A artista Charli XCX, de 31 anos, lançou no passado 7 de junho o seu novo álbum de música, intitulado “Brat”, que está a fazer sucesso nas plataformas musicais, tendo estreado em 3.º lugar no ranking da Billboard. A coletânea de canções, a sexta da cantora, tem sido bem recebida pelo público e dominado a cultura pop nos últimos meses através da cor verde – escolhida para a capa do álbum – e ao criar novos termo pelas redes socias, o “Brat Summer”.

Originalmente utilizado para descrever crianças e jovens mal-comportados, “Brat”, tornou-se, este verão, numa verdadeira “filosofia de vida”, inspirada nas tendências de moda dos anos noventa e na cultura rave. De forma semelhante a termos como “Hot girl summer” ou “Portuguese girl” – que se tornaram virais em 2023 – a denominação “Brat” pretende, através de um conjunto específico de características, dar nome a um “estilo de vida”, com ênfase no lado festeiro e desorganizado das jovens que com ele se identificam.

Do termo original rapidamente surgiram novos conceitos, como o “Brat summer” – em português, “verão brat” – descrito como um “estado de espírito” inspirado pelo álbum de Charli XCX. Segundo a cantora, uma pessoa “Brat” é alguém que é “um pouco desarrumado que gosta de festas e que talvez diga algumas coisas estúpidas por vezes. Que se sente ela própria, mas que também tem colapsos por vezes. É muito honesta, muito direta e um pouco volátil. Isso é Brat”, referiu. Acima de tudo, o novo sentido da palavra pretende encorajar a autenticidade e a aceitação pelas pequenas imperfeições, consideradas “provas da humanidade” da pessoa. Entre o essencial para viver um verdadeiro verão “Brat”, segundo a britânica, encontra-se “um maço de cigarros, um isqueiro Bic, um top branco de alças e sem sutiã”.

Com mais de 93 mil publicações, a hashtag “bratsummer” já inspirou múltiplos memes, danças e tendências da internet criados e consumidos, sobretudo, pelas camadas mais jovens. Entre o tipo de conteúdos partilhados mais populares na rede social TikTok encontram-se as danças, especialmente uma coreografia criada por Kelley Heyer ao som de “Apple”, uma das canções de maior sucesso do álbum de Charli XCX. O sucesso da coreografia foi tanto que a própria artista acabou por partilhar um vídeo, com amigos, em que realiza a dança.

“Kamala é Brat”

Desde o lançamento do álbum, a estética “brat” – e tom de verde que lhe está associado – tem dominado vários aspetos da cultura Pop, desde produtos verde-lima, a campanhas de marketing e até à sua utilização por políticos, como Kamala Harris. Desde que anunciou a intenção de entrar na corrida eleitoral pela liderança da Casa Branca, a ainda vice-presidente já reuniu um elevado número de fundos para a campanha bem como o apoio público de várias personalidades conhecidas. Uma das primeiras demonstrações de apoio surgiu de Charli XCX que, horas depois do anúncio de Kamala, escreveu na sua página pessoal da rede social X  “Kamala is Brat” – em português “Kamala é brat”. Uma frase que, em poucas horas, ganhou um alcance gigantesco na internet e que está a ser aproveitada pela equipa de campanha de Kamala para chegar aos eleitores mais jovens.

De forma a alinhar-se com a recente sensação da internet, a conta de Twitter da campanha de Harris mudou o seu nome de utilizador para KamalaHQ, bem como a sua fotografia de capa para a cor do álbum da cantora – verde -, optando pelo estilo “Brat”.

“A VISÃO tem de humanizar os imigrantes.” Estamos já no final da entrevista quando o investigador Pedro Góis se sai com este conselho. O especialista em migrações sabia que estávamos prestes a rumar ao Alentejo e adivinhou que o seu conselho, em tom de pedido, iria ficar a pairar nos dias seguintes – como não?

Como não nos desmancharmos ao ver o sorriso de Bhima, que diz logo à cabeça, orgulhosa, ter sido ela a levar outros nepaleses para o restaurante onde trabalha, na região de Odemira, ou ao darmos pelo ar triste do marroquino Rachid, enquanto abre o seu saco-cama, escondido entre casuarinas frondosas q.b., na mata de frente para o parque de merendas da cidade de Beja?

Dolly e Bhima
32 e 34 anos


Empregadas de mesa
Além da indiana e da nepalesa, há mais 17 imigrantes no restaurante A Azenha do Mar, perto de São Teotónio.

Como não nos comovermos com a solidão dos jovens timorenses Simão e Julião, que moram numa antiga estação de comboios, nas imediações de Aljustrel, cujos edifícios andam a reabilitar, ou com o olhar de curiosidade do bebé Ahmadou, filho de uma cabo-verdiana e de um senegalês, nascido há oito meses em solo alentejano?

E como, por favor digam-nos, como regressar indiferentes ao conforto das nossas casas, ao dia a dia passado na companhia de familiares e amigos, à segurança de um trabalho constante, depois de ficarmos a conhecer as histórias de vida dos imigrantes com que nos cruzámos?

“Eles são pessoas iguaizinhas a nós”, começara Pedro Góis, “mas que fazem grandes viagens para ir até um país que não conhecem. São muito empreendedores e com coragem para melhorar a sua vida”, lembra.

“É curioso que, 500 anos depois, a viagem seja feita ao contrário. Os marinheiros portugueses também iam à procura de uma melhor vida. Hoje, estamos a receber o retorno dessas caravelas, e sem conflitos”, nota o investigador. “Quantos são os casos de problemas com esta comunidade? Se pudéssemos escolher, escolhíamos este perfil de imigrantes tão trabalhadores. Experimentem entrar numa estufa… onde estão 50 graus.”

UM CAFÉ E UMA CHAMUÇA

De Odemira a Beja, este é um Alentejo em mudança “e que nunca mais voltará atrás”, vaticina o professor de Sociologia da Universidade de Coimbra (ver entrevista, pág. 47). Certo é que a onda, que começou no Litoral e entretanto chegou ao Interior, não encontra parança. Nem a extinção, em junho, do regime de manifestação de interesse, que permitia o pedido de autorização de residência, travou os imigrantes à procura de trabalho.

No concelho de Odemira, em meados de julho, foram detetados 66 estrangeiros que não tinham comunicado a entrada em território nacional, dentro do prazo obrigatório de três dias úteis. Em Beja, quem está no terreno garante que os imigrantes não param de chegar, diariamente. “Nem que se levantasse um muro, continuavam a entrar pessoas, todos os dias”, acredita Madalena Palma, da Estar, associação sem fins lucrativos, criada para dar resposta rápida e sem burocracias a quem precisa de ajuda.

Dois timorenses e uma linha parada

Os carris cheios de erva, frente ao apeadeiro Castro Verde-Almodôvar, no Carregueiro, servem de metáfora para a vida atual de Julião e de Simão

No verão de 2022, as notícias deram conta de um “fenómeno novo”. Entre junho e setembro, tinham chegado a Portugal cerca de três mil timorenses – quase dez vezes mais do que no ano anterior. Em outubro, eram perto de 600 só no Baixo Alentejo, que ali tinham aparecido sem contrato nem experiência na agricultura.

Os cidadãos de Timor-Leste não precisam de visto durante 90 dias em território nacional, podendo depois dar início ao processo de legalização. Alguns teriam viajado à boleia de promessas de trabalho; outros terão interpretado mal a mensagem deixada pelo Presidente português numa visita oficial a Timor, em maio desse ano.

Em Díli, Marcelo Rebelo de Sousa incentivara jovens universitários a visitar Portugal. A 31 de outubro, no final de um encontro com o Presidente de Timor-Leste, José Ramos-Horta, em Lisboa, sublinhou que o fizera nesse contexto, mas terão sido os trabalhadores indiferenciados a ouvi-lo com mais atenção.

Certo é que se fizeram ao caminho milhares de timorenses, e eram, então, notícia por terem ficado em situação de sem-abrigo em diversas localidades. Só em Beringel, a dez quilómetros de Beja, juntaram-se mais de 100, depois de terem sido apoiados pela associação Estar, chamada de urgência pelo presidente da junta, que andou a distribuir comida durante vários dias.

“Estivemos numa casa onde havia uns 50 timorenses, novíssimos, todos esganados de fome e sem falar português”, recorda Madalena Palma, uma das fundadoras da Estar. “Eram os pobres dos pobres, que se empenharam para viajar.”

Agosto de 2024. Quando alguém entra na antiga estação de caminho de ferro do Carregueiro, a nove quilómetros de Aljustrel, dá logo pelo pequeno altar a Nossa Senhora de Fátima que Simão e Julião improvisaram numa velha mesa de cabeceira, com imagens, uma vela, um terço e uma palma. Os dois primos-irmãos já foram a Fátima, “claro”, que conheciam de ouvir falar em Maliana, capital do município de Bobonaro, no Interior de Timor-Leste e a poucos quilómetros da fronteira com a Indonésia.

