Basta comparar a resposta das políticas públicas e do Estado durante a pandemia com o padrão de desvalorização de riscos, de enfraquecimento da autoridade de Estado e de atabalhoada resposta perante situações imprevistas por parte de Luís Montenegro e do seu Governo para percebermos que Portugal e os portugueses estão numa situação de alto risco sempre que acontecimentos imprevistos ocorram.

Infelizmente, os casos recorrentes demonstram que não estamos perante um acaso mas sim perante um padrão de comportamento.

Logo em 2024, na voragem das inesperadas eleições, o planeamento da época de incêndios desprezou a necessidade de fazer antecipados avisos sobre a limpeza dos terrenos em volta das casas e das aldeias, o ICNF foi retalhado entre os ministérios do Ambiente e da Agricultura e a prevenção de riscos deixou de ser prioridade em que o primeiro-ministro dava a cara e os ministros o exemplo do empenho político. As coisas já não correram bem, tendo sido superada a área ardida dos últimos anos ainda que com os maiores incêndios só em setembro. Luís Montenegro face à descoordenação na resposta lançou uma teoria da conspiração alarmista sobre uma rede de incendiários de natureza terrorista sobre a qual cairia mão pesada. A demagogia ficou esquecida com as primeiras chuvas, a lei não mudou e os incendiários não apareceram.

Em 2025, já a liderança da ANEPC, que desde 2017 fora exercida por dois oficiais-generais, tinha sido substituída pela gestão ligada ao modelo dos tempos de Passos Coelho, acompanhada por vários dirigentes locais do PSD. O contributo resultante da liderança do sistema pela Proteção Civil foi desvalorizado, o contributo científico da AGIF foi praticamente anulado e a prioridade passou a ser a exigência corporativa de regresso ao modelo de organização distrital, sem qualquer sentido desde que o governo de Passos Coelho extinguiu os Governos Civis.

O abandono da Estratégia de Proteção Civil Preventiva foi total e nunca mais se ouviu falar em exercícios de evacuação de populações, no programa “Aldeia Segura, Pessoas Seguras”, no apelo à limpeza da floresta ou na criação de novas faixas de proteção. Tudo correu ainda pior e o Governo nem percebeu, de tal forma que manteve a festa do Pontal em estilo de campanha de verão enquanto o País estava a arder. O resultado foi o pior ano de incêndios desde 2017, sem qualquer apuramento, até agora, do que correu muito mal.

O apagão de 28 de abril era imprevisível mas novamente a resposta do Governo foi puramente política, centrada em Montenegro e no ministro da propaganda, impedindo a Proteção Civil de liderar a resposta imediata, informando e apoiando as populações, para além de ignorar a existência do MAI a quem cabe liderar a resposta civil em situações excecionais.

Perante tudo isto, o que está a acontecer desde quarta-feira com o impacto da depressão Kristin já parece uma trágica normalidade. Face aos avisos de ventos até 180 km/hora que o IPMA tinha anunciado já na segunda-feira, o Governo nada fez, a Proteção Civil não teve a autoridade para liderar uma resposta preventiva musculada e com alta visibilidade e não foi feita sequer a declaração do Estado de Alerta nas regiões por onde a depressão iria entrar no território do continente como fora feito em 2018 aquando do ciclone Leslie.

Pior ainda foi que, sendo os estragos conhecidos desde a manhã de dia 28 e denunciados pelos autarcas com o destaque patriótico do presidente Gonçalo Lopes de Leiria (edifícios destruídos, vidas perdidas e dezenas de municípios sem energia elétrica nem abastecimento de água), só ao fim de 24 horas de resistência à evidência Luís Montenegro tenha acedido aos pedidos de declaração do Estado de Calamidade.

A grande preocupação do Governo foi produzir vídeos de propaganda ou encenar formaturas militares para Nuno Melo, sem mobilizar os meios necessários para o apoio imediato às populações, como geradores ou bombas de água ou questionar as concessionárias da rede elétrica ou as operadoras de telecomunicações sobre quais os motivos porque ao fim de seis dias os serviços continuam inativos para centenas de milhares de cidadãos.

Perante a catastrófica gestão política de uma emergência sem comando operacional chega agora a fase longa das medidas de apoio e de reconstrução, genericamente benévolas, mas que correm o risco de serem esquecidas quando a próxima crise chegar.

A única boa notícia, apesar de não se conhecerem os poderes efetivos nem os meios com que vai contar, é a designação para a liderança da equipa de missão que vai coordenar os apoios de Paulo Fernandes, magnifico ex-presidente da Câmara do Fundão que as tricas partidárias do PSD afastaram da candidatura a presidente da CCDR Centro.

Os próximos dias vão ser ainda muito difíceis e até agora só os autarcas e as estruturas locais de proteção civil mostraram eficácia, espírito de solidariedade e capacidade para tentar preencher o vazio de um Governo perdido num vendaval de propaganda, sem coordenação política operacional, que desconsiderou o papel de liderança na resposta que cabe à Proteção Civil e ignorou a capacidade logística das Forças Armadas.

Não estamos perante mais um passo em falso mas sim perante um padrão de comportamento de um Governo que está ausente quando o Estado mais faz falta aos cidadãos, pelo que o prémio Laranja muito Amarga da semana vai para o timoneiro da governação encharcada de incompetência, Luís Montenegro.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Confesso que não me passava pela cabeça ir ver o documentário da Melania Trump. A sério. Já vi coisas traumáticas — desde filas intermináveis no aeroporto para passar a fronteira do espaço Schengen até às assembleias do condomínio do meu prédio — mas não estava preparado para isto. Ouvi tanto falar, vi tanta manchete, tanto “é histórico”, tanta gente a discutir Melania como se estivéssemos perante a nova Declaração de Independência Americana, que acabei por ir ao cinema. É serviço público. Jornalismo de sacrifício. Daquele que devia dar direito a subsídio de risco.

Fui às salas das Amoreiras em modo clandestino: entrei de mansinho, de óculos escuros apesar da chuva e do céu cinzento, cabeça baixa, com a esperança íntima de não encontrar ninguém conhecido na sala que me perguntasse: “Então, Zé, agora também és MAGA?” Escolhi a sessão das 13h10 porque era domingo, hora de almoço, a sala estava quase só para mim e para a minha parceira e, se me desse uma indisposição moral ou uma náusea existencial, ainda ia a tempo de comer uma canja e recuperar alguma dignidade perdida.

Melania, a atual primeira dama dos EUA, essa espécie de esfinge eslovena de salto-agulha, decidiu que não podia ficar atrás da Georgina, a mulher do Cristiano Ronaldo, o melhor jogador de “soccer” do mundo. Se a companheira do CR7 foi à Netflix, Melania foi falar com o amigo rico — o sempre disponível Jeff Bezos — e resolveu estrear-se na Amazon Prime Video com um documentário sobre… ela própria, que primeiro vai às salas e daqui a duas semanas estará no streaming. Naturalmente. O narcisismo também gosta de plataformas premium.

Setenta e oito milhões de dólares depois, nasceu esta “obra-prima do narcisismo institucional”: Melania. Um filme financiado, produzido pela própria, sobre a própria, para nos explicar a própria. Um tratado audiovisual sobre a vida interior de uma mulher que passa metade do tempo a não fazer nada ou a segurar um chapéu para não lhe fugir da cabeça e a outra metade a fugir das pessoas, o que, convenhamos, já é uma forma de coerência artística.

Estávamos a duas semanas da segunda tomada de posse de Donald Trump, e Melania abre-nos as portas da intimidade… até certo ponto. Muito certo ponto. O suficiente para vermos os seus vestidos, os sapatos, os corredores, os salões, as flores, as cortinas, os tapetes, os lustres do triplex de luxo da Trump Tower, na Quinta Avenida, em Nova Iorque, onde passa grande parte do tempo sozinha, a contemplar a sua própria importância, com Trump ao longe, na altura em Mar-a-Lago, na Flórida.

Mas nunca, jamais, abre o coração. Esse ficou guardado numa “caixa-forte” na Eslovénia, há muito tempo, com código de acesso emocional desconhecido. O documentário acompanha, na verdade, as grandes decisões da futura primeira dama na sua segunda estadia na Casa Branca: qual o vestido, qual o chapéu, qual o salto mais alto possível sem provocar fratura exposta, qual o ângulo da câmara que melhor disfarça o tédio, como decorar os aposentos neste regresso em modo “Querido, Mudei a Casa Branca?”.

E depois há a interação com a sua equipa, quase toda composta por “imigrantes” de origem, tal como a própria Melania: o costureiro Hervé, a decoradora vinda do Laos, a assistente com sotaque do Leste. Todos representantes do sonho americano em versão bastidores presidenciais. Um “United Colors of Melania”, patrocinado pelo cartão Platinum do Trump.

Pelo meio, descobrimos alguns detalhes supostamente comoventes. A mãe de Melania, Amalija, morreu exatamente um ano antes da tomada de posse: 9 de janeiro. Coincidência simbólica. Porém, Melania fala disso com a emoção de quem lê a lista de compras no supermercado, mesmo quando diz que a mãe foi a sua grande inspiração.

Ficamos também a saber que adora Michael Jackson e que a sua música preferida é “Billie Jean”. E aqui entra a metáfora perfeita. Melania vê-se como uma Billie Jean: uma mulher misteriosa, incompreendida, injustamente julgada, rodeada de rumores, olhares e suspeitas. “The kid is not my son”, [“A criança não é minha”] cantava Michael Jackson. No caso dela, parece ser mais: “This life is not my life, but I’ll wear it anyway.” [“Esta vida não é a minha vida, mas vou usá-la de qualquer maneira.”]

Melania acredita-se como uma figura humanitária global, ao lado de Brigitte Macron e Rania da Jordânia, no apoio a organizações internacionais. Uma espécie de Madre Teresa com carteira Hermès, sem votos de pobreza e com motorista e guarda-costas à porta. Só que depois olhamos para o ecrã… e aquilo parece mais um catálogo de luxo narrado por uma assistente virtual encharcada em Prozac.

