Visão
“De uma prisão a céu aberto, Gaza passou a ser um inferno a céu aberto”. Foi desta forma explícita que Isabel Mendes Lopes, Líder Parlamentar do LIVRE, ilustrou a situação da Palestina no debate de actualidade por nós proposto no Parlamento em Junho.
Quase dois meses depois a situação continua a piorar, comprovando que no inferno existem realmente vários círculos e que para o Governo de Israel, terroristas e inocentes merecem o mesmo nível de um tratamento demoníaco que se tem revelado terrível. Basta recordar que esta semana começou com um ataque israelita que matou pelo menos 100 pessoas numa escola em Gaza, num momento em que se encetava novo esforço negocial para um cessar-fogo.
Ninguém pode ser indiferente ao tormento porque passaram os Israelitas com os eventos de 07 de Outubro (os quais, aliás, o LIVRE foi o primeiro partido a condenar em declaração política na Assembleia da República), nem às circunstâncias históricas em que se construíram este Povo e este Estado. Mas Israel tinha várias respostas ao seu dispor e a obrigação de tomar outras opções, pela dignidade internacional que ganhou nos últimos 80 anos e pela base moral e humanitária que fundou a construção do seu país, devendo ter mantido na memória que não existe culpa colectiva e que nunca toda uma população deve ser punida por atos de uma organização que neste caso nem sequer a representa.
Nestes 300 dias não houve zonas seguras em Gaza. Qualquer alvo foi admissível e nada escapou ao ódio imposto por Netanyahu, tendo-se já perdido a conta ao número de locais bombardeados, desde escolas a hospitais, edifícios das Nações Unidas, Crescente Vermelho e outras organizações humanitárias, universidades, armazéns com bens essenciais doados, campos de refugiados, ambulâncias, mesquitas e igrejas…
E tudo a mando do Primeiro-Ministro acusado pelo Tribunal Penal Internacional de crimes de guerra e contra a humanidade e da extrema-direita que o suporta no poder. Contudo, a reação pública de Israel segue sempre a mesma cartilha, primeiro negando qualquer acto ou culpando outrem, para depois, quando os factos ficam à mercê do mundo, acabar por admitir os actos hediondos com a justificação de que estavam ali terroristas.
Não pode ser ao acaso que mais de dois milhões de pessoas estejam a passar fome, vivendo em tendas, sem água potável ou saneamento, forçadas a evacuar para norte ou sul da faixa consoante o vento que sopra de Israel. Ou que mais de 80% dos edifícios tenham sido destruídos, e menos de 14% dos hospitais e 13% das escolas continuem a funcionar (a maioria com grandes limitações), e já não exista qualquer universidade em Gaza (eram 12). Ou que, a juntar ao brutal número de mortos, tenham sido já atestados por analistas internacionais atos de tortura e violência sexual contra civis por parte das forças armadas e de segurança de Israel.
Há muito se percebeu a opção de quem gere o Estado de Israel. Foram assassinadas mais de 40 000 pessoas em Gaza (14 000 crianças) nestes 300 dias de barbárie e crimes de guerra, comprovando que há extremistas e radicais dos dois lados da fronteira e que também em Israel existe quem queira limpar todo um povo dum território que deveria ser compartilhado pacificamente por dois Estados, solução que o LIVRE defende desde a sua fundação, há mais de uma década.
É urgente parar com este massacre feito em directo, e obrigar Israel a uma trégua e a iniciar um processo de paz. Esta tem sido a posição digna do Secretário-Geral da ONU, mesmo debaixo de duras críticas por parte dos mais radicais. Mas foi também a posição do Conselho de Segurança, que em Junho aprovou uma Resolução com um plano para um cessar-fogo de seis semanas e uma fase de pacificação, a que se seguiria a reconstrução de Gaza. A Assembleia-Geral da ONU tem sido ainda mais clara, sempre no sentido do reconhecimento da independência da Palestina, tendo na última ocasião sido aprovado por 143 Estados (em 177).