Simão dos Santos, licenciado em Economia e Empreendedorismo pela Universidade da Paz, em Díli, chegou a Portugal em outubro de 2022, quatro dias antes de Marcelo e de Ramos-Horta debaterem o drama dos timorenses. Estava nas obras, mas sem perspetivas, e vislumbrou uma boa oportunidade quando uns amigos lhe garantiram que havia trabalho para ele na Salvada, perto de Beja.

Andou na apanha da azeitona, até que o patrão, um marroquino, deixou de pagar. Sem dinheiro para a renda, acabou a dormir na rua, duas ou três noites de um dezembro gelado e que lhe pareceram uma eternidade.

Eram, ao todo, 15 timorenses, e no grupo estava também Julião Oliveira, mais novo um ano, já casado e com uma filha de 5 anos, que tinha começado por tentar a sorte em Santarém. Foram todos ajudados pela Cáritas e, quatro meses depois, os dois eram contratados para reabilitar os vários edifícios do antigo apeadeiro. Entretanto, também já trabalharam noutras obras, no Alentejo e no Algarve.

O patrão aparece ao domingo, diz-lhes quais são as tarefas da semana seguinte e leva-os a comprar comida, em Aljustrel. Noutros dias, pode calhar pegarem nas bicicletas para visitar uns amigos timorenses que trabalham nas minas da Almina. “Nos tempos livres, vemos coisas na net, no telemóvel, ou telefonamos à família.”

O território mudou. A paisagem humana mudou. Entre Vila Nova de Milfontes e Aljezur, onde antes havia mato, agora há mares imensos de estufas até onde a vista alcança, mais brilhantes do que o Atlântico ali à beira. E por todo o lado veem-se pessoas oriundas de paragens longínquas.

Em agosto de 2024, já poucos ficarão surpreendidos ao ler uma descrição atual do Largo Gomes Freire, em São Teotónio, que nesta vila do concelho de Odemira todos conhecem como Quintalão, mas para muitos visitantes ainda será novidade entrar na pastelaria Doce Amanhecer e poder pedir uma chamuça vegetariana e logo a seguir um quadradinho de barfi suficientemente doce para cortar o picante do frito.

Numa tarde quente de verão, claro que são vários os imigrantes à sombra das decorações coloridas, que sobraram do Festival dos Mastros de junho, a justificar encontrarmos aqui um kebab e um minimercado com produtos asiáticos, mas a coexistência com os habitantes de sempre parece pacífica. Na esplanada da antiga pastelaria, cujos para-ventos anunciam ter comida indiana e italiana, continuamos a ver alentejanos a beber o cafezinho depois do almoço.

Quando Rima Rabeya telefona a avisar que já chegou ao Quintalão, demoramos a reconhecê-la. Os estereótipos traem-nos, e ela, embora seja do Bangladesh, tem um aspeto europeu, muito provavelmente porque cresceu em Dakha, foi jornalista num canal de televisão e emigrou há oito anos.

Tinham-nos dito que Rima era “muito empoderada”, boa para falar sobre as mulheres imigrantes. Num instante, ficamos a saber que saiu do seu país por razões de segurança (“Lá não é fácil ser mulher e querer a liberdade”, diz, em inglês, enfatizando a palavra freedom) e que passou por 13 países antes de chegar a Portugal. 

Há quase cinco anos, entrou por Lisboa, onde tinha amigos, mas desiludiu-se com a cidade “demasiado populosa” e com o trabalho num restaurante, que sentiu ser “um negócio muito masculino”. Acabou por procurar emprego na região de Odemira, numa empresa que produz vegetais e ervas aromáticas para os mercados nacional e internacional, e pouco tempo depois tornou-se mediadora da Taipa, cooperativa para o desenvolvimento integrado que ajuda os migrantes que chegam a Odemira (tem protocolos com a câmara e parcerias com empresas).

Coabitação Na pastelaria Doce Amanhecer, em São Teotónio, há café português e doces indianos

“Vinha por três meses, com muitos livros na mala, mas fiquei três anos”, ri-se. Teve de regressar entretanto a Dakha, quando a mãe adoeceu, e há dois meses que está de novo em São Teotónio, onde espera, aos 38 anos, ter tempo para o mestrado em Estudos sobre as Mulheres, na Universidade Aberta, e conseguir voltar ao trabalho de mediação.

“As mulheres imigrantes, sejam elas do Bangladesh, da Índia ou do Nepal, veem o exemplo das portuguesas e querem o mesmo para elas, mas muitas ainda nem sequer conhecem os seus direitos”, diz. “As Três Marias levantaram as suas vozes há 53 anos, por cá, e nós só agora estamos a passar por isso”, compara, “mas há muitas Marias na nossa comunidade”.

A nepalesa Bhima, de 34 anos, é uma dessas Marias. Conhecemo-la no restaurante A Azenha do Mar, a uns passos do lindíssimo porto de pesca da povoação com o mesmo nome e a uma dúzia de quilómetros de São Teotónio. Mal acaba de servir umas lulinhas fritas, que cheiram pela vida, diz, batendo no peito: “Sou a primeira empregada daqui! E os outros nepaleses vieram por causa de mim.”

“TUDO NOVO, SEM AMIGOS…”

Oriunda de Pokhara, a 200 quilómetros de Katmandu, Bhima chegou sozinha a Portugal, há quase seis anos, e já se habituou a responder por Vilma. Antes, passou três anos na Dinamarca, cinco na Suécia e três meses em Espanha, a trabalhar no campo e em hotelaria. Portugal, mais barato do que os outros países europeus, só não é absolutamente perfeito porque não conquistou o filho, Sanjal, hoje com 17 anos.

No ano passado, Sanjal esteve quatro meses em São Teotónio e não se adaptou. “Tudo novo, sem amigos, com uma língua diferente na escola… E é uma zona demasiado tranquila para um jovem, eu entendo”, ri-se Bhima.

O futuro próximo de ambos deverá, por isso, passar pelo Reino Unido ou pela Noruega, onde têm familiares. Uma pena, diz ela, porque gosta do seu emprego. “Noutros lados, força-se muito a trabalhar. Aqui, se não temos o que fazer, podemos descansar. E é o que fazemos, não andamos a gastar o dinheiro que é para mandar para a família.”

Retrato de família

O sonho do senegalês Mame Gor Sene era ter em Portugal todos os filhos

Aos 42 anos, o senegalês Mame Gor Sene é um homem realizado, embora ainda não completamente feliz. “O meu sonho era o resto de a minha família estar cá amanhã, mas o reagrupamento é muito difícil; com o IRS do ano passado, só consigo trazer duas pessoas.”

Em Dakhar, deixou a primeira mulher, Coumba, e três filhos, de 16 anos, 13 e 3. Já tentou convidar o mais velho, Bassirou, para 20 dias de férias, mas o pedido de responsabilidade foi-lhe recusado. Pediu, entretanto, o reagrupamento familiar e acredita que o miúdo vai conseguir frequentar cá o Secundário.

Em Beja, Mame celebrou uma cerimónia religiosa com Fatu, de origem cabo-verdiana, mas que cresceu no Senegal. Os dois conheceram-se no Alentejo, através de um amigo comum, e são pais de um bebé, de oito meses.

Mame trabalhou em Marrocos, Espanha e Itália, antes de rumar a Portugal. Começou logo pelo Alentejo, a apanhar azeitona e uvas, e depois quase fazia carreira como soldador, mas não desistiu até conseguir abrir uma loja de produtos senegaleses, a dois passos do Luiz da Rocha, o café mais antigo de Beja.

Há quase quatro anos, quando Carla Dâmaso decidiu tomar conta deste restaurante famoso pelo arroz de marisco e o peixe grelhado, apareceu-lhe logo Bhima, que foi passando palavra a amigos e a conhecidos. Hoje, dá emprego a 16 nepaleses (mais homens do que mulheres), duas indianas, uma cubana e duas portuguesas. “O nosso chefe de cozinha, o Hari, é nepalês. Tem só 24 anos e é uma máquina, aprendeu os pratos todos só a observar. Já lhe disse que devia fazer formação com um grande chef, mas ele ri-se, envergonhado.”

De início, Carla foi criticada por dar emprego a imigrantes, mas com o tempo vários colegas seguiram-lhe o exemplo. “Se não fossem eles, eu não conseguiria ter o restaurante aberto”, garante. “Os clientes gostam muito deles, e são todos tratados como família, até porque estão cá sozinhos. Defendo-os sempre, em qualquer situação.”

Agora, de cada vez que precisa de um empregado, aparecem-lhe dez, muitos com histórias de exploração laboral. “Aqui, o ordenado é bom. Comem cá, as gorjetas dão para pagar o quarto, o dinheiro do salário é para guardar. Já todos foram aos seus países e antes não conseguiam ir”, nota.

“Na restauração fazemos muitas horas, comprei umas carrinhas para as viagens de ida e volta dos que moram em São Teotónio, mas nem sempre há tempo. Então, ficam pela Azenha e descansam, jogam à bola num campo aqui perto ou fazem doces que comemos juntos”, conta. “Não vão à praia, porque têm vergonha de se despir, mas divertimo-nos a dançar as músicas deles, e já está prometido que vou ao Nepal quando algum se casar.”

