Em 2022, a NASA enviou para o Espaço uma sonda concebida para chocar contra o asteroide Dimorphos, numa missão de teste das capacidades de defesa planetária. A missão DART (Double Asteroid Redirection Test) foi bem-sucedida e, desde então, vários estudos têm vindo a usar os dados recolhidos para compreender mais sobre o sistema de asteroides Didymos e Dimorphos.
Agora, num conjunto de cinco estudos, recém-publicados na revista científica Nature Communications, a equipa de cientistas da missão revela novos dados sobre as origens sistema binário de asteroides e sobre como a DART foi tão eficaz a mudar a órbita do asteroide Dimorphos.
“Estas descobertas dão-nos uma nova visão sobre a maneira como os asteroides podem mudar ao longo do tempo”, afirma Thomas Statler, cientista da NASA, citado em comunicado.
Newsletter
A partir de imagens captadas pela sonda DART e pelo cubesat LICIACube que acompanhou a missão, a equipa observou com maior detalhe a topografia dos asteroides que compõem este sistema binário.
Por um lado, a superfície do asteroide Dimorphos é composta por rochedos de diferentes dimensões. Por outro, a superfície do asteroide Didymos destaca-se por ser mais rochosa nos pontos de maior elevação, com mais crateras. Os investigadores acreditam que é muito provável que Dimorphos se tenha ‘soltado’ do asteroide Didymos com o passar do tempo, como mostra o vídeo que se segue.
Veja o vídeo
As análises realizadas sugerem que o asteroide Didymos tem uma superfície que é entre 40 a 130 anos mais velha do que a do Dimorphos. Ao todo, estima-se que Didymos terá uma idade a rondar os 12,5 milhões de anos e que Dimorphos terá menos de 300.000 anos. Acredita-se que a menor resistência da superfície do asteroide Dimorphos terá contribuído para o sucesso da missão DART.
Outro dos estudos deste conjunto indica que a formação do asteroide Dimorphos terá decorrido por fases, a partir de material ‘herdado’ do asteroide Didymos. A conclusão dá mais força à teoria de que alguns sistemas binários de asteroides surgem a partir de resquícios que se vão ‘soltando’ de um asteroide principal de maiores dimensões e que se vão acumulando até formarem um novo objeto espacial.
As observações realizadas permitiram também verificar que o fenómeno da fadiga térmica (isto é, o enfraquecimento de um material causado pelo calor) poderá causar alterações nos rochedos que compõem a superfície do asteroide Dimorphos. Os cientistas indicam que o fenómeno poderá alterar as características físicas deste tipo de asteroide mais rapidamente do que se pensava.
Os investigadores analisaram também a capacidade de carga do asteroide Didymos, verificando que é, pelo menos, 1.000 vezes menor do que a de areia seca na Terra ou até de solo lunar. Segundo os cientistas, este é um parâmetro importante para compreender e prever a capacidade de resposta de uma superfície, algo crucial no caso de uma missão que tem como objetivo alterar a trajetória de um asteroide.
As descobertas realizadas pelos investigadores da NASA representam um importante contributo para missões futuras, como a Hera, da Agência Espacial Europeia, que, em 2026, voltará ao local da colisão da sonda DART para analisar com mais detalhe os resultados do primeiro teste de defesa planetária.
As histórias mais gloriosas e inspiradoras dos Jogos Olímpicos foram escritas por atletas que tiveram a ousadia de assumir desafios ambiciosos, considerados por muitos impossíveis, e que conseguiram triunfar – mas também por atletas que, graças à perseverança e ao espírito combativo, venceram contra todas as expectativas da maioria. A memória olímpica também nos ensina que, em nenhuma dessas páginas inesquecíveis, a vitória chegou através de um golpe de sorte ou de um acaso irrepetível. Quando nos debruçamos sobre cada um desses momentos de glória, depressa percebemos que, por detrás de todos eles, existia um plano, construído com base no conhecimento, na experiência e nos objetivos a alcançar – e mais importante ainda: uma rígida e inabalável confiança nesse mesmo plano.