Quanto à União Europeia, tem havido evolução favorável ao reconhecimento do Estado Palestiniano, com Espanha, Irlanda e Noruega a fazê-lo no final de Maio. Já os partidos portugueses de centro-direita e direita, bem como o Governo de Luís Montenegro, ao contrário do proposto pelo LIVRE naquele debate de actualidade, mantêm uma posição que obsta a este reconhecimento com a justificação de que isso permitirá maior capacidade de mediação do conflito, como se fosse possível mediar com justiça dois povos a que não se reconhece a mesma dignidade. Pelo contrário, só será possível alcançar uma paz duradoura e evitar a lei do mais forte com o reconhecimento da Palestina livre, pois é essa a condição que atribui legitimidade jurídica e política para evitar que um Estado reconhecido se sobreponha pela força e sem oposição a um Estado proclamado.
Há apenas uma solução para este conflito de décadas: independência, liberdade e reconstrução da Palestina e do seu povo. O mesmo a que o povo de Israel teve justamente direito após a barbárie que foi o Holocausto.
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Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Palavras-chave:
Uma equipa internacional de geólogos bateu o recorde de profundidade de perfuração do manto terrestre, ao conseguir escavar por mais de 1200 metros. O manto terrestre estende-se ao longo de várias dezenas de quilómetros, entre a crosta e o núcleo do planeta. Esta camada é descrita como tendo a consistência de caramelo, num fluido semi-sólido com uma composição diferente da que temos à superfície, pelo que a sua análise pode fornecer descobertas importantes. No entanto, por estar soterrado a várias dezenas de quilómetros abaixo da crosta, é de acesso difícil.
O feito da equipa só foi possível porque, em algumas áreas, o manto está mais perto da superfície, como é o caso da dorsal mesoatlântica, numa região onde a placa tectónica norte-americana se encontra com a euroasiática.
A bordo do navio JOIDES Resolution, a equipa usou uma grua para perfurar uma montanha subaquática e, apesar de só ter planeado ir até 200 metros, foi surpreendida pela facilidade e rapidez com que a sonda estava a perfurar e decidiu continuar, chegando aos 1268 metros e recolhendo 71% das rochas.
A amostra recolhida foi analisada a bordo pelos mais de 30 especialistas que concluíram que não se trata de material puro do manto, por já ter interagido com a água do mar e assumido uma estrutura semelhante à da pele de uma cobra. Também foram encontrados vestígios de outras rochas, permitindo aferir que não há uma fronteira tão clara entre o fim da crosta terrestre e o início do manto, noticia a New Atlas.
Além da pertinência geológica, a expedição vai ser importante para outras áreas de interesse, com a equipa a ter recolhido amostras de microrganismos, encontrados a diferentes profundidades, para analisar as reações químicas que produzem hidrogénio e outras moléculas essenciais à vida.
Poucos meses antes do 25 de Abril, a elite liberal portuguesa reuniu-se em Lisboa para discutir a situação política do País. Nesse Encontro dos Liberais, assim chamado por ter sido organizado pelos deputados da Ala Liberal, Magalhães Mota e Tomás Oliveira Dias, e tido como participantes Francisco Balsemão, Marcelo Rebelo de Sousa e Maria de Lourdes Pintasilgo, emitiram um forte sinal do seu desencanto com o marcelismo, dando assim um contributo para a queda da ditadura. No âmbito das comemorações do meio século do 25 de Abril, vai ser lançada, no próximo dia 27, uma coletânea de ensaios coordenada pelo historiador António Araújo, intitulada Encontro dos Liberais, 1973: 50 Anos Depois. Nesta entrevista, António Araújo, o curador da obra, caracteriza o ambiente político e social desse tempo e descreve a Ala Liberal como uma “terceira força” ou uma “oposição semilegal” ao regime. A conversa estendeu-se a outros domínios, com Araújo a mostrar-se muito crítico da historiografia que, à esquerda, tenta “romantizar o PREC como um período de grandes conquistas”, porque, à direita, há também quem queira “erguer o 25 de Novembro como um anti-25 de Abril”.

O que este livro nos ensina sobre a Ala Liberal, um movimento que não era muito organizado nem unânime nas suas posições?