Dolly, hoje com 32 anos, nunca tinha visto marisco na vida. Há cinco anos, depois de uma experiência curta em Londres, veio de Nova Deli, na Índia, quase diretamente para São Teotónio, após uns dias em Lisboa. Antes de trabalhar como ajudante de cozinha na Azenha, passou pelo armazém de uma empresa de floricultura. “Uma sorte, porque era um bom patrão”, recorda. “E, agora, a Carla é uma amiga.”

Já no restaurante, Dolly percebeu que era importante começar a aprender português com maior afinco. Há dois anos, quando houve uma falha no serviço de mesas, estava pronta a explicar o menu. “Faz tudo para não me desiludir”, emociona-se Carla, “e quer integrar-se na nossa cultura”.

Bhima e Dolly chegaram ao Alentejo sozinhas, mas a maioria das mulheres vem ao abrigo do reagrupamento familiar, e o desafio de as integrar tem sido mais complexo, porque o choque cultural ainda é maior, explica-nos Teresa Barradas, vice-presidente da Taipa, com quem nos encontramos em Odemira.

A nova paisagem humana Ao final do dia, há indianos siques com o turbante e roupa de trabalhadores nos estendais

“O projeto Mulheres Numa Só Voz, que tivemos entre 2020 e 2021, nasceu da necessidade de as empoderar e, agora, já andam na rua e muitas trabalham. Mas também foi bom para conseguirmos chegar aos homens e aos filhos, porque percebemos que a mulher era a gate keeper (a guardiã) da família.”

Nos últimos 11 anos, a Taipa tem criado projetos para dar resposta às necessidades sentidas no terreno. A lógica é sempre igual, mas a realidade mudou. “Em 2013, tínhamos aqui uma grande comunidade búlgara. Havia o choque da língua e o choque cultural, porque eram de etnia cigana. Hoje, temos imigrantes do Sudeste Asiático; já foram mais indianos, agora são mais nepaleses.”

O reagrupamento familiar, a acontecer com mais intensidade há cinco anos, é um indicador positivo de integração. “A família vai ser uma âncora para a integração”, já ouvíramos a Pedro Góis. “Enquanto houver 20 homens metidos no T2, não há integração, porque é como viver num estaleiro.”

Teresa Barradas perspetiva o mesmo: “O filho leva a língua e a cultura para casa. E não temos a ilusão de que as famílias ficam para sempre, mas a possibilidade aumenta se os filhos pedirem para ficar.”

Em São Teotónio, a freguesia onde a realidade migratória tem sido mais intensa e onde havia muitas crianças e adolescentes a chegar, a Taipa tem o projeto ST, numa relação próxima com o agrupamento de escolas, para promover o sucesso escolar, e um espaço comunitário que funciona um pouco como um ATL. 

DERRUBAR BARREIRAS

Às duas da tarde de uma segunda-feira boa para uns mergulhos refrescantes na praia, 15 miúdos imigrantes juntam-se num rés do chão, a um minuto a pé do Quintalão. Hugo Gomes, o professor de serviço, recorre ao inglês para ensinar os pronomes pessoais em português e vai pedindo ajuda a quem está mais avançado.

“How do you say ‘beautiful’ in portuguese?”, ainda não acabou de perguntar e já se ouvem vários “bonito!” pela sala, à mistura com palavras em hindi. Quem não sabe inglês precisa de tradução simultânea. “Eles são sempre muito prestáveis”, nota Hugo, mesmo que, em tempo de férias, estejam desertos por ficar na sala dos computadores.

A Taipa também gere o Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes (CLAIM) de Odemira, onde se dão os primeiros passos do processo de legalização. Além de ter um gabinete fixo, os seus técnicos trabalham em itinerância por várias freguesias, porque a mobilidade dos imigrantes é grande, e sempre com o apoio de uma equipa de mediadores que anda um pouco por todo o lado (escola, Finanças, Segurança Social), sempre que for preciso ultrapassar a barreira da língua.

Fragilidade É fácil um imigrante “desorganizar-se”, diz Filipa Duarte, coordenadora do projeto Estou Tão Perto que Não Me Vês, da Cáritas de Beja

Como todos os anos chega gente nova, a cooperativa mantém ainda ações de sensibilização nas empresas, desde a segurança rodoviária à questão do lixo, passando pelo acesso à saúde. “É importante repeti-las, porque os movimentos migratórios são voláteis”, nota Teresa Barradas. “São sobretudo compostos por homens avulso que levam essa bagagem cultural, mas ela não se transmite.”

O acesso à saúde tornou-se uma questão crucial com a chegada de mulheres e crianças. “Estamos, por isso, a capacitar os profissionais para lidarem com esta população, a fazer a ponte com a medicina do trabalho nas empresas e a promover atividades na comunidade sobre a importância da atividade física e a alimentação saudável”, desfia o enfermeiro Vítor Gomes, há 17 anos em Odemira.

Em junho, foi feito um inquérito à população imigrante no centro de saúde. Os dados ainda não estão disponíveis, mas já se sabe que a grande maioria é por norma jovem, em idade ativa e está a ter muitos filhos. “Em 2022, dois terços das crianças que nasciam no concelho eram de mãe estrangeira”, sabe de cor o enfermeiro.

Vítor Gomes também sabe que a maioria trabalha na agricultura, mas já começa a ter outros empregos, seja em hipermercados (na reposição e no talho) seja em empresas de mármores, construção civil e gestão florestal (no corte de árvores).

“Grosso modo, já temos imigrantes em todos os setores”, há de corroborar o presidente da Câmara Municipal de Odemira, Hélder Guerreiro, eleito em setembro de 2021, pelo PS. “Precisamos da mão de obra, mas a pressão sobre os serviços públicos é enorme”, queixa-se.

Zakaria Cahkay
31 anos

Trabalhador agrícola

Em Melilla, “Ziko” tanto era mecânico de automóveis como estucador. Em Beja, onde chegou há três anos, tem trabalhado sempre no campo. “Saí de Marrocos há sete anos. Era um miúdo, queria conhecer o mundo.” Fala quatro línguas.

Os fluxos migratórios não são uma novidade em Odemira, onde coabitam mais de 80 nacionalidades. De início, o concelho foi procurado por russos, ucranianos, polacos, búlgaros e romenos. Também houve – e há – tailandeses, hoje uns 600, instalados nas quintas onde trabalham.

Atualmente, mais de um terço da população do concelho é imigrante, sobretudo do Sudeste Asiático, já se escreveu, e a maioria a trabalhar na agricultura. Só a produção de frutos vermelhos no concelho gera €300 milhões ao ano, mas as empresas acabam por pagar apenas €70 mil em derrama municipal, porque têm as sedes no estrangeiro.Quando os imigrantes eram quase só homens, a pressão sobre a saúde era pouca. Agora que há muitas crianças e já houve mais nascimentos de mulheres de nacionalidade estrangeira do que portuguesas, a câmara investiu numa construção modular temporária e vai em breve duplicar o serviço básico urgente. “Mas não chega fazer as infraestruturas, precisamos de mais médicos”, alerta o autarca.

“O número crescente de casos de reagrupamento familiar também tem um forte impacto sobre a oferta da educação. No ano letivo passado, foram abertas mais nove turmas e, no próximo, deverão abrir mais umas seis”, contabiliza Hélder Guerreiro. “É uma situação insustentável, porque implica reabilitar escolas que estavam fechadas, além de ser necessário recrutar mais professores.”

“O GOVERNO DEVIA INVESTIR”

O desafio passa, agora, por conseguir vincular as famílias ao território, “o que é mais fácil do que um homem sozinho”, nota. “E queremos criar o sentimento de que toda esta comunidade é bem-vinda, porque há qualidade de vida para todos. Os serviços públicos de interesse geral, que foram diminuindo ou mesmo saindo do concelho, têm de regressar em força, para acompanhar o aumento da população em quantidade e em complexidade. Se Odemira representa €300 milhões em exportações, o Governo devia investir, como contrapartida, neste território.”

A necessidade não é exatamente de hoje. “Comecei a alertar para isto há seis anos, em Odemira, porque já era coordenador da ANAFRE [Associação Nacional de Freguesias] no distrito de Beja”, lembra Vítor Besugo, presidente da Junta de Freguesia de Beringel. “Na altura, o colega de São Teotónio dizia que não havia disponibilidade para toda a gente no serviço de Finanças, na Segurança Social ou no médico de família.”

Nessa altura, o problema era “lá longe”, em Odemira, no Litoral. “Agora, eles estão por todo o lado”, sublinha o mesmo autarca. Em Beringel, vila a uns 15 minutos de carro de Beja, o Censos de 2021 contabilizou 1 188 habitantes. Chegados a agosto de 2024, a junta estima haver cerca de 1 500 fregueses, sendo perto de um quinto deles imigrantes.