A voz. Meu Deus, a voz. Uma voz melada, treinada, artificial, como se tivesse passado por um curso intensivo de “Como Soar Humana em 12 Lições”. Cada frase parece dita com um sorriso colado a super-cola. Tudo soa como um anúncio de perfume: “Melania. Eau de Distância Emocional.”

E depois há a relação com Trump. Um espetáculo à parte. Nunca se beijam na boca. Apesar de andarem de mão dada nas cerimónias oficiais, quase nunca se tocam sem autorização tácita. Mantêm sempre aquela distância de segurança que se usa entre desconhecidos educados num elevador.

Trump elogia-a, idolatra-a, olha para ela como quem olha para um troféu raro. Melania olha para ele como quem olha para uma porta de embarque com aviso de voo atrasado. Na noite da tomada de posse, às duas da manhã, percebemos que eles não dormem juntos. Rei e rainha da frieza. Imperadores do “cada um para seu lado”. Mesmo com o filho em casa. Tudo é aparência, cenário, coreografia.

A realização é… do “cancelado” Brett Ratner — como dizer isso com delicadeza? — um desastre artístico. Planos lentos, câmaras a passear por corredores vazios, close-ups obsessivos de sapatos à O Diabo Veste Prada, imagens em Super 8 usadas sem critério, só para fingir que há arte ali no meio. Uma estética de “workshop criativo para milionários entediados”. Há momentos em que parece um anúncio da Zara feito por um operador de câmara deprimido.

E, no meio disto tudo, a banda sonora tenta salvar a pátria. Temos “Billie Jean”, claro. Temos os YMCA. Temos os Tears for Fears com “Everybody Wants to Rule the World”. Temos o “Bolero” de Maurice Ravel. Temos ainda a “Melania Waltz”, criada para a ocasião. É a playlist de um spa para egos insuflados.

O filme tenta vender-nos a imagem de uma mulher forte, independente, sofisticada, empenhada, solidária, resiliente, elegante, visionária. Mas o que vemos é outra coisa: uma mulher permanentemente ausente, uma presença sem presença, uma figura decorativa de luxo, um bibelô geopolítico embalado para exportação e sobretudo para consumo interno.

Tudo naquele documentário grita “controlo”. Nada é espontâneo, nada é imperfeito, nada é humano. Cada frase foi ensaiada, cada gesto foi medido, cada silêncio foi planeado. É um reality show sem realidade. É uma autobiografia sem alma. É um espelho polido onde não se reflete nada. E, no fim, quando aparecem os créditos com a lista das “atividades da primeira dama”, percebemos tudo: isto não é um documentário. É um relatório anual em vídeo. É propaganda emocional. “Fiz isto. Estive ali. Apoiei aquilo. Sorri acolá.” Carimbo. Assinatura. Próximo mandato.

No fundo, Trump e Melania são feitos um para o outro, farinha do mesmo saco: dois monumentos ao ego, duas marcas registadas, dois produtos premium. Como dizia a minha avó: não se estragam duas casas. Quando há panela, arranja-se sempre uma tampa. E aqui temos: panela de narcisismo com tampa de gelo. Um casal cinco estrelas do vazio. Melania é lixo e luxo ao mesmo tempo. Lixo porque é artisticamente irrelevante, emocionalmente oco, narrativamente pobre. Luxo porque custou milhões, brilha, deslumbra e engana. É o retrato perfeito de uma época: muito dinheiro, muita imagem, muito marketing… e zero substância. Melania queria ser Billie Jean. Mas acaba como produto de um videoclip sem refrão.

Chego a Quarteira num daqueles dias estranhos do Algarve em que chove e faz sol ao mesmo tempo. O céu abre-se em fendas de luz, o ar fica pesado, quente e húmido, como se o verão nunca se tivesse ido embora. No lobby do hotel onde combinei encontrar-me com Adilson, dezenas de turistas ingleses ocupam as mesas junto às janelas. Jogam cartas, bebem cocktails demasiado coloridos para aquela manhã cinzenta, conversam em voz alta como se o mar fosse apenas pano de fundo. Alguns têm a pele bronzeada pelo sol quente do Algarve, outros a lentidão confortável de quem vive em férias prolongadas.

Adilson entra poucos minutos depois. Corpo esguio, passos leves e uma forma de se mover que contrasta com aquele espaço. Não precisa de se apresentar: o corpo chega antes. Por instantes, parece abrir-se uma dobra no espaço – como se dois mundos que raramente se tocam tivessem sido obrigados a partilhar o mesmo enquadramento. De um lado, quem circula sem pensar em documentos, vistos ou autorizações. Do outro, um homem que viveu toda a vida em Portugal e que, ainda assim, cresceu dentro de um parêntesis legal.

Sentamo-nos perto da janela. Atrás dele, o mar de Quarteira. À frente, copos altos com guarda-chuvas de papel. Entre o azul domesticado das piscinas dos hotéis e o azul indomável do Atlântico em dias de inverno, existe outro azul que não se vê – o de um documento que durante décadas lhe disse que estava aqui apenas por permissão, nunca por pertença.

É a partir desse azul invisível que começa esta história.

O documento de outra cor

Adilson Correia Duarte nasceu em Luanda, em 1983, mas chegou a Portugal com apenas 11 meses, trazido pela mãe. Filho de mãe angolana e pai cabo-verdiano, não guarda memórias de Angola. As primeiras imagens da infância são já algarvias: a casa apertada no Bairro dos Pescadores, a escola primária, os dias passados na rua com os colegas, o mesmo sotaque, os mesmos cadernos gastos. Tudo o que o rodeava lhe dizia que era dali.

Coreógrafo e bailarino de profissão, vive em sobressalto há 42 anos, por não ter cidadania portuguesa. Atribui esse receio à “circunstância política” em que vive atualmente, e “à burocracia” que o impede de ser um cidadão português, bem como a ausência de informação clara para poder “saltar” – na sua linguagem figurada – da autorização de residência permanente, uma vez que não pode sair de Portugal desde 2019, por não conseguir renovar os seus documentos.

Exemplo A história de Adilson, coreógrafo e bailarino, inspirou o amigo de adolescência, Dino d’Santiago, a escrever uma ópera

Foi numa visita de estudo que a diferença ganhou cor. Os colegas mostravam cartões de identidade amarelos. O dele era azul. “Porque é que o meu é diferente?”, perguntou, ainda criança. Só mais tarde perceberia que aquele retângulo de plástico condensava uma fronteira jurídica e simbólica: fazia parte de uma geração inteira deixada em suspenso pelas mudanças à Lei da Nacionalidade depois de 1981 – crianças nascidas em Portugal que deixaram de ser automaticamente portuguesas. Portuguesas na prática do quotidiano do dia a dia, estrangeiras no papel.

O bilhete de identidade azul, em Portugal, era o documento de identificação emitido a estrangeiros com autorização de residência, distinto do bilhete de identidade amarelo (ou verde, consoante a época), reservado aos cidadãos portugueses. Introduzido pelo Decreto-Lei nº 300/88, a sua capa azul-claro com fundo azul-escuro servia para diferenciar legalmente nacionais de estrangeiros, criando uma marca visual de cidadania suspensa que atravessou gerações de imigrantes.

Este bilhete não foi extinto formalmente, mas saiu de circulação a partir de 2007, com a introdução do Cartão de Cidadão, que unificou a identificação civil num único documento biométrico. Para os estrangeiros, o bilhete azul foi substituído pelo Cartão de Residência de Cidadão Estrangeiro (emitido pela AIMA), que assumiu funções equivalentes, mas com formato moderno e chip eletrónico, acabando com a cor azul como símbolo de diferenciação.

Identidade com limites

A infância de Adilson foi feita de afeto e precariedade. A mãe trabalhava como empregada doméstica e deixava muitas vezes os filhos trancados em casa por não ter dinheiro para a creche. A vizinha, Dona Josefa, fazia parte da rede informal que segurava aquela família que, entre o confinamento doméstico e a liberdade da rua, foi a ponte para a construção de uma infância que Adilson descreve como “feliz e difícil” pelos constrangimentos que a ausência de identidade legal lhe causou ao longo da vida enquanto cidadão “em permanência”, revela.

Na adolescência, a fronteira mudou de lugar. Veio a mudança de voz, a transferência para o Bairro da Abelheira, outro bairro social, outras dinâmicas, o mesmo sentimento de margem. Com um grupo de amigos, Dino, Elísio, Igor, Ivan e Paulo, criou a Brigada Charme: jovens vindos de contextos atravessados por violência, crime e exclusão que decidiram conscientemente trilhar outro caminho. Encontraram na cultura hip hop e no R&B, a que assistiam na extinta MTV, uma gramática para existir.

A moda foi o primeiro palco dessa reinvenção. Influenciado pelo irmão mais velho, Adilson cortava, transformava e personalizava peças de roupa. Quando lhe chamaram “o mais estiloso da escola”, percebeu que aquilo era mais do que vaidade. “Era como se eu estivesse a adicionar-me valor estético.” Uma forma de contrariar a inferioridade que o sistema lhe impunha.

Retratos Celestina Monteiro e ensaios da ópera Adilson, que sobe ao palco do Coliseu do Porto esta quinta-feira, 29 de janeiro

Hoje, numa sala de aulas em Quarteira, repete os movimentos à frente de crianças pequenas. Marca tempos com palmas, corrige posturas, ri-se quando alguém se atrapalha nos passos. Muitos nasceram já com nacionalidade portuguesa. Alguns são filhos de imigrantes recentes. Enquanto dança com eles, pensa muitas vezes na infância que teve – portuguesa em tudo, menos nos documentos.

O bilhete de identidade azul continuou a impor limites concretos. No futebol federado, onde só três estrangeiros podiam ser inscritos por equipa. Nas viagens, sempre mediadas por vistos. Anos mais tarde, quando foi escolhido para coreografar uma equipa portuguesa num campeonato mundial de hip hop em Las Vegas, não pôde embarcar por causa da documentação. “Foi aí que percebi que, afinal, eu não era daqui como pensava que era.” Falava com sotaque algarvio, tinha feito toda a escola em Portugal, trabalhava, pagava impostos. Ainda assim, permanecia condicional.