O Encontro dos Liberais tem lugar em 1973, um ano marcado por muitos acontecimentos. Logo no início, a Vigília da Capela do Rato provoca a renúncia ao mandato parlamentar de Francisco Sá Carneiro e de Miller Guerra, duas figuras tratadas neste livro. Depois, é revelado o caso [do massacre] de Wiriamu, continua a intensificar-se a luta armada, realiza-se o III Congresso da Oposição Democrática em Aveiro, são marcadas eleições legislativas para outubro e as forças da oposição, nomeadamente a CEUD, afeta ao PS, e a CDE, mais próxima do PCP e do MDP/CDE, procuram posicionar-se politicamente. O Encontro dos Liberais acontece em finais de julho e, de certa forma, tem como objetivo definir se os liberais, perante o desencanto com a Primavera Marcelista, deviam ou não ir a eleições. Todos estes acontecimentos são indícios do fim do regime, que já nem podia contar com quem tinha contado desde a primeira hora. Falamos dos deputados liberais, mas também dos tecnocratas, como João Salgueiro e outros, que entretanto tinham saído do governo. O que é curioso, no documento saído do Encontro dos Liberais [publicado no livro], é que nele se aborda a questão do Ultramar e faz-se uma crítica forte à Guerra Colonial, mas não tem uma posição favorável às independências ou às autodeterminações. De qualquer forma, não deixa de referir o ponto do Ultramar, que era o nó górdio do regime.
Mas quem eram exatamente os liberais?
O texto de Tiago Fernandes [sobre a atividade política dos liberais] mostra que a Ala Liberal era uma elite jovem, burguesa, oriunda de Lisboa e do Porto, ainda que com ramificações a Leiria ou a Coimbra, composta essencialmente por juristas e economistas com alguma autonomia em relação ao regime. No encontro, essa elite posicionou-se também em relação a tópicos como os direitos dos consumidores, as pequenas e médias empresas, o domínio dos grandes grupos económicos. Era uma linha de pensamento que começava a desenvolver-se com o apoio de duas outras entidades que nasceram nessa altura: a Sedes e o jornal Expresso. Apesar da censura e da repressão, que se intensificou com o estertor do regime, começou a haver um espaço público alternativo, nos jornais e em debates. Essa gente vai estar na génese do PPD/PSD ou do CDS. Foi aí que se formaram os quadros que ocuparam aquilo que hoje identificamos como centro-direita liberal, moderada, europeísta.
Até que ponto a realização do Encontro, numa época já de desencanto com o marcelismo, legitimou a participação dos liberais no pós-25 de Abril?
O encontro foi fundamental, da mesma maneira que os católicos progressistas foram fundamentais para que a Igreja Católica pudesse apresentar-se com algumas credenciais democráticas no pós-25 de Abril. Sem a Ala Liberal ou o Expresso, não teria existido o PPD como o conhecemos. Ao fazer prova de vida antes do 25 de Abril, esse espaço político de centro-direita, que na altura não se intitulava como tal – Sá Carneiro até tentou fazer a adesão do PPD à Internacional Socialista –, pôde afirmar-se no pós-25 de Abril, e isso foi fundamental para o equilíbrio do regime, sobretudo após o 25 de Novembro e a Constituição de 1976. Não foi por acaso que o PPD ficou em segundo lugar nas eleições para a Assembleia Constituinte em 1975, permitindo que o regime não se desequilibrasse excessivamente à esquerda. As pessoas da Ala Liberal não tinham credenciais de oposição violenta, nem de bombas nem de atentados, mas eram aquilo a que Tiago Fernandes chamou uma “oposição semilegal”. A grande preocupação era o Estado de Direito, as liberdades fundamentais, a democracia.
Queriam ser oposição, mas atuando dentro da legalidade?
Sim, notava-se muito a marca dos juristas. A oposição do PCP era marcadamente ideológica, baseada nas massas populares, no campesinato e no operariado, mas esta era uma oposição feita pelas elites e pelos juristas do regime, com o objetivo da liberalização através da abolição da censura, da formação de associações, da constituição a prazo de partidos políticos…
Os liberais eram uma espécie de terceira força entre o regime e a oposição?