É por isso que, quando se pergunta a um campeão olímpico qual é a maior qualidade ou defeito, a resposta é invariavelmente a mesma em 99% dos casos: a teimosia. Se a mesma pergunta for feita aos membros do comando central de Paris 2024, tanto os do comité organizador como os da câmara municipal, a resposta, face ao que se tem assistido, deverá ser exatamente igual: teimosia nos objetivos e na forma de os alcançar. Teimosia em fazer uma cerimónia de abertura fora do estádio, teimosia em tentar criar um ambiente de festa nas ruas e, a mais difícil de todas, teimosia em realizar provas de natação no rio Sena.
Tranquilidade. De dia para dia, o sentimento de festa alastra-se pela cidade e, em simultâneo, o dispositivo policial parece que vai encolhendo
Os Jogos do QR Code
Newsletter
A elaboração do plano destes Jogos Olímpicos aprendeu com os erros das sucessivas candidaturas derrotadas de Paris, nos últimos anos. Depois de perceberem porque tinham perdido, os franceses apostaram em propor algo diferente, profundamente original em certos casos, para convencer os membros do Comité Olímpico Internacional. Foi assim que nasceu a proposta de uns Jogos inovadores, sem necessidade de grandes obras de construção, realizados, na esmagadora maioria, num círculo de dez quilómetros, em que todos os pontos de competição, muitos deles locais icónicos da capital francesa e mesmo da cultura europeia, estão à distância de uma curta viagem, que tanto pode ser feita a pé como de bicicleta.
A ideia de uns Jogos populares, com a montagem de uma série de parques com ecrãs gigantes em todos os bairros e a realização de provas que podem ser vistas na rua, sem ser preciso um bilhete, implicava, por seu lado, um grande problema de segurança. Por isso, nas vésperas de os Jogos se iniciarem, as atenções estavam viradas para o grande dispositivo criado ao longo do Sena, com as margens quase transformadas numa espécie de “zona de ninguém”, protegidas por longas estruturas de metal e vigiadas por milhares de polícias, fortemente armados.
Nos Jogos de Paris 2024, só se tem acesso aos locais mais sensíveis em termos de segurança com um telemóvel na mão e um QR Code a brilhar no ecrã.
No entanto, ainda a cerimónia não tinha iniciado, já se notava um ambiente completamente diferente nos locais das competições que começaram mais cedo. O caso flagrante foi o do torneio de râguebi de sete, disputado no imenso Estádio de França, com capacidade para quase 80 mil espectadores e onde a segurança, asseguram os frequentadores habituais do recinto onde Portugal se sagrou campeão europeu de futebol em 2016, era semelhante aos dos jogos normais, que ali decorrem durante o ano: uma primeira barreira, nos acessos, para evitar a entrada de garrafas de plástico, e uma segunda, nas cancelas de cada setor, para mostrar o bilhete e se fazer uma revista rápida ao interior das mochilas, acompanhada de uma ainda mais rápida passagem de um detetor de metais pelo corpo. Tudo isto, no entanto, com uma diferença crucial em relação a qualquer competição anterior: ninguém, absolutamente ninguém, entra com um bilhete físico, em papel, cartão ou plástico.
Com uma particularidade relevante: nos locais de competição, as máquinas não aceitam a fotografia de um desses códigos – ele tem de estar, obrigatoriamente, na aplicação respetiva.
O processo é simples, mas altamente eficaz. Para se comprar um bilhete é preciso registar-se, com todos os dados pessoais, numa aplicação oficial. Depois, para se ter acesso ao bilhete comprado, é preciso voltar a fazer o registo noutra aplicação oficial, que também se descarrega para o telemóvel. E o QR Code só fica visível, com o nome do comprador, poucas horas antes de a competição se iniciar.