Em 2020 perdeu a mãe, a pessoa que sempre lhe repetia que nunca deixasse os documentos caducar. Os serviços para a imigração paralisaram, os espetáculos desapareceram, os apoios não chegaram. Sobreviveu com aulas online e trabalhos pontuais. “Senti-me a desaparecer devagar.” Foi nesse limbo que ligou ao amigo de adolescência, Dino d’Santiago, para o ajudar a resolver a sua situação irregular, o que acabou por se transformar numa ópera de manifesto simbólico para a realidade do seu dia a dia.

A vida numa ópera

A história de Adilson ultrapassou o espaço íntimo e ganhou corpo em palco. Da conversa com Dino d’Santiago nasceu a ópera Adilson, em cartaz esta quinta-feira, 29, no Coliseu do Porto, um espetáculo que cruza música, palavra e movimento para narrar a experiência de crescer em Portugal com uma pertença sempre provisória. Na encenação, o bilhete de identidade azul deixa de ser apenas um documento administrativo e transforma-se em símbolo: o da cidadania suspensa, da espera permanente, da fronteira invisível que atravessou gerações de imigrantes.

O corpo de Adilson torna-se instrumento narrativo, traduzindo em gesto aquilo que durante anos não encontrou lugar nos formulários do Estado. Aqui, a cultura surge como tradução política da vida vivida. Onde a burocracia produziu números de processo, a arte devolve rostos, memórias e dignidade.

Ópera em cinco atos, baseada no texto original Serviço Estrangeiro, de Rui Catalão, e com direção musical de Martim Sousa Tavares, em Adilson transforma-se a espera em poesia e a invisibilidade num ato de resistência. No seu culminar, ouvimos um grito que ecoa muito além do palco: “Não sou português. Sou Portugal. Um país à espera.”

A história de Adilson inscreve-se numa condição que o sociólogo inglês Paul Gilroy descreveu como experiência “diaspórica”: vidas construídas entre lugares, pertenças múltiplas, identidades que não cabem em fronteiras fixas. No Atlântico negro de Gilroy, a travessia – física, cultural, simbólica – é o que molda sujeitos que pertencem a vários mundos sem serem plenamente aceites por nenhum.

Em Portugal, essa diáspora não se faz apenas entre continentes, mas também entre documentos e quotidianos. Crescer aqui, trabalhar aqui, amar aqui – e, ainda assim, permanecer juridicamente de fora.

Travada na fronteira

Se Adilson representa quem praticamente nasceu dentro desse limbo legal, Celestina Monteiro, 70 anos, personifica outra geração da mesma história.

Celestina chegou ao Algarve em 1989 sem intenção de emigrar. Vinha de férias, com um visto de três meses e um emprego em Cabo Verde à espera. Quinze dias depois de chegar, o marido da irmã que vivia em Portugal morreu subitamente, deixando-a sozinha com um bebé de 4 meses. Celestina ficou.

Começou a trabalhar de imediato enquanto o processo de legalização era feito de filas intermináveis, papéis em falta, idas constantes a Faro. Primeiro veio o cartão de residência, depois o bilhete de identidade azul. Com ele trabalhou, descontou, votou nas autárquicas. Mas a cidadania plena ficava sempre um passo à frente.

Criou seis filhos praticamente sozinha depois de abandonar uma relação marcada pelo álcool. Houve um dia, em Tavira, em que deixou casa e mobília para trás e regressou a Quarteira apenas com as filhas pela mão. “Só queria as minhas meninas”, desabafa. Trabalhou décadas como cozinheira até uma infeção grave lhe destruir o fígado e a levar a um transplante.

Durante muitos anos, não sentiu urgência em pedir nacionalidade. Até ao dia em que atravessou de autocarro a fronteira entre Espanha e França. A polícia recolheu apenas o documento português de uma sobrinha de 7 anos. Os restantes foram devolvidos sem sequer serem verificados. Naquele momento, sentiu-se humilhada. Era como se, perante as autoridades europeias, a criança fosse a responsável pelos adultos, por ter a identidade portuguesa. Na semana seguinte, iniciou o processo de obtenção da nacionalidade.

Como nas travessias descritas por Paul Gilroy, estas histórias de diáspora não falam apenas de deslocação geográfica, mas de pertença suspensa, de vidas inteiras feitas entre mundos. À espera de uma identidade que reconheça no papel o que viveram durante décadas.

Números da imigração

O retrato demográfico de Portugal alterou-se profundamente na última década. O País que, durante décadas, foi de emigrantes consolidou-se como um destino central de fixação, embora a burocracia nem sempre acompanhe o ritmo da integração real

1,54 milhões Imigrantes em Portugal
É o número recorde de cidadãos estrangeiros com residência oficial em Portugal (dados de dezembro de 2024). Este valor representa cerca de 15% da população total residente no País.

30% São oriundos do Brasil
Os brasileiros são, de longe, a primeira nacionalidade entre os imigrantes a viver e Portugal. Seguem-se Índia, Angola, Ucrânia e Cabo Verde.

4,8% População descendente de imigrantes
Em 2022, de acordo com o INE, 4,8% da população era descendente de imigrantes, sendo que a esmagadora maioria, 87%, tinha pelo menos um dos progenitores nascidonum país da União Europeia, incluindo Portugal.

32,6% Dos imigrantes com Ensino Superior
Também em 2022, segundo o INE, a população imigrante era mais escolarizada do que a restante, sendo que nesta apenas 23,8% tinham o Ensino Superior.

“A dualidade de estatuto reforçou o racismo e a discriminação”

O investigador Nuno Domingos recorda o Estatuto do Indígena do tempo colonial, uma segunda classe de cidadãos de um mesmo país

Entre a herança da ditadura e as tensões da modernidade, o passado colonial projeta sombras sobre o Portugal de hoje. Nesta breve análise de Nuno Domingos, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, doutorado em Antropologia Social pela School of Oriental and African Studies da Universidade de Londres, exploramos como o antigo Estatuto do Indígena criou abismos sociais e se as marcas dessa cidadania de segunda classe ainda ecoam na forma como o Estado lida com as suas periferias e populações imigrantes.

Que ligações encontra entre o Estatuto do Indígena e o bilhete de identidade azul? Existe alguma comparação possível?
Os equivalentes históricos entre a situação das populações com o Estatuto do Indígena no período colonial e a dos imigrantes no Portugal contemporâneo possuem limites, devendo ser utilizados com rigor, sob o risco de relativizarem o grau de violência colonial gerida pela ditadura. É evidente, no entanto, que uma abordagem comparativa suscita interrogações acerca de um conjunto de continuidades políticas e sociais.

O que definiu a relação das populações africanas com o Estado no século XX?
No tempo colonial, o Estatuto do Indígena, partilhado pela grande maioria das populações de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, desde o segundo quarto do século XX, legitimou uma cidadania dual, que marcou a relação dos africanos com o Estado e a sociedade.

Como é que a desigualdade do Estatuto do Indígena impactou o trabalho e a cultura?
Esta desigualdade manifestou-se em várias dimensões da vida quotidiana. Ela legitimou o recurso a formas coercivas de recrutamento laboral e a perseguição e a punição de quem se escusava a essa obrigação, destruindo tradições e modos de vida locais.

Qual foi o impacto da dualidade de cidadania no tecido sociale no racismo?
A mesma dualidade reforçou o racismo e a discriminação, tanto no mundo rural como nos espaços urbanos. Nas cidades, os africanos, mão de obra fundamental para o funcionamento da sociedade colonial, foram remetidos para periferias racialmente segregadas e progressivamente sobrelotadas.

Quais eram as condições de sobrevivência nas periferias urbanas sob administração colonial?
Sujeitas a cheias, a fogos e a doenças, vigiadas nos seus movimentos pelas forças policiais, as populações procuraram construir as suas vidas perante a negligência e o desinteresse da administração em lhes facultar condições de vida básicas.

A tempestade destruidora aproxima-se do Irão. Dois porta-aviões e os seus grupos de combate, juntamente com as bases americanas na região, conferem a Trump um peso avassalador nas exigências que dirige ao regime de Teerão. A Guarda da Revolução e o líder religioso lançam as suas bravatas, mas o ministro dos Negócios Estrangeiros já demonstrou abertura e disposição para negociar com a Casa Branca.

O Irão não é a Venezuela, em termos militares, mas a degradação do poder teocrático torna-se evidente pela brutalidade que empregou na repressão dos manifestantes contra as condições de vida no país. O velho Khamenei já só prega aos beneficiários do sistema, marcado por décadas de isolacionismo. A exceção, agora, é a aproximação à Rússia e a troca de drones por bens essenciais — mas isso representa uma ajuda ínfima numa economia fechada.

Com 93 milhões de habitantes e uma idade média de 35 anos — quase 70% da população tem entre 15 e 64 anos — o Irão está na fase de implosão. O rendimento per capita ronda os quatro mil dólares e a inflação atingiu os 44% em 2025, o que exerce uma pressão insustentável sobre o regime político. Os iranianos querem mudar, e os 30 mil manifestantes mortos são um sinal de desespero e de último recurso dos «revolucionários» do poder.

Trump já garantiu que falará com Teerão, como fez com Maduro. Falta apenas saber com quem.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Miguel Araújo começou o ano com um novo disco. Lançado no primeiro segundo de 2026, Por Fora Ninguém Diria marca o regresso do artista ao formato álbum, num momento em que acaba de celebrar os 20 anos de atividade, entre Os Azeitonas e a carreira a solo. Paradoxalmente, é também um trabalho que nasce da recusa de grandes planos e de qualquer ideia predefinida de obra fechada. As 11 canções que o compõem foram sendo escritas e gravadas ao longo de vários anos, muitas delas sem terem qualquer destino certo.

Gravado entre 2023 e 2025 no Estúdio Chiu, no Porto, o álbum foi inteiramente composto, tocado, produzido e interpretado por Miguel Araújo, retomando um método de trabalho já presente em álbuns anteriores, como Cinco Dias e Meio e Peixe Azul. O resultado é um disco assumidamente mais pessoal e contido, menos imediato do que trabalhos anteriores, construído num tempo longo e sem pressa.