Na altura falou-se de uma terceira força à procura de espaço entre o regime e a oposição, mais do PCP. Porém, enquanto o PCP era um partido estruturado, aqui nem sequer existia um partido ou uma associação. Era um grupo de personalidades com conforto e uma segurança, o que lhe permitia ter atividade oposicionista sem os riscos que corria um pobre camponês do Couço. Mas não havia um líder definido, sobretudo depois da morte de José Pedro Pinto Leite, o mais bonacheirão e carismático. Sá Carneiro tinha um feitio mais anguloso, mais de quebrar do que de torcer, mas não se pode dizer que fosse o líder da Ala Liberal, nem ele nem Miller Guerra. Também não havia uma sede onde se pudessem reunir. Sá Carneiro estava no Porto; Francisco Pinto Balsemão e Magalhães Mota, em Lisboa; Mota Amaral, nos Açores. Quando se sentam pela primeira vez no Parlamento, a seguir às eleições de 1969, alguns nem se conheciam. Não entraram como Ala Liberal; foram escolhidos um a um, e muitos tornaram-se oposicionistas ao regime.
Uma das curiosidades deste livro é o papel de José Guilherme de Melo e Castro, presidente da União Nacional, que, em 1969, escolheu, quase que por catálogo, os futuros deputados liberais. Três anos antes, tinha pedido a Salazar que se retirasse de cena, num discurso comemorativo da ditadura militar…
… Foi um discurso particularmente corajoso. Um homem surpreendente.
Melo e Castro também convidou Mário Soares, mas este recusou. Como teria sido se tivesse aceitado?
Teria sido uma grande embrulhada. Não gosto muito da história virtual, mas vamos especular sobre o que teria acontecido se Soares tivesse pertencido à Ala Liberal. As suas relações com Sá Carneiro não eram fáceis e com Caetano eram péssimas. Marcelo Caetano era um professor de Direito muito rigoroso, muito exigente, e Mário Soares, como se sabe, não se distinguiu como aluno nem como jurista. Caetano desprezava-o desde logo como jurista. Por outro lado, Soares tinha entrado em rota de colisão com o regime. Quando regressa do exílio em São Tomé, lidera a contestação durante a visita do presidente do Conselho a Londres. Soares vinha de uma família de velhos republicanos, das campanhas de Norton de Matos e de Humberto Delgado, tinha mais antiguidade na luta contra o regime. Nenhum dos deputados liberais tinha estado preso, mas ele já havia estado exilado. Por isso, estaria entre os liberais como um peixe fora de água. O mais natural é que tivesse saído ao fim de pouco tempo, desencantado, para fundar o PS, e é improvável que tivesse sido líder dos liberais.
Mesmo assim, foi convidado para as listas da União Nacional, presumivelmente com o conhecimento de Marcelo Caetano…
Claro. Marcelo Caetano pensou fazer uma liberalização progressiva do regime, através dos tecnocratas que levou para o governo, como Rogério Martins, João Salgueiro, Xavier Pintado ou Silva Pinto, e dos liberais que integrou nas eleições de 1969. Melo e Castro não poderia ter decidido sozinho a composição das listas da União Nacional, até porque a tradição, desde o tempo de Salazar, assentava num escrutínio por parte do presidente do Conselho. A ideia acabou por não funcionar devido não só à pressão dos ultras do regime mas também por causa de dois acontecimentos: a revisão constitucional de 1971, que mostrou que o regime não ia tão depressa como a Ala Liberal queria, e a reeleição, em 1972, de Américo Tomás, que é um desencanto completo, e não estamos a falar apenas dos liberais.
Numa altura em que comemoramos os 50 anos do 25 de Abril, considera que há uma historiografia de esquerda e outra de direita, ou o que existe são historiadores de esquerda e outros de direita?