Aquilo que pode parecer um excesso de burocracia é, afinal, uma operação que se faz numa dezena de minutos (demora mais tempo tentar encontrar bilhetes a preços acessíveis…), e tem o resultado que as autoridades imaginaram: cada espectador que entra num estádio ou numa arena teve de partilhar por duas vezes os contactos, incluindo obrigatoriamente o número de telemóvel. E, assim, os serviços de vigilância, se quiserem, sabem exatamente os dados de quem se senta em cada um dos lugares e, se for preciso, de acordo com a lei de segurança excecional aprovada para estes Jogos, podem até rastrear o telemóvel de alguém que considerarem “suspeito”. Ou seja: tal como num avião, existe uma lista de todos os passageiros por lugar, em Paris 2024 o mesmo processo é feito em todos os locais de competição.
Espírito de união
Esta QR Codemania – que teve os primeiros testes com a pandemia – estende-se a muitos outros locais destes Jogos populares, mesmo aqueles em que não é preciso pagar bilhete, mas é obrigatório apontar o telemóvel para um símbolo na parede, preencher as informações pessoais e, em seguida, gerar o QR Code que abre as portas.
O sistema, além de ser importante em termos de segurança, permite administrar a lotação de certos espaços, para impedir enchentes que podem tornar-se perigosas. Isso é particularmente visível no chamado Parque das Nações, instalado em La Villette, onde funcionam as casas de algumas equipas importantes, como o Brasil, o México e os Países Baixos, outras em busca de reconhecimento político, como a Ucrânia e Taiwan (que no léxico oficial olímpico tem a denominação de Chinese Taipé) e, naturalmente, a maior de todas, a do país anfitrião: um descomunal pavilhão, capaz de acolher dezenas de milhares de visitantes, onde se veem competições em ecrãs gigantes, se pratica desporto, se vitoriam recém-medalhados olímpicos e em que, de forma assinalável, se vai forjando uma unidade entre franceses, que muitos julgavam perdida.
Euforia No Parque de La Villette, milhares de franceses celebram as vitórias como se estivessem num estádio
“É exatamente esse o objetivo dos Jogos”, responde Pierre Rabadan, vice-presidente da Câmara de Paris, quando lhe pergunto se esperava este espírito de união, tão elogiado, aliás, em todos os jornais de referência franceses. “O mais importante é criar momentos comuns, que possam ser partilhados, sem exceção, por todos os franceses, mas também pelas pessoas das mais de 200 nações que nos visitam”, acrescenta.
A verdade é que, de dia para dia, o sentimento de festa vai alastrando pela cidade e, em simultâneo, o dispositivo policial parece que vai encolhendo, limitando-se, apenas, a continuar a ser mais presente junto dos locais estratégicos e dos mais problemáticos. É frequente ver-se pessoas a serem interpeladas, com os polícias a pedirem-lhes a identificação, mas de uma forma aparentemente cordial – embora algumas organizações de direitos humanos já tenham feito denúncias de situações de violência desnecessária.
De bicicleta – da rede camarária Vélib, com centenas de estações no mapa de Paris –, percorrendo os muitos quilómetros de ciclovias, e, como os parisienses, atravessando até alguns cruzamentos com os semáforos vermelhos, é possível tomar o pulso à cidade e, pelo caminho, ir desfazendo alguns preconceitos ou até ideias feitas. Percebe-se que muitos habitantes locais se foram embora e que grande parte dos que ficaram está em teletrabalho. Há milhares de turistas, claro, como acontece em qualquer verão em Paris, mas, ao contrário do que assisti noutras cidades olímpicas, aqui são quase inexistentes as manifestações ou as declarações contra os Jogos. E isto, na sempre revolucionária Paris, não deixa de ser um facto assinalável.
Sena, missão impossível?
A revolução mais difícil é também aquela em que os organizadores dos Jogos têm demonstrado maior teimosia: mostrar ao mundo que o Sena é um rio despoluído e no qual se podem realizar as provas de natação do triatlo e da disciplina de águas abertas.
Acima de tudo, é um desafio que está longe de terminar, que vai exigir ainda mais anos de trabalho para se alcançar o objetivo: poder mergulhar livremente e sem qualquer receio nas águas de um rio em que, há mais de um século, é proibido tomar banho.