Aos 47 anos, Miguel Araújo olha para trás sem dramatizar a passagem do tempo nem romantizar o percurso. Reconhece que nunca planeou uma carreira na música e que o sucesso foi sendo construído entre trabalho constante e acontecimentos inesperados, como a lenta afirmação de canções que viriam a marcar o seu trajeto.

Longe do circuito mediático e de uma exposição permanente, Araújo construiu uma relação singular com o sucesso, que distingue claramente da fama. Defende a liberdade de poder viver fora do foco público como um luxo essencial e recusa pagar o preço de uma visibilidade forçada. Essa distância não o impede, porém, de chegar a um público cada vez mais amplo e diverso, nem de encher salas por todo o País, como mostram os concertos já anunciados para a apresentação do novo disco, marcados para o Teatro Municipal de Vila Real a 14 de fevereiro; para o Convento de São Francisco, em Coimbra, a 12 de março; para o Teatro Municipal da Guarda, a 24 e 25 de abril; e para o Theatro Circo, em Braga, a 30 de abril.

O que o levou a lançar um disco novo logo no primeiro dia do ano?

Hoje em dia é um bocado indiferente quando se lançam os discos, mas eu procuro fazê-lo sempre numas datas redondas, para ter alguma graça. Já tinha o disco pronto quase há um ano, mas como tinha decidido não lançar qualquer disco em 2025, porque havia muita coisa a acontecer para os meus lados, com os concertos grandes nas arenas, o lançamento de um EP de duetos chamado Cê Barra, e ter ainda um disco novo de originais não nos pareceu muito acertado, tanto a mim como à minha agência. Foi o meu manager, o Pedro Barbosa, que sugeriu lançar só em 2026 e eu, só um bocadinho por piada, decidi fazê-lo logo no primeiro segundo.

E foi mesmo no primeiro segundo do ano…

Sim, em teoria não é grande horário, porque se há hora no ano em que as pessoas estão ocupadas com outra coisa, é essa (Risos).

A uma primeira audição, este disco não soa tão imediato quanto os anteriores. Porquê esta opção por um registo mais intimista e não tão “xalalá”, para usar uma expressão sua?

A verdade é que nunca sei muito bem quais são as músicas que vão ter sucesso radiofónico, mas este é um disco, mais do que qualquer outro, que foi feito ao longo de um período de tempo muito alargado e de forma muito discreta, para aí desde 2022. Entretanto, fui lançando outras coisas, mas ao mesmo tempo estas músicas iam-se construindo elas próprias, muito calmamente. E à medida que sentia que estavam prontas, ia-as gravando. E nesse aspeto, sim, reconheço que é um álbum bastante pessoal, muito mais do que alguns dos meus outros discos. Se bem que eu já tenho dois assim, feitos um bocadinho através deste processo criativo, o meu primeiro disco de todos, o Cinco Dias e Meio, foi também um bocadinho assim. E o Peixe Azul, de 2021, também foi feito desta maneira, no meu estúdio. 

À medida que as músicas foram surgindo, já estava a pensar em fazer um novo disco? Ou é algo que se vai consolidando ao longo do tempo, através do processo criativo?

Foi mais isso, sim. Por exemplo, uma das músicas deste disco, chamada Céu, já tinha sido gravada pelo António Zambujo no último disco dele, Cidade, que produzi. E a versão da música que eu pus neste disco é basicamente a maquete que fiz para o Zambujo. Ou seja, são músicas feitas a partir de maquetes ou versões que vou gravando e, de repente, sinto que já tenho ali uma amálgama sólida o suficiente para lhe chamar disco. 

E porquê fazer tudo sozinho? Tocou todos os instrumentos, produziu…

O meu disco anterior, o Xalalá, teve como produtor o João André e contou com dezenas de músicos a tocar, os da minha banda e mais alguns, porque foi feito e pensado em função das músicas. Este não, pois quando comecei a compor nem sabia sequer que estava a gravar um disco. Aliás, só muito no fim é que constatei que tinha ali um disco. No fundo, creio que gosto de oscilar entre essas duas formas de trabalhar. Farto-me de uma, e volto para a outra. Vou oscilando assim.

Cumpriu no ano passado 20 anos de carreira. Como é que avalia este percurso ao olhar para trás?

Eu acho que é daquelas coisas que parece que nada mudou e no entanto tudo mudou. São aquelas mudanças discretas da vida. Há um misto de parecer que 2005 foi ontem, mas ao mesmo tempo parece que foi há muitas vidas. Posso dizer hoje que nunca pensei ficar nisto tanto tempo. Por exemplo, nessa altura nunca imaginaria vir a ser vocalista e estava muito a leste de sonhar que um dia iria ter uma carreira a solo, porque era apenas um membro de Os Azeitonas. Aliás, um ano antes de editarmos o primeiro disco de Os Azeitonas, em 2004, eu não pensava sequer em ser músico. Não estava nos meus planos de vida, mas foi acontecendo. Quando acabei o meu curso de Gestão, na Católica, em 2000, meti o 2001 como ano sabático. E em 2004 ainda andava a encavalitar anos sabáticos uns atrás dos outros. De certa maneira, sinto que continuo a fazê-lo (Risos) e ainda vou negociando comigo mais um ano disto. Mas o certo é que, a dada altura, as coisas começaram a correr bem, no sentido mais pragmático e prosaico da expressão.

Quando é que percebeu que a música era uma carreira, que podia dar-lhe também um lado de estabilidade e conforto financeiro? Tem esse momento presente?

Os primeiros anos foram muito difíceis, praticamente impossíveis. De 2005 a 2008, foi uma nulidade total, um período em que quase não havia concertos. Só que eu, lá está, tinha essa postura de aproveitar e viver o sonho enquanto era jovem e depois então ir trabalhar a sério noutra coisa. Só que ali em 2009 houve uma virada. Por exemplo, gravámos a música Anda Comigo Ver os Aviões nesse ano, que não tendo sido um sucesso imediato, abriu algumas portas para nós. Haveria de se tornar um sucesso três anos mais tarde, em 2012, através do programa televisivo Ídolos. Também tivemos o tema Quem És Tu Miúda? nos Morangos com Açúcar, e nessa altura havia um claro antes e depois de se ter uma música numa novela. De repente, as nossas músicas ficaram famosas da noite para o dia. Depois, em 2012, foi o meu ano, porque foi quando editei a música Maridos das Outras, e, na mesma semana, incrivelmente na mesma semana, o Anda Comigo Ver os Aviões tornou-se o tal sucesso, também devido à televisão. A partir desse ano, houve claramente um antes e depois na minha vida.

Ou seja, muitas vezes não basta só o talento, são também necessários uns acontecimentos aleatórios para dar esse clique. Ou, se calhar, aconteceria mais tarde…

Não sei, olhando para trás, creio que a justificação para a minha permanência na música durante tantos anos foi a consistência do meu trabalho. Eu gosto realmente muito de trabalhar e era algo que já fazia antes. O facto de eu estar sempre a fazer música, sempre com a mão na massa, independentemente de esperar que seja um sucesso ou não.

A indústria também mudou muito nestes 20 anos, não mudou? Até a maneira como se consome a música. Aliás, como disse há pouco, já não interessa muito o dia em que se lança o disco, porque passa a estar disponível nas plataformas. Como é que viveu e assistiu a essa mudança enquanto músico?

Em 2005, quando comecei, o CD já era considerado arcaico. Embora ainda se lançassem, já era um dado adquirido que não dava para ganhar dinheiro com o CD. Era apenas algo que tinha de existir. De certa forma, já sou um músico da era da internet, embora esta tenha mudado muito também nestas últimas duas décadas. O YouTube, por exemplo, foi lançado no mesmo ano que eu comecei, em 2005. Os Azeitonas já foram um produto dessa nova realidade, do YouTube e do MP3, com as nossas músicas a viajarem de email em email ou de chat em chat. Ainda não existia o streaming, mas já havia o conceito de uma música se tornar viral ou não. Não se chamava assim, mas já existia. Lembro-me de, na altura, conhecer o pessoal dos Adiafa e de eles me dizerem que o tema As Meninas da Ribeira do Sado se tinha tornado um sucesso na internet, enviado pelas pessoas umas às outras. Eu, enquanto músico, não senti uma mudança muito radical. Creio que a grande mudança radical foi passar do suporte físico para a internet e eu já sou dessa era. Depois se é MP3, streaming, Spotify, YouTube ou Napster, já é um bocado irrelevante, porque o princípio é o mesmo.

Houve uma altura em que os artistas criticavam as editoras pela fatia com que ficavam e agora critica-se o Spotify pelo pouco que paga aos músicos. Parece que há questões que não mudam, seja qual for a plataforma.

E haverá sempre, porque esta indústria está organizada através de um esquema de pirâmide. Esta ultrademocratização da música, acessível a toda a música, é positiva, mas quando temos sete milhões de temas disponíveis é inevitável que surja um qualquer agente intermediário, para selecionar o que é que as pessoas devem ou não ouvir. Vai sempre haver, é impossível não haver essa espécie de hierarquia.

Foi também para subverter esse sistema que criou a sua própria editora, a Xiu? Ou fê-lo apenas por uma questão de liberdade artística?

Isso foi mais por uma questão de sistema de trabalho. Como investi num estúdio em casa, onde tenho os instrumentos, os amplificadores e as colunas, da mesma forma que tenho uma máquina de lavar ou um aspirador. É algo que faz parte da minha vida doméstica e não fazia sentido ser de outra maneira. A minha editora Xiu só tem um artista, que sou eu, e não faz mais nada a não ser editar os meus discos. 

A minha cadência de trabalho é diária. E a fluidez. Eu não me retiro durante um período para compor ou gravar um disco, é algo que faço no dia a dia, e portanto não fazia sentido para mim ter um contrato bastante rígido com uma editora multinacional como a Warner Portugal, que está subordinada à Warner Madrid, que por sua vez está subordinada à Warner London, por sua vez subordinada à Warner não sei o quê…

Disse uma vez que fazia música para as pessoas que não gostam de música. Como é que um artista que tem uma legião de fãs que não gostam de música continua a encher de salas atrás de salas?