Acho que são as duas coisas. Quando há uma revolução, estabelece-se uma narrativa oficial, e tudo o que foge a essa pauta é logo tido como antirrevolucionário, para não dizer fascista. Depois, surge outra literatura revisionista. A história do 25 de Abril foi feita por um movimento editorial extraordinário, que surgiu logo a seguir à Revolução, mas, depois disso, os inimigos do 25 de Abril produziram a sua literatura. Estamos a falar de pessoas como Jaime Nogueira Pinto e de gente ligada às redes bombistas, que fez literatura antirrevolucionária…

Feita mais à base da memória e da ideologia dos protagonistas do que de um estudo científico?
Sim, não se pode dizer que a literatura a seguir ao 25 de Abril fosse científica. Era literatura de intervenção política, como, por exemplo, Portugal à Deriva [ed. 1978], de José Miguel Júdice, ou Portugal – Os Anos do Fim [ed. 1976-1977], de Jaime Nogueira Pinto. Do outro lado estavam os protagonistas, como Manuel Duran Clemente [autor de Elementos para a Compreensão do 25 de Novembro, ed. 1976]. O choque que o País viveu refletiu-se na produção de textos de intervenção, que têm valor histórico como documentos, mas não são obras de investigação. Mais tarde, devido a iniciativas como as do Centro de Documentação 25 de Abril e a investigadoras como Maria Manuela Cruzeiro ou Maria Inácia Rezola, são entrevistados vários protagonistas, nomeadamente Melo Antunes, Costa Gomes, Vasco Gonçalves. Aí, já foram lançadas as bases para uma historiografia mais objetiva e científica do 25 de Abril. A narrativa dominante ainda é de esquerda, o que é compreensível. Menos compreensível é que muitas vezes se construam mitos. Há dias, discutia a história dos cravos com o meu amigo Jacinto Godinho, grande investigador, professor universitário e jornalista da RTP, alguém que conhece como poucos as imagens do 25 de Abril e que diz que, nesse dia, não encontra nenhuma fotografia ou filmagem com cravos. Só aparecem no dia 26 ou 27 de abril. Mas ai de quem diga que, no dia 25 de abril, não havia cravos, porque passa logo por fascista [risos].
Os cravos são o símbolo romântico da Revolução…
Exatamente. Uma vez escrevi que o dia estava chuvoso e nem imagina as críticas que recebi. No imaginário das pessoas, teria de ser um dia de sol radioso, mas não foi. Foi um dia chuvoso, como as imagens mostram. Há também uma historiografia de uma esquerda radical, que tenta romantizar o PREC como um período de grandes conquistas, que, depois, foi sufocado pelo 25 de Novembro e pelo retorno do capital, etc.
Refere-se a quem e a que obras?
As Raquéis Varelas, aos livros sobre as nacionalizações, em que o 25 de Novembro foi uma tragédia. Louvar as nacionalizações, as ocupações de terras, é um território pouco propício a um trabalho historiográfico sério, porque também há uma direita que quer erguer o 25 de Novembro como um anti-25 de Abril. O 25 de Novembro deve ser comemorado, mas não como um anti-25 de Abril, porque foi a concretização e o prolongamento do 25 de Abril. Só a partir do 25 de Novembro, e da correção dos excessos do PREC, é que foi possível lançar as bases para a paz, o pão, habitação, saúde… Só a partir daí é que tivemos estabilidade política. Não nos esqueçamos de que o País esteve à beira de uma guerra civil! Sá Carneiro pediu a Jorge Miranda uma mini-Constituição provisória, para o caso de ter de ser formado um governo no Norte, já para não falar das armas, da linha de fratura em Rio Maior. O Parlamento esteve cercado! São coisas que importa recordar, não para denegrir o 25 de Abril, mas para compreender o processo revolucionário no todo. Apesar de terem passado 50 anos, é triste que, em qualquer abordagem historiográfica, as pessoas ainda tentem saber se o historiador é de direita ou de esquerda. Não faz sentido, porque, quando alguém está a estudar a Idade Média ou o século XIX, não lhe vamos perguntar se é de esquerda ou de direita. A história do 25 de Abril ainda é muito ideológica…
Então ainda não é uma história fechada, acabada?