O problema do Sena já não é a poluição industrial, mas a qualidade bacteriológica da água, que piora depois de dias de chuva
Benjamin Raigneau, diretor de limpeza e água da cidade de Paris, lembra que o problema remonta à segunda metade do século XIX, ao tempo das grandes obras de Haussmann, que criou a Paris que hoje conhecemos, com as avenidas e os prédios com a mesma estrutura. Ao mesmo tempo, debaixo da terra, foi construído um sistema de esgotos, que tanto servia para recolher as águas residuais dos edifícios como a das chuvas.
“À medida que Paris se desenvolveu, ao ponto de ser hoje a cidade com maior densidade populacional da Europa, quando havia excesso de águas, tanto sanitárias como pluviais, para evitar cheias, essas águas eram canalizadas para o rio Sena”, recorda Raigneau. Assim, “durante décadas, o Sena funcionou como a válvula de segurança da rede de saneamento básico”, sublinha.
Essa conceção há muito que deixou de ser aceitável. “E o que a candidatura aos Jogos Olímpicos fez foi antecipar em 10 ou 15 anos as obras que estavam pensadas para despoluir o Sena”, acrescenta Pierre Rabadan.
Segundo os responsáveis da cidade de Paris, o rio já está muito melhor do que se encontrava há poucas décadas. “No virar do século, havia apenas três espécies de peixe no Sena, hoje temos 36 identificadas”, acrescenta Pauline Lavaud, conselheira ambiental da Câmara de Paris. Ao longo dos últimos anos, foram acelerados os trabalhos para impedir que as águas do saneamento básico continuassem a chegar ao rio. Os responsáveis do projeto afirmam que isso obrigou a modificações em todas as barcaças que percorrem o Sena, bem como outras intervenções numa bacia hidrográfica em que estão aglomerados 12 milhões de habitantes.
Em abril, foi inaugurada a grande bacia de Austerlitz, que qualificam como “catedral subterrânea”, capaz de armazenar até 50 milhões de litros de água e, assim, evitar que a água da chuva vá diretamente para o Sena, guardando-a e enviando-a depois para as estações de tratamento. O problema, no entanto, é que décadas e décadas de contaminação não se resolvem de um dia para o outro. “O problema não é a poluição industrial, é a qualidade bacteriológica da água”, precisa Benjamin Raigneau, e essa vive num equilíbrio frágil: bastam dois dias de chuva, como sucedeu no início dos Jogos, para a presença de bactérias ganhar proeminência e, dessa forma, serem ultrapassados os limites aceitáveis para se tomar banho – ou permitir que atletas ali nadem.
A verdade também é que a promessa de um rio Sena mais limpo, capaz de voltar a ser um espaço natural com biodiversidade e um espaço para as populações se refrescarem num planeta em aquecimento acelerado, está cada vez mais próxima, graças à teimosia e a um plano que, no fundo, ultrapassa em muito o projeto olímpico, mas que pode ficar como um dos maiores legados numa cidade que redescobriu a união – e o QR Code, claro.
Quando se ouve o carrinho das bebidas a deslizar pelo corredor do avião, já sabemos a pergunta que lá vem: “Chá, café, água?”, pergunta um dos tripulantes. Nessa ocasião, quantos de nós já não pensámos que, na verdade, o que nos apetecia mesmo era vinho, cerveja ou um fresco mojito, um moscow mule, uma caipirinha, uma margarita… enfim, desejos.
Um voo de muitas horas pode ser uma tormenta para os passageiros com dificuldade em adormecer no lugar apertado, com a cabeça pendurada, e descansar enquanto sobrevoa a Terra. Mas, consumir bebidas alcoólicas durante o voo tem mais inconvenientes do que vantagens para a saúde.
No início de junho foi publicado um pequeno estudo que aborda a existência de alguns riscos associados ao consumo de álcool em aviões, especialmente em voos mais longos, quando a intenção é dormir. A altitude é o fator que determina as desvantagens.