Não foi exatamente isso que disse (Risos). Eu não faço música para ninguém em específico. Pelo contrário, faço música pela própria música em si. Mas constato que o meu típico fã, se eu tivesse de traçar um perfil, não é aquele fã que compra a Blitz ou lê o New Musical Express desde pequenino. É mais aquele fã que não é um grande fã de géneros musicais. E depois vou sabendo que a mãe do meu amigo foi ao meu concerto e que adorou as músicas. Se perguntar a essa mãe do meu amigo quais foram os concertos a que assistiu nos últimos cinco anos, se calhar não foram assim tantos. Há qualquer coisa na minha música que faz com que as mães dos meus amigos vão aos meus concertos (Risos). É por isso que digo, porque os meus fãs não são de todo geek musicais.

Mas sente algum preconceito por parte desse geek musical? Ou, pelo contrário, também consegue chegar a ele?

Não faço ideia, porque vivo muito alheado disso. Quando morava em Lisboa, ia ali ao Bairro Alto beber um copo e encontrava a malta que trabalhava na área. Estava mais perto disso em 2011 do que hoje. Agora moro no Porto, tenho um estúdio em casa, vivo aqui no meu casulo, não faço a mais pequena ideia do que os geeks musicais pensam de mim. Também não dou assim muitas entrevistas. Há, no entanto, um geek musical que sei que vê uma certa graça em mim, o das guitarras, que como eu tem não sei quantas Stratocaster em casa e não sei quantos amplificadores. Mas aquele geek mais indie acho que não tem saco nenhum para ouvir a minha música.

E isso foi uma opção sua, de se desligar desse lado mais…

Do gossip musical? 

Sim.

Não, até porque tenho os meus amigos de Lisboa e quando estou com eles adoro saber as fofocas da indústria (Risos). Quem mudou de editora, quem é que anda com quem? Mas, por outro lado, já tenho 47 anos. Tenho a idade que o Mick Jagger e o Keith Richards tinham em 1990, quando editaram o Flashpoint, um disco ao vivo dos Rolling Stones que adoro. Na altura eu olhava para eles como uns velhinhos, porque as pessoas já se questionavam como era possível eles, com aquela idade, ainda andarem aos saltos nos palcos. Mas imagino que os próprios Rolling Stones não andassem muito preocupados com isso. E eu também já não tenho idade para andar preocupado com o que o pessoal acha de mim. É mais isso, não é propriamente uma opção. E também não tenho muito tempo para isso. Tenho os meus filhos. Não tenho tempo para ir ver o que anda a ser dito sobre mim. Antes ligava a isso, confesso, mas agora não.

Ligava em que sentido? Ficava aborrecido quando alguém dizia não muito bem de si? Com as críticas dos discos?

Passava muito tempo a ler os comentários do YouTube. Andava sempre em cima disso. Não ficava particularmente chateado. Há uma carapaça que se ganha e se torna uma moeda com dois lados. Não ficava muito chateado quando diziam mal de mim, mas também não ficava demasiado empolgado quando diziam bem. Depois, com o passar do tempo, há um desligar disso e agora já não ligo nada.

Como é que alguém tão afastado desse mundo lida com o sucesso? Ou melhor, com a suposta fama que advém do sucesso?

O sucesso é muito bem-vindo. Eu faço tudo para que a minha música seja um sucesso, no sentido em que se é um sucesso é porque ficou bem, não é? É ter tido uma ideia para uma canção, ir para o estúdio e dar 40 voltas até aquilo resultar. Ou seja, faço tudo o que está ao meu alcance, e a minha vida é dedicada a isso, para que a minha música resulte. Mas para resultar não significa que tenha de ser vendida para um anúncio ou de ser o maior hit da rádio desse ano. Resultar para mim não é isso, é começar bem, é o refrão ficar porreiro. E de repente a música sai, muitas pessoas ouvem, até dá na rádio e pronto, foi um sucesso. Acho isso uma maravilha. Não posso imaginar nada melhor do que ter êxito. Agora a fama… Até diria que não consigo imaginar pior castigo para um ser humano do que ser famoso. Basta pensar o que acontece em todo o lado aonde vai um Cristiano Ronaldo ou um Michael Jackson, não é? 

As pessoas reconhecem-no na rua, pedem-lhe autógrafos?

Antigamente, o sucesso trazia como efeito secundário e inevitável a fama. Na música, pelo menos, era assim, não havia sucesso sem que o seu cantor ou criador não se tornasse famoso. Mas hoje em dia, graças a Deus, já não é assim e, pelo menos no meu caso, até dá para passar entre os pingos da chuva. Não sou conhecido na rua e vou ao centro comercial ou ao supermercado como qualquer outra pessoa, sem ser reconhecido. Mas tenho amigos famosos e já fui a supermercados com eles e noto a diferença. Eu sou sempre aquele gajo a quem pedem para tirar a fotografia e passam-me o telemóvel para a mão (Risos). Os meus amigos famosos têm imensa inveja disso. Se calhar, é isso que vai ficar escrito na minha lápide: aqui jaz Miguel Araújo, o músico que conseguiu ter sucesso sem fama. É o meu maior feito (Risos).

Mas há quem procure essa fama e isso também é legítimo, não é?

Claro que sim, mas, para mim, o maior luxo é poder estar à vontade. Eu moro perto do mar e saio descalço e volto descalço para dar um mergulho. Tenho essa liberdade total. A fama é uma prisão na qual eu não estou disposto a viver. No dia em que, para estar na música e poder ter uma vida viável à custa dela, tiver de ser famoso, desisto. Mas acho que isso não vai acontecer, não é? Se não aconteceu até agora…

Exato.

Lembro-me que uma vez estava com um colega meu da música, mais velho, bastante famoso, com muito sucesso, e estávamos a tocar juntos num sítio que tinha uma praia em frente. Desafiei-o para dar um mergulhinho. Ele respondeu que não podia ir à praia. Deu-me um dó! E eu pensei, realmente não podes, mas eu posso e fui (Risos). 

E quando é reconhecido, como reage?

Nas poucas vezes em que isso acontece, é sempre numa boa. Acontece naturalmente nos meus concertos. Uma vez estava no Marés Vivas e convidei os meus tios, que também têm uma banda e às vezes tocam comigo, a dar uma volta pelo recinto. Como ia lá tocar nesse dia, toda a gente me cumprimentava. Aí, sim, senti-me o Michael Jackson. Os meus tios ficaram muito impressionados e confesso que fiquei um bocadinho vaidoso por lhes mostrar que afinal era famoso, mas é algo que só acontece nos meus concertos, fora disso não. Mas mesmo quando raramente acontece na rua ou num supermercado, sou sempre abordado com muita simpatia e tiro a foto com muito gosto. Até acho graça, por ser tão raro. 

Mas o objetivo de qualquer artista é chegar ao máximo de público possível, certo? Mesmo quem diga que é muito alternativo terá esse objetivo.

Sim, mas depois também há aquele complexo de Kurt Cobain, que enquanto não era famoso, esgotava a paciência às editoras e depois quando ficou famoso, queixava-se de que ficou famoso. Mas o gajo era um puto, não é? Temos de nos lembrar que ele morreu com 27 anos, coitado. Eu não crio qualquer entrave a que as pessoas oiçam a minha música, mas tenho alguns amigos, assim mais do mundo indie, que dizem que não querem fazer músicas para serem ouvidas por alguém a passar a ferro, em casa. Já eu não consigo imaginar ambição mais romântica do que ter uma senhora ou um senhor a passar a ferro e a ouvir a minha música. A minha avó ouvia Roberto Carlos enquanto fazia essas tarefas. E não há coisa mais incrível, porque para a minha avó o Roberto Carlos era mais do que apenas a música. Era uma forma de estar na vida, uma companhia. Não consigo mesmo imaginar ambição mais romântica ou mais poética do que alguém a passar a roupa a ferro enquanto ouve a minha música, a sério. E depois tenho amigos que dizem que não querem que a música deles passe em determinadas rádios. É sempre aquele drama de saber quem nos ouve, mas a verdade é que a partir do momento em que a música sai cá para fora é impossível andar a policiar quem pode ou não ouvi-la. Deus me livre de tal coisa!

Não tem linhas vermelhas nesse sentido?

Tenho, claro. Por exemplo, ir à televisão participar em programas que saem muito da minha natureza, essa é a minha linha vermelha. Participar naquele programa em que se faz umas palhaçadas, eu não tenho jeito para essas coisas. Se me dissessem que se fosse a dez programas desses a minha música iria ser ouvida por todo o País, continuava a não ir. Portanto, não posso dizer que o objetivo do artista é ter o máximo de pessoas a ouvir a sua música. Depende sempre do preço a pagar por isso. Também não vou fazer de júri num concurso de jovens talentos para ficar mais famoso por causa disso, nem pensar.

Mas já foi convidado? Agora também para acrescentar um bocadinho de gossip a esta entrevista…

Já fui sondado. Mas, lá está, não tenho nada contra quem faz e até tenho grandes amigos que o fizeram, como o Zambujo. A questão é que não tenho jeito para isso, não ia contribuir com nada, ia ser apenas forçado e por isso não o faço.

Dizia há pouco que, para si, sucesso é fazer uma canção que resulte. Como é que se cria uma canção perfeita? Tem um método ou é uma espécie de superpoder? Quando é que percebe que a canção está finalizada?