Devia ser. A Comissão das Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril tem feito um esforço nesse sentido, mas a historiografia ainda está um bocadinho dominada pelas fraturas que surgiram no pós-25 de Abril, e é pena. No entanto, começa a haver terreno para se fazer uma verdadeira história do 25 de Abril, através da captação e do registo da memória e da história oral. Começa a haver coisas muito mais objetivas e plurais.
Se a história do 25 de Abril não está acabada, a do 25 de Novembro ainda menos o estará…
Há uma tendência, de uma certa direita, para celebrar o 25 de Novembro contra o 25 de Abril. É óbvio que o 25 de Novembro veio corrigir os excessos do PREC. Mas nos movimentos de extrema-direita e de direta radical, como o Chega, tende-se a politizar as comemorações do 25 de Novembro.
Isso preocupa-o?
É uma coisa que me entristece, porque é uma manipulação da História. Da mesma maneira que a esquerda radical começa a celebrar o PREC, a direita radical começa a celebrar o 25 de Novembro contra o 25 de Abril. De certo modo, faz falta um 25 de Novembro à historiografia [risos]. Há um excesso de ideologia, e de interpretativismo, com base em poucos factos. Mas há ainda tanta coisa por saber sobre esse período… Olhe, por exemplo, se houve mesmo cravos no dia 25 ou se só surgiram a 26 ou a 27 de abril.
O que ainda espera das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, que vão durar até 2026?
Não conheço ao pormenor o próximo programa, mas sei que vai, e muito bem, até à Constituição de 1976. Há várias pessoas que, lamentavelmente, morreram sem deixar memórias ou depoimento, mas acho que as comemorações vão ter um sobressalto curioso em 2025, que é quando se vai falar do 11 de Março e do 25 de Novembro.
O livro

Com prefácio da historiadora Maria Inácia Rezola, Encontro dos Liberais, 1973: 50 Anos Depois inclui textos de Tiago Fernandes, Rita Almeida de Carvalho, João Francisco Pereira, Ana Paula Pires, Joana Reis, José Pedro Castanheira e também de António Araújo, curador científico da obra. Esta coletânea de ensaios, resultante de uma parceria entre a Comissão Comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril e a Imprensa Nacional-Casa da Moeda, estará à venda a partir de 27 de agosto.
Palavras-chave:
Com o fim dos Jogos Olímpicos de 2024, a depressão deu lugar à euforia lusa, algo que não é incomum na nossa cultura, que navega num estado de espírito de sermos ou os piores ou os melhores do mundo, às vezes com dez minutos de intervalo.
Encerrada a prova, podemos fazer um balanço genericamente positivo. A organização francesa ficará para a história e na memória de todos, se não necessariamente pelo rigor (houve várias coisas a correr mal) pelo menos pela originalidade. A França quis fazer dos Jogos uma afirmação da sua cultura e do seu posicionamento no mundo. Abrindo o evento à cidade e ao país, criou imagens icónicas e passou todas as mensagens certas. Numa ocasião de grande responsabilidade, a França passou no teste e ganhou com um grande mérito: arriscou fazer diferente.
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Luisa é uma jovem que ainda está à procura do caminho a seguir. Apesar de ter uma vida organizada (trabalha num escritório de advogados, partilha casa com uma amiga), falta-lhe algo que mantenha acesa a chama dentro de si. O que é notório quando fala nas memórias de infância e em como era feliz a brincar ao ar livre. O começo do jogo não é, na nossa opinião, inocente. Pela forma como a sociedade está estruturada, imaginamos que muitos jogadores vão identificar-se com esta premissa. Mas o verdadeiro valor está no que se segue: Dungeons of Hinterberg jogo desafiante, bonito, relaxante, bem pensado e que nos vai confortando a cada passo que damos.

