta não é a primeira vez que a distribuidora propõe uma extensa retrospetiva do realizador, mas a iniciativa tem novidades importantes.

É que, além das reposições, o ciclo inclui algumas obras sem estreia comercial em Portugal. São os casos de A Cidade Portuária (1948) e A Sede (1949), ainda de uma fase embrionária da sua carreia, mas com elementos que definem a sua voz, assim como Mulheres que Esperam (1952), filme pouco conhecido que precedeu a Mónica e o Desejo (1953), e Depois do Ensaio (1984), um telefilme, com todo o interesse cinematográfico.

À parte disso, estarão em exibição as mais emblemáticas obras, como Mónica e o Desejo, O Sétimo Selo, A Máscara, A Hora do Lobo, Cenas da Vida Conjugal, Morangos Silvestres, Sorrisos de Uma Noite de Verão, Sonata de Outono ou Fanny e Alexandre. Um realizador a que temos sempre de voltar.

Retrospetiva Ingmar Bergman > Lisboa (Cinema Nimas), Porto (Teatro Campo Alegre), Coimbra (Teatro Académico Gil Vicente), Braga (Theatro Circo), Figueira da Foz (Centro de Artes e Espectáculos) e Setúbal (Cinema Charlot) > 14 jul-7 ago (1ª parte), 8 ago-2 out (2ª parte) > mais informação aqui