Resultar, para mim, não é bem nesse sentido de ter um refrão superorelhudo que toda a gente vai cantar. Eu vou para o estúdio todos os dias, das dez da manhã às cinco e meia da tarde, e a música perfeita pode ser uma daquelas que passaram na rádio, como acontece com a maioria das minhas canções e com as de qualquer músico. Cerca de 90% das músicas do Elton John também não são conhecidas. Mas para resultar, por vezes, tenho de recomeçar 40 vezes, se não é com guitarra, experimento ao piano, depois de novo com a guitarra e a seguir mudo o tom. E eventualmente há um momento em que, de facto, resulta. Já a questão dos refrães orelhudos tem mais a ver com o tipo de música de que gosto. Adoro gente como os Beatles, o Elton John, o Caetano Veloso, o Rui Veloso. Ou seja, artistas cuja obra tem esse lado redondinho, esse veludo que faz as pessoas cantarem. Não faço isso em busca de nada, mas sim como consequência de ser a música de que eu gosto. Quanto ao método para chegar lá, é um bocado caótico, sempre foi. Por vezes, começo uma música, deixo-a estar e só volto a ela alguns anos depois. Tenho quase sempre a sensação de que é algo que vem de fora de mim, não querendo ser esotérico. Mas, enfim, o ar que respiramos também vem de fora de nós. Uma pessoa dá um passeio e vê qualquer coisa que a inspira, portanto, é como se fosse oxigénio para um artista. E a mim dão-me umas ideias. Há uma melodia que começa a cantarolar na minha cabeça e ando meses naquilo. São essas ideias que muitas vezes se transformam nos refrães das minhas músicas. E ando atrás disso como um cão. Guardo sempre o ficheiro original no telemóvel, para manter uma fidelidade canina e insana à ideia inicial. 

Ou seja, ainda é só a melodia, sem letra, sem nada…

A maior parte das vezes, é só uma melodia, a parte da letra é uma camada posterior. É complicado, porque depois não pode parecer uma camada, mas sim soar como coisas inseparáveis. A parte árdua do meu trabalho é mesmo a escrita, não é a melodia nem a música.

Árdua em que sentido?

Porque me custa e depois soa mal. Às vezes, farto-me e começo tudo de novo. E é um processo sempre feito posteriormente, porque nunca faço música e letra ao mesmo tempo. Se pudesse ser um artista só de música instrumental, como um Richard Clayderman ou um Kenny G, seria um sonho, porque fazia para aí 18 músicas por dia (Risos). Mas não, porque tenho esta compulsão para a canção, com melodia e letra. Saio de casa, vou ouvir aquilo, vou correr e levo os headphones para ouvir as melodias, cantadas por mim, sem palavras ainda. Às vezes, paro de correr para escrever no telemóvel. Quando já se tem ali um furinho, uma toca de coelho, é muito mais fácil entrar.

O desporto, como correr ou nadar, é algo que serve para compensar a vida boémia de artista?

Não sei, porque já há muito que não tenho essa vida boémia de artista. Talvez tenha começado assim, como uma necessidade, mas que com o tempo se tornou algo vital para mim. Quem faz desporto de forma mais contínua sabe que é assim. Faz parte da minha higiene mental, moro muito perto do mar, tenho aqui uma zona privilegiada para o fazer, que é toda a zona costeira da cidade de Porto.

Pode-se então dizer que este Por Fora Ninguém Diria é um disco feito com esses excertos de músicas que vai acumulando ao longo dos anos?

Quando comecei a fazer músicas, não tinha a prática nem a rotina de as concluir. Mas hoje já tenho essa mão feita e quando, às vezes, descubro umas pastas antigas nos meus telemóveis, tipo maquetes de 2006, vou lá ver. E há coisas que na altura descartei, mas que passado este tempo todo podem ser recuperadas. É por isso que estou sempre a dialogar com as minhas músicas de há 20 anos. E depois há outras, das quais já nem me lembro. Por, exemplo, as minhas primeiras tentativas de fazer músicas, quando era puto. Algumas ficaram-me na memória. Então, se ainda me lembro, ao fim de 20 ou 30 anos, é porque a música deve ter qualquer coisa. E neste momento estou a materializar muitas dessas músicas. É como se estivesse a salvá-las do caixote o lixo. 

Há pouco, mencionou o Rui Veloso como uma das suas principais referências e recentemente partilhou o palco com ele, no espetáculo comemorativo dos 20 anos de carreira. O que se sente ao tocar com um ídolo?

Todos os artistas têm o seu Elvis, e o Rui Veloso é o meu. De repente, estar ali, ao lado daquela pessoa… Mesmo ao fim destes anos todos, sempre que ele sobe ao palco comigo e abre a boca e sai aquela voz, quando começa a tocar e saem aquelas malhas de guitarra, quase que tenho de me beliscar para acreditar que é mesmo verdade. Lembro-me logo de quando era um miúdo de 11 ou 12 anos e passava o tempo a ver os concertos do Rui Veloso em VHS.

Donald Trump governa como quem multiplica frentes de combate para testar resistências. Não porque precise delas, mas porque acredita que o conflito permanente é a melhor forma de impor hierarquias. Desde o regresso à Casa Branca, o padrão é claro. Pressão externa, tensão interna, deslegitimação de aliados e a criação de instrumentos políticos com nomes benignos e intenções opacas. O chamado Board of Peace é talvez o melhor exemplo disso.

Apresentado como uma iniciativa para a paz global, o Board of Peace é, na prática, um dispositivo político de alinhamento. A lista de países e figuras que aceitaram integrar esse fórum diz muito menos sobre a paz e muito mais sobre a disposição para legitimar a leitura trumpiana do mundo. Um mundo onde a estabilidade não nasce do direito internacional nem das instituições, mas da proximidade ao poder americano e da aceitação tácita da sua arbitrariedade. A paz, neste contexto, não é um valor. É uma recompensa.

Em paralelo, Trump abriu uma frente interna que tem tudo para se tornar um problema sério e politicamente explosivo. A atuação do ICE, cada vez mais agressiva, com duas mortes, menos escrutinada e mais ideológica, transformou-se num instrumento de sinalização política. Não se trata apenas de imigração ou de segurança interna. Trata-se de afirmar autoridade, testar limites constitucionais e normalizar uma lógica de exceção permanente. É a política como demonstração de força.

Mas foi na Gronelândia que algo mudou. Pela primeira vez desde o regresso de Trump, a Europa reagiu não apenas com comunicados, mas com linguagem de poder. De forma imperfeita, pouco coreografada, mas politicamente relevante, a União Europeia conseguiu alinhar-se em torno de um princípio simples. A Gronelândia não é uma peça num jogo bilateral entre Washington e Copenhaga. É território europeu, com implicações estratégicas europeias.

A simples menção à possibilidade de ativação do Mecanismo Anticoerção não foi um detalhe técnico. Foi um sinal político. Esse instrumento, criado precisamente para responder a pressões económicas e políticas externas, permitiria à União Europeia adotar contramedidas comerciais, financeiras ou regulatórias contra um país que utilizasse coerção para obter vantagens estratégicas. Não foi ativado. Mas foi verbalizado. E isso, em diplomacia, conta.

O mesmo se aplica à dimensão militar. A Europa não moveu meios, não mobilizou forças, não dramatizou. Mas deixou claro que a proteção da Gronelândia não é um assunto indiferente. Para uma Administração americana habituada a uma Europa hesitante, essa disponibilidade, mesmo que apenas declarativa, teve impacto. Revelou uma linha vermelha.

Tudo isto ocorre num momento em que os EUA dizem não acreditar no multilateralismo, mas continuam profundamente dependentes dele. A NATO continua a ser essencial para Washington, não por altruísmo, mas por necessidade estratégica. Ao mesmo tempo, Trump insiste numa lógica bilateral, caso a caso, guerra a guerra, país a país. É um paradoxo apenas aparente. O multilateralismo é útil enquanto estrutura. O bilateralismo é útil enquanto método de imposição.

Há, contudo, um dado que Trump não pode ignorar. Comercialmente, os EUA precisam da Europa. O mercado europeu continua a ser um dos maiores, mais estáveis e mais sofisticados do mundo. E é aqui que a União tem de perceber que a resposta não é apenas política ou militar. É económica.

O acordo com o Mercosul é central neste contexto. Não apenas pelo acesso a mercados, mas pela afirmação estratégica de uma Europa capaz de diversificar relações num mundo fragmentado. A contestação jurídica ao processo de ratificação, movida pelo Parlamento Europeu, receoso das suas consequências internas, revela uma fragilidade estrutural. É verdade que a Comissão Europeia dispõe de mecanismos para a aplicação provisória de acordos comerciais após aprovação política europeia, mesmo antes da ratificação completa. Mas cada atraso é um sinal de indecisão que o mundo lê com atenção e Trump não está nada feliz com o acordo.

O mesmo se aplica à Índia, um mercado colossal, tecnológico, cada vez mais central em serviços e inovação, e à Indonésia, onde a União Europeia tem vindo a construir um acordo estratégico num espaço geopolítico disputado. E aplica-se, sobretudo, a África. Um continente onde a China consolidou influência económica, infraestrutural e política, enquanto a Europa hesitou, moralizou e perdeu terreno.

A Europa só será levada a sério se voltar a pensar como potência económica. Não por nostalgia imperial, mas por realismo estratégico. E essa capacidade existe. Quando há foco, quando há interesse comum, quando há vontade.

Em Davos, Donald Trump voltou a atacar a Europa, como faz sempre que precisa de um adversário externo para consumo interno. No mesmo palco, Volodymyr Zelensky escolheu um tom de frustração que roçou a ingratidão. Foi um gesto político calculado. Um aceno a Trump, mas também uma tentativa de se posicionar como ator europeu com voz própria, num momento em que a Ucrânia ambiciona integrar a União até 2027.

Contrastou com a lucidez do discurso do primeiro-ministro do Canadá, que percebeu algo essencial. Num mundo em rutura, quem abdica de alianças fica sozinho. E quem confunde força com imprevisibilidade acaba refém da própria narrativa.

A Europa não é rápida. Não é elegante. Não é unânime. Mas quando decide agir, ainda é capaz de dizer não. E, neste momento do mundo, isso já não é pouco.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Palavras-chave:

Nascer e crescer na Marinha Grande não é fácil. É uma terra traumatizada por séculos de exploração. Motor de desenvolvimento industrial, cresceu em torno do vidro e foi sistematicamente esquecida. A Marinha Grande foi-se habituando a ser ignorada à medida que se foi instalando um rancor como pano de fundo para uma cidade que se foi degradando sem que ninguém mexesse uma palha.