Isto porque a nossa Luisa decide tirar férias (ou fugir?) da rotina e ir para a fictícia pequena vila de Hinterberg, que se situa na Áustria. A pacata localidade saltou para as bocas do mundo depois de um evento ainda inexplicável ter criado 25 portais mágicos que dão acesso a um igual número de masmorras. Rapidamente, aventureiros de todo o mundo dirigiram-se para este local e nasceu uma nova forma de entretenimento – matar monstros. É que com a magia vieram também pequenas criaturas, os kobolds, que usam adornos relacionados com a mitologia local, e vagueiam pelas masmorras e zonas circundantes. O objetivo de todos – e o nosso também – é conseguir superar as 25 masmorras, colecionando os 25 selos que comprovam esse feito.

Encontrar o equilíbrio
Dungeons of Hinterberg é um jogo de ação e exploração (RPG), mas não cai na loucura dos mundos abertos. Além da pitoresca vila que podemos explorar, seja por diferentes localizações ou personagens (o que nos faz lembrar um pouco as cidades do universo Pokémon), temos depois quatro áreas circundantes e muito distintas entre si – tão depressa estamos numa floresta, como a seguir estamos numa serra coberta de neve. Em cada um destes biomas existem masmorras, que mais não são do que níveis labirínticos com diferentes quebras-cabeças que precisam de ser resolvidos para progredirmos (wink wink, fãs de Zelda), sendo que as masmorras têm níveis de dificuldade diferentes entre si (e devidamente assinalados antes de entrarmos). Uma escolha inteligente, pois evita que um jogador resolva todas as masmorras de um bioma de uma assentada, obrigando-o a ir variando as áreas de jogo.

O jogo divide-se depois por ciclos – durante a manhã é quando ficamos a conhecer melhor a nossa personagem, à tarde é quando nos fazemos às masmorras, à noite é quando podemos socializar com outros caçadores e habitantes de Hinterberg, e a madrugada é quando podemos dormir (ou ficar a ver televisão até tarde, se bem que isso significa menos barra de vida na missão do dia seguinte…). Apesar de parecer um regime pouco flexível, na prática acabamos por ter liberdade na medida certa. Se numa tarde não quisermos ir caçar monstros, podemos ficar simplesmente sentados num banco, no alto da montanha, a contemplar a paisagem e a respirar ar fresco. E se decidirmos fazê-lo, somos recompensados na mesma.
Isto porque a nossa personagem pode evoluir não só nos atributos habituais de um RPG (ataque, defesa, mana, através de armas e armaduras), mas também em elementos mais sociais, como fama, familiaridade ou relaxamento. Estes são elementos não só diferentes e que nos obrigam, literalmente, a ir falar com pessoas depois das nossas caçadas, como têm a sua própria gamificação (p.ex., alguns caçadores só falam connosco depois de atingirmos um determinado nível de fama). Há várias personagens com quem podemos criar relacionamentos e que nos vão ajudar a evoluir.

E podemos atestar que, apesar de sermos forçados a explorar este lado mais social de Luisa, no final acaba por compensar, pois existe uma narrativa em torno do que torna único a vila de Hinterberg e os problemas que isso lhe trouxe (habitantes insatisfeitos com tantos turistas… outro ponto com o qual muitos se poderão identificar).
Dungeons of Hinterberg: Quando simples é bom
O sistema de combate é básico (ataque leve, ataque forte, esquivar), mas existem depois habilidades especiais que vamos desbloqueando e que se tornam muito úteis, sobretudo quando temos de enfrentar vários inimigos ao mesmo tempo. Gostamos também do facto de cada área de jogo ter as suas próprias habilidades especiais. Por exemplo, na floresta podemos criar um mini-tornado que nos transporta por cima de obstáculos perigosos ou leva-nos a pontos mais altos, enquanto na neve podemos invocar uma espécie de skate mágico que nos faz deslizar a alta velocidade por esta área de jogo. Existem depois outros poderes que nos permitem interagir com elementos das masmorras e resolver os quebra-cabeças, seja através de explosões ou da movimentação de plataformas. Ou seja, em vez de obrigar o jogador a ter que decorar muitos atalhos para habilidades distintas, em cada zona só existem duas habilidades especiais, o que nos permite relaxar um pouco e tirar partido desses superpoderes.