O novo estudo foi o primeiro a analisar os efeitos combinados da altitude e do álcool, segundo Eva-Maria Elmenhorst, investigadora do Instituto de Medicina Aeroespacial de Colónia, na Alemanha, que o liderou.
A experiência contou com 48 adultos saudáveis, com idades entre os 18 e os 40 anos. Metade terminou o estudo num laboratório do sono com pressão atmosférica normal, os restantes dormiram em beliches numa câmara de altitude com pressão atmosférica semelhante à de um avião a voar.
As 48 pessoas dormiram da meia-noite às quatro da manhã durante duas noites: uma em que estavam sóbrias e outra depois de terem bebido o equivalente a duas latas de cerveja (5% de teor alcoólico) ou dois copos de vinho (175 ml, 12% de teor alcoólico). A dormir, todos estava a apetrechados com dispositivos para medir os níveis de oxigénio no sangue, frequência cardíaca e as fases do sono.
Quem dormiu com a pressão atmosférica normal registou um nível médio de oxigénio no sangue de 96% na noite em que estavam sóbrios e 95% na noite em que beberam. Mas para os que dormiram na câmara de altitude, os níveis de oxigénio eram de 88% quando estavam sóbrios e de 85% depois de beber – os níveis normais de oxigénio no sangue são normalmente superiores a 95% em pessoas saudáveis, note-se.
Quanto à frequência cardíaca, a média durante o sono com pressão atmosférica normal aumentou de 64 batimentos por minuto quando sóbrio para 77 depois de beber; e em câmara de altitude, de 73 batimentos por minuto quando sóbrio para 88 depois de beber.
Quando os níveis de oxigénio no sangue descem e a frequência cardíaca aumenta e existe uma sobrecarga do sistema cardiovascular, levando o coração a trabalhar mais para compensar a diminuição do oxigénio.
Para quem é saudável esse tipo de tensão cardíaca pode provocar algum cansaço. Mas para quem tem problemas cardíacos ou respiratórios, como insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva crónica ou apneia do sono, poderá ficar com tonturas e sem fôlego. Significa que quanto mais beber, maior a probabilidade de poder passar por uma emergência médica durante o voo.
Uma vez que o consumo de álcool também desidrata o organismo, pode aumentar ligeiramente o risco de desenvolver coágulos sanguíneos nas pernas ou nos pulmões.
Por o álcool ser um sedativo, quanto mais perto da hora de ir dormir for consumido, mais depressa provocará sonolência. No estudo, em média, aqueles que dormiram na câmara de altitude demoravam 19 minutos para adormecer sóbrios e 12,5 minutos depois de beber.
Mas à medida que o corpo decompõe o álcool, a qualidade do sono piora e a pessoa acorda mais amiúde e no dia seguinte irá sentir-se mais cansado. Os participantes que dormiram na câmara de altitude passaram menos tempo em sono profundo e REM do que aqueles que dormiram com pressão atmosférica normal. O álcool comprometeu ainda mais o sono: acordaram com mais frequência e, em comparação com 22 minutos de sono REM quando sóbrios, registaram 14,5 minutos depois de beber.
Da próxima vez que andar de avião, em vez de pedir latas de cerveja ou meias garrafas de vinho, quando o comandante desligar as luzes, coloque uma máscara a tapar os olhos, use tampões nos ouvidos ou ouça música calma, ruído branco ou um podcast nos auriculares, sem qualquer tipo de pressão para se obrigar a dormir. O dia seguinte será melhor do que estar de ressaca.
Apesar do espírito olímpico, do ideal de paz e de união entre os povos, os tempos estão demasiados extremados e não aconselham, por isso, entusiasmos nacionalistas. Nesse sentido, concedo de bom grado que o título que escolhi para esta crónica – Vive la France! – padeça de um certo grau de imprudência (ainda por cima enfatizado com um ponto de exclamação, que deve ser usado com parcimónia, de acordo com os cânones da melhor escrita jornalística). Ainda assim, arrisco usá-lo, na esperança de que, no decorrer destas linhas, me consiga fazer entender (também conto com a boa vontade dos leitores, a quem, desde já, agradeço).