Ataques racistas

Os imigrantes têm sido vítimas de crimes por xenofobia

Na noite de 5 de novembro do ano passado, Shahil Gurpreet Singh estava na casa que partilhava com outros cinco indianos, em Praias do Sado, uma localidade a sete quilómetros de Setúbal, quando foi morto com um tiro de caçadeira no peito. Tinha 25 anos, trabalhava na agricultura e teve o azar de ficar na mira de dois jovens irmãos portugueses, com antecedentes criminais, que confessaram a intenção de matar os seis imigrantes por ódio racial.

No início de maio deste ano, no Porto, Lakehal Zakaria e vários outros imigrantes magrebinos foram agredidos por homens encapuçados que, na mesma madrugada, protagonizaram três ataques violentos. No primeiro, usaram tacos de basebol para bater em dois argelinos, na zona do Campo 24 de Agosto; no segundo, munidos também de facas e de uma arma de fogo, invadiram uma casa na Rua do Bonfim, onde morava uma dezena de imigrantes e espancaram-nos, enquanto proferiram insultos; no terceiro, lincharam um marroquino, nas imediações de um kebab, na zona da Batalha. Um português, com pena suspensa por crimes violentos, foi detido logo após as agressões, tendo confessado as motivações racistas dos ataques.

Longe vão os tempos em que o “Rossio”, como é ali conhecida a Praça Dr. Carlos Moreira, se enchia apenas ao fim de semana ou ao final da tarde, por famílias à coca de ar fresco ou de brincadeiras no parque infantil. Agora, há permanentemente homens jovens, oriundos do Sudeste Asiático, sentados na relva e nos bancos de jardim de cimento, à conversa uns com os outros, de cerveja ou telemóvel na mão.

E o mesmo acontece por todo o lado, repete Vítor Besugo. “Numa destas tardes, em Beja, passei por 22 bancos, contei eu, da Praça da República até ao tribunal [são 500 metros, seis minutos a pé], e não havia um livre. Estavam todos ocupados por homens imigrantes.”

Na noite em que chegámos a Beja, lembramo-nos daquilo que o presidente da câmara de Odemira disse ao fechar a entrevista: “A criminalidade não aumentou, mas os habitantes sentem-se inseguros. O Governo tem de investir na segurança.” Será um paradoxo?

A paisagem humana também mudou radicalmente nesta cidade. São dez horas de uma noite quente da semana e o centro histórico está quase deserto, à exceção de alguns homens de origem asiática ou africana, isolados ou em pares, a percorrer as ruas. Na Praça da República, meia dúzia de adolescentes portugueses conversa animadamente, aparentemente indiferente aos vários imigrantes sentados nos bancos.

Uma imensa maioria Os imigrantes são sobretudo homens jovens do Sudeste Asiático. Na cidade de Beja, também já se veem africanos

Destes últimos, nem todos terão casas em condições ou sequer um quarto onde dormir; há um número crescente de estrangeiros em situação de sem-abrigo em Beja. Na manhã seguinte, imaginamos que lhes saberá bem entrar na sede da associação Estar, onde Madalena Palma, de 48 anos, e Inês Féria, de 41, recebem como se estivessem em suas casas.

Num espaço aberto, dividido por estantes com livros, há duas zonas com grandes sofás, um mapa de Portugal e outro do mundo. Para lá de uma porta, outro espaço faz as vezes de armazém, cheio de comida e de bens essenciais. Quem entra é cumprimentado, muitas vezes, pelo nome próprio.

Fez em julho cinco anos que as duas assistentes sociais decidiram tentar fazer a diferença. “Pensámos ‘O que faz falta? Estará tudo inventado?’ e começámos a encontrar buracos na rede – a verdade é que não havia uma resposta de emergência”, conta Madalena. “Aqui, a pessoa chega com fome, e colmatamos logo essa necessidade básica. Depois, vamos perceber o que a levou àquela situação, e não estamos cá a fazer agendamentos, a abrir processos no sistema.”

“RECEBEMOS O REFUGO”

Hoje, esta associação sem fins lucrativos apoia pessoas em situação de sem-abrigo, não só imigrantes mas sobretudo imigrantes. “Recebemos o refugo do refugo”, diz Madalena. “Pessoas que não reúnem condições para serem ajudadas por outras instituições, porque já se portaram muito mal ou estão completamente indocumentadas.”

Como são uma entidade privada, ajudam quem querem – e trabalham 24 horas por dia, não dá para ser das 9h às 5h. Ainda na véspera, quase de noite, Madalena tinha ido com a polícia até um dos grandes cubos de contraplacado de uma exposição junto à Casa da Cultura. Passara por lá a pé e dera com umas mantas e um saco com produtos de supermercado no seu interior. “É de alguém novo em Beja, porque não identifiquei material nosso. Vamos ficar atentas.”

Como tem dois filhos de 24 e 25 anos, custa-lhe particularmente receber jovens. “É desolador. Vieram de barco ou a pé, de muito longe. E, quando cá estão, são miúdos tão subservientes que dá pena. Tivemos dois rapazes argelinos que foram chicoteados nas costas por um encarregado português”, conta.

Números

Sempre a aumentar

Os imigrantes continuam a rumar ao Alentejo, sobretudo ao distrito de Beja

28,6%
Percentagem de estrangeiros a residir em Odemira, segundo o Censos 2021 (mais 13,5% do que em 2011)

76,1%
Peso dos estrangeiros no total de trabalhadores por conta de outrem, no concelho de Odemira em 2023

2/3
Proporção de filhos de mãe estrangeira entre as crianças nascidas no concelho de Odemira, em 2022

17 813
Número de imigrantes no distrito de Beja, em 2022 (mais 11% do que no ano anterior)

450
Atestados de residências passados até ao final de julho deste ano pela junta de freguesia de Beringel, Beja

“Mudem-se as leis ou os governos, Portugal continua a ser o sítio mais fácil para se obter documentos falsos. Há um ano, sei que havia imigrantes a pagar €800 por um atestado de residência. Nós já deixámos de comprovar as moradas deles, estávamos a alimentar o problema. Por exemplo: agora em agosto, sabemos que quem não está já a trabalhar é porque está cá a mais.”

No entanto, continuam a chegar imigrantes ao Alentejo. “E, nem que se levantasse um muro, continuariam a entrar pessoas, todos os dias”, acredita Madalena Palma. “É o negócio do século, dá dinheiro a ganhar que é uma coisa louca. As empresas de trabalho temporário arranjam 200 pessoas, que são dispensadas quando acaba essa campanha. Passado um mês e meio, chamam outras 200, porque o que dá dinheiro é mandar vir esta malta para Portugal – cada pessoa vale 14 ou 15 mil euros.”

FAMÍLIAS ENDIVIDADAS

Sem trabalho nem sítio onde morar, os imigrantes batem-lhes à porta sem nada, só com uma pequena mochila. “Conhecem-nos do passa-palavra e eles sabem que nunca os trairíamos”, diz Madalena. Ela e Inês ouvem-nos, então, contar como endividaram a família para conseguirem viajar e como o número de telemóvel de alguém, que iria arranjar-lhes trabalho, nem sequer funciona.

“Nós dizemos-lhe ‘Vocês estão cá, estão em casa’ e damos-lhes cabazes de comida, roupa, produtos de higiene pessoal, mobília, eletrodomésticos… Temos apoios da câmara e da Caixa de Crédito Agrícola, a Sonae dá-nos €12 mil por mês de alimentos, o grupo Pestana dá-nos 150 litros de leite por semana e mobiliário. Daqui a dois dias, vamos ao Alvor buscar 30 sommiers e colchões. A Força Aérea cedeu-nos três armazéns, e o Politécnico um. Temos ainda 35 voluntários, sem eles nada disto seria possível.”

Até ao final de agosto, a Estar irá submeter um projeto de balneário social, cacifos e oito camas de emergência, ao abrigo do programa Portugal Inovação. O CAES (Centro de Alojamento de Emergência Social), criado pela Cáritas Diocesana de Beja, em parceria com a Segurança Social, na antiga Casa do Estudante, no centro da cidade, só tem 35 camas.

Rachid Boukarch
44 anos


Trabalhador agrícola
Saiu de Marrocos em 2008 e andou pela Europa até chegar a Portugal, no final de 2023. Em Beja, encontrámo-lo a dormir numa mata, mas nunca deixou de se exercitar. “Fui boxeur, sei como treinar é muito importante para a cabeça.”

Acrescente-se que o município anunciou recentemente a criação de um centro de acolhimento temporário, com mais umas três dezenas de camas, num antigo lar, em Santa Clara do Louredo, a cerca de cinco quilómetros de Beja, mas ainda não há data de abertura. “Temos procurado evitar a solução dos contentores”, sublinhou entretanto o presidente da Câmara Municipal de Beja à VISÃO. “Ocupar pavilhões municipais ou despejar na rua as pessoas, porque estão em casas sem condições, também não seria uma solução.”

Tudo isto já Madalena nos conta dentro do seu carro, numa volta pela cidade que tem como pontos-chave locais onde os imigrantes foram ou são notícia, começando pelo antigo edifício da Refer, propriedade da Cruz Vermelha Portuguesa, um gigante, agora entaipado, que chegou a albergar 40 pessoas, todas realojadas em março, nuns contentores instalados no Estádio Flávio Santos e geridos pela Estar.