Cresci numa casa colada ao pinhal. Tentei fazer várias casas de árvore, sempre sem sucesso, mas consegui descobrir pistas de bicicleta perfeitas entre os pinheiros e as silvas. A terra preta, solta, entrava-me pelas narinas quando jogava futebol e era tão difícil de sair como as nódoas de resina que resistiam a tudo menos ao Nodeti e à pedra-pomes.

A casa era paredes-meias com o pavilhão do Sporting Clube Marinhense, onde se jogava hóquei em patins e de quinze em quinze dias nos sentávamos e batíamos palmas até nos doerem as mãos.

A Marinha Grande era uma terra onde se andava de bicicleta não por qualquer tipo de consciência ecológica ou moda hipster, mas por necessidade. Alguns já tinham subido um degrau na vida, o que lhes permitia andar de mota e outros, menos, andavam no seu Renault 5.

Nos dias de praça, o centro da cidade, área pedonal, enchia-se de gente que ia à drogaria do Leonel, ao Bom Preço, à loja das rações ou ao próprio mercado. Em dia de festa, chegava-se a casa com as compras mas também com um frango da Pensão Julião.

O cheiro da drogaria que agora reconheço como sendo a anis misturava-se com o cheiro das rações, o cheiro da peixaria do mercado, o cheiro das galinhas e dos coelhos vivos, o cheiro da fruta e o cheiro do pinhal que era omnipresente. Na Marinha Grande cheirava sempre a pinhal mais qualquer coisa.

Era pelo pinhal que se fazia o caminho para a praia de São Pedro de Moel, pela estrada aos ésses onde famílias paravam para fazer pic-nics na Quinta Feira da Ascenção e jovens perdiam a vida em noites mais aceleradas.

Quase nenhuma destas referências faz hoje qualquer sentido a quem visite a cidade. Grande parte da cidade morreu, tornando-se irreconhecível a quem a visita de vez em quando. O que não morreu pela mão do tempo e de uma ideia de país moderno que varre para debaixo do tapete cidades como a Marinha Grande, morre à conta de catástrofes.

Os pinheiros que sobreviveram milagrosamente ao incêndio de 2017 foram agora como que decepados pelos ventos. O pavilhão do Sporting Clube Marinhense que se manteve muito depois de já não me ter como vizinho, foi agora completamente dizimado.

A falência, uma a seguir à outra, de fábricas e comércio deixou aquela cidade abandonada à sua sorte e quem lá ficou resiste com valentia a um destino inelutável. Não mentirei. Desde que me conheço que desejo violentamente sair daquela terra e isso deve-se ao facto de tê-la visto a triturar demasiadas vidas.

O orgulho da cidade vinha da sua indústria vidreira até começarem a falir fábricas, da indústria dos moldes até começarem a encerrar essas fábricas também, do pinhal até ter ardido. Agora o orgulho vem de onde?

Muito do que tem subsistindo ao longo dos anos foi agora destruído. O desespero de quem faz as contas a quanto tempo estará sem faturar, quanto tempo demorará até que as companhias de seguros ajam e em que medida isso será suficiente, quem conseguirá manter o emprego e que negócios já em dificuldade terão capacidade para sobreviver a isto é confrontado com governantes que alternam entre trabalhar na invisibilidade e transformar a situação em golpe de marketing.

As visitas dos governantes a seguir à catástrofe mostraram bem algo evidente, apesar de nunca ser dito: a Marinha Grande é uma terra de que, à semelhança de outras terras semelhantes, os nossos governantes se envergonham.

Outrora polos industriais pujantes que enriqueciam o país à custa de operários, do seu suor, da sua audição e das suas articulações, agora já não cabem na ideia de país virado para o futuro que nos querem vender com o entusiasmo de vendilhões de banha da cobra.

Este tipo de terras não cabe no país dos unicórnios, dos empreendedores, dos brunches e dos hábitos culturais irónicos. Os governantes repetem até à exaustão que os impactos da tempestade são muito mais graves do que o que se pensava no início porque os próprios os menosprezaram até serem obrigados a ver com os seus próprios olhos as pessoas em cima dos telhados, aflitas, a tentar remendar os buracos antes que começasse a chover de novo.

Há lições específicas a tirar desta catástrofe, é verdade. Mas há lições ainda mais profundas a tirar desta forma como se olha para o país a partir de Lisboa, como se estas terras fossem aqueles familiares que nos envergonham em frente dos amigos.

Lamento, marinhenses. Tiveram azar. O azar foi terem deixado de fazer parte da imagem que, em Lisboa, fazem do País. Em vez de terem antigas instalações industriais reconvertidas em mercados de roupa vintage e gelados veganos, deixaram-nas ao abandono ou, ainda pior, continuam a tentar que produzam.

Para além de toda a solidariedade que ninguém naquela zona enjeitará, é preciso que, de uma vez por todas, se perceba que há um país que não pode ser esquecido mesmo que ele envergonhe estes decisores políticos fanáticos da seita do empreendedorismo. As pessoas sentem-se abandonadas e aqui está uma perceção à qual deviam dedicar alguma atenção.

A Marinha Grande é uma terra à qual tem sido roubada toda a identidade. É uma terra de gente que trabalha que tem o azar de viver num país que menospreza a gente que trabalha. E isso custa caro em alturas como esta.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Enquanto crianças palestinianas continuam a morrer sob a responsabilidade de Israel, há Estados que investem milhões para controlar a forma como estas mortes são percebidas no mundo. 

Israel, através de campanhas oficialmente designadas pelo próprio Estado como “hasbará”,  tornou-se uma referência global na construção de discursos que moldam a realidade a favor das conveniências políticas.

O termo hasbará, que significa “explicação”, é usado oficialmente pelo Estado de Israel para definir estratégias de propaganda e influência internacional (um esforço anunciado como diplomacia pública). Desde a criação do Estado em 1948, esta ferramenta tem servido para legitimar políticas de ocupação, de apartheid, de militarização e violência sistemática. 

Há muito dinheiro a financiar esta manipulação. De acordo com notícias e investigações jornalísticas, o governo israelita lançou em 2025 uma campanha digital de cerca de 40 milhões de euros com a Google,  descrita por fontes oficiais como uma operação de hasbará, destinada a moldar a opinião global. Campanhas semelhantes, avaliadas em dezenas de milhões de dólares, foram também realizadas no YouTube e na plataforma X.      

Analistas internacionais descrevem-na como uma forma sofisticada de guerra de informação, desenhada para deslegitimar e censurar críticas a Israel e assegurar apoio político no estrangeiro.

Nos últimos anos, documentos públicos nos Estados Unidos, ao abrigo do FARA (Foreign Agents Registration Act), revelam contratos milionários para campanhas digitais.  O objetivo é disseminar conteúdos que influenciem indiretamente os sistemas de inteligência artificial e motores de busca, moldando a perceção global de forma invisível.

O alvo declarado de muitas destas campanhas é o antissionismo, ou seja, a crítica política ao movimento sionista. Na realidade, esta crítica é frequentemente e convenientemente confundida pelo Estado israelita com o antissemitismo. Esta confusão é institucionalizada: um Ministério do Governo israelita produz relatórios que monitorizam ativistas pró-palestinianos em todo o mundo, enquadrando frequentemente a sua crítica política sob a lente do antissemitismo.

Esta estratégia permite que Israel neutralize controvérsias internacionais enquanto molda perceções nas plataformas digitais. A necessidade desta máquina de propaganda é para tentar apresentar Israel como uma democracia liberal e um  Estado seguro, mas a realidade no terreno é de ocupação, de deslocamento forçado, de bloqueio, de perseguição e crimes constantes contra civis, denunciados por várias organizações internacionais, entre elas, a ONU, a Human Rights Watch e a B’Tselem. 

A propaganda sistemática procura apagar, distorcer ou relativizar estes factos, criando uma imagem irreal que persiste mesmo diante de testemunhos verídicos.

Isto impacta a extrema direita. O efeito de décadas de manipulação da narrativa não se limita ao Médio Oriente; alastrou-se globalmente.

Nos Estados Unidos, movimentos pró-Israel apoiaram Donald Trump, reforçando políticas alinhadas com interesses estratégicos e militares do Estado israelita. Na Europa, partidos de extrema-direita utilizam perceções de ameaça e segurança, muitas vezes moldadas por narrativas externas, para ganhar apoio popular. Em Portugal, André Ventura e partidos como o Chega ecoam estas narrativas, reforçando o medo, a divisão e a aceitação tácita de políticas intervencionistas. Esta dinâmica mostra como a propaganda de um Estado pode espalhar o medo e influenciar democracias, abrindo caminho a politicas autoritárias.       

A mentira sistemática e a manipulação de informações permitem instalar distopias silenciosas e normalizar a erosão da democracia.

Como é que a tecnologia e a IA ajudam?   

Os modelos de linguagem e os algoritmos refletem os dados que estão disponíveis na internet. Quando vastos volumes de conteúdo são estrategicamente produzidos para favorecer uma narrativa, o output da IA é moldado de forma invisível.

 O investimento na Google mencionado anteriormente serve precisamente para garantir que, durante operações militares, a “verdade” algorítmica seja aquela que foi comprada. 

 Este fenómeno gera o que se  chama de contaminação de dados. Quando a rede é inundada por conteúdos gerados artificialmente para favorecer uma narrativa, os modelos de linguagem (LLMs) absorvem esse volume como se fosse real. A IA não distingue a verdade da repetição; ela valida a narrativa mais frequente. Assim, a propaganda torna-se auto-replicante: a máquina aprende com a mentira institucionalizada e passa a devolvê-la como uma resposta neutra e técnica, criando uma lente que distorce permanentemente a maneira como os cidadãos percebem o mundo. Combater esta distorção exige muita resistência crítica, ativa e criativa. Precisamos de aprender a questionar as fontes, a reconhecer a propaganda e a desconstruir as narrativas que tentam manipular a nossa visão do mundo. É igualmente importante exigir transparência, tornando públicos os contratos de lobbies estrangeiros e acompanhar de perto as campanhas digitais que procuram influenciar a opinião pública global. Não podemos deixar que histórias reais sejam deturpadas e silenciadas: é preciso dar voz às minorias, documentar as injustiças e lembrar aqueles que sofrem. A participação política é essencial quer seja pelo voto, quer pela organização civil ou pela ação direta, garantindo que a democracia esteja nas mãos dos cidadãos, e não de algoritmos. Por isso é urgente continuar a criar uma contra-cultura em rede que difunda informação independente, combata a normalização da distopia e fortaleça movimentos globais de resistência à mentira institucionalizada.