O exagero do título resulta apenas do entusiasmo que senti ao ver a abertura dos Jogos Olímpicos. Desde logo, pela ousadia com que, pela primeira vez na história das Olimpíadas, a organização levou a cerimónia para fora de um estádio: como sempre, atletas e artistas brilharam, mas desta vez quem mais brilhou foi o Louvre, a Torre Eiffel, o Grand Palais, a Notre-Dame, a Concórdia, a Pont des Arts, a Pont Neuf… Ao ser deslocado para as margens do Sena e para as ruas de Paris, o habitual espetáculo de luzes e de som transformou-se também na celebração de uma cidade – e, por sinal, uma das mais bonitas do mundo.
Humphrey Bogart em Casablanca, dito e redito, vezes sem conta: “Teremos sempre Paris” – que é, de facto, como escreve o Rui Tavares Guedes, na reportagem que publicamos nesta edição da VISÃO, uma festa. Em matéria de festa, por falar nisso, não tenho os norte-americanos em fraca conta, mas acho que, no mínimo, desde a semana passada, o comité olímpico dos EUA ficou a pensar como, daqui a quatro anos, poderá superar 2024 e voltar a maravilhar as audiências globais: Los Angeles não tem, claro, a beleza e o charme de Paris (nem a História, nem os monumentos, nem o Sena…), mas tem, pelo menos, uma bonita baía oceânica. Yes, you can!
Newsletter
Para quem assistiu à distância à cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris 2024, foi um espetáculo admirável. A partir de certa altura, até a chuva, que como se sabe caiu intensamente, se tornou irrelevante. Quais ponchos de plástico (arranjados à pressa, para proteger comitivas e convidados) qual quê! Ele foi bailarinos, ele foi drag queens, ele foi Lady Gaga, ele foi Céline Dion, ele foi Aya Nakamura. DJ, jovens criadores da moda, mas também as grandes casas, de Dior a Louis Vuitton (a propósito, o grupo de Bernard Arnault investiu mais de €150 milhões nesta iniciativa olímpica). Os Miseráveis, de Victor Hugo, cancã, a ópera Carmen, de Bizet, mil e uma referências, umas mais eruditas, outras mais populares, numa explosão absolutamente contagiante.
Foi à grande e à francesa, já muitos o sublinharam, recorrendo à imagem usada para descrever o fausto dos generais de Junot, durante as invasões. Ou, então, como titulou o jornal Libération no dia seguinte, que recordou os ataques das linhas de comboio dessa mesma manhã: “Dia de stress, cerimónia de strass”. Mesmo que a chuva tenha complicado a transmissão televisiva, nada parou, como se não existissem entraves nem obstáculos à criação e à vontade. “Mais do que prometia a força humana”, o espetáculo prosseguiu, apesar da intempérie, em apoteose, num hino de imaginação e de energia.
Perdoem-me a nota pessoal: Paris 2024 ficará na minha memória de adulto como, na minha infância, ficou a lágrima do urso Misha, nas bancadas dos Jogos Olímpicos de Moscovo de 1980 (outro mundo e, literalmente, outro século, antes da queda do Muro e da Perestroika). Na semana passada, durante quatro horas, o que vi acontecer nas margens do Sena foi o melhor do ideal francês. Numa altura em que uma boa parte das nações se fecha sobre si próprias, em que as pessoas se recusam a dialogar umas com as outras e veem os outros (e, nomeadamente, os que são diferentes) como uma ameaça iminente, a cerimónia de abertura de Paris 2024 recordou-nos o espírito das Luzes: o progresso, a civilização e o futuro correspondem a uma atitude de abertura ao mundo. Daí o meu entusiasmo, porventura excessivo, admito: Vive la France!