Passamos por uma vivenda, com oito quartos, arrendada a imigrantes pelo tutor legal de um rapaz que vive na Cerci Beja, pelo chamado Jardim do Bacalhau, onde param as carrinhas que transportam os trabalhadores entre a cidade e as explorações agrícolas, e ainda pelo hostel, cuja filha da dona se apaixonou por um homem de origem africana que ali esteve realojado (estão de casamento marcado, também há histórias que acabam bem).

Só depois rumamos ao centro histórico, cujas ruas estreitas estão cheias de quartos usados em “sistema de cama quente” (porque por vezes o emprego inclui alojamento no local), e há um majestoso solar que todas as noites “esconde” 40 imigrantes.

Nem um minuto de carro e estamos na Praça da República, onde vamos almoçar de frente para a antiga Residencial Coelho, devoluta já há dois anos. Segundo Madalena, alguém tem a chave e cobra €150 por mês a cada um dos mais de 30 imigrantes que ali partilham quartos em muito mau estado. “Já denunciámos, mas ainda não aconteceu nada.”

Na belíssima praça, reedificada a mando do rei D. Manuel I, no local onde antes se ergueu o fórum romano, cruzamo-nos com o jovem marroquino Zakaria Cahkay, com quem tínhamos passado umas horas, nas instalações da Cáritas de Beja, e que Madalena trata por “Ziko”.

UM MÚSICO EM ODEMIRA

Em Odemira, bastam-lhe as tablas e o harmónio para ensinar a tocar e a cantar música clássica indiana

“Portugal é a minha segunda casa. Ao início, sentia que não gostavam de mim aqui, por ser asiático, mas, agora que já me conhecem, sei que gostam.” Inderjeet Singh diz isto tudo de seguida, em inglês, e pede desculpa. Um ano depois de chegar a Odemira, entende português, mas ainda não o suficiente para conseguir conversar.

Antes de aqui rumar, passou pela Bélgica, Nova Iorque, Japão, Coreia do Sul e China, sempre a tocar e a ensinar, muitas vezes do atelier da holandesa Helena Loermans, onde pousou para a fotografia. Tem a própria escola na Índia e continua a dar aulas online. Gosta muito dos doces portugueses, mas faz por ter uma alimentação equilibrada. “O meu avô dizia: ‘Se tiveres boa saúde, tocas melhor’, e eu acredito nisso.”

“Já o conheço há muito tempo… A situação aqui agudizou-se há dois anos, em termos de quantidade e de más condições de vida dos imigrantes. A dignidade desapareceu”, lamenta, “e nós contribuímos para este estado de coisas. Somos todos responsáveis. Claro que eles vêm porque não estão bem nos seus países, mas, se precisamos da mão de obra, devemos acolhê-los condignamente. Nós, portugueses, quando emigrávamos para França, sabíamos que íamos para os bidonvilles [bairros de lata]. Eles não sabem ao que vêm.”

É essa também a perceção de quem recebe imigrantes em situação de sem-abrigo no espaço Estórias, da Cáritas. Naquele rés do chão, em pleno centro histórico, onde é possível tomar o pequeno-almoço, tomar duche e trocar de roupa, os relatos não diferem muito uns dos outros. Todos vinham à procura de uma vida melhor, e todos acabaram a dormir na rua.

UM NÃO E UMA PROMESSA VAGA

“Estou aqui porque preciso de ajuda: de trabalho, casa, comida, documentos, tudo”, diz o senegalês Samba Mbaye, num português hesitante, e logo conta como saiu em novembro de 2021 de Dakar, onde era motorista de táxi, para arranjar um trabalho melhor e ajudar a família.

Com 27 anos, passou dez meses em Espanha, antes de rumar a Beja, porque lhe disseram que “havia muito patrão” no Alentejo. Já trabalhou na apanha da azeitona e da amêndoa, na vinha, no que calhou. É o mais novo de nove irmãos. Sempre que conseguiu um emprego, guardou €150 e enviou aos pais o resto do salário.

Apoio “Nem que se levantasse um muro, continuavam a entrar pessoas, todos os dias”, diz Madalena Palma, da Estar, associação sem fins lucrativos

Na véspera, ao final da tarde, ouviu mais um não, com uma promessa vaga: “Volta daqui a uma semana.” Não valia a pena aparecer na manhã seguinte, à procura de lugar numa das muitas carrinhas que transportam os imigrantes até às explorações agrícolas, nos arredores de Beja. Tinha, por isso, pela frente mais umas noites ao relento.

“Estamos a ajudá-lo, porque deixou passar os prazos do processo de legalização”, explica Filipa Duarte, coordenadora do projeto Estou Tão Perto que Não Me Vês, da Cáritas. “Ele quer vingar na vida, é um bom trabalhador.”

Além do Estórias, que funciona como um centro drop-in, o projeto inclui uma equipa de rua, laboratórios de expressão artística e cultural, e sensibilização da comunidade e empoderamento dos sem-abrigo. A Cáritas tem ainda um refeitório social e gere o CLAIM de Beja, com financiamento comunitário.

A técnica de reabilitação e inserção social também sabe ser fácil um imigrante “desorganizar-se”. A expressão é sua e faz todo o sentido quando Zakaria Cahkay conta como bastou ter ficado sem telemóvel para perder o trabalho. Já só era chamado ao dia, e nunca em dias seguidos, mas o patrão deixou de poder contactá-lo e ele caiu na rua.

“VENHAM CÁ FISCALIZAR”

Este ano, a junta de Beringel já passou 450 atestados de residência

Manda a lei que, perante a declaração de honra de duas testemunhas, recenseadas na freguesia, os presidentes das juntas têm de assinar os atestados de residência. Na ausência de documentos que comprovem a morada, são as testemunhas que se responsabilizam pela veracidade da informação.

“Este ano, já passei 450”, sabe de cor Vítor Besugo, presidente de Junta de Freguesia de Beringel, a dez quilómetros de Beja.

Só na última semana de julho, o autarca assinou duas dezenas. “Aqui em Beringel, vemos no sistema que a mesma pessoa já se responsabilizou 180 vezes e outra pessoa, outras 180. E não é só aqui”, nota. “Sou coordenador da Associação Nacional de Freguesias (ANAFRE) no distrito de Beja, represento 75 freguesias, e ainda há pouco tempo levantámos esta questão. Venham cá fiscalizar, saiam dos gabinetes e venham ver a realidade.”

Em Melilla, onde nasceu há 31 anos, Zakaria tanto era mecânico de automóveis como estucador. No Alentejo, onde chegou há três anos, trabalhou sempre no campo. Fala árabe, espanhol, francês e português, e já esteve imigrado na Bélgica, Holanda, Alemanha, Luxemburgo e França. “Saí de Marrocos há sete anos. Era um miúdo, queria conhecer o mundo”, diz, com um sorriso.

Nessa noite, havemos de voltar a encontrá-lo, talvez já a caminho de “casa”. Ultimamente, não tem poiso certo. Dorme ora na rua ora numa casa qualquer que encontre desabitada. “Podia usar a cama de um dos meus amigos que está numa herdade, mas não gosto de dividir quarto com cinco ou seis pessoas, é sempre uma grande confusão”, já havia justificado.

Mas no Estórias é “Ziko”, sempre prestável, quem ajuda a traduzir a nossa conversa com Rachid Boukarch. O marroquino, de 44 anos, conta que saiu de Errachidia em 2008 e andou um pouco por toda a Europa, a comercializar cristais e outras pedras de coleção, até entrar em Portugal no final do ano passado.

Pelas ruas de Beja Os bancos da cidade são ocupados por imigrantes, à espera do providencial telefonema de trabalho para mais uma jorna

Há oito meses em Beja, Rachid chegou sem nada à Cáritas, ficando logo a aguardar processo de alojamento e refeição. “É muito organizado, mas teve azar”, conta Margarida Canudo, assistente social. “Tem um processo na ACT, porque não lhe pagaram no último local onde trabalhou.”

Quando o conhecemos, estava ainda a dormir na rua, imaginámos que abrigado num qualquer vão da cidade, mas bastou mostrar-nos um vídeo a fazer elevações na mata de frente para o parque de merendas da cidade para percebermos que pernoitava ali mesmo.

Vamos, então, até um pequeno bosque de casuarinas frondosas q.b., a uns passos do ginásio ao ar livre, onde vemos o saco-cama e o lençol para proteger dos mosquitos, mais o meio garrafão de água para usar após o treino. “Fui boxeur, sei como treinar é muito importante para a cabeça”, diz, com um ar triste.

Como não nos impressionarmos com as vidas difíceis destes imigrantes que vêm à boleia da agricultura e estão a mudar para sempre o Alentejo?

Pedro Góis

— Professor de Sociologia das Migrações, na Universidade de Coimbra

“Se eles se forem embora, ficaremos pior”

No Litoral Alentejano, encontramos sobretudo imigrantes do chamado subcontinente indiano.

Como se explica?
É sobretudo uma migração laboral e tem que ver com a forma como se obtém trabalho: através do passa-palavra. Mas sabemos que são os grandes supermercados, nomeadamente britânicos, a induzir a imigração, porque a produção depende de quem a compra. São eles que provocam a necessidade de uma migração. E as empresas de trabalho temporário fornecem-lhes a mão de obra.

Nada disto é exatamente novo, pois não?
Estudo migrações há mais de 20 anos, não apenas em Portugal, e sei que é um padrão. O fenómeno no Alentejo não é muito diferente do que aconteceu na Andaluzia, por exemplo; a fonte é que deixou de ser a África subsariana e passou a ser muito o subcontinente indiano. Também já estamos com quilómetros de estufas, vê-se bem no Google Maps.

Tem sido muito rápido.
Os terrenos estavam disponíveis e eram suficientemente baratos. Há mão de obra também disponível e constante, ou até crescente, o que mantém o preço baixo. O que eu temo que tenhamos? Algum subpagamento – o pagamento feito às empresas não chega aos trabalhadores, retiram-lhes uma parte do salário para alojamento, despesas inventadas… Estes povos não projetam a sua voz no espaço mediático, por isso são invisíveis, o que pode estar a jogar contra eles. Há uma ausência dos nossos sindicatos nestas relações laborais. Deviam estar mais presentes nestes territórios, porque estes jovens trabalhadores precisam de ser protegidos.

O que mudou quando olhamos para o território?
Mudou a paisagem humana. Quem parar ao final do dia naquelas povoações vai ver indianos siques com o turbante, muitas pessoas com o tom de pele diferente da nossa e uma população jovem. Também vai ver muitas casas habitadas, com roupas nos estendais, mas provavelmente são roupas de trabalhadores, não são de família, porque são dormitórios destes imigrantes. Além disso, espaços que estavam quase ao abandono são hoje oportunidades de exploração agrícola. Este processo está a fazer voltar o Alentejo ao que ele não tinha sido nas últimas décadas.

Porque era uma região em envelhecimento, desde o 25 de Abril.
Sim, nessa altura as pessoas foram para a Margem Sul de Lisboa, e a região nunca mais se recompôs. Esta gente que está a chegar traz esta nova paisagem humana diferente e que nunca mais vai ser outra. E se eles se forem embora, por causa de uma crise económica, ficaremos pior.

O abraço fraterno entre Iúri Leitão e Rui Oliveira no lugar mais alto do pódio, a entoarem em conjunto o Hino nacional, no velódromo de Saint-Quentin-em-Yvelines, nos arredores de Paris, após a conquista da medalha de ouro olímpica na prova de madison do ciclismo de pista, merece ser recordado como uma das imagens mais belas e inspiradoras do desporto nacional: pelo significado, quase comovente, da fraternidade entre os dois ciclistas e pelo caminho que esta vitória pode significar para todos os atletas portugueses, em busca de um caminho de glória.

Este título olímpico pode ter sido inesperado para a esmagadora maioria dos portugueses, mas não foi fruto do acaso. E, mesmo que Iúri Leitão se tenha tornado no primeiro português a conquistar duas medalhas numa mesma edição dos Jogos Olímpicos, esta proeza inédita do desporto nacional também não se explica por estarmos perante um atleta superlativo capaz de, a solo, escrever História.

Iúri Leitão é um grande ciclista e, como estes Jogos de Paris 2024 demonstraram à saciedade, possui ainda um espírito competitivo acima da média, além de uma inteligência tática que, nas provas dos últimos dias, lhe permitiu subir duas vezes ao pódio, mas não é um talento superlativo. Rui Oliveira, que até tem tido melhores resultados nas provas de estrada do que Iúri, também demonstrou ser um autêntico atleta olímpico – no que isso significa de capacidade de empenho e de superação -, mas está longe de ser um fora-de-série.

Apesar dessa realidade, que alguns poderiam considerar limitações, a verdade é que Iúri Leitão e Rui Oliveira demonstraram ser, em conjunto, na prova mais importante de todas as competições relevantes, a melhor dupla do mundo na competição de madison, nos Jogos de Paris 2024. Porquê? Porque o talento de ambos – que talvez não fosse detetável à primeira vista… – teve a oportunidade de, nos últimos anos, poder ser melhorado e amplificado num contexto competitivo de alto nível, em cooperação com outros ciclistas de grande qualidade e com infraestruturas semelhantes às das nações mais desenvolvidas.

Num País em que, com justiça, tantos se queixam da falta de apoios aos atletas das modalidades olímpicas, esta medalha de ouro no ciclismo de pista pode ser um importante abre-olhos para o caminho que precisa de ser trilhado. E que se resume a uma frase gasta, mas simples: fazer mais, em conjunto com os melhores, com objetivos bem definidos.

Perdoe-me o leitor, mas repito aqui aquilo que escrevi, há poucos dias, sobre a medalha de prata de Iúri Leitão na prova de Omnium, acerca da única forma admissível, atualmente, para se conquistar a glória olímpica: “através da integração, desde cedo, do talento num forte e consistente trabalho de equipa, num espaço com infraestruturas adequadas, que proporcione um clima de grande competitividade interna, dirigido de forma competente e focada nos objetivos mais importantes”.

É isso que tem sido feito, há cerca de década e meia, no Centro de Alto Rendimento de Ciclismo, que tão bem tem sabido potenciar uma infraestrutura com a qualidade do Velódromo erguido em Sangalhos, no concelho de Anadia – hoje o coração e o orgulho do ciclismo português. E a conclusão é só uma: a medalha de ouro de Iúri Leitão e Rui Oliveira não é fruto de um golpe de sorte ou de acaso, mas antes o corolário de uma estratégia de longo prazo, que soube, sem alardes, ir caminhando, passo a passo, até à glória olímpica final.

Em 1976, nos Jogos Olímpicos de Montreal, a medalha de prata de Carlos Lopes nos 10 mil metros confirmou que Moniz Pereira estava certo quando afirmava que os portugueses poderiam ser tão bons como os melhores, se lhes dessem as condições de treino adequadas. Essa premissa foi confirmada nas medalhas de ouro seguintes – de Rosa Mota, Fernanda Ribeiro, de Nélson Évora e, num contexto particular, de Pedro Pichardo -, todas elas assentes, no entanto, em talentos excecionais, numa relação muito próxima e prolongada com os seus treinadores.

Agora, o título olímpico de Iúri Leitão e Rui Oliveira pode bem significar o início de um novo ciclo, já não tão assente no talento individual, raro e superlativo, de um atleta, mas antes num processo capaz de fabricar campeões, saídos de um ambiente competitivo e altamente profissional.

Esta histórica medalha de ouro no ciclismo de pista deve ser, por isso, encarada como uma lição para o desporto português. Ela demonstra que, mesmo contra a opinião de muitos, vale a pena pensar em grande, reunir os melhores, dar-lhes oportunidade de crescer e, no fim, aproveitar a oportunidade e, sem anúncios públicos prévios, aplicar a tática correta na competição, através da seleção dos melhores talentos para a executarem.

O resultado está à vista: após anos a trabalhar longe dos holofotes, o ciclismo de pista português apresentou-se, com estrondo e orgulho, ao mundo. Com uma certeza, mas também uma promessa: há uma fábrica de campeões em Sangalhos. Iúri Leitão e Rui Oliveira foram os primeiros a atingir a glória, mas tudo indica que outros se lhes seguirão.

Iúri Leitão e Rui Oliveira venceram este sábado a prova de madison do ciclismo de pista, com um total de 55 pontos, deixando para trás Simone Consonni e Elia Viviani, de Itália, com 47, e Niklas Larsen e Michael Moerkoev, da Dinamarca, com 41.

O ouro em dupla com Rui Oliveira faz do atleta vianense, de 26 anos, o primeiro português a conquistar duas medalhas numa edição dos Jogos Olímpicos. Até aqui, tínhamos Carlos Lopes, ouro na maratona em Los Angeles1984 e prata nos 10.000 metros em Montreal1976, Rosa Mota, ouro em Seul1988 e prata em Los Angeles1984, ambas na maratona, e Fernanda Ribeiro, ouro em Atlanta1996 e bronze em Sydney2000 nos 10.000 metros. Com a prata do triplo salto, que junta ao ouro de Tóquio, Pedro Pichardo juntou-se na sexta-feira ao lote dos duplamente medalhados, de que fazem também parte o cavaleiro Luís Mena e Silva, bronze em Berlim1936 e Londres1948, e o canoísta Fernando Pimenta, prata em Londres2012 e bronze em Tóquio2020.

A vitória da dupla portuguesa no madison em Paris2024 constituiu o sexto título olímpico do desporto português, o primeiro fora do atletismo, e o 32.º pódio luso de sempre.

No dia 5 de julho de 1974, o Conselho de Estado teve a sua primeira dramática reunião, depois do golpe militar que, a 25 de abril desse ano, tinha derrubado a ditadura de Américo Tomás e Marcelo Caetano. Em cima da mesa, uma proposta do I Governo Provisório, que pretendia alterar a Lei 3/74, nada mais, nada menos do que a lei constitucional que, provisoriamente, vigorava no País. O primeiro-ministro, Adelino da Palma Carlos, em acordo com o Presidente da República (que fora nomeado pela Junta de Salvação Nacional, o conselho militar que se formara no dia da Revolução dos Cravos), propunha mudar drasticamente as regras resultantes do programa do MFA. O documento dos capitães de abril preconizava eleições livres no prazo máximo de um ano, para a formação de uma Assembleia Constituinte. No ano seguinte, esta devia elaborar e aprovar a nova Constituição da República. Até lá, o País seria governado por um (ou mais, se fosse caso disso) governo provisório. Naquele dia de julho, porém, além de reforçar os poderes do primeiro-ministro, no quadro do Conselho de Ministros – o que foi aprovado, sem problemas –, Palma Carlos defendia uma eleição presidencial antes de haver nova Constituição, e logo para dali a uns meses (outubro de 1974). Ao mesmo tempo, aprovar-se-ia, em referendo, uma Constituição provisória. Seriam ainda suprimidos os órgãos Junta de Salvação Nacional e Conselho dos Chefes de Estado das Forças Armadas. Em dezembro, realizar-se-iam eleições autárquicas. E as eleições gerais, para a Assembleia Constituinte, só decorreriam lá para novembro de 1976 (em vez de abril de 1975) com uma nova Constituição apenas aprovada em 1977. Até lá, o Presidente eleito – supunha-se que Spínola, numa espécie de plebiscito – teria plenos poderes, numa solução gaulista… Mas sem o contrapeso de uma assembleia de deputados!

Os conselheiros ficaram boquiabertos, a olhar uns para os outros. Depois, uma larga maioria recusou liminarmente estas propostas, apesar dos votos favoráveis de Firmino Miguel (então coronel), Francisco Sá Carneiro e Vieira de Almeida. Em consequência, ainda sem terem completado dois meses de mandato, Palma Carlos e o I Governo Provisório demitiram-se. Para o lugar da chefia do novo executivo, foi escolhido (por influência do MFA) o então coronel Vasco Gonçalves, da ala esquerda do movimento e muito próximo do PCP. Começava ali o “gonçalvismo”.

“O velho já não manda”

O chamado “gonçalvismo”, que iniciou o seu ciclo revolucionário, portanto, há 50 anos, apenas conheceria o período áureo no “verão quente” de 1975, depois da guinada à esquerda ocorrida após a intentona de direita do 11 de março. A catadupa de ocupações, saneamentos e nacionalizações só ocorreria, de facto, em 1975, à medida que as relações entre a extrema-esquerda e o PCP, por um lado, e as forças moderadas, por outro, se iam deteriorando. Mas no verão de 1974, Vasco Gonçalves estava longe de ser um mero joguete do PCP: embora próximo de Álvaro Cunhal, ministro sem pasta do II Governo Provisório, Gonçalves sabia pensar pela própria cabeça e revelou mesmo um sentido democrático firme, ao pugnar pela efetiva realização de eleições, em abril do ano seguinte, já contra a vontade de setores mais radicalizados das Forças Armadas e do PCP. Mas a chamada “crise Palma Carlos” – ou “golpe Palma Carlos”, como preferiram chamar-lhe os comunistas… – saiu pela culatra aos seus ideólogos, a começar por António de Spínola, que seria obrigado a renunciar pouco mais de dois meses depois, na sequência da tentativa de golpe de direita do 28 de setembro. Spínola e Palma Carlos queriam impor a “ordem” no País, reprimir os excessos revolucionários e enveredar por uma descolonização controlada, resistindo ao máximo em conceder as inevitáveis independências. Tendo fracassado nos seus intentos, o País sofreu uma primeira viragem à esquerda, logo na constituição do II Governo Provisório (o primeiro chefiado por Vasco Gonçalves): com efeito, Sá Carneiro abandonou o governo (embora tenha permitido que o seu PPD continuasse representado, nomeadamente, por Magalhães Mota, outro dos ministros políticos, sem pasta).

Contestação O PS liderava, nas ruas, a oposição às políticas gonçalvistas, em especial depois de ter abandonado o IV Governo Provisório Foto: Luís Vasconcelos

No primeiro executivo, a relação de forças era de nove ministros de esquerda e seis de direita; no segundo, esta relação passou para 12-4. No novo governo entraram, também, seis militares do MFA, o que refletia a súbita fragilidade do Presidente Spínola em contraste com a crescente influência da Comissão Coordenadora do Movimento das Forças Armadas. E, além de Vasco Gonçalves, também Álvaro Cunhal e o próprio MFA (Melo Antunes tornou-se igualmente ministro sem pasta) passaram a delinear a estratégia da descolonização, antes conduzida por Spínola e Mário Soares. É verdade que Soares se manteve como ministro dos Negócios Estrangeiros e continuou a negociar com os movimentos de libertação, mas era permanentemente ultrapassado pelos homens do MFA em Lisboa e no terreno, tendo depois, injustamente, ficado com o ferrete de ter sido o responsável pela “descolonização exemplar”, uma expressão do próprio que acabaria por ser usada contra si. Poderia ter saído, como Sá Carneiro, mas ele concluíra que uma perda de influência sua potenciaria a força dos setores radicais; e tinha a perfeita noção de que a sua presença era decisiva para manter as democracias, e a então CEE, ao lado da revolução portuguesa e que só ele conseguiria desbloquear os empréstimos de que as depauperadas finanças nacionais necessitavam. Tudo isso era prioritário, relativamente às colónias.

Num episódio pouco conhecido, Soares foi enviado por Spínola para conferenciar com a Frelimo, de Samora Machel. Levava a incumbência de ganhar tempo e de falar em possíveis referendos. Com ele, seguia Otelo Saraiva de Carvalho, um antigo discípulo de Spínola, que este enviara para vigiar Soares, em quem o general do monóculo não confiava. Afinal, foi Otelo a “estragar” tudo: quando Soares tentava argumentar com os moçambicanos, o ideólogo do 25 de Abril interrompeu-o: “Senhor doutor, não vale a pena estarmos aqui com conversa de chacha; temos de dar a independência aos homens e mais nada.” Aflito, o ministro dos Negócios Estrangeiros suspendeu as conversações para voltar a Lisboa, para consultas. Recebidos no Palácio de Belém, Soares e Otelo ouviram das boas, mas o principal visado pelo PR era o socialista. Foi então que Otelo interveio: “Ó meu general, fui eu que disse isto assim e assado, não foi aqui o dr. Soares…” O general, lívido e surpreso, expulsou ambos do palácio, apelidando-os de traidores. Cá fora, Otelo deu uma palmada nas costas do ministro: “O senhor doutor não se preocupe, que ali o velho já manda menos do que pensa…”

Um elenco de luxo

O gonçalvismo, antes de o ser, já o era. Vasco Gonçalves tomou posse a 18 de julho, mas antes disso já tinha sido aprovado, no dia 1, o diploma que previa o autogoverno das Forças Armadas – portanto, autónomas do poder civil. A 8 de julho, o decreto-ei 310/74 institui o Comando Operacional do Continente, o célebre COPCON, de Otelo Saraiva de Carvalho, que haveria de ser a autoridade armada máxima do País no ano e meio que se seguiu. E os decretos que nacionalizaram o Banco de Portugal e o Banco Nacional Ultramarino saíram a 13 de setembro, já com Vasco Gonçalves instalado no poder. A nacionalização geral da banca ocorreria apenas depois do 11 de março, mas a conclusão simplista de que esse foi um mero ato revolucionário choca com o facto de que, efetivamente, o Estado tinha de tomar medidas drásticas para mitigar o que se anunciava como uma fuga massiva de capitais…

Tomada de posse A 18 de julho de 1974, Vasco Gonçalves tomava posse, como primeiro-ministro, reconhecendo-se, entre outros, Mário Soares, Melo Antunes e o Presidente Costa Gomes. Foto: A CAPITAL

Do II Governo Provisório fizeram parte nomes muito sonantes da incipiente democracia e cujos estatuto, qualidade e preparação, política e técnica, fazem corar de vergonha muitos dos governos do século XXI. Além dos já citados Mário Soares, Álvaro Cunhal, Melo Antunes e Magalhães Mota, encontramos nomes como Silva Lopes (Finanças), Vítor Alves (sem pasta), Firmino Miguel (Defesa), Almeida Santos (Coordenação Interterritorial), Costa Brás (Administração Interna), Salgado Zenha (Justiça), Rui Vilar (Economia), Vitorino Magalhães Godinho (Educação e Cultura), Maria de Lourdes Pintasilgo (Assuntos Sociais) ou Sanches Osório (Comunicação Social). Nas secretarias de Estado, entre outros, vamos encontrar Vítor Constâncio, Azevedo Coutinho, Nandim de Carvalho, José Torres Campos, José Vera Jardim, Mário Ruivo, Jorge Campinos, Nuno Portas, Gonçalo Ribeiro Telles, Prostes da Fonseca, Avelãs Nunes, Maria de Lurdes Belchior ou Pedro Coelho. Um elenco de que emergiram nomes de capital importância, nos anos seguintes, na política, nas empresas e no pensamento nacionais. Vasco Gonçalves viria a presidir quatro governos, o último dos quais já sem socialistas nem sociais-democratas.