Um outro fator bem implementado são os amuletos. Ao contrário de outros jogos do género, nos quais só temos uma ‘slot’ para acessórios especiais, aqui são-nos dados vários espaços. A questão é que o espaço ocupado por cada amuleto varia (os mais fortes ocupam mais espaço), o que nos obriga a ter que fazer alguma matemática para espremermos o máximo que conseguimos destes objetos. Também gostamos da diversidade de desafios que existem nas masmorras, garantindo sempre um fator de novidade (nem que seja através da exploração de pontos de vista da câmara diferentes). Por fim, nota positiva para a arte gráfica do jogo, outro claro ponto positivo, numa mistura de conceitos, mas resultando num estilo graficamente animado e distintivo.

Dungeons of Hinterberg está longe de ser um daqueles jogos que fará a crítica especializada curvar-se perante o trabalho do estúdio Curve Digital – nota-se em alguns elementos alguma falta de maturidade, como os combates por vezes atabalhoados, a falta de otimização em alguns segmentos de jogo (pelo menos na versão para Xbox) e um ambiente sonoro que não sendo pobre, tinha mais espaço para brilhar. Mas é importante não esquecer que este é um jogo independente. E depois de várias horas de comando na mão, na nossa opinião, e também pelo preço, tem os ingredientes suficientes para ganhar um lugar especial no coração de muitos jogadores – deixando também muito boas indicações sobre o que este estúdio poderá vir a fazer no futuro.
Prós
+ Ambientes diferentes, habilidades diferentes. Gosto disto!
+ Ah, ficar a ver a paisagem e ainda assim evoluir a personagem
+ Habitantes furiosos com a enchente de turistas? Chamem o Basílio Horta
Contras
– A área da floresta engasgou-se na nossa Xbox
Tome Nota
Dungeons of Hinterberg | €29,99 (incluído no Xbox Game Pass)
Nota final: 4,3

Plataformas Xbox Series X|S (testado), PC
Estúdio Curve Digital
Editora Microbird Games
Há muitos festivais, cada vez mais, aliás, mas também haverá sempre Coura, um momento que, como quem já lá foi sabe, vai sempre muito além da música, apesar da reconhecida e habitual excelência do cartaz. Pode ser do cenário idílico, das pessoas, das memórias passadas, e futuras, ou simplesmente porque sim, mas a verdade é que “Coura é especial”, reconhece à VISÃO o fundador do festival, João Carvalho, que, em 1993, com outros filhos da terra, concretizou a utopia de tornar uma pequena e quase esquecida vila do interior minhoto sinónimo de (boa) música.
Passados 21 anos, assume, “o grande desafio é mesmo esse, continuar a fazer do Paredes de Coura aquilo que sempre foi, um festival de descoberta de boa música, no qual se juntam passado, presente e futuro sem qualquer tipo de complexos ou barreiras”. E, ao mesmo tempo, sublinha o organizador desde a primeira hora, “dar um pequeno contributo para melhorar o mundo, sobretudo num momento tão conturbado como o que vivemos”. Afinal, diz, “Coura sempre foi o festival da amabilidade, da solidariedade, do carinho e da ternura. Acima de tudo, é isso que pretendemos continuar a ser”.
Quanto à música, o cartaz fala por si, sendo porventura um dos mais apelativos, ecléticos e completos do ano. João Carvalho hesita, por isso, em destacar nomes, mas perante a insistência lá menciona os irlandeses Fontaines D.C., os australianos Glass Beams, os britânicos Idles e o americano André 3000, antigo membro dos Outkast, que segundo o promotor é o culpado por uma inédita corrida aos bilhetes para o primeiro dia de festival. “Sempre fomos um festival de passes, mas este ano estamos a vender muitos mais bilhetes diários devido a esse concerto”, admite.
De lembrar ainda que apesar de o festival ter início na próxima quarta, 14, a música começa a ouvir-se dias antes, nessa espécie de pré-festival que é o Sobe à Vila, a decorrer no centro de Paredes de Coura entre os dias 11 e 13.
Vodafone Paredes de Coura > Praia fluvial do Taboão > 14-17 ago, qua-sáb 17h > €60 (dia), €120 (passe)