Propositadamente, deixo a polémica sobre a Última Ceia para o final. No dia seguinte à inauguração, em comunicado à Imprensa, a Conferência Episcopal Francesa saudou a “beleza” e a “alegria”, mas criticou aquilo que apelidou de “cenas de escárnio e de zombaria do Cristianismo”. Entretanto, o diretor artístico da cerimónia já veio esclarecer que se tratou de uma referência a Dionísio, deus do vinho. Mesmo que fosse uma referência à Última Ceia, não se entende a crítica à suposta injúria. Ainda há pouco mais de um mês, num encontro com humoristas de todo o mundo, o Papa Francisco dizia que era possível rir de Deus e defendia: “O riso do humorismo nunca é ‘contra’ alguém, mas é sempre inclusivo, proativo, desperta abertura, simpatia e empatia.”
Breviário
É a comunicação, estúpido
Para quem gosta de política, nos EUA, as últimas semanas do Partido Democrata têm sido um maná. Impressionante ver como o partido se concentrou em pressionar Joe Biden e, após a desistência do Presidente norte-americano, se reuniu imediatamente em torno de Kamala Harris. Dirão que foi o toque a rebate e, sobretudo, a necessidade de garantir os lugares no Senado e no Congresso. Tudo seguiu o ritmo de uma narrativa poderosa, que – quer no caso da saída de cena Biden quer no caso da entrada em cena de Harris – teve o seu clímax na reação do casal Obama. Não é a política nem a economia, estúpido, é a comunicação!
Já cheguei a uma idade em que não parece mal dizer que “eu sou do tempo em que”. Portanto, aqui vai disto: eu sou do tempo em que encontrar um estrangeiro em Lisboa ou no Porto, cidades onde na minha vida passei mais tempo, era raro ̶ nem turistas nem residentes. As férias algarvias eram a altura do ano em que se via gente de outras nacionalidades, em que se ouvia falar outras línguas e em que se observavam hábitos diferentes, mas, apesar disso, nas cidades e nas praias onde passei tantos verões, os estrangeiros eram uma pequena minoria.Não sendo eu rapaz novo, a estimada leitora ou leitor dirá que isso foi há muito tempo. A memória também não é o meu forte, mas, há meia dúzia de anos, eu ia da Estrela ao Chiado e cruzava-me com um par de estrangeiros ou saía da Estação de São Bento e ia até ao Palácio da Bolsa pela Rua das Flores, e não eram propriamente turistas as pessoas que eu via. Agora é difícil fazer estes trajetos e ouvir sequer um bom-dia em português. Também é atual, e não doutra geração, que gente, com outros costumes e origens, nos transporte, nos sirva em restaurantes e em lojas, nos faça as casas, cuide de nós ou execute qualquer outra tarefa fundamental para a nossa vida coletiva. São pessoas que trabalham e vivem ao nosso lado, que rezam a outros deuses, que têm nomes estranhos e hábitos exóticos, que falam outras línguas, arranham o português ou falam naquele modo doce e arrastado com que os nossos irmãos brasileiros embelezaram a nossa áspera língua.
Tenho mais memórias deste género. Visitar, no meio de milhares de turistas como eu, cidades como Barcelona, Veneza ou Florença e sentir que os locais me olhavam de lado e não me faziam sentir bem-vindo – aliás, preparo-me para uma dose semelhante daqui a uns dias. Também me recordo demasiado bem dos meus compatriotas emigrantes a falar baixinho, para que não se percebesse que não eram franceses, suíços ou alemães. A propósito, um português que não tem empatia com os imigrantes é alguém que não sabe o que é Portugal e que cospe na nossa História. Para que o nosso país funcione, crie riqueza e se torne um local onde as pessoas vivam melhor, não podemos prescindir de imigrantes e de turistas. Falando especificamente dos imigrantes, a saúde da nossa Segurança Social depende deles, e a nossa demografia e muitas outras coisas também.Vou assistindo às preocupações sobre o crescimento do turismo. Claro que o impacto sobre os preços da habitação, sobretudo nos centros das nossas principais cidades, o aumento do custo de vida ou a pressão sobre alguns serviços públicos não são fenómenos de desprezar, mas ainda estão por inventar vantagens sem contrapartidas negativas. O facto é que o turismo é uma fonte de receitas importantíssima, que mudou a face das nossas cidades para muitíssimo melhor e que, mais do que tudo, trouxe enormes melhorias ao bem-estar das nossas populações. O emprego criado, os melhores salários, a superior receita fiscal deixam os problemas, que inevitavelmente se criam, a milhas dos benefícios.