Até ao discurso de Almada

Por volta dos inícios de março de 1975, começou a circular em meios políticos e militares a existência de um projeto para uma alegada “matança da Páscoa”, que seria perpetrada pelos revolucionários, contra as “forças da reação”. Alegadamente, muitas figuras conotadas com a direita – e mesmo outras moderadas de centro ou centro-esquerda – seriam fuziladas. A ter existido, esta lista servia como isco para fazer sair da toca “a reação”, obrigando a ala spinolista a dar o esperado primeiro passo em falso. Isso aconteceu, num golpe de opereta, filmado em direto pelas câmaras da RTP (imagens da RTP Memória disponíveis no YouTube). Um oficial golpista começa a parlamentar, no exterior da porta de armas do RALIS (Regimento de Artilharia de Lisboa, em Sacavém, à entrada da Autoestrada do Norte), com o seu comandante, o conhecido militar da esquerda revolucionária, Dinis de Almeida, o “Fittipaldi das chaimites”. Tudo perante o microfone do repórter Adelino Gomes, que se movimenta de um para outro dos protagonistas. Dinis de Almeida predispõe-se a lutar, “vamos a isso”, mas quer saber porquê. E remata: “Quem dá ordens neste país é o Presidente da República, o primeiro-ministro, o Otelo Saraiva de Carvalho e o chefe de Estado Maior!” No final, os revoltosos – duas companhias de paraquedistas que alegavam ter ordens para ocupar o RALIS – declaram ter sido enganados e os militares há pouco antagonistas caem nos braços uns dos outros. Por essa altura, Spínola foge de helicóptero, em direção a Espanha. No seu lugar de Belém estava, desde outubro, o general Francisco da Costa Gomes, que manterá uma postura hesitante, para alguns, neutra, para outros, mas que será preponderante para garantir, a 25 de novembro, a vitória dos moderados e a normalização da jovem democracia portuguesa.

Um monumento à espera

A peça de homenagem a Vasco Gonçalves, da autoria de Siza Vieira, aguarda aval do executivo de Moedas

O monumento a Vasco Gonçalves jaz, inacabado, num armazém na região da Grande Lisboa. Assinada pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira, a peça de mármore de Estremoz, que representa uma figura humana, com os braços apontados ao céu, estava pronta para ser instalada, na Alameda Dom Afonso Henriques, em Lisboa, nos 50 anos do 25 de Abril. Mas, passados quase quatro meses, continua a aguardar “luz verde” da CML, depois de ter recebido o aval de Carlos Moedas. Porém, a oposição do CDS – parceiro da coligação Novos Tempos – terá feito o autarca recuar. “Compreendo a situação”, diz, à VISÃO, Manuel Begonha, dirigente da Associação Conquistas da Revolução, que promete “insistir” no projeto “depois do verão”. “Enviámos toda a documentação à câmara. O monumento é uma justa homenagem e uma prenda de Siza a Lisboa. Não faria sentido a cidade recusá-la. Esperamos poder instalá-lo até ao final do ano”, refere. — J.A.S

Vasco Gonçalves acompanha os acontecimentos, reforçando o seu alinhamento com o PCP, mas procurando manter o seu espaço. Com uma imagem “pop” peculiar, é celebrizado em desenhos de João Abel Manta e na música de Carlos Alberto Moniz e Maria do Amparo. Em 1975, regressado de uma reunião com os parceiros da NATO – Portugal já fora, entretanto, afastado do acesso a matérias confidenciais… – declara que o nosso país continua de alma e coração como membro de pleno direito da organização e que cumprirá todos os compromissos com a Aliança Atlântica. No 1º de Maio de 1975, declarara, discursando na tribuna do antigo estádio da FNAT, que, contra todos os boatos alarmistas, o MFA tinha garantido a promessa da realização de eleições (com a vitória, diga-se de passagem, das forças moderadas e a derrota das forças revolucionárias…). E acrescentou, confirmando a viragem na descolonização: “Foi ao vencer-se a crise Palma Carlos que se criaram condições para o reconhecimento do direito dos povos à autodeterminação e à independência, facto que trouxe de imediato ao povo português e aos povos das antigas colónias o fim da guerra.” Estava a ser fiel aos acontecimentos. Mas, no mesmo discurso, procurava estabelecer um rumo original para a revolução portuguesa: “A opção socialista é difícil de trilhar, pois há muitas vezes que conciliar o que parece inconciliável, desfazer contradições que parecem irredutíveis, arranjar unidade onde parece haver desunião. Temos de observar a nossa realidade, descobrir soluções originais. Na História, não há factos repetidos, e o nosso caso é único.”

A 6 de outubro de 1974, um domingo, Vasco Gonçalves tinha desafiado o País a oferecer um dia de trabalho à Revolução. A generalidade dos trabalhadores aderiu a essa jornada de trabalho extra, intitulada “Batalha da Produção”. Mas a 10 de junho de 1975, feriado nacional, quando quis repetir a iniciativa – era, agora, a vez da “Batalha da Produtividade” –, as praias do País encheram-se de banhistas. Era óbvio que a grande maioria do povo já não estava totalmente com “este” MFA e que a Aliança Povo-Vasco-MFA, celebrizada num icónico desenho de João Abel Manta, estava mesmo por um fio. Numa reunião do PCP em Alhandra, em agosto, Álvaro Cunhal decide que Vasco Gonçalves está gasto, já mais prejudica do que ajuda o PCP, e concorda deixá-lo cair. O canto do cisne do “companheiro Vasco” foi no célebre comício de Almada, a 18 desse mês, onde a sua perturbação mental e a sua falta de “estribeiras” políticas se tornavam evidentes. A revolução devora sempre os seus filhos.

A última entrevista

A última conversa com Vasco Gonçalves foi publicada na VISÃO, dois meses antes da sua morte

A 21 de abril de 2005, o general Vasco Gonçalves concedeu à VISÃO uma longa entrevista de vida, conduzida por José Carlos de Vasconcelos. A conversa haveria de ser a última, já que o “companheiro Vasco” morreria poucas semanas depois, a 11 de junho desse ano. Aos 84 anos, o homem que, decerto, mais dividiu opiniões em Portugal (e que, hoje, ainda continua a dividir) mantinha os traços discretos e modestos. A longa conversa decorreu na sala de estar da sua casa, num andar dos anos 50 da Avenida dos Estados Unidos da América, em Lisboa. Na ocasião, Vasco Gonçalves reviveu as três décadas que haviam passado, recordando o período que considerava ter sido “o mais alegre” da sua vida. Ao jornalista, afirmou que “o ‘gonçalvismo’ nunca existiu”, não passando de “uma invenção dos que queriam contrariar o processo revolucionário”. Considerou que, “em geral”, o processo de nacionalizações e desmantelamento dos grandes grupos económicos “foi correto”. Sublinhou nunca ter sido “um marxista radical” e queixou-se das “calúnias e mentiras” de que foi alvo ao longo dos anos. “Gostaria que me lembrassem como um patriota e um homem honrado que lutou pelo bem do povo português”, disse. — J.A.S

“Companheiro Vasco”: quatro dos seis governos provisórios

O gonçalvismo começou há 50 anos e durou pouco mais de um ano. Mas ainda hoje é recordado como um dos períodos mais icónicos e polémicos da revolução portuguesa…

16 de maio de 1974
Toma posse o I Governo Provisório, liderado por Adelino da Palma Carlos.

18 de julho de 1974
Vasco Gonçalves chega ao poder e lidera o II Governo Provisório, o primeiro dos seus quatro executivos.

28 de setembro
Manifestação da Maioria Silenciosa é anulada. Fracassa a tentativa golpista do PR, António de Spínola, para reforçar o poder. Spínola renuncia ao cargo, pouco depois. É substituído por Costa Gomes.

11 de março de 1975
Alegado golpe da extrema-direita militar e política é derrotado pelas forças revolucionárias. A revolução sofre uma guinada à esquerda.

26 de março de 1975
Toma posse o IV Governo Provisório

8 de agosto de 1975
Depois do abandono do PS, seguido do PPD, o IV Governo tinha caído. Toma posse o V Governo Provisório, o mais à esquerda até então.

19 de setembro de 1975
Depois do Documento dos Nove (manifesto da ala moderada do MFA) e da queda de Vasco Gonçalves, toma posse o VI Governo Provisório, liderado pelo almirante Pinheiro de Azevedo.

1 de outubro de 1974
Toma posse o III Governo Provisório

25 de Novembro de 1975
A extrema-esquerda militar movimenta tropas, mas as suas ações são anuladas pelos moderados. Acaba o período revolucionário.