A falência da democracia é o mito da liberdade. 

O investimento em hasbará revela a relação íntima entre poder, narrativa e tecnologia. Quando os Estados investem milhões para controlar algoritmos, a democracia falha, mesmo que as suas instituições formais sobrevivam. A perceção de liberdade transforma-se num mito manipulado por interesses que favorecem autocracias e políticas expansionistas.

Preservar a verdade e a justiça não é apenas um dever moral; é uma estratégia de sobrevivência. É essencial construir um movimento internacional que exponha as mentiras e empodere cidadãos conscientes diante de narrativas manipuladas globalmente. Se não enfrentarmos esta disputa pela própria definição da realidade, o que restará da democracia além do ritual vazio do voto? Este é um apelo à consciência individual e coletiva na proteção do futuro que queremos deixar às próximas gerações.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Meredith é escolhida pelo CEO da empresa para diretora regional. Tom é um trabalhador antigo da empresa, que ambicionava o cargo daquela. Meredith assedia-o sexualmente, no seu gabinete ao final do dia (sem mais ninguém no escritório a não ser a senhora da limpeza), porém sem sucesso. Como Tom recusou os avanços, ela vingou-se, acusando-o de a ter violado.

Foi em Disclosure (Revelação em português, filme de 1994), mas o assédio sexual é, infelizmente, muito frequente, sobretudo sobre as mulheres. Um estudo da Agência dos Direitos Fundamentais da UE e do Eurostat mostra que entre 33% e 40% das mulheres já foram assediadas sexualmente no trabalho, sendo mais frequente para as jovens mulheres. Em Portugal estima-se cerca de metade das trabalhadoras.

Entre “piadas”, mais ou menos indecentes, mais ou menos explícitas, e olhares inadequados, falamos num comportamento que humilha e pode intimidar, constituindo uma violação dos direitos à segurança e à dignidade no trabalho.

Contudo, o assédio sexual em contexto laboral é ainda mais grave, sobretudo quando exercido por um(a) superior hierárquico(a) a um(a) trabalhador(a) subordinado(a). Porque se trata também de um exercício de poder, de domínio, de um ascendente que se aproveita de um temor reverencial, quase inato em qualquer trabalhador(a).

Convoquei o filme Revelação, em que a vítima calhou ser um homem (a regra é a vítima ser mulher), pelo seu sucesso dos anos 90 e por servir de exemplo para o problema da prova. Tom – e peço desculpa pelo spoiler a quem nunca viu o filme – conseguiu provar que não tinha violado a chefe, mas, pelo contrário, que tinha sido ela a assediar. Mas foi graças a um telefonema, que ficou gravado na caixa de mensagens de voz, porque, momentos antes, Tom não tinha chegado a desligar uma chamada, ficando gravadas as palavras de Meredith a constrangê-lo e demonstrado quem tinha, efetivamente, assediado.

No entanto, na larga maioria dos casos de assédio em contexto laboral, não existem provas além das declarações da vítima, que é colocada na trágica posição do “ele disse”, “ela disse”, ou, na gíria portuguesa, “a palavra dela contra a dele”.

Acresce que quase ninguém, dentre colegas de trabalho, quer ser testemunha, apesar de ter assistido ou de ter conhecimento. O medo condiciona a disponibilidade para dar a cara, o medo de retaliação, de represálias, medo de ser, ela própria, vítima ou alvo do assediador. E permite acusações de difamação ou falsas denúncias, tornando-se a vítima culpada, numa revitimização demolidora.

É, portanto, muito importante para as vítimas de assédio laboral que seja recolhida prova, como guardar emails (no email pessoal, não o profissional), mensagens, colocar por escrito (email, por exemplo) o que foi dito, mesmo que momentos antes, para obrigar o assediador a confirmar ou a repetir, por escrito, o que disse antes. E registar, numa espécie de diário, cada episódio de assédio, com datas, frases, local exato, outras pessoas presentes, etc. Porque o assédio laboral consiste numa conduta persistente e prolongada no tempo.

Mas o assédio em contexto laboral não assume apenas cariz sexual, mas também moral, ou psicológico – o chamado “mobbing”. Falamos de coação ou pressão sobre um trabalhador, seja dando ordens impossíveis de cumprir, ou pelo esvaziamento de funções e de trabalho, seja numa estratégia de bullying, designadamente como meio para que a pessoa desista, “fuja” e se demita, ou, até, apenas por uma personalidade de imposição, de desrespeito e discriminatória.

Existem situações de verdadeiro terror psicológico e/ou emocional, resultando em depressão, burnout e outras consequências na saúde da pessoa.

Os estudos e as estimativas apontam para um elevado número de trabalhadores que sejam ou tenham sido, nalgum momento, alvo de assédio laboral (cerca de um terço), o que, a confirmar-se, indicia uma prática quase generalizada, ou pelo menos frequente.

Neste contexto, a legislação, nacional e europeia, tem evoluído em matéria de proteção dos trabalhadores vítimas, designadamente na obrigatoriedade para a larga maioria das empresas de terem códigos de conduta em matéria de assédio e um canal de denúncias, onde qualquer trabalhador vítima poderá denunciar, até anonimamente, um caso de assédio (sexual ou moral).

Também os tribunais, apesar da exigência de uma conduta efetiva e continuada no tempo (um só “incidente” não será relevado como assédio laboral), já consideraram que poderá, em última análise, ser o assédio laboral qualificado como um crime de perseguição (Acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra, de 12.04.2023, Proc. 669/18.0T9GRD.C1, disponível em dgsi.pt), tendo em conta um contexto de perseguição e violência psicológica e os danos por ela causados.

Uma coisa é certa, além do dever de uma conduta apropriada e digna, é preciso que as vítimas percam o medo de denunciar e quem assiste perca o medo de testemunhar.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Palavras-chave:

A segunda volta das eleições presidenciais tem características próprias. Tenho a memória bem viva da escolha de há 40 anos, onde tive um empenhamento ativo. O tempo mudou, mas é a construção da democracia que está em causa. Não há vitórias antecipadas e os resultados não serão indiferentes.

Neste momento, o desafio fundamental é o da mobilização para que todos votem em consciência. Não se pense que não vale a pena ir votar porque as tendências estão definidas. Quem o fizer desvaloriza ilegitimamente o sentido dos resultados. Não será, por exemplo, a mesma coisa um dos candidatos ganhar uma legitimidade acrescida em relação aos votos do partido do governo. O equilíbrio das legitimidades seria gravemente afetado. Nestes termos, votar em consciência significa que a participação democrática deve oferecer um quadro fiel do eleitorado. É um erro pensar que a lógica de lavar as mãos como Pilatos não tem consequências. 

Veja-se a lógica assimétrica dos argumentos de campanha. O discurso radical e cego de dividir o País entre maus e bons ou de dizer que é negativa a herança de 50 anos, como já se ouviu, erigindo uma raiz imaginária como fonte de todos os pecados, não apenas atinge injustamente todo o povo português como suscita respostas destemperadas, fazendo da amálgama interpretativa um fator de confusão com recusa do voto em consciência. Um debate civilizado, o que quer que isso signifique, tem de ser ponderado, com recusa da lama e da lógica da fábula do lobo e do cordeiro. Um argumento cego mistura a razão e a irracionalidade, a serenidade e a violência.

Perceba-se que a democracia é o pior dos regimes à exceção de todos os outros. Eis por que razão a sociedade não pode dividir-se entre a virtude e o vício, porque ambos estão em toda a parte. Não é preciso ir à História antiga e moderna para tirar lições neste domínio. O que é uma Constituição senão uma lei fundamental que a todos organiza e orienta, dando espaço ao Estado e à sociedade civil com respeito dos direitos, liberdades e garantias?  Não se pense, por isso, que um messias ou que um taumaturgo tem poderes mágicos para tornar a sociedade perfeita. Os cesarismos sabe-se como começam, como exceção, e não se sabe onde acabam, como regra. Assim, os argumentos plausíveis, racionais e legítimos dizem-nos que é a democracia que deve funcionar formada por cidadãos livres, iguais e responsáveis – com um Presidente da República que seja um moderador ativo, dentro dos seus poderes, exercendo uma magistratura de influência legitima. 

E não se usem argumentos confessionais e não confessionais, nem se acenem com fantasmas grotescos que apelam à confusão, ao ódio e à violência – lembre-se, por exemplo, como o Concílio Vaticano II pregou a liberdade de consciência e religiosa, a importância da dimensão social e o dever de acolhimento, ao invés da intolerância e do esquecimento do respeito mútuo. O que está em causa neste momento é a consolidação da democracia. Todos têm lugar na vida democrática, cabendo-lhes o dever de salvaguardar uma sã convivência e participação que permitam a defesa do bem comum. 

Num tempo de incerteza, com vozes a clamarem por uma ordem que se torna desordem estabelecida, é o momento de votar em consciência e de combater o abstencionismo que só favorecerá os caminhos ínvios. E penso nos mais jovens. Compreenda-se o desejo de mudança, mas entenda-se que há um compromisso que tem de ser preservado: a coesão social, a confiança nas instituições, a necessidade de se ouvir mais a sociedade, o mercado tanto quanto possível, o Estado democrático tanto quanto necessário, a ligação efetiva e necessária entre Educação, Cultura e Ciência. 

Não nos iludamos, só uma cidadania responsável e participada pode dar lugar à liberdade e ao progresso. A coragem está em não desistir nem ser indiferente. A abstenção dará voz a quem se deixa orientar por gestos perigosos que podem abrir caminho à aventura da rebelião das massas.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.