Deixa-me particularmente chocado a conversa de que o turismo apenas cria empregos de salários baixos ou de que o seu crescimento atrofia o desenvolvimento de outras atividades. Como qualquer área económica, o turismo gera salários altos e baixos, segundo a procura e a oferta, mas o argumento torna-se incompreensível num país como o nosso, em que os salários são baixos em todas as áreas. Depois, convém notar que o crescimento do turismo foi acompanhado por um crescimento económico similar noutras áreas. As nossas exportações cresceram muito também na indústria e, mais do que isso, o desenvolvimento de setores de alto valor acrescentado foi notável (metalomecânica e produtos químicos, por exemplo). Não tendo havido e nem sendo provável que haja desvio de recursos para outras áreas que precisem de investimento, o turismo está também a permitir acumular capital de que tanto precisamos, há gerações e gerações, e de que dependem as outras atividades económicas.
Newsletter
O turismo e a imigração mudaram o País. Os últimos 50 anos foram um período de profundas mudanças a todos os níveis. Porém, estes dois fenómenos trazem desafios especiais: alteram o nosso dia a dia, confrontam-nos com realidades e modos de vida muito diferentes (há uma certa semelhança com a vinda dos portugueses das ex-colónias), mudam as nossas cidades, vão miscigenar-nos ainda mais, são agentes transformadores de toda a comunidade.Claro que são necessárias políticas públicas que permitam integrar melhor os imigrantes e suavizar os efeitos negativos do turismo, mas isso poderia ser dito relativamente a quase tudo. A questão essencial é que o País se alterou, e nós não. O género humano é assim mesmo: o mundo muda mais depressa do que nós. É bom que nos adaptemos, o nosso futuro coletivo depende largamente disso.
As duas aplicações de localização e mobilidade da Google vão receber novas funcionalidades a curto prazo. No caso do Google Maps, a aplicação vai passar a contar com o mesmo sistema de identificação de incidentes que já existe no Waze. Ou seja, o Google Maps vai passar a ter uma opção que permite partilhar com outros utilizadores a indicação de estradas que estão fechadas, estradas com obras, radares de velocidade, carros encostados na berma ou operações policiais.
Outra funcionalidade já conhecida do Waze e que vai chegar ao Google Maps é o destaque de parques de estacionamento. A aplicação vai passar a mostrar parques próximos do destino final do utilizador, para facilitar no momento final da viagem.
Apesar de o Google Maps integrar, cada vez mais, funcionalidades que são referência do Waze, Can Comertoglu, da Google, confirmou à publicação The Verge que o objetivo é manter as duas aplicações em funcionamento, até porque o Waze tem uma comunidade de utilizadores muito dedicada, segundo o porta-voz da empresa. “Eles preferem algumas coisas que o Waze tem e o Google Maps não, e sabemos que o contrário também é verdade”.
Newsletter
Já do lado do Waze, a principal novidade é a possibilidade de os utilizadores poderem receber informação sobre eventos que condicionam a mobilidade junto da casa do utilizador, do local de trabalho ou de um local no qual esteve recentemente. Eventos que podem ser obras planeadas, competições desportivas ou um grande evento musical. Quando a Waze recebe esta informação, envia uma notificação aos utilizadores sobre as condicionantes de trânsito que vão existir e quais as vias afetadas.
No Waze será agora também possível reportar outras câmaras de tráfego automóvel, além das que estão diretamente relacionadas com os radares de velocidade.
As novidades do Google Maps e do Waze vão ser disponibilizadas para os utilizadores Android e iOS ao longo das próximas